O isolamento é a morte da revolução

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"O destino da revolução na Rússia dependia totalmente dos acontecimentos internacionais. O que demonstra a visão política dos bolcheviques, sua firmeza de princípios e sua ampla perspectiva é que haviam baseado toda sua política na revolução proletária mundial[1].

Em conseqüência, desde 1914, quando a Primeira Guerra mundial abriu o período de decadência do capitalismo, os bolcheviques estiveram na vanguarda dos revolucionários, ao assinalar que a alternativa às guerras mundiais só podia ser a revolução mundial do proletariado. Com essa orientação firmemente internacionalista, Lênin e os bolcheviques vêem na revolução Russa: "... só a primeira etapa das revoluções proletárias que inevitavelmente surgirão como conseqüência da guerra". Para o proletariado russo, a sorte da revolução dependia em primeiro lugar das insurreições operárias em outros países, principalmente na Europa.

A revolução na Rússia lutou com todas suas forças para estender-se a outros países

A Revolução russa não se limitou a confiar passivamente seu destino ao surgimento da revolução proletária em outros países, mas apesar das imensas dificuldades que enfrentava na própria Rússia, tomou continuamente iniciativas para estender a revolução. De fato o Estado que surge da revolução concebe a si mesmo como o primeiro passo até a "República internacional dos sovietes", delimitado não pelas fronteiras artificiais das nações capitalistas, mas pelas fronteiras de classe [2]. Por exemplo, uma propaganda sistemática foi levada a cabo até os prisioneiros de guerra incitando-lhes a se unirem à revolução internacional, e quem o desejasse tinha a possibilidade de ser cidadão russo. Como conseqüência dessa propaganda, se constituiu a Organização social democrata de prisioneiros de guerra na Rússia, que chamava os trabalhadores alemães, austríacos, turcos..., à insurreição para por fim a guerra, e estender a Revolução russa.

Porém a chave da extensão da revolução estava na Alemanha, e a revolução russa canalizou toda sua energia em direção dos trabalhadores alemães. Desde que pôde instalar-se uma embaixada em Berlim (abril de 1918), esta se transformou em uma espécie de quartel general da revolução na Alemanha. O embaixador russo, Joffe, comprava informação secreta de funcionários alemães, e as passava aos revolucionários alemães para que desmascarassem a política imperialista do Governo, comprou igualmente armas para os revolucionários, imprimia na própria embaixada toneladas de propaganda revolucionária, e todas as noites, os revolucionários alemães se dirigiam discretamente a embaixada para discutir os preparativos da insurreição.

As prioridades da revolução mundial fizeram com que os trabalhadores russos esfomeados ) sacrificassem de suas próprias rações três trens carregados de trigo para ajudar os operários alemães.

Cabe saber como viveram na Rússia os primeiros momentos da revolução na Alemanha. Quando esta estourou, em uma impressionante concentração de trabalhadores ante o Kremlin, "dezenas de milhares de trabalhadores explodiram em aplausos arrebatados. Nunca tinha visto uma coisa como essa. Até bem iniciada a tarde, operários e soldados do Exército vermelho desfilaram. A revolução mundial havia chegado. A massa do povo ouvia o duro eco de seus passos. Nosso isolamento havia terminado" [3].

Como contribuição a essa revolução mundial em marcha, ainda que desgraçadamente com atraso, em março de 1919 teve lugar em Moscou o primeiro congresso da Internacional comunista, que concebia a si mesma nestes termos:

"Nossa tarefa é generalizar a experiência revolucionária da classe operária, depurar o movimento de misturas impuras de oportunismo e social patriotismo, unir as forças de todos os partidos verdadeiramente revolucionários do proletariado mundial e desse modo, facilitar e acelerar a vitória da Revolução comunista no mundo inteiro[4].

No entanto o proletariado foi massacrado em Berlim, Viena, Budapeste, Munique, e a Internacional comunista começou a fazer concessões ao parlamentarismo, ao sindicalismo, a libertação nacional. Do mesmo modo, a extensão da revolução, se confia então à "guerra revolucionária", que os mesmos bolcheviques, como vimos mais adiante, haviam recusado quando o tratado de Brest-Litovsk em 1918 [5]. Em dezembro de 1920, nesse caminho de degeneração, o Executivo ampliado da IC lança a nefasta consigna de "Frente única", ante a convicção de que a revolução européia se afastava.

A lógica "fatalista" tão própria da filosofia burguesa considera que "uma coisa é... o que termina por ser". Assim a Internacional comunista, como tantos outros titânicos esforços dos trabalhadores, e dos revolucionários, nos são apresentados, já desde suas origens, como o plano preconcebido pelos "maquiavélicos" bolcheviques para construir "um instrumento de defesa do Estado capitalista russo". Porém como dizíamos, essa é a lógica da burguesia. Para o proletariado, entretanto, a degeneração da Revolução russa, e da própria Internacional comunista, são o resultado de uma derrota da classe operária, de uma luta encarniçada contra a reação mais brutal por parte do capitalismo mundial. Se, segundo o que nos explica hoje a burguesia, a revolução russa só podia passar a ser o que veio a ser, porque então todos os capitalistas do mundo se empenharam em afogá-la?

O cerco capitalista à Revolução russa

Entre 1917 e 1923, até que fracassa a tentativa revolucionária do proletariado mundial, todos os capitalistas tinham se reunido em uma cruzada internacional sob a consigna: Abaixo o bolchevismo! Nessa cruzada aparecem agrupados, desde o imperialismo alemão aos generais tzaristas, e as "democracias" ocidentais da Entente, que poucos meses antes estavam se massacrando mutuamente na primeira carnificina imperialista mundial. Essa é outra lição essencial da revolução de Outubro: quando a insurreição operária ameaça a existência do próprio capitalismo, os exploradores deixam de lado suas divergências para esmagar a revolução.

O imperialismo alemão

A primeira barreira que sofre a extensão da revolução russa é o cerco dos exércitos do Kaiser. É certo que a revolução russa, como o conjunto da onda revolucionária, surgiu como resposta a Primeira Guerra mundial; também é verdade que essa guerra mundial criou "as condições mais difíceis e anormais", como dizia Rosa Luxemburgo, para o desenvolvimento e a extensão da revolução.

A paz era uma necessidade imperiosa, e como tal figurava em primeiro lugar das prioridades da revolução na Rússia. Em 19 de novembro de 1917, começaram as conversações de paz em Brest-Litovsk, que eram "retransmitidas" por rádio todas as noites pelos delegados soviéticos, não só para os próprios trabalhadores russos, mas também para os prisioneiros de guerra, e em definitivo para os trabalhadores do mundo inteiro. Ao fim e ao cabo haviam ido a Brest-Litovsk sem nenhuma confiança nas intenções de "paz" do imperialismo alemão. Trotski fez a declaração: "Não ocultamos a ninguém que não consideramos capazes de uma paz democrática aos atuais governos capitalistas; só a luta revolucionária das massas trabalhadoras contra seus Governos pode trazer a Europa uma paz semelhante, e sua plena realização não estará assegurada mais que por uma revolução proletária vitoriosa em todos os países capitalistas[6].

Em inícios de 1918 começam a chegar notícias das greves e motins na Alemanha, Áustria, Hungria [7],... o que permitiu os bolcheviques dilatar as negociações, porém finalmente essas revoltas são esmagadas; isso incita Lênin, de novo em minoria dentro do partido bolchevique, a defender a necessidade de assinar quanto antes o tratado de paz. A extensão da revolução, a causa pelo que lutam bravamente, não pode ser confiada à "guerra revolucionária", que defendem os "comunistas de esquerda" [8] mas só pode ser baseada sobre a maturação da revolução na Alemanha: "É admissível por completo que com tais premissas, não só seria "conveniente", mas absolutamente obrigatório aceitar a possibilidade da derrota e da perda do Poder soviético. No entanto está claro que essas premissas não existem. A revolução alemã amadurece, porém é evidente que não tem chegado ainda a seu estouro, que não tem chegado ainda a guerra civil na Alemanha. É evidente que nós não ajudaríamos, senão que obstaculizaríamos o processo de maturação da revolução na Alemanha se "aceitássemos a possibilidade da perda do poder soviético". Com isso ajudaríamos a reação alemã, lhe faríamos o jogo, dificultaríamos o movimento socialista na Alemanha, afastaríamos do movimento socialista grandes massas de proletários e semi-proletários da Alemanha que não têm se incorporado ainda ao socialismo e que se veriam atemorizados pela derrota da Rússia soviética, da mesma maneira que a derrota da Comuna em 1871 amedrontou os operários ingleses[9].

Assim se expressa o dilema que se vive em um bastião onde o proletariado tomou o poder, porém que momentaneamente está isolado, que não tem conseguido estender-se com insurreições triunfantes em outros países: Ceder o bastião ou negociar, e por tanto submeter-se ante uma força militarmente muito superior, para tratar de obter um respiro, e mantendo o bastião revolucionário seguir ajudando a revolução mundial? Rosa Luxemburgo, quem por certo em um primeiro momento não esteve de acordo com as negociações de Brest-Litovsk, resume, no entanto, com muita clareza, como o único que pode desbloquear essa contradição num sentido favorável à revolução é a luta do proletariado alemão: "Todo o cálculo da batalha empenhado pelos russos para a paz, se assentava em efeito sobre esta hipótese silenciosa: que a revolução na Rússia devia ser o sinal do levantamento revolucionário do proletariado no Ocidente (...). Nesse caso somente, mas também indubitavelmente, a revolução russa havia sido o prelúdio da paz generalizada. Até agora nada disso aconteceu Fora de alguns valorosos esforços do proletariado italiano (greve geral de 22 de Agosto em Turim) os proletários de todos os países faltaram aos compromissos da revolução russa. E no entanto, a política de classe do proletariado internacional, por natureza e por essência, só pode ser realizada internacionalmente..." [10].

Finalmente o Alto comando alemão retomou surpreendentemente, em 18 de Fevereiro, as operações militares ("o salto dessa fera é muito rápido" havia advertido Lênin) e em apenas uma semana estava às portas de Petrogrado e, finalmente, o Governo russo teve de aceitar uma paz ainda em piores condições: na primavera de 1918, os exércitos alemães ocupavam as antigas províncias bálticas, a maior parte de Bielorrússia, toda Ucrânia, o norte do Cáucaso, e, posteriormente descumprindo os próprios acordos de Brest, Criméia e Transcaucásia (exceto Baku e o Turquistão).

Em continuidade com o que defendeu a Esquerda comunista italiana [11], não pensamos que a paz de Brest-Litovsk representou um passo atrás da revolução, mas que vinha imposta por essa contradição que antes assinalamos entre a manutenção do bastião proletário e a incapacidade momentânea da extensão da revolução. A solução para essa contradição não está na mesa de negociações, nem na frente militar, mas na resposta do conjunto do proletariado mundial. Precisamente, quando os capitalistas conseguiram derrotar a onda revolucionária, o Governo russo aceitou a "política exterior" convencional dos Estados capitalistas e assinou os acordos de Rapallo em abril de 1922, que nem por sua forma (acordos secretos), nem evidentemente por seu conteúdo (apoio militar do exército russo ao Governo alemão) não tinham nada a ver com Brest-Litovsk, nem com a política revolucionária do proletariado. Quando a IC, em pleno processo de degeneração, chama os trabalhadores alemães a uma reação desesperada em Março de 1923 (a chamada "ação de Março"), as armas de que se utilizam as tropas governamentais alemãs para massacrar os trabalhadores, lhes foram vendidas pelo Governo russo.

O assédio contínuo das "democracias" ocidentais

Os aliados da Entente, as "democracias avançadas do Ocidente", não economizaram esforços para afogar a revolução russa. Na Ucrânia, na Finlândia, nos países bálticos, na Bessarábia, Grã-Bretanha e França instalaram governos que apoiaram os exércitos brancos contra-revolucionários. Não contentes com isto, decidiram, além disso, intervir diretamente na Rússia: em 3 de Abril desembarcavam tropas japonesas em Vladivostok. Posteriormente chegaram destacamentos franceses, ingleses e americanos:

"Desde o começo da revolução de Outubro, as potências da Entente têm se colocado do lado dos partidos e governos contra-revolucionários da Rússia. Com a ajuda dos contra-revolucionários burgueses anexaram a Sibéria, Ural, os limites da Rússia Européia, a Cáucaso e o Turquistão. Roubam dessas comarcas as matérias primas (madeira, petróleo, magnésio, etc.). Com a ajuda das bandas tchecoslovacas a seu serviço, tem roubado as reservas de ouro da Rússia sob a direção do diplomático inglês Lockhart, espiões ingleses e franceses têm detonado pontes e destruído ferrovias e tentaram obstaculizar o abastecimento de mantimentos. A Entente tem sustentado, com fundos, armas, e ajuda militar, os generais reacionários Denikin, Koltchak, Krasnov, que tem fuzilado e enforcado milhares de operários e camponeses em Rostov, Yusovka, Novorossijsk, Omsk..." [12].

Em inícios de 1919, quer dizer quando eclode a revolução na Alemanha, a Rússia está completamente isolada do exterior, e enfrenta um dos momentos de maior atividade tanto dos exércitos brancos, como das tropas das "democracias ocidentais". Os bolcheviques proclamam de novo, ante os soldados enviados pelos capitalistas para esmagar a revolução, a necessidade do internacionalismo proletário: "Não vais lutar contra inimigos (dizia uma folha distribuída entre as tropas inglesas e americanas em Arkángel), mas contra trabalhadores como vós; e nós os questionamos: Vais nos esmagar?... Sedes leais a vossa classe e se negue a fazer o trabalho sujo de vossos amos..." [13].

E de novo os chamamentos dos bolcheviques (se editam jornais como The Call em inglês - chamamento - ou La Lanterne em francês - A lanterna), voltam a fazer efeito nas tropas enviadas a combater a revolução: "Em 1º de Março de 1919, estouram motins nas tropas francesas que tinham sido mandadas para marchar para o front. Antes, uma companhia de infantaria britânica havia se negado como um só homem a voltar ao seu posto no front, e pouco depois o fez uma companhia americana[14]. Em Abril de 1919, as tropas e a frota francesas têm de ser retiradas, pois na França cresce a indignação dos trabalhadores ante o fuzilamento de Jeanne Labourbe (uma militante comunista que fazia propaganda a favor da confraternização entre os soldados franceses e os russos). Do mesmo modo, as tropas inglesas deverão ser repatriadas, pois na Inglaterra, na Itália, etc., se produzem manifestações operárias contra o envio de tropas ou armamentos aos exércitos contra-revolucionários. Por isso as "democracias" ocidentais se viram obrigadas a mudar de tática, e utilizar, no assédio à revolução russa, as tropas das nações que elas mesmas haviam contribuído para criar sobre as ruínas do antigo império russo, como um "cordão de isolamento" contra a extensão da revolução.

Em Abril de 1919, tropas polacas ocuparam uma parte da Bielorrússia e Lituânia. Em abril de 1920, ocupam Kiev na Ucrânia, e finalmente em maio-junho de 1920, apoiaram o general branco Denikin e tomaram o controle de quase toda Ucrânia. Igualmente, Enver Pachá, líder da revolução "antifeudal" dos jovens turcos, acabou encabeçando uma revolta anti-soviética no Turquistão, em Outubro de 1921.

A reação interior

Depois da insurreição de outubro e a tomada do poder em toda Rússia, os restos da burguesia, do exército, as castas militares reacionárias (cossacos, tekineses...) começam imediatamente a reagrupar suas forças, atrás da bandeira do Governo provisório (a mesma curiosamente que hoje, com Yeltsin, ondula no Kremlin) formando-se os primeiros exércitos "brancos" ao comando de Kaledin, chefe dos cossacos do Dom.

O imenso caos e a penúria que atravessava a isolada Rússia, a "auto-desmobilização" dos restos do exército herdado do tzarismo, a fraqueza das forças armadas revolucionárias, porém, sobretudo devido à ação do imperialismo alemão e dos imperialismos ocidentais com ajuda dos exércitos brancos, inverteu progressivamente a relação de forças na guerra civil. Em meados de 1918, o território sob o domínio dos Sovietes se reduziu ao que na época feudal era o principal da Moscóvia, e a revolução tem que fazer frente a revolta da "legião tcheca" e ao Governo "antibolchevique" de Samara [15], que cortavam a necessária comunicação com a Sibéria. A estes, acabou somando-se logo os cossacos de Krasnov (o general derrotado em Púlkovo nos primeiros dias da insurreição, e que havia sido detido e posteriormente liberado pelos bolcheviques), o exército de Denikin no Sul, Kaledin no Dom, Kolchak no Leste, Yudenitch no Norte... Em resumo uma sangrenta orgia de terror, de matanças, assassinatos e atrocidades de todo tipo, aplaudida pelos "democratas" e bendita pelos "socialistas" que na Alemanha, Áustria, Hungria..., esmagavam as insurreições operárias.

Os historiadores burgueses apresentam essas brutalidades da guerra civil, "como em todas as guerras", fruto do "selvagerismo" dos homens. Porém a atroz guerra civil, que sacudiu a Rússia durante três anos, que custou junto às enfermidades e a fome causada pelo bloqueio econômico imposto a população na Rússia, sete milhões de mortos, foi uma imposição do capitalismo mundial.

Junto aos exércitos ocidentais, junto às "bandas brancas", operavam ao mesmo tempo contra a revolução a sabotagem e as conspirações contra-revolucionárias da burguesia e a pequena-burguesia. Em julho de 1918, Savinkov [16] organizou com fundos disponibilizados pelo embaixador francês Noulens, um motim em Yaroslav onde se sustentaram duas semanas de autêntico terror e vingança contra tudo o que cheirava proletário, revolucionário, bolchevique. Também em julho, apenas alguns dias depois do desembarque franco-britânico em Murmansk, os socialistas revolucionários de esquerda organizaram uma tentativa de golpe de Estado, depois de assassinar o embaixador alemão, conde Mirbach, com objetivo de provocar uma retomada imediata das hostilidades com a Alemanha. Lênin o definiu como "outro monstruoso golpe do pequeno-burguês". Só lhe faltava à revolução nesse momento, uma guerra aberta com a Alemanha!

A revolução se debatia entre a vida e a morte. Sobreviver, à espera da revolução na Europa, exigia uma infinidade de sacrifícios, no terreno econômico como veremos mais adiante, porém também no terreno político. Não entraremos neste artigo, na análise, por exemplo, da questão do aparato repressivo ou do exército regular [17], sobre o que a revolução russa proporciona um sem fim de lições. Interessa-nos, não obstante destacar que a passagem da necessária violência revolucionária ao terror, assim como a substituição das milícias operárias por um exército hierarquizado, cada vez mais autônomo dos Conselhos operários, são em grande parte conseqüências do isolamento da revolução, da cada vez mais adversa correlação de forças entre burguesia e proletariado mundiais, que é no final das contas o que determina o curso da revolução que tem "triunfado" em um só país.

Entre uma Tcheca que no momento de sua formação em Novembro de 1917, conta com apenas 120 homens e que não dispõe nem de carro para assumir seu papel e o monstruoso aparato policial do GPU, utilizado precisamente por Stalin contra os próprios bolcheviques, não há uma "evolução lógica", sem uma degeneração resultado da derrota da revolução. Do mesmo modo, entre a "guarda vermelha" que por mandato dos Sovietes controla as unidades militares; e um exército regular onde se reinstauram o recrutamento obrigatório (Abril de 1919), a disciplina de quartel, a saudação militar, e que em Agosto de 1920 já há 315 000 "spetsys" militares ("especialistas" procedentes do antigo exército tzarista) não há uma continuidade prevista de antemão pelos "maquiavélicos" bolcheviques, mas o massacrante peso das exigências da luta entre um bastião proletário que necessita o ar da revolução internacional para sobreviver, e uma feroz contra-revolução mundial, que cada vez foi mais potente, porque cada vez amputava, com derrotas, mais partes do corpo do proletariado mundial.

A asfixia econômica

Nas condições do isolamento da revolução, do assédio permanente dos capitalistas, da sabotagem interior, e independentemente das ilusões dos bolcheviques sobre a possibilidade de introduzir uma lógica distinta à economia, a verdade é que como o próprio Lênin reconhecia, a economia na Rússia de 1918-1921, era a de uma "fortaleza sitiada", um bastião proletário, que tratava de agüentar, nas piores circunstâncias, a espera da extensão da revolução [18].

A terrível penúria econômica que padeceu a revolução na Rússia, não é a conseqüência da miséria que seria o resultado do socialismo, mas da impossibilidade de romper com a miséria quando a revolução proletária fica isolada. A diferença é sem dúvida substancial: enquanto que da primeira tese, os capitalistas esperam que os operários tirem a lição de que "é melhor não fazer a revolução e destruir o capitalismo, pois mal ou bem este sistema nos permite sobreviver", da segunda se extrai uma lição fundamental da luta operária, desde as menores greves nas fábricas até as revoluções que ocupam um país inteiro: "... se não estendermos as lutas, ficarmos isolados, estaremos derrotados".

A revolução operária na Rússia surge frente à Primeira Guerra mundial e, portanto, herda também desta o caos econômico, os racionamentos, a subordinação da produção às necessidades da guerra. Isolada, deverá sofrer, além disso, os estragos da guerra civil, e a intervenção militar das "democracias" ocidentais. Estas que mostravam uma máscara "humanitária" em Versalhes, sob o lema "viver e deixar viver" não duvidaram, no entanto em implementar um drástico bloqueio econômico que se estendeu desde março de 1918, até começos de 1920 (poucos meses antes da derrota definitiva do último "exército branco" de Wrangel) e que impedia inclusive a chegada à Rússia dos envios solidários que os proletários de outros países faziam a seus irmãos de classe, na Rússia.

Assim, a população se viu privada, por exemplo, de combustível. O frio semeava a Rússia de cadáveres. Como conseqüência do cerco estabelecido pelos capitalistas, o carvão da Ucrânia se manteve inacessível até 1920 e o petróleo de Baku e o do Cáucaso esteve em mãos inglesas desde o verão de 1918 até finais de 1919. O total de combustível que chegava naquele momento às cidades russas, não supria nem sequer 10% dos fornecimentos normais antes da Primeira Guerra mundial.

Nas cidades, se passava uma fome atroz. Desde a guerra imperialista, o açúcar e o pão se encontravam racionados. Com a guerra civil, o bloqueio econômico, e a sabotagem dos camponeses que escondiam grande parte da colheita, para depois vendê-la no mercado negro, esse racionamento alcançou níveis inumanos. Em Agosto de 1918, quando já se haviam esgotado por completo as existências de víveres nos armazéns das cidades, se decidiu diferenciar as rações:

  • os operários da indústria pesada recebiam a ração de primeira categoria, que proporcionava aproximadamente de 1200 a 1900 calorias/dia, ou seja, a quarta parte de suas necessidades reais. Este tipo de ração se fez logo extensiva, com o transcurso da guerra civil, aos familiares dos alistados no Exército vermelho.
  • a ração inferior representava a quarta parte da anterior, e era a que se proporcionava aos burgueses. O resto dos trabalhadores obtinha uma ração "média", três vezes maior que a inferior.

Em Outubro de 1919, quando o general branco Yudenitch chegou às portas de Petrogrado, Trotski descreve os voluntários que tinham que encarregar-se de travar a marcha dos guardas brancos, como um exército de espectros: "Por aquela época, os operários de Petrogrado tinham um aspecto lamentável, com suas caras pardas como a terra por falta de alimento, com seus trajes que se lhes caiam de rotos, com suas botas furadas, que muitas vezes nem sequer fechavam[19].

Em janeiro de 1921, mesmo depois de acabada a guerra civil, a ração de pão preto é de 800 gramas para os trabalhadores das empresas a ritmo contínuo, e de 600 gramas para diversos trabalhadores de choque; e se rebaixa a 200 gramas para os portadores da "carta B" (desempregados). O mesmo pode-se dizer do arenque, que outras vezes havia ajudado a salvar a situação e que agora faltava por completo. As batatas chegavam quase sempre congeladas às cidades, pois o estado das vias férreas e das locomotivas era lamentável (20% de seu potencial de antes da guerra). No começo do verão de 1921, uma fome atroz sacudiu as províncias orientais, assim como a região de Volga. Existiam nesse momento segundo as estatísticas reconhecidas pelo próprio Congresso dos Sovietes entre 22 e 27 milhões de necessitados, que padeciam fome, frio, epidemias de tifo [20], difteria, gripe...

Aos escassos fornecimentos, se unia a especulação. Para conseguir algo com o que completar as rações oficiais, havia que recorrer ao mercado negro: a "sujarevka" (nome tomado da Praça Sujarevski de Moscou, onde se realizava semi-clandestinamente este tipo de transações). A metade do grão que chega às cidades vem do Comissariado de Abastecimento, a outra metade se consegue no mercado negro (a um preço 10 vezes superior ao oficialmente fixado). Existe outra forma de sobreviver: o contrabando, o transporte ilegal de produtos manufaturados ao campo, para trocá-los ali com os camponeses por víveres. Logo, a tipologia da revolução embalou um novo personagem: o "homem do saco" que trazia para aldeias sal, fósforo, às vezes um par de botas ou um pouco de petróleo em uma garrafa, para trocá-los por uns kilos de batatas e um pouco de farinha. Em Setembro de 1918, o Governo reconheceu oficialmente a existência do contrabando, limitando-o unicamente a 1,5 puds (aproximadamente 25 kilos) de trigo. Desde então o homem do saco passou a denominar-se o "homem do pud e meio", sem cessar de proliferar. Quando nas fábricas começou a pagar com os próprios produtos que os operários fabricavam, se ampliou igualmente a prática de que os próprios trabalhadores se transformavam em "homens do saco", vendendo para a população, correias, ferramentas...

Quanto às condições de trabalho, a tremenda miséria, o isolamento da revolução e a guerra civil, as agravaram brutalmente, tornando vãs as reivindicações operárias e inclusive as medidas que o próprio Governo adotava para satisfazê-las: "Quatro dias depois da revolução, se publicou um decreto que estabelecia a jornada de 8 horas, e a semanal de 48 horas, proibindo o trabalho aos menores de 14 anos e limitando o das mulheres. Um ano depois o Narkomtrud (comissariado do povo para o Trabalho) teve que voltar a recordar a obrigatoriedade deste decreto. Estas proibições tiveram pouco efeito, no período de extrema escassez de mão-de-obra da guerra civil[21].

O próprio Lênin que havia criticado o "taylorismo", ou seja, o trabalho em série, qualificando-o como o "acorrentamento do homem à máquina", cedeu finalmente às exigências de incrementar a produção, instituindo os "sábados comunistas", pelo que os trabalhadores apenas recebiam uma refeição que, além disso, em geral acabavam pagando, para apoiar a revolução. Na confiança ainda de que a revolução proletária podia ser iminente na Europa, defendendo a sobrevivência do bastião proletário, privados, além disso, como veremos mais adiante de seus Sovietes, de suas assembléias operárias, de sua luta de classes contra a exploração capitalista, os setores mais combativos e mais conscientes da classe trabalhadora foram progressivamente se encadeando às formas mais brutais da exploração capitalista vigente na Rússia.

Apesar desses esforços e dessa super-exploração, as fábricas russas produziam cada vez menos, por um lado pela própria perda de produtividade de um proletariado desnutrido, mas também pelo próprio caos da economia russa: ainda em 1923, três anos depois do final da guerra civil, o conjunto da indústria russa, funcionava a 30% da capacidade de 1912. Na pequena indústria, a produtividade do operário era só de 57% da de 1913. Esta pequena indústria, desenvolvida, sobretudo a partir de 1919, era em grande parte rural (de fato sua produção era essencialmente de ferramentas, roupa, móveis..., para o mercado camponês local) e nela os operários trabalhavam em condições muito similares as da agricultura (em número de horas de trabalho em particular). Por conta das difíceis condições de existência nas cidades, grande parte dos trabalhadores imigrou para o campo, e se integrou dentro desta produção em pequena escala. Nas grandes cidades, os operários deixavam as grandes fábricas para trabalhar em pequenas oficinas, onde podiam obter peças para trocar com o campesinato. Em 1920, o número total de assalariados na indústria era de 2 200 000 trabalhadores, dos quais apenas 1 400 000 estavam empregados em estabelecimentos de mais de 30 operários.

Com a entrada em vigor da NEP (Nova política econômica) em 1921 [22], as empresas do Estado, necessitaram fazer frente a concorrência dos capitalistas "privados" da Rússia, ou aos investidores estrangeiros recém-chegados, e como em qualquer economia capitalista, o Estado-patrão necessitava produzir mais e mais barato. Por trás da desmobilização da guerra civil, e a entrada em vigor da NEP, se produziu uma onda de demissões, que, por exemplo, nas ferrovias, alcançou a metade do quadro. O desemprego começou a estender-se com força a partir de 1921. Em 1923 havia na Rússia 1 milhão de desempregados oficialmente recenseados.

A questão camponesa

O campesinato representava na Rússia 80% da população. Na insurreição, o congresso dos Sovietes adaptou o "Decreto sobre a terra", que trata de fazer frente à necessidade de dezenas de milhões de camponeses: cultivar um pedaço de terra para poder alimentar-se, e ao mesmo tempo, eliminar as grandes propriedades agrárias, que não só obrigavam os camponeses a trabalhar em condições arcaicas, mas, além disso, eram o ponto de apoio da contra-revolução. No entanto, as medidas tomadas não contribuíram para formar grandes unidades de exploração, nas que os trabalhadores agrícolas, puderam exercer um mínimo controle operário. Ao contrário, apesar de iniciativas como os "comitês de trabalhadores agrícolas", ou como depois os Koljozi ("granjas coletivas"), ou os Sovjozi ("granjas soviéticas"), chamadas também "fábricas socialistas de grãos", pois sua missão era a de abastecer de cereais o proletariado das cidades, o que se estendeu foi a pequena unidade camponesa, de dimensões ridículas, e que apenas dava para subsistir a própria família do camponês. As explorações agrárias de menos de 5 hectares, que em 1917 representavam 58% do total, alcançaram em 1920, 86% do total da terra cultivável. Por conseqüência estas explorações, dado o exíguo da sua produção, não podiam supor nenhum alívio para a fome nas cidades. As medidas de "requisições obrigatórias" com que os bolcheviques tentaram em um primeiro momento obter os alimentos que se necessitavam para cobrir as necessidades do proletariado e do Exército vermelho se saldaram não só com um fracasso lamentável: enquanto a quantidade do coletado, mas que, além disso, empurrou a grande parte destes camponeses aos exércitos brancos, ou melhor, a bandas armadas, amiúde muito numerosas, que combatiam às vezes aos exércitos brancos e às vezes aos bolcheviques, como foi o caso do anarquista Majno na Ucrânia.

A partir do verão de 1918, o Estado tratou de apoiar-se nos camponeses médios, para obter melhores resultados: no primeiro ano da revolução, o Comissariado de Abastos, havia recolhido apenas 780 mil toneladas de grão; de Agosto de 1918 a Agosto de 1919 conseguiu dois milhões de toneladas. No entanto, o camponês proprietário de uma exploração agrícola "média", não estava disposto a colaborar: "O camponês médio produz mais artigos alimentícios do que necessita, e enquanto tem excedentes de cereais, se converte em um explorador do operário faminto (...) Aqui está nossa missão fundamental, e nisto apóia a contradição fundamental; o camponês, enquanto que trabalhador, de homem que vive de seu próprio trabalho, que tem sofrido a opressão do capitalismo está ao lado do operário; porém o camponês, em sua qualidade de proprietário, do que tem excedentes de cereais, está acostumado a considerá-los como propriedade sua, que pode vender livremente[23].

Tampouco aqui podiam os bolcheviques levar à prática outra política, além da que lhes era imposta pelo curso desfavorável da relação de forças entre a revolução operária e o capitalismo dominante. A solução para esse acúmulo de contradições, não estava nas mãos do Estado russo, nem residia nas relações entre o proletariado e o campesinato na Rússia. A solução, só podia vir do proletariado internacional.

"No IXº Congresso do Partido, em março de 1919, que proclamou a política de conciliar-se com o camponês médio, Lênin tocou num dos pontos dolorosos da agricultura coletiva; se conseguiria ganhar o camponês médio para a sociedade comunista "unicamente... quando facilitemos e melhoremos as condições econômicas de sua vida". Porém aí estava a dificuldade. "Se pudéssemos dar-lhe amanhã 100 000 tratores de primeira classe, dotados de gasolina, fornecer-lhe mecânicos (sabeis muito bem que no momento isto é pura utopia), o camponês médio diria: estou a favor da comuna (ou seja, do comunismo). Porém para fazer isso é necessário primeiro vencer a burguesia internacional, obrigá-la para que nos dê esses tratores". Lênin não seguia o silogismo. Edificar o socialismo na Rússia era impossível sem a agricultura socializada, e socializar a agricultura era impossível sem tratores, e obter tratores era impossível sem uma revolução proletária internacional[24].

A economia dos primeiros anos da revolução na Rússia, não está marcada, nem no período do "comunismo de guerra", nem no da NEP, pelo socialismo, mas pelas asfixiantes condições que o isolamento impõe à revolução.

"Mais ainda nós tínhamos razão ao pensar que se a classe operária européia houvesse conquistado o poder antes, ter-se-ia encarregado do nosso país atrasado - pela economia e a cultura -, e assim nos havia sem dúvida alguma ajudado por meio da técnica e da organização e nos havia permitido, corrigindo e modificando em parte ou totalmente nossos métodos de comunismo de guerra, nos dirigir até uma economia socialista verdadeira[25].

A derrota da onda revolucionária do proletariado mundial levou também à morte o bastião proletário russo. A partir da morte da revolução pôde constituir-se na Rússia, uma nova burguesia: "A burguesia russa se reconstituiu com a degeneração interna da revolução, não a partir da burguesia tzarista, eliminada pelo proletariado em 1917, mas a partir da burocracia parasitária do aparato de Estado, com o que se confundiu cada vez mais, debaixo da direção de Stalin, o Partido bolchevique. Esta burocracia do Partido-Estado a que ao eliminar, em finais dos anos 20, todos os setores suscetíveis de reconstruir uma burguesia privada e aos que se havia aliado para assegurar a gestão da economia (proprietários camponeses, especuladores da NEP) tomou o controle desta economia[26].

O esgotamento dos conselhos operários

Como conseqüência do isolamento da revolução, se produzem não só a fome e as guerras, mas também a progressiva perda do principal capital da revolução: a ação massiva e consciente da classe operária, que tinha se desenvolvido entre fevereiro e outubro de 1917 [27]. Em finais de 1918, o número de operários de Petrogrado era de 50% do que existia em finais de 1916, e no outono de 1920, ao final da guerra civil, a que havia sido berço da revolução havia perdido quase 58% da população total. Moscou, a nova capital, se havia despovoado em 45%, e o conjunto das capitais da província em 33%. A maioria desses trabalhadores emigrou para o campo onde sobreviver era menos difícil.

Mas uma grande parte deles se alistou no Exército vermelho, ou se colocou ao serviço do Estado: "Quando as coisas se tornaram graves no front, nos voltamos ao Comitê central do partido e ao Presidium do comitê central sindical e dessas duas fontes enviamos proletários destacados a frente e ali criaram o Exército vermelho à sua própria imagem e semelhança[28].

Cada vez que o Exército vermelho, composto majoritariamente de camponeses, retrocedia em debandada ou difundiam as deserções, se recrutavam brigadas dos trabalhadores mais decididos e conscientes, para colocá-los em vanguarda das operações militares ou como "barreira de contenção" contra as deserções camponesas. Mas também, cada vez que havia que tomar a responsabilidade de reprimir a sabotagem, de combater o caos dos abastecimentos, os bolcheviques recorriam à célebre consigna de Lênin: "Aqui faz falta energia proletária!". Mas essa energia da classe revolucionária se afastava cada vez mais dos centros onde havia nascido, e onde se havia adquirido a força para se desenvolver e se materializar, os Conselhos Operários e os Sovietes. Esta energia estava colocada ao serviço do Estado, o órgão que passaria a ser o motor da contra-revolução [29]. Como conseqüência disso, se produziu uma progressiva perda de vitalidade desses mesmos Sovietes que Trotski descreveu assim: "Quando a tarefa principal do governo era organizar a resistência ao inimigo e nos era obrigado resistir a todos os ataques, a direção se exercia quase exclusivamente mediante ordens e a ditadura do proletariado revestia, naturalmente, a forma de uma ditadura proletária militar. Então, os amplos órgãos de poder soviético, as assembléias plenárias dos Sovietes quase desapareceram e a direção passou exclusivamente aos Comitês executivos, ou seja, a órgãos limitados, a comitês de três ou cinco pessoas, etc. Com freqüência, sobretudo nas regiões próximas à linha de frente, os órgãos "regulares" do poder soviético, ou seja, os órgãos elegidos pelos trabalhadores, foram substituídos pelos "comitês revolucionários" locais que, no lugar de submeter os problemas a exame das assembléias de massas, os resolviam por própria iniciativa[30].

E essa perda de reflexão e discussão coletivas, se dava não só nas assembléias, nos sovietes locais, mas no conjunto do tecido dos conselhos operários. A partir de 1918, o Congresso soberano dos Sovietes, que devia se reunir, a cada três meses, passou a fazê-lo uma vez ao ano. Inclusive o Comitê central dos Sovietes, em muitas ocasiões não podia levar adiante discussões e decisões coletivas. Quando no VIIº Congresso dos Sovietes (dezembro de 1919), o representante do Bund (Partido comunista judeu) pergunta que tem feito o Comitê executivo central, Trotski lhe responde: "O CEC está no front da batalha!".

Ao final, as decisões e a própria vida política se concentravam nas mãos do partido bolchevique. Kamenev no IXº Congresso do Partido bolchevique assinalava: "Administramos a Rússia, e só podemos fazê-lo através dos comunistas" (o sublinhado é nosso).

Nós estamos de acordo com Rosa Luxemburgo, quem em A Revolução russa (op. cit.) critica: " "Graças à luta aberta e direta pelo poder as massas trabalhadoras acumulam em um tempo brevíssimo uma grande experiência política, e em seu desenvolvimento político sobem rapidamente um degrau atrás do outro". Aqui Trotski se contradiz a si mesmo e a seus próprios camaradas de partido. Justamente porque é assim, ao esmagar a vida pública, secaram a fonte da experiência política e este desenvolvimento ascendente! (...) As tarefas gigantescas que os bolcheviques assumiram com coragem e determinação exigem o mais intenso treinamento político e acumulação de experiências pelas massas!".

Nesse mesmo sentido se expressou a Esquerda comunista italiana, ao fazer um balanço das causas da derrota da Revolução russa: "Mesmo que Marx, Engels, e, sobretudo Lênin houvessem assinalado muitas vezes a necessidade de opor ao Estado seu antídoto proletário, capaz de impedir sua degeneração, a revolução russa, longe de assegurar a manutenção e a vitalidade das organizações de classe do proletariado, as esteriliza ao incorporá-las ao aparato de Estado, devorando assim sua própria substância" (Bilan nº. 28).

Pouco importou que para tratar de preservar o peso político da classe operária, se primara a representação desta no Estado (um delegado para cada 25 mil operários, enquanto que 125 mil camponeses, elegiam também apenas um delegado), já que o problema era a absorção desses trabalhadores nas próprias engrenagens reacionárias do Estado. Finalmente, quando se completou a derrota da revolução proletária na Europa, nem sequer o férreo controle que sobre a sociedade mantinha o Partido Bolchevique, pôde evitar que o capitalismo dominante a nível mundial e, portanto também na própria Rússia, tomasse o controle do Estado, o levasse em uma direção absolutamente oposta à que pretendiam os comunistas: "A máquina escapa das mãos de quem a conduz: pode se dizer que há quem maneja o volante e conduz esta máquina, porém que esta segue uma direção diferente à que se quer, como se estivesse controlada por uma mão secreta, clandestina que só Deus sabe de quem é, pode ser de um especulador ou de um capitalista privado, ou de ambos de uma vez. O fato é que a máquina não vai à direção que quer o que está ao volante, às vezes vai melhor em sentido contrário[31].

"Os bolcheviques temiam que a contra-revolução viesse com os exércitos brancos e outras expressões diretas da burguesia, e defenderam a revolução contra esses perigos. Temiam a volta da propriedade privada através da persistência da pequena produção, e em particular do campesinato. Porém o pior perigo da contra-revolução, não veio nem dos "Kulaks", nem dos operários desgraçadamente massacrados em Kronstadt, nem do "complô branco" que os bolcheviques viam depois desta revolta. Foi sobre o cadáver dos operários alemães massacrados em 1919 que a contra-revolução ganhou, e foi através do aparato burocrático do que se supunha devia ser o "semi-Estado" do proletariado que se expressou mais poderosamente[32].

A saída à situação criada pela insurreição de Outubro de 1917, não estava na Rússia. Como assinalou Rosa Luxemburgo: "Na Rússia somente podia apresentar-se o problema. Não podia resolvê-lo". A chave da evolução da situação estava no proletariado internacional. Na realidade, enquanto se esperava a resposta deste, a onda revolucionária que seguiu à Primeira Guerra mundial, foi sendo esmagada. Deste modo, o curso dos acontecimentos na Rússia, esteve marcado por uma acumulação de contradições, de busca desesperada de soluções, sem poder cortar o "nó cego" de todas elas: a extensão da revolução.

"Em todo caso, a situação fatal em que hoje se encontram os bolcheviques é, igual à maioria de seus erros, uma conseqüência do caráter, pelo momento insolúvel, do problema que confrontaram o proletariado internacional, e na primeira linha o proletariado alemão. Realizar a ditadura do proletariado e a revolução socialista em um só país, cercado por uma brutal dominação reacionária imperialista e assediado pela mais sangrenta das guerras gerais que havia conhecido a história humana, é a quadratura do círculo. Qualquer partido revolucionário estaria condenado a fracassar nesta tarefa e a perecer, por muito que baseie sua política na vontade de vencer e na fé no socialismo internacional, ou na abnegação profunda[33].

A Revolução russa foi a experiência mais importante, a mais rica de ensinamentos da história do movimento operário. As futuras lutas revolucionárias do proletariado não poderão economizar o esforço de assimilar suas múltiplas lições. Porém, sem lugar a dúvidas, a primeira dessas lições é a confirmação do já antigo e nunca tão atual grito de guerra do marxismo: "Proletários de todos os países, uni-vos!" e o convencimento de que esse slogan não é uma "idéia formosa", mas a condição prévia e vital para o triunfo da revolução comunista. O isolamento internacional é a morte da revolução.

[1] Rosa Luxemburgo, A Revolução russa. Tradução nossa.

[2] A primeira constituição soviética de 1918 reconhecia a cidadania "a todos os estrangeiros que residam no território da Federação Soviética com tanto que pertençam a classe operária ou ao campesinato que não explora mão-de-obra".

[3] Radek, citado por E.H. Carr, A Revolução bolchevique. Tradução nossa.

[4] "Manifesto da Internacional comunista aos proletários de todo mundo", em Os Quatro primeiros congressos da Internacional comunista. Tradução nossa.

[5] As sessões do IIº Congresso da IC se celebraram frente um mapa onde se refletiam os avanços do Exército vermelho, em seu contra-ataque sobre a Polônia no verão de 1920. Como é sabido, o único que conseguiu esta incursão militar foi que os proletários polacos fecharam fileiras em volta da sua burguesia, sendo assim derrotado o Exército vermelho às portas de Varsóvia.

[6] Trotski, citado por E.H. Carr, op. cit. Tradução nossa.

[7] Em janeiro de 1918, estourou uma greve de meio milhão de operários em Berlim, que se estendeu a Hamburgo, Kiel, o Rhur, Leipzig..., e se constituíram os primeiros Conselhos operários. Ao mesmo tempo surgiram revoltas operárias em Viena e Budapeste, que inclusive a maioria de jornalistas burgueses (cf. E. H. Carr, op. cit.) diziam que estavam relacionadas com a Revolução russa, e mais concretamente com as negociações de Brest-Litovsk.

[8] Ver na Revista internacional, nºs 8 e 9: "A Esquerda comunista na Rússia".

[9] Lênin, Obras escolhidas. Tradução nossa.

[10] "A responsabilidade histórica", em A revolução russa. Tradução nossa.

[11] Ver em Revista internacional nº8: "A Esquerda comunista na Rússia", e Revista internacional nºs 12 e 13: "Outubro de 1917: início da revolução proletária". Ver também nosso folheto - em francês ou inglês - O período de transição do capitalismo ao socialismo, onde a propósito da experiência russa, examinamos o problema das negociações do bastião proletário com os governos capitalistas.

[12] "Teses do Iº Congresso da IC sobre a situação internacional e a política da Entente", em Os quatro primeiros congressos da Internacional comunista. Tradução nossa.

[13] Citado em E. H. Carr, op. cit. Tradução nossa.

[14] E.H. Carr, op. cit. Tradução nossa.

[15] Este Governo chegou a controlar todo o meio e baixo Volga. Em outubro de 1918, se produziu o levantamento de 400 mil "alemães do Volga" que instituíram nesse território uma "Comuna de operários". A chamada "legião tcheca" era constituída por prisioneiros de guerra tchecoslovacos que foram autorizados pelo Governo russo a abandonar a Rússia por Vladivostok. No caminho 60 mil dos 200 mil com que contava a expedição, se amotinaram, (há que dizer também que cerca de 12 000 soldados desta "legião" engrossaram o Exército vermelho) criando bandas armadas dedicadas ao saque e ao terror.

[16] Este antigo social-revolucionário serviu em setembro de 1917 de intermediário clandestino entre Kerensky e Kornilov. Em janeiro de 1918 organizou um atentado contra Lênin, e logo foi nomeado representante dos "brancos" em Paris, onde evidentemente se acotovelava não só com os serviços secretos dos "aliados", mas com ministros, generais..., que em prêmio ao seu "democrático" trabalho lhe puseram ao comando dos pelotões de sabotadores, os chamados "verdes".

[17] Ver na Revista internacional nº3, "A degeneração da revolução russa"; nos nº 8 e 9, "A Esquerda comunista na Rússia"; nos nºs 12 e 13, "Outubro de 1917: início da revolução proletária".

[18] O socialismo jamais existiu na Rússia, já que exige a vitória em escala mundial do proletariado sobre a burguesia. A política econômica de um bastião proletário isolado não pode senão ser ditada pelo capitalismo dominante em escala mundial. O "socialismo em um único país" não é mais que o tapa-sexo da contra-revolução stalinista, como sempre o tem denunciado os revolucionários. Convidamos o leitor interessado em estudar mais profundamente este tema a consultar a Revista internacional nº3, "a degeneração da Revolução russa", ou o capítulo "A Revolução russa e a corrente conselhista" em nosso folheto Rússia 1917, início da Revolução mundial".

[19] Minha vida. Trotsky Tradução nossa.

[20] As epidemias de tifo foram tão extensas e tão repetidas, que Lênin mesmo susteve: "ou a revolução acaba com os piolhos ou os piolhos acabam com a revolução". Tradução nossa.

[21] E.H. Carr, op. cit. Tradução nossa.

[22] Apesar do que então pensavam muitos dos membros da Esquerda comunista na Rússia, a NEP, não significava uma volta ao capitalismo, pois na Rússia nunca houve uma economia socialista. Tomamos posição frente a esta questão da NEP, na Revista internacional nº. 2: "Resposta a Workers Voice", e nºs 8 e 9: "A Esquerda comunista na Rússia".

[23] Lênin, citado em E.H. Carr, op. cit. Tradução nossa.

[24] E. H. Carr, op. cit. Tradução nossa.

[25] Lênin, "A NEP e a revolução", em Teoria econômica e Economia política na construção do socialismo. Tradução nossa.

[26] De nosso suplemento: Não morreu o comunismo, e sim o seu pior inimigo o stalinismo. Tradução nossa.

[27] Ver artigo na Revista internacional nº. 71.

[28] Trotski, citado em E. H. Carr, op. cit. Tradução nossa.

[29] Temos expressado nossa posição sobre o papel do Estado no período de transição, e as relações dos Conselhos operários com esse Estado, precisamente tirando lições da experiência russa no folheto O período de transição do capitalismo ao socialismo, e na Revista internacional nºs 8, 11, 15, 18. Assim mesmo, sobre nossa crítica a idéia de que o partido toma o poder em nome da classe operária, ver Revista internacional nºs 23 e 34-35.

[30] Trotski, A Teoria da revolução permanente. Tradução nossa.

[31] Lênin, Informe político do Comitê central ao Partido, 1922. Tradução nossa.

[32] Introdução ao folheto da CCI: O período de transição do capitalismo ao socialismo, editado em francês e inglês.

[33] Rosa Luxemburgo: "A tragédia russa". Cartas de Spartacus, nº 11, setembro de 1918.