As jornadas de Julho - O partido faz abortar uma provocação da burguesia

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As Jornadas de Julho de 1917 representam um dos momentos mais importantes, não apenas da revolução russa, mas sim de toda a história do movimento operário. Essencialmente em três dias, de 3 a 5 de Julho, houve uma das maiores confrontações entre burguesia e proletariado, que embora tenha resultado numa derrota da classe operária, abriu o caminho para a tomada do poder quatro meses depois, em outubro de 1917. Em 3 de Julho, os operários e os soldados de Petrogrado, levantaram-se massiva e espontaneamente, reivindicando que todo o poder fosse transferido aos conselhos operários, aos sovietes. Em 4 de Julho, uma manifestação armada de meio milhão de participantes diante da sede da direção do soviete de Petrogrado reclamava que o conselho tomasse o poder, mas voltaram para casa pacificamente à tarde, seguindo as orientações dos bolcheviques.  Em 5 de Julho, tropas contra-revolucionárias se apoderaram da capital da Rússia e começaram a caça aos bolcheviques e a repressão aos operários mais avançados. Mas, ao evitar uma luta prematura pelo poder, o proletariado manteve suas forças revolucionárias intactas.  O resultado é que a classe operária foi capaz de tirar as lições de todos aqueles acontecimentos, e em particular compreender o caráter contra-revolucionário da democracia burguesa e da nova ala esquerda do capital: os mencheviques e os social-revolucionários (eseristas), que tinham traído a causa dos operários e dos camponeses pobres e se tinham passado para a contra-revolução.  Em nenhum outro momento da revolução russa como nestas 72 horas dramáticas tenha sido tão grave o risco de uma derrota decisiva do proletariado, e de que o Partido bolchevique visse dizimadas suas forças. Em nenhum outro momento resultou ser tão crucial a confiança dos batalhões mais avançados do proletariado em seu partido de classe, na vanguarda comunista.

80 anos depois, diante das mentiras da burguesia sobre a "morte do comunismo", e particularmente das suas difamações sobre a Revolução Russa e o bolchevismo, a defesa das verdadeiras lições das Jornadas de Julho, e globalmente da revolução proletária é uma das principais responsabilidades dos revolucionários. Segundo a burguesia, a revolução russa foi uma luta "popular" por uma república parlamentar burguesa, a "forma de governo mais livre do mundo", até que os bolcheviques "inventaram" a bandeira "demagógica" de "todo o poder aos sovietes", e impuseram graças a um "golpe" sua "ditadura bárbara" sobre a grande maioria da população trabalhadora. Entretanto, uma breve olhada sobre os fatos de 1917 é suficiente  para mostrar tão claro como a luz do dia, que os bolcheviques estavam junto à classe operária, e que foi a democracia burguesa a que estava do lado da barbárie, do golpismo, e da ditadura de uma ínfima minoria sobre os trabalhadores.

Uma provocação cínica da burguesia e uma armadilha contra os bolcheviques

As Jornadas de Julho de 1917 foram acima de tudo uma provocação da burguesia com o propósito de decapitar o proletariado esmagando a revolução em Petrogrado, e eliminando o partido bolchevique antes que, globalmente, o processo revolucionário em toda a Rússia estivesse maduro para a tomada do poder pelos operários.

A sublevação revolucionária de fevereiro 1917 que conduziu à substituição do czar por um governo provisório "democrático burguês", e ao estabelecimento dos conselhos operários como o centro proletário de poder rival, foi acima de tudo o produto da luta dos operários contra a guerra imperialista mundial que começou em 1914.  Mas o governo provisório, e os partidos majoritários nos sovietes, os mencheviques e os eseristas, contra a vontade do proletariado, prepararam-se para a continuação da guerra, para a execução do programa imperialista de rapina do capitalismo russo. Desta forma, não só na Rússia, mas também em todos os países da Entente (a coalizão contra a Alemanha), era atribuída uma nova legitimidade pseudo-revolucionária para a guerra, o maior crime da história da humanidade. Entre fevereiro e julho de 1917 foram assassinados ou feridos vários milhões de soldados, incluindo a mais fina flor e o fruto da classe operária internacional, para elucidar a questão sobre qual dos principais gangsteres imperialistas capitalistas dirigiria o mundo.  Embora inicialmente muitos operários russos tenham acreditado nas mentiras dos novos dirigentes, de que era preciso continuar a guerra "para conseguir de uma vez por todas uma paz justa e sem anexações", mentiras que saíam das bocas de "democratas" e "socialistas", por volta de junho de 1917, o proletariado havia retornado à luta contra a carnificina imperialista com energia redobrada. Durante a gigantesca manifestação de 18 de junho em Petrogrado, as bandeiras internacionalistas dos bolcheviques pela primeira vez tornaram-se majoritárias.  No início de julho, a maior e mais sangrenta ofensiva militar russa desde o "triunfo da democracia" terminava em fiasco; o exército alemão havia despedaçado as linhas russas no front em vários pontos. Era o momento mais crítico para o militarismo russo desde o começo da "Grande Guerra". As notícias do fracasso da ofensiva já haviam chegado à capital, avivando as chamas revolucionárias, enquanto ainda não tinham alcançado o resto do gigantesco país. Para enfrentar esta situação desesperadora surgiu a idéia de provocar uma revolta prematura em Petrogrado, para, nesta cidade, esmagar os operários e os bolcheviques, e depois culpá-los do fracasso da ofensiva militar à "punhalada traiçoeira" lançada pelo proletariado da capital aos que se encontravam no front.

A situação objetiva não era entretanto  ainda favorável para levar a cabo este plano. Embora os principais setores operários de Petrogrado antecedessem as orientações dos bolcheviques, os mencheviques e os eseristas ainda tinham uma posição majoritária nos sovietes, e tinham uma posição dominante nas províncias. No conjunto da classe operária, inclusive em Petrogrado, ainda havia fortes ilusões sobre a capacidade dos mencheviques e dos eseristas servirem à causa do proletariado. Apesar da radicalização dos soldados, majoritariamente camponeses, igualmente um número considerável de regimentos importantes ainda eram leais ao governo provisório. As forças da contra-revolução, depois de uma fase de desorganização e desorientação depois da "revolução de Fevereiro", estavam agora no ápice de sua reconstituição. E a burguesia tinha uma carta marcada na manga: documentos e falsos testemunhos que supostamente provariam que Lênin e os bolcheviques eram agentes pagos pelo Kaiser alemão.

Este plano representava, sobretudo uma armadilha para o Partido bolchevique. Se o partido encabeçasse uma insurreição prematura na capital, ficaria desprestigiado diante do proletariado russo, aparecendo como representante de uma política aventureira e irresponsável, e até, para setores atrasados, como apoio ao imperialismo alemão. Mas se deixasse de estar solidário do movimento de massas ficaria perigosamente isolado da classe, deixando os operários largados à própria sorte. A burguesia esperava que qualquer que fosse a decisão do partido, essa o levaria ao fracasso.

A turma de contra-revolucionários (centúrias negras, anti-semitas) organizada pelas "democracias" ocidentais

Eram realmente as forças anti-bolcheviques excelentes democratas e defensores da "liberdade do povo" como pretendia a propaganda burguesa? Eram dirigidas pelos kadetes, o partido da grande indústria e dos grandes latifundiários; pelo comitê de oficiais, que representava ao redor de 100.000 comandados que preparavam um golpe militar; pelo pretendido soviete das tropas contra-revolucionárias cossacas; pela polícia secreta e pela máfia anti-semita das "centúrias negras":

  • "(...) tal é o meio de que surge o ambiente de pogrom, as tentativas de organizar pogrons, os disparos contra os manifestantes, etc."[1]

Mas a provocação de Julho foi um golpe disparado contra a maturação da revolução mundial, não só pela burguesia russa, mas também pela burguesia mundial, representada pelos aliados da Rússia na guerra. Nesta tentativa astuta de afogar em sangue a revolução imatura que ainda estava apenas surgindo, podemos reconhecer as formas das velhas burguesias democráticas: a burguesia francesa, que acumulou uma larga e sangrenta tradição de provocações semelhantes (1791, 1848, 1870), e a burguesia britânica com sua incomparável experiência e inteligência política. De fato, em vista das crescentes dificuldades da burguesia russa para combater de forma eficaz a revolução e manter o esforço de guerra, os aliados ocidentais da Rússia tinham sido a principal força, não só no financiamento do front russo, mas também no que se refere a aconselhar e apoiar a contra-revolução naquele país. O Comitê provisório da Duma estatal (parlamento): "servia de cobertura legal da atividade contra-revolucionária, largamente financiada pelos bancos e pelas embaixadas da Entente."[2]

  • "Petrogrado formigava de organizações secretas e semi-secretas de oficiais altamente apadrinhados e generosamente apoiados. Em Informação confidencial. do menchevique Lieber, quase um mês antes das Jornadas de Julho, percebia-se que os oficiais conspiradores gozavam de entrada franca junto a Buchanan. E, com efeito. não seria plausível que os diplomatas da Entente se preocupassem ao máximo com a instauração o mais ràpidamente possivel de um Poder forte?"[3]

Não foram os bolcheviques, mas sim a burguesia a que se aliou com os governos estrangeiros contra o proletariado russo.

As provocações políticas de uma burguesia sedenta de sangue

No começo de julho, três incidentes forjados pela burguesia foram suficientes para desencadear uma revolta na capital. 

O partido kadete retira seus quatro ministros do governo provisório

Posto que os mencheviques e os eseristas tinham justificado até então seu rechaço à ordem de "todo o poder aos sovietes" pela necessidade de colaborar, fora dos conselhos operários, com os kadetes como representantes da "democracia burguesa", a retirada destes tinha a finalidade de provocar, entre os operários e os soldados, uma nova exigência de reivindicações favoráveis a que todo o poder recaísse nos sovietes.

  • "Supor que os cadetes não pudessem prever as repercussões do ato de sabotagem que haviam declarado em relação aos soviete, significaria subestimar deliberadamente Miliukov. O líder do liberalismo evidentemente esforçava-se por arrastar os conciliadores a uma situação crítica, totalmente sem vias de saida, a não ser pelo emprêgo de baionetas: naqueles dias, julgava ele firmemente que ainda era possivel salvar a situação por meio de uma sangria desatada."[4]

A pressão da Entente sobre o Governo provisório

A Entente obriga ao Governo provisório a confrontar a revolução pelas armas ou a ser abandonado por seus aliados.

"Nos bastidores, os fios estavam nas mãos dos embaixadores e dos governos da Entente. Na Conferência interaliada inaugurada em Londres, os amigos do "Ocidente" esqueceram-se de convidar o embaixador da Rússia; (...) trote, de que foi  objeto o embaixador do Govêrno Provisório e a significativa demissão dos cadetes do ministério deram-se a 2 de julho: os dois acontecimentos tinham um único e mesmo fim: obrigar os conciliadores a arriarem a bandeira"[5]. O Partido menchevique e os eseristas estavam em processo de adesão à burguesia. Sua inexperiência no governo, suas dúvidas e vacilações pequeno-burguesas mas também a existência em suas fileiras de algumas oposições internacionalistas e proletárias; não foram direitamente envolvidos no complô contra-revolucionário. Mas foram manipulados para jogar o papel que lhes tinham encomendado seus donos e dirigentes burgueses.

A ameaça de deslocar para o front os regimentos da capital

De fato, a explosão da luta de classe em resposta a estas provocações não foi iniciada pelos operários, mas sim pelos soldados, e não foram os bolcheviques que incitaram tal resposta, mas sim os anarquistas. "Os soldados via de regra mostravam-se mais impacientes que os operários: primeiro porque estavam sob ameaça direta de serem enviados ao front; e segundo porque assimilavan com maior dificuldade as razões da estratagia política. E além de tudo mais, cada soldado tinha em mão o fuzil e, depois de fevereiro, o soldado se mostrava propenso a superestimar o poder especifico daquela arma."[6] Os soldados se empenharam imediatamente em trazer os operários para seu lado. Na fábrica Putilov, a maior concentração operária da Rússia, fizeram seu avanço mais decisivo:

  • "10 mil operários, reuniram-se diante dos locais da administração. Aclamados, os metralhadores revelaram que haviam recebido ordem de partir, a 4 de julho, para o front, mas que tinham resolvido ‘marchar, não contra o proletariado alemão, em direção ao front alemão, mas contra seus próprios ministros capitaliatas'. Cresceu o entusiasmo geral. Para frente! Para frente! ' - gritaram os trabalhadores."[7]

Em algumas horas, todo o proletariado da cidade havia se levantado e armado, e se reagrupava ao redor da palavra de ordem "todo o poder aos sovietes", a bandeira das massas.

Os bolcheviques evitam a armadilha

Na tarde de 3 de julho, chegaram delegados dos regimentos de metralhadoras para tentar ganhar o apoio da conferencia de cidade dos bolcheviques e ficaram pasmos ao inteirar-se de que o partido se pronunciava contrário à ação. Os argumentos que dava o partido mostram que os bolcheviques captaram imediatamente o significado e o risco dos acontecimentos: a burguesia queria provocar Petrogrado para culpar-lhe do fracasso no front; a situação não estava madura para a insurreição armada e o melhor momento para uma ação contundente imediata seria quando todo mundo se inteirasse do colapso no front. De fato, já na manifestação de 18 de junho, os bolcheviques haviam advertido contra uma ação prematura.


Os historiadores burgueses reconheceram a destacada inteligência política do partido nesse momento.  Certamente o Partido bolchevique estava plenamente convencido da necessidade imperativa de estudar a natureza, a estratégia, e as táticas de classe inimiga, para ser capaz de responder e intervir corretamente em cada momento. Estava convicto da compreensão marxista de que a tomada revolucionária do poder é, de certo modo, uma arte ou uma ciência, e que tanto uma insurreição em um momento inoportuno, como não tomar o poder no momento justo, são igualmente fatais.

Mas, por mais que a análise do partido estivesse correta, se tivesse parado aí teria significado cair na armadilha da burguesia. O primeiro ponto de inflexão decisivo das jornadas de julho se produziu na mesma noite que o Comitê central e o Comitê de Petrogrado do Partido decidiram apoiar o movimento e colocar-se à sua cabeça, mas para garantir seu "caráter pacífico e organizado". Contrariamente aos acontecimentos espontâneos e caóticos do dia anterior, as gigantescas manifestações de 4 de julho deixaram ver "a mão organizativa do partido ". Os bolcheviques sabiam que o objetivo que se propuseram as massas - obrigar que os dirigentes mencheviques e eseristas do soviete tomassem o poder em nome dos conselhos operários - era impossível de ser alcançado. Os mencheviques e eseristas, que a burguesia apresenta hoje como os autênticos representantes da democracia soviética, estavam então se integrando na contra-revolução, e só esperavam uma oportunidade para liquidar os conselhos operários. O dilema da situação, o fato de que a consciência das massas operárias ainda era insuficiente, concretizou-se na famosa anedota do operário encolerizado que agitava seu punho em torno do queixo de um dos ministros "revolucionários" gritando-lhe: "Filho da puta! Toma o poder já que o estamos te entregando".  Na verdade, os ministros e dirigentes traidores dos sovietes, deixavam passar o tempo até que chegassem os regimentos leais ao governo.

Nesse momento, os operários estavam se dando conta das dificuldades de transferir todo o poder aos sovietes enquanto os traidores e conciliadores ocupassem sua direção. Uma vez que a classe ainda não havia encontrado o método de transformar os sovietes a partir de dentro, tentava em vão impor pelas armas sua vontade desde fora.


O segundo ponto de inflexão decisivo veio com a chamada do orador bolchevique a dezenas de milhares de operários de Putilov e outros locais em 4 de julho, ao final de um dia de manifestações de massas; Zinoviev começou com uma brincadeira, para baixar a tensão, e terminou com uma chamada para voltar casa pacificamente que os operários seguiram. O momento da revolução não é agora, mas se aproxima. Nunca se tinha provado de forma mais espetacular a frase de Lênin de que a paciência e bom humor são qualidades indispensáveis dos revolucionários.
A capacidade dos bolcheviques de conduzir o proletariado a driblar a armadilha da burguesia não se devia somente a sua inteligência política.  Sobretudo foi decisiva a confiança do partido no proletariado e no marxismo, o que lhe permitiu  basear-se plenamente na força e no método que representa o futuro da humanidade, e evitar assim a impaciência da pequena burguesia. Foi decisiva a profunda confiança que tinha desenvolvido o proletariado russo em seu partido de classe, que permitiu ao partido permanecer com as massas e inclusive assumir seu papel de direção, embora não compartilhassem seus objetivos imediatos nem suas ilusões.  A burguesia fracassou em sua tentativa de abrir um fosso entre o partido e a classe, separação que teria significado seguramente a derrota da Revolução russa.

  • "Era um dever inevitável do partido proletário permanecer ao lado das massas, esforçar-se por dar um caráter o mais pacífico e organizado possível a suas justas ações, não ficar de lado, nem lavar as mãos como Pilatos, apoiando-se no argumento pedante de que as massas não estavam organizadas até o último homem e de que em seu movimento havia excessos"[8]

Os pogrons e as calúnias da contra-revolução

Na manhã de 5 de julho, cedo, tropas do governo começaram a chegar à capital. Começou um trabalho de caça aos bolcheviques, de lhes privar de seus escassos meios de propaganda, de desarmar e culpar de terrorismo os operários, e incitar a pogrons contra os judeus. Os "salvadores da civilização", mobilizados contra a "barbárie bolchevique", recorreram essencialmente a duas provocações para mobilizar as tropas contra os operários.

A campanha de mentiras segundo a qual os bolcheviques eram agentes alemães

  • "Do governo e do Comitê-Executivo: os soldados, melancólicos, permaneeiam encerrados nos quartéis em expectativa. Somente na tarde de 4 de julho foi que enfim, as autoridades descobriram poderoso meio de ação: mostraram aos homens do Regimento Preobrazhensk, documentos que provavam insofismávelmente que Lênin era espião da Alemanha. Este estratagema foi bem sucedido. Espalhou-se a noticia pelos regimentos. (...). Modificou-se bruscamente a opinião dos batalhões neutros."[9]

Em particular se empregou nesta campanha um parasita político chamado Alexinski, um bolchevique renegado que tinha tentado criar uma oposição de "ultra-esquerda" contra Lênin, mas que ao fracassar em suas ambições converteu-se em um inimigo declarado dos partidos operários. Como resultado desta campanha, Lênin e outros bolcheviques se viram obrigados a esconder-se, enquanto que Trotski e outros foram presos. "O que o poder necessita não é um processo judicial, mas sim acossar aos internacionalistas. Encerrá-los e mantê-los presos: isso é o que precisam os senhores Kerenski e Cia."

A burguesia não mudou. 80 anos depois organiza uma campanha similar com a mesma "lógica" contra a Esquerda comunista. Então, em 1917, posto que os bolcheviques se negaram a apoiar a Entente, é porque estão do lado dos alemães! Depois, posto que a Esquerda comunista se negou a apoiar o bando imperialista "antifascista" na Segunda Guerra mundial, ela e seus sucessores de hoje devem ter estado ao lado dos alemães. Campanhas "democráticas" do Estado que preparam futuros pogrons.

Os revolucionários atuais, que amiúde subestimam o significado destas campanhas contra eles, têm muito que aprender ainda com o exemplo dos bolcheviques que depois das jornadas de julho, moveram céus e terra em defesa de sua reputação junto à classe operária. Mais tarde Trotski falou de julho de 1917 como "o mês de calúnia mais gigantesca da historia da humanidade", mas mesmo aquelas mentiras ficam pequenas se comparadas com as atuais segundo as quais o estalinismo seria o comunismo.

Outra forma de atacar a reputação dos revolucionários, tão velha como o método da difamação pública, e que normalmente se usou de forma combinada com esta, é a atitude do Estado de animar elementos não proletários e anti-proletários, que pretendem apresentar-se como revolucionários, a entrar em ação.


  • "A provocação desempenhou, inegávelmente, certo papel quer nos acontecimentos do front quer nas ruas de Petrogrado. Após a insurreição de Fevereiro, o govêrno jogara nas linhas de fogo grande nimero de antigos policiais e de sargentos da policia militar. Nenhum dêles, é claro, queria combater. Tinham mais mêdo dos soldados russos do que dos alemães. A fim de fazer esquecer o passado, afetavam as opiniões mais extremistas do exército, incitavam sub-repticiamente os soldados contra os oficiais, reagiam mais do que ninguém contra a disciplina e a ofensiva e, frequentemente, declaravam-se claramente bolcheviques. Mantendo entre eles uma ligação natural de cumplices, representavam uma original confraria de poltrões e de covardes. Por intermédio deles, rumores os mais fantásticos se insinuavam entre as tropas e se propalavam rapidamente, rumores êsses que combinavam o espirito ultra-revoluciontrio com o espirito reacionário dos cem-negros. Nas horas criticas êsses inividuos eram os primeiros a dar o sinal de pânico. A obra desmoralizadora dos policiais e dos policiais-militares foi por mais de uma vez mencionada na imprensa. Frequentemente encontram-se indicações dessa natureza nos docusmentos secretos do próprio exército. O alto-comando, porém, silenciava. preferindo identificar o provocadores cem-negros com os bolchevlques."[10]

Franco-atiradores disparam contra as tropas que chegam à cidade, às quais se dizia que os disparos eram dos bolcheviques

  • "A loucura calculada desta fuzilaria profundamente os operários. Era mais do que claro que provocadores de grande experiência acolhiam a bala os soldados, a fim de vaciná- los contra o bolchevismo. Os operários esforçavam-se ao máximo para explicar o que acontecia aos soldados que chegavam; mas não lhes permitiam que se aproximassem: pela primeira vez, depois das Jornadas de Fevereiro, entre o operário e o soldado colocavam- se ora os junkers, ora os oficiais."[11]

Vendo-se forçados a trabalhar na semi-legalidade depois das jornadas de julho, os bolcheviques tiveram que combater as ilusões democráticas de quem, em suas próprias fileiras, pensavam que deviam comparecer diante de um tribunal contra-revolucionário para responder às acusações de que eram agentes alemães. Lênin reconheceu nisto outra armadilha dirigida ao partido: "O que atua é a ditadura militar. Neste caso é ridículo falar de "justiça". Não se trata de "justiça", mas sim de um episodio de guerra civil."[12]

Mas se o partido sobreviveu ao período de repressão que se seguiu às jornadas de julho, foi, sobretudo por sua tradição de vigilância a respeito da defesa da organização contra todos as tentativas do Estado de destruí-la. Há que se assinalar, por exemplo, que o agente de polícia Malinovski da Okhrana, que tinha conseguido antes da guerra a ser o membro do comitê central do partido diretamente responsável pela segurança da organização: se não tivesse sido desmascarado previamente (apesar da cegueira de Lênin), tivesse sido encarregado de esconder Lênin, Zinoviev, etc, depois das jornadas de julho. Sem essa vigilância na defesa da organização, o resultado teria sido provavelmente a liquidação dos líderes revolucionários mais experimentados. Em janeiro-fevereiro de 1919, quando foram assassinados na Alemanha, Luxemburgo, Jogisches, Liebknecht e outros veteranos do muito joven (recem) KPD, parece que as autoridades foram advertidas previamente por um agente de polícia "de alto escalão" infiltrado no partido.

Balanço das Jornadas de julho

As Jornadas de julho puseram a nu mais uma vez o gigantesco potencial revolucionário do proletariado, sua luta contra a fraude da democracia burguesa, e o fato de que a classe operária é um fator contra a guerra imperialista frente à decadência do capitalismo. Nas jornadas de julho não se colocava o dilema "democracia ou ditadura", mas sim se colocava a verdadeira alternativa com que se enfrenta a humanidade, ditadura do proletariado ou ditadura da burguesia, socialismo ou barbárie. Mas o que as jornadas de julho ilustraram, sobretudo foi o papel indispensável do partido de classe do proletariado. Julho de 1917 também mostrou que é indispensável superar as ilusões nos partidos renegados ex-operários, na esquerda do capital, para que o proletariado possa tomar o poder. Com efeito, essa foi a principal ilusão da classe durante as Jornadas de julho. Mas esta experiência foi decisiva. As Jornadas de julho esclareceram definitivamente, não só para a classe operária e para os bolcheviques, mas também para os próprios mencheviques e eseristas, que estes dois últimos partidos haviam abraçado irrevogavelmente a causa da contra-revolução. Como escreveu Lênin em princípios de setembro: "(...) naquele momento, Petrogrado não podia ter tomado o poder nem sequer materialmente, e se o tivesse feito, não o teria podido conservar politicamente porque Tsereteli e Cia não haviam caído ainda tão baixo a ponto de apoiar um governo de verdugos. Eis aqui por que, naquele momento, entre 3 e 5 de julho de 1917, em Petrogrado, a palavra de ordem de tomada do poder teria sido incorreta. Naquele momento, nem sequer os bolcheviques tinham, nem podiam ter, a decisão consciente de tratar  Tsereteli e Cia como contra-revolucionários. Naquele momento, nem os soldados, nem os operários podiam ter a experiência adquirida no mês de julho"[13]

Em meados de julho Lênin já havia tirado claramente esta lição:
"A partir de 4 de julho, a burguesia contra-revolucionária, de braços com os monarquistas e as centúrias negras, pôs a seu lado, em parte por intimidação, os eseristas e mencheviques pequeno burgueses, entregou de fato o poder de Estado aos Cavaignac, a uma camarilha militar que fuzila no front os insubordinados e persegue em Petrogrado os bolcheviques."[14]

Mas a lição essencial de julho foi a liderança política da classe pelo partido. A burguesia empregou freqüentemente a tática de provocar enfrentamentos prematuros. Tanto em 1848 ou 1870 na França, como em 1919 ou 1921 na Alemanha, em todos estes casos o resultado foi uma repressão sangrenta do proletariado.  Se a Revolução russa foi o único grande exemplo de que a classe operária tenha sido capaz de evitar a armadilha e impedir uma derrota sangrenta é, em grande parte, porque o partido bolchevique foi capaz de cumprir seu papel decisivo de vanguarda da classe. Ao evitar à classe operária uma tal derrota, os bolcheviques destacaram, contra a interpretação pervertida dos oportunistas, as profundas lições revolucionárias da famosa introdução de Engels em 1895 À luta de classes na França de Marx, especialmente sua advertência: "E só há um meio para poder conter momentaneamente o crescimento constante das forças socialistas na Alemanha e inclusive para levá-lo a um retrocesso passageiro: um choque em grande escala com as tropas, uma sangria como a de 1871 em Paris."[15]

Trotski resumia assim o balanço da ação do partido: "Se o Partido Bolchevique, teimando em julgar doutrinariamente "inoportuno" o movimento de Julho, tivesse voltado as costas às massas, a semi-insurreiçao teria, inevitavelmente, caído nas mãos da direção dispersiva e sem planejamento dos anarquistas, dos aventureiros, de intérpretes ocasionais da indignação das massas, e teria derramado todo o seu sangue em convulsões estéreis. Se o partido, em compensação. colocando-se à frente dos metralhadores e dos operário, de Putilov, tivesse renunciado ao julgamento sobre situação no seu todo, e tivesse deslizado pelo caminho dos combates decisivos, insurreição, indubitavelmente, teria alcançado amplitude audaciosa, e os operário, e os soldados, sob a direção dos bolchevque, ter-se-iam, todavia, apoderado do poder, tão-somente para prepararem o desmoronamento da RevoluçAo. A questão do poder transportada para a escala nacional não teria sido, como em Fevereiro o foi, resolvida por simples vitória em Petrogrado. As provincias não teriam acompanhado de perto a capita1. O front não teria compreendido, nem aceitado, a mudança de regime. As estradas de ferro e o telégrafo teriam passado ao serviço dos conciliadores contra os bolcheviques, Kerensky e o quartel-general teriam criado um poder para o front e para as provincias. Petrogrado seria bloqueada. Dentro de suas próprias muralhas iniciar-se-ia a desagregação. O Govarno teria a possibilidade de lançar, contra Petrogrado, massas consideráveis de soldados e, em semelhantes condições, a insurreição terminaria na tragédia de uma Comuna de Petrogrado.
Em julho, por ocasião da bifurcação dos caminhos históricos. Somente a intervenção do Partido dos bolcheviques eliminou as duas variantes de um perigo fatal: a que conduzia a uma espécie de Jornadas de Junho de 1848, e a que enveredava no sentido da Comuna da Paris de 1871. Foi por ter audaciosamente encabeçado o movimento que o partido obteve a possibilidade de represar as massas no momento em que a manifestação começava a transformar-se em comprometimento geral de forças armadas. O golpe assestado em julho contra as masses e contra o partido, foi muito grave. Mas não era golpe decisivo, (...) A classe operária, ao sair da prova. não estava nem decapitada nem exangue. Conservou integralmente os quadras de combate, e êsses quadros aprenderam muito.
"[16]

A história provou que Lênin tinha razão quando escrevia: "Começa um novo período. A vitória da contra-revolução tem feito que as massas se desiludam com os partidos eserista e menchevique e prepara o caminho que levará essas massas a uma política de apoio ao proletariado revolucionário."[17]

[1] Lênin, Obras completas, T. 32, "Onde está o poder e onde, a contra-revolução?". Tradução nossa.

[2] Trotsky, História da Revolução Russa - Cap.I As Jornadas de Julho; Preparativos e Início  - Ed.Paz e Terra.

[3] Trotsky, História da Revolução Russa - Cap.II As "Jornadas de Julho"; Ponto Culminante e Esmagamento - Ed.Paz e Terra.

[4] Trotsky, História da Revolução Russa - Cap.I As "Jornadas de Julho"; Preparativos e Início  - Ed.Paz e Terra.

[5] Trotsky, História da Revolução Russa - Cap.IV A Contra-Revolução Levanta a Cabeça - Ed.Paz e Terra.

[6] Trotsky, História da Revolução Russa - Cap.I As "Jornadas de Julho"; Preparativos e Início  - Ed.Paz e Terra.

[7] Idem.

[8] Lênin, Obras completas, T. 34, "Sobre as ilusões constitucionalistas". Tradução nossa.

[9] Trotsky, História da Revolução Russa - Cap.II As "Jornadas de Julho"; Ponto Culminante e Esmagamento - Ed.Paz e Terra. Tradução nossa

[10] Trotski, História da Revolução Russa Cap. III - Poderiam os Bolcheviques tomar o poder em Julho? Tradução nossa. Foi inclusive mais catastrófico o papel assumido por esses elementos ex-policiais e lupem-proletários, mesclando-se entre os "soldados de Spartakus" e os "inválidos revolucionários" durante a revolução alemã, particularmente durante a trágica "semana Spartakus" em Berlim, em janeiro de 1919.

[11] Trotsky, História da Revolução Russa - Cap.II As "Jornadas de Julho"; Ponto Culminante e Esmagamento - Ed.Paz e Terra.

[12] Lênin, Obras, T. 32, "Devem os dirigentes bolcheviques comparecer diante dos tribunais?". Tradução nossa.

[13] Lênin, Obras, T. 34, "Rumores sobre uma conspiração". Tradução nossa.

[14] Lênin, Obras, T. 34, "A propósito das consignas." Tradução nossa.

[15] Engels, "Introdução" a A luta de classes na França de 1848 a 1850. Tradução nossa.

[16] Trotsky, História da Revolução Russa - Cap.II As "Jornadas de Julho"; Ponto Culminante e Esmagamento - Ed.Paz e Terra.

[17] Lênin, Obras, T. 34, "Sobre as ilusões constitucionalistas". Tradução nossa.