A teoria da decadência (II)

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O movimento operário nos tempos de Marx

Marx e Engels sempre expressaram claramente que a perspectiva da revolução comunista dependia da evolução material, histórica e global do capitalismo. Ou seja a concepção segundo a qual um modo de produção não pode expirar antes que as relações de produção sobre as quais se apóia não tenham se convertido em travas ao desenvolvimento das forças produtivas, foi a base de toda a atividade política de Marx e Engels e a da elaboração do qualquer programa político proletário.

Apesar de que Marx e Engels, em duas ocasiões, acreditaram haver detectado o aparecimento da decadência do capitalismo[1], corrigiram, entretanto rapidamente sua apreciação e reconheceram que o capitalismo continuava sendo um sistema progressista. Sua visão, esboçada no Manifesto Comunista e aprofundada em todos os seus escritos daquela época, segundo a qual o proletariado que alcançasse o poder naquela época, teria como principal tarefa a de desenvolver o capitalismo da forma mais progressista possível, e não a de destruí-lo pura e simplesmente, expressava essa análise. Por isso a prática dos marxistas na Primeira Internacional se baseava com razão na análise de que, embora continuasse o capitalismo desempenhando um papel progressista, o movimento operário devia apoiar aqueles movimentos burgueses que preparavam o terreno histórico do socialismo:

"Já temos visto anteriormente que o primeiro passo da revolução operária constitui a elevação do proletariado em classe dominante, a conquista da democracia. O proletariado utilizará da sua hegemonia política para despojar paulatinamente a burguesia de todo o seu capital (...) Os comunistas lutam, pois, para alcançar os fins e interesses imediatos da classe operária porém no momento atual representam ao mesmo tempo o futuro do movimento. Na França os comunistas aderem ao Partido socialista democrático contra a burguesia conservadora e radical, sem por isso abandonar o direito de manter uma posição crítica frente as frases e as ilusões provenientes da tradição revolucionária. Entre os poloneses, os comunistas apóiam o partido que estabelece a revolução agrária como condição da libertação nacional, o mesmo que suscitou a insurreição da Cracóvia em 1846. Na Alemanha , na medida em que a burguesia atua revolucionariamente, o Partido Comunista atua conjuntamente com a burguesia contra a monarquia absoluta, a propriedade feudal da terra e a pequena-burguesia. Por último, os comunistas trabalham em todas as partes pela vinculação e o entendimento dos partidos democráticos de todos os países" (Manifesto Comunista)[2]. De forma paralela, era necessário que os operários continuassem lutando por reformas quando as possibilitou o desenvolvimento do capitalismo, e nessa luta, "as comunistas lutam pelos interesses e fins imediatos da classe operária... ", tal como dizia o Manifesto. Essas posições materialistas iam contra os chamamentos a-históricos dos anarquistas para a abolição imediata do capitalismo e sua oposição total a qualquer reforma.[3].

A Segunda Internacional, herdeira de Marx e Engels

A IIª Internacional explicitou ainda mais essa adaptação ao período da política do movimento operário, ao adotar um programa mínimo de reformas imediatas (reconhecimento dos sindicatos, diminuição da jornada de trabalho, etc.) assim como um programa máximo, o socialismo, cuja prática estaria na ordem do dia quando ocorresse a inevitável crise histórica do capitalismo. Aparece ainda muito claramente no Programa de Erfurt que concretizou a vitória do marxismo na social-democracia:

  • "A propriedade privada dos meios de produção tem mudado....tem se convertido pela força motriz do progresso, na causa da degradação e da ruína social... sua queda é segura, a única questão a que temos de responder é: O sistema da propriedade privada dos meios de produção arrastará a sociedade na sua queda ao abismo ou a sociedade se livrará desse fardo desembaraçando-se dele? (...) As forças produtivas que se geraram na sociedade capitalista se transformaram irreconciliáveis com o sistema mesmo que as fez surgir. A tentativa de manter esse sistema de propriedade faz impossível qualquer novo desenvolvimento social e condena a sociedade ao estancamento e a decadência (...) O sistema social capitalista tem chegado ao final da sua carreira, sua dissolução é desde agora uma questão de tempo . É um destino implacável, as forças econômicas empurram ao naufrágio a produção capitalista, a construção de uma nova ordem social que substitua ao que atualmente existe não é simplesmente algo desejável, tem se convertido em algo inevitável (...) Tal e como estão as coisas atualmente, a civilização não pode durar, devemos avançar para o socialismo ou cairemos na barbárie. (...) A história da humanidade não está determinada pelas idéias e sim pelo desenvolvimento econômico que progride irresistivelmente obedecendo a leis subjacentes precisas e não a qualquer desejo ou fantasia" (tradução nossa de extratos do Programa de Erfurt relido, corrigido e apoiado por Engels[4]; Kautsky 1965, O programa de Erfurt, Berlin, Dietz-Verlag).

Porém para a maioria dos principais lideres oficiais da Segunda Internacional, o programa mínimo se transformará cada dia mais no único e verdadeiro programa da social-democracia: "O objetivo seja qual for não é nada. O movimento é o todo", segundo as palavras de Bernstein. O socialismo e a revolução proletária acabaram se convertendo em um discurso repetido como sermões nas manifestações do Primeiro de Maio enquanto a energia do movimento oficial estava se concentrando cada dia mais na obtenção por parte da social-democracia, custe o que custar, de um lugar no sistema capitalista. Inevitavelmente, a ala oportunista da social-democracia começou a negar a necessidade da destruição do capitalismo para defender a possibilidade de uma transformação gradual do capitalismo em socialismo.

A Esquerda marxista na Segunda Internacional

Em resposta ao desenvolvimento do oportunismo na Segunda Internacional se desenvolveram frações de esquerda em vários países. Serão estas as que posteriormente permitirão que sejam fundados partidos comunistas após a traição ao internacionalismo proletário por parte da social-democracia quando estoura a Primeira Guerra Mundial. As frações de esquerda defenderam claramente a bandeira do marxismo ao assumir a herança da Segunda Internacional, desenvolvendo-o frente a novos desafios colocados pelo novo período do capitalismo iniciado de maneira patente pelo início da guerra, o período da sua decadência.

Essas correntes apareceram quando o sistema capitalista estava vivendo a ultima fase do seu ascenso, quando a expansão imperialista fazia vislumbrar a perspectiva de enfrentamento entre as grandes potências do capitalismo mundial e quando ia se radicalizando cada dia mais a luta de classes (desenvolvimento de greves gerais políticas e sobretudo de greves de massas em vários países). Contra o oportunismo de Bernstein e cia., a esquerda da social-democracia - os bolcheviques, o grupo dos Tribunistas holandeses, Rosa Luxemburgo e outros revolucionários - defenderam a análise marxista com todas as suas implicações: entender a dinâmica do fim da fase ascendente do capitalismo e a inelutabilidade da sua quebra[5], as causas das derivações oportunistas[6] e a reafirmação da necessidade da destruição violenta e definitiva do capitalismo[7]. Desgraçadamente, esse trabalho teórico por parte das frações de esquerda não foi realizado em escala internacional; se dará em ordem dispersa e com níveis de análises e de compreensão diferentes frente aos grandes transtornos sociais do início do século XX, caracterizado pelo início da Primeira Guerra Mundial e de desenvolvimento de movimentos insurrecionais em escala internacional. Não temos aqui a pretensão de fazer uma apresentação nem uma análise detalhada de todas aquelas contribuições das frações de esquerda sobre esses temas: nos limitaremos a algumas tomadas de posição do que serão as duas colunas vertebrais da nova internacional - o Partido Bolcheviques e o Partido Comunista Alemão-, através de seus dois mais eminentes representantes, Lênin e Rosa de Luxemburgo.

Se Lênin não utiliza os vocábulos de "ascendência" e de "decadência" e sim termos e expressões como "a época do capitalismo progressista", "antigo fator de progresso", "a época da burguesia progressista" quando trata do período ascendente do capitalismo e da "época da burguesia reacionária", "o capitalismo se tornou reacionário", "um capitalismo agonizante", "a época do capitalismo que alcançou seu amadurecimento" para caracterizar o período decadente do capitalismo, utiliza entretanto plenamente esses conceitos e as suas implicações essenciais para analisar corretamente o caráter da Primeira Guerra Mundial. Contra os social-traidores que pretendiam apoiarem-se nas analises de Marx durante a fase ascendente do capitalismo para preconizar um apoio condicional a certas frações burguesas e suas lutas de libertação nacional., Lênin identificará na Primeira Guerra Mundial a expressão de um sistema que havia esgotado sua missão histórica, colocando assim na ordem do dia a necessidade da sua superação mediante uma revolução em escala mundial. Por isso define a guerra imperialista como totalmente reacionária a qual havia de opor com o internacionalismo proletário e a revolução:

  • "De libertador das nações que foi o capitalismo na sua luta contra o regime feudal, o capitalismo imperialista se converteu no maior opressor das nações. O capitalismo antigo fator de progresso, tem se tornado reacionário; após desenvolvido as forças produtivas até tal ponto que a humanidade não lhe resta mais que passar ao socialismo ou sofrer durante anos, inclusive dezenas de anos, a luta armadas das "grandes" potências por manter artificialmente o capitalismo por meio das colônias, monopólios, privilégios e opressões nacionais de todo tipo" (Os princípios do socialismo e da guerra de 1914-1918; "A guerra atual é uma guerra imperialista"); "A época do imperialismo capitalista é a época de um capitalismo que já tem alcançado e ultrapassado seu período de amadurecimento, que se adentra na sua ruína, maduro para deixar seu espaço ao socialismo. O período de 1789 a 1871 havia sido a época do capitalismo progressista: sua tarefa era derrotar o feudalismo, o absolutismo, a libertação do jugo estrangeiro.... " (O oportunismo e a falência da IIª Internacional, janeiro de 1916); "De tudo que foi dito anteriormente sobre o imperialismo resulta que devemos caracteriza-lo como o capitalismo de transição, ou mais exatamente com um capitalismo agonizante. (...) a putefração e o parasitismo caracterizam o estágio histórico supremo do capitalismo, significa dizer, o imperialismo. (...) O imperialismo é o prelúdio da revolução social do proletariado. Isso se confirmou em escala mundial depois de 1917" (O imperialismo fase superior do capitalismo", Obras Escolhidas, Tomo I, Editorial Progresso).

As posições tomadas diante da guerra e da revolução sempre são linhas claras de demarcação no movimento operário. A capacidade de Lênin para definir a dinâmica histórica do capitalismo e captar o final da "época do capitalismo progressista" e que "o capitalismo se tornou reacionário" não só lhe permitiu caracterizar claramente a Primeira Guerra Mundial como também o caráter e a dimensão da revolução na Rússia. Com efeito, quando estava amadurecendo a situação revolucionária na Rússia, a compreensão que tinham os bolcheviques das tarefas impostas pelo novo período lhes permitiu lutar contra as concepções mecanicistas e nacionalistas dos mencheviques. Quando esses tentaram minimizar a importância da onda revolucionária com o pretexto de que "A Rússia não estava bastante desenvolvida para o socialismo", os bolcheviques afirmaram que o caráter mundial da guerra imperialista mostrava que o capitalismo mundial havia alcançado o nível de amadurecimento necessário para a revolução socialista. Em conseqüências lutavam pela tomada do poder pela classe operária, considerando-a como um prelúdio da revolução proletária mundial.

Dentre as primeiras e mais claras expressões desta defesa do marxismo está o folheto Reforma ou revolução escrito por Rosa Luxemburgo em 1899, que ainda reconhecendo que o capitalismo continuava em expansão graças a "bruscos sobressaltos expansionistas" (ou seja o imperialismo), insistia no fato que o capitalismo se dirigia correndo inevitavelmente para sua "crise de senilidade" e isso conduziria a necessidade imediata da tomada do poder revolucionária pelo proletariado. Com muita perspicácia política, Rosa Luxemburgo foi além do mais capaz de perceber as novas exigências colocadas pela mudança do período histórico considerando a luta e as posições políticas do proletariado, especialmente na questão sindical, a tática parlamentar, a questão nacional e os novos métodos de luta mediante a greve de massas[8].

Sobre os sindicatos: "Quando o desenvolvimento da indústria tiver alcançado seu ponto máximo e que no mercado mundial começar a fase de declínio capitalista, a luta sindical será então cada vez mais difícil (...) Nesta etapa a luta se limita necessariamente à defesa do já conseguido, e mesmo assim ele passa a ser cada vez mais difícil. Assim o curso dos acontecimentos, cuja contrapartida deve ser o desenvolvimento de uma luta de classes política e social" (Rosa Luxemburgo, Reforma ou Revolução).

Sobre o parlamentarismo: "Assembléia Nacional ou todo poder aos Conselhos de Operários e Soldados, abandono do socialismo ou luta de classes determinada e armada contra a burguesia: esse é o dilema!. Alcançar o socialismo o pela via parlamentar, por simples decisão da maioria, isso é um projeto idílico! (...) O parlamentarismo, é certo, foi um terreno da luta de classe do proletariado enquanto durou a vida tranqüila da sociedade burguesa. E foi então uma tribuna de onde podíamos reunir as massas em torno da bandeira do socialismo e educá-las para a luta. Porém hoje estamos no coração mesmo da revolução proletária e se trata, desde agora, de abater a árvore da exploração capitalista. O parlamentarismo burguês, com a dominação de classe burguesa que foi a sua razão de ser mais eminente, perdeu sua legitimidade. Desde o presente, a luta de classes apresenta a face descoberta, o capital e o trabalho não tem nada que dialogar, não lhe resta mais caminho que empunhar firmemente de um estreitamento e iniciar o desenlace dessa luta mortal" (Rosa Luxemburgo, Assembléia Nacional ou Conselhos Operários?, Obras Escolhidas).

Sobre a questão nacional: "A guerra mundial não serve nem para a defesa nacional, nem para os interesses econômicos ou políticos das massas populares sejam quais forem, é produto unicamente das rivalidades imperialistas entre as classes capitalistas de diferentes países pela supremacia mundial e pelo monopólio da exploração e opressão de regiões que ainda não estão submetidas ao Capital. Na época deste imperialismo desenfreado já não pode haver guerra nacional. Os interesses nacionais são só uma mistificação destinada a que as massas populares trabalhadoras se coloquem a serviço de seu inimigo mortal: o imperialismo" (A Crise da Social-democracia, 1915).

A decadência na medula da análise da Internacional Comunista

Alentada pelos movimentos revolucionários que acabaram com a Primeira Guerra Mundial, a constituição da Terceira Internacional (Internacional Comunista, ou IC) se apoiou na análise do final do papel historicamente progressista da burguesia que as esquerdas marxistas da Segunda Internacional haviam feito. Ante a tarefa de entender o giro que pos em evidência o início da Primeira Guerra Mundial e dos movimentos insurrecionais em escala internacional, tanto a IC como os grupos que a formavam trataram da "decadência" - a um nível ou outro - como a chave da compreensão do novo período histórico que acabava de iniciar-se. Assim na plataforma da nova internacional é afirmado que: "Nasceu uma nova época. Época de desintegração do capitalismo, do seu desmoronamento interno. Época da revolução comunista do proletariado" (Primeiro Congresso). E nesse marco de análises se basearam, mas ou menos, todas as suas tomadas de posição[9], como por exemplo nas teses sobre o parlamentarismo adotadas no Segundo Congresso: "O comunismo deve ter como ponto de partida o estudo teórico da nossa época (apogeu do capitalismo, tendências do imperialismo até sua própria negação e sua própria destruição)" (idem)

Esse marco de análise ainda será mais evidente no relatório sobre a situação internacional escrito por Trotsky e adotado pelo III° Congresso da IC: "As oscilações cíclicas, dizíamos no nosso relatório ao 3° Congresso da IC acompanham o desenvolvimento do capitalismo na sua juventude, sua maturidade e sua decadência como o pulsar do coração acompanha o homem inclusive até a sua agonia" (Trotski, A maré sobe, 1922) e também nas discussões que se desenvolveram em torno deste relatório: "Ontem vimos em detalhe como o camarada Trotsky - e todos os aqui presentes estamos, creio, de acordo com ele - estabeleceu a relação entre, de um lado, as pequenas crises e os pequenos períodos de desenvolvimento cíclicos e momentâneos e, de outro lado, o problema do desenvolvimento e do declínio do capitalismo analisado em escala de grandes períodos históricos. Estaremos todos de acordo em que a grande curva que antes indicava para cima hoje vai irreversivelmente para baixo, e que dentro dessa grande curva, tanto quando sobe como quando desce como hoje, se produzem oscilações" (Authier D., Dauvé D., Nem parlamentos nem sindicatos, Conselhos Operários!).[10] Por fim, a Resolução sobre a tática da IC do seu IV° Congresso, explicita ainda mais e reafirma a análise da decadência do capitalismo: "II.- O Período de decadência do capitalismo. Depois de ter analisado a situação econômica mundial, o III° Congresso pôde comprovar com absoluta precisão que o capitalismo, depois de haver realizado sua missão de desenvolver as forças produtivas, caiu na contradição mais irredutível com as necessidades não somente da evolução histórica atual como também com as condições mais elementares da existência humana. Esta contradição fundamental se refletiu particularmente na última guerra imperialista e foi agravada por esta guerra que comoveu, de modo mais profundo, o regime da produção e da circulação. O capitalismo, que desse modo sobreviveu a si mesmo, entrou em uma fase onde a ação destruidora de suas forças desencadeadas arruína e paralisa as conquista econômicas criadoras já realizadas pelo proletariado em meio as cadeias da escravidão capitalistas. (...) Atualmente o capitalismo está vivendo sua agonia." (Os quatro primeiros congressos da Internacional Comunista).

A análise do significado político da Primeira Guerra Mundial

O inicio da guerra imperialista em 1914 assinala um giro decisivo tanto na história do capitalismo como na do movimento operário. O problema da "crise de senilidade" do sistema deixou de ser um debate teórico entre as diversas frações do movimento operário. A compreensão de que a guerra abria um novo período para o capitalismo, como sistema histórico, exigia uma mudança na prática política cujos fundamentos se converteram em fronteira de classe: de um lado os oportunistas que mostraram claramente a sua face de agente do capitalismo "adiando" a revolução com seu chamamento pela "defesa nacional" em uma guerra imperialista e, do outro lado, a esquerda revolucionária - os bolcheviques ao redor de Lênin, o grupo Die Internationale, os Radicais de esquerda de Bremen, os Tribunos holandeses, etc. - que se reuniram em Zimmerwald e Kienthal para afirmar que a guerra marcava a abertura da época "das guerras e das revoluções" e que a única alternativa à barbárie capitalista era a insurreição revolucionária do proletariado contra a guerra imperialista. Entre todos os revolucionários que assistiram a essas conferências, os mais claros sobre a questão da guerra foram os bolcheviques. Essa clarividência emana diretamente da compreensão de que o capitalismo havia entrado na sua fase de decadência posto que "a época da burguesia progressista" havia dado lugar a "época da burguesia reacionária", como o afirma sem ambigüidade a citação seguinte de Lênin:

  • "Os social-democratas russos (Plekanov a testa) invocam a tática de Marx na guerra de 1870; os social-chauvinistas alemães (tipo Lensch, David e companhia ) invocam as declarações de Engels em 1891 sobre a necessidade, para os socialistas alemães, de defender a pátria em caso de uma guerra contra França e Rússia unidas... Todas essas referências deformam de modo indigno as concepções de Marx e de Engels sendo complacente com a burguesia e os oportunistas... Invocar hoje em dia a atitude que teve Marx a respeito da época progressista da burguesia e duvidar das palavras de Marx: "Os proletários não tem pátria", palavras que se relacionam diretamente com a época da burguesia reacionária cujo tempo havia ficado para trás, com a época da revolução socialista, é deformar cinicamente o pensamento de Marx e suplantar o ponto de vista socialista por outro ponto de vista da burguesia" (Lênin 1915, Obras Completas).

Esta análise política do significado histórico do início da Primeira Guerra Mundial determinou a posição do conjunto do movimento revolucionário, das frações de esquerda na Segunda Internacional[11] até os grupos da Esquerda Comunista, passando pela IIIª Internacional. É o que tinha previsto Engels nos finais do século XIX: "Frederich Engels disse um dia: "A sociedade burguesa está situada ente um dilema: ou passagem ao socialismo ou recaída à barbárie". Porém, que significa "uma recaída à barbárie" no grau de civilização que conhecemos na Europa de hoje? Até agora temos lido essas palavras sem refletir e as temos repetido sem pressentir a terrível gravidade. Se dermos uma olhada ao nosso redor neste momento e compreenderemos o que significa um desabamento da sociedade burguesa na barbárie. O triunfo do imperialismo leva a negação da civilização, esporadicamente enquanto durou a a guerra e definitivamente, si o período das guerras mundiais que começa agora tem continuidade sem obstáculos até as suas últimas conseqüências. É exatamente o que Fredrich Engels previu uma geração antes da nossa, fazem quarenta anos. Estamos situados hoje ante essa eleição: ou bem triunfa o imperialismo e decadência de toda civilização como em Roma antiga, o despovoamento, a desolação, a tendência a degeneração, um enorme cemitério; ou bem, vitória do socialismo, significa dizer, da luta consciente do proletariado internacional contra o imperialismo e contra o seu método de ação: a guerra. Esse é um dilema da história do mundo, ou bem, ou bem, todavia indeciso, cujo pendulo se move ante a decisão do proletariado consciente. O proletariado deve lançar resolutamente na balança a espada do seu combate revolucionário. O futuro da civilização e da humanidade depende dele" (Rosa Luxemburgo, A crise da Social-democracia, I). Isso mesmo o que haviam compreendido bem, com determinação, todas as forças revolucionária que participaram da criação da Internacional Comunista. Assim, seus estatutos recordam claramente que: "A IIIª Internacional se constituiu ao final da carnificina de 1914-1918, durante a qual a burguesia sacrificou 20 milhões de vidas em diferentes países. Recordemos da guerra imperialista! Esta é a primeira palavra que a Internacional comunista dirige a cada trabalhador, seja qual sua origem ou idioma que fale. Recordemos que por conta da existência do regime capitalista, um punhado de imperialistas tem conseguido, durante 4 longos anos, obrigar aos trabalhadores a ir mutuamente a degola! Recordemos que a guerra burguesa mergulhou a Europa e o mundo inteiro na fome e na indigência! Recordemos que sem a derrubada do capitalismo, será não só possível, como inevitável que se repitam esses crimes de guerras! (...) A Internacional Comunista considera a ditadura do proletariado como o único meio disponível para livrar a humanidade dos horrores do capitalismo" (Quatro primeiros congressos da IC).

Sim!! Mas que nunca temos de "recordar" a análise de nossos predecessores e devemos reafirmá-la com tão mais força que as camarilhas parasitas tentam apresentá-la como "humanismo e moralismo burguês", minimizando a guerra imperialista e os genocídios. Sob pretexto de criticar a teoria da decadência, dirigem um ataque constante contra as aquisições fundamentais do movimento operário: "Por exemplo para demonstrarmos que o modo de produção capitalista está em decadência, Sander afirma que sua característica é o genocídio e que mais de três quarta parte dos mortos na guerra dos últimos 500 anos se produziram no século XX. Esse tipo de argumentos também toma parte do pensamento milenarista. Para os testemunhas de Jeová, a Primeira Guerra Mundial, significaria um giro na história por causa da sua gravidade e sua intensidade. Segundo esses, a quantidade de mortos durante a Primeira Guerra Mundial teria sido "...sete vezes maior que as 901 principais guerras anteriores durante 2400 anos antes de 1914 (....)". Segundo a polemista Ruth Leger Sivard, em um livro editado em 1996, o século XX havia feito uns 110 milhões de mortos em 250 guerras. Se extrapolamos esse resultado se alcançam os 120 milhões de mortos, seis vezes mais que no século XIX. Relativamente à população média do século, esta quantidade ponderada de mortos passa de 6 a 2. (...) Inclusive assim, a conseqüência das guerras continua sendo inferior a das moscas e dos mosquitos. (...) Não se pode avançar no materialismo e menos ainda a compreensão da história do modo de produção capitalista adotando conceitos próprios do direito burguês moderno (com o e genocídio), confeccionados pela ideologia democrática e de direitos humanos sobre os escombros da Segunda Guerra Mundial" (Robin Goodfelow, "Camarada, um esforço mais para deixar de ser um revolucionário").

Comparar os estragos das guerras imperialistas com algo que é "menos importante que os efeitos de moscas e mosquitos" é realmente cuspir na cara tanto dos milhões de proletários que foram assassinados nos campos de batalha como os milhares de revolucionários que sacrificaram sua vida tentando bloquear o braço da burguesia e estimular as lutas revolucionárias. É um escandaloso insulto a todos aqueles revolucionários que lutaram com todas as suas forças denunciando as guerras imperialistas. Comparar as análises deixadas por Marx, Engels e todos nossos ilustres antecessores da Internacional Comunista e da Esquerda Comunista com as das Testemunhas de Jeová e com o moralismo burguês é uma sórdida indecência. Diante de semelhantes "pensamentos", nos somamos a Rosa Luxemburgo quando dizia que a indignação do proletariado é uma força revolucionária!

Segundo esses parasitas, toda a terceira Internacional, Lênin Trotsky, Bordiga, etc., haviam extraviado em um lamentável mal entendido, acreditando estupidamente que a Primeira Guerra Mundial, era "o maior dos crimes" (Plataforma da IC, idem.), quando segundo esses parasitas, foi algo "menos importante que os efeitos de moscas e mosquitos". Todos aqueles revolucionários que pensaram que a guerra imperialista é a maior catástrofe para o proletariado e o movimento operário no seu conjunto, "A catástrofe da guerra imperialista tem varrido de cima abaixo todas as conquistas das batalhas sindicais e parlamentares" (Manifesto da IC)", haviam cometido, por tanto, o pior dos equívocos, o de haver teorizado que a Primeira Guerra Mundial abria o período de decadência do capitalismo: "O período de decadência do capitalismo (...) o capitalismo, depois de haver cumprido com as necessidades não só da evolução histórica atual como também com as condições da existência humana mais elementar. Essa contradição fundamental se plasmou sobre tudo na ultima guerra imperialista e esta guerra a tem agravado mais, todavia" (op.cit.). O desprezo presunçoso desses parasitos diante do adquirido pelo movimento operário, que nossos irmãos de classe escreveram com seu sangue, não se pode comparar senão com o desprezo que tem a burguesia diante da miséria dos operários com o cinismo deslavado das somas .brutas utilizadas por esta para cantar os méritos do capitalismo. Parafraseando a célebre fórmula de Marx quando trata sobre Proudhon e a miséria, esses parasitas não vêem que os números mais que números y não suspeitam o seu significado social e político revolucionário[12]. Todos os revolucionários de então, que entenderam perfeitamente o caráter qualitativamente diferente, todo o significado social e político daquela "matança massiva das melhores tropas do proletariado internacional": "Porém o desencadeamento atual da fera imperialista nos campos europeus produz além do mais outro resultado que deixa o "mundo civilizado" por completo indiferente [e a esses parasitas atuais, acrescentamos nós]: o desaparecimento massivo do proletariado europeu. Jamais uma guerra havia exterminado em tais proporções camadas inteiras da população (...) e é a população operária das cidades e dos campos que constitui os nove décimos desses milhões de vítimas (...) são as melhores forças, as mais inteligentes, as melhores adestradas do socialismo Internacional (...). O fruto de dezenas de anos de sacrifícios e esforços de várias gerações é aniquilado em algumas semanas; as melhores tropas do proletariado internacional são dizimadas (...) Aqui o capitalismo descobre seu próprio calvário; aqui confessa que seu direito a existência está caduca, que a continuação da sua dominação já não é compatível com o progresso da humanidade." (Rosa Luxemburgo, A crise da Social-democracia, 1915)[13]

[1] Para mais detalhes, leia o primeiro artigo desta série na Revista Internacional nº 118.

[2] Desgraçadamente, o que Marx expressou com razão que até então tinha se utilizado como confusão reacionária durante o período de decadência por parte de todos aqueles que invocavam aquelas medidas preconizadas no Manifesto Comunista como se pudessem adaptar a época atual.

[3] Essas posições dos anarquistas, aparentemente ultra-revolucionárias, não eram senão o desejo da pequena burguesia em acabar com o estado e o trabalho assalariado, não avançando até a superação histórica e sim voltando até um mundo de produtores independentes.

[4] O primeiro artigo desta série já demonstrou claramente, apoiando-se em numerosas citações extraídas do conjunto da sua obra, que o conceito de decadência assim como a palavra mesma "decadência" tem a sua origem em Marx e Engels e são a medula mesmo do materialismo histórico para compreender a sucessão dos modos de produção. Isto invalida claramente as asserções doidas da revista academicista Aufheben que pretende que "a teoria do declive do capitalismo apareceu pela primeira vez na Segunda Internacional" (serie de artigos intitulada "Sobre a decadência, teoria de declive ou declive da teoria", publicada nos nº. 2,3 e 4 de Aufheben). E ao reconhecer que a teoria da decadência está no centro mesmo do programa marxista da Segunda Internacional, nossa série desmente rotundamente a extravagante série de datas de nascimentos inventadas por uma gentalha de grupos parasitos: para a FICCI, por exemplo, a decadência apareceria no fim do século XIX. "Temos apresentado a origem da noção de decadência em torno dos debates sobre o imperialismo e a alternativa histórica de guerra ou revolução que se desenrola nos finais do século XIX ante as profundas transformações então vividas pelo capitalismo" (Bulletin Communiste nº 24, abril de 2004), embora que para RIMC apareça após a Primeira Guerra Mundial: "O objetivo deste trabalho é o de fazer uma crítica global e definitiva do conceito de "decadência" que está envenenando a teoria comunista como um dos maiores desvios nascidos no primeiro pós-guerra, que tem impedido todo trabalho científico de restauração da teoria comunista devido o seu caráter profundamente ideológico" (Revista internacional do movimento comunista", "Dialética das forças produtivas e das relações de produção na teoria comunista"). Para Perspectiva Internacionalista, seria Trotsky o inventor do conceito: "O conceito de decadência do capitalismo surgiu na Terceira Internacional na qual foi sobretudo Trotski quem desenvolveu" ("Nascia uma nova teoria da decadência do capitalismo"). O único que têm em comum essas camarilhas é sua critica a nossa organização e em particular a nossa teoria da decadência, sem saber que nenhuma realmente saiba do que estão falando.

[5] Veja, por exemplo, Lênin em Imperialismo, fase superior do capitalismo, ou Rosa Luxemburgo na Acumulação do Capital.

[6] Veja também Rosa Luxemburgo em Reforma ou revolução e mais tarde Lênin na Revolução Proletária e o Renegado Kautsky.

[7] Ler Lênin no Estado e a Revolução e Rosa Luxemburgo, Que quer a Liga Spartacus?

[8] Leia Greve de massas, partido e sindicatos.

[9] mais amplamente esta idéia na segunda parte deste artigo.

[10] Essa citação foi tirada da intervenção de Alexandre Schwab, delegado do KAPD, no III° Congresso da Internacional comunista, na discussão acerca do informe de Trotsky, sobre a situação econômica mundial, "Teses sobre a situação mundial e as tarefas da Internacional Comunista" Esta citação restitui corretamente o sentido e o conteúdo, e sobretudo o marco conceitual desse informe e da discussão na IC em torno da noção de "auge" e de "declive" do capitalismo na escala dos grandes períodos históricos.

[11] "Uma coisa é certa, é que a guerra mundial tinha significado uma volta para o mundo. É uma loucura insensata imaginar que só nos restaria esperar que acabasse a guerra, como a lebre que está esperando debaixo de um arbusto a que termine a tempestade e retornar alegremente sues afazeres diários. A guerra mundial tem mudado as condições da nossa luta, tem mudado a nós mesmo de maneira radical" (Rosa Luxemburgo, A Crise da Social-democracia)

[12] Inclusive nos números, nossos censores se vêem obrigados a reconhecer, depois de muito pensar, que a "relação relativa" da quantidade de mortos na decadência é o dobro dos da ascendência...., sem que isso lhes coloque maiores problemas.

[13] Se temos considerado necessário denunciar esses insultos, é não só para estigmatizá-los e defender as lições teóricas de gerações inteiras de proletários e revolucionários, senão também para denunciar firmemente essa corja de parasitos que propaga, cultiva e deixa desenvolver esse tipo de canalhice. É esse um dos múltiplos exemplos, ma das numerosas provas do seu caráter totalmente parasito: Seu papel é destruir os êxitos políticos da Esquerda comunista, é o fazer parasitos do meio político proletário e tentar desprestigiá-lo, sobre tudo a CCI.