A voz revolucionária de Bilan diante da guerra da Espanha

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A guerra de 36 na Espanha foi o prelúdio da Segunda Guerra Mundial. As grandes potências da época participaram diretamente no conflito perfilando-se nele os dois bandos imperialistas que se enfrentaram de 1939 a 1945: o bando franquista é apoiado pela Alemanha e Itália e o bando da Frente Popular pela Rússia de Stalin e pelas democracias (Grã-Bretanha e França).

As posturas internacionalistas da fração italiana da Esquerda Comunista

Diante da matança que durante 3 anos alagou de sangue as terras espanholas, as organizações que diziam reclamar-se da classe operária, começando pelos "socialistas", seguidos pelos "comunistas" e acabando com os trotskistas e os anarquistas, propunham aos operários e aos camponeses espanhóis participar plenamente na guerra, escolhendo o campo republicano contra o bando fascista e unindo-se à burguesia "democrática" e às potências mundiais "fiadores da liberdade". Só uma pequena minoria, com Bilan à cabeça, teve a coragem de manter a posição dos revolucionários de 1914: a luta contra os dois bandos burgueses, a chamada dos operários e camponeses das duas frontes a desertar da guerra militar e voltar para suas casas para, unindo-se com os operários da retaguarda, levar a luta contra todo o Estado Capitalista, tanto em sua versão franquista como na republicana. Era retomar e levar mais longe o impulso inicial dos operários espanhóis que lutando em seu terreno de classe nos dias posteriores a 18 de julho do 36 foram capazes de parar a intentona golpista de Franco (que dito seja de passagem o governo da Frente Popular deixou com premeditação e traição que os generais fascistas preparassem impunemente) da qual houve uma nova manifestação, desta vez em condições muito diferentes, em maio de 1937, quando os operários de Barcelona depois de uma valente luta são massacrados pelas forças de assalto governamentais e traídos pelo POUM e pelos anarquistas que, além disso, participam descaradamente dos governos da Generalitat e da República.

Nós nos reivindicamos do trabalho político de Bilan que nessa época difícil para o proletariado - de derrota e contra-revolução, os tempos de Hitler e dos processos de Moscou - manteve-se fiel a seu combate histórico e foi capaz de enriquecê-lo com toda uma série de contribuições tirando lição dos intensos acontecimentos que de forma rápida e concentrada se deram entre 1914 e 1939: a guerra imperialista de 1914, a tentativa de revolução proletária de 1915-23, a contra-revolução na Rússia e à escala mundial, a tremenda depressão de 1929 e a barbárie a uma escala ainda mais selvagem da 2ª Guerra Mundial. (...)

Bilan (Balanço), publicação da Fração Italiana da Esquerda Comunista[1], sobreviveu durante o período mais sinistro da história do movimento operário, que vai do triunfo de Hitler na Alemanha até a 2ª. Guerra Mundial. (...) A revista Bilan possui 46 números publicados (1 478 páginas) desde novembro de 1933 a janeiro de 1938. Começou como "Boletim teórico da Fração de Esquerda do Partido Comunista da Itália". Em fevereiro de 1938, Outubro substituiu Bilan com o subtítulo de "órgão mensal da Esquerda Comunista". Apareceram 5 números de Outubro, o último em agosto de 1939, um mês mais tarde começava a 2ª. Guerra Mundial.

Constituição e desenvolvimento da fração italiana da Esquerda Comunista

A fração italiana tinha sido excluída do PCI (Partido Comunista de Itália) e da IC (Internacional Comunista) no Congresso do Lyon de 1926. A Fração, no difícil exílio francês perseguida tanto pelo fascismo como pelo estalinismo, volta a constituir-se em 1929 e publica a revista Prometeo em língua italiana e um boletim de informação em francês que acabou tornando-se uma publicação teórica.

Comprometida a fundo no movimento comunista internacional, a Fração na emigração tomará parte muito ativa no dito movimento, sobretudo na França e na Bélgica, participando com todas suas forças na luta contra a degeneração da III. Internacional e de seus partidos, definitivamente dominados pelo estalinismo. Por isso manterá contatos estreitos com todas as correntes e grupos de esquerda expulsos, um após o outro, do que tinha sido a Internacional Comunista, mantendo a luta em meio a uma terrível desolação e uma imensa confusão devido à amplitude da derrota da primeira grande onda revolucionária mundial e sua conseguinte desmoralização.

A tentativa de aproximação com a Oposição de Esquerda de Trotski não deu nenhum resultado; o que pôs em evidência foi o caráter fundamentalmente divergente das orientações de ambas as correntes. Se o trotskismo concebia a Oposição como grupos que simplesmente lutavam pela "regeneração" dos PC e que estavam dispostos a todo momento em reintegrar-se a eles, renunciando a existência como órgãos autônomos, a Esquerda Italiana partia das diferenças programáticas cruciais que só poderiam se resolver com a constituição de organismos comunistas independentes, as Frações, que estavam lutando pela destruição da corrente contra-revolucionària estalinista.

A discussão em 1933 sobre a análise da situação na Alemanha, sua perspectiva e a posição a ser tomada pelos revolucionários acabaram por tornar definitivamente incompatível qualquer trabalho em comum. Frente à ameaça hitlerista, Trotski preconizava uma ampla "Frente Única Operária" entre o PC estalinista e a social-democracia. Era nessa frente única entre os contra-revolucionários de 1914 e os de então onde Trotski via a força capaz de apertar o cerco ao fascismo, evitando assim o problema essencial da natureza de classe das forças presentes e o fato de que a luta contra o fascismo não tem nenhum sentido para a classe operária se estiver separada da luta geral contra a burguesia e o sistema capitalista.

Trotski, fazendo jogos com imagens brilhantes, dizia que a Frente Única poderia fazer-se até "com o diabo e sua avó" com o que demonstrava não menos brilhantemente que estava perdendo a noção mesma do terreno de classe do proletariado. Em plena verborragia, Trotski, sob o pseudônimo do Gurov, chegou a afirmar que a revolução comunista poderia triunfar "sob a direção de Thaelman[2]". Desde então resultava evidente que o caminho tomado por Trotski acabaria por levá-lo a abandonar, uma após a outra, as posições comunistas até a participação na II. Guerra Imperialista, em nome, claro está, da "defesa da URSS".

O aporte de Bilan à defesa do princípios comunistas

Diametralmente oposto foi o caminho tomado pela Fração Italiana da Esquerda Comunista. O desastre que representava para o proletariado o triunfo do fascismo, triunfo que se tornou possível e inevitável diante das catastróficas e sucessivas derrotas que lhe infligiram a social-democracia primeiro, e o estalinismo depois, deixava plenamente aberta a "solução" capitalista à crise histórica de seu sistema: uma nova guerra imperialista mundial. Os revolucionários só podiam frear esta perspectiva caso se esforçassem para agrupar o proletariado em um terreno de classe, mantendo-se firmes nos princípios programáticos do comunismo. Para isso, o mais urgente era submeter a um exame crítico toda a experiência do período transcorrido da quebra da grande onda revolucionária que interrompeu a Primeira Guerra Imperialista, abrindo um horizonte de esperanças à classe operária para sua emancipação definitiva. Compreender as razões de sua derrota posterior, fazer um balanço da experiência adquirida e dos enganos, tirar lições e, com estas bases, elaborar novas posições programáticas, tudo isto era indispensável para que a classe pudesse voltar, melhor armada e portanto mais capaz, a encarar sua tarefa histórica da revolução comunista. E foi esta impressionante tarefa a que se propôs empreender Bilan (Balanço, nome apropriado), e para levá-la a cabo Bilan convidou a todas as forças comunistas que tinham sobrevivido ao desastre da contra-revolução.

Poucos grupos responderam à chamada, mas também é verdade que poucos grupos puderam resistir ao terrível rolo compressor daquele período de reação e de preparação para a II. carnificina mundial. Cada ano que passava eram menos os grupos, entretanto, Bilan, que resistiu graças à dedicação de algumas dezenas de membros e simpatizantes, manteve sempre as portas abertas para que se expressassem, dentro do marco estrito das fronteiras de classe, outros pensamentos divergentes dos seus. Nada foi mais estranho que o espírito de seita ou a busca de um êxito "fogo de palha". Por isso, encontramos em Bilan artigos de discussão e reflexão que provêm de companheiros da Esquerda Alemã, Holandesa ou da Liga de Comunistas Internacionalistas da Bélgica. Bilan não tinha a estúpida pretensão de contribuir com respostas definitivas a todos os problemas da revolução. Tinha consciência de que freqüentemente balbuciava, precisava submeter suas teses a verificação, pois sabia que as respostas definitivas só podiam ser resultado da experiência viva da luta de classes, da confrontação e da discussão no interior mesmo do movimento. Sobre muitos problemas a resposta da Bilan foi insuficiente, mas ninguém pode pôr em dúvida a seriedade, a sinceridade, a profundidade do esforço e, acima de tudo, a validade de seu método, a justeza de sua orientação e a firmeza de seus princípios revolucionários. Não se trata unicamente de render graças a este pequeno grupo que soube manter firme a bandeira da revolução em meio de uma tempestade contra-revolucionària, mas também e, sobretudo, trata-se de assimilar o que nos legou e prosseguir o esforço com uma continuidade que não é estancamento mas sim superação.

Não é, como já dissemos, por gosto de erudito que escolhemos, para esta primeira recopilação de textos de Bilan, uma série de artigos que se referem aos acontecimentos da Espanha entre 1934 e 37. A análise dos acontecimentos tinha um alcance global que superava o marco espanhol e dava a base para entender a evolução da situação mundial, das forças da classe operária, de suas formações políticas, e, acima de tudo, ofereciam uma imagem crua da imensa tragédia em que se afundava o proletariado internacional e o espanhol em primeiro lugar.


[1] Ler nosso artigo A esquerda comunista e a continuidade do marxismo http://pt.internationalism.org/icconline/2005_esquerda_comunista

[2] Thaelman: dirigente do PC alemão completamente avassalado ao stalinismo