Avalanche de ataques contra a classe operária, crise financeira...

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Uma nova etapa na queda do capitalismo na sua crise 

Desde alguns meses, assistimos um dilúvio de ataques contra a classe operária em escala internacional.

Centenas de milhares de demissões foram anunciadas ou já estão acontecendo nas maiores empresas, em todos os países, em todos os setores: General Motors, Ford, Volkswagen, Fiat,  Airbus, Alcatel-Lucent, Nokia-Siemens, LP Displays (antiga LG Philips), Microsoft, Dell, Unilever.

Em todos os lugares, salários baixam. Baixam relativamente ao aumento dos preços em rápida ascensão. Mas os salários baixam também de maneira absoluta, em particular em certos setores submetidos à chantagem a deslocalização ou fechamento de empresas. O dito salário social também é atacado fortemente, notadamente considerando o acesso aos cuidados de saúde.

Em todos os lugares, constata-se a mesma tendência à pauperização do proletariado:

  • Em 2006, nos Estados Unidos, 36,5 milhões de pessoas viviam abaixo da linha de pobreza;
  • Em muitos outros países de América central ou do Sul, do leste europeu ou da Ásia esta limite é mais baixo ainda e abrange uma proporção maior da população;
  • Na Grã-bretanha, que bate recordes europeus em termos de rendimentos baixos, os aposentados podem cada vez menos conseguir o estrito necessário para viver;
  • Na China, país qualificado pelas mídias de nova "usina do mundo", em 2005 havia uma previsão de 8 milhões de futuros desempregados que iriam acrescentar os 12% da população já desempregada.

Além disso, 1 milhão de pessoas morrem anualmente neste país por conta da estafa no trabalho.

Em todos os lugares, a classe explorada é obrigada contribuir para pagar o agravamento da crise econômica mundial.

A recente crise financeira no setor imobiliário nos Estados-Unidos constituiu uma outra manifestação do agravamento da crise econômica mundial.

Um fator do crescimento da economia norte-americana nestes últimos anos foi constituído pela demanda interior, notadamente no setor imobiliário. A indústria da construção trabalhou sem parar estes últimos 5 anos, estimulada pelo baixo custo do crédito. Muita gente, apesar de um rendimento insuficiente, conseguiu créditos a perder de vista para comprar a casa própria. Créditos de risco ("subprimes") foram favorecidos e, aparentemente, tinham capacidade de sustentar uma prosperidade econômica neste setor que, na realidade, era construída sobre vácuo. Quando alguém em dificuldades não podia mais pagar, os organismos financeiros se ressarciam com a apropriação da casa. A situação passou a ser problemática quando estes casos de impossibilidade de pagamento se multiplicaram sob o efeito da queda do poder de compra dos proletários por conta do aumento do desemprego e do rebaixamento dos salários. Ao mesmo tempo, um fosso se criou entre o número crescente de habitações à venda no mercado e a capacidade decrescente de pagamento dos que precisavam moradia.

As conseqüências conhecidas desta situação são as seguintes:

  • Os preços no setor imobiliário caíram nos Estados-Unidos e, com eles, despencaram os fundos de investimentos e bancos comerciais, especializados no crédito de risco. Tanto nos Estados-Unidos, como também na Alemanha, na Grã-Bretanha e na França outros organismos financeiros tiveram que ser socorridos pelo tesouro do Estado. Bilhares de dólares foram assim gastos para tentar evitar que, a partir do setor imobiliário nos Estados-Unidos, o epicentro do abalo, se produzisse o efeito dominó que a burguesia tanto receia.
  • Já as demissões no setor bancário são milhares. No total, desde o começo de 2007, as demissões anunciadas neste setor chegam a quase 88000. São milhares de operários também, na industria da construção imobiliária nos Estados-Unidos, que perderam seu emprego.
  • Mais de três milhões de pessoas, proletárias essencialmente, por conta da sua incapacidade em pagar no prazo seu empréstimo imobiliário, deveriam ser atiradas imediatamente para à rua nos Estados-Unidos.

Os efeitos desta crise financeira foram aparentemente menos importantes de que os cracks precedentes, como o de 1987 ou daquele que marcou a "crise asiática" de 1997. Na realidade, este novo alerta suscitou uma inquietação muito maior por parte da burguesia mundial. Com razão, ela receiava uma desestabilização maior da economia mundial. Testemunho disso foi a quantidade colossal de dinheiro que se gastou, em pouco tempo, pelos bancos centrais para evitar o pior.

Vale a pena comparar as quantidades de dinheiro que a burguesia gastou em diversos momentos para evitar um crack maior:

  • em 1997, na crise asiática, foram cem bilhões de dólares;
  • em 2001, depois de um alerta do mesmo tipo que passou despercebida por conta do 11 de setembro 2001, que aconteceu simultaneamente, foram duzentos bilhões de dólares;
  • dessa vez, foram  quinhentos bilhões de dólares.

A mídia recordou da crise de 1929, mas para tentar conjurar o mal e se esforçou em nos convencer que o risco de uma catástrofe comparável era totalmente inexistente na situação atual. Rememorando, a crise de 29 constituiu o crack mais importante na história do capitalismo e marcou o início da fase de profunda recessão dos anos 1930.

Apesar do terremoto nas bolsas ter sido declarado "sob contôle", a situação permanece muito frágil.

Quais são as explicações oficiais dadas:

  • a estes problemas da economia mundial ?
  • à tendência sempre pior a degradação das condições de vida do proletariado desde o fim dos anos 1960 ?

Desde o fim dos anos 1960, frente a cada baixo desempenho econômico, já ouvimos todos os tipos de discursos lenitivos por parte dos experts da burguesia.

  • A recessão de 1967 tinha colocado um ponto final no período de prosperidade depois da Segunda Guerra mundial. Hoje, essa pode parecer muito insignificante em relação ao que sofremos desde anos. Diante dela e também diante da recessão de 1970, a burguesia tinha culpado "a rigidez do sistema monetária herdado da Segunda Guerra mundial"[1]. Essa dita rigidez foi corrigida.
  • Apesar das medidas tomadas, duas novas recessões, muito mais profundas, largas e extensas geograficamente voltaram a golpear o capitalismo mundial, em 1974-75 e em 1980-82. Os "experts" encontram aí uma nova explicação: a escassez de fonte de energia. Essas novas convulsões foram denominadas "choques petrolíferos".
  • Logo no início dos anos 80, as economias dos países do terceiro mundo se desmoronaram.
  • Na metade dos anos 80, a URSS e os países do Leste europeu tomaram uma via "liberal", tentando se destacar das formas mais rígidas do seu capitalismo ultra estatizado. E, no entanto, a década findou com um novo agravamento do desastre: o ex bloco soviético mergulhou num caos sem precedente.
  • Os ideólogos das democracias ocidentais tinham apresentado o desmoronamento da URSS como uma confirmação de seu evangelho: este país e os do leste europeu encontram estes problemas porque não conseguiram se tornar realmente capitalistas; os países do terceiro mundo porque administram mal o capitalismo. Ironia da história, no início de 1992, a crise econômica golpeou violentamente os países mais potentes do planeta: o coração do capitalismo "puro e rígido". Na vanguarda desta queda, encontrava-se justamente os Estados-Unidos e a Grã-Bretanha: os campeões do novo liberalismo, os países que supostamente serviam de exemplo, para mundo inteiro, dos milagres que pode realizar a "economia de mercado".
  • Em 1997 aconteceu a crise asiática. Num primeiro momento, a propósito desta, os experts ousaram dar a explicação de uma crise de desenvolvimento. Diante da evolução da situação que se transformou num desastre, foram obrigados a engolir suas tolices, e decidiram culpar a imoralidade dos empréstimos duvidosos, os quais constituíram efetivamente a base do desenvolvimento destes países. Mas, na realidade, de muitos países.

Alem da incapacidade dos discursos dos ideólogos burgueses a conjurar a crise, as manifestações desta que citamos acima ilustram também que a crise é mundial, como o capitalismo.

Frente à recém tormenta financeira, os experts foram muito discretos. Diante da evidência dos fatos, só puderam lamentar os excessos do endividamento, mas evidentemente sem nada dizer sobre a causa deste. Com efeito, é justamente a acumulação da dívida em escala mundial, desde o fim dos anos 60, que permitiu que a economia mundial não entrasse ainda numa recessão mais brutal, profunda e duradoura.

Todas estas explicações que invocam a rigidez, o choque petroleiro, a irresponsabilidade dos maus capitalistas, os excessos de endividamento... têm em comum a vontade (que seja consciente ou não) de poupar os próprios fundamentos econômicos do capitalismo. O que justifica a existência destes experts, sejam eles premiados Nobel ou jornalistas medíocres, é justamente de nos afastar da verdade: é o próprio capitalismo mundial que constitui o problema. Esta função ideológica de tais especialistas explica a incapacidade manifesta deles em esboçar qualquer perspectiva realista enquanto todas as promessas de um futuro melhor desvaneceram diante da realidade.

Ao lado dos discursos que apóiam abertamente o sistema atual, tem os que o criticam: Attac, os PCs, os trotskistas, etc. Ao observar mais atentamente estas críticas, mesmo quando têm uma fraseologia radical, se pode perceber que só consideram formas ou expressões particulares do capitalismo: o liberalismo e seus  "excessos", a mundialização ou a redistribuição injusta dos lucros capitalistas, etc.

Para essa gente, existem medidas apropriadas (fazer com que os ricos paguem; taxar a especulação; etc.) que permitiriam evitar as maiores calamidades do sistema.

Diante de todos estes discursos, opomos a tese marxista das contradições insuperáveis do capitalismo, da impossibilidade de reformá-lo e da necessidade de destruí-lo.

Como analisar a crise do capitalismo?

Pensamos como O Manifesto comunista, que "As relações burguesas tornaram-se estreitas demais para conterem a riqueza por elas gerada"; que a burguesia criou seu próprio coveiro, o proletariado.

Como se efetiva esta contradição entre as relações de produção e as forças produtivas criadas pelo capitalismo (graças à exploração do proletariado). Através de "crises comerciais que, na sua recorrência periódica, põem em questão, cada vez mais ameaçadoramente, a existência de toda a sociedade burguesa". A propósito destas, O Manifesto fala de "uma epidemia social que teria parecido um contra-senso a todas as épocas anteriores - a epidemia da sobreprodução".

E como o capitalismo supera suas crises? "Por um lado, pela aniquilação forçada de uma massa de forças produtivas; por outro lado, pela conquista de novos mercados e pela exploração mais profunda de antigos mercados".

Qual é a causa principal da sobreprodução? Esta resulta do fato que "as limitas do mercado não se expendem tão rápido quanto a produção o exige".

Com efeito, ao contrario do que pretendem os adoradores do capital, a produção capitalista não cria automaticamente e a vontade os mercados necessários para seu crescimento. O capitalismo se desenvolveu num mundo não capitalista no qual encontra os mercados necessários a seu desenvolvimento. Assim, a existência de mercados sempre em aumento é uma condição essencial do desenvolvimento do capitalismo.

Esta contradição, esta incapacidade em criar seus próprios mercados comerciais, o capitalismo a carrega nele desde seu nascimento. No início, a superou pela venda aos setores feudais, e depois pela conquista dos marcados coloniais. É através da procura destes mercados que a burguesia "invadiu o planeta inteiro".

Quando o mercado mundial acabou sendo partilhado entre as principais potencias, no início do século XX, esta necessidade de mercados fora das relações capitalistas constituiu a causa da Primeira Guerra mundial. Com efeito, as potencias dotadas de poucas colônias (como Alemanha) não podiam ficar dependentes de seus rivais (como Inglaterra) para poder aceder às colônias. Para assegurar seu patamar mundial, tiveram que entrar em guerra por uma nova partilha do mundo.

A crise de sobreprodução, que é a manifestação característica das contradições do modo de produção capitalista, não reveste a mesma importância em cada instante da vida do sistema.

Com efeito, no seio do período que antecedeu a Primeira Guerra mundial e que constituiu sua fase de ascendência, a crise de sobreprodução era só um intervalo entre cada momento de expansão do mercado. Na decadência, a sobreprodução se torna um fenômeno crônico.

Como, na fase de decadência do capitalismo,
A burguesia compensa a insuficiência, e depois a ausência de mercados extra-capitalistas?

Reposta: através do endividamento.

Este constitui o meio para criar artificialmente a procura que não pode mais obter, em quantidade suficiente, dos mercados extra-capitalistas.

Entretanto, longe de constituir ume receita milagre para as contradições insuperáveis do capitalismo, o endividamento só faz adiar a manifestação delas. Com efeito, amanhã não será possível reembolsar a dívida e vai ter que se endividar ainda mais. Assim o endividamento só faz preparar uma irrupção destas contradições com uma violência maior ainda. Tal política constitui assim uma verdadeira fuga para a perspectiva anunciada de um futuro doloroso que se manifestará notadamente por recessões econômicas.

Hoje em dia, o endividamento mundial é fantástico.

Assim, a dívida dos Estados-Unidos, primeira potencia militar e econômica do mundo, passou de 630 bilhões de dólares em 1970 até 59 100 bilhões de dólares em 2007 (cifra que inclui todos os tipos de dívidas: federal, doméstica, dos estados, segurança social, etc.)[2]

A especulação jogou um papel de primeiro plano na crise imobiliária nos Estado-Unido, da qual falamos no início.

Na realidade, a especulação é um fenômeno que sempre acompanhou o desenvolvimento do capitalismo. Para os capitalistas, ela aparece como um meio, na verdade arriscado, que permite rentabilizar um investimento em pouco tempo e em proporções muito significante às vezes.

Na fase de decadência, durante os períodos de crise aberta, como aquela que conhecemos desde o fim dos anos 1960, a especulação não é mais uma escolha dos capitalistas, mas uma necessidade. Com efeito, uma proporção importante dos capitais não encontra meios de investimentos com um lucro suficiente nas empresas que se dedicam em produzir mercadorias e se orientam pura e simplesmente para a especulação. Nenhum ator capitalista escapa desta tendência, as empresas como os Estados.

De certa maneira, se pode dizer que a especulação se institucionalizou. Tudo se tornou objeto de especulação: o valor das empresas cotadas nas bolsas, as matérias-prima, o imobiliário, a produção agrícola e até as moedas como aconteceu no começo dos anos 1990. Estabelecimentos financeiros especializaram-se nos investimentos arriscados (os famosos hedje funds) que, também, são objetos de especulação.

Os meios da especulação estão cada vez mais sofisticados, notadamente através da criação de "produtos financeiros" baseados sobre mecanismos complexos cuja compreensão é privilégio de um número limitado de especialistas. Através de certos "produtos financeiros", uma invenção burguesa consiste em repartir os riscos inerentes à especulação. Resultado: torna-se cada vez mais difícil identificar os "atores arriscados". Ou, dito de outra maneira, todos os atores tornam-se arriscados. Doravante, a catástrofe pode proceder de "qualquer lugar" e expender-se como um rastilho em todas as direções.

Mais se acumulam as contradições, e mais a margem de manobra da burguesia se torna estreita:

  • A contradição mais característica da decadência é o desemprego massivo. Este resulta do fato que, para resistir ao agravamento da guerra comercial, todas as empresas, todos os Estados estão na obrigação de despedirem proletários. Ao reduzir o número dos operários, é a fonte dos lucros que é ameaçada, pois ela provém essencialmente da exploração do proletariado. Assim, quando a crise mundial, caracterizada pela insuficiência dos mercados solváveis, obriga cada capitalista a despedir uma porção da mão de obra, a burguesia está cerrando aos poucos o ramo sobre o qual ela e a acumulação capitalista são assentadas.
  • Já falamos da acumulação explosiva do endividamento mundial do qual pode resultar crack e recessões;
  • Diante do perigo da recessão, a burguesia deve reacionar pelo declínio das taxas do crédito com intento favorecer a retomada da atividade econômica. Mas, ao mesmo tempo, ela está na obrigação de impedir o desenvolvimento da inflação, notadamente pela elevação das mesmas taxas do crédito. Com efeito, tendências inflacionistas estão aparecendo de novo, não somente na China (5,6% por ano), mas também nos paises industrializados com uma menor taxa. Ora, a inflação é a inimiga juramentada da burguesia a ser combatida por ela, pois trava o comercio e, sobretudo, favorece a luta reivindicativa do conjunto da classe operária por salários.

Visto o conjunto das contradições do capitalismo, podemos afirmar que nós estamos atualmente diante de um agravamento considerável da crise econômica em escala mundial, ainda que não saibamos quando e com qual  ritmo isso vai se manifestar.

É fácil prever quais vão ser a conseqüências para proletariado mundial. Devemos ter consciência também que os ataques contra o proletariado vão constituir o fermento do desenvolvimento da luta de classe.

Como os revolucionários sempre o colocaram em evidência, a crise é o melhor aliado do proletariado

É a crise que vai acelerar o processo de tomada de consciência do impasse do mundo atual.

É a crise que, a prazo, vai precipitar na luta, de maneira cada vez mais massiva, vários setores do proletariado. Este vai assim multiplicar as experiências, fortalecer as tendências já em desenvolvimento no seu seio durante os últimos anos, em particular um sentimento crescente de solidariedade.

O que está em jogo nestas experiências futuras?

  • A capacidade do proletariado de tomar confiança na suas próprias forças, em se defender e se afirmar frente à sabotagem dos sindicatos.
  • A aquisição da consciência pelo proletariado que constitui a única classe na sociedade capaz de derrubar o capitalismo.

Obviamente, os revolucionários têm um papel insubstituível nesta situação para fornecer uma perspectiva ao movimento, denunciar as manobras e a propaganda da burguesia. Em particular, cabe aos mesmos não deixar a menor ilusão sobre o caráter irresolúvel da crise e sobre o caráter mistificador de todas as "políticas" que pretendem atenuar os efeitos desta crise no seio do capitalismo.

[1] Os famosos acordos de Bretton-Woods que se apoiavam sobre o dólar como padrão e um sistema de taxa de cambio fixo entre moedas. Assim foi criada uma nova moeda internacional, os diretos de tiragem especiais (DTS) do FMI e foi decidido que as taxas de cambio flutuariam livremente.

[2] Fonte Wikipedia