A aceleração da crise do capitalismo e suas conseqüências

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Nunca desde o reaparecimento da crise aberta do capitalismo no final dos anos sessenta, essa tinha sido tão perigosa. Em relação a uma outra referencia histórica, se pode dizer que a situação é globalmente mais perigosa de que na véspera da crise de 29, o que não significa que esta vai se repetir de imediato, pois o capitalismo faz tudo que pode para evitar que se produza novamente tal manifestação aberta e brutal do impasse da economia capitalista.

Um conjunto de contradições insuperáveis

O conjunto dos fatores a seguir expressa o retorno na cena histórica, com violência, de todas as manifestações da crise aberta do capitalismo que a burguesia tinha tentado conter através vários meios desde o final dos anos sessenta:

  • A crise do "credito de risco" no setor imobiliário do ano passado nos Estados-Unidos que se transformou numa crise financeira internacional. Existe o receio, por parte de frações da burguesia internacional, de que um movimento de pânico coloque em evidencia o caráter insolvente de estabelecimentos financeiros até agora reputados seguros. Isso resultaria aí num crack financeiro de grande amplitude.
  • As perspectivas de desaceleração da atividade econômica, até de recessão considerando alguns países como os Estados-Unidos. A burguesia superou as diferentes recessões que teve de enfrentar desde os anos setenta por meio de um endividamento cada vez maior para conseguir resultados cada vez mais medíocres. Será que ela vai poder mais uma vez conter a futura recessão enquanto não existe outro meio para isso que um aumento considerável do endividamento mundial com os riscos que isso contém quanto aos perigos de um desmoronamento do sistema financeiro mundial bancário e de crédito?
  • As flutuações da bolsa de valores que, no seio de uma tendência geral de queda pontuada por acelerações brutais, abalem a confiança na própria base da especulação.
  • O peso das despesas militares que, como no caso dos Estados-Unidos, constituem uma carga cada vez mais insuportável. Elas são resultantes da importância crescente do militarismo na vida da sociedade quando cada nação é empurrada na via da guerra por conta das dificuldades cada vez mais insuperáveis no plano econômico.
  • A volta da inflação, que constitui a duplo título um pesadelo para a burguesia:
    • Freia o comercio mundial pelo fato das flutuações cada vez mais imprevisíveis do preço das mercadorias;
    • Muito mais que a resposta a outros ataques como as demissões, a luta reivindicativa da classe operária pelo aumento dos salários corroídos pela elevação dos preços é propícia à generalização da luta além dos setores. Ademais, os freios acionados pela burguesia para conter a inflação, se utilizados de maneira conseqüente, só poderiam agravar o curso atual para a recessão.

Uma miséria amplificada

Enquanto a burguesia gasta dezenas de bilhões para auxiliar bancos e instituições financeiras, a situação de milhões de pessoas pobres no mundo está aumentando em ritmo acelerado.

Nos EU, milhares de operários são expulsos de sua casa, pois não podem mais pagar o reembolso das mensalidades cada vez mais altas como conseqüência da crise dos empréstimos do tipo "subprimes". Paradoxalmente, o número de pessoas sem teto aumenta, não porque existe uma penúria de moradia, muito embora exista excesso de moradias. O mesmo fenômeno começa a afetar o consumo a credito em geral.

Não é todo. O departamento do trabalho dos Estados-Unidos anunciou o dia 7 de Março que 63000 empregos foram perdidos durante o mês de fevereiro. Isso constituiu a segunda queda consecutiva do número de empregos a nível geral no país e a terceira do setor privado.

No entanto, as conseqüências dramáticas da crise mundial do capitalismo não se manifestam somente nos EU: segundo a comissão da ONU dos direitos humanos, 1 bilhão de pessoas necessita de uma moradia adequada, e 10 milhões simplesmente não têm nenhuma.

Em 2008, uma outra realidade se manifesta de maneira ainda mais dramática: o crescimento da fome a nível mundial como conseqüência da penúria e do aumento vertiginoso do preço dos alimentos no mundo. O presidente do banco mundial "exortou para que se tomassem medidas imediatas para enfrentar o aumento dos preços dos alimentos, os quais causaram fome e revoltas em vários países", acrescendo que "pelo menos 33 países enfrentam protestos e instabilidade devido à falta de comida". O secretariado da FAO, Jacques Diouf, afirmou que "nos últimos nove meses o preço dos alimentos subiu em média 80% e que existe escassez de arroz, milho e trigo". Por sua parte, o chefe do FMI, Dominique Strauss-Kahn, alertou que "o aumento dos preços dos alimentos poderia ter conseqüências graves para a população dos países em desenvolvimento".

O que preocupa toda essa gente são mais as conseqüências sociais da fome de que os sofrimentos desta. Houve uma série de revoltas contra a fome em vários países. "Há protestos na Guiné, Marrocos, Mauritânia, Moçambique, Nigéria e Senegal. Em Camarões, causaram 40 mortos. Na Costa de Marfim e Burkina Fasso, as manifestações se transformaram em saques e violências, enquanto no Egito sete pessoas morreram nos tumultos na tentativa de receber pão subsidiado. Uzbekistão, Yemen, Bolívia e Indonésia estão conhecendo uma situação semelhante. Os preços elevados dos alimentos colocaram este fora do alcance de milhões de pessoas, e a situação só faz se agravar." (Fonte Site semana.com).

Um caso mais próximo geograficamente foi o do Haiti no início do mês de abril onde os habitantes da capital, Porto Príncipe, e de outras cidades manifestaram durante cinco dias contra a escassez e o aumento do preço dos alimentos básicos, cujos preços foram multiplicados por três desde novembro de 2007. As manifestações deixaram um saldo de entre cinco e oito mortos, em conseqüência da repressão pelas forças da ONU estabelecidas no Haiti, comandadas pelo exercito brasileiro.

A crise empurra a burguesia à guerra

O afundamento do capitalismo na sua crise vai acentuar as tensões imperialistas entre nações ao tempo em que situação já é insuportável neste plano:

  • O lodaçal iraquiano com seus massacres quotidianos da população civil;
  • As ameaças de guerra no Oriente Médio, notadamente com a rivalidade entre Israel e os Estados-Unidos de um lado e do outro o Iran que quer assumir um papel imperialista regional;
  • Os atentados no Afeganistão evidenciam a impossibilidade de conseguir ao menos um momento de sossego nesta escala de tensões;
  • Etc.

Há menos de dois meses um aceno de guerra se levantou no continente Sul-americano através medida de força entre Columbia e Equador que envolveu vários países da região, principalmente a Venezuela que mobilizou tropas na fronteira colombiana, em "solidariedade" ao Equador. Este conflito é resultado da instabilidade induzida na região pelos Estados-Unidos para tentar pôr ordem no seu próprio "pátio traseiro" e do fato que um governo como o da Venezuela se aproveita das dificuldades deste país no plano imperialista mundial, para tentar alçar a condição de potência regional.

O conflito Equador-Colombia não é nada mais que uma expressão das tensões na região onde todos os países, sem exceção, aumentam suas despesas militares e de influência geopolítica. O Brasil é um dos países que tem passado a jogar um papel de primeira ordem com potência regional. Com Lula, foi capaz de levar a cabo uma política mais discreta e eficaz de que a de Chávez e de se posicionar como verdadeira potencia regional, competindo ou complementando (segundo as circunstancias) os próprios Estados-Unidos.

A crise é o fomento da luta de classe

A situação atual não é somente a reedição em maior escala de todas as manifestações da crise desde o final dos anos 1960. Essas últimas se expressam de maneira mais uniforme, simultânea e explosiva conferindo assim à catástrofe econômica uma qualidade nova e propícia ao questionamento radical deste sistema.

Desde 2003 o proletariado mundial tende retomar suas lutas, demonstrando nessas um desenvolvimento significativo e uma tendência a lutas massivas (as recentes greves de 400 000 funcionários públicos na Grã-bretanha), manifestações crescentes de solidariedade ativa entre operários de diferentes setores (Opel e Nokia em Alemanha) ou nacionalidades (Dubai na construção civil), ultrapassando o quadro sindical (Bélgica no pólo petroquímico BP), a resistir as ameaças inclusive físicas por parte da burguesia (Turquia na construção naval, Egito na industria têxtil).

Tem de se tomar em conta o caminho que nossa classe está percorrendo através do número impressionante de lutas no mundo com um caráter cada vez mais simultâneo. Assim, desde o começo deste ano, houve lutas importantes ou significativas nos países seguintes:

  • Europa: Alemanha, Bélgica, Grécia, Irlanda, Itália, Rússia, Suíça, Turquia, Romênia, Polônia;
  • África: Argélia, Camarões, Suazilândia, Tunísia;
  • Américas: Canadá, Estados-Unidos, México, Venezuela;
  • Ásia: China, Emirados, Israel, Egito, Irã, Vietnam;

Diante da crise do capitalismo, só há uma via: desenvolvimento internacional da luta de classe, unificação do combate com a perspectiva da derrubada deste sistema bárbaro.

(22 de abril 2008)