Debate sobre a violencia

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A propósito do artigo publicado na nossa página em francês "Sabotagem das linhas de trem: Atos estéreis instrumentalizados pela burguesia contra a classe operária[1], um companheiro dirigiu 2 comentários na nossa página em francês e em espanhol [2] onde pede solidariedade para com as pessoas detidas pelo Estado francês e comenta o seguinte:

"O estranho é que a CCI, que tanto condena o aparato da esquerda do capital neste caso tem dito EXATAMENTE O MESMO que o principal líder da esquerda capitalista francesa, Besancenot, que de imediato, IGUAL  a CCI, passou a dizer que a sabotagem não é um método de luta operária e condenou aqueles militantes proletários que tão sinceramente combatem o capitalismo.

Por fim. Veja a coincidência, a CCI y Besancenot opinam o mesmo.

Tomara que reflitam sua posição.

Saudações."

"Espero que não tomem por mal, é um chamamento em bons termos a que repensem sobre a grande coincidência da sua condenação a estes atos [publicada em francês] com as palavras expressas por Besancenot e pelos sindicatos,  que para ficar bem com seus chefes da burguesia tem falado justamente o que esta queria que se criminalizasse a quem (independente de que estamos de acordo com suas táticas o não) desprezam e combatem sinceramente a esta sociedade exploradora"

Esses dois comentários têm provocado um debate muito ativo onde, de uma maneira honrada e aberta, esse leitor e o outro que assina "Um Companheiro" - cujas posições compartilhamos e saudamos - tem trocado posicionamentos em prol da clarificação [3]

Com intuito de contribuir com este debate vamos responder as questões colocadas.

Concordamos com o companheiro na denuncia clara que faz ao terrorismo de Estado. Nosso leitor afirma que a burguesia "tende a ampliar sua definição de "terrorismo" ao menor ato que rompa com a ordem democrática" e denuncia que com isso pretende "ocultar a natureza fundamentalmente terrorista da sua dominação, assimilando exclusivamente o terrorismo às reações violentas do proletariado, amalgamando deliberadamente as ações que estão situadas em um terreno de classe e as que se encontram em terrenos aclassistas, reformistas, religiosos, de libertação nacional, etc."

Na realidade a penalização dos jovens que se viram envolvidos nesse assunto, é uma montagem do Estado com o objetivo de desenvolver uma campanha ideológica contra o que na França se denomina a "ultra-esquerda". Esta campanha se propõe fazer de tal maneira que todos os que estão na esquerda de Besancenot [4] sejam considerados enquanto perigosos terroristas.

Não é a primeira vez que tais campanhas se dirigem contra "todos os que não se inserem no jogo democrático" porque há alguns anos se organizaram campanhas "anti-revisionistas" que tratavam de desprestigiar de maneira específica a Esquerda Comunista. Para lembrar o que à época aconteceu, essas campanhas pretendiam amalgamar aos revisionistas (que negavam a existência de câmaras de gás durante a Segunda Guerra Mundial) com os internacionalistas que denunciavam os dois bandos - o democrático e o fascismo - como capitalistas e imperialistas.

Há que denunciar a repressão que se abateu sobre os jovens culpados e que, pelo que se sabe, não têm nada a ver com os atos de que são acusados; atos que, caberia acrescentar, não devem ser confundidos com terrorismo, pois não se propõem colocar em perigo a vida dos passageiros. Tudo isto soa como uma montagem do Estado bastante grosseira.

Não denunciar é uma coisa, aceitar e apoiar são outra muito distinta!

Pois bem, se é necessário denunciar a repressão e não criminalizar a esses elementos, também não devemos aceitar a idéia de que tomam parte da classe operária. Não são membros dela no sentido sociológico do termo, porém o mais importante é compreender que não são militantes da classe operária - seja qual for a sua origem sociológica.

Pode acontecer o fato de que proletários exasperados e desesperados se impliquem em atos individuais o minoritários de sabotagem. Nós de maneira alguma os condenaremos.

Entretanto, convém não misturar as coisas: não condená-los não significa aceitar os métodos que preconizam ou ser ambíguos sobre eles. Estes métodos, baseados em atos individuais o minoritários de sabotagem, não servem nem "conscientizar a classe operária" nem para contribuir ao desenvolvimento da sua luta. Pelo contrário, debilitam ambas.

Por isso, devemos por em defensiva a classe operária sobre tais métodos que não somente não participam em nada no seu combate como classe, mas que, além disso, contribuem para que elementos operários se vejam expostos a de maneira inútil a repressão [5].

Quando se produzem de maneira anônima uma sabotagem ou ato de violência contra uma instituição do capital (bomba lançada a um edifício público, atentado contra um representante do sistema etc.) nos perguntamos sempre quem pode ser o autor: Se trata de um grupo que reivindica sinceramente a destruição do capitalismo, o estamos diante de um provocador da polícia ou inclusive um grupo de extrema direita [6]? Essa pergunta surge diante do fato de que tais métodos podem ser indistintamente utilizados por classes muito diferentes - proletários, burgueses, pequenos burgueses - e pelas tendências políticas mais variadas.

No entanto essas questões não se colocam quando estamos diante de ações como greves por reivindicações de classe, assembléias gerais, tentativas de extensão e unificação dos movimentos de luta etc. Diante delas não cabe nenhuma dúvida possível: se trata de ações do proletariado que vão ao sentido da defesa dos seus interesses. Este tipo de ações - qualquer que sejam suas debilidades e limitações - favorece o desenvolvimento da consciência da classe operária, sua confiança em si mesma, seus sentimentos de solidariedade e não podem servir aos interesses da burguesia.

Em troca, as ações do primeiro tipo, além do mais, em si mesma são confusas, pois podem ser reivindicadas pelas mais variadas tendências políticas e ideológicas e as mais distintas camadas sociais e especialmente por frações pertencentes à própria burguesia, não favorecem em nada a confiança em si do proletariado: como podem favorecer esta se pressupõem que uma minoria clandestina substitui a classe na tarefa da luta contra o capital?

Outro argumento que emprega o companheiro é que os termos da nossa crítica aos métodos de sabotagem poderiam ser semelhantes aos que emprega Besancenot. Este argumento coloca certo numero de considerações que se referem à origem dos partidos de esquerda e extrema esquerda do capital e a função que atualmente tem frente à classe operária.

A capacidade de enganar e influenciar que tem esses partidos na classe operária e que fazem que sobre esse plano sejam mais eficazes do que seus congêneres da direita, se apóia em que tiveram origem no movimento operário e que, em um momento dado sua existência, constituíram uma autentica vanguarda da classe operária para posteriormente degenerar, trair e converter-se em engrenagem do Estado capitalista.

Apoiados nessas origens remotas conservam no seu discurso certo número de temas e de referências que fazem parte do patrimônio da classe operária: Será que podemos renunciar a elas porque essas organizações burguesas se as apropriaram e as utilizam para os seus interesses espúrios? Pensamos claramente que isso seria um erro. Por exemplo, não podemos renunciar à perspectiva do socialismo pelo fato de que a extrema esquerda fala igualmente de "socialismo". Se esses partidos enchem a boca com a "unidade da classe operária" não podemos renunciar a luta sincera e concreta por dita unidade. Da mesma forma, o proletariado tem uma larga experiência acerca das provocações policiais contra sua luta que faz parte do patrimônio do seu combate histórico e que seu movimento atual deve reapropriar-se especialmente frente ao futuro. Que os partidos de esquerda ou extrema esquerda falem de "provocação policial" não pode impedir aos revolucionários atuais reconhecer que existe e defender frente a ela as posições clássicas do movimento operário.

A luta do proletariado constitui o verdadeiro desafio à dominação capitalista

O companheiro faz a seguinte afirmação "e como a maioria da classe operária ainda não é capaz de compreender essas ações, graças aos meios burgueses percebem seus próprios irmãos de classe que enfrentam o Estado-capital como "delinqüentes", "vândalos", "terroristas", já que eles estão contaminados até a medula da ideologia cidadã, condenemos aos que se atrevem, para que os "operários-cidadãos" não se assustem e possam somar-se às nossas bem comportadas mobilizações"

Se bem entendemos essa afirmação, nosso leitor acredita que, para ser capaz de organizar "grandes movimentos de massas", propomos não "assustar" os operários mais atrasados contaminados pela ideologia cidadã e por isso rechaçaríamos as ações violentas dos que "enfrentam o capital".

Os movimentos de massas do proletariado não são o produto da convocatória de um punhado de revolucionários [7]. Os movimentos de massas do proletariado são o produto de um processo histórico no qual intervêm por sua vez o desenvolvimento das condições objetivas e a maturação subjetiva do proletariado. Precisamente desde o ponto de vista da contribuição que podemos oferecer e essa maturação subjetiva é crucial rechaçar os métodos e ações minoritárias de violência. Pois tais métodos fomentam a passividade e a delegação da luta coletiva a um grupo de "heróis anônimos", de "salvadores bem-intencionados" que golpeariam o capital. E ao mesmo tempo geram um sentimento de impotência e frustração, pois qualquer um com dois passos à frente compreende perfeitamente que tais "audácias" não são outra coisa que "picadas de mosquito na pele de um elefante" [8]

Somos plenamente conscientes de que a luta de classe e a confrontação com o Estado não são pacíficas e expõem a classe operária e as suas minorias revolucionárias aos golpes da repressão. Essa violência faz parte inevitável do processo revolucionário. No curso do seu desenvolvimento, as lutas da classe operária adotam medidas de resposta a violência do Estado burguês, respondem ao seu terror  e repressão com a violência de classe do proletariado [9]

A violência não se reduz a choques com a polícia, as ações de ataque à circulação de mercadorias, os bloqueios à produção, o ataque a instituições da propriedade privada (bancos, automóveis de luxo etc.). Isto seria uma visão muito restritiva e profundamente superficial. Rosa Luxemburgo assinala em Greve de massas partido e sindicatos que "diferentemente da polícia que entende por revolução simplesmente a batalha de rua e a luta, quer dizer a "desordem", o socialismo cientifico vê antes de mais nada na revolução uma transformação interna e profunda das relações de classe[10]. Para o proletariado, a questão da violência é política e consiste em como estabelecer uma relação de forças favorável contra a burguesia e seu Estado de tal maneira que o permita resistir aos seus ataques e poder passar a ofensiva pela sua destruição definitiva.

.A violência do capital e seu estado se expressa através das balas, dos gases lacrimogêneos, das prisões e das câmaras de tortura, porém existe uma violência muito mais daninha e perniciosa que serve muito mais eficazmente a defesa dos interesses do capital: é o atentado permanente que a sociedade capitalista perpetra contra a unidade e a solidariedade da classe operária, o bombardeio de que desde todos seus poros lança no sentido da divisão, a atomização, a concorrência, a passividade e o sentimento de culpa. O Estado democrático sem renunciar nem muito menos a violência física e o mais cínico terror, é um renomado especialista no desenvolvimento dessa violência, insidiosa e profundamente destrutiva.

O primeiro passo para enfrentar ambas as classes de violência consiste nas tentativas conscientes para romper a atomização, sair da passividade e do "cada um com os seus assuntos", superar o isolamento e a divisão, desenvolver a solidariedade operária rompendo as cercas da empresa, do setor, da nacionalidade, da raça etc., debater amplamente e sem restrições sobre as necessidades e os problemas da luta geral.

Tudo isso pode parecer demasiado "pacífico", muito "ordenado" e "controlado", a quem identifica unilateralmente a "luta" com a desordem e o choque físico e não são capazes de compreender o potencial que encerram os movimentos genuínos do proletariado. Seus movimentos coletivos, o desenvolvimento de sua capacidade para organizá-los enfrentando o controle dos sindicatos e demais instituições do Estado, constituem a violência mais eficaz contra a dominação capitalista.

CCI 18-12-08

 

[1] Ver a tradução em espanhol em http://es.internationalism.org/ccionline/2008_trenes

[2] Esses dois comentários em espanhol junto com o debate que tem se desenvolvido estão publicados no Anexo I deste artigo no site em espanhol.

[3] Tem intervindo um terceiro participante que embora tenha defendido idéias justas empregava um tom agressivo com o primeiro participante e o amalgamava com grupos ou ideologias das qual este não se reclamava, o que não favorece um debate proletário.

[4] O líder carismático da ex- Liga Comunista Revolucionária - trotskista - agora convertida no Novo Partido Anticapitalista.

[5] É importante compreender que a prática de atos de sabotagem, de violência minoritária etc., deixa um flanco fácil para a infiltração dos serviços do Estado que podem inclusive fomentá-los com o objetivo de utilizarem contra a classe operária ou suas minorias revolucionárias. Colocar em evidência esse problema não significa denunciar ou culpabilizar pessoas que de forma honesta se implicam nesse tipo de prática. Denunciamos o culpado - O Estado burguês e seus serviços de inteligência - não a vítima.

[6] Como aconteceu, por exemplo, na Itália nos anos 70 onde numerosos atentados executados pela extrema direita foram atribuídos pela imprensa e demais órgãos do Estado a anarquistas e imediatamente se demonstrou de forma incontroversa que os seus verdadeiros autores eram elementos da extrema direita.

[7] Da mesma maneira que a tarefa dos elementos mais avançados da classe operária não é despertá-la com atos de heroísmo individual tão pouco é sua tarefa instituirem-se nos seus organizadores e dirigentes.

[8] O companheiro assinala que "me custa muito entender que digam uma e outra vez (se refere a CCI) que essas ações são festejadas pelo aparato da esquerda do capital, quando são os primeiros que saem não só a condenar, como também a apontar e delatar os próprios companheiros que repudiam as passeatas aborrecidas e pacifistas as quais convocam os sindicatos e os partidos de esquerda". Na realidade não são contraditórias ambas as atitudes. Tomando como exemplo os sindicatos estes em algumas ocasiões organizam manifestações - passeatas porém em outras ocasiões, segundo suas necessidades de sabotagem da luta operária, organizam manifestações violentas de choque com a polícia ou de destruições de vitrines, lançamentos de petardos etc.. A manifestação - passeata pacifista se usa para enterrar uma luta enquanto a manifestação - enfrentamento se utiliza para desviar a luta para um choque no isolamento. Por outro lado, os chefetes sindicais por vezes muito cínicos, empurram os operários a ações desesperadas, são os primeiros em denunciar perante a polícia esses companheiros, inclusive sendo membros do sindicato. Há muitos exemplos disso.

[9] Ver os artigos publicados na Revista Internacional nº 14 y nº 15 sobre violência de classe, terror e terrorismo. http://es.internationalism.org/rint/1978/14_violencia y http://es.internationalism.org/node/2134

[10] Rosa Luxemburgo, Greve de massas, partido e sindicatos; Obras Escolhidas - Tomo II, página 343 da edição espanhola.