Apresentação à edição em francês de O trotskismo contra a classe operária

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O desaparecimento do bloco russo, a falência evidente e definitiva do stalinismo no plano econômico, político e ideológico, constituíram os acontecimentos históricos mais importantes desde a segunda guerra mundial juntamente com o ressurgimento internacional do proletariado no final dos anos 60. Um acontecimento de tal amplitude já produziu repercussões sobre a consciência da classe operária, e isso tanto mais no que concerne a uma ideologia e um sistema político apresentado durante mais de meio século por todos os setores da burguesia, como "socialista" e operário. Com efeito, o stalinismo, é o símbolo e a ponta de lança da mais terrível contrarrevolução da história que desaparece.

Porém um desencadeamento de mentiras acompanhou este acontecimento e, em primeiro lugar, a principal e mais canalha dentre elas: a que pretende que esta crise, esta falência do stalinismo, é a do comunismo e do marxismo. Democratas e stalinistas sempre têm se encontrado, acima das suas oposições, em uma santa aliança cujo primeiro fundamento é afirmar aos operários que foi o socialismo que reinou no leste europeu apesar das suas deformações. Para Marx, Lênin, Luxemburgo e para o conjunto do movimento marxista, o comunismo sempre significou o fim da exploração do homem pelo homem, o fim das classes, o fim das fronteiras, não sendo possível este, mas que em escala mundial, em uma sociedade onde reine a abundância, onde o "reino do governo dos homens ceda lugar ao da administração das coisas" e cujo fundamento é "a cada um segundo suas necessidades, de cada um segundo suas capacidades".

Pretender que havia algo de "comunista" ou da entrada na via do "comunismo" na URSS e nos países do Leste onde reinava completamente a exploração, miséria, penúria generalizada, representa a maior mentira de toda a história da humanidade.

Esta série de artigos da imprensa da CCI põe em evidência a origem dos erros de Trotsky, mostra como fundamentalmente ele não soube reconhecer a tempo o fracasso da revolução proletária mundial e por isso o da revolução na Rússia. Desde sua expulsão da Rússia, em 1929, até seu assassinato, Trotsky não fez mais que interpretar o mundo ao contrário e participar ativamente à defesa das posições oportunistas que se desenvolveram com o refluxo revolucionário: conquista dos sindicatos, parlamentarismo, aliança com frações da burguesia, apoio às lutas de libertação nacional, governo operário e camponês.

Enquanto a tarefa daquele momento era o reagrupamento das energias revolucionárias sobreviventes da derrota para empreender antes de tudo um balanço político completo da onda revolucionária, Trotsky ao invés de ver um proletariado completamente derrotado via o proletariado "sempre em ascensão". Devido a isto a IV Internacional criada há mais de 50 anos, não foi mais que um casarão vazio através do qual o movimento real da classe operária não podia passar, pela simples e trágica razão do refluxo contrarrevolucionário. Toda ação de Trotsky baseada nesse erro contribuiu para dispersar as já muito fracas forças revolucionárias existentes nos anos 30 e ainda pior, colocar no lamaçal capitalista do apoio "crítico" aos governos do tipo "frentes populares" e da participação na guerra imperialista. O corolário de análises errôneas de Trotsky sobre o período consistia em considerar que o movimento revolucionário sempre em marcha havia perdido momentaneamente sua direção política. A partir daí, todo meio se tornava válido para tentar impulsionar ou direcionar os "partidos operários degenerados" que eram os ditos partidos comunistas stalinistas, embora estes já tinham passado ao campo da contrarrevolução. Todo meio se tornava bom para tentar colocar-se à frente do movimento.

Os epígonos de Trotsky não têm feito mais que explorar, em benefício da burguesia, este raciocínio equivocado do velho revolucionário para afundar ainda mais a classe operária na contrarrevolução. Retomando os erros do seu mestre e lavando até a sua caricatura, as organizações trotskistas não demandaram muito tempo para galgar e ocupar francamente seu lugar no tabuleiro político burguês, ao lado de todos aqueles que de uma ou outra maneira trabalham com a finalidade de que se perpetue este sistema de exploração. Seu apoio a URSS de Stalin, aos PC´s stalinistas, à social-democracia, às frentes populares, à participação da quase totalidade das organizações trotskistas na Resistência durante a Segunda Guerra Mundial, consumaram-se outras tantas ligações na sua passagem para o campo da burguesia, no seu abandono das posições comunistas internacionalistas desembocando com o apoio a todas as lutas de libertação nacional [1].

Agora que já não há nenhuma dúvida sobre a natureza burguesa dos países do Leste, dos seus Estados e dos PC´s, os trotskistas - qualquer que sejam suas "denúncias" dos atuais regimes bárbaros do Leste e das "proclamações de inocência" em relação ao seu conluio com o stalinismo - já não podem ocultar que são real e profundamente : contrarrevolucionários, mistificadores e inimigos da classe operária, como era o stalinismo.

Mas além da compreensão das fases históricas que têm marcado a passagem do trotskismo ao campo da burguesia, resta atualmente para a classe operária a questão do posicionamento das organizações trotskistas diante da luta de classe.

Desde a retomada da luta de classes nos finais dos anos 60, a atitude das organizações trotskistas, em geral, pode ser resumida assim: durante o período dos anos 70, quando os partidos de esquerda e os sindicatos dominavam bem a situação, quando estavam em uma posição forte onde podiam manter a ilusão no seio da classe operária de que eles eram capazes de propor outra política "a favor dos operários", e que "permitiria sair da crise", nesses movimentos, os trotskistas tem sustentado abertamente a esquerda e os sindicatos sob pretextos falaciosos, tipo "vão num bom sentido". Pelo contrário, nos anos 80, quando a tendência era a situação de lutas abertas e massivas em que os partidos de esquerda e sindicatos tendiam perder o controle da situação, o papel dos trotskistas consistia então, "ao lado dos operários", em criticar fortemente a esquerda e os sindicatos e em tratar de se colocar como representantes verdadeiros, de "base", dos operários para sabotar as lutas e devolvê-las ao leito dos sindicatos, explicando que não se pode passar por cima deles e que havia de trabalhar sobretudo pela sua renovação, certamente elegendo-os chefes do sindicato.

A edição desta série de artigos tem por objetivo principal colocar em evidência a natureza burguesa do trotskismo e a fronteira de classe que o separa do proletariado e das suas verdadeiras organizações revolucionárias.

(Segundo a apresentação de Fevereiro 1990)


 

[1] É assim que os trotskistas têm consolidado seu lugar eminente em um campo imperialista burguês: o dos países do pacto de Varsóvia e têm concorrido para a edificação do mito do socialismo na Argélia, Cuba, Vietnam, Camboja, etc. Nesses países numerosos proletários têm sido massacrados em nome do socialismo.