O que é o marxismo?

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Se hoje colocamos a questão, deve-se em muito porque vimos florescer nos dias atuais, nas livrarias, particularmente na Europa, este tipo de título na capa de revistas:

  • Marx ainda está vivo (Challenges, dezembro 2007)
  • Marx, de volta (Correio Internacional, julho 2008)
  • Marx, as razões de um renascimento (O magazine literário, Outubro de 2008)
  • A grande volta de Marx (O novo observador, agosto de 2009)

Todos eles, no seu estilo, bajulam o gênio deste "grande pensador".

Este amor repentino pode surpreender. Há pouco, alguns anos atrás, Marx era apresentado como o diabo. Françoise Giroud (jornalista e mulher política na França) até escreveu uma biografia de Jenny Marx, a mulher de Karl, intitulada nada menos de que Jenny Marx ou a mulher do diabo! Tudo era culpa dele: os horrores do stalinismo, os campos de trabalho na Sibéria e na China, a ditadura de Ceausescu. Segundo essa propaganda, quase que Marx pariu o regime sanguinário de Pol Pot no Camboja.

Então, porque esta reviravolta? Acontece que a crise econômica passou por aí. A situação atual inquieta profundamente a classe operária. E uma parte dela, uma parte ainda pequena, tenta entender porque o capitalismo está caduco? Como resistir à degradação das condições de vida? Como lutar? E, sobretudo, - o que é mais difícil hoje - saber se realmente outro mundo é possível.

Naturalmente, para conseguir essas respostas, alguns se dirigem a Marx. Tem que assinalar que as vendas do Capital aumentaram recentemente. Obviamente, não é um fenômeno massivo; ele não considera o conjunto da classe operária. Mas isso, este início de reflexão já inquieta a burguesia.

A burguesia tem horror de que os operários comecem a pensar por si sós. Ela está sempre preparada para enchê-los de sua propaganda, de suas mentiras ou hoje de sua visão de Marx, de sua visão do marxismo.

Hoje, apresentar Marx como o diabo não basta mais par impedir que haja um interesse por sua obra. Muito bem, então a burguesia tem de mudar de tática: ela se apresenta adocicada, amável e reverente diante do velho barbudo para melhor apunhalá-lo pelas costas.

Segundo todas estas revistas, Marx foi realmente um gênio:

  • um gênio em economia. Não foi ele, como dizem eles, que tinha denunciado, bem antes do papa o papel desastroso do dinheiro principal fator de injustiça?
  • um grande filósofo;
  • um grande sociólogo;
  • e até um precursor da ecologia!

A burguesia esta pronta para reconhecer todos os talentos de Marx .... Todos, tudo e qualquer coisa, salvo um, que era um grande combatente da classe operária.

Tem muitas coisas a serem discutidas em torno da questão O que é o marxismo? O tema é muito amplo. Este curto texto tem como objetivo defender uma idéia essencial para nós: Marx não foi um acadêmico ou um pensador encerrado no seu gabinete. Marx foi um revolucionário. E o marxismo é uma arma teórica forjada pela classe operária para derrubar o capitalismo. Para dizê-lo de outra maneira, como Lênin, "O marxismo é a teoria do movimento libertador do proletariado" (A falência da segunda internacional, 1915).

Como a classe operária conquistou Marx para o comunismo

Marx não nasceu comunista. Ele se tornou comunista. E foi a classe operária que o converteu. Quando jovem, Marx era muito crítico em relação às teorias comunistas. Para ele, nessa época, as idéias comunistas são idealistas e democráticas. Eis o que dizia destas:

  • - Elas não podem ser creditadas de uma realidade teórica e menos ainda prática[1].
  • - "O comunismo é uma abstração dogmática" (Carta a Ruge)

Na realidade, desde que na terra existem oprimidos, os homens sonham com um mundo melhor, com um tipo de paraíso na terra, onde todos os homens seriam iguais, onde reinaria a justiça social. Era o caso dos escravos. Também o dos servos (camponeses). Na grande revolta de Spartacus contra o império romano, os escravos revoltados tentaram estabelecer comunidades. As primeiras comunidades cristãs pregavam a fraternidade humana e tentaram instituir um comunismo dos bens. John Ball, um entre os líderes da grande revolta dos camponeses na Inglaterra em 1381 (e houve muitas revoltas camponesas contra o feudalismo) dizia: "Nada poderá caminhar direito na Inglaterra enquanto tudo não for gerado em comum; até que não existam mais nem lordes e sequer vassalos".

Entretanto, só podia tratar-se de um sonho. Um belo sonho, mas um sonho. Na Grécia ou Roma antiga, na idade média, etc., edificar um mundo comunista era impossível.

  • Primeiro porque concretamente a sociedade não produzia bastante para satisfazer o conjunto das necessidades. Só uma minoria, ao explorar a maioria, podia viver no conforto.
  • Também não existia uma força social bastante potente capaz construir um mundo comunista: os escravos ou camponeses só podiam ser massacrados a cada revolta.

Em resumo, nessas condições, as idéias comunistas só podiam ser utópicas.

A classe operária, como classe explorada, retomou por sua conta esses velhos sonhos. No século 18 e no início do 19°, na Inglaterra e, sobretudo, na França, ela tentou instaurar comunidades "comunistas". Pensadores tentaram elaborar a partir da sua imaginação um mundo perfeito. É por isso que além de serem utópicos, esses projetos eram dogmáticos, como Marx os caracterizava.

Essas idéias comunistas eram dogmáticas, pois totalmente inventadas a partir de ideais intemporais e imutáveis como era a idéia de Justiça, do Bem, da Igualdade. Essas idéias não se elaboravam pouco a pouco com uma ida e volta permanente entre a realidade e o cérebro dos homens, mas a realidade era convidada a bem querer aceitar as exigências do pensamento e seus desejos de Justiça, Igualdade, etc. 

Então, o que fez Marx mudar de idéia? Porque ele vai finalmente aderir ao comunismo? É a experiência da luta de classe. Através da luta dos tecelões de Silésia em 1844 ou, pouco mais tarde, da luta do proletariado na França em 1848, Marx vai perceber na realidade deste combate o motor indispensável da transformação do mundo, uma promessa viva e dinâmica para o futuro, uma possibilidade pela primeira vez de marchar para o comunismo.

Eis algumas linhas que demonstram até que ponto Marx foi impressionado pelo que viveu: "Quando os artesãos comunistas se associam, sua finalidade é inicialmente a doutrina, a propaganda (...)  . A vida em sociedade, a associação, a conversa, que por sua vez tem a sociedade como fim, lhes bastam. Entre eles, a fraternidade dos homens não é nenhuma fraseologia, mas sim uma verdade, e a nobreza da humanidade brilha nessas figuras endurecidas pelo trabalho." (Manuscritos Economicos e Filosóficos -terceiro manuscrito- pag.21 - Karl Marx, Os pensadores, Abril Cultural, 1978 )

Esta descrição lírica expressa que Marx se dá conta que, ao contrário das classes exploradas do passado, o proletariado é uma classe que trabalha de maneira associada. Isso significa, para começar, que só pode defender seus interesses imediatos por meio de uma luta associada, ao unir suas forças. Mas isso significa também que a resposta final a sua condição de classe explorada só pode residir na criação de uma real associação, de uma sociedade fundada na livre cooperação. E sobretudo, esta associação tem pela primeira vez "os meios de suas ambições" porque pode se apoiar sobre os progressos enormes, resultado da indústria capitalista. Tecnicamente a abundância se torna possível. Com os progressos trazidos pelo capitalismo, é doravante possível satisfazer as necessidades de toda humanidade. E tudo isso Marx entendeu graças à classe operária.

O marxismo é uma arma teórica que só podia ser forjada pela classe operária.

Para resumir. Ao colocar-se do ponto de vista da classe operária e ao aderir a seu combate revolucionário, ao considerar as potencialidades do proletariado e as contradições e crises que atingem o capitalismo, Marx e Engels, pouco a pouco chegaram a entender que o comunismo se tornava  ao mesmo tempo possível e necessário.

Possível:

  • Por conta do desenvolvimento das forças produtivas, em escala mundial, sem a qual não poderia haver abundância nem completa satisfação das necessidades humanas;
  • Graças à entrada em cena do proletariado, primeira classe explorada que, ao afrontar o capital mundial, será levada a ser o coveiro do velho mundo.

Necessário:

  • Por conta da natureza necessariamente efêmera do capitalismo.

Marx e Engels nunca teriam entendido isso se não tivessem sido, antes de tudo, combatentes da classe operária!

Com efeito, só uma classe cuja emancipação é necessariamente acompanhada pela emancipação de toda humanidade; cuja dominação sobre a sociedade não implica uma nova forma de exploração, mas a abolição de toda exploração; só esta classe podia ter uma apreensão marxista da história humana e das relações sociais.

Todas as outras classes eram e ainda são incapazes disso. Já dissemos isso a propósito dos escravos ou dos servos. Para eles, outro mundo só podia ser imaginário; seu procedimento e seu pensamento só podiam ser utópicos, idealistas. Quanto às classes dominantes, os donos, os nobres ou os burgueses, não podiam e não podem ainda hoje encarar a realidade, estudar objetivamente a evolução da história humana e seu próprio mundo, pois irremediavelmente estariam na obrigação de ver que sua classe, seu mundo, seus privilégios estão condenados a desaparecer.

A nobreza achava que era investida de um desígnio divino e, por isso, eterno. Como podia ela entender qualquer coisa relativa à evolução das sociedades humanas?

Outro exemplo, mais concreto e atual. Marx é hoje saudado por muitos economistas que procuram no seu célebre Capital soluções para enfrentar a crise atual. Seria melhor que não se cansassem inutilmente, pois não vão entender nada na obra de Marx. Se Marx mergulhou na economia, não foi por gostar, pois detestava isso. Foi para entender como, e através de quais mecanismos o capitalismo estava gangrenado a partir do seu âmago e assim condenado a morte. Seu objetivo era totalmente diferente dos economistas da nossa época. Não se tratava para ele de encontrar a cura para as doenças do capitalismo, mas de combatê-lo e preparar sua derrubada. O que obviamente é inaceitável, até insuportável, para todos estes doutores em ciências e demais especialistas da mistificação ideológica.

Adotar um procedimento científico e objetivo sobre a questão da história das sociedades humanas, sobre a questão social, isso significa necessariamente se dar conta que existiram diferentes modos de produção: o comunismo primitivo, o escravismo, o feudalismo e o capitalismo; e talvez depois tenha o comunismo.

Porque essa sucessão?  Porque as capacidades produtivas da humanidade evoluíram, e também evoluiu a maneira cuja sociedade se organizava para produzir. E o motor desta evolução é a luta de classe. Com isso, dá claramente para entender porque o marxismo - este procedimento científico e objetivo aplicado à história das sociedades e à questão social - é necessariamente inacessível à burguesia. Muito simplesmente porque a conclusão lógica deste procedimento é que o capitalismo deve desaparecer e, com ele, os privilégios da burguesia.

 O marxismo: um método científico revolucionário e vivo

Quando nos fala hoje a torto e a direito de Marx e do marxismo, a burguesia tenta escamotear essa realidade combatente do marxismo por detrás das suas mentiras e falsificações. Como dizia Lênin, em O estado e a revolução, a burguesia tenta converter os revolucionários em ídolos inofensivos, depois de tê-los perseguido quando vivos. Na mesma passagem de seu texto, ele diz também palavras particularmente apropriadas à propaganda atual cujo objetivo é "emascular a substancia de seu ensinamento revolucionário, o trinchante deste; trata-se de atenuá-lo, aviltá-lo" [2].

Devemos, ao contrário, afirmar que Marx era um combatente revolucionário. E até mais: só um militante revolucionário pode ser marxista. Esta unidade entre o pensamento e a ação é justamente um entre os fundamentos do marxismo. Com efeito, não se trata apenas de interpretar o mundo como fizeram até agora os filósofos, "trata-se agora de transformá-lo" [3] como assinala Marx nas Teses sobre Feuerbach. No Manifesto comunista encontramos também essa insistência sobre o fato que "As concepções teóricas dos comunistas não se apóiam de maneira alguma sobre idéias inventadas" por reformadores, mas sim "expressam as condições reais de uma luta de classes que existe"  [4].

O marxismo não é uma disciplina acadêmica, como também não é um sem número teorias mudas e bastante inofensivas, sequer uma utopia, uma ideologia, um dogma. Ao contrário! É o que expressa o estilo flamejante de Rosa Luxemburgo que citaremos como conclusão: "O marxismo não é representado por meia dúzia de pessoas que se conferem mutuamente o direito de se apresentarem como ‘especialistas', pessoas em que a grande massa tem de acreditar cegamente, como fazem os fiéis do islamismo.

Marxismo é forma revolucionária de cosmovisão, sempre em busca de novas descobertas, que nada mais detesta que a cristalização em formas de validade definitiva, e a melhor maneira de garantir seu vigor é dedicar-se à autocrítica e atentar para a História." (Rosa Luxemburg,  A Acumulação do Capital - Cap.Anticrítica,pag. 402  - Os Economistas- Ed.Nova Cultural )

[1] "Não se pode conceder às idéias comunistas na sua forma atual nem uma realidade teórica,  muito  menos ainda desejar sua realização prática, ou só considerá-las como possíveis." (O comunismo e a Allgemeine Zeitung d'Augsbourg)

[2] "Os grandes revolucionários foram sempre perseguidos durante a vida; a sua doutrina foi sempre alvo do ódio mais feroz, das mais furiosas campanhas de mentiras e difamação por parte das classes dominantes. Mas, depois da sua morte, tenta-se convertê-los em ídolos inofensivos, canonizá-los por assim dizer, cercar o seu nome de uma auréola de glória, para "consolo" das classes oprimidas e para o seu ludíbrio, enquanto se castra a substância do seu ensinamento revolucionário, embotando-lhe o gume, aviltando-o." (O estado e a revolução-www.marxists.org/.../estadoerevolucao/index.htm )

[3]  "Os fllósofos se limitaram a interpretar o mundo diferentemente, cabe transformá-lo" (Teses contra Feuerbach- Karl Marx, Os pensadores, Abril Cultural, 1978; pag.53)

[4] As conclusões teóricas dos comunistas não se baseiam, de forma alguma, em idéias ou

princípios inventados ou descobertos por este ou aquele pretenso reformador do mundo.

São apenas a expressão geral das condições reais de uma luta de classes existentes, de um

movimento histórico que se desenvolve diante de nossos olhos. (Manifesto comunista- http://www.culturabrasil.pro.br/manifestocomunista.htm)