Che Guevara: mito e realidade (a propósito de uma correspondência)

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Quando do aniversario da morte de Che Guevara, em 2007 recebemos no contato de Internet da nossa seção na França (Révolution Internationale) duas mensagens sobre Che Guevara de um companheiro que assina E.K. Publicamos aqui pela primeira vez em português esta correspondência entre E.K e a CCI. Para nós, CCI, não se trata de nos colocar na roda dessas celebrações que aconteceram no mundo inteiro em homenagem a memória de Che Guevara, senão, ao contrário, tentar deixar claro se foi realmente um revolucionário e se a classe operária e as gerações jovens devem ou não reivindicar-se de sua ação e exemplo.

Alguns extratos da mensagem do EK

Para o companheiro EK, Che Guevara foi um autêntico combatente pela causa dos povos oprimidos. Para ele, com efeito, "o internacionalismo do Che é indubitável. É o modelo de combatente internacional e da solidariedade entre os povos". E teria sido um dos poucos revolucionários em atrever-se a criticar o regime da URSS: "Durante o seminário de solidariedade afro-asiática, o Che critica sem rodeios as posições conservadoras e exploradoras da URSS". E EK expõe nessa primeira carta sua visão do proletariado e do papel dos revolucionários: "Quanto ao agente histórico da transformação social, parece-me que não há razões para reduzir o conceito de proletariado unicamente aos operários, negação absoluta da condição humana. (...) A tarefa dos intelectuais é introduzir no proletariado a consciência de sua situação com meios eminentemente políticos".

Depois de nossa resposta, o companheiro E.K nos mandou muito rapidamente uma segunda mensagem no que, de entrada, se desmarca de quem transforma Che em ícone, fazendo camisetas e pôsteres com sua figura: "A tendência a fazer um mito do Che mediante a midiatização de sua imagem significa ocultar sua vida e sua obra". Mas, sobretudo, EK reafirma que "ao procurar objetivos distintos, o Che acabará, como é muito lógico, separando do modelo social-imperialista da URSS. A CIA e o KGB cooperarão inclusive para livrar-se dele durante sua intentona revolucionária na Bolívia". E EK conclui: "Ernesto Che Guevara pagou com sua vida sua integridade intelectual. Render-lhe homenagem é ler seus textos; perpetuar sua memória é continuar a luta; render-lhe justiça é apoiar seus valores. Em vésperas das celebrações dos 40 anos de sua morte em combate, chegou a hora de voltar a dar força a seu pensamento e vida a suas idéias".

Nossa resposta a EK

Agradecemos-lhe sua mensagem de abril. Pedimos-lhe desculpas pelo atraso deste complemento à resposta. Queremos fazer aqui uma crítica do que nos tem escrito, que, por muito rude que pareça, não significa, tampouco, um rechaço, mas pelo contrário: continuamos dispostos a responder a suas perguntas e opiniões. Vamos contestar o que você diz sobre o Che Guevara, analisando o mais séria e sinceramente o que de verdade foram como você diz, "seus valores", "suas idéias" e "sua luta".

Che Guevara é um exemplo para a juventude revolucionária de hoje?

Este mês de outubro se celebra, portanto, o 40º aniversário da morte do Che Guevara, assassinado pelo exército boliviano, sob a direção da CIA norte-americana.

Desde 1967, o "Che" converteu-se no símbolo, por assim dizer, da eterna "juventude revolucionária romântica": morto jovem, com as armas na mão, em luta contra o imperialismo americano, grande "defensor das massas pobres da América Latina". Todo mundo tem em mente essa imagem mítica do Che com uma estrela na boina e olhar longínquo e triste.

Seu famoso Diário de viagem contribuíram em grande medida a popularizar a história deste rebelde, filho de boa família argentina um tanto boêmio, que se lança a uma viagem de moto pelos caminhos da América do Sul de então, pondo seus conhecimentos médicos ao serviço dos pobres... Vive na Guatemala em um momento (1956) em que os Estados Unidos urdem o enésimo golpe de estado contra um governo que não lhes convém. Este controle permanente sobre os países da América Latina por parte dos EUA vai alimentar em Guevara durante toda sua vida um ódio irreparável para esse país. Unir-se-á depois no México ao grupo cubano de Fidel Castro, refugiado nesse país depois de uma tentativa abortada de derrubada do ditador cubano, Batista, apoiado durante muito tempo pelos Estados Unidos [1]. Depois de uma série de peripécias, o grupo se instala na Sierra Maestra de Cuba até a derrota de Batista, nos inícios de 1959. O núcleo ideológico desse grupo era o nacionalismo. O "marxismo" não foi mais que um pacote de circunstâncias a uma "resistência antiyanque" exacerbada, por muito que alguns de seus elementos, o próprio Guevara entre eles, se considerassem "marxistas". O Partido Comunista cubano, que anteriormente tinha apoiado a Batista, mandou um de seus dirigentes, Carlos Rafael Rodríguez, ao encontro junto ao Castro em 1958, alguns meses antes da vitória castrista.

Essa guerrilha não é tampouco a expressão de não se sabe que revolta camponesa, e menos ainda da classe operária. Foi a expressão militar de uma fração da burguesia cubana que queria quer derrubar à fração no poder para ocupar seu posto. Não houve nenhum "levante popular" na tomada do poder pela guerrilha castrista. Aparece, como tantas vezes ocorreu na América Latina, como uma troca de uma camarilha militar por outra formação armada, no que as camadas exploradas e pobres da população da ilha, alistadas ou não pelos combatentes da guerrilha, não desempenharam nenhum papel relevante a não ser o de lançar saudações aos novos donos do poder. Diante de uma resistência bem fraca por parte da soldadesca de Batista, Guevara aparece como o intrépido guerrilheiro de quem determinação e carisma crescente poderiam chegar, inclusive, a fazer sombra a seu chefe Fidel. Depois da vitória sobre Batista, Fidel Castro vai encarregar a Che de instaurar alguns "tribunais revolucionários", uma máscara sangrenta na melhor tradição dos ajustes de contas entre frações das diferentes burguesias nacionais, em particular na América Latina. Che Guevara leva muito a sério seu papel, por convicção e com zelo, instalando uma justiça "revolucionária" em que, para alívio coletivo, julga-se aos esbirros torturadores do regime de Batista, sem nenhuma prudência visto que uma simples denúncia podia custar o fuzilamento. E Guevara reivindicará mais tarde na ONU, onde, respondendo aos representantes latino-americanos, os notáveis mestres "democráticos", "preocupados" por uns métodos tão conhecidos por eles, declara: "Fuzilamos, estamos fuzilando e continuaremos fuzilando enquanto for necessário". Ou seja, enquanto "for necessário": até que a gente se dê conta de quem manda; primeiro liquidar aos antigos donos e, sobretudo, criar as condições adequadas para esmagar a menor resistência que venha "de baixo". Essas declarações não têm nada a ver com uma defesa mais ou menos torpe, de uma justiça revolucionária. Essas palavras correspondem, repitamos, aos métodos típicos de uma fração da burguesia que desaloja a outra pela força das armas.

Pode então identificar-se com o "herói" austero da Sierra Maestra, com o "guerrilheiro heróico" que morrerá alguns anos mais tarde na serra boliviana, mas no mundo real, outorgaram-lhe o papel de executor das sujas tarefas na instauração de um regime que de comunista só tem o nome.

Che Guevara: internacionalista?

EK, você nos diz: "o internacionalismo do Che é indubitável" e "Durante o seminário de solidariedade afro-asiática, o Che critica sem rodeios as posições conservadoras e exploradoras da URSS" e que "acabará, como é muito lógico, separando do modelo social-imperialista da URSS".

O regime nacionalista de Castro logo se revestiu o qualificativo de "comunista", o que significa simplesmente que se integrou... no campo imperialista regido pela URSS. Considerando a situação geográfica de Cuba, situada a poucas milhas das costas dos EUA, isso traria inquietação evidentemente ao amo do bloco ocidental. O processo de stalinização da ilha, com uma presença de pessoal civil e, sobretudo, militar e dos serviços secretos dos países do bloco do Leste, culminará em 1962 no momento da "crise dos mísseis".

Nesse processo, Che Guevara, agora ministro da Indústria (1960-61), para soldar a nova aliança com o "campo socialista", é enviado por Castro a uma excursão pelos países desse campo. De volta a Cuba, na televisão, dedica-se a apresentar programas propagandísticos no "ano da educação" com discursos dos mais entusiásticos sobre a URSS: "esse país que tão profundamente ama a paz", "onde impera a liberdade de pensamento", "mãe da liberdade"... E elogia "a extraordinária" Coréia do Norte e logo a China do Mao onde "todos estão cheios de entusiasmo, todos fazem horas extraordinárias" e assim para todos os países do Leste: "as realizações dos países socialistas são extraordinárias. Não há comparação possível entre seus sistemas de vida, seus sistemas de desenvolvimento e os dos países capitalistas". Um verdadeiro viajante de comércio do modelo stalinista! Mais adiante, falaremos do "desamor" de Guevara para com a URSS. Mas, contrariamente ao que você afirma, o Che nunca expressou a menor dúvida de princípio sobre o sistema stalinista. Para ele, a URSS e seu bloco eram o campo "socialista, progressista" e sua própria luta se integrava plenamente na do bloco russo contra o bloco ocidental. A ordem lançada por Guevara de "Criar um, dois, vários Vietnãs", não é uma ordem "internacionalista", mas sim uma ordem nacionalista e favorável ao bloco do Leste. O único critério verdadeiro dessa consigna não é, tampouco, a mudança social, mas sim o ódio ao chefe do outro bloco, os Estados Unidos.

Com efeito, depois da 2ª Guerra mundial, o mundo se encontrou dividido em dois blocos antagônicos, um bloco regido pelos EUA e o outro pela URSS. A "libertação nacional" confirmou-se então como uma mistificação ideológica perfeita para justificar o alistamento militar da população. Nessas guerras, nem a classe operária nem as demais classes exploradas tinham nada a ganhar, servem de massa de manobra para as diferentes frações da classe dominante e de seus padrinhos imperialistas. A partilha do mundo entre dois blocos depois dos acordos de Yalta implicava que qualquer saída de um bloco só se poderia fazer caindo no bloco adversário. E, precisamente, não há melhor exemplo que o de Cuba: este país passou da ditadura corrupta de Batista, submetida diretamente a Washington, seus serviços secretos e todo tipo de máfias, ao controle do bloco estalinista. A história de Cuba é um concentrado da história trágica das "lutas de libertação nacional" durante mais de meio século!

Assim, acima de tudo, antes de dizer quando e como Guevara teria se "desviado" mais ou menos da URSS, temos que deixar as coisas claras sobre a natureza da URSS e de seu bloco. Depois da defesa de um Che Guevara revolucionário está a idéia de que a URSS, pouco ou muito, apesar de seus defeitos e demais...  era o "bloco socialista, progressista". Essa é a maior mentira do século XX. Houve, sim, uma revolução proletária na Rússia, mas foi derrotada. À forma stalinista da contrarrevolução deu-se uma consigna: a "construção do socialismo em um só país", uma consigna que se localiza no extremo oposto do marxismo. Para o marxismo, "os proletários não têm pátria[2]. Foi este internacionalismo autêntico a bússola da onda revolucionária mundial que se iniciou em 1917 e a de todos os revolucionários de então, desde Lênin e os bolcheviques até Rosa Luxemburgo e os spartaquistas [3]. A adoção dessa aberração "teórica" de uma "pátria socialista" a defender foi arrematada com o recurso sistemático a um método burguês: o terror e o capitalismo de Estado, uma das expressões mais totalitárias e ferozes da exploração capitalista.

O Che "se desviou do modelo social-imperialista da URSS"?

A origem das críticas do Che à URSS foi a frustração provocada pela "crise dos mísseis", em 1962. Para a URSS, apoderar-se de Cuba era uma ocasião que não podia se desperdiçar. Finalmente, poderiam pagar na mesma moeda aos Estados Unidos, país que a ameaçava diretamente suas portas a partir dos países vizinhos como a Turquia. A URSS começa a instalar rampas de lançamento de mísseis nucleares há poucas milhas da costa norte-americana. Estados Unidos, mediante um cerco total à ilha, obriga aos navios russos a dar meia volta. Kruschev, que era então o chefe do Kremlin, viu-se finalmente obrigado a retirar seus mísseis. É necessário dizer que durante aqueles dias de outubro de 1962, os enfrentamentos imperialistas entre quem pretendia representar o "mundo livre" e quem pretendia representar o "mundo socialista progressista" puseram à humanidade inteira à beira do abismo. Krushev foi considerado pelos dirigentes castristas como uma "joaninha" que não tinha "os ovos" de atacar aos Estados Unidos. Em um ataque de histeria patriótica em que o slogan castrista de "Pátria ou Morte" exibia seu sentido mais sinistro, os dirigentes cubanos estão dispostos a sacrificar seu povo (eles dirão que é o povo que está preparado para o sacrifício) no altar da guerra atômica. Nesse delírio perverso, Guevara está, evidentemente, na primeira fila. Escreve: "Tem razão [os países da OEA [4] de ter medo da "subversão cubana"], pois é o exemplo de um povo disposto a sacrificar-se sob as armas atômicas para que suas cinzas sirvam de cimento às novas sociedades e que, quando se concluiu um acordo sobre a retirada dos mísseis sem que lhe tivesse consultado, não deixa escapar um suspiro de alívio, não acolhe a trégua com reconhecimento. Lança-se à rua para [...] afirmar [...] sua decisão de lutar, inclusive somente ele, contra todos os perigos e contra a própria ameaça atômica do imperialismo ianque[5]. Esse "herói" decidiu que o povo cubano estava disposto a sacrificar-se pela pátria... Assim, a base da "decepção", da crítica em relação à URSS não foi a perda da crença nas virtudes do "comunismo soviético" (ou seja, o capitalismo stalinista), e sim, pelo contrário, a decepção vem de que esse sistema não foi até o final de sua lógica de guerra, de enfrentamento, não tinha "os ovos" de ir ao limite explosivo da "Guerra Fria". E no discurso de Argel feito por Che Guevara, em que você se apóia para afirmar que o Che "se separou do modelo social-imperialista da URSS" não muda nada na realidade a raiz stalinista das posições de Guevara. Ao contrário! Nesse famoso discurso, o Che crítica, sim, o "mercantilismo" nas relações entre os países do bloco da URSS, mas segue chamando-os socialistas e "povos amigos": "Os países socialistas são, de certo modo, cúmplices da exploração capitalista [...]. Têm o dever moral de liquidar sua cumplicidade tácita com os países exploradores do oeste." Detrás de sua aparência radical, essa crítica é uma crítica de dentro do sistema stalinista. Mais ainda, é a crítica de um responsável que participou com toda sua força na instauração do sistema de capitalismo de Estado em Cuba. E, certamente, nunca usou na sua crítica expressões tais como " imperialismo". Além do mais nunca mais voltou a fazer a menor crítica oficial à URSS.

Certo, Che Guevara, no momento em que foi assassinado pela CIA e o exército boliviano em 1967, foi vítima não só do imperialismo americano, mas também, sem dúvida, também da nova orientação política do Kremlin, chamada "coexistência pacífica" com o bloco ocidental. Não vamos tratar aqui sobre as razões que levaram a direção da URSS e de seu bloco a dar esse "giro". Mas essa mudança não tem nada a ver com não se sabe que "traição" com os povos que queriam se libertar do imperialismo, nem com o proletariado. A política da classe dominante stalinista mudava de rumo em função de seus interesses como classe dominante e, precisamente, a crise dos mísseis foi a demonstração para os dirigentes do imperialismo stalinista de que não dispunham dos meios para desafiar o chefe do outro bloco ante seus próprios narizes e que deveriam ser prudentes na América Latina.

Isso é o que Guevara e uma fração de dirigentes cubanos não querem entender, até o ponto de acabar sendo incômodos não só para a URSS, mas também inclusive com seus próprios amigos da ilha. A partir de então, o destino de Che Guevara ficou selado: depois da desastrosa aventura no Congo [6], acabará encontrando-se só na Bolívia, com um punhado de companheiros de armas, abandonado pelo PC boliviano, que, finalmente, depois de muitos rodeios, acabará adotando a nova linha de Moscou. Para as frações mais "moscovitas", os defensores da tática do "foco" guerrilheiro eram um bando de pequeno-burgueses com anseios de aventuras, "isolados das massas". E para as facções dos PC favoráveis à luta armada, com seus apoios críticos de todo tipo, os "dirigentes" dos PC eram uns "revolucionários de salão", uns burocratas aburguesados e ademais... também "isolados das massas". Para nós, que nos reivindicamos da Esquerda Comunista, são ambas duas formas da mesma contrarrevolução, duas variantes da mesma grande mentira do século, a mentira de apresentar a contrarrevolução stalinista como a continuadora da revolução de Outubro e a URSS e seus clones como comunistas.

Que visão tinha Che Guevara da classe operária?

Para você, EK, a tarefa dos intelectuais seria "introduzir no proletariado a consciência de sua situação ...". Nisto parece adotar a visão de Che Guevara sobre "a elite revolucionária". Mas detrás dessa posição do Che há, na realidade, um profundo desprezo pela classe operária. O que é que há detrás de seus lirismos sobre "o novo homem na revolução cubana"?

A unidade proletária revolucionária tem uma base prática muito concreta: a solidariedade de classe. É esta solidariedade espontânea, feita de ajuda mútua e fraternidade, o que inspira a generosidade, a entrega, as qualidades do proletariado revolucionário. Mas essa "entrega" na boca da Guevara, soa, no melhor dos casos, como uma chamada quase mística ao martírio supremo (tem que reconhecer que ele sempre esteve preparado para o sacrifício, e disposto sem dúvida a virar "cinza", mártir pela causa imperialista que defendia, junto com todo o povo cubano "voluntário", no momento da crise dos mísseis)... Por trás de seu próprio comportamento "exemplar" está essa visão do "sacrifício" ou do "heroísmo" (do mesmo estilo que todos os idealismos patrióticos exaltados pelo stalinismo, por exemplo, na Resistência francesa durante a Segunda Guerra mundial) que deveria se impor de cima, pelas necessidades do Estado e sob o mando de um "líder máximo". Essa visão contém esse desprezo do intelectual pequeno-burguês para com "a massa proletária" a qual se olha de cima, a que terá que "educar" para que acabe entendendo o grandioso da revolução e suas vantagens. "Este ente multifacético [a massa], escreve com condescendência Guevara, não (...) atua como um manso rebanho. É verdade que segue sem vacilar a seus dirigentes, fundamentalmente a Fidel Castro, mas o grau em que ele ganhou essa confiança responde precisamente à interpretação cabal dos desejos do povo, de suas aspirações, e à luta sincera pelo cumprimento das promessas feitas." (...) "Vistas as coisas de um ponto de vista superficial, poderia parecer que têm razão aqueles que falam de sujeição do indivíduo ao Estado, a massa realiza com entusiasmo e disciplina sem iguais as tarefas que o governo fixa, seja de índole econômica, cultural, de defesa, esportiva, etcétera. A iniciativa parte em geral do Fidel ou do alto comando da revolução e é explicada ao povo que a toma como sua" (O socialismo e o homem em Cuba, 1965).

De fato, quando nos diz "que não há razão para reduzir o conceito de proletariado unicamente aos operários", seu raciocínio se arraiga sem dúvida e, possivelmente, involuntariamente, nessa visão depreciativa da classe operária [7]. De fato, duas das características comuns dessas metamorfoses do stalinismo (do maoísmo ao castrismo), são sua desconfiança e seu desprezo pela classe operária, fazendo de um mítico grupo de camponeses pobres o "agente da revolução" dirigido por uns intelectuais possuidores da consciência que "introduzem" no cérebro das massas. No melhor dos casos, a classe operária era para esses neostalinista, uma massa de manobra que lhes servia de referência histórica, uma comparsa de sua revolução. Não há em nenhum escrito desses "revolucionários", e menos ainda em sua prática, a menor referência à classe operária organizada como tal e às organizações do poder de classe, os sovietes. Esses clones do stalinismo já não precisam disfarçar sua ideologia capitalista de Estado e falar de conselhos operários ou outras expressões da vida proletária durante a onda revolucionária de 1917-1927. Agora só resta o Estado, dirigido por gente "ilustrada" e, abaixo, as massas, às quais deixa, às vezes, dar provas de "iniciativa", enquadrada em "comitês de defesa da revolução" e demais organismos de vigilância social.

E em Cuba, um dos primeiros órgãos de enquadramento e direção da classe operária foram, uma vez mais e sem surpresa, os sindicatos. Os sindicatos cubanos (CTC) já eram alguns sindicatos, ao modo americano, perfeitamente integrados no "capitalismo liberal" e suas corrupções. E vão ser rapidamente transformados pela direção cubana, em 1960, em sindicatos ao modo stalinista, segundo o modelo estatal. Entre as primeiras decisões dos sindicatos do regime castrista estará a de nivelar os salários por baixo e fazer respeitar a proibição das greves nas empresas. E também se justificará esse ataque contra a classe operária com a ideologia anti-ianque e de "defesa do povo cubano". Aproveitando em 1960 uma greve contra o rebaixamento de salários dos operários de empresas pertencentes ao capital americano, os dirigentes castristas estigmatizam essa greve de "privilegiados" para declarar a "greve à greve" em palavras do novo dirigente castrista da CTC.

Nestas semanas nos encheram as telas com as controvérsias sobre a vida e a obra do Che. Por um lado, na linha dos propagandistas da "morte do comunismo", as frações direitistas ou centristas da burguesia vão aproveitar a ocasião para reaquecer sua sujeira com a ajuda servil de um ou outro historiador arrependido, preparados agora para denunciar o papel "antidemocrático" do Che, seu papel de chefe executante responsável pelos tribunais "revolucionários" no princípio da era castrista, polemizando uns e outros nas telas sobre se as execuções foram "excessivas", se houve ou não um "banho de sangue", se foi uma justiça "arbitrária" ou, ao contrário, "moderada". Para nós, como dizíamos antes, simplesmente desempenhou o papel necessário para instaurar um novo regime tão burguês, capitalista e repressivo como o precedente. E, por outro lado, servem-nos mentiras ou meias verdades em sua honra. Isso é demonstrado como a Liga Comunista Revolucionária, na França, em sua vontade de ocupar a poltrona do moribundo Partido Comunista Francês e ser o primeiro partido "anticapitalista" da França, utiliza-se de Che, explorando à vontade sua imagem "jovem e rebelde" [8].

Estimado companheiro EK, a realidade é essa: detrás da camiseta com a efígie do Che, há, sem dúvida, um coração generoso e sincero de pessoas que querem combater contra as injustiças e as atrocidades deste mundo capitalista. Além do mais, se coloca o Che na frente, é precisamente para esterilizar o entusiasmo que acompanha a paixão revolucionária. Mas Che não é mais que uma das figuras da grande corte de dirigentes nacionalistas e stalinistas, sem dúvida mais atrativa que as demais, mas representativa, entretanto, dessa metamorfose tropical da contrarrevolução stalinista que é o castrismo.

Apesar de todas nossas divergências, companheiro EK, a discussão segue aberta....

Corrente Comunista Internacional


[1] O êxito da operação da derrubada de Batista por Castro e Guevara se beneficiou, de fato, do apoio dos EUA e da compreensão de uma parte da direita, que tinha começado a se incomodar seriamente com o nível de corrupção do regime. O governo americano decidiu o embargo de armas para Cuba, que, definitivamente, privou de meios a Batista para lutar contra a guerrilha. Será ao cabo de uns meses de exercício do novo poder castrista quando as relações entre o EUA e Cuba acabarão deteriorando-se e, ante a ameaça de intervenção daquele país, que o regime castrista começaria a integrar-se no bloco russo.

[2] Citação muito conhecida do Manifesto Comunista de 1848, redigido pelo Marx e Engels.

[3] Temos escrito muito sobre Outubro de 1917. Podem lê-se os textos seguintes:  A revolução proletária de outubro de 1917 é produto da ação consciente e massiva dos trabalhadores (http://pt.internationalism.org/ICCOline/2007/outubro_1917); Revolução Mundial ou destruição da humanidade (http://pt.internationalism.org/ICCOline/2007/outubro_1917).

[4] Organização de Estados Americanos, organismo continental, na realidade ao serviço do EUA, e da qual foi excluída a Cuba castrista.

[5] Escrito no momento da "crise dos mísseis", publicará-se mais tarde, em 1968, em uma revista do exército cubano. Reproduzido na biografia do Che por Pierre Kalfon (e traduzido do francês por nós).

[6] Em 1965, possivelmente para por em prática a ordem de "Dois, três Vietnãs...", um punhado de cubanos se instala no leste da República do Congo (Ex-Zaire) para organizar um "foco anti-imperialista", tudo organizado pelos serviços secretos cubanos com o acordo da URSS (possivelmente, também, para livrar-se do Che). Desde o começo a aventura no Congo aparece como um desastre anunciado: Guevara encontra-se sob as ordens políticas de uma facção de dirigentes congoleses (entre eles Kabila, futuro presidente-ditador do Zaire nos anos 1990), alguns aventureiros que levam a boa vida graças aos subsídios soviéticos e chineses. A população, por sua parte, que pelo visto ia receber com os braços abertos os seus "libertadores" fica bem mais espantada com a visão dessa gente saída de não se sabe onde. Foi uma antecipação do que ia ocorrer na Bolívia no ano seguinte. Deve-se dizer que mais tarde, por conta do imperialismo russo, milhares de cubanos continuaram servindo de "instrutores militares" (e de carne de canhão) em várias "guerras de libertação nacional" em terras africanas (Guiné-Bissau, Moçambique, Angola,...) até o desmoronamento da URSS e de seu bloco em princípios dos anos 90.

[7] Não podemos desenvolver aqui o que é o proletariado ou classe operária, duas expressões equivalentes para nós. Digamos, isso sim, que nossa visão da classe operária não tem nada a ver com a sociologia nem com essas imagens de estampa realista do operário de macacão e botas. Tratamos disso na seguinte série (espanhol): "Quién podrá cambiar el mundo? El proletariado es la clase revolucionaria" 1ª parte: (http://es.internationalism.org/rint73proletariado) 2ª parte: (http://es.internationalism.org/rint74proletariado)

[8] O líder da LCR, Olivier Besancenot, afirmou durante a campanha eleitoral francesa que seu partido se identifica hoje muito mais com o Che que com Trotsky, ainda que desde seu nascimento essa organização legitimava fraudulentamente, sua identidade à classe operária, reivindicando-se acima de tudo daquele grande militante bolchevique. Marx gostava de sublinhar as ironias da história. E é hoje uma das mais mordazes: constatar que esta nova propaganda da LCR, em seu afã de parecer jovem e estar na moda para atrair à novas gerações da classe operária, reivindica-se de um herdeiro, afinal de contas, da camada stalinista e de sua ideologia, essa mesma matilha que assassinou há mais de sessenta anos a um revolucionário que por muitas incompreensões que tivesse, era um revolucionário de verdade, um tal .... León Trotsky.