Grécia: Os trabalhadores diante da brutal austeridade

Versão para impressãoEnviar por email

Este artigo antecipou o que ia acontecer nos dias 10 e 24 de fevereiro: jornadas de greve com a participação massiva da classe operária que não quer mais sofrer os ataques violentos por parte do estado, com sindicatos que manobram para dividir os operários e esterilizar o descontentamento que vai se desenvolvendo.

A situação na Grécia é importante, pois constitui uma espécie de teste para a burguesia européia e até mundial. Muitos Estados vão ter que assumir, como o Estado grego, os mesmos ataques frontais contra as condições de vida da classe operária. Se tais medidas drásticas de austeridade conseguissem ser tomada neste país, significaria um sinal positivo para uma série de ataques através do mundo. É a razão pela qual, as burguesias francesa e alemã em particular trazem sua esperteza em termos de enquadramento da classe operaria. Ajudam o governo de Papandreu para controlar o terreno da luta pela intervenção dos sindicatos. Estes, ao anteciparem e organizarem jornadas de ação, esperam chegar a canalizar o descontentamento que se desenvolve.

Há um ano, houve três semanas de lutas massivas nas ruas da Grécia depois da morte de um jovem anarquista, Alexandros Grigoropoulos. Mas o movimento nas ruas, nas escolas e universidades teve grandes dificuldades para coordenar-se com as lutas nos locais de trabalho. Só houve uma greve, a dos professores primários, que, por uma manhã, apoiou o movimento. Apesar de que houve um período de agitação massiva e inclusive uma greve geral, ficou muito difícil estabelecer uma autêntica coordenação.[1]

No entanto, após o fim do movimento, as ações dos trabalhadores na Grécia continuaram até os dias atuais. Assim, o Ministro do Trabalho Andreas Lomberdos viu-se obrigado a advertir a burguesia internacional. Disse que as medidas programadas dentro dos três próximos para se levantar da crise da dívida nacional, que está ameaçando a continuidade da Grécia na zona euro, poderiam levar ao derramamento de sangue. "Não podemos fazer muito para evitar isso", acrescentou. O governo Papandreu tem falado em abrir conversações com todos os partidos e formar um governo de emergência nacional, uma das tarefas seria suspender os artigos da Constituição que garante o direito de reunião pública, de manifestações e greve.

Antes que o governo tentasse por em prática as medidas brutais para reduzir o déficit orçamentário de 12,7% para 2,8% até 2012, houve uma onda de lutas. Durante os últimos meses, estiveram em greve os trabalhadores portuários, os trabalhadores da Telecom, os garis, os médicos, enfermeiras, os professores das creches e escolas primárias, os taxistas, os trabalhadores da siderurgia e os empregados municipais. Nos dias 4 e 5 de fevereiro, houve uma greve de 48 horas de funcionários das alfândegas e fiscais que fecharam os portos e fronteiras. Ao mesmo tempo que camponeses realizavam bloqueios em alguns locais. As motivações imediatas de cada uma dessas lutas parecem diferentes, porém na realidade são todas respostas aos ataques que o Estado e o capital estão obrigados desenvolver para tentar fazer com que a crise seja paga pelos trabalhadores.

Antes do programa de austeridade ter sido promovido (e aprovado pela União Europeu), o Primeiro Ministro Papandreu advertiu que suas medidas iriam ser "dolorosas". Isto não produziu nenhuma graça para os bombeiros e outros trabalhadores do setor público que em 29 de janeiro desfilaram por Atenas expressando ruidosamente sua ira contra "o programa de estabilidade".

O plano de governo prevê durante três anos congelamento total dos salários dos trabalhadores do setor público e a redução de 10% dos abonos salariais. Estima-se que isso equivale a uma redução salarial entre 5 e 15%. Os funcionários que se aposentarem não serão substituídos, há uma previsão de aumentar a idade de aposentadoria para reduzir os custos da Seguridade Social.

O fato de que o Estado se vê obrigado a realizar ataques ainda mais graves contra a classe trabalhadora que, como vemos, não está calada, revela a profundidade da crise na Grécia. O ministro Lomberdos tem dito muito claramente que essas medidas  "só poderão ser aplicadas de forma violenta". No entanto, esses ataques contra todos os trabalhadores, ao mesmo tempo, podem fazer que esses comecem a lutar de forma comum por reivindicações comuns.

Ao examinar atentamente o que fazem os sindicatos na Grécia, dá para perceber que sua ação tem como objetivo manter as lutas divididas. Nos dias 4 e 5 de fevereiro, houve uma greve oficial de 48 horas dos funcionários da alfândega e dos impostos que fecharam os portos e pontos de passagem nas fronteiras, enquanto alguns camponeses mantiveram seu blocagem.  Em uma manchete bastante exagerada, o jornal inglês, The Independent (5/02/2010) alerta "As greves colocam a Grécia de joelhos" e descreve-as como "a primeira expressão de uma esperada erupção de greves barulhentas".

Os encarregados de impedir que as greves "coloquem a Grécia de joelhos" são os Sindicatos. Se examinarmos cuidadosamente o que estão programando como "lutas", podemos ver que suas ações estão destinadas a manter a divisão mais extrema: uma convocatória de greve no setor público em 10 de fevereiro com caminhada ao parlamento sob a chancela do sindicato ADEDY, porém em 11 de fevereiro, a greve é convocada pelo sindicato estalinista PAME, finalmente para o dia 24 de fevereiro, o maior sindicato do país -GSEE- convocou uma greve, somente no setor privado!

Com esse labirinto de ações divididas e dispersas, a classe operária não colocará de joelhos o Estado grego! O Jornal Financial Times de 05/02/2010 sublinha que os "os sindicatos tem reagido moderadamente aos planos de austeridade do governo o que reflete uma atitude de boa disposição em fazer sacrifícios para superar a crise econômica", embora ao mesmo tempo identifique "uma reação violenta contra o programa de austeridade do governo por parte dos sindicatos". Essa dupla linguagem dos sindicatos revela sua inquietação diante da crescente indignação da classe operária. Na realidade os sindicatos não se esquecem de repente de apoiar o governo socialista mas sabem que, com o desenvolvimento da cólera na classe operária, se não programarem algumas ações "de força" existe a possibilidade de que os operários comecem a desmascarar a peça teatral  que sempre interpretam: diante dos operários mostram-se bastante radicais porém nas audiências governamentais e patronais dobram o pescoço e dizem sim a tudo. Até agora, os sindicatos mostraram uma imagem radical deles, romperam o "diálogo" com o governo no tema das pensões e programaram greves de uma ou dois dias em datas diferentes.... Está claro que a vontade dos sindicatos, em sintonia com as necessidades do capital nacional, é acordar toda ordem de sacrifícios, porém têm de levar em conta a reação da classe operária.

Para desenvolver sua luta, os trabalhadores não somente têm que desconfiar das manobras sindicais, também tem de ter em conta outros falsos amigos. O KKE (Partido Comunista Grego), por exemplo, que tem alguma influência, difamou o movimento há um ano qualificando os manifestantes de "provocadores" e "agentes secretos das forças estrangeiras"! Mas agora, de repente, tem mudado o discurso e proclama que "os trabalhadores e os agricultores tem direito de recorrer a todos os meios de luta para defender seus direitos". Outras forças de esquerda como os trotskistas tentam desviar o ódio operário para setores particulares do capital: gritam muito contra os fascistas e contra a influência do imperialismo americano, para que os trabalhadores não vejam que seu inimigo é todo o capital nacional e todos os imperialismos.

Outro dado significativo da atual situação na Grécia é que estão proliferando grupos armados, com nomes como Conspiração das Células de Fogo ou Fração Niilista, que colocam bombas em edifícios públicos.

Os operários só podem construir sua solidariedade de classe, tomar consciência da sua força e desenvolver a confiança neles mesmos a partir das suas próprias lutas, desenvolvendo suas próprias formas de organização, estendendo e unificando seus combates. Tem de estar nas ruas fazendo parte de uma luta e uma organização coletivas. Em contrapartida, individualmente diante de um televisor vendo o espetáculo provocado por alguma bomba não adquirem nenhuma força nem nenhuma consciência, apenas um sentimento de passividade e de impotência. O som de uma assembléia massiva de trabalhadores, através da qual estes controlam e estende sua luta, provoca mais medo à classe dominante que o ruído de algumas bombas.

[1] Para ter um conhecimento desse movimento e as lições que aportou ver na Revista Internacional nº 136 Las revueltas de la juventud en Grecia confirman el desarrollo de la lucha de clases (http://es.internationalism.org/ri/136_grecia) . Ver também: Grécia : uma declaração de trabalhadores em luta (http://pt.internationalism.org/ICCOnline/2008/Grecia_uma_declaracao_de_trabalhadores_em_luta); e Solidariedade com o movimento dos estudantes na Grécia (http://pt.internationalism.org/ICCOnline/2008/Solidariedade_com_o_movimento_dos_estudantes_na_Grécia)