A desumanidade da burguesia (26/02/2010)

Versão para impressãoEnviar por emailTodos os políticos ocidentais hoje se lamentam sobre a repressão e a miséria que golpeiam a Líbia, a Tunísia e o Egito. Todos juram, com a mão no peito, plena solidariedade com "os sofrimentos do mundo árabe". Mas os seus atos reais provam a sua hipocrisia sem limite e sua total desumanidade. Perante os milhares de emigrados que fogem, tentando alcançar o território europeu, todas as burguesias estão se organizando para erguer uma cortina de ferro intransponível.No sábado, 25 de fevereiro, a comissária europeia, Cecilia Malmström anunciou: "Tenho o prazer [SIC!] de anunciar que a partir de domingo, 20 de fevereiro, a missão "Hermes" da Frontex (agência de vigilância das fronteiras européias) será mobilizada oficialmente para ajudar as autoridades italianas a gerir os fluxos de imigrantes provenientes da África do Norte, e em especial os que vieram da Tunísia na ilha de Lampedusa". A Frontex prestará igualmente um apoio naval e aéreo à vigilância das fronteiras.No total, uma dezena de Estados, entre os quais a França, se dizem prontos para participar desta missão. A França é, além disto, um país "de ponta" por sua política de imigração e pela defesa do espaço Schengen [1].

Assim, o governo de Paris mostrou-se muito firme em relação aos tunisianos que desembarcaram sobre a ilha italiana de Lampedusa, e cuja maioria quer ir à França: o ministro do Interior preveniu que serão tratados como imigrantes clandestinos convocados a serem reconduzidos ao seu país. Interrogado na Assembleia Nacional, Brice Hortefeux recordou a regra em política migratória: "Um estrangeiro em situação irregular está destinado a ser reconduzido ao seu país de origem, exceto situação humanitária específica." Pensando bem, com Hortefeux, este amigo dos "Auvergnats" [2], as situações humanitárias específicas…não existem, só há unicamente trapaceiros e aproveitadores. E para se fazer compreender mais claramente: "Não é o interesse nem da Tunísia, que o compreende perfeitamente, nem da Europa, nem da França o de encorajar e aceitar estas migrações clandestinas." Isso não vale somente para os tunisianos, porque o presidente do serviço francês de imigração e integração, Dominique Paillé, afirmou nesta quinta-feira, 24 de Fevereiro, que "os clandestinos" provenientes da Líbia também "serão reconduzidos". Não se poderá mais dizer que a burguesia francesa usa dois pesos e duas medidas! Todos mergulhados na mesma miséria e no horror capitalista, mas sem injustiça! 

Mulan (26 de Fevereiro)
Revolution Internationale n°420, órgão da CCI na França.


[1]              Kadafi, aliás, se permitiu alfinetar Sarkozy publicamente a respeito disto quando da sua estada nos jardins Elysée, sob a sua tenda de beduíno. Interrogado sobre a questão dos direitos do homem na Líbia,respondeu: "Antes de falar dos direitos do Homem, é necessário verificar que imigrantes são beneficiados por estes direitos entre vocês."

[2]              Referência à declaração racista de Hortefeux em setembro de 2009, durante a reunião do seu partido a União por um Movimento Popular (UMP, de direita) no país basco francês. Um jovem franco-argelino, Amine Benalia-Brouch, se aproximou do ministro pedindo para ser fotografado com ele, que comentou com o presidente do partido, Jean-François Cope: "Ele não corresponde em nada ao estereótipo...Quando há um deles, tudo bem. É quando há muitos deles que os problemas chegam". A declaração, gravada em um vídeo amador, teve mais de 800 mil acessos no site do Le Monde em um dia. A situação piorou quando Hortefeux tentou contradizer a declaração, dizendo primeiro que se referia ao número de fotos e depois que se referia não aos árabes e sim aos Auvergnats (ou occitanos, da Occitânia, localizada na região sul da França). Parte da imprensa explorou o caso e grupos nacionalistas occitanos utilizaram-no como comprovação do racismo anti-occitano existente na França.