Líbia: Insurreição popular enterrada por lutas entre facções burguesas (05/03/11)

Versão para impressãoEnviar por emailO desenrolar dos eventos na Líbia é extremamente difícil de acompanhar. Mas uma coisa é clara: a população sofreu semanas de repressão, medo e incerteza. Talvez milhares possam ter morrido inicialmente nas mãos dos aparatos repressivos do regime, mas agora são cada vez mais atingidos no fogo cruzado enquanto o governo e a oposição lutam pelo controle do país. Pelo que estão morrendo? De um lado, a fim de manter o controle do Estado por Kadafi, e, por outro, a fim de colocar todo o país sob o controle do Conselho Nacional Líbio - autoproclamado "voz da revolução". A classe trabalhadora dentro e fora da Líbia está sendo solicitada a escolher entre dois grupos de gângsteres. Na Líbia ambos dizem que ela deve participar ativamente desta crescente guerra civil entre as partes rivais da burguesia sobre o controle do Estado e da economia. No resto do mundo somos incentivados a apoiar a "brava luta da Oposição". Os trabalhadores não têm nenhum interesse em apoiar uma facção ou outra.

Os eventos na Líbia começaram a partir de um protesto em massa contra Kadafi, inspirado pelos movimentos no Egito e na Tunísia. O impulso para a explosão de raiva em muitas cidades parece ter sido a repressão brutal das primeiras manifestações. De acordo com The Economist (26/02/11), a faísca inicial foi a manifestação em Benghazi em 15 de Fevereiro,composta por aproximadamente 60 jovens. Manifestações similares ocorreram em outras cidades e foram todas recebidas à bala. Face aos incontáveis assassinatos de jovens, milhares tomaram as ruas em batalhas desesperadas contra as forças do Estado. Estas lutas testemunharam ações de grande coragem. A população de Benghazi, ouvindo falar que os mercenários estavam circulando no aeroporto, desceu em massa até ele e sobre seus guardas e tomaram-no, apesar das grandes perdas. Em outra ação, civis apropriaram-se de escavadeiras e outros veículos e atacaram quartéis fortemente armados. A população em outras cidades expulsou as forças repressivas do Estado. A única resposta do regime era sempre mais repressão, mas esta conduziu à dissolução de boa parte das forças armadas, como os soldados e os oficiais que recusaram cumprir ordens de matar manifestantes. Um soldado matou com um tiro um oficial-comandante que deu ordem de atirar para matar. Inicialmente esta parece ter sido uma explosão genuína de raiva popular confrontada com repressão brutal e crescente miséria econômica, especialmente por parte da juventude urbana.

Por que as coisas tomaram uma direção diferente na Líbia?

A profunda crise econômica e uma recusa crescente em aceitar a repressão têm sido o grande plano de fundo dos movimentos na Tunísia, Egito e em outras partes no Oriente Médio e África do Norte. A classe trabalhadora e a população em geral sofreram anos de pobreza e de exploração brutais enquanto a classe dominante acumulou vasta riqueza.

Mas por que a situação na Líbia foi tão diferente daquela na Tunísia e no Egito? Naqueles países, quando havia repressão, o principal meio para trazer o descontentamento social sob controle foi o uso da democracia. Na Tunísia, as crescentes manifestações da classe trabalhadora e da maior parte da população contra o desemprego foram desviadas quase do dia para a noite para o beco sem saída da sucessão de Ben Ali. Sob a orientação dos militares dos EUA, os militares tunisianos disseram ao presidente para lançar esta isca. No Egito, a saída de Mubarak levou mais tempo para ser alcançada, mas mesmo sua resistência assegurou que o descontentamento focalizasse somente descartá-lo. Algo importante: uma das coisas que finalmente o afastaram foi a deflagração de lutas exigindo melhores salários e condições de vida. Isto mostrou que quando os trabalhadores participavam das manifestações em massa contra o governo não tinham esquecido seus próprios interesses e não estavam dispostos a pô-los de lado em nome de "dar uma chance à democracia".

No Egito e na Tunísia as forças armadas são a espinha dorsal do Estado e podiam pôr os interesses do capital nacional acima dos interesses de pequenas associações particulares. Na Líbia as forças armadas não têm o mesmo papel. O regime de Kadafi manteve deliberadamente as forças armadas fracas por décadas, juntamente com qualquer outra parte do Estado que pudesse ser uma área de influência para seus rivais. "Kadafi tentou manter os militares fracos, porque assim eles não poderiam derrubá-lo, como ele derrubou o rei Idris" diz Paul Sullivan, um perito em África do Norte na Universidade de Defesa Nacional (National Defense University), sediada em Washington. O resultado é "militares mal treinados, dirigidos por uma liderança mal treinada que está à beira do colapso, não muito estáveis pessoalmente, e com muitas armas extras circulando ao redor." (Bloomberg 02/03/11). Isto significa que a única resposta que o regime tem para qualquer descontentamento social é a repressão despida.

A própria brutalidade da resposta estatal varreu a classe trabalhadora em uma desesperada manifestação de raiva ao ver seus filhos sendo massacrados. Mas aqueles trabalhadores que se juntaram às manifestações fizeram-no em sua maior parte como indivíduos: apesar da grande coragem que tiveram até para fazer frente às armas de Kadafi, não puderam levar adiante seus próprios interesses de classe.

Na Tunísia, como dissemos, o movimento começou entre a classe trabalhadora e os pobres contra o desemprego e a repressão. O proletariado no Egito participou do movimento depois de tomar parte em diversas ondas de lutas nos anos recentes, e esta experiência deu-lhe confiança na sua habilidade de defender seus próprios interesses. A importância desta foi demonstrada no fim das manifestações contra Mubarak, quando estourou uma onda de greves. 

O proletariado líbio participou no atual conflito em uma posição fraca. Houve relatos de uma greve em um campo petrolífero. Mas é impossível dizer se houve alguma outra expressão da atividade da classe trabalhadora. Pode ter havido, mas devemos dizer que a classe trabalhadora como uma classe está mais ou menos ausente. Isto significa que a classe no início esteve vulnerável a todo o veneno ideológico gerado por uma situação de caos e confusão. A aparição da velha bandeira monarquista e sua aceitação como símbolo da revolta em uma questão de alguns dias marcam como esta fraqueza é profunda. Esta bandeira chegou com o slogan nacionalista "de uma Líbia livre". Igualmente, tem havido algumas expressões do tribalismo, com o apoio ou oposição ao regime de Kadafi sendo determinados em alguns casos por interesses regionais ou tribais; e líderes tribais usando sua autoridade para se colocar à cabeça da rebelião. Parece estar havendo igualmente uma forte presença do islamismo com o canto de "Allah Akbar" ("Deus é grande"), que está sendo ouvido em muitas manifestações.

Este pântano de ideologia exacerbou uma situação onde dezenas - se não centenas - de milhares de trabalhadores estrangeiros sentiram a necessidade de fugir do país. Por que os trabalhadores estrangeiros se alinhariam atrás de uma bandeira nacional, não importa sua cor? Um verdadeiro movimento proletário incorporaria os trabalhadores estrangeiros desde o início porque as demandas seriam comuns: melhores salários, condições de trabalho e o fim da repressão para todos os trabalhadores. Estariam unidos porque sua força seria sua unidade, sem levar em conta nação, tribo ou religião.

Kadafi fez amplo uso de todo este veneno para tentar e conseguir o apoio dos trabalhadores e da população contra a alegada ameaça erguida à sua "revolução": estrangeiros, tribalismo, islamismo, o ocidente.

Um novo regime em espera

A maioria da classe trabalhadora odeia o regime. Mas o perigo real e mais grave para a classe trabalhadora é seguir a "oposição". Esta "oposição", com o "Novo Conselho Nacional" que assume cada vez mais uma posição de liderança, é um conglomerado de várias frações da burguesia: antigos membros do regime, monarquistas, etc., junto com líderes tribais e religiosos. Todos levaram ampla vantagem do fato de este movimento não ter nenhuma direção proletária independente - para impor seu desejo de substituir a gerência de Kadafi do Estado líbio pelas suas próprias.

O Conselho Nacional de Ehe é claro sobre o seu papel: "O objetivo principal do Conselho Nacional é ter uma cara política... para a revolução, " "nós ajudaremos a libertar outras cidades líbias, em particular Trípoli, através de nosso exército nacional, das nossas forças armadas, parte das quais anunciou seu apoio ao povo," (Reuters África, 27/02/11) "não existe tal coisa de uma Líbia dividida" (Reuters, 27/02/11). Em outras palavras, seu objetivo é manter a ditadura capitalista atual, mas com uma cara diferente.

No entanto, a oposição não está unida. O ex- ministro da justiça de Kadafi, Mustafa Mohamed Abud Ajleil anunciou a formação de um governo provisório no fim de fevereiro com o apoio de alguns ex-diplomatas. Era sediado em Al-Baida. Esta manobra foi rejeitada pelo Conselho Nacional sediado em Benghazi.

Isto mostra que dentro da oposição há profundas divisões que eventualmente explodirão se ela conseguir se livrar de Kadafi. Ou quando estes "líderes" se digladiarem para conservar suas peles se Kadafi conseguir permanecer no poder.

O Conselho Nacional tem um rosto público melhor. É encabeçado por Ghoga, conhecido advogado pró-direitos humanos e, assim, pouco manchado por ligações com o regime, ao contrário de Ajleil. Todos tentam vender o melhor possível este grupo à população.

A mídia fez muito estardalhaço sobre os comitês que brotaram nas cidades, povoados e regiões onde Kadafi perdeu o controle. Muitos destes comitês parecem ter sido autonomeados por dignitários locais. Mesmo se alguns deles foram expressões diretas da revolta popular, podem ter sido arrastados para o enquadramento estatista, burguês, do Conselho Nacional. Os esforços do Conselho Nacional para estabelecer um exército nacional significam somente morte e destruição da classe trabalhadora - e da população no seu conjunto -, enquanto este exército luta com as forças de Kadafi. A fraternização social, que ajudou originalmente a minar os esforços repressivos do regime, será substituída por intensas batalhas em uma frente puramente militar, enquanto a população será chamada a fazer sacrifícios para assegurar a luta do exército nacional.

A transformação da oposição burguesa em um novo regime está sendo acelerada pela defesa cada vez mais aberta pelas principais potências: EUA, Grã-Bretanha, França, Itália, etc. Os gângsteres imperialistas agora se afastam de seu ex-colega Kadafi a fim de assegurar de que se uma nova equipe chega ao poder, eles possam manter alguma influência sobre ela. O apoio será para aqueles que se ajustarem com os interesses imperialistas das grandes potências.

O que aparentemente começou como uma desesperada resposta à repressão por setores da população foi usada muito rapidamente pela classe dominante na Líbia e no exterior para seus próprios fins. Um movimento que começou como uma furiosa luta para deter o massacre de jovens terminou em outro massacre de jovens, mas agora em nome de uma Líbia livre.

O proletariado dentro e fora da Líbia só pode responder aumentando sua determinação para não se deixar afundar em lutas sangrentas entre facções da classe dominante - em nome da democracia ou de uma nação livre. Nos dias e nas semanas a seguir, se Kadafi segurar firmemente o poder, o coro internacional de apoio à oposição nesta guerra civil estará cada vez mais alto. E se for derrubado, haverá uma campanha igualmente ensurdecedora sobre o triunfo da democracia, do poder do povo e da liberdade. Em ambas as formas, os trabalhadores serão convidados a se identificar com a face democrática da ditadura do capitalismo. 

Phil 05/03/11
World Revolution, órgão da CCI na Grã-Bretanha.

http://en.internationalism.org/wr/342/libya