Que se vão embora todos!

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Publicamos
a seguir a tradução de um panfleto distribuído no movimento na Espanha que
expressa um ponto de vista entre os mais radicais existentes nas assembleias
massivas que aconteceram em muitas cidades, não somente nas maiores, cuja
tradução em português apareceu em diversos grupos de discussão, blogs e listas
na internet.

"Que se vão embora todos!" Somos
muitos os que nestes dias confluímos nas ruas para protestar. Todos nos
identificamos com a rejeição dos partidos políticos, com a rejeição dos sindicatos,
dos empresários… Sobretudo demo-nos conta de que chegámos ao limite. Que
estamos fartos de ser os párias deste mundo. Que não suportamos mais que uns
poucos encham os bolsos e vivam como reis, enquanto aos outros apertem os
cintos para além de todo o limite com o fim de manter a saúde da sacrossanta
economia. Que sabemos que para mudar isto temos que lutar nós mesmos, à margem
de partidos, sindicatos e demais representantes que querem fazê-lo por nós. Acima
de tudo, esta realidade está a exprimir uma questão fundamental que afeta o
mundo inteiro: a contraposição de necessidades e interesses entre a economia e
a humanidade. Isto foi entendido perfeitamente pelos nossos irmãos rebeldes no
Norte da África, isto entendemo-lo hoje aqui agora que a situação já é
insustentável para todos nós e saímos à rua para lutar. Aguentámos o
insuportável, sofremos uma degradação das condições de vida como não acontecia
há décadas. Mas finalmente dissemos basta, e aqui estamos exprimindo a nossa
rejeição de todo este sistema infernal que transforma a nossa vida em
mercadoria. Queremos, claro, exprimir a nossa rejeição completa da etiqueta de
cidadão. Sob essa etiqueta junta-se tudo o que mexe, desde o político ao
desempregado, desde o dirigente sindical ao estudante, desde o empresário mais
rico até ao operário mais miserável; misturam-se condições de vida totalmente
antagónicas. Para nós não se trata de uma luta de cidadãos. É uma luta de
classe entre explorados e exploradores, entre proletários e burgueses como
dizem alguns. Desempregados, trabalhadores, estudantes, aposentados,
imigrantes… formamos uma classe social sobre a qual incidem, em maior ou menor
medida, todos os sacrifícios. Políticos, banqueiros, patrões… formam a outra
classe da sociedade, a que se beneficia, também em maior ou menor medida, das
nossas penúrias. Quem não queira ver a realidade desta sociedade de classes
vive no mundo das maravilhas. Chegados aqui, protestando em numerosas praças
por todo o país, é hora de refletir, é hora de concretizar as nossas posições,
de orientar bem a nossa prática. A heterogeneidade é grande, sem dúvida.
Convergimos neste movimento companheiros que há muitos anos andamos na luta
contra este sistema, outros que saímos pela primeira vez às ruas, uns que estão
certos de querer ir até ao fim, ao tudo por tudo ("queremos tudo e agora"
rezava um cartaz na Puerta del Sol), outros falam de reformar diversos aspectos
da realidade, outros encontram-se desorientados, outros só querem manifestar
que estão fartos do que lhes acontece… E também há quem, isto é preciso tê-lo
bem presente, trata de pescar em águas turvas, quem procura canalizar este
descontentamento para neutralizar a sua força aproveitando as nossas indecisões
e debilidades. Desde logo, algo que discutimos entre os diversos companheiros
nas ruas é que a nossa força está na rejeição, no movimento de negação do que
nos impede viver. É o que forjou a nossa unidade nas ruas. Pensamos que há que
avançar por aí, aprofundar e concretizar melhor a nossa rejeição. Por isso,
porque a nossa força reside nessa negação, temos consciência de que não
solucionaremos os nossos problemas exigindo melhorar a democracia, tal como se
afirmou em certas palavras de ordem, nem sequer reivindicando a melhor
democracia que possamos imaginar. A nossa força está na rejeição que estamos a
manifestar à democracia real, a democracia "de carne e osso" que
sofremos no dia-a-dia e que não é outra coisa que a ditadura do dinheiro.

 Não há
outra democracia. É uma armadilha reivindicar essa democracia ideal e
maravilhosa de que nos falaram desde pequeninos. Da mesma maneira não se trata
de melhorar este aspecto ou outro, pois o fundamental continuará a existir: a
ditadura da economia. Trata-se de transformar totalmente o mundo, de mudá-lo de
cima a baixo. O capitalismo não se reforma, destrói-se. Não há caminhos
intermédios. Há que ir até ao fundo do problema, há que abolir o capitalismo. Ocupámos
a rua uns dias antes da festa parlamentar, essa festa onde se elege quem
executará as diretrizes do mercado. Bem, é um primeiro passo. Mas não podemos
ficar por aí. Trata-se de dar continuidade ao movimento, de criar e consolidar
estruturas e organizações para a luta, para a discussão entre companheiros,
para enfrentar a repressão que já caiu sobre nós em Madrid e em Granada. É
preciso tomar consciência de que sem transformação social, sem revolução
social, tudo continuará igual. Apelamos a continuar mostrando toda a nossa
rejeição ao espetáculo do circo eleitoral de todas as maneiras possíveis.
Apelamos a gritar em toda a parte a palavra de ordem "Que se vão embora
todos!". Mas apelamos também a que a luta continue depois das eleições do
Domingo 22. A que vamos muito para lá destes dias. Não podemos deixar morrer os
laços que estamos a construir. Apelamos à formação de estruturas para lutar,
apelamos a que entremos em contato, a que coordenemos o combate, a lutar nas assembleias
que se estão a criar fazendo delas órgãos para a luta, para a conspiração, para
a discussão da luta, não para reuniões cidadãs. Apelamos a organizar-nos em
todo o país para lutar contra a tirania da mercadoria. À RUA, A LUTAR! A
DEMOCRACIA É A DITADURA DO CAPITALO CAPITALISMO. NÃO SE REFORMA, DESTRÓI-SE!

BLOCO "QUE SE VÃO EMBORA TODOS!" (BLOQUE "¡QUE SE VAYAN
TODOS!")

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