Resposta ao nosso leitor

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Qual atitude adotar em relações às grandes figuras do movimento operário

Neste texto, nos colocamos do
ponto de vista do método marxista, supondo que você também reivindica tal
método. Caso não seja o caso, seria bom você precisá-lo em resposta para que o
debate possa continuar se desenvolvendo sobre outra base.

Nada é mais estranho ao marxismo
que uma atitude religiosa, a-crítica diante das "grandes figuras" do
movimento operário. O marxismo é fundamentalmente a expressão de uma classe
social, o proletariado, e não o de tal ou qual indivíduo, por mais brilhante que
seja ele. Além disso, para esta classe, mais que para qualquer outra classe na
história, o elemento coletivo é de longe o mais importante. É assim porque o
proletariado:

  • É, muito mais que todas as
    outras classes produtoras na história, a que trabalha de um modo associado,
    expressão da socialização da produção realizada pelo modo de produção
    capitalista;
  • É, sobretudo, o sujeito da
    revolução que leva à sociedade comunista.

Consequentemente, o marxismo só
pode se conceber como pensamento coletivo cuja elaboração tanto da experiência
coletiva das próprias massas operárias como das reflexões e análises dos
inúmeros militantes no seio das organizações revolucionárias.

Considerado em si, cada
marxista (e Marx o primeiro) pode cometer erros ou só alcançar uma visão
parcial de uma questão. Assim, cabe aos demais militantes retificarem estes
erros e completarem as análises incompletas. É a atitude que sempre tiveram os
revolucionários mais eminentes, esses que enriqueceram mais o marxismo.
Trata-se em particular dos protagonistas mais famosos da Revolução de 1917, Lênin
e Trotsky. Hoje, o estudo da contribuição de Trotsky à Revolução de Outubro, e aos
eventos que a seguiram, inevitavelmente tem que se apoiar sobre tal procedimento
próprio ao marxismo e rejeitar categoricamente qualquer atitude fetichista que
tende a fazer de Trotsky "um ícone inofensivo" como diz Lênin a
propósito de Marx dentro "O Estado e a Revolução".

Como avaliar Trotsky no movimento operário

Trotsky é uma das mais famosas
figuras do movimento operário. Na Revolução de 1917, ele deve ser considerado
da mesma maneira como o faziam os trabalhadores desta época, como o alter-ego
de Lênin. Reconhecer e saudar seus aportes à ação e ao pensamento do
proletariado não deve nos impedir de criticar seus erros e fraquezas. Ele mesmo
foi capaz de fazer esta crítica considerando o período que precede a 1917. Até deu
uma forma excessiva a esta crítica afirmando que, sobre todas as questões onde
ele tinha discordado com Lênin, era Lênin que tinha razão. Isso é verdade só
parcialmente, como o veremos a seguir. Hoje, não se age como marxista, nem
mesmo para pagar tributo a Trotsky, retomando ao pé da letra todas suas
posições e análises que ele foi capaz desenvolver depois de 1917. Em relação a
estas, todo marxista tem que ter a mesma atitude que Trotsky teve em relação a
suas próprias posições antes 1917. Assim, a continuação desta contribuição se dá
como objetivo evidenciar tanto os aportes fundamentais de Trotsky ao pensamento
revolucionário como seus erros, erros que os seguidores transformaram em armas
contra a luta revolucionária do proletariado.

As forças de Trotsky

Se Trotsky foi considerado em
1917 como o alterego de Lênin obviamente é devido a seus talentos de líder
revolucionário: grande orador e escritor, militante valente, firme e resoluto,
organizador eficaz e enérgico, estrategista militar talentoso, etc. Ele também é
dotado de uma compreensão clara das alternativas históricas contidas nos
eventos acontecendo frente a seus olhos, uma sensibilidade particular quanto ao
estado de espírito, às necessidades, às aspirações e capacidades das massas operárias
em ação. Aqui
são as maiores qualidades que Trotsky mostrou ao longo de sua vida de
revolucionário. É claro que estas qualidades são o resultado de um conhecimento
profundo do marxismo, não o marxismo "professoral" como o de Kautsky,
mas o marxismo vivo, inspirado pelo sopro das massas proletárias como o encontramos
também numa revolucionária como Rosa Luxemburgo. Não é por casualidade que
ambos os trabalhos mais importantes que foram escritos sobre as lições da
revolução russa de 1905 sejam de Rosa Luxemburgo e Trotsky. Além disso, é
necessário notar que estes dois trabalhos são complementares, o primeiro
evidenciando a dinâmica que anima as massas operárias num período
revolucionário, o outro estudando com profundidade este órgão novo na história
que o proletariado cria para sua luta revolucionária: o soviete. São todas
estas qualidades que permitem a Trotsky ser eleito duas vezes ao mesmo posto
particularmente importante de presidente do Soviete de Petrogrado, em 12 anos
de intervalo.

O revolucionário do início do século XX mais adequado às necessidades do
proletariado no momento dos seus movimentos revolucionários

Estas qualidades de Trotsky
fizeram dele o grande revolucionário do início do século XX que esteve mais adequado
às necessidades do proletariado no momento dos seus movimentos revolucionários,
algumas vezes mais do que Lênin. Podemos dar alguns exemplos:
 

  • a) Sua análise da Revolução de
    1905, contra a concepção de Lênin que se tratava de uma "ditadura
    democrática dos operários e os camponeses", e que tinha como perspectiva
    levar a cabo tarefas democráticas burguesas, tem a capacidade de evidenciar que
    no período histórico de então, o proletariado não pode se limitar no
    cumprimento de tarefas burguesas e que, inevitavelmente, ele terá que se
    orientar para a revolução socialista, e isto com relação ao movimento do proletariado
    mundial.
  • b) Trotsky, bem antes de Lênin, é o que entende toda a importância dos
    sovietes como os órgãos da ditadura do proletariado.
  • c) Em 1917, Trotsky, embora
    novo membro no partido bolchevique, é o que está mais próximo a Lênin sobre
    todas as questões importantes. Ainda mais, na hora da insurreição, enquanto Lênin
    pretende confiar ao partido a responsabilidade da organização desta, a posição
    de Trotsky, que finalmente se impõe, é a única certa: cabe aos sovietes chamar à
    insurreição e organizá-la, particularmente por meio do Comitê Militar Revolucionário
    nomeado pelo Soviete de Petrogrado. Esta posição não só corresponde a uma opção
    tática que responde ao fato que a grande maioria dos trabalhadores era muito
    mais inclinada a seguir palavras de ordem emanadas dos sovietes do que se fossem
    emanadas de um partido, mesmo quando muito popular como se tornou o partido
    bolchevique. Trata-se de uma questão de princípio: mesmo se a questão não estava
    clara para os revolucionários de então, uma das grandes características da
    revolução proletária, e que a distingue da revolução burguesa, é que passa pela
    tomada do poder político, não por um partido em nome da classe com a
    justificação de que este expressa os interesses daquela, mas pela própria classe
    no seu conjunto. E atribui-se a Trotsky ter sido um dos primeiros a apreender,
    mesmo de maneira incompleta, esta questão.
  • d) Em março, 1919, em plena
    onda revolucionária do proletariado mundial, a fundação da Internacional
    Comunista (IC) constitui um poderoso fator de impulso dos combates operários. Cabe
    a Trotsky exprimir neste momento o sopro revolucionário que o Congresso quer
    transmitir aos operários de todos os países.
  • e) A última chama da onda
    revolucionaria mundial (quando já estava derrotada nos principais países, sobretudo
    na Alemanha) constituída pela revolução chinesa (1927), encontra em Trotsky seu
    defensor mais lúcido frente à política catastrófica liderada pela IC que passou
    para o controle stalinista.
  • f) Como historiador da
    Revolução, Trotsky é incomparável. Seus dois livros, "1905" e "A
    história da Revolução russa" são reais obras-prima. Eles não só têm um grande
    valor como livros de história, mas também como trabalhos marxistas que transmitem
    para os militantes e trabalhadores de todos os países o sopro autêntico do que realmente
    é a revolução proletária e que Trotsky resume admiravelmente por esta oração do
    prefácio do segundo trabalho: "
    A
    história da revolução é para nós, acima de tudo, a narrativa de uma irrupção
    violenta das massas no domínio onde se resolve seu próprio destino
    ". 

As fraquezas de Trotsky

Durante todo o período que vai
de 1903 até 1917, Trotsky mostra uma incompreensão permanente do método de
construção da organização. Suas tendências oportunistas e à conciliação sobre
esta questão o levam a não poder ser envolvido ativamente no combate de Lênin
para a construção de um real partido proletário na Rússia. Em particular, ele
não entende a necessidade do trabalho de fração dentro da social-democracia russa,
da intransigência e do rigor contra todas as tendências oportunistas, como
condição da fundação de um partido revolucionário sólido. Na hora da fundação da
Internacional Comunista, esta intransigência ainda está no centro do
procedimento dos bolcheviques que são os principais animadores do 1º Congresso.
Mas, posteriormente, notadamente a partir do 3º Congresso, enquanto a onda
revolucionária começa a retroceder, os bolcheviques se distanciam cada vez mais
deste rigor e desta intransigência que os permitiram construir o partido da Revolução
de Outubro e de conduzir esta até à vitória. A preocupação da IC era de
"ir às massas". No entanto, se por um lado as políticas de "infiltração
nos sindicatos", de "parlamentarismo revolucionário", e depois dessas
as de "frente única" e de "governo operário", foram de pouca
eficiência em termos de influência da IC sobre as massas operárias que foram de
derrota em derrota, contribuiu por outro lado, em grande medida, ao processo de
degeneração oportunista dos partidos comunistas. Os bolcheviques e Lênin, em primeiro
lugar, caem na ilusão que a sua presença na cabeça da IC podia protegê-la do
oportunismo. A história demonstrou que não foi o caso, mas é uma lição que
Trotsky foi incapaz de tirar. Quando ele decide, com atraso em relação a outras
correntes de esquerda, criar uma oposição de Esquerda e agrupar as correntes
que lutam contra a degeneração da IC e dos PC, ele retoma por conta própria, de
maneira caricatural, a política da IC durante seus 3º e 4º congresso, política que
a conduziu ao desastre, em vez de se apoiar na experiência e o rigor dos
bolcheviques entre 1903 e 1917. Esta orientação o conduz, na cabeça da Oposição
de Esquerda internacional, a uma política de manobras, sem princípio, onde se
passa do dia para a noite da necessidade de proclamar novos partidos a essa outra
necessidade do entrismo nos partidos social-democratas (que há muito tempo eram
instrumentos da burguesia). É neste contexto que é fundada uma nova
Internacional em 1938, no momento em que o mundo está no fundo do abismo da
contrarrevolução. Para ter retido de Lênin só a política errônea que tinha preconizado
frente ao refluxo da revolução em vez de se inspirar na política que ele tinha travado
nos anos antes da revolução, política que Trotsky tinha combatido, este último não
é capaz de nada mais que fundar uma corrente fraca, atravessada por repetidas crises
e, sobretudo, gangrenada pelo oportunismo, uma corrente que durante a Segunda
Guerra Mundial, ao participar desta, encontra-se com os partidos socialistas e
comunistas no campo capitalista.

A defesa da URSS

Uma entre as posições
políticas do Trotskismo que mais contribui para sua participação na guerra
imperialista (e assim para sua traição) é a "defesa da URSS" baseada
na idéia que ainda existia neste país "conquistas operárias", que o
Estado que administra o país é, mesmo "degenerado", um "Estado operário".
De certa maneira, esta questão já tinha sido colocada em 1921 no debate sobre
os sindicatos que tinha acontecido no partido bolchevique. Em poucas palavras,
havia três posições frente à questão: "qual deve ser o papel de sindicatos
na sociedade soviética?":
 

  • Para a Oposição operária, os
    sindicatos tinham como função, numa sociedade onde o capitalismo tinha sido
    abolido, permitir aos trabalhadores que administrassem a produção;
  • para Trotsky, visto que a
    URSS era administrada por um "Estado operário", o papel dos
    sindicatos era permitir o enquadramento do proletariado por este Estado operário;
  • para Lênin, ambas as
    posições anteriores eram errôneas porque baseadas sobre falsas premissas: o
    caráter "operário" do Estado; a propósito deste Estado, Lênin dizia
    que não era operário, mas "operário e camponês com deformações
    burocráticas" e que, neste sentido, os trabalhadores deviam poder defender
    seus interesses contra ele, os sindicatos constituindo justamente o órgão para
    esta defesa.
     

Na realidade, o erro principal
de Trotsky (como a da Oposição operária que tem uma visão anarcossindicalista)
consiste em considerar que tem "aquisições operárias" na Rússia e das
quais o Estado é fiador. Fundamentalmente é esta visão que ele mantém
posteriormente e que conduz à posição de "defesa da URSS".

A natureza das medidas econômicas tomadas na URSS

Na realidade, Trotsky se
afasta nesta questão da concepção marxista da transição do capitalismo ao
socialismo. Para o marxismo (e é um entre os pontos que o distingue da visão de
anarcossindicalista), o primeiro ato da revolução proletária é constituído pela
tomada do poder político pelo proletariado, ao contrário da revolução burguesa
onde a instauração do poder da burguesia na esfera política vem completar um
processo inteiro de desenvolvimento das relações capitalistas de produção
dentro da sociedade feudal. É só a partir do momento em que o proletariado poder
estabelecer sua ditadura sobre o conjunto da sociedade que ele poderá atacar as
relações de produção herdadas da sociedade antiga. E como a revolução comunista
só pode ser mundial, a ditadura do proletariado para poder realmente atacar as
relações de produção capitalista deve se estender em escala mundial, ou pelo
menos à escala dos principais países industrializados. Trotsky tinha perfeitamente
razão em considerar que a tese do "socialismo em um só país"
constituía uma real traição do programa revolucionário. Porém, sua defesa da
posição internacionalista (como já foi o caso durante a Primeira Guerra Mundial
em outros aspectos) é fraca porque não baseada sobre uma compreensão clara da
visão marxista. A única maneira de defender de maneira rigorosa a
impossibilidade do "socialismo em um só país" é ao partir de que a
real transformação econômica para o comunismo só pode começar quando o
proletariado terá vencido politicamente em nível mundial. Até este momento, as
medidas econômicas que podem ser tomadas a nível de um país (como era o caso de
Rússia) só podem ser evocadas para permitir 
que o proletariado conserve seu poder político e impulsione a Revolução
nos outros países. Mas em nada, estas medidas podem ser consideradas em si como
"socialistas".

A questão do Estado proletário

Os bolcheviques (esses que
permaneceram fiéis ao internacionalismo) estavam bem conscientes de que a
Revolução russa estava condenada se ela não pudesse se estender. Eles sabiam
que a contrarrevolução conseguiria finalmente vencer também no seu país. Mas
eles pensavam que a contrarrevolução viria do exterior ou, ainda, das outras
classes que permaneciam na Rússia como o camponesinato. O que eles não entenderam
num primeiro tempo é que a contrarrevolução não viria do "exterior",
mas do "interior" do Estado que se estabeleceu no dia seguinte à revolução.
É justamente o grande mérito de Lênin ter apreendido, a partir de 1921 e contra
a concepção de Trotsky, que não havia nenhuma identidade de interesses entre
este Estado e o proletariado. Na realidade, conforme o que Marx e Engels já
tinham entrevisto, a noção de Estado proletário é errônea. Por exemplo, Engels escreveu:
"podemos dizer pelo menos que o
Estado é uma praga da qual o proletariado herda em sua luta para chegar a sua
dominação de classe
". O proletariado não pode se identificar com uma
praga nem sequer quando é forçado a usá-la numa sociedade onde as classes ainda
existem.

Na realidade, se, ao contrário
do que reivindicam os anarquistas, o Estado permanece depois da tomada do poder
pelo proletariado pelo fato que subsistam classes sociais, este é
fundamentalmente um instrumento de conservação da situação adquirida, mas de
jeito nenhum um instrumento da transformação das relações de produção para o
comunismo. Neste sentido, a organização do proletariado como classe em conselhos
operários tem que impor sua hegemonia sobre o Estado, mas nunca identificar-se
com este. Ele deve ser capaz, se for necessário, de se opor ao Estado (como Lênin
o tinha entendido). É exatamente porque, com a extinção da vida dos sovietes
(inevitável por conta da derrota da Revolução mundial), o proletariado perdeu
esta capacidade de agir e se impor ao Estado que este último pôde desenvolver
suas próprias tendências conservadoras até se tornar o coveiro da Revolução, ao
mesmo tempo em que ele absorveu na sua engrenagem o partido bolchevique, transformando
a natureza dele.

Para concluir

Não abordamos todos os
aspectos de sua carta, notadamente as críticas a Que fazer?. Compartilhamos algumas dentre elas, também achamos que
uma outra importante está ausente. Ademais, achamos que valeria esclarecer o
papel de Kollontai, particularmente em relação à Kronstadt, e responder a todos
os "Por que", colocados com toda razão por você no seu texto. Faremos
isso se lhe interessa continuar o debate sobre este aspecto. Para preparar
nossa resposta, logo publicaremos um artigo a propósito dos debates entre
revolucionários no início do século 20.
 

Saudações internacionalistas

CCI