Outubro de 17, o começo da revolução mundial: As massas operárias tomam seu destino em suas próprias mãos (Brochura da CCI)

  

Introdução

A revolução na Rússia continua sendo até agora a ação mais grandiosa das massas exploradas para tentar destruir um sistema que as reduz a meras bestas de carga da maquinaria econômica ou carne de canhão nas guerras entre potências imperialistas. Foi a ponta de lança de uma onda revolucionária mundial que se desenvolveu em reação contra a barbárie da Primeira Guerra mundial. Para fazer-se donos de seu próprio destino e começar a construção de outra sociedade, uma sociedade comunista, sem exploração, sem miséria, sem guerras, sem classes, sem nações, milhões de proletários conseguiram romper com sua atomização, unir-se conscientemente, dar-se meios para atuar coletivamente como uma só e única força, levando-se atrás deles a todas as demais camadas exploradas da sociedade. Pela Primeira vez em sua história, o proletariado conseguiu tomar o poder político em um país.

Unindo contra a Revolução a todas as forças que se estavam enfrentando na Primeira Guerra mundial, a burguesia conseguiu vencê-la antes que se generalizasse a revolução mundial, esmagando, em particular, à classe operária na Alemanha, coração do proletariado industrial mundial. Foi a burguesia a que, ao afogar a Revolução russa com o bloqueio de suas fronteiras, precipitou a degeneração e a perda progressiva do poder político da classe operária. Assim favoreceu objetivamente a vitória na Rússia do stalinismo, braço armado da contra-revolução nesse país em que se impôs mediante a repressão sistemática e maciça da classe operária, mediante a eliminação no próprio Partido bolchevique das maiores figura de Outubro de 1917.

Esse primeiro intento revolucionário mundial é para a classe operária uma fonte considerável de ensinos, um patrimônio inestimável para a preparação aos próximos enfrentamentos revolucionários[1].

Nada pode encolerizar mais a uma classe exploradora que a sublevação dos explorados. As revoltas dos escravos quando o Império romano, a dos servos sob o feudalismo sempre foram reprimidas com uma crueldade desumana. A revolta da classe operária contra o capitalismo é uma ofensa ainda major contra a classe dominante, ao escrever claramente em sua bandeira a perspectiva de uma nova sociedade, uma sociedade autenticamente comunista que liberará a humanidade das calamidades de todas as sociedades de classes da história até o capitalismo. É por isso que, para a classe capitalista, não basta só reprimir as tentativas revolucionários da classe operária, banhando-as  em seu sangue; a contra-revolução capitalista é sem lugar a dúvidas a mais sangrenta da história, mas necessita ir além transfigurando o seu inimigo para desprestigiá-lo.

Por isso a burguesia, além de seu arsenal repressivo, utilizou seu arsenal ideológico para pôr em cena e manter a maior mentira da história, afirmando que o stalinismo seria a continuidade do regime político nascido na Revolução de 1917 no Rússia. De igual modo, outra mentira afirma que todos os países dominados pela URSS haveriam também sido "regimes comunistas". Todas as frações da burguesia , dos PC até a extrema-direita passando pelos social-democratas (sem esquecer à corrente trotskista desde que se passou a burguesia ao trair o internacionalismo proletário durante a Segunda guerra mundial) contribuíram a essa mistificação desde finais dos anos 1920. As ensurdecedoras campanhas democráticas que se desencadearam com o afundamento dos regimes stalinistas a princípios dos anos 1990 arrastaram ao chão o movimento operário, seus momentos gloriosos (outubro do 1917), suas organizações revolucionárias (a Partido bolchevique) e suas figuras (Marx, Lênin) reativando essa mentira com o objetivo parcialmente obtido de debilitar a consciência da classe operária.

Entretanto, a burguesia não conseguiu erradicar a consciência de classe do proletariado. De novo, sob os efeitos do desmoronamento na crise econômica e dos ataques contra a classe operária, diante de as manifestações cada vez mais evidentes da quebra do capitalismo, saem de novo à luz tentativas de reatar com o passado revolucionário de sua classe por parte de algumas minorias. As mentiras mais ásperas da burguesia sobre a Revolução russa serão incapazes de resistir a suas perguntas e a sua busca de verdade. Por isso não vamos insistir especialmente neste folheto em pôr de relevo que o stalinismo, não foi, nem muito menos, a continuidade do movimento revolucionário, mas sim seu principal verdugo [2].

Com a publicação desta seleção de artigos publicados já em nossa Revista internacional, queremos responder a certas perguntas ou dúvidas que regularmente se expressam assim que se evoca a Revolução de Outubro;

  • Foi a insurreição de Outubro um golpe do Partido bolchevique ou a emanação da vontade dos sovietes?
  • O proletariado seguiu cegamente a Partido bolchevique para Revolução de Outubro ou Outubro foi o resultado de um autêntico movimento da classe operária?
  • Como se explica a influência crescente do Partido bolchevique nas filas operárias? Equivocados e mistificados pelo Partido bolchevique, teriam os operários abandonado progressivamente suas responsabilidades para as deixar em mãos daquele? Ou, mas bem, defendia realmente essa vanguarda da classe os interesses imediatos e históricos desta, contra as posições dos demais partidos (incluídos as partidos pretensamente "operários") a favor da defesa do capital nacional e da guerra?
  • Teria sido possível que o proletariado, depois de ter abandonado o poder a um partido burguês em fevereiro de 1917, tivesse conseguido, sem partido, tomar o poder em outubro?
  • Como explicar a degeneração da Revolução russa? Estava já escrita de antemão no programa do Partido bolchevique, que conteria já, de forma subjacente, o projeto stalinista? Ou, deveu-se ao isolamento internacional do bastão proletário?

[1] Leia-se nosso folheto a Rússia 1917, princípios da revolução mundial - A maior experiência revolucionária da classe operária.

[2] Recomendamos aos leitores interessados os folhetos O terror stalinista: um crime do capitalismo, não do comunismo e O afundamento do stalinismo, assim como também nosso manifesto Revolução comunista ou destruição da humanidade.

A revolução proletária de outubro de 1917 é produto da ação consciente e massiva dos trabalhadores

Em 1914 os senhores “bons funcionários” de governantes, reis, políticos, militares, como expressões e agentes de um sistema social que entrava na sua época de decadência, levaram o mundo ao cataclismo da Primeira Guerra mundial: mais de 20 milhões de mortos, destruições jamais vistas até então, desabastecimento, penúria e fome na retaguarda; morte, selvageria da disciplina militar, sofrimentos sem limites na frente de batalha; toda Europa se viu inundada no caos, a barbárie, a aniquilação de indústrias, edifícios, monumentos...

O proletariado internacional, depois de ter se deixado arrastar pelos venenos patrióticos e as falácias democráticas dos governos, avalizados pela traição da maioria de partidos social-democratas e dos sindicatos, começou a reagir contra a barbárie guerreira desde finais de 1915. Greves, revoltas contra a fome, manifestações contra a guerra, explodem na Rússia, Alemanha, Áustria, etc. E no front, sobretudo nos exércitos russo e alemão, surgem motins, deserções coletivas, confraternização entre soldados de ambos os lados. À cabeça do movimento estão os internacionalistas, os bolcheviques, os espartaquistas, toda esquerda da Segunda internacional que desde a explosão da guerra em agosto de 1914, a denunciam sem vacilar como uma rapina imperialista, como uma manifestação da débâcle do capitalismo mundial, como o sinal para que o proletariado cumpra sua missão histórica: a revolução socialista internacional.

O desenvolvimento do movimento, de fevereiro a outubro de 1917

À vanguarda deste movimento internacional que acabará com a guerra e abrirá a possibilidade da revolução mundial, os operários russos desde finais de 1915 protagonizam greves econômicas que são duramente reprimidas. No entanto, o movimento cresce: o 9 de janeiro de 1916 - aniversário do início da Revolução de 1905 -  é comemorado pelos trabalhadores com greves massivas. Novas greves estouram ao longo do ano acompanhadas por comícios, discussões, reivindicações, choques com a polícia.

A revolução russa, ponta de lança do movimento internacional do proletariado contra a guerra mundial

"Em fins de 1916, o custo da vida elevou-se vertiginosamente. À inflação e à desorganização dos transportes acrescentam-se extrema escassez de mercadorias. Reduziu-se o consumo, nessa época, a menos da metade. A partir de outubro entra a luta em sua fase decisiva, unificando as diversas manifestações do descontentamento: Petrogrado tomava impulso para o grande salto de Fevereiro. Nas fábricas, fervilhavam os meetings. Temas: a questão do abastecimento, o custo da vida, a guerra, o Governo. Circulavam os panfletos bolcheviques. Declaravam-se greves políticas. À saída das fábricas, improvisavam-se manifestações. Operários de algumas empresas confraternizavam com os soldados. Uma violente greve de protesto estourou contra o processo dos marinheiros revolucionários da frota do Báltico. (...) os trabalhadores sentiam cada dia mais de perto a impossibilidade de recuo. Em cada fábrica formava-se um núcleo de ação geralmente em torno de dos bolcheviques. Durante as duas primeiras semanas de fevereiro, as greves e os meetings sucedem-se sem interrupção. No dia 8, na fábrica Putilov os policiais foram recebidos por uma "chuva de ferramentas e escórias". A 19, perto dos armazéns de provisões, formaram-se agrupamentos, sobretudo compostos de mulheres, e todos reclamavam pão. No dia seguinte, em alguns quarteirões da cidade, as padarias foram depredadas. Eram os relâmpagos precursores da insurreição que se devia desencadear alguns dias mais tarde.[1]

Um movimento de massas

Acabamos de ver as etapas sucessivas de um processo social que hoje muitos operários consideram utópico: a transformação dos trabalhadores de uma massa atomizada, apática, dividida, em uma classe unida que atua como um só homem e se volta capaz de lançar ao combate revolucionário, como demonstram os 5 dias que vão de 22 a 27 de fevereiro de 1917.

"Os trabalhadores compareceram às fábricas, pela manha, porém em vez de começar a trabalhar, organizaram meetings e, à saída, dirigiram-se para o centro da cidade. Outros bairros e outros grupos da população aderiram ao movimento. A palavra de ordem "pão" desapareceu ou foi abafada por outras fórmulas: "abaixo a guerra!" Pela Perspectiva Nevsky as manifestações não cessam (...) A 23 de fevereiro, sob a bandeira do Dia da Mulher, explode a insurreição das massas operárias de Petrogrado, de há muito amadurecida e contida . A primeira fase da insurreição foi a greve, que em três dias se estende a ponto de converter-se em greve geral. Este simples fato era suficiente para infundir confiança nas massas e leva-las avante. A greve, assumindo um caráter cada vez mais acentuadamente ofensivo, combina-se com manifestações de rua que põem as massas revolucionárias em contato com as tropas (...) as massas não queriam mais retroceder, resistiam com um furo otimista, não abandonavam as ruas apesar das descargas mortais (...) "Não disparem contra seus irmãos e irmãs!" gritam os operários e operárias. E não somente: "Marchem conosco!" Assim, nas ruas e nas praças, nas pontes e nas portas dos quartés, desenvolveu-se uma luta ininterrupta, ora gramática, ora imperceptível, porém sempre desesperada, pela conquista do soldado. Os operários não cedem, não recuam, e mesmo sob uma chuva de balas querem chegar ao fim. Ao lado deles estão as operárias, mães, irmãs, esposas e companheiras. E chegara a hora sobre a qual tanto se falava em voz baixa, nos recantos: "Se nos uníssemos todos!" " [2]

As classes dirigentes não podem acreditar, pensam que se trata de uma revolta que desaparecerá com um bom castigo. O fracasso estrondoso das ações terroristas de pequenos corpos da elite comandados por coronéis da gendarmaria evidencia as firmes raízes do movimento: "A alguns do exército, simples especuladores, a Revolução parece indefensável (...) Seria suficiente - parecia - levantar o sabre sobre todo esse tumulto para que a multidão se espalhasse sem deixar rasto. Era, porém, uma grosseira ilusão de ótica. O caos era apenas aparente. Sob este caos dava-se a irresistível cristalização das massas em torno de novos eixos" [3].

Uma vez rompidas as primeiras cadeias, os operários não querem retroceder e para caminhar sobre terra firme retomam a experiência de 1905 criando os Sovietes, organizações unitárias do conjunto da classe em luta. No entanto, os Sovietes são imediatamente dominados pelos partidos menchevique e social-revolucionário, antigos partidos operários que passaram ao campo burguês por sua participação na guerra, e permitem formar um Governo provisório onde estão os "grandes personagens" de sempre: Miliukov, Rodzianov, Kerenski...

A primeira obsessão desse governo é convencer os operários de que devem "voltar a normalidade", "abandonar os sonhos" e transformar-se na massa submissa, passiva, atomizada, que a burguesia necessita para manter seus negócios e continuar a guerra. Os operários não engolem. Querem viver e desenvolver a nova política: a que exercem eles mesmos, unindo em um laço inseparável a luta por seus interesses imediatos com a luta pelos interesses gerais do conjunto da humanidade. Assim, frente à insistência dos burgueses e socialtraidores de que "o que toca é trabalhar e não reivindicar, porque agora temos liberdade política", os operários reivindicam a jornada de 8 horas para terem "liberdade" para se reunirem, discutir, ler, estar com os seus: "... uma onda de greves recomeçou depois da queda do absolutismo. Em cada fábrica ou oficina, sem esperar os acordos firmados nas alturas, se apresentaram reivindicações sobre os salários e a jornada de trabalho. Os conflitos se agravaram dia a dia e se complicavam em uma atmosfera de luta[4].

Em 18 de abril, Miliukov, ministro liberal do partido kadete do governo provisório, publica uma nota reafirmando o compromisso da Rússia com os aliados na continuação da guerra imperialista, a qual é uma verdadeira provocação. Os operários e os soldados respondem imediatamente: surgem manifestações espontâneas, são realizadas assembléias massivas nos bairros, nos regimentos, nas fábricas: "(...) a agitação que se levantara na cidade não descia de nível. As multidões se congregavam, os meetings continuavam, discutia-se em todas as esquinas, e nos bondes os passageiros se dividiam entre partidários e adversários de Miliukov (...) Em Moscou os operários abandonaram as máquinas, os soldados saíram dos quartéis e invadiram as ruas com protestos tempestuosos[5].

Em 20 de abril uma gigantesca manifestação força a demissão de Miliukov, a burguesia deve retroceder em seus planos de guerra. Maio registra uma frenética atividade de organização. Há menos manifestações e menos greves, porém isso não expressa um refluxo do movimento, mas ao contrário, manifesta seu avanço e desenvolvimento, porque os operários se dedicam a um aspecto de seu combate até então pouco desenvolvido: sua organização massiva. Os Sovietes se extendem aos recantos mesmo os mais recônditos da Rússia, ao seu redor aparece uma multidão de órgãos de massa: Comitês de fábrica, Comitês de camponeses, Sovietes de bairro, Comitês de soldados. Através deles as massas se agrupam, discutem, pensam, decidem. Debaixo de seu cálido alento se despertam os grupos de trabalhadores mais atrasados: "...A servidão, tratada antes como bestas ao que quase não pagavam nada, adquiriu noção de sua própria dignidade. Um par de sapatos custava mais de 100 rublos e como o salário médio não pasava de 35 ao mês, as criadas se negavam a estar nas filas e gastar o calçado. (...) Até os cocheiros tinham seu sindicato e seu representante no Soviete de Petrogrado. Os criados e camareiros se organizaram e renunciaram as gorjetas" [6].

Os operários e soldados começam a se cansar das eternas promessas do Governo provisório e do apoio que lhe dão os socialistas mencheviques e socialista revolucionário. Comprovam como crescem as filas, o desemprego, a fome. Veêm que diante da guerra e a questão camponesa, os de cima só oferecem discursos brilhantes. Estão se fartando da política burguesa e começam a vislumbrar as últimas consequências de sua própria política: a reivindição de "Todo o poder para os sovietes!" se transforma na aspiração de amplas massas operárias [7].

Junho, traduzindo todo o anterior, é um mês de intensa agitação política que culmina com as manifestações armadas dos operários e soldados de Petrogrado de 4 à 5 de julho: "... O primeiro lugar fora tomado pelas fábricas. Comprometeram-se, também, no movimento, empresas que na véspera se haviam conservado afastadas. Nos locais em que os dirigentes hesitavam e se opunham, a juventude operária forçava o membro do comitê da fábrica que estivesse de serviço a tocar a sirena para suspender o trabalho. Todas as fábricas estavam em greve e nelas se realizavam meetings. Elegiam-se dirigentes para a manifestação, assim como delegados que apresentariam reivindicações (...) De Kronstadt, de Nova Peterhoff, de Krasnoe-Selo, do forte de Krasnaia Gorka, de toda a periferia circunjacente, por mar e por terra, avançam soldados e marinheiros, precedidos por música, armados e, o que era pior, trazendo cartazes bolcheviques" [8].

No entanto, as jornadas de Julho se acabam com um amargo fracasso para os trabalhadores. A situação não está ainda madura para a tomada do poder pois os soldados não se solidarizaram de maneira plena com os operários; os camponeses estão cheios de ilusões a respeito dos Social-revolucionários e o próprio movimento nas províncias está atrasado comparativamente à capital.

Nos dois meses posteriores -agosto e setembro-, aguçados pela amargura da derrota e forçados pela violência da repressão burguesa, os operários vão resolver praticamente estes obstáculos, não através de um plano de ação preconcebido senão como produto de um oceano de iniciativas, de combates, de discussões nos Sovietes, etc., que vão materializando a tomada de consciência do movimento. Assim, a ação dos operários e soldados acaba se fundindo plenamente: "... Aparece um fenômeno de osmose, especialmente em Petrogrado. Quando a agitação se apropria do bairro operário de Vyborg, os regimentos aquartelados na capital entram em efervescência e vice-versa. Os operários e os soldados se habituam a sair à rua para manifestar alí seus sentimentos. A rua lhes pertence. Nenhuma força, nenhum poder, pode nesses momentos, lhes proibir de agitar suas reivindicações ou cantar a pleno pulmão hinos revolucionários" [9].

Depois da derrota de julho, a burguesia acredita que, por fim, pode acabar com o pesadelo. Para ele, se repartindo o trabalho entre o bloco "democrático" de Kerenski e o bloco abertamente reacionário de Kornilov -generalíssimo dos exércitos-, organiza o golpe militar deste último, que reúne os regimentos de soldados, caucásicos etc., que ainda parecem ser fiéis ao poder burguês e tenta lançá-los contra Petrogrado.

Porém a intentona fracassa estrepitosamente. A reação massiva dos operários e dos soldados, sua firme organização em um Comitê de defesa da Revolução -que sob controle do Soviete de Petrogrado se transformará no Comitê militar revolucionário, órgão da insurreição de Outubro- fazem que as tropas de Kornilov ou bem fiquem imobilizadas e se rendam, ou bem, o que sucede na maioria dos casos, desertem e se unam aos operários e soldados.

"... A Conjuração estava sendo organizada em círculos habituados a nada fazer, que nada sabem fazer sem os elementos da base, sem a força operária, sem a carne para canhão, sem os ordenanças, domésticos, notórios, condutores, entregadores, cozinheiros, lavadeiras, guarda-chaves, telegrafistas, cocheiros, moços de estrebaria etc. Ora todas essas pequenas engrenagens humanas, imperceptíveis, incontáveis, indispensáveis, estavam do lado dos soviets e contra Kornilov (...)

O ideal da educação militar consiste em que o soldado possa agir fora da vigilância dos chefes como se estivesse sob os olhos deles. Ora, os soldados e os marinheiros russos de 1917, que nem mesmo sob os olhos dos comandantes executavam as ordens oficiais, apanhavam no ar, avidamente, as ordens da Revolução e, no mais das vezes, as executavam por iniciativa própria antes mesmo de as terem recebido.

Não é, portanto de admirar que as massas dirigidas pelos bolcheviques contra Kornilov não tenham depositado em Kerensky um mínimo de confiança. Tratava-se para elas não de proteger o Governo mas de defender a Revolução. E tanto mais resoluta e intrépida era a a luta que tratavam. A resistência ao motim saía dos trilhos, das pedras e do próprio ar. Os ferroviários da estação de Luga, onde chegara Krymov, recusavam, obstinadamente, por os trens em marcha para transportar tropas, alegando falta de locomotivas. Os escalões cossacos viram-se também envolvidos pelos soldados armados que faziam parte da guarnição da Luga, num total de vinte mil homens. Não houve colisões; o que se passou foi bem mais perigoso: contatos, entendimentos, compreensão mútua" [10].

Um movimento consciente

Os burgueses concebem as revoluções operárias como um ato de demência coletiva, um caos pavoroso que acaba pavorosamente. A ideologia burguesa não pode admitir que os explorados possam atuar por sua própria conta. Ação coletiva e solidária, ação consciente da maioria trabalhadora, são noções que o pensamento burguês considera uma utopía anti-natural (o "natural" para a burguesia é a guerra de todos contra todos e a manipulação pelas elites das grandes massas humanas).

"... em todas as revoluções precedentes, nas barricadas batia-se os operários, os pequenos artífices, um certo número de estudantes; os soldados tomavam o partido deles; em seguida a burguesia cascuda, que observava prudentemente os combates pelas janelas, recolhia o poder. A Revolução de Fevereiro de 1917 diferia porém das outras revoluções precedentes, pelo caráter social incomparavelmente mais elevado, pelo alto nível político da classe revolucionária, por uma hostil desconfiança dos insurretos em relação à burguesia liberal e, em conseqüência, pela criação, na própria hora da vitória, do novo órgão de poder revolucionário: um soviete apoiado na massa armada[11].

Esta natureza totalmente nova da Revolução de Outubro corresponde ao ser mesmo do proletariado, classe explorada e revolucionária de vez, que só pode libertar-se se for capaz de atuar de maneira coletiva e consciente.

A Revolução Russa não é o simples produto passivo de umas condições objetivas excepcionais. É também o produto de uma tomada de consciência coletiva. Sob da forma de lições, de reflexões, de consignas, de recordações, podemos ver nela a impressão das experiências do proletariado, da Comuna de Paris de 1871, da revolução de 1905, das batalhas da Liga dos comunistas, da Primeira e Segunda Internacional, da Izquierda de Zimmerwald, dos bolcheviques. A revolução russa é sem dúvida uma resposta a guerra, a fome e a bárbarie agonizante do czarismo, porém é uma resposta consciente, guiada pela continuidade histórica e mundial do movimento proletário.

Isto se manifesta concretamente na enorme experiência dos operários russos que haviam vivido as grandes lutas de 1898, 1902, a Revolução de 1905 e as batalhas de 1912-14, de vez que haviam feito surgir de suas entranhas o partido bolchevique, na ala esquerda da Segunda Internacional. "... não seria necessário contar com as massas, em geral, mas com a massa proletária de Petrogrado e de toda Rússia, que passara pela experiência da Revolução de 1905 e pela insurreição moscovita de dezembro do mesmo ano, esmagada pelo Regimento Semenovsky, da Guarda; era necessário que no seio dessa massa existissem operários que tivessem refletido sobre as experiências de 1905, criticado as ilusões constitucionais dos liberais e dos mencheviques, assimilando perspectivas da Revolução, examinando muitas e muitas vezes o problema do exército[12].

Mais de 70 anos antes da Revolução de 1917, Marx e Engels escrevíam que: "... a revolução não só é necessária porque a classe dominante não pode ser derrubada de outra maneira, senão também porque unicamente por meio de uma revolução poderá a classe que derruba a outra, sair da lama em que está submersa e voltar-se capaz de fundar a sociedade sobre novas bases[13]. A Revolução russa confirma plenamente esta posição: o movimento mesmo contribui com os materiais para a autoeducação das massas: "A Revolução ensina e ràpidamente. Nisto reside a sua força. Cada semana revelava às massas algo novo Dois meses equivaliam a uma época. Em fins de fevereiro, insurreição. Em fins de abril, manifestação dos operários e soldados armados em Petrogrado. Em princípios de julho, nova manifestação, com maior amplitude e com palavras de ordem mais resolutas. Em fins de agosto, tentativa de golpe de Estado de Kornilov, repelido pelas massas. Em fins de outubro, conquista do poder pelos bolcheviques. Dentro de um ritmo de acontecimentos que revelam regularidade surpreendente, operavam-se profundos processos moleculares que soldavam em um todo político os elementos heterogêneos da classe operária" [14].

"Toda Rússia aprendia a ler e efetivamente lia livros de economia, de política, de história, lia porque a gente queria saber... A sede de instrução tanto tempo freiada abriu-se passagem ao mesmo tempo que a revolução com força espontânea. Nos primeiros seis meses da Revolução tão só do Instituto Smolny se enviavam a todos os confins do país toneladas, caminhões e trens de publicações. A  Rússia tragava o material impresso com a mesma insaciabilidade que a areia absorve a água... Depois a palavra. A  Rússia viu-se inundada de tal torrente de discursos que, em comparação, a "avalanche de loquacidade francesa", de que fala Carlyle, não passa de ser um regato. Conferências, controvérsias, discursos nos teatros, circos, escolas, clubes, quartéis, salas dos Sovietes. Comícios nas trincheiras da frente de batalha, nas praças do interior, nos pátios das fábricas. Que admirável espectáculo oferece a fábrica Putilov quando de seus muros saem em compacta torrente 40 000 operários para ouvir os socialdemocratas, eseristas, anarquistas, ou quem seja, fale do que fale e por muito tempo que fale!. Durante meses inteiros, cada cruzamento das ruas  de Petrogrado e de outras cidades russas era uma constante tribuna pública. Surgiam discussões e comícios espontâneos nos trens, nos bondes, em todas as partes... As tentativas de limitar o tempo dos oradores fracassavam estrepitosamente em todos os comícios e cada qual tinha a plena possibilidade de expressar todos seus sentimentos e idéias[15].

A "democracia" burguesa fala muito de "liberdade de expressão" quando a experiência nos diz que tudo nela é manipulação, teatro e lavagem cerebral; a autêntica liberdade de expressão é a que conquistam as massas operárias com sua ação revolucionária: "Em cada fábrica, em cada corporação, em cada companhia militar, em cada taverna, em cada hospital do Exército, em cada acantonamento e, até mesmo, nos campos despovoados progredia um trabalho molecular da idéia revolucionária. Por toda parte havia comentadores dos acontecimentos, principalmente operários com os quais se obtinham informações e dos quais se esperava a palavra necessária. Esses chefes de grupos estavam muitas vezes entregues a si mesmos, ingeriam os fragmentos de generalizações revolucionárias que chegavam até eles por diversos caminhos, descobrindo por sí mesmos, nos jornais liberais, o que lhes era necessário, lendo nas entrelinhas. Seu instinto de classe era aguçado pelo critério político, e, mesmo que não tivessem todas as suas idéias até o fim, o seu pensamento nem por isso trabalhava menos, sem um instante de trégua, obstinadamente, e sempre na mesma direção. Esses elementos de experiência, de crítica, de iniciativa e de abnegação penetravam nas massas e constituíam o mecanismo intimo despercebido a um olhar superficial, porém decisivo no que se tratava do movimento revolucionário, como processo consciente" [16].

Esta reflexão, esta tomada de conciência, punha a nú... " ... toda a injustiça material e moral inflingida aos trabalhadores, a exploração inumana, os salários de miséria, o trabalho extenuante, o dano causado a sua saúde, os sistemas de castigo requintado, o desprezo e a ofensa a sua dignidade humana pelos capitalistas e patrões, este conjunto de condições de trabalho insalubres e vergonhosas que os são impostas, este inferno inteiro que representa o destino diário do proletário debaixo do jugo capitalista[17].

Por isso mesmo, a Revolução russa apresenta uma unidade permanente, inseparável, entre a luta política e a luta econômica: "Cada onda de ação política deixa atrás de si um terreno fértil de onde surgem imediatamente mil brotos novos: as reivindicações econômicas. E inversamente, a guerra econômica incessante que os operários travam contra o capital mantém desperta a energia combativa inclusive nas horas de tranquilidade política; de alguma maneira constitui uma reserva permanente de energa de que a luta política extrai sempre forças renovadas. Ao mesmo tempo o trabalho infatigável de corrosão reivindicativa desencadeia aqui e alí conflitos agudos a partir dos quais estouram bruscamente batalhas políticas" [18].

Este desenvolvimento da consciência levou em junho-julho os operários a convicção de que não deviam esbanjar energias e dispersar-se em mil conflitos econômicos parciais, de que deviam concentrar suas forças na luta política revolucionária. Isto não supunha negar a luta reivindicativa senão, muito ao contrário, assumir suas consequências políticas: "Os soldados e os operários achavam que todas as outras questões dependiam da solução que fosse dada ao problema do poder, isto é, dependiam de ser o país governado pela burguesia ou pelos sovietes: salários, preço do pão, obrigação de se deixar matar no front para fins ignorados[19].

Esta tomada de conciência das massas operárias culmina com a insurreição de Outubro cujo ambiente prévio descreve admiravelmente Trotski: "As massas sentiam a necessidade de se manterem ligadas, cada um desejava controlar-se através dos outros e todos com espírito atento e tenso procuravam ver de que modo um único e mesmo pensamento se desenvolvia nas suas consciências e com diversas nuances características. Massas incontáveis mantinham-se nos circos e em outros grandes edifícios onde falavam os bolcheviques mais populares, levando ao povo as últimas deduções e os últimos apelos (...)

Porém nesse último período anterior a insurreição, era a agitação molecular levada a efeito pelos anônimos, operários, marinheiros, soldados, conquistando, um após outros, muitos simpatizantes, destruindo as derradeiras dúvidas, levando a melhor sobre as últimas hesitações. Meses de vida política febril criaram incontáveis quadros de base, educara centenas, milhares de autodidatas, que se habituaram a observar a política de baixo para cima e não de cima para baixo (...)

As massas não mais toleravam, no meio delas, os hesitantes, os que duvidavam, os neutros. Esforçavam-se por dominar a todos, atrai-los, convencê-los, conquistá-los. As usinas, juntamente com os regimentos, enviavam delegados ao front. Os soldados das trincheiras uniam-se aos operários e aos camponeses dos lugares mais próximos do front da retaguarda. Nas cidades desta zona realizavam-se inúmeros meetings, conciliábulos, conferências, no decorrer dos quais os soldados e os marinheiros harmonizavam seus atos com os operários e dos camponeses[20].

"(...) enquanto a sociedade oficial, essa superestrutura de numerosos andares que constituíam as classes dirigentes, seus grupos, seus partidos e seus clãs, vivia dia por dia na sua inércia e no seu automatismo, nutrindo-se das reminiscências de idéias caducas, surdas às inexoráveis exigências do progresso, seduzidas pelos fantasmas, sem prever coisa alguma, operava-se, nas massas proletárias, um processo espontâneo e profundo, não somente de ódio crescente contra os dirigentes e de um juízo crítico sobre a sua incapacidade, como também de acumulação de experiências e de consciência criadora, processo que se confirmou na insurreição e no triunfo revolucionário[21].

O proletariado, única classe revolucionária

Enquanto isso a política burguesa é realizada sempre em proveito de uma minoria da sociedade que é a classe dominante, a política do proletariado só pode ser feita com a participação massiva de todos os explorados e não persegue um benefício particular senão o de toda a humanidade.

"(...) a classe explorada e oprimida (o proletariado) já não se pode libertar da classe exploradora e opressora (a burguesia) sem simultaneamente libertar para sempre a sociedade toda da exploração[22].

A luta revolucionária do proletariado constitui a única esperança de libertação para todas as massas que hoje vivem mal em uma situação espantosa em 3/4 partes do planeta. A Revolução russa pôs o em evidência: os operários conseguem ganhar para a sua causa os soldados (camponeses em uniforme em sua maioria) e toda a população camponesa. O proletariado confirmava assim que a revolução não só é uma resposta em defesa de seus próprios interesses, senão também a única saída possivél para acabar com a guerra e com as relações sociais da exploração e da opressão capitalistas em geral.

A vontade operária de proporcionar uma perspectiva para as demais classes oprimidas foi habilmente explorada pelos partidos menchevique e socialista revolucionário que pretendiam, em nome da aliança com os camponeses e os soldados, fazer com que renunciar o proletariado renunciasse a sua luta autônoma de classe e a revolução socialista. Esta explicação parece, a primeira vista, o mais "lógico": se queremos ganhar as outras camadas há que dobrar-se a suas reivindicações, há que buscar um mínimo denominador comum em torno ao qual todas se possam unir.

No entanto, "Os estados médios - o pequeno industrial, o pequeno comerciante, o artesão, o camponês - todos eles combatem a burguesia para assegurar, face ao declínio, a sua existência como estados médios. Não são, pois, revolucionários, mas conservadores. Mais ainda, são reacionários, procuram fazer andar para trás a roda da história" [23].

Em uma aliança interclassista, o proletariado tem tudo a perder: não ganha as outras camadas oprimidas senão que as empurra aos braços do capital e ao mesmo tempo debilita sua unidade e sua consciência de forma decisiva; não leva adiante suas próprias reivindicações senão que as dilui e nega; não avança no caminho do socialismo senão que se atrasa e agora no pântano do capitalismo decadente. Em realidade, nem sequer ajuda as camadas pequeno burguesas e camponesas senão que contribui no seu sacrificio aos interesses do capital, porque as reivindicações "populares" são o disfarce que utiliza a burguesia para fazer passar por contrabando seus próprios interesses. O "povo" não está representando o interesse das "camadas laboriosas", senão o interesse explorador, nacional, imperialista, do conjunto da burguesia.

"A aliança dos mencheviques com os socialistas-revolucionários significava, em tais condições, não uma colaboração do proletariado com os camponeses, mas uma coligação de partidos que haviam rompido com os proletários e os camponeses, para se associarem, num bloco comum, às classes possuidoras[24].

Se o proletariado quer ganhar a sua causa as camadas não exploradoras deve afirmar de maneira ainda mais clara e total suas próprias reivindicações, seu próprio ser, sua autonomia de classe. Deve ganhar as outras camadas não exploradoras naquilo em que possam ser revolucionárias.

"Se são revolucionários, são-no apenas à luz da sua iminente passagem para o proletariado, e assim não defendem os seus interesses presentes, mas os futuros, e assim abandonam a sua posição própria para se colocarem na do proletariado[25].

Concentrando sua luta em pôr fim à guerra imperialista; buscando dar uma perspectiva de solução ao problema agrário [26] criando os sovietes como organização de todos os explorados; e, sobretudo, apresentando a alternativa de uma nova sociedade frente à bancarrota e ao caos da sociedade capitalista, o proletariado na Rússia se colocou na vanguarda de todas as classes exploradas e soube lhes dar uma perspectiva a qual se unir e lutar.

A afirmação autônoma do proletariado não o isola das demais camadas oprimidas, ao contrário, lhe permite isolar o Estado burguês destas. Frente ao impacto sobre os soldados e os camponeses da campanha da burguesia russa sobre o "egoísmo" dos operários com sua reivindicação da jornada de 8 horas, estes

"Os operários, entretanto, compreenderam o perigo e evitaram-no habilmente, Bastava-lhes contar a verdade, mencionar os montantes dos lucros de guerra, mostrar aos soldados as usinas e as oficinas em que roncavam as máquinas, a chama infernal dos fornos - front permanente no qual os operários sofriam perdas incontáveis. Por iniciativa dos operários, organizaram-se visitas dos destacamentos da guarnição às fábricas, sobretudo àquelas que trabalhavam para a defesa do país. O soldado olhava e ouvia, o operário mostrava e explicava. As visitas terminavam em solene confraternização" [27].

"O Exército estava irremediavelmente enfermo. Ainda valia um pouco para pronunciar-se na Revolução. Todavia para a guerra, não mais existi[28].

Essa "enfermidade incurável" do Exército era o produto da luta autônoma da classe operária. Do mesmo modo, frente ao problema agrário, que o capitalismo decadente não só é incapaz de resolvê-lo senão que não termina de agravá-lo, o proletariado o encarou acertadamente: todos os dias saíram das cidades industriais legiões de agitadores, delegações de Comitês de fábrica, de Sovietes, para discutir com os camponeses, para lhes animar a luta, para organizar os operários agrícolas e aos agricultores pobres. Os Sovietes e os Comitês de fábrica tomaram numerosas resoluções declarando sua solidariedade com os camponeses e propondo medidas concretas de solução do problema agrário: "A conferência dos comitês de fábricas e de usinas de Petrogrado consagra sua atenção à questão agrária e elabora, segundo relatório de Trotsky, um manifesto dirigido aos camponeses: o proletariado tem consciência de si mesmo não apenas como classe particular, mas como na qualidade de dirigente do povo[29].

Os sovietes

Enquanto isso a política da burguesia concebe a maioria como uma massa a ser manipulada para que referende as ações preparadas pelos  poderes do Estado, a política operária se apresenta como a obra livre e consciente da grande maioria para seus próprios interesses.

"Os sovietes, conselhos de deputados ou delegados das assembléias operárias, apareceram espontaneamente pela primeira vez na grande greve de massas que sacudiu a Rússia em 1905. Era a emanação direta de milhares de assembléias de trabalhadores, nas fábricas e nos bairros, que se multiplicaram por todas as partes, na maior explosão de vida operária que até então se havia produzido na história. Como se retomassem a luta ali onde seus antepassados da Comuna de Paris em 1871 a haviam deixado, os operários generalizaram na prática a forma de organização que os comunards haviam tentado: assembléias soberanas, centralização mediante delegados eleitos e revogáveis[30].

Desde que em fevereiro os operários derrubaram o Czarismo, em Petrogrado, em Moscou, em Jarkov, em Helsingfors, em todas as cidades industriais se constituíram rapidamente Sovietes de delegados operários, aos que se uniram os delegados dos soldados e, posteriormente dos camponeses. Ao redor dos Sovietes, o proletariado e as massas exploradas constituíram uma rede infinita de organizações de luta, baseadas nas assembléias, na livre discussão e decisão de todos os explorados: Sovietes de bairro, Conselhos de fábrica, Comitês de soldados, Comitês camponeses... "A rede de conselhos operários e de soldados locais em toda Rússia formava a coluna vertebral da revolução. Com sua ajuda havia se estendido a revolução como uma rede por todo o país, só sua existência era possível dificultar enormemente todo intento de reação[31].

A "democracia" burguesa reduz a "participação" das massas e dá a cada 4 anos o voto a um senhor que faz com ele o que necessita a burguesia; frente a ela, os Sovietes constituem a participação permanente, direta, das massas operárias que em assembléias gigantescas discutem e decidem sobre todos os assuntos da sociedade. Os delegados são eleitos e revogados a todo momento e participam dos Congressos com mandatos definidos.

A "democracia" burguesa concebe a "participação" segundo a farsa do indivíduo livre que decide sozinho diante da urna. É, pois, a consagração da atomização, o individualismo, o todos contra todos, o mascaramento da divisão de classes, o que favorece a classe minoritária e exploradora. Em troca, os Sovietes se baseiam na discussão e na decisão coletivas, cada qual pode sentir o alento e a força do conjunto e sobre essa base desenvolver todas suas capacidades reforçando por sua vez o coletivo. Os Sovietes partem da organização autônoma da clsasse trabalhadora para, desde essa plataforma, lutar pela abolição das classes.

Os operários, soldados e camponeses consideravam os Sovietes como sua organização. "Não somente os operários como os soldados das guarnições da retaguarda, mas a massa heterogênea do povo das cidades - artesãos, vendedores ambulantes, pequenos funcionários, cocheiros, porteiros, empregados domésticos de toda espécie - afastavam-se do Governo Provisório e das suas repartições e procuravam um poder mais próximo, mas acessível. Em número sempre crescente, apresentavam-se ao Palácio de  Táuride os delegados dos campos. As massas afluíam aos sovietes como sob os arcos-de-triunfo da Revolução. Tudo o que permanecia fora dos sovietes ficava de qualquer maneira à margem da Revolução e parecia pertencer a outro mundo. E assim era, em realidade; fora dos sovietes permanecia o mundo dos possuidores[32].

Nada podia se fazer em toda a Rússia sem os sovietes: as delegações da frota do Báltico e do Mar Negro, declaram em 16 de março que só obedeceriam às ordens do Governo provisório  que estivessem de acordo com as decisões dos sovietes. O 172º Regimento é ainda mais explícito: "O Exército e o povo devem obedecer somente às decisões do Soviete (...) As ordens do Governo Provisório, que se contrapuserem às decisões do Soviete, não estão sujeitas a execução[33].

Guchkov, grande capitalista e ministro do Governo provisório declara: "Por desgraça, o Governo já não dispõe de qualquer poder real; o Soviete domina as tropas, as vias férreas, os correios, os telégrafos. Pode-se dizer com franqueza que o Governo Provisório subsistirá somente enquanto o Soviete permitir[34].

A classe operária, como classe que aspira à transformação revolucionária e consciente do mundo, necessita um órgão que lhe permita expressar todas suas tendências, todos seus pensamentos, todas suas capacidades; um órgão extremamente dinâmico que sintetize em cada momento a evolução e o avanço das massas; um órgão que não caia no conservadorismo e na burocracia, que lhe permita recusar e combater toda tentativa de confiscar o poder direto da maioria. Um órgão de trabalho, onde se decidam as coisas de maneira rápida e ágil, de maneira consciente e coletiva, de tal forma que todos se sintam implicados em sua aplicação.

"Os Sovietes, a principio órgãos de controle, transformavam-se em órgãos administrativos. Não se resignavam a qualquer teoria de divisão dos poderes e intervinham na direção do exército, nos conflitos econômicos, nas questões de abastecimento e de transporte, e mesmo nos negócios judiciários. Sob a pressão dos operários, os sovietes decretavam a jornada de oito horas, eliminavam os administradores por demais reacionários, destituíam os mais insuportáveis dentre os comissários do Governo Provisório, procediam a detenções e a inquéritos, interditavam os jornais hostis[35].

Temos visto como a classe operária foi capaz de se unir, de expressar toda sua energia criadora, de atuar de maneria organizada e consciente, de, no fim das contas, se levantar frente uma sociedade como a classe revolucionária que tem como missão instaurar a nova sociedade, sem classes e sem Estado. Porém, para isso, a classe operária devia destruir o poder da classe inimiga: o Estado burguês, encarnado pelo Governo provisório; e impor seu próprio poder: o poder dos sovietes.



[1] Trotski, A História da Revolução russa; Edição - Editora Paz e Terra; Volume I; capítulo "o proletariado e os camponeses".

[2] Trotski, op. cit. Capítulo "Cinco dias".

[3] Trotski, idem.

[4] Ana M. Pankratova, Os Conselhos de fábrica na Rússia de 1917, capítulo "Os Comitês de fábrica obra da Revolução". Tradução nossa.

[5] Trotski, op.cit. Capítulo "As Jornadas de Abril".

[6] J. Reed, Dez dias que estremeceram o mundo. Tradução nossa.

[7] Dois meses antes, em abril, quando esta reivindicação foi proposta por Lênin em suas famosas Teses, foi recusada no seio mesmo do partido bolchevique como utópica, abstrata, etc.

[8] Trotski, op.cit. Volume II; capítulo "Poderiam os bolcheviques tomar o poder em Julho?".

[9] G. Soria, Os 300 dias da Revolução russa. Tradução nossa.

[10] Trotski, op.cit. Capítulo "A burguesia mede-se com a democracia".

[11] Trotski, op.cit. Volume I; capítulo "O paradoxo da Revolução de Fevereiro".

[12] Idem.

[13] Marx y Engels, A ideologia alemã.

[14] Trotski, op.cit. Capítulo "Reagrupamentos nas massas".

[15] J. Reed, op.cit.

[16] Trotski, op.cit.

[17] Rosa Luxemburgo, Na hora revolucionária. Tradução nossa.

[18] Rosa Luxemburgo, Greve de massas, partido e sindicatos. Tradução nossa.

[19] Trotski, op.cit. Volume II; capítulo "As Jornadas de Julho: preparativos e início".

[20] Trotski, op.cit. Volume III; capítulo "Retirada do Pré-Parlamento e luta pelo Congresso".
dos Sovietes ".

[21] Trotski, op.cit. Volume I; capítulo "Quem dirigiu a Insurreição de Fevereiro".

[22] Engels, "Prólogo" de 1883 ao Manifesto comunista.

[23] Marx, Engels, O Manifesto comunista.

[24] Trotski, op.cit. Capítulo "O comité executivo".

[25] Marx, Engels, op.cit.

[26] Não se trata de discutir no marco deste artigo se a solução que os bolcheviques e os sovietes acabaram dando à questão agrária - a divisão das terras - foi justa. Como o criticou Rosa Luxemburgo, a experiência demonstrou que não era. Porém isso não deve ocultar o essencial: que o proletariado e os bolcheviques explicaram seriamente a necessidade de uma solução desde o enfoque do poder proletário e desde o enfoque da batalha pela revolução socialista.

[27] Trotski, op. cit.

[28] Trotski, op.cit. Capítulo " O exército e a guerra ".

[29] Trotski, op.cit. Volume III; capítulo "Retirada do Pré-Parlamento e luta pelo Congresso".

[30] Révolution Internationale, órgão da CCI na França, nº 190, artigo "O proletariado deverá impor sua ditadura para levar a humanidade a sua emancipação".

[31] O. Anweiler, Os Sovietes na Rússia. Tradução nossa.

[32] Trotski, op.cit. Volume I; capítulo "O novo poder".

[33] Trotski, ídem.

[34] Trotski, ídem.

[35] Trotski, op.cit. Capítulo " A primeira coligação ".

A conquista dos sovietes pelo proletariado

 

Outubro de 1917 nos deixou uma lição fundamental: a burguesia não deixa o caminho livre à luta revolucionária das massas operárias. Ao contrário, trata de sabotá-la por todos os meios. Para isso, além do golpe e da pistola, utiliza uma arma muito perigosa: a sabotagem por dentro realizada pelas forças burguesas com roupagem "operária" e "radical" - então os partidos "socialistas", hoje os partidos de "esquerdas" e "extrema esquerda" e os sindicatos.

Essa sabotagem constituiu a principal ameaça para a Revolução iniciada em fevereiro: a sabotagem dos Sovietes pelos partidos social-traidores que mantinham em pé o aparato do Estado burguês. Abordamos agora este problema e os meios através dos quais o proletariado conseguiu resolvê-lo: a renovação dos Sovietes, o Partido bolchevique, a insurreição.

A sabotagem burguesa dos sovietes

A burguesia apresenta a Revolução de fevereiro como um movimento a favor da "democracia" violentado pelo golpe bolchevique. Suas fábulas consistem em opor Fevereiro a Outubro, apresentando o primeiro como uma autêntica "festa democrática" e o segundo como um golpe de Estado "contra a vontade popular".

Esta mentira é produto da raiva que sente a burguesia porque os acontecimentos entre fevereiro e outubro não se desenvolveram de acordo com o esquema esperado. A burguesia pensava que uma vez passadas as convulsões que em fevereiro derrubaram o Czar, as massas voltarariam tranquilamente às suas casas e deixariam os políticos burgueses comandar amplamente, propiciados de vez em quando por eleições "democráticas". No entanto, o proletariado não mordeu a isca , desdobrou uma imensa atividade, tomou consciência de sua missão histórica e se deu os meios para seu combate: os sovietes. Com eles se estabeleceu uma situação de duplo poder: "ou a burguesia se apoderava efetivamente do velho aparelho de estado, reformando-o para servir aos seus desígnios, e então,os soviets deveriam desaparecer; ou então os soviets constituiriam a base do novo Estado pela liquidação, não só do aparelho antigo como também do predomínio das classes de dele se serviam[1].              

Para destruir os sovietes e impôr a autoridade do Estado, a burguesia apoiou-se sobre os partidos menchevique e social-revolucionário, antigos partidos operários que, com a guerra, haviam passado ao campo burguês. Estes gozavam, no princípio da revolução de Fevereiro, de uma imensa confiança nas fileiras operárias, e a aproveitaram para dominar os órgãos executivos dos Sovietes e camuflar a burguesia:

  • "Ali onde nenhum ministro burguês podia comparecer ante os operários revolucionários, apresentava-se (ou melhor dito, era enviado pela burguesia) aparecia um ministro "socialista", Skobelev, Tsereteli, Chernov ou outro, que cumpria conscienciosamente com sua missão burguesa, esforçando-se por defender o governo e limpar da culpa os capitalistas, enganando com promessas e mais promessas, com conselhos que se reduziam a esperar, esperar e esperar[2].

A partir de fevereiro se dá uma situação extremamente perigosa para as massas operárias: estas lutam, com a vanguarda dos bolcheviques, para acabar com a guerra, pela solução do problema agrário, para abolir a exploração capitalista, e para isto criam os sovietes e confiam sem reservas neles. E, no entanto, esses sovietes, que tem nascido de suas entranhas, dominados pelos demagogos mencheviques e social-revolucionários, negam as necessidades mais imperiosas.

 

Assim os sovietes, submetido à autoridade social-menchevique, prometem mil vezes a paz enquanto deixam o Governo provisório continuar a guerra.

Em 27 de março, o Governo provisório trata de desencadear a ofensiva dos Dardanelos cujo objetivo é conquistar Constantinopla. Em 18 de abril Miliukov, ministro do exterior, ratifica em uma famosa nota a adesão da Rússia ao grupo da "Entente" (França e Grã Bretanha). Em maio, Kerenski empreende uma campanha no  front para elevar a moral dos soldados e fazê-los lutar, chegando a dizer no cúmulo do cinismo que "vocês carregam a paz na ponta de vossas baionetas". De novo em junho e em agosto, os social-democratas em estreita colaboração com os odiados generais czaristas, tentaram arrastar os operários e soldados à carnificina da guerra.

Do mesmo modo, esses demagogos dos "direitos humanos" trataram de restabelecer a brutal disciplina militar no exército: restauraram a pena de morte, convenceram os Comitês de soldados para que "não se metam com os oficiais". Por exemplo, quando de forma massiva o soviete de Petrogrado publicou o famoso Decreto nº 1 que proíbe os castigos corporais aos soldados e defende seus direitos e sua dignidade, os social-traidores do Comitê Executivo expediram "à tipografia, à guisa de contraveneno, um apêlo aos soldados, apêlo que, se bem exteriorizando uma condenação ao linchamento dos oficiais, exigia submissão ao antigo comando.[3].

 

Enfatizam incansavelmente sobre a "solução do problema agrário" enquanto deixam intacto o poder dos proprietários das terras e esmagam as rebeliões camponesas.

Assim, bloquearam sistematicamente os decretos mais tímidos sobre a questão agrária - por exemplo, o que proibia as transferências de terras - devolveram as terras ocupadas espontaneamente pelos camponeses a seus antigos donos; reprimiram a ferro e fogo às revoltas camponesas, enviando expedições punitivas, restauram a pena de açoites nas aldeias.

 

Bloqueiam a aplicação da jornada de 8 horas e permitem aos empresários desmembrar as fábricas

Deixaram os patrões sabotar a produção com objetivo, por um lado, de matar de fome os operários e de outra parte, dispersá-los e desmoralizá-los:

  • "Aproveitando a produção capitalista moderna e sua estreita relação com o banco nacional e internacional, e com as demais organizações do capital unificado (sindicatos patronais, trustes, etc.), os capitalistas começaram a aplicar um sistema de sabotagem de ampla escala e cuidadosamente calculado. Não recuaram diante da eleição de meios, começando com a ausência administrativa nas fábricas, a desorganização artificial da vida industrial, o ocultamento e a retirada de materiais, acabando com a queima e o fechamento das empresas desprovidas de recursos[4].

 

Empreendem uma furiosa represão contra as lutas operárias

"Em Jarkov, 30 000 mineiros se organizaram e aprovaram o ponto do preâmbulo dos estatutos dos IWW (Operários Industriais do Mundo) que afirma "a classe dos operários e a classe dos patrões não tem nada em comum". "Os cosacos esmagaram a organização, muitos mineiros foram despedidos do trabalho. O ministro de Comércio e Indústria, Konovalov concedeu amplos poderes  a seu subsecretário Orlov, encarregando-lhe de por fim aos distúrbios. Os mineiros odiavam a Orlov, porém o CEC -Comitê executivo central, dominado pelos social traidores - não só aprovou sua nomeação, mas  este "se negou a retirar as tropas cosacas da bacia do Donetz[5].

 

Iludem as massas com palavras vazias sobre a "democracia revolucionária", enquanto sabotam por todos os meios os sovietes

Trataram de liquidar os sovietes a partir de dentro: descumpriram seus acordos, adiaram as reuniões plenárias deixando tudo sob conspiração do "pequeno comitê", buscaram dividir e enfrentar as massas exploradas: "Desde Abril os mencheviques e os socialistas-revolucionários haviam começado a convocar as provincias contra Petrogrado, os soldados contra os operários, a cavalaria contra os metralhadores. Haviam êles concedido, nos Sovietes, representação mais avantajada às companhias do que às usinas; haviam protegido as pequenas emprêsas dispersas, de preferência as usinas gigantes da metalurgia. Como representassem o passado recente, procuravam apoio nos retardatários de tóda espécie. Ao perderem pé, excitavam a retaguarda contra a vanguarda.[6]

Igualmente, trataram de que os sovietes entregassem o poder aos organismos "democráticos": os czemstva -organismos locais de origem czarista - e a conferência "democrática" de Moscou de agosto, autêntico ninho de cobras onde se reúnem forças tão "representativas" como nobres, militares, antigos centúrias negras, cadetes, etc., que bendizem o golpe militar de Kornilov. Igualmente, em setembro fizeram outra conspiração para rejeitar os soviets: a convocação da Conferência pré-democrática na qual os delegados da burguesia e a nobreza têm, por expresso desejo dos social-traidores, 683 representantes frente a 230 delegados dos sovietes. Kerenski chegou a prometer ao embaixador americano que "faremos que os sovietes morram de morte natural. O centro de gravidade da vida política irá se transferindo progressivamente dos sovietes aos novos órgãos democráticos de representação autônoma".

Os sovietes que pediam a tomada do poder foram esmagados "democraticamente" pela força das armas:

  • "Os bolcheviques, que haviam conquistado a maioria do Soviete de Kaluga, conseguiram a libertação dos presos políticos. A duma municipal, com a sanção do comissário do governo, chamou tropas de Minsk que bombardearam com artilharia o soviete. Os bolcheviques capitularam, porém no momento em que saiam do edifício, os cosacos se arremessaram sobre eles, gritando: Aqui tens o que vai acontecer  a todos os sovietes bolcheviques[7].

Os operários viam como seus órgãos de classe eram confiscados, desnaturalizados e acorrentados a uma política que ia contra seus interesses. Isto que, como vimos no artigo "O desenvolvimento do movimento, de fevereiro a outubro de 17", tinha desembocado nas crises políticas de abril, junho e, sobretudo, julho, lhes levou a ação decisiva: renovar os sovietes para orientá-los até a tomada do poder.

Os sovietes eram - como dizia Lênin - "órgãos, onde a fonte do poder está na iniciativa direta das massas populares desde baixo" (A dualidade do poder). Ele permitiu as massas substituí-los com muita rapidez desde o momento em que se convenceram de que não correspondiam aos seus interesses. Desde meados de agosto, a vida dos sovietes se acelera em um ritmo vertiginoso. As reuniões se sucedem dia e noite quase sem interrupção. Operários e soldados discutem conscienciosamente, tomam resoluções, votam várias vezes ao dia. Neste clima de intensa auto-atividade das massas [8], numerosos sovietes (Helsinfords, Ural, Krondstadt, Reval, a frota do Báltico, etc.) elegem maiorias revolucionárias formadas por delegados bolcheviques, mencheviques internacionalistas, maximalistas, social-revolucionários de esquerda, anarquistas, etc.

Em 31 de agosto, o Soviete de Petrogrado aprova uma moção bolchevique. Seus dirigentes - mencheviques e social-revolucionários - se recusam a aplicá-la e renunciam. Em 9 de setembro o soviete elege uma maioria bolchevique, seguido depois por Moscou e, em continuidade, pelo resto do país. As massas elegem os sovietes que necessitam e se preparam assim para tomar o poder e exercê-lo.

O Papel do partido bolchevique

Nesta luta das massas para tomar o controle de suas organizações contra a sabotagem burguesa, os bolcheviques jogaram um papel decisivo. Tomaram como centro de sua atividade o desenvolvimento dos sovietes: "A Conferência decide desdobrar uma atividade múltipla dentro dos sovietes de deputados operários e soldados, aumentar seu número, consolidar suas forças e aglutinar em seu seio os grupos proletários internacionalistas de nosso partido[9]. Esta atividade tinha como eixo o desenvolvimento da consciência de classe: "é preciso um paciente trabalho de esclarecimento da consciência de classe do proletariado e de coesão dos proletários da cidade e do campo[10]. Por uma parte, confiavam na capacidade de crítica e análise das massas: "Ao passo que a agitação dos mencheviques e dos socialista-revolucionários se caracterizava pela dispersão, pela contradição, e era, muitas vezes, evasiva, a agitação dos bolcheviques distinguia-se pela natureza refletida e concentrada. Os conciliadores falavam demais para afastar as dificuldades, os bolcheviques iam ao encontro delas. A análise incessante da situação, a verificação das palavras de ordem após cada acontecimento, uma atitude séria em relação ao adversário, mesmo quando pouco sério, emprestava uma fôrça peculiar, um vigor persuasivo[11]. Por outra, em sua capacidade de união e auto-organização: "não creiam nas palavras. Não se deixem arrastar pelas promessas. Não exagerem suas forças. Organizem-se em cada fábrica, em cada regimento e em cada companhia, em cada barricada. Realizem um trabalho perseverante de organização cada dia, cada hora; trabalhem em se organizar por vocês mesmos, já que este trabalho não podem confiar a ninguém[12].

Os bolcheviques não pretendiam submeter as massas a um "plano de ação" preconcebido, levando-as como o estado maior leva os soldados. Reconheciam que a revolução é a obra da ação direta das massas e dentro dessa ação direta, desempenharam sua missão política: "A principal fõrça de Lênin consistia no fato de compreender a lógica interna do movimento e de por ela orientar sua politica. Éle não impunha seu plano às massas. Ajudava as massas a conceber e a realizar seus próprios planos[13].

O partido não desenvolvia seu papel de vanguarda dizendo à classe: "eis aqui a verdade, ajoealha-te", ao contrário, estava atravessado pelas inquietudes e preocupações que afligem a classe e como esta, ainda que não da mesma maneira, estava exposto a influência destrutiva da ideologia burguesa. Seu papel de motor no desenvolvimento da consciência de classe o cumpriu mediante uma série de debates políticos onde ia superando os erros e insuficiências de suas posições anteriores e travava uma luta mortal para  erradicar os desvios oportunistas que podiam ameaçá-lo.

Assim, a princípios de março, um importante setor dos bolcheviques defendia que deviam unir-se aos partidos socialistas (mencheviques e social-revolucionários). Agitavam um argumento aparentemente infalível que, nesses primeiros momentos de ânimo geral e inexperiência das massas, tinha muito impacto nelas: em vez de ir cada um para seu lado porque não unimos todos os socialistas? Porque confundir os operários com 2 ou 3 partidos distintos reivindicando todos do proletariado e do socialismo?

Isto supunha uma grave ameaça para a revolução: o partido que desde 1902 havia lutado contra o oportunismo e o reformismo, que desde 1914 havia sido o mais consequente e decidido em opor a revolução internacional contra a Primeira Guerra mundial, corria perigo de se diluir nas águas turvas dos partidos "socialtraidores". Como ia o proletariado superar em seu seio as confusões e ilusões que padecia? Como ia combater as manobras e armadilhas do inimigo? Como ia manter permanentemente o norte de seu combate frente aos momentos de vacilação ou derrota? Lênin e a base do Partido lutaram vitoriosamente contra essa falsa unidade que na realidade significava ficar a reboque da burguesia.

O partido bolchevique era a principio bastante minoritário. Muitos operários tinham ilusões no Governo provisório e o viam como uma emanação dos sovietes, quando na realidade era seu pior inimigo. Os órgãos dirigentes dos bolcheviques na Rússia adotaram em março-abril uma atitude conciliadora com o governo provisório, chegando a cair  num apoio aberto a guerra imperialista.

Contra esse desvio oportunista se levantou um movimento da base do partido (Comitê de Vyborg) que encontrou em Lênin e suas Teses de Abril a mais clara expressão. Para Lênin o fundo do problema estava em que: "... não podemos dar nenhum apoio ao Governo provisório. Temos de explicar a completa falsidade de todas suas promessas, notadamente aquelas que consideram a renuncia às anexações. Temos de desmascarar este governo que é um governo de capitalistas, em vez de defender a inadmissível e ilusória "exigência" de que deixe de ser imperialista[14].

Igualmente, Lênin denunciava a arma fundamental dos mencheviques e social-revolucionários contra os sovietes: "O "erro" dos chefes mencionados reside em que enfraquecem a consciência dos operários em vez de abrir-lhes os olhos, em que lhes inculcam ilusões pequeno burguesas em vez de destruí-las, em que reforçam a influência da burguesia sobre as massas em vez de emancipar estas dessa influência[15].

Contra os que viam esta denúncia "pouco prática" Lênin alega que: "... na realidade é o trabalho revolucionária mais prático, pois é impossivel impulsionar uma revolução que está estancada, que se afoga entre frases e se dedica em marcar passo sem mover-se do lugar.. .não por conta de obstáculos vendo de fora, nem sequer por conta da violência da burguesia (...) mas  pela credulidade cega das massas. Só lutando contra essa credulidade cega (luta que pode e deve livrar-se unicamente com as armas ideológicas, pela persuasão amistosa, invocando a experiência da vida) poderemos nos desembaraçar do desenfreio de frases revolucionárias imperante e impulsionar de verdade tanto a consciência do proletariado como a consciência das massas, a iniciativa local, audaz e resoluta das mesmas[16].

Defender a experiência histórica do proletariado, manter vivas suas posições de classe, exige estar em minoria em muitas ocasiões dentro dos operários. Isto é assim porque: "... as massas vacilam entre a confiança em seus antigos senhores, os capitalistas, e a cólera contra eles; entre a confiança na classe nova, que abre o caminho de um porvir luminoso para todos os trabalhadores e a consciência, ainda não clara, de seu papel histórico-mundial[17]. Para ajudar a superar essas vacilações: "... o importante não é o número mas que se expressem de modo exato as idéias e a política do proletariado verdadeiramente revolucionário[18]. Como todo partido autêntico do proletariado, o Partido bolchevique era parte integrante do movimento da classe. Seus militantes eram os mais ativos nas lutas, nos sovietes, nos conselhos de fábrica, manifestações e reuniões. As jornadas de julho puseram em evidência esse compromisso inquebrantável do Partido com a classe.

Como vimos no primeiro artigo, a situação em finais de junho se tornava insustentável pela fome, a guerra, o caos, a sabotagem dos sovietes, a política de camuflar a burguesia e não fazer nada do Comitê executivo central nas mãos dos social-traidores. Os operários e os soldados, sobretudo os da capital, começavam a suspeitar abertamente dos social-traidores. Cada vez a impaciência, o desespero, a raiva, eram mais fortes nas filas operárias, impulsionando-as já a tomar o poder mediante uma ação de envergadura. No entanto, as condições não estavam ainda reunidas:

  • os operários e soldados das províncias não estavam no mesmo nível político dos seus irmãos de Petrogrado;
  • os camponeses ainda confiavam no Governo provisório;
  • nos próprios operários de Petrogrado a idéia que reinava não era realmente tomar o poder mas fazer um ato de força para obrigar os dirigentes "socialistas" a "tomar de verdade o poder", ou seja, pedir a quinta coluna da burguesia que tome o poder em nome dos operários.

Em tal situação lançar-se ao enfrentamento decisivo com a burguesia e seus sequazes era embarcar em uma aventura que podia comprometer definitivamente o destino da Revolução. Era um choque prematuro que podia liquidar-se com uma derrota definitiva.

O Partido bolchevique desaconselhou a ação, mas ao ver que as massas não lhe faziam caso e seguiam adiante, não se retirou e disse "problema seu". O Partido participou na ação cuidando para que não se convertesse em uma aventura desastrosa e que os operários tirassem dela o máximo de lições para preparar a insurreição definitiva. Lutou com todas suas forças para que fosse o próprio Soviete de Petrogrado, mediante uma discusão séria e dando-se os dirigentes adequados, se  pusesse de acordo com a orientação política que reina nas massas.

No entanto, o movimento fracassou e sofreu uma derrota. A burguesia e seus acólitos mencheviques e social-revolucionários lançaram uma violenta repressão contra os operários e, sobretudo, contra os bolcheviques. Estes pagaram um alto preço: detenções, punições, exílio... Porém esse sacrifício ajudou decisivamente a classe a minimizar os efeitos da derrota sofrida e a explicar de maneira mais consciente e organizada, em melhores condições, o problema da insurreição.

Este compromisso do partido com a classe permitiu, a partir de agosto, uma vez passados os piores momentos de reação burguesa, a plena sintonia partido-classe imprescindível para o triunfo da revolução: "No decurso das Jornadas de Fevereiro, revelou-se todo o trabalho anteriormente executado pelos bolcheviques durante longos anos, e os operários adiantados, educados pelo partido, encontraram o lugar que lhes cabia na luta; mas não havia ainda qualquer direção imediata proveniente do partido. Nos acontecimentos de abril as palavras de ordem do partido descobriram a fôrça dinâmica de que estavam possuidas, porém o movimento, em si mesmo, envolveu espontáneamente. Em junho, exteriorizou-se a influência enorme do partido, mas as massas ainda marchavam dentro dos quadros de manifestação oficialmente organizada pelos adversários. Foi sômente em julho, após experimentar em si mesmo a fôrça da pressão das massas, que o Partido Bolchevlque saiu à rua, contra todos os demais partidos, e determinou o caráter essencial do movimento, não sômente devido às palavras de ordem, como também através de uma direção organizadora. A importância de uma vanguarda de fileiras cerradas aparece, pela primeira vez, com tõda a sua fôrça, no decurso das Jornadas de Julho, quando o Partido - pagando caro -, preservando o proletariado de um esmagamento, garantiu tanto o futuro da Revolução quanto seu próprio futuro.[19]A insurreição obra dos sovietes

A situação de duplo poder que dominou todo o período que vai desde fevereiro a outubro é uma situação instável e perigosa. Seu prolongamento excessivo sem que nenhuma das duas classes acabe impondo-se foi sobretudo danosa para o proletariado: se a incapacidade e o caos que caracterizavam nesses momentos a classe governante acentuavam seu desprestigio, ao mesmo tempo, provocavam o cansanço e desorientação das massas operárias, lhes tiravam o sangue em combates estéreis e começavam a enfraquecer as simpatias das classes intermediárias em favor do proletariado. Por isso era necessário decantar, decidir tomar o poder mediante a insurreição. "A revolução avança em um ritmo rápido, tempestuoso e decidido, derruba todos os obstáculos com mão de ferro e se dá objetivos cada vez mais avançados, ou de repente retrocede de seu fraco ponto de partida e termina liquidada pela contra-revolução[20].

A insurreição é uma arte. Necessita fazer-se no momento preciso da evolução da situação revolucionária, nem prematuramente com o qual fracassaria; nem demasiado tarde, com o qual, uma vez passada a oportunidade, o movimento revolucionário iria se desintegrando vítima da contra-revolução.

Em princípios de setembro a burguesia, através de Kornilov, tentou um golpe de Estado que constituiu o sinal da ofensiva final da burguesia para derrubar os sovietes e restabelecer plenamente seu poder.

O proletariado, com o concurso massivo dos soldados, fez fracassar a intentona e, com isso se acelerou a descomposição do Exército: os soldados de numerosos regimentos se pronunciavam a favor da Revolução, expulsando os oficiais e organizando-se o conselho de soldados.

Como vimos antes, a renovação dos sovietes desde meados de agosto estava mudando claramente a correlação de forças em favor do proletariado. A derrota do golpe de Kornilov acelerou o processo.

Desde meados de setembro uma maré de resoluções reivindicando a tomada do poder (Krondstadt, Ekaterinoslav, etc.) surgiu dos sovietes locais ou regionais: o Congresso de sovietes da região norte, celebrando o 11-13 de outubro, conclamou abertamente a insurreição. Em Minsk, o Congresso regional de sovietes decidiu apoiar a insurreição e enviar tropas de soldados favoráveis a revolução. Em 12 de outubro, "... os operários de uma das mais revolucionárias usinas da capital (Old Parviainen) respondeu aos incessantes ataques da imprensa burguesa": "Afirmamos, firmemente, que desceremos à rua assim que julgarmos Indispensável. Não tememos a luta que se anuncia próxima e acreditamos firmemente que dela sairemos vitoriosos[21].

Em 17 de outubro, o Soviete de soldados de Petrogrado decidiu: "A guarnição de Petrogrado deixa de reconhecer o Governo provisório. Nosso governo é o Soviete de Petrogrado. Acataremos somente as órdens do Soviete de Petrogrado dadas por seu Comitê militar revolucionário[22]. O Soviete distrital de Vyborg decidiu uma marcha para apoiar esta Resolução, a qual se uniram os marinheiros. Um diário liberal de Moscou -citado por Trotski- descreveu assim o ambiente na capital: "nos bairros, nas fábricas de Petrogrado, Nevski, Obujov e Putilov, a agitação bolchevique pelo levantamento alcança sua maior intensidade. O estado de ânimo dos operários é tal que estão dispostos a colocar-se en marcha em qualquer momento".

A aceleração das insurreições camponesas em setembro constituiu outro elemento da maturação das condições necessárias para a insurreição: "Tendo a maioria dos Sovietes das duas capitais, permitir o esmagamento da insurreição camponesa significaria perder, e perder merecidamente, toda a confiança dos camponeses, significaria equiparar-se ante seus olhos aos Liberdan [23]  e demais miseráveis[24].

Porém é a nível mundial que está o fator decisivo da Revolução. Isto o colocou claro Lênin em uma Carta aos camaradas bolcheviques do Congresso de sovietes da região norte (8 de outubro de 17): "Nossa revolução vive momentos críticos ao extremo. Esta crise tem coincidido com a grande crise de crescimento da revolução socialista mundial e da luta do imperialismo mundial contra ela. Sobre os dirigentes responsáveis de nosso partido recai uma gigantesca tarefa, cujo descumprimento ameaçaria a bancarrota completa do movimento proletário internacionalista. O momento é tal que a demora equivale verdadeiramente a morte[25].

Em outra carta (o 1º de outubro de 17) menciona: "Os bolcheviques não tem direito a esperar o Congresso dos sovietes, devem tomar o poder imediatamente. Com isso salvariam tanto a revolução mundial (pois, de outro modo, existe o perigo de uma confabulação dos imperialistas de todos os países, que depois de metralhados na Alemanha serão complacentes uns com os outros e se unirão contra nós) como a revolução russa (pois, de outro modo, a onda presente de anarquia pode ser mais forte que nós)[26].

Esta consciência da responsabilidade internacional do proletariado russo não era algo que unicamente entendiam Lênin e os bolcheviques. Ao contrário, muitos setores operários participavam dela:

  • em 1º de Maio de 1917, "em todos os âmbitos da Rússia os prisioneiros de guerra tomavam parte nas manifestações ao lado dos soldados, com  bandeiras comuns e ás vezes entoando o mesmo hino em vários idiomas...O ministro cadete Shingarev, em uma de suas conferências com delegados das trincheiras, defendia o decreto de Guchkov contra a "excessiva indulgência" em relação aos prisioneiros, alegando "os atos de selvageria dos alemáes". O ministro não conseguiu a menor manifestação de simpatia. Resolutamente a assembléia manifestou-se em favor de medidas que suavizassem a sorte dos prisioneiros[27].
  • "Falou um soldado do front romeno, um homem fraco, de expressão trágica e ardente. "Camaradas -gritou no front sofremos fome e nos congelamos. Morremos por nada. Que os camaradas norte-americanos transmitam à América que nós combateremos até morrer por nossa revolução. Resistiremos com todas nossas forças até que se levantem em nossa ajuda todos os povos do mundo! Digam aos operários norte-americanos que se levantem e lutem pela Revolução social![28].

O Governo Kerenski tentou deslocar os regimentos de soldados mais revolucionários de Petrogrado, Moscou, Vladimir, Reval etc., até o front ou para regiões perdidas como meio de descabeçar a luta. Em combinação com esta medida, a imprensa liberal e menchevique iniciou uma furiosa campanha de calúnias contra os soldados acusando-os de "acomodados", de "não dispor sua vida pela pátria", etc. Os operários da capital responderam imediatamente, e numerosas assembléias de fábrica apoiavam os soldados, pediam todo o poder aos sovietes e conquistavam adesão para armar os operários.

Neste marco, o Soviete de Petrogrado decide em uma reunião em 9 de outubro criar um Comitê militar revolucionário com o propósito inicial de controlar o governo, que imediatamente se transformará em centro organizador da insurreição. Nele se agrupam representantes do Soviete de Petrogrado, o Soviete de Marinheiros, o soviete da Região da Finlândia, o Sindicato Ferroviário, o Congresso de Conselhos de fábrica e a Guarda Vermelha.

Esta última era um corpo operário que:

  • "... se formou pela primeira vez durante a Revolução de 1905 e ressurgiu nos dias de março de 1917, quando era necessário uma força para manter a ordem na cidade. Nesta época os Guardas Vermelhos estavam armados e todos os esforços do governo provisório para desarmá-los tornaram estéreis. A cada crise que se produzia no curso da revolução, os destacamentos da Guarda Vermelha apareciam nas ruas, não adestrados nem organizados militarmente, mas cheios de entusiasmo revolucionário[29].

Apoiado neste reagrupamento de forças de classe, o Comitê militar revolucionário (adiante o chamaremos CMR) convocou uma Conferência de Comitês de regimento que em 18 de outubro discutiu abertamente a questão da insurreição, pronunciando-se majoritariamente  por ela exceto 2 que estavam contra e outros dois que se declararam neutros (houve mais outros 5 regimentos que não acorreram a Conferência). Do mesmo modo, tomou uma Resolução a favor do armamento dos operários.

Esta Resolução já estava se aplicando na prática, os operários em massa encaminhavam-se para os arsenais do Estado e reclamavam a entrega de armas. Quando o Governo proibiu tais entregas, os operários e empregados do Arsenal da fortaleza Pedro e Paulo (baluarte reacionário) decidiram colocar-se a disposição do CMR e em contato com outros arsenais organizaram a entrega de armas aos operários.

Em 21 de otubro, a Conferência de Comitês de regimento ordenou a seguinte Resolução: "1º A guarnição de Petrogrado e região promete ao CMR sustentá-lo inteiramente em toda sua ação. 2º A guarnição se dirige aos cosacos: os convidamos as reuniões de amanhã. Sejam bem vindos irmãos cosacos! 3º O Congresso pan-russo dos sovietes deve tomar todo o poder. A guarnição promete pôr todas suas forças a disposição do Congresso. Contar com nós, representantes autênticos do poder dos soldados, operários e camponeses. Estamos em nossos postos, decididos a vencer ou morrer[30].

Podemos ver aqui os traços característicos da insurreição operária: iniciativa criadora das massas, organização simples e admirável, discussões e debates que dão lugar a Resoluções que sintetizam a consciência que vão adquirindo as massas, recurso a convicção e a persuasão - chamamento aos Cosacos para que abandonaram o grupo governamental ou a manifestação apaixonada e dramática dos soldados da fortaleza Pedro e Paulo celebrado em 23 de outubro e que decidiu não obedecer mais que o CMR. Tudo isso são os traços característicos de um movimento de emancipação da humanidade, de protagonismo direto, apaixonado, criador, das massas exploradas.

A jornada de 22 de outubro convocada pelo Soviete de Petrogrado selou definitivamente a insurreição: se reuniram manifestações e assembléias em todos os bairros, em todas as fábricas, que concordaram massivamente: "Abaixo Kerenski", "todo o poder para os sovietes". Foi um ato gigantesco onde operários, empregados, soldados, muitos cosacos, mulheres, crianças, soldaram abertamente seu compromisso com a insurreição.

Não é possível no marco deste artigo contar todos seus pormenores (remetemos ao livro já mencionado de Trotski ou ao de J. Reed). O que pretendemos deixar claro é o caráter massivo, aberto, coletivo, da insurreição. "A insurreição foi determinada, por assim dizê-lo, para uma data fixa: o 25 de outubro. E não foi fixada em uma sessão secreta, mas aberta e publicamente, e a revolução triunfante se fez precisamente em 25 de outubro (6 de novembro), como havia sido establecido de antemão. A história universal conhece um grande número de revoltas e revoluções: porém buscaríamos nela outra insurreição de uma classe oprimida que houvesse sido fixada antecipada e publicamente para uma data assinalada, e que houvesse sido realizada vitoriosamente no dia indicado de antemão. Neste sentido e em vários outros, a Revolução de novembro é única e incomparável[31].

Os bolcheviques explicaram claramente desde setembro a questão da insurreição nas assembléias de operários e soldados, tomaram as posturas mais combativas e decididas dentro do CMR, e da Guarda Vermelha; se deslocaram aos quartéis onde havia mais dúvidas ou que estavam favoráveis ao Governo provisório, a convencer os soldados; o discurso de Trotski foi crucial para convencer os soldados da fortaleza de Pedro e Paulo. Denunciaram sem trégua as manobras, a demora, as armadilhas dos mencheviques. Lutaram para que o IIº Congresso dos sovietes fosse convocado diante a sabotagem dos socialtraidores.

No entanto, não foram os bolcheviques, mas todo o proletariado de Petrogrado que decidiu e executou a insurreição. Os mencheviques e socialrevolucionários tentaram repetidas vezes atrasar sine die a celebração do IIº Congresso dos sovietes. Foi pela pressão das massas, a insistência dos bolcheviques, o envio de milhares de telegramas dos sovietes locais reclamando sua convocação, o que, finalmente, obrigou a CEC -antro dos socialtraidores- a convocá-lo para o 25. "Depois da revolução de 25 de outubro, os mencheviques, e perante todo Martov, falaram muito acerca da usurpação do poder às costas do soviete e da classe operária. É difícil imaginar-se uma deformação mais descarada dos feitos. Quando na sessão dos sovietes decidimos por maioria a convocação do IIº Congresso para 25 de outubro, os mencheviques diziam: "vocês decidiram a revolução". Quando, com a maioria esmagadora do Soviete de Petrogrado nós temos negado deixar partir os regimentos da capital, os mencheviques diziam: "Isto é o princípio da insurreição". Quando no Soviete de Petrogrado foi criado o CMR, os mencheviques fizeram constar: "este é o organismo da insurreição armada". Porém quando o dia decisivo estourou a insurreição prevista por meio deste organismo, criado e "descoberto" antecipadamente, os mesmos mencheviques gritaram: uma maquinação de conspiradores tem provocado uma revolução às costas da classe[32].

O proletariado se deu os meios de força - armamento geral dos operários, formação do CMR, insurreição - para que o Congresso dos sovietes pudesse tomar efetivamente o poder. Se o Congresso dos sovietes houvesse decidido "tomar o poder" sem essa preparação prévia tal decisão teria sido uma gesticulação vazia facilmente desarticulavel pelos inimigos da Revolução. Não se pode ver o Congresso dos sovietes como um ato isolado, formal, mas dentro de toda a dinâmica geral da classe e concretamente, dentro de um processo, onde em escala mundial se desenvolveram as condições da revolução e onde, dentro da Rússia, infinidade de sovietes locais chamavam a tomada do poder ou o tomavam efetivamente: simultaneamente com Petrogrado em Moscou, em Tula, nos Urales, na Sibéria, em Jarkov, etc., os sovietes faziam triunfar a insurreição.

O Congresso dos sovietes tomou a decisão definitiva, confirmando a plena validade da iniciativa do proletariado de Petrogrado: "Apoiando-se na vontade da imensa maioria dos operários, os soldados e os camponeses e na insurreição vitoriosa dos operários e a guarnição de Petrogrado, o Congresso toma em suas mãos o poder... O Congresso decide: todo o poder nas localidades passa aos sovietes de deputados operários, soldados e camponeses, chamados a assegurar uma ordem verdadeiramente revolucionária".


[1] Trotsky, A História da Revolução Russa, tomo I, capítulo "A dualidade de poderes".

[2] Lênin, Os ensinamentos da revolução, ponto VI. Tradução nossa.

[3] Trotski, op.cit. - Tomo I  capítulo XIV "Os dirigentes e a guerra".

[4] Ana M. Pankratova, Os conselhos de fábrica na Rússia de 1917, capítulo "O desenvolvimento da luta entre Capital e Trabalho e a Primeira Conferência de Comitês de Fábrica". Tradução nossa.

[5] J. Reed, Dez dias que abalaram o mundo, capítulo III. Tradução nossa.

[6] Trotsky, op.cit, Tomo II- capítulo "As Jornadas de julho".

[7] J. Reed, idem. Tradução nossa.

[8] Nunca negamos os erros que cometeu o partido Bolchevique, nem sua degeneração e transformação em coluna vertebral da odiosa ditadura stalinista. O papel do partido Bolchevique assim como a crítica implacável de seus erros e de sua degeneração, os temos analisado em vários artigos de nossa Revista internacional: "A degeneração da Revolução russa" e "Lições de Krondstadt" (nº 3) y "Defesa do caráter proletário da Revolução de Outubro" (nºs 12 e 13). A razão essencial da degeneração dos partidos e organizações políticas do proletariado resultou no peso da ideologia burguesa em suas filas que cria constantemente tendências ao oportunismo e ao centrismo (ver "Resolução sobre o centrismo e o oportunismo" na Revista internacional, nº 44).

[9] Atas da Segunda Conferência bolchevique de toda Rússia, abril 1917. Tradução nossa.

[10] Idem.

[11] Trotski, op.cit Tomo II capítulo. "Os Bolcheviques  e os Soviets".

[12] Lênin, Introdução a Conferência de Abril, 1917. Tradução nossa.

[13] Trotski, op.cit., Tomo I - capítulo "O reamarmento do partido".

[14] Lênin. Teses de Abril. Tese 3 "As tarefas do proletariado na presente revolução". Tradução nossa.

[15] Lênin. A dualidade de poderes. Tradução nossa.

[16] Lênin. Teses de Abril.Tese 7 "As tarefas do proletariado na presente revolução". Tradução nossa.

[17] Lênin, Os ensinamentos da crise, abril 1917. Tradução nossa.

[18] Lênin. Teses de Abril.Tese 17 "xxx". Tradução nossa.

[19] Trotski, op.cit., Tomo II  capítulo "Poderiam os bolcheviques tomar o poder em julho".

[20] Rosa Luxemburgo, A Revolução russa, capítulo I. Tradução nossa.

[21] Trotski, História da Revolução russa, tomo II, capítulo "O comitê militar revolucionário". Tradução nossa.

[22] J. Reed, idem. Tradução nossa.

[23] Apelido irônico dado aos lideres mencheviques Líber e Dan, depois da publicação do artigo de Démian Biedny intitulado "Liberdan" no jornal bolchevique de Moscou do 25 de agosto de 1917. Nota do tradutor.

[24]  Lênin, A crise amadureceu, parte VI. Tradução nossa.

[25] Tradução nossa.

[26] Tradução nossa.

[27] Trotski, op.cit. - Tomo I  capítulo XIV "Os dirigentes e a guerra".

[28]  J. Reed, op.cit., capítulo II. Tradução nossa.

[29] J. Reed, op.cit., capítulo "Notas e esclarecimentos". Tradução nossa.

[30] Citado por Trotski. Tradução nossa.

[31] Trotski, A Revolução de novembro, 1919. Tradução nossa.

[32] Trotski, op. cit. Tradução nossa.

A insurreição de Outubro, uma vitória das massas operárias

Alguns historiadores assalariados do capital estão cheios de elogios hipócritas à "iniciativa" e inclusive à "energia revolucionária" dos operários e seus órgãos de luta de massas, os conselhos operários. Estão cheios de compreensão pelo desespero dos operários, soldados e camponeses, diante dos sacrifícios da "Grande guerra". Porém, sobretudo se apresentam como os verdadeiros defensores da "autêntica Revolução russa", contra sua suposta destruição que os bolcheviques teriam levado a cabo. Em outras palavras, no centro do ataque burguês contra a Revolução russa está a oposição entre "Fevereiro" e "Outubro" de 1917, opondo assim o inicio e a conclusão da luta pelo poder que é a essência de toda grande revolução.

A hipocrisia dos que defendem a Revolução de Fevereiro para atacar a de Outubro

Rememorando o caráter explosivo, espontâneo e massivo das lutas que começaram em fevereiro de 1917, quer dizer, as greves de massas, os milhões de pessoas que tomaram as ruas, as explosões de euforia pública, e o feito de que o próprio Lênin declarara de que a Rússia neste período era o país mais livre da Terra, a burguesia opõe a isto os acontecimentos de Outubro, onde havia pouca espontaneidade, on­de se planejavam as ações com antecedência, não havia greves, nem manifestações na rua, nem assembléias de massas durante a rebelião, quando se tomou o poder por meio das ações de uns poucos milhares de homens armados na capital, sob o comando de um Comitê militar revolucionário, diretamente inspirado pelo Partido bolchevique. E então conclui: Não provaria tudo isto que Outubro só foi um golpe dos bolcheviques? Um golpe contra a maioria dea população, contra a classe operária, contra a história, contra mesmo a natureza humana? E tudo isto, nos dizem, é o resultado de "uma louca utopia marxista", que só podia sobreviver através do terror, que leva diretamente ao stalinismo.

Segundo a classe dominante, a classe operária na Rússia não queria nada mais que o que lhe havia prometido o regime de Fevereiro: uma "democracia parlamentar", disposta a "respeitar os direitos humanos", e um governo que, ao mesmo tempo que continuava a guerra, se declarava "partidário de uma paz rápida e sem anexações". Dito de outra forma, a burguesia quer nos fazer acreditar que o proletariado russo lutava para a mesma situação de miséria que sofre atualmente o proletariado moderno. Se o regime de Fevreiro não tivesse sido derrubado em outubro, vêem nos dizer, a Rússia seria hoje um país tão próspero e poderoso como os EUA, e o desenvolvimento do capitalismo no século XX teria sido pacífico.

O que expressa realmente esta hipócrita defesa do caráter espontâneo dos acontecimentos de fevereiro é o ódio e o medo que os exploradores de todos os países sentem pela revolução de Outubro. A espontaneidade da greve de massas, o reagrupamento de todo o proletariado nas ruas e nas assembléias gerais, a formação dos conselhos operários no calor da luta, são momentos essenciais na luta de libertação da classe operária. "Indubitavelmente, a espontaneidade do movimento é um sintoma de sua profundidade entre as massas, da consistência de suas raízes, de sua invencibilidade", como resaltou Lenin [1]. Porém na medida em que a burguesia continua sendo a classe dominante, em que as forças políticas e armadas do Estado capitalista permanecem intactas, ainda é possível que contenha, neutralize e dissolva as forças de seu inimigo de classe. Os conselhos operários, esses poderosos instrumentos da luta operária, que surgiram mais ou menos espontaneamente, não são, contudo nem os únicos, nem necessariamente as mais altas expressões da revolução proletária. Predominam nas primeiras etapas do processo revolucionário. A burguesia contrarrevolucionária os infla precisamente para apresentar o inicio da revolução como seu ponto culminante, sabendo que é bem fácil esmagar uma revolução que se detém a meio caminho.

Porém a revolução russa não se deteve na metade do caminho. Indo até o final, ao completar o que começou em fevereiro, a Revolução russa confirmou a capacidade da classe operária para construir paciente, consciente e coletivamente, não só "espontaneamente", mas também de forma deliberada, planificada estratégicamente, os instrumentos que requerem para a tomada do poder: seu partido de classe marxista e seus conselhos operários, galvanizados em torno de um programa de classe e uma vontade real de governar a sociedade, e a estratégia e os instrumentos específicos da insurreição proletária. Esta unidade entre a luta política de massas e a tomada militar do poder, entre o espontâneo e o planificado, entre os conselhos operários e o partido de classe, entre as ações de milhões de operários e as de audazes minorias da classe avançadas, é a essência da revolução proletária. Esta unidade é a que tenta dissolver hoje a burguesia com suas calúnias contra o bolchevismo e a insurreição de Outubro.

A destruição do Estado capitalista, a derrubada do governo de classe da burguesia, o princípio da revolução mundial: estes são os êxitos gigantescos de Outubro de 1917, o maior e mais consciente, o mais atrevido capítulo até agora em toda a história da humanidade. Outubro fez em pedaços séculos de servidão engendrado pela sociedade de classes, demostrando que, pela primeira vez na história, existe uma classe que é ao mesmo tempo classe explorada e revolucionária. Uma classe capaz de governar a sociedade abolindo o governo das classes, capaz de libertar a humanidade de sua "pré-história" de submissão a forças sociais cegas. Essa é a verdadeira razão porque a classe dominante até agora, e agora mais que nunca, difunde a imundice de suas mentiras e calúnias sobre Outubro vermelho, o acontecimento "mais odiado" da história moderna, porém que é, de fato, o orgulho da consciência de classe do proletariado. Pretendemos demostrar que a insurreição de Outubro, que os porta-vozes e escreventes do capital chamam um "golpe", foi o ponto culminante, não só da Revolução russa, mas de toda a luta de nossa classe até então. Como escreveu Lênin em 1917: "O fato de que a burguesia nos odeie com tanto furor é um dos sintomas mais evidentes de que indicamos com acerto ao povo o caminho e os meios para derrubar o dominio da burguesia" [2].

 "A crise está madura"

Em 10 de outubro de 1917, Lênin, o homem mais procurado do país, assediado pela polícia por todas as partes da Rússia, compareceu à reunião do Comitê central do Partido bolchevique em Petrogrado, disfarçado com peruca e óculos, e escreveu a siguinte resolução em uma página de um caderno escolar:

  •  "O CC reconhece que tanto a situação internacional da Revolução russa (insurreição na frota alemã como manifestação extrema da marcha ascendente em toda Europa da revolução socialista mundial; e por outro lado, a ameaça de que a paz imperialista estrangule a revolução na Rússia), como a situação militar (decisão indubitável da burguesia russa e de Kerenski e companhia de entregar Petrogrado aos alemães) e a conquista pelo partido proletário da maioria dentro dos sovietes; unindo tudo isso a insurreição camponesa e a virada da confiança do povo para nosso Partido (eleições de Moscou), e, finalmente, a preparação manifesta de uma segunda korniloviada (evacuação das tropas de Petrogrado, envio de cosacos a Petrogrado, cerco de Minsk pelos cosacos, etc.), põem à ordem do dia a insurreição armada. Reconhecendo, pois, que a insurreição armada é inevitavel e se acha plenamente madura, o CC solicita a todas as organizações do Partido se guiar por isto e a examinar e resolver a partir deste ponto de vista todos os problemas práticos (Congresso dos Sovietes da região do Norte, evacuação das tropas de Petrogrado, ações em Moscou e Minsk, etc.)" [3].

Exatamente quatro meses antes, o Partido bolchevique havia freado deliberadamente o ímpeto combativo dos operários de Petrogrado, a quem as classes dominantes impulsionou a um enfrentamento isolado e prematuro com o Estado. Uma situação assim, devia ter levado sem a menor dúvida a decapitação do proletariado russo na capital e a que seu partido de classe fosse dizimado. O partido, superando suas próprias dúvidas internas, se aprestava firmemente em "... mobilizar todas suas forças para imprimir nos operários e nos soldados a necessidade incondicional de uma última luta desesperada e resoluta para derrubar o governo de Kerenski". Em 29 de setembro declarava: "A crise está madura. Está em jogo todo o futuro da Revolução russa. Está em jogo toda a honra do Partido bolchevique. Está em jogo todo o futuro da revolução operária internacional pelo socialismo".[4]

A explicação da atitude completamente diferente do Partido em outubro, oposta à de julho, está contida na resolução mencionada antes com uma brilhante claridade e audácia marxista. O ponto de partida, como sempre para o marxismo, é a análise da situação internacional, a avaliação da relação de forças entre as classes e as necessidades do proletariado mundial. A diferença da situação em julho de 1917, a resolução faz notar que o proletariado russo já não está só; que a revolução mundial havia começado nos países centrais do capitalismo. "Dêem uma olhada na situação internacional. O crescimento da revolução mundial é indiscutivel. A explosão de revolta dos operários Tchecos tem sido sufocada com incrível ferocidade, indicadora do extremado temor do governo. Na Itália as coisas tem chegado também a um estouro massivo em Turim. Porém o mais importante é a rebelião da frota alemã" [5]. É responsabilidade da classe operária na Rússia, não só aproveitar a oportunidade para romper seu isolamento internacional, imposto até então pela guerra mundial, mas sobretudo estender as chamas da insurreição na Europa ocidental, começando a revolução mundial.

Contra a minoria de seu próprio partido que ainda fazia eco da argumentação menchevique pseudomarxista, contrarrevolucionária, de que a revolução deveria começar em um país mais avançado, Lênin mostrou que, na realidade, as condições na Alemanha eram muito mais difíceis que na Rússia e que o verdadeiro significado histórico da revolução na Rússia era ajudar a desenvolver a revolução na Alemanha. "Os alemães, em condições diabólicamente dificeis, com só um Liebknecht (e, além disso, no presídio); sem jornais, sem liberdade de reunião, sem sovietes; com uma hostilidade incrível à idéia do internacionalismo por parte de todas as classes da população - incluindo o último camponês adaptado; com uma formidável organização da burguesia imperialista grande, média e pequena; os alemães, ou melhor, os revolucionários internacionalistas alemães, os operários com capas de marinheiros, têm organizado uma rebelião na frota com um por cento de probabilidades de êxito. Nós, em troca, com dezenas de jornais, com liberdade de reunião, com a maioria nos sovietes; nós, os internacionalistas proletários colocados nas melhores condições de todo o mundo, nos negaríamos a apoiar com nossa insurreição os revolucionários alemães. Raciocinaríamos como os Scheidemann e os Renaudel: o mais sensato é não revoltar-se, pois senão nos metralham que excelentes, que judiciosos, que ideais internacionalistas perderá o mundo!! Demostremos nossa sensatez. Aprovemos uma resolução de simpatia com os insurgentes alemães e recusemos a insurreição na Rússia. Isso será internacionalismo autêntico, sensato" [6].

Esta posição e este método internacionalista, exatamente o oposto à posição burguesa nacionalista que desenvolveu o stalinismo durante a contrarrevolução, não era exclusiva do Partido bolchevique nessa época, senão a propriedade comum dos operários avançados da Rússia com sua educação política marxista. Assim, em começos de outubro, os marinheiros revolucionários da frota do Báltico proclamaram através das estações de rádio de seus barcos aos confins da terra a siguinte convocação: "Neste momento em que as ondas do Báltico estão manchadas de sangue dos nossos irmãos, levantamos nossa voz: ... Povos oprimidos de todo o mundo! icem a bandeira da revolta!". Porém a avaliaçao das forças de classes a nivel mundial que faziam os bolcheviques não se limitava a examinar o estado do proletariado internacional, mas expressava uma clara compreensão da situação global do inimigo de classe. Baseando-se sempre em um enraizado e profundo conhecimento da história do movimento operário, os bolcheviques sabiam, pelo exemplo da Comuna de Paris de 1871, que a burguesia imperialista, inclusive em plena guerra mundial, unificaria suas forças contra a revolução.

"Não demonstra a completa inatividade da marinha inglesa em geral, assim como dos submarinos ingleses durante a tomada de Osel pelos alemães, em relação com o plano do Governo de transferir-se de Petrogrado para Moscou, que se há forjado um complô entre os imperialistas russos e ingleses, entre Kerenski e os capitalistas anglo-franceses, para entregar Petrogrado aos alemães e, desta forma, estrangular a revolução russa?", pregunta-se Lenin, e acrescenta, "A resolução da Seção de soldados do Soviete de Petrogrado contra a evacuação do Governo de Petrogrado mostra que também entre os soldados amadurece o convencimento do complô de Kerenski[7]. Em agosto, sob Kerenski e Kornilov, a Riga revolucionária foi entregue aos pés do kaiser Guillermo II. Os primeiros rumores de uma paz em separado entre Grã-Bretanha e Alemanha contra a Revolução russa alarmaram Lenin. O objetivo dos bolcheviques não era a "paz", senão a revolução, posto que sabiam, como verdadeiros marxistas, que o "cessar fogo" capitalista só podia ser um intervalo entre duas guerras mundiais. Era esta visão comunista da espiral inevitavel da barbárie que o capitalismo decadente em falência histórica, reservava a humanidade o que impulsionava agora a bolchevismo na corrida contra o relógio para cessar a guerra por meios revolucionários proletários. Ao mesmo tempo, os capitalistas começavam a sabotar a produção em todas as partes para desacreditar a revolução. Estes feitos, no entanto, no fim das contas contribuíram para os operários em destruir o mito burguês patriota da "defesa nacional", segundo o qual, a burguesia e o proletariado da mesma nação, têm um interesse comum em repelir o "agressor" estrangeiro. Isto explica também porque, em outubro, a preocupação dos operários já não era desencadear a greve de massas, mas manter a produção em marcha contra a tentativa de ataque da burguesia a suas próprias fábricas.

Entre os fatores que foram decisivos para levar a classe operária à insurreição está o fato de que a revolução estava ameaçada por novos ataques contrarrevolucionários, e que os operários, sobretudo os principais sovietes, apoiavam agora os bolcheviques. Esses dois fatores eram o fruto direto da confrontação de massas mais importante entre julho e outubro de 1917: o golpe de Kornilov em agosto. Sob da direção dos bolcheviques, o proletariado interrompeu a marcha de Kornilov a capital, essencialmente ganhando a suas tropas, e sabotando seu transporte e logística graças aos operários das ferroviárias, do correio e outros. Nesta ação, durante a qual os sovietes se revitalizaram como organização revolucionária de toda a classe, os operários descubriram que o Governo provisório de Petrogrado, dirigido pelo socialista revolucionário Kerenski e pelos mencheviques, estava envolvido no complô contrarrevolucionário. A partir desse momento, os operários compreenderam que esses partidos haviam se convertido em uma verdadeira "ala esquerda do capital", e começaram a se pender para os bolcheviques.

  • "Toda a arte tática consiste em saber aproveitar o momento em que a combinação das condições é mais favorável. A sublevação de Kornilov preparara definitivamente estas condições. As massas, que tinham perdido a confiança nos partidos da maioria soviética, viram o perigo de contra-revolução com os próprios olhos. Consideraram que cabia agora aos bolcheviques encontrar uma saída para a situação" [8].

O teste mais claro que dá prova das qualidades revolucionárias de um partido operário é sua capacidade para explicar a questão do poder. "Ora, a mudança mais brusca é aquela em que o Partido do proletariado passa da preparação, propaganda, organização e agitação para a luta direta pelo poder, à insurreição armada contra a burguesia. Tudo o que há de irresoluto, cético, conciliador e capitulacionista no interior do Partido, ergue-se contra a insurreição" [9].

Porém o Partido bolchevique superou esta crise, envolvendo se firmemente na luta armada pelo poder e demostrando assim suas qualidades revolucionárias sem precedente.

O proletariado toma o caminho da insurreição

Em fevereiro de 1917 se estabeleceu uma situação denominada de "duplo poder". Junto ao Estado burguês, e oposto a ele, os conselhos operários apareciam como um governo potencial alternativo da classe operária. Posto que na realidade não possam coexistir dois governos opostos de duas classes inimigas, posto que necessariamente uma tenha que destruir a outra para impor-se à sociedade, esse período de duplo poder é necessariamente curto e instável. Essa fase não se caracteriza, desde já, por uma "coexistência pacífica" ou uma mútua tolerância. Poderá ter uma aparência de equilíbrio social. Na realidade é uma etapa decisiva na guerra civil entre o trabalho e o capital.

A falsificação burguesa da história está obrigada a mascarar a luta de vida ou morte das classes que teve lugar entre fevereiro e outubro de 1917 para apresentar a revolução de Outubro como um "golpe bolchevique". Um prolongamento "anormal" desse período de "duplo poder" teria significado necessariamente o fim da revolução e de seus órgãos. Os sovietes são reais unicamente "como órgão de insurreição, como órgão do poder revolucionário. Fora disso, os sovietes não são mais que um mero joguete que só pode produzir apatía, indiferença e decepção entre as massas, que estão legitimamente fartas da interminável repetição de resoluções e protestos" [10]. Ainda que a insurreição proletária não fosse mais espontânea que o golpe militar contrarrevolucionário, nos meses que antecederam a outubro, ambas classes manifestaram repetidamente sua tendência espontânea à luta pelo poder. As Jornadas de julho e o golpe de Kornilov só foram as manifestações mais claras. A mesma insurreição de Outubro na realidade começou não com um sinal do Partido bolchevique, mas com o intento do governo burguês de enviar as tropas mais revolucionárias, dois terços da guarnição de Petrogrado, a frente de guerra, com a intenção de substituí-los por batalhões contrarrevolucionários. Dito de outra forma, a burguesia começou, apenas algumas semanas depois da kornilovada, com um novo intento de esmagar a revolução, obrigando o proletariado a tomar medidas insurrecionais para defendê-la.

  • "No entanto, o desenlace da insurreição de 25 de Outubro pré-determinara-se já, pelo menos em três quartas partes, no momento em que, opondo-nos ao afastamento da guarnição de Petrogrado, criamos o Comitê Militar Revolucionário (7 de Outubro), nomeamos os nossos comissários para todas as unidades e instituições militares e, por isso mesmo, isolamos completamente, não só o estado-maior da circunscrição militar de Petrogrado, mas também o governo... A partir do momento em que, por ordem do Comitê Militar Revolucionário, os batalhões se recusaram a abandonar a cidade, estava-se diante de uma insurreição vitoriosa na capital" [11].

Ademais, este Comitê militar revolucionário, que tinha de conduzir as ações militares decisivas de 25 de outubro, não só não era um órgão do Partido bolchevique, mas que em sua origem foi proposto pelos partidos de "esquerda" contrarrevolucionários como um meio para impor precisamente a retirada das tropas da capital sob a autoridade dos sovietes; porém foi trasformado imediatamente pelo soviete em um instrumento não só para opor-se a esta medida, mas para organizar a luta pelo poder.

"Não, o poder dos sovietes não era uma quimera, uma construção arbitraria, a invenção dos teóricos do Partido. Subia, irresistivelmente. de baixo da desordem econõmica da impotência dos possuidores das necessidades das massas; os sovietes, transformavam-se, na verdade, no poder para os operãrios, o soldados, os