A teoria da decadência reside no âmago do materialismo histórico (I)

Submetido por CCI em Qui, 15/09/2005 - 23:10

Estamos começando uma nova série de artigos dedicados à teoria da decadência[1]. Desde há algum tempo que têm sido feitas algumas críticas a esta concepção. Em grande medida isso tem vindo do trabalho de académicos ou de grupelhos parasitas. Outras críticas, pelo contrário, expressam uma real incompreensão dentro do meio revolucionário[2], ou vêm de elementos à descoberta de respostas genuínas acerca da evolução do capitalismo numa perspectiva histórica. Nós já respondemos à maioria destas críticas[3]. Contudo, hoje estamos a verificar uma mudança na natureza destas críticas. Elas já não são meras questões, incompreensões ou dúvidas; elas já não põem apenas alguns aspectos em questão. Ao invés, temos assistido a uma rejeição total desta teoria, o que representa um desvio completo do marxismo.
A teoria da decadência é simplesmente a concretização da análise do materialismo histórico sobre a evolução dos modos de produção. É, assim, a ferramenta indispensável para compreender o período histórico em que vivemos. Saber se uma sociedade é ainda progressiva ou, por seu turno, tem os seus dias contados, é decisivo para compreender o que está em causa nos níveis socio-económico e político e, por conseguinte, actuar correctamente. Como com todas as sociedades passadas, a fase ascendente do capitalismo expressou um carácter historicamente necessário das relações de produção que lhe dão corpo, ou seja, o seu papel vital na expansão das forças produtivas da sociedade. Em contraste, a fase da decadência expressa a transformação dessas relações numa grande barreira a este mesmo desenvolvimento. Esta é uma das maiores aquisições teóricas de Marx e Engels.
O século XX foi um dos mais assassinos e sangrentos da História da humanidade, tanto ao nível da escala, frequência e duração das guerras, bem como a amplitude incomparável das catástrofes humanas por elas produzidas: desde as grandes fomes na história até ao genocídio sistemático, até às graves crises económicas que abalaram todo o planeta e atiraram dezenas de milhões de proletários para a mais abjecta pobreza. Não há comparação possível entre os séculos XIX e XX. Durante a Belle Epoque, o modo de produção burguês atingiu níveis nunca alcançados: unificou o globo, atingiu níveis de produtividade e de sofisticação tecnológica inimagináveis. Apesar da acumulação de tensões nas fundações da sociedade, os últimos 20 anos da fase ascendente do capitalismo (1894-1914) foram ainda muito prósperos; o capitalismo parecia invencível e os conflitos armados estavam confinados às periferias. Ao contrário do “longo século XIX”, que foi um período de ininterrupto progresso moral, intelectual e material, a partir de 1914 houve uma regressão marcada em todas estas frentes. O carácter crescentemente apocalíptico da economia e da vida social por todo o planeta, e a ameaça de autodestruição numa série sucessiva de conflitos intermináveis e de catástrofes ecológicas cada vez mais graves, não são o resultado de uma fatalidade natural, o produto da loucura humana ou uma característica do capitalismo desde o seu início: com efeito, são manifestações da decadência do modo de produção capitalista que passou de um factor poderoso no desenvolvimento económico, político e social (do século XVI até à Primeira Guerra Mundial[4]), a uma barreira em todo esse desenvolvimento social e uma ameaça à sobrevivência da própria humanidade.
Porque está então a humanidade defronte da questão da sua própria sobrevivência, exactamente quando tem ao seu dispor um nível de desenvolvimento das forças produtivas que lhe permitiriam estar num mundo sem pobreza material, que lhe permitiriam chegar a uma sociedade unida capaz de basear as suas actividades nas necessidades, desejos e consciência da raça humana? Será que o proletariado mundial constitui a força revolucionária que pode tirar a humanidade do impasse a que foi levada pelo capitalismo? Porque é que a maioria das formas de luta operária não podem mais ser as mesmas que as do século XIX, tais como a luta por reformas graduais através do sindicalismo e do parlamentarismo, ou o apoio à constituição de determinados Estado-Nação ou determinadas fracções da burguesia?
Portanto, é impossível descobrir onde nos situamos na actual situação histórica, e muito menos assumir um papel de vanguarda, sem tomar em conta uma visão global e coerente que responda a estas questões elementares, mas cruciais. O marxismo – materialismo histórico – é a única concepção do mundo que lhes pode dar resposta. A sua resposta clara e simples pode ser resumida em poucas palavras; tal como os modos de produção prévios, o capitalismo não é um sistema eterno:
«Para além de um determinado ponto, o desenvolvimento das forças produtivas torna-se uma barreira para o capital e, consequentemente, a relação do capital torna-se uma barreira para as forças produtivas do trabalho. Uma vez chegado a este ponto, o capital, isto é, o trabalho assalariado, entra na mesma relação com o desenvolvimento da riqueza social e as forças produtivas da mesma forma que o sistema de guildas, a servidão e a escravatura no passado, e como grilhão, é, necessariamente, posto de parte. A última forma da servitude assumida pela actividade humana, de um lado, a do trabalho assalariado, do outro, o capital, é, deste modo, repelida e esta repulsa é ela própria o resultado do modo de produção capitalista. É precisamente o processo de produção de capital que engendra as condições materiais e espirituais para a negação do trabalho assalariado e do capital, que são elas mesmas formas de negação de formas anteriores e não livres da produção social.
A crescente descoincidência entre o desenvolvimento produtivo da sociedade e as relações de produção características até então, expressam-se em agudas contradições, crises e convulsões» (Marx, Fundamentos da Crítica da Economia Política, também conhecidos por Grundrisse, Obras Completas, Volume 29, p.133-134).
À medida que o capitalismo foi cumprindo o seu papel progressivo na História e que o proletariado não estava suficientemente desenvolvido, as lutas operárias não poderiam resultar numa revolução mundial triunfante; mas, por sua vez permitiram que o proletariado se reconhecesse como classe através da acção dos sindicatos e das lutas parlamentares por reformas reais que melhoraram as suas condições de vida. A partir do momento em que o sistema capitalista entrou na sua decadência, a revolução comunista mundial tornou-se uma possibilidade e uma necessidade. As formas da luta proletária foram então mudadas radicalmente; mesmo ao nível imediato, as lutas defensivas realmente operárias não mais poderiam ser expressas, na forma e no conteúdo, através dos meios de luta forjados no século XIX como o sindicalismo, o economismo e a representação parlamentar de organizações políticas proletárias.
Ganhando existência a partir dos movimentos revolucionários que colocaram um ponto final na Primeira Guerra Mundial, a Internacional Comunista foi fundada em 1919 com o pressuposto de que a burguesia já não era mais uma classe progressiva:
«II – O Período da Decadência do Capitalismo. Depois de analisar a situação económica mundial, o Terceiro Congresso deu conta, com a maior precisão possível, que o capitalismo completou a sua missão de desenvolver as forças produtivas e caiu na mais implacável contradição não só com as necessidades actuais da evolução histórica presente, mas também com os requerimentos mais elementares da existência humana. Esta contradição fundamental reflectiu-se e aprofundou-se particularmente na última guerra imperialista, o que abalou as fundações de todo o sistema de produção e circulação. O capitalismo sobreviveu e entrou numa fase onde a acção destrutiva das suas forças descontroladas arruinam e paralisam as conquistas económicas já atingidas pelo proletariado sob as cadeias da escravidão capitalista (...). Hoje o capitalismo está no caminho da sua agonia.»[5].
Daqui, ressalta o entendimento de que a Primeira Guerra Mundial marcou a entrada do sistema capitalista na sua fase decadente começou a fazer parte do património da maioria dos grupos da esquerda comunista (comunistas de esquerda) que se mostraram capazes de se manterem numa linha de classe intransigente e coerente. A ICC (Corrente Comunista Internacional) tem, assim, assimilado e desenvolvido a herança transmitida e enriquecida pelas Esquerdas Comunistas holandesa, alemã e italiana nos anos 30 e 40 e, depois, pela Esquerda Comunista de França nos anos 40 e 50.
Decisivos combates de classe avizinham-se no horizonte. Desse modo é fundamental que o proletariado se reaproprie da sua própria concepção do mundo, construída ao longo dos últimos dois séculos de lutas operárias e de elaboração teórica das suas organizações políticas. Mais do que nunca, o proletariado tem de compreender que a aceleração da barbárie e que o crescimento ininterrupto da sua exploração não são factos naturais , mas que são o resultado das leis económicas e sociais do capital. Capital que continua a dominar o mundo apesar do seu carácter historicamente obsoleto desde o início do século XX. Portanto, é vital que a classe trabalhadora entenda que enquanto as formas de luta que desenvolveu no século XIX (programa mínimo de luta por reformas, apoio a fracções progressistas da burguesia, etc.) tinham o seu sentido na fase de ascensão do capitalismo, quando este podia “tolerar” a existência de organizações proletárias na sociedade, hoje estas formas de luta só podem resultar num impasse nesta fase de decadência. Mais do que nunca, é vital que o proletariado tenha noção que a revolução comunista não é uma utopia, mas uma necessidade e uma possibilidade que têm as suas fundações científicas na compreensão da decadência do modo de produção capitalista.
O objectivo desta nova série de artigos sobre a teoria da decadência será responder às objecções levantadas contra a mesma. Estas objecções são um obstáculo na medida em que obstaculizam ao movimento das novas forças revolucionárias rumo às posições da esquerda comunista; elas também minam a clareza política existente entre os grupos do meio revolucionário.

De Marx à Esquerda Comunista

No primeiro artigo desta série vamos começas por reiterar – contra aqueles que o conceito e mesmo o termo de decadência está ausente da obra de Marx e Engels – que esta teoria é nada mais nada menos que o centro nevrálgico do materialismo histórico. Vamos procurar demonstrar que este quadro teórico, bem como o termo de decadência, estão amplamente presentes na obra de ambos. Por trás da crítica ou abandono da noção de decadência o que está em causa é a rejeição do cerne do marxismo. É perfeitamente compreensível que as forças da burguesia se oponham à ideia de que o seu sistema está em decadência. O problema existe quando é fundamental mostrar os perigos reais que ameaçam a classe trabalhadora e a humanidade e correntes que se reclamam marxistas rejeitam os instrumentos fornecidos pelo método marxista de compreensão e transformação da realidade[6].


A teoria da decadência na obra dos fundadores do materialismo histórico

Contrariamente ao que é geralmente difundido, as principais descobertas e conquistas do trabalho de Marx e Engels não é a existência das classes, da luta de classes, da teoria do valor-trabalho ou da mais-valia. Todos estes conceitos já tinham sido mais ou menos avançados por historiadores e economistas na altura em que a burguesia ainda era uma classe revolucionária em luta contra a resistência feudal. O novo elemento presente na obra de Marx e Engels reside na análise do carácter histórico da divisão da sociedade em classes, da dinâmica que recobre a sucessão dos modos de produção; isto é o que lhes permitiu compreender a natureza transitória do modo de produção capitalista e da necessidade da ditadura do proletariado como uma fase intermédia rumo a uma sociedade sem classes. Por outras palavras, o que constitui a pedra de toque das suas descobertas científicas não é outra coisa senão o materialismo histórico:
«No que me diz respeito, não me cabe o mérito de ter descoberto nem a existência das classes na sociedade moderna nem a luta entre si. Muito antes de mim, historiadores burgueses tinham exposto o desenvolvimento histórico desta luta de classes, e economistas burgueses a anatomia económica das mesmas. O que de novo eu fiz foi: 1) demonstrar que a existência das classes está apenas ligada a determinadas fases de desenvolvimento histórico da produção; 2) que a luta de classes conduz necessariamente à ditadura do proletariado; 3) que esta mesma ditadura só constitui a transição para a superação de todas as classes e para uma sociedade sem classes (...)» (Marx, Carta a Joseph Weydemeyer, 5 de Março de 1852, Obras Completas, p.62-65).
De acordo com os nossos críticos, a noção de decadência não é marxista e não se encontraria na obra de Marx e Engels. Uma simples leitura de muitos dos seus principais textos demonstra o inverso: esta noção está no âmago do materialismo histórico. Sobre isto, Engels, no seu Anti-Duhring[7] escrito em 1877, apontou como o ponto comum essencial existente entre Fourier e o materialismo histórico, como a noção de ascensão e decadência de um modo de produção, válida para toda a história humana:
«Mas Fourier está no seu melhor aquando da sua concepção da história das sociedades (...). Fourier, como vimos, usa o método dialéctico com a mesma mestria do seu contemporâneo Hegel. Usando a mesma dialéctica, ele expõe contra a conversa sobre a ilimitável perfeição humana, que cada fase histórica tem o seu período de ascensão e também o seu período de descenso, e aplica a sua observação ao futuro de toda a espécie humana» (Anti-Duhring, 1877, Socialismo I, Obras Completas volume 25, p.245, grifos nossos).
É provavelmente na passagem citada acima dos Fundamentos da Crítica da Economia Política, que Marx dá uma definição muito clara do que está por trás desta noção de uma fase de decadência. Ele identifica esta fase como um passo particular na vida de um modo de produção – «Para além de um determinado ponto» – quando as relações sociais de produção se tornam um obstáculo para o desenvolvimento das forças produtivas – «a relação do capital torna-se uma barreira para as forças produtivas do trabalho». Uma vez atingido este ponto de desenvolvimento económico, a persistência dessas relações de produção – trabalho assalariado, servidão, escravatura – formam uma poderosa barreira ao desenvolvimento das forças produtivas. Este é o mecanismo básico de evolução de todos os modos de produção: «Uma vez chegado a este ponto, o capital, isto é, o trabalho assalariado, entra na mesma relação com o desenvolvimento da riqueza social e as forças produtivas da mesma forma que o sistema de guildas, a servidão e a escravatura no passado, e como grilhão, é, necessariamente, posto de parte». Marx define as características disto de forma muito precisa: « A crescente descoincidência entre o desenvolvimento produtivo da sociedade e as relações de produção características até então, expressam-se em agudas contradições, crises e convulsões». Esta definição teórica geral da decadência seria usada por Marx e Engels como um “conceito científico operacional” na análise concreta da evolução dos modos de produção.

O conceito de decadência na análise dos modos de produção anteriores

Tendo dedicado uma boa parte das suas energias a descodificar os mecanismos e contradições do capitalismo, tornou-se lógico o estudo substancial que Marx e Engels fizeram acerca da sua génese no seio do feudalismo. Assim em 1884 Engels produziu um complemento ao seu estudo As Guerras Camponesas na Alemanha, com o objectivo de providenciar um quadro histórico global do período em que esses eventos tinham ocorrido. O título desse complemento, desse anexo é bem explícito: “Sobre o declínio do feudalismo e a emergência dos Estados nacionais”. Aqui estão alguns extractos significativos:
«Enquanto as batalhas selvagens da nobreza dominante feudal perpassavam a Idade Média com o seu clamor, o trabalho subterrâneo e invisível das classes oprimidas começou a minar o sistema feudal por toda a Europa Ocidental, criando as condições para que menos e menos espaço sobrasse para o senhor feudal (...). Enquanto a nobreza se tornava crescentemente supérflua e um obstáculo maior ao desenvolvimento, os burgueses das cidades tornaram-se a classe que corporizava o subsequente desenvolvimento da produção e do comércio, da cultura e das instituições económicas e políticas.
Todos estes avanços na produção e na troca eram, de facto, pelos padrões actuais, de uma natureza muito limitada. A produção manteve-se cativa dos ofícios das guildas, e assim mantiveram um carácter feudal; o comércio manteve-se dentro dos limites das águas europeias, e não se estendeu mais para além das cidades costeiras do Levante, onde os produtos do Extremo Oriente eram adquiridos através da troca. Mas se a produção limitada e em pequena escala se manteve – tal como os burgueses comerciantes – ela foi suficiente para derrubar a sociedade feudal e, pelo menos, continuaram a mover-se, ao mesmo tempo que a nobreza estagnava (...). No século quinze o sistema feudal estava assim num declínio pronunciado por toda a Europa Ocidental (...). Porém, por todo o lado – nas cidades e também no campo – deu-se um crescimento dos elementos da população que tinham como principais objectivos o fim à constante, ao guerrear infinito por feudos entre os senhores feudais que fizeram a guerra interna em permanência, mesmo quando havia um inimigo estrangeiro no seu solo nativo (...).

Vimos como a nobreza feudal começou por se tornar supérflua em termos económicos, mesmo um estorvo, na sociedade do fim da Idade Média – como, politicamente, embarcou no caminho do desenvolvimento das cidades e dos estados nacionais que então só eram possíveis numa forma monárquica. Apesar de tudo, isso sustentou-se pelo facto de até então possuir o monopólio pelo controlo do uso das armas: sem isso nenhuma guerra ou batalha poderia ser travada. Isto também iria mudar; o último passo foi tomado para tornar claro que os nobres feudais que o período em que dominaram a sociedade e o Estado acabou, que eles não tinham qualquer utilidade como cavaleiros – nem mesmo no campo de batalha» (Obras Completas, Volume 26, p.556-562, grifos nossos).
Estes longos desenvolvimentos por Engels são particularmente interessantes no sentido em que eles nos mostram o processo de “decadência do feudalismo” simultaneamente com o “ascenso da burguesia” e a transição para o capitalismo. Em poucas frases anuncia-nos as quatro principais características de um período de decadência de um modo de produção e sua transição para um outro:
1) A lenta e gradual emergência de uma nova classe revolucionária que é portadora de novas relações sociais de produção no seio da sociedade em declínio: «Enquanto a nobreza se tornava crescentemente supérflua e um obstáculo maior ao desenvolvimento, os burgueses das cidades tornaram-se a classe que corporizava o subsequente desenvolvimento da produção e do comércio, da cultura e das instituições económicas e políticas». A burguesia representava o novo, a nobreza quedava-se pela defesa do Antigo Regime; só quando o seu poder económico se consolidou dentro do modo de produção feudal que a burguesia se sentiu com força suficiente para desafiar o poder da aristocracia. Devemos notar de passagem que isto formalmente refuta a versão bordiguista da história, uma visão particularmente deformada do materialismo histórico, que postula que cada modo de produção experimenta um movimento de perpétuo ascendente até que um súbito evento brutal (uma revolução? uma crise?) o interrompe e o “atira para o chão”. No final desta catástrofe “redentora”, um novo regime social emerge do fundo do abismo: «a visão marxista pode ser representada como uma série de ramos, de curvas ascendendo até ao topo sucedidas por uma queda violenta, súbita, quase vertical; e, no final, um novo regime social surge» (Bordiga, Encontro de Roma de 1951, publicado em Invariance nº4).[8]
2) A dialéctica entre o novo e o velho ao nível da infraestrutura
: «Todos estes avanços na produção e na troca eram, de facto, pelos padrões actuais, de uma natureza muito limitada. A produção manteve-se cativa dos ofícios das guildas, e assim mantiveram um carácter feudal; o comércio manteve-se dentro dos limites das águas europeias, e não se estendeu mais para além das cidades costeiras do Levante, onde os produtos do Extremo Oriente eram adquiridos através da troca. Mas se a produção limitada e em pequena escala se manteve – tal como os burgueses comerciantes – ela foi suficiente para derrubar a sociedade feudal e, pelo menos, continuaram a mover-se, ao mesmo tempo que a nobreza estagnava (...). No século quinze o sistema feudal estava assim num declínio pronunciado por toda a Europa Ocidental». Apesar de limitado (“pequena escala”) o progresso material da burguesia, foi mesmo assim suficiente para derrubar uma sociedade feudal “estagnante” que “estava num declínio pronunciado por toda a Europa Ocidental”, como Engels dizia. Isto também refuta teorias absurdas que defendem que o feudalismo desapareceu porque foi colocado face a um modo de produção mais efectivo que acabou por o ultrapassar:

  • «Temos visto que há várias maneiras de como um modo de produção pode desaparecer (...). Uma dessas formas é ser derrubado a partir de dentro por uma forma de produção em ascensão, até ao ponto em que o movimento quantitativo se torna um salto qualitativo e esse nova forma ultrapassa a anterior. Este foi o caso do feudalismo que deu origem ao modo de produção capitalista» (Revue International du Mouvement Communiste – RIMC);[9]
  • «O feudalismo desapareceu por causa do sucesso da economia de mercado. Ao contrário da escravatura, ele não desapareceu devido a uma quebra da produtividade. Pelo contrário: o nascimento e desenvolvimento da produção capitalista foi possível pela produtividade crescente da agricultura feudal, que tornou supérflua uma enorme massa de camponeses, tornando-os proletários, que começaram a criar suficiente mais-valia para alimentar a população das cidades em crescimento. O capitalismo substituiu o feudalismo não porque a produtividade deste estagnou, mas porque era inferior à produtividade da produção capitalista” (Internationalist Perspectives – 16 teses sobre a história e o estado da economia capitalista)[10].

Marx, ao contrário destas concepções, afirmou claramente sobre «as guildas e os entraves que colocaram ao desenvolvimento livre da produção», sobre «os senhores feudais e as suas prerrogativas revoltantes»: «os capitalistas industriais, esses novos potentados, tiveram não só que desbaratar os mestres das guildas e ofícios artesãos, mas também os senhores feudais, proprietários das fontes de riqueza. A este respeito, a conquista do poder social aparece como fruto da luta vitoriosa tanto contra a nobreza feudal e suas prerrogativas revoltantes, e contra as guildas e entraves que colocavam ao livre desenvolvimento da produção e da exploração do homem pelo homem»
(O Capital, Volume 1, Capítulo 26: O segredo da acumulação primitiva, Edição da Lawrence and Wishart, p.669).
A análise feita pelos fundadores do materialismo histórico, amplamente confirmada ao nível empírico por vários estudos históricos[11], é diametralmente oposta às incoerências daqueles que rejeitam a teoria da decadência. A análise da decadência do feudalismo e da transição para o capitalismo foi enunciada muito claramente no Manifesto Comunista quando Marx nos diz que «a moderna sociedade burguesa (...)brotou das ruínas da sociedade feudal»;que o comércio mundial e os mercados coloniais deram «um impulso nunca antes visto, um rápido desenvolvimento ao elemento revolucionário na sociedade feudal cambaleante.
O sistema feudal da indústria, em que a produção industrial era monopolizada pelas guildas, deixou de se tornar suficiente para as necessidades crescentes dos novos mercados... Vemos então: os meios de produção e de troca, sobre os quais a burguesia se fundou, foram gerados na sociedade feudal. Num determinado estádio do desenvolvimento destes meios de produção e de troca, as condições sob as quais a sociedade feudal produzia e comerciava, a organização feudal da agricultura e da manufactura, numa palavra, as relações de produção feudais tornaram-se incompatíveis com as forças produtivas; aquelas tornaram-se entraves para estas. Portanto, tinham de ser, e foram, despedaçadas»
(Obras Completas, volume 6, p.485-489). Para aqueles que sabem ler, Marx é muito claro: ele fala de uma « sociedade feudal cambaleante». Porque estava então o feudalismo em decadência? Porque «as relações de produção feudais tornaram-se incompatíveis com as forças produtivas; aquelas tornaram-se entraves para estas». Foi dentro da sociedade feudal em ruínas que a transição para o capitalismo começou: «a moderna sociedade burguesa (...)brotou das ruínas da sociedade feudal».
Marx continuou a desenvolver esta análise na Crítica da Economia Política: «só no período de declínio e queda do sistema feudal, onde aí se desenrolavam lutas internas – como na Inglaterra nos séculos XIV e XV (primeira metade deste) – existe uma idade de ouro no processo de emancipação do trabalho»[12]. De modo a caracterizar a decadência feudal, que foi do início do século XIV ao século XVIII, Marx e Engels usaram inúmeros termos que admitem sem ambiguidade para ninguém com um mínimo de honestidade política: « o sistema feudal estava assim num declínio pronunciado por toda a Europa Ocidental»; «a nobreza em estagnação»; «as ruínas da sociedade feudal»; «sociedade feudal cambaleante»; «as relações de produção feudais tornaram-se incompatíveis com as forças produtivas; aquelas tornaram-se entraves para estas»; «as guildas e os entraves que colocaram ao desenvolvimento livre da produção»[13].
3) O desenvolvimento de conflitos entre diferentes fracções da classe dominante: «enquanto as batalhas selvagens da nobreza dominante feudal perpassavam a Idade Média com o seu clamor (...) ao guerrear infinito por feudos entre os senhores feudais que fizeram a guerra interna em permanência, mesmo quando havia um inimigo estrangeiro no seu solo nativo». O que não conseguiam atingir mais por via da dominação económica e política sobre o campesinato, a nobreza feudal recorreu cada vez mais à violência. Confrontada com as crescentes dificuldades em extrair suficiente trabalho excedente através das rendas feudais (corveia, etc.), a nobreza embrenhou-se em conflitos internos insanáveis que não outras consequências senão arruinar-se a si mesma e à sociedade feudal como um todo. A Guerra dos Cem Anos que destroçou a população europeia, e as incessantes guerras monárquicas, são os exemplos mais evidentes.
5) O desenvolvimento da luta das classes exploradas: «o trabalho subterrâneo e invisível das classes oprimidas começou a minar o sistema feudal por toda a Europa Ocidental, criando as condições para que menos e menos espaço sobrasse para o senhor feudal». No domínio das relações sociais, a decadência de um modo de produção toma a forma de um desenvolvimento qualitativo e quantitativo de lutas entre classes antagonistas: a luta das classes exploradas, que sente cada vez mais a miséria agravada pela exploração levada ao limite por uma classe dominante desesperada; lutas da classe que é portadora da nova sociedade e que enfrenta as forças da velha ordem social (nas sociedades passadas, isto era levado a cabo sempre por uma classe exploradora; no capitalismo, pelo contrário, o proletariado é tanto a classe explorada como a classe revolucionária).
6) Estas longas transcrições sobre o fim do modo de produção feudal e a transição para o capitalismo já demonstraram completamente que o conceito de decadência foi não só definido teoricamente por Marx e Engels, mas também é um conceito científico operacional usado para recobrir a dinâmica da sucessão dos modos de produção estudada por eles. Foi portanto perfeitamente lógico que eles usassem este conceito quando estudaram as sociedades primitivas, antigas e asiáticas. Assim, quando analisaram a evolução do modo de produção esclavagista, Marx e Engels chamaram a atenção, n’ A Ideologia Alemã (1845-46) para as características gerais da decadência neste sistema: «os últimos séculos do Império Romano em declínio e a sua conquista pelos bárbaros destruiu uma quantidade de forças produtivas; a agricultura entrou em declínio, a indústria decaiu à procura de novos mercados, o comércio estava moribundo ou foi violentamente interrompido, a população rural e urbana tinha decrescido» (A Ideologia Alemã, Parte I: Feuerbach, Oposição das Posições Idealista e Materialista. Obras Completas, Volume 5, p.34, grifos nossos).
Igualmente, na análise das sociedades primitivas, encontramos a decadência de um modo de produção no centro da obra de Marx e Engels: «a história do declínio das comunidades primitivas (...) ainda tem de ser escrita. Tudo o que fizemos até agora são apenas pálidos esboços (...) faltam-nos estudar as causas do seu declínio e dos factos económicos que preveniram que tivessem passado um determinado estado de desenvolvimento» (Primeiro Esboço da Carta a Vera Zassulitch, 1881, Obras Completas, Volume 24, p.358-359).
Finalmente, com a decadência do modo de produção Asiático[14], Marx diz n’O Capital, quando compara a estagnação das sociedades asiáticas com a transição para o capitalismo na Europa, que: «a usura tem um efeito revolucionário nos modos de produção pré-capitalistas mas só na medida em que isso destrói e dissolve essas formas de propriedade em que a sólida fundação e reprodução continuada de uma forma de organização política se baseia. Sob as formas asiáticas, a usura pode continuar por um longo tempo, sem produzir nada mais do que decadência económica e corrupção política. Só onde e quando outros pré-requisitos da produção capitalista estão presentes é que a usura se torna um dos meios que contribuem para o estabelecimento de um novo modo de produção, ao arruinar o senhor feudal e o produtor da pequena propriedade, por um lado, e a centralização das condições de trabalho em capital, por outro» (O Capital Volume III, Divisão do lucro em juro e lucro da empresa, Capítulo 36. Edição da Lawrence and Wishart, p.597).

A aproximação à decadência do capitalismo em Marx e Engels

Há aqueles que sabem perfeitamente do uso abundante de Marx e Engels do conceito de decadência para modos de produção precedentes do capitalismo, proclamam que «Marx só deu ao capitalismo uma definição progressiva da fase histórica em que eliminou o mundo económico do feudalismo, engendrando um período vigoroso de desenvolvimento das forças produtivas que estavam adormecidas na forma económica prévia; mas ele não avançou com uma definição de decadência, excepto na famosa introdução da Crítica da Economia Política» (Prometeo nº8, Dezembro 2003). Nada podia ser menos verdade! Ao longo de suas vidas, Marx e Engels analisaram a evolução do capitalismo e constantemente tentaram determinar o critério e o momento da entrada na sua decadência.
Assim, já muito cedo no Manifesto Comunista, eles consideraram que o capitalismo teria completado a sua missão histórica e que estavam num tempo de passagem para o comunismo: «as forças produtivas à disposição da sociedade não mais permitem um desenvolvimento das condições da propriedade burguesa; pelo contrário, elas tornaram-se demasiado poderosas para estas condições, que as entravam, e à medida que superarem estas barreiras, trarão desordem a toda a sociedade burguesa, colocando em perigo a existência da propriedade burguesa. As condições da sociedade burguesa são muito estreitas para abarcar toda a riqueza criada por ela mesma (...). A sociedade não pode mais viver sob esta burguesia, por outras palavras, a sua existência não é mais compatível com a sociedade»[15].
Sabemos que Marx e Engels reconheceram mais tarde que o seu diagnóstico foi prematuro. Assim, em finais de 1850, Marx escreveu: «enquanto esta prosperidade geral durar, permitindo o crescimento das forças produtivas da burguesia até à sua máxima extensão possível dentro do sistema burguês a revolução não estará na ordem do dia. Essa revolução só é possível num momento em que dois factores entrem em conflito: as forças produtivas e as formas de produção burguesas (...). Uma nova revolução só é possível como resultado de uma nova crise; mas ela virá, tão seguramente como a própria crise» (Nova Gazeta Renana, Maio-Outubro 1850).
E numa carta muito interessante a Engels, datada de 8 de Outubro de 1858, Marx apontou o critério qualitativo que determina a passagem para uma fase de decadência, isto é, «a criação de um mercado mundial, pelo menos em esboço, e da produção baseada nesse mercado». Na sua opinião, estes dois critérios encontravam-se na Europa – em 1858 achava que o tempo para a revolução socialista estava na ordem do dia – mas não para o resto do globo, onde ele considerava que o capitalismo estava na sua fase ascendente: «a tarefa própria da sociedade burguesa é a criação de um mercado mundial, pelo menos em esboço, e da produção baseada nesse mercado. Desde que o mundo é redondo, a colonização da Califórnia e da Austrália e a abertura da China e do Japão parecem ter completado este processo. Para nós, a questão difícil é esta: no continente a revolução é iminente e irá, além disso, assumir instantaneamente um carácter socialista. Não será ela imediatamente esmagada neste pequeno canto da Terra, já que o movimento da sociedade burguesa ainda está numa fase ascendente numa área muito maior?» (Correspondência, Marx a Engels em Manchester, 8 de Outubro de 1858).
N’O Capital, Marx disse que o capitalismo «demonstra que se está a tornar senil e cada vez mais fora do prazo» (Capital, Terceiro Livro, Terceira Parte: A Lei da Tendência da Queda da Taxa de Lucro, Capítulo 15: Exposição das Contradições Internas da Lei). Novamente em 1881, no segundo esboço da carta a Vera Zasulitch, Marx propõe que o capitalismo entrou na sua fase decadente no Ocidente: «o sistema capitalista está a passar do seu tempo no Ocidente, aproximando-se do tempo em que não será mais do que um sistema social regressivo» (citado em Shanin, Último Marx e a Via Russa, RKP, p.103). Portanto, para aqueles que sabem ler e têm um nível mínimo de honestidade política, os termos que Marx utiliza para falar da decadência do capitalismo são muito claros: período de senilidade, sistema social regressivo, entrave no desenvolvimento das forças produtivas, sistema cada vez mais fora do prazo, etc.
Finalmente, Engels concluiu esta questão em 1895: «A história provou-nos, e a todos que pensavam como nós, errados. Ela tornou claro que o estado de desenvolvimento económico no Continente nesse tempo não estava, numa grande extensão, próximo da substituição da produção capitalista; provou-nos isso pela revolução económica que, desde 1848, tem percorrido todo o Continente (...) isto só prova, de uma vez por todas, como era impossível em 1848 levar a avante a reconstrução social por um simples ataque de surpresa» (As Lutas de Classes em França, Introdução por Engels, 1895). Nas palavras de Marx e Engels, prova-se “de uma vez por todas” a estupidez das páginas intermináveis produzidas pelos grupos parasíticos acerca da possibilidade de uma revolução comunista de 1848 adiante: «temos defendido em diversas ocasiões a tese de que o comunismo é possível desde 1848» (Robin Goodfellow, ‘O comunismo como uma necessidade histórica’, 1/2/04[16]). Ignomínias infelizmente partilhadas em grande medida pelos bordiguistas do PCI, que numa má discussão respondem-nos dizendo que «as condições para o derrube de uma forma social não existem no momento do seu apogeu», argumentando que isto «seria mesmo que atirar para o caixote do lixo um século da existência e da luta do proletariado e do seu partido (...) Assim nem o nascimento da teoria comunista nem o significado e lições ou revoluções do século XIX poderiam ser compreendidos» (panfleto do PCI nº29, Corrente Comunista Internacional: contracorrente do marxismo e da luta de classe).
Porque é este argumento totalmente inepto? Exactamente no momento que Marx e Engels escreveram o Manifesto Comunista, existiam sem dúvida períodos de estagnação e depressão que tomavam a forma de crises cíclicas, e ao examinar estas crises, eles foram capazes de analisar todas as expressões das contradições fundamentais do capitalismo. Mas estas «revoltas das forças produtivas contra as relações de produção» eram simplesmente abanões precoces no sistema. O resultado destas explosões regulares foi o fortalecimento do sistema que, numa fase vigorosa de crescimento, foi capaz de se livrar das suas dificuldades iniciais e dos obstáculos feudais no seu caminho. Em 1850, só 10% da população mundial estava integrada em relações sociais capitalistas. O sistema do trabalho assalariado tinha todo um futuro à sua frente. Marx e Engels tiveram a brilhante perspicácia de ver nas crises de crescimento do capitalismo, a essência de todas as crises e predizer um futuro de fortes e profundas convulsões. Se eles estavam em condições de seguir este caminho, isso era devido ao facto de, desde o seu nascimento, uma forma social carregar os germes das contradições que levarão ao seu desvanecimento. Mas até que essas contradições não se desenvolvam até ao ponto onde se tornam uma barreira ao crescimento do sistema, constituem o próprio motor de expansão do mesmo. Os súbitos deslizes da economia capitalista no século XIX não eram, assim, essas barreiras permanentes e crescentes. Portanto, tomando em avanço a intuição de Marx sobre quando o capitalismo entraria na decadência – «a criação de um mercado mundial, pelo menos em esboço, e da produção baseada nesse mercado» – Rosa Luxemburg conseguiu vislumbrar a dinâmica e o momento: « temos atrás de nós, as prévias crises principiantes que seguiram estes desenvolvimentos periódicos. Por outro lado, ainda não chegamos àquele grau de desenvolvimento e exaustão do mercado mundial que produz colisões fatais e periódicas das forças de produção dentro dos limites do mercado, que é a real crise capitalista da sua idade adulta (...). Se o mercado mundial se encontra mais ou menos entupido e não consegue mais alargar-se por via de extensões sucessivas; e se, ao mesmo tempo, a produtividade do trabalho parcamente aumenta, então o tempo do conflito periódico das forças produtivas com os limites da troca vai começar, e se repetirá mais forte e abruptamente» (Reforma Social ou Revolução?, 1908).

A noção de decadência n’O Capital de Marx

Vimos acima que Marx e Engels fizeram um uso abundante da noção de decadência no seus escritos principais sobre o materialismo histórico e da crítica da economia política (A Ideologia Alemã, Manifesto Comunista, Anti-Duhring, Crítica da Economia Política, posfácio da Guerra dos Camponeses na Alemanha), mas também em cartas e prefácios. E sobre o livro que o IBRP considera ser a obra-prima de Marx? Esta organização considera que o termo decadência «nunca aparece nos três volumes d’O Capital»[17]. Aparentemente o IBRP não leu O Capital muito bem porque em todas as partes que Marx lida com o nascimento e com a morte do capitalismo a noção de decadência está de facto presente!
Assim nas páginas d’O Capital Marx confirma a sua análise da decadência do feudalismo e dentro desta, a transição ao capitalismo: «a estrutura económica da sociedade capitalista proveio da estrutura económica da sociedade feudal. A dissolução desta última permitiu o estabelecimento livre da primeira (...). Apesar de vermos os primeiros sinais de produção capitalista nos séculos XIV e XV esporadicamente em algumas cidades mediterrâneas, a era capitalista data do século XVI. Onde ela apareceu, a abolição da servidão foi levada a cabo, e o maior desenvolvimento da Idade Média, a existência de cidades soberanas, há muito estavam em definhamento (...). O prelúdio das revoluções que fortaleceram as fundações do modo de produção capitalista, aconteceu no último terço do século XV e na primeira década do século XVI» (O Capital, Livro 1, edição da Lawrence and Wishart, p.668-669 e 672). Igualmente, quando Marx viu as enormes contradições do capitalismo e entreviu a sua substituição pelo comunismo, ele fala de “o capitalismo se tornar senil”: «aqui o modo de produção capitalista está rodeado por mais uma contradição. A sua missão histórica é o desenvolvimento sem entraves numa progressão geométrica da produtividade do trabalho humano. O capitalismo cumpre a sua missão até que, como aqui, coloque em cheque o desenvolvimento da sua produtividade. Isto demonstra mais uma vez que está-se a tornar senil e que está cada vez mais fora do prazo, datado» (Marx, O Capital, Livro III, Parte III, Capítulo 15: Exposição das contradições internas da lei, grifos nossos)[18].
Devemos ainda notar de passagem que Marx via o período de senilidade do capitalismo como uma fase que estava a colocá-lo cada vez mais fora de prazo, onde se tornava um obstáculo ao desenvolvimento da produtividade. Isto demonstra a mentira de uma teoria inventada por atacado pelo grupo Internationalist Perspectives (Perspectivas Internacionalistas), para o qual a decadência do capitalismo (mas também do feudalismo como vimos acima) é caracterizada por um desenvolvimento completo das forças produtivas e da produtividade do trabalho![19]
Finalmente, numa outra passagem d’O Capital, Marx enfoca o processo geral de sucessão dos modos de produção históricos: «cada forma específica deste processo desenvolve continuamente as suas fundações materiais e forma social. Sempre que um certo estado de maturidade é atingido, a forma histórica específica é descartada e dá lugar a uma outra superior. O momento de chegada de tal crise é revelada pela profundidade e amplitude tomadas pelas contradições e antagonismos entre as relações de distribuição, e das formas históricas específicas das relações de produção correspondentes, por um lado, e pelas forças produtivas, poderes da produção e desenvolvimento da sua acção, por outro lado. Um conflito então decorre entre o desenvolvimento material da produção e a sua forma social». (Marx, O Capital, Livro III, Parte VI, Capítulo 51: Relações de distribuição e relações de produção)[20].
Aquele Marx usa a terminologia que já tinha utilizado na Contribuição para a Crítica da Economia Política que examinaremos em baixo. Mas antes vamos apenas apontar que o que é verdade para O Capital também é verdade para todos os trabalhos preparatórios desta obra, onde a noção de decadência está amplamente presente[21]. O melhor conselho que podemos dar ao IBRP é de voltar à escola e aprender a ler.

A noção de decadência definida por Marx na Contribuição à Crítica da Economia Política

É assim que Marx resume os principais resultados da sua investigação em 1859 no Prefácio à sua Contribuição da Economia Política:

«O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu de fio condutor aos meus estudos, pode resumir-se assim: na produção social da sua vida, os homens contraem determinadas relações necessárias e independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada fase de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais.
O conjunto dessas relações de produção forma a estrutura económica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta a superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de consciência social.
O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e espiritual em geral. Não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas, pelo contrário, o seu ser social é que determina a sua consciência.
Ao chegar a uma determinada fase de desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade se chocam com as relações de produção existentes, ou, o que não é senão a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro das quais se desenvolveram até ali.
De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações se convertem em obstáculos a elas. E se abre, assim, uma época de revolução social.
Ao mudar a base económica, revoluciona-se, mais ou menos rapidamente, toda a imensa superestrutura erigida sobre ela.
Quando se estudam essas revoluções, é preciso distinguir sempre entre as mudanças materiais ocorridas nas condições económicas de produção e que podem ser apreciadas com a exactidão própria das ciências naturais, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, numa palavra, as formas ideológicas em que os homens adquirem consciência desse conflito e lutam para resolvê-lo.
E do mesmo modo que não podemos julgar um indivíduo pelo que ele pensa de si mesmo, não podemos tampouco julgar estas épocas de revolução pela sua consciência, mas, pelo contrário, é necessário explicar esta consciência pelas contradições da vida material, pelo conflito existente entre as forças produtivas sociais e as relações de produção. 

Nenhuma formação social desaparece antes que se desenvolvam todas as forças produtivas que ela contém, e jamais aparecem relações de produção novas e mais altas antes de amadurecerem no seio da própria sociedade antiga as condições materiais para a sua existência. 

Por isso, a humanidade se propõe sempre apenas os objectivos que pode alcançar, pois, bem vistas as coisas, vemos sempre, que esses objectivos só brotam quando já existem ou, pelo menos, estão em gestação as condições materiais para a sua realização

A grandes traços podemos designar como outras tantas épocas de progresso, na formação económica da sociedade, o modo de produção asiático, o antigo, o feudal e o moderno burguês. As relações burguesas de produção são a última forma antagónica do processo social de produção, antagónica, não no sentido de um antagonismo individual, mas de um antagonismo que provém das condições sociais de vida dos indivíduos.

As forças produtivas, porém, que se desenvolvem no selo da sociedade burguesa criam, ao mesmo tempo, as condições materiais para a solução desse antagonismo.

Com esta formação social se encerra, portanto, a pré-história da sociedade humana». (grifos nossos)


Os nossos críticos têm a habitual desonestidade de evitar a questão da decadência ao sistematicamente transformarem e reinterpretar os escritos de Marx e Engels. Este é especialmente o caso deste excerto da Contribuição da Crítica da Economia Política que dizem – erradamente como já vimos – ser o único local onde Marx fala da decadência! Assim para o IBRP, Marx, nesta passagem, está a falar, não de duas fases distintas na evolução histórica do modo de produção capitalista, mas sobre o fenómeno das recorrentes crises económicas: «é o mesmo quando os defensores desta análise da decadência são levados a citar outra frase de Marx, segundo o qual, num certo nível de desenvolvimento do capitalismo, as forças produtivas entram em contradição com as relações de produção, e assim desenvolve-se o processo de decadência. O facto é que a expressão em questão relaciona-se com o fenómeno da crise geral e com o desfasamento da relação entre a estrutura económica e as superestruturas ideológicas que podem gerar episódios de levar a classe numa direcção revolucionária, e não acerca da questão em discussão» (Prometeo nº8, Dezembro 2003).


Em si, a citação de Marx não deixa espaço para ambiguidade. É clara, límpida e segue a mesma lógica que os restantes extractos referidos neste artigo. Da sua carta a Weydemeyer, sabemos quanto Marx via o materialismo histórico como a sua contribuição teórica, e quando ele enumera que «O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu de fio condutor aos meus estudos», percebe-se que está a falar da evolução dos modos de produção, sua dinâmica e contradições articuladas em torno da relação dialéctica entre as relações de produção e das forças produtivas. Em poucas frases, Marx passa em revista o arco da evolução humana: «A grandes traços podemos designar como outras tantas épocas de progresso, na formação económica da sociedade, o modo de produção asiático, o antigo, o feudal e o moderno burguês. As relações burguesas de produção são a última forma antagónica do processo social de produção (...)Com esta formação social se encerra, portanto, a pré-história da sociedade humana». Em nenhum lugar, ao contrário do que diz o IBRP, Marx invoca as recorrentes crises cíclicas, colisões periódicas entre as forças produtivas e as relações de produção, ou períodos de mudança na taxa de lucro; Marx está a trabalhar numa outra escala, na grande escala da evolução dos modos de produção, de épocas históricas. Neste excerto, como nos outros por nós citados, Marx define claramente duas fases na evolução histórica de um modo de produção: uma fase ascendente onde as relações sociais de produção permitem um maior desenvolvimento das forças produtivas, e uma fase decadente em que «De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações se convertem em obstáculos a elas». Marx deixa claro que esta mudança toma lugar num preciso momento – «num certo nível do seu desenvolvimento» e não fala de «colisões recorrentes» como na errada interpretação do IBRP. Mais ainda, em várias ocasiões n’O Capital, Marx usa fórmulas idênticas às da Contribuição..; e quando refere o carácter historicamente limitado do capitalismo, ele fala de duas fases distintas na sua evolução: «a produção capitalista encontra no desenvolvimento das forças produtivas uma barreira que não tem nada a ver com a produção de riqueza em si; esta barreira peculiar testemunha as limitações e o carácter meramente histórico, transitório do modo de produção capitalista; testemunha que para a produção de riqueza , não é um modo absoluto, mas mais, num certo estádio tem conflitos com o seu desenvolvimento posterior» (O Capital, Livro III, Parte III, Capítulo 15, op.cit.), ou quando afirma que o capitalismo «demonstra que está a tornar-se senil e está datado» (op.cit.).


Podemos desculpar o IBRP por ter tido problemas na compreensão da Contribuição... – qualquer um pode errar. Mas quando os erros são repetidos, mesmo quando são provenientes de citações do que o IBRP classifica de sua Bíblia (O Capital), isto é mais do que um mero erro de acidente.


Em relação aos críticos parasíticos, eles gostam de longas dissecações sintácticas. Para o RIMC, «a ICC tem o problema de sublinhar a frase “assim começa”, sem dúvida para pôr o acento, como bons gradualistas que são, no carácter progressivo do movimento que acham com quem se identificam. Mas nós podíamos também sublinhar as palavras “revolução social” que significa o oposto, já que uma revolução é o derrube violento da ordem existente, por outras palavras, um corte significativo e qualitativo com a ordem das coisas e dos eventos» (RIMC, Dialéctica..., op.cit.). Mais uma vez, para quem sabe ler, Marx fala da abertura de “uma época de revolução social” (uma época é todo um período em que uma nova ordem é estabelecida) e defende que pode demorar algum tempo já que ele nos diz que «Ao mudar a base económica, revoluciona-se, mais ou menos rapidamente, toda a imensa superestrutura erigida sobre ela». Podemos assim dizer adeus às «súbitas, violentas, quase verticais quedas, e no fim um novo sistema social surge», a frase de Bordiga repetida pelo RIMC! Ao contrário desta última, Marx não confunde a “mudança nas fundações económicas” e a revolução política. A primeira lentamente desenvolve-se na sociedade antiga; a segunda é mais breve, mais circunstanciada no tempo, apesar de poder estender o seu tempo já que o derrube do poder político de uma classe dominante antiga por uma nova classe dominante só se dá depois de várias tentativas abortadas, que podem incluir restaurações temporárias depois de vitórias efémeras.


O significado político destas críticas


No que aos grupos parasíticos diz respeito, a sua função é a de nublar a claridade política, de colocar Marx contra a esquerda comunista e assim criar uma barreira entre novos elementos e os grupos revolucionários. Para estes as coisas são claras. Nós só temos de mostrar como é central a teoria de decadência em Marx e Engels para aniquilar todos as suas afirmações de que «é uma teoria que se desvia totalmente de um programa comunista (...) esse método de análise não tem nada a ver com a teoria comunista (...) do ponto de vista do materialismo histórico o conceito de decadência não tem coerência. Não faz parte do arsenal teórico do programa comunista. Assim tem que ser rejeitado em absoluto (...). Sem dúvida que a ICC irá usar esta citação para confrontar com uma outra da carta a Vera Zassulitch, já que nesta a palavra “decadência” aparece duas vezes, o que é raro em Marx, para quem o termo não tinha valor científico» (RIMC, “Dialéctica...”, op.cit.). Essas asserções são completamente absurdas. Motivadas por uma preocupação anti-ICC, a única coisa que estas alegações têm em comum é excluir o conceito de decadência da obra de Marx e Engels. Assim, para o grupo Aufheben[22], «a teoria da decadência do capitalismo apareceu pela primeira vez na II Internacional», ao passo que o RIMC (Dialéctica...) esta teoria nasceu a seguir à Primeira Guerra Mundial: «o objectivo deste trabalho é fazer uma crítica definitiva e global do conceito de decadência que, como um dos seus maiores desvios nascidos no rescaldo da primeira guerra, envenena a teoria comunista por causa do seu carácter impeditivo de qualquer trabalho científico com o intuito de restaurar a teoria comunista». Finalmente, para Internationalist Perspectives (“Rumo a uma nova teoria da decadência do capitalismo”), foi Trotsky quem inventou o conceito: «o conceito de decadência do capitalismo apareceu na Terceira Internacional, onde foi desenvolvida particularmente por Trotsky...». Como perceber isto? Se há algo que deve ser óbvio para o leitor que leu para os extractos de Marx e Engels usados neste artigo, é que a noção de decadência tem as suas origens precisamente aí, no seu método materialista histórico. Não só esta noção está no âmago do materialismo histórico e é definida muito precisamente a um nível teórico e conceptual, mas também é usada como uma ferramenta operacional para o estudo concreto da evolução dos diversos modos de produção. E se tantas organizações dos trabalhadores desenvolveram a noção de decadência , como reconhecem os grupos parasíticos, isto é simplesmente porque a noção de decadência está no âmago do marxismo!
Os bordiguistas do PCI nunca aceitaram a análise da decadência da Esquerda Comunista Italiana no exílio entre 1928 e 1945[23], apesar de se reclamarem seus seguidores. O acto de nascimento do bordiguismo[24] em 1952 foi marcado pela rejeição do conceito; enquanto Battaglia Comunista[25] manteve as principais aquisições da esquerda italiana sobre esta questão, os elementos em redor de Bordiga moveram-se para longe dela quando fundaram o Parti Communiste Internationale. Apesar desta regressão teórica, o PCI manteve-se sempre no campo internacionalista da esquerda comunista. Sempre se encontrou enraizado no materialismo histórico e, de facto, apesar do seu nível de compreensão, sempre defendeu as linhas mestras da teoria da decadência! Para provar isso, só precisamos de citar as posições básicas que se encontram na contracapa das suas publicações: «as guerras mundiais imperialistas mostram que as crises da desintegração do capitalismo são inevitáveis graças ao facto de terem entrado no período em que a sua expansão não é mais historicamente possível, ou seja, assente no desenvolvimento das forças produtivas, mas amarra a sua acumulação a repetidas e crescentes destruições» (basicamente a ICC não diz nada de diferente!)[26]. Podemos citar um número de passagens dos seus textos onde a noção de decadência do capitalismo é reconhecida explícita ou implicitamente: «apesar de insistirmos na natureza cíclica e catástrofes do capitalismo mundial, isso em nenhum sentido afecta a definição geral do estádio actual, um estádio de decadência em que “as condições objectivas para a revolução proletária estão maduras, mas mais do que maduras”, como dizia Trotsky» (Programme Communiste nº81). E ainda assim hoje, no seu panfleto de crítica às nossas posições, tentam ao longo de várias páginas fazer uma (muito má) polémica contra o conceito de decadência, sem perceber que se estão a contradizer a si mesmos: «porque desde 1914 a revolução e só a revolução está em todo o lado e sempre na agenda, isto é, que as condições objectivas estão sempre presentes, torna impossível explicar a ausência desta revolução a não ser por factores subjectivos: o que falta para fazer a revolução é a consciência de classe do proletariado. Este é um eco deformado das posições falsas de Trotsky no final dos anos 30. Trotsky pensava também que as forças produtivas tinham chegado ao seu máximo possível de desenvolvimento no seio do regime capitalista e que consequentemente as condições objectivas para a revolução estavam maduras (e que começavam a estar “mais do que maduras”): o único obstáculo estava, por conseguinte, ao nível das condições subjectivas» (panfleto do PCI nº29). Os mistérios da invariância!
Como para Battaglia Communista, tem que ser dito, apesar das suas reclamações de continuadores das posições da Fracção Italiana da Esquerda Comunista Internacional[27], que está a voltar às suas raízes bordiguistas. Tendo rejeitado as posições de Bordiga em 1952 e tendo-se reapropriado de certas lições da esquerda italiana no exílio, hoje este abandono explícito da teoria da decadência, desenvolvida precisamente por esta Fracção[28], leva Battaglia Communista de encontro ao PCI. É um retorno às raízes, já que a plataforma fundadora de 1946 e a plataforma de 1952 têm a noção de decadência ausente. A vacuidade política destes dois documentos programáticos quando se trata de compreender o período histórico aberto pela Primeira Guerra Mundial foi sempre a matriz das fraquezas e oscilações de Battaglia Communista na defesa de posições de classe.
Finalmente, este exame permitiu-nos ver que os escritos dos fundadores do marxismo estão muito longe das diferentes versões do materialismo histórico defendidas pelos seus críticos. Estamos à espera que eles demonstrem, com a ajuda das obras de Marx e Engels, como nós fizemos neste artigo com o conceito de decadência, a validade da sua visão acerca da sucessão dos modos de produção! Entretanto, as suas pretensões grandiosas de serem grandes especialistas em marxismo faz-nos rir um pouco; conhecendo as obras de Marx e Engels, estamos certos de nunca perdermos o nosso sentido de humor.

Quando a bajulação toma o lugar das posições políticas

Página após página o IFICC[29] reivindica que está a lutar contra uma suposta degeneração da nossa organização, focando-se na nossa análise do balanço de forças de classe, a nossa orientação de intervenção na luta de classes, a nossa teoria da decomposição do capitalismo, a nossa atitude em relação ao reagrupamento dos revolucionários, o nosso funcionamento interno, etc. Argumentam que a ICC está na sua fase de agonia mortal e que é o IBRP que representa o pólo de clarificação e reagrupamento: «com a abertura do caminho rumo ao oportunismo, sectarismo e defensismo da ICC oficial, o IBRP é hoje o centro da dinâmica rumo à construção de um novo partido». Esta declaração de amor é também acompanhada por um alinhamento puro e simples às posições do IBRP: «estamos conscientes que as divergências que existem entre esta organização e nós mesmos, estão particularmente mais ao nível do método de análise do que ao nível das posições políticas» (Bulletin nº23). Com um toque de caneta, o IFICC, valente defensor da ortodoxia da plataforma da ICC, elimina todas as divergências políticas importantes entre a ICC e o IBRP. Mas há algo mais significativo. Numa altura quando algo que está no âmago da plataforma da ICC – a questão da decadência – tem vindo a ser posto em questão nos últimos dois anos pelo IBRP[30], e que tem sido sujeito a uma crítica desonesta por parte do PCI (Programme Communiste), o IFICC não encontra nada melhor do que ficar quieto e calado em todas as línguas e mesmo lamentar-se por nós defendermos o quadro analítico da decadência contra os desvios do PCI e do IBRP: «é assim que eles põem em causa o carácter proletário desta organização e do IBRP ao rejeitarem ambos para as margens do campo proletário (ver International Review nº115)» (apresentação do Bulletin nº22 do IFICC)!
Até agora, o IFICC conseguiu escrever quatro artigos sobre o tema da decadência do capitalismo (Bulletin nº19, 20, 22 e 24). Estes artigos são pomposamente intitulados “Debate dentro do campo proletário”, mas o leitor não encontrará a menor referência ao abandono do IBRP da teoria da decadência! Encontrará, contudo, as habituais diatribes contra a nossa organização dizendo, da forma mais ridícula, que somos nós que estamos a abandonar a teoria da decadência! Nem uma palavra sobre o IBRP que tem explicitamente colocado em causa a teoria da decadência e, por outro lado, ataques violentos sobre a ICC que tem defendido intransigentemente este conceito!
Quatro meses depois da publicação pelo IBRP de um novo e extenso artigo explicando porque tem posto em questão a teoria da decadência elaborada pelos comunistas de esquerda (Prometeo nº8, Dezembro de 2003), o IFICC, na apresentação do seu Bulletin nº24, em Abril de 2004, dedica uma única linha a aplaudir esta contribuição fundamental: «saudamos o trabalho dos camaradas do PCInt que mostraram a sua preocupação em clarificar essa questão. Sem dúvida que teremos ocasião para voltar a isto». O artigo do IBRP não é obviamente visto pelo que ele é – uma séria regressão ao nível programático – mas é visto como uma contribuição para o combate contra os nossos supostos desvios políticos: «a crise em que a ICC tem-se vindo a afundar cada vez mais tem levado os grupos do campo proletário a retornar à questão da decadência; isto expressa o seu envolvimento na combate contra os desvios oportunistas de um grupo do meio político proletário, a sua participação na luta para salvar do desastre do desvio oportunista dessa organização. Saudamos esse esforço...».
Quando a bajulação toma o lugar de uma linha política, já não se trata apenas de oportunismo. Para cobrir o seu comportamento como ladrões e informadores com um verniz político, o IFICC rapidamente descobriu as importantes diferenças com a ICC, notavelmente por se ter descartado das nossas análises da decomposição do capitalismo[31]. O IFICC tem vindo a eliminar o que é politicamente mais “impopular” entre os grupos do meio revolucionário de forma a aproximar-se deles e ser por eles reconhecido. Assim, dobra o joelho para aqueles que bajula. Mas parece que aqueles não engoliram o isco: «apesar de não excluirmos a possibilidade que indivíduos que tenham saído da ICC e juntar-se às nossas fileiras, é quase impossível para eles saírem de dentro como grupos ou fracções que, no debate com a nossa organização, cheguem todos em bloco a posições que convergem com as nossas (...). Tal resultado só poderia vir de um completo questionamento, ou então, um corte com as posições programáticas políticas e práticas gerais da ICC e não apenas por sua modificação ou melhoramento» (panfleto nº29 do ICP). Nós não colocaríamos melhor a questão! Tendo-se livrado da teoria da decomposição, o IFICC está pronto para reduzir todas as divergências entre a ICC e o IBRP a pequenas questões de “método de análise”; amanhã estarão certamente preparados para abandonar a teoria da decadência de forma a seduzir grupos hostis a estes dois conceitos, e assim continuar o seu trabalho sujo e abertamente desonesto de tentar isolar a ICC do resto dos grupos do campo político proletário.


C.Mcl.

1 Ver a série precedente de 8 artigos intitulados “Compreender a decadência do capitalismo” na International Review nº48, 49, 50, 54, 55, 56, 58 e 60.

2 Ver os nossos artigos na International Review nº77 e 78 acerca da rejeição da teoria da decadência e da guerra pelo Partido Comunista Internacional (Programa Comunista) [PCI/PC], e os artigos na International Review nº79, 82, 83 e 86 sobre o Bureau Internacional para o Partido Revolucionário [IBRP] e a guerra, a crise histórica do capitalismo e a globalização.

3 Ver na nossa revista International Review nº105 e 106, a resposta que demos a uma carta proveniente da Austrália e os números 111 e 112 em resposta a novos elementos revolucionários emergentes na Rússia.

4 Estritamente falando, desde o século XVI até às revoluções burguesas no contexto da decadência feudal, e desde as revoluções burguesas até 1914 no contexto da ascensão do capitalismo.

5 Manifestes, thèses et résolutions des quatre premiers congrès mondiaux de l’International Communiste 1919-23, Maspero, tradução nossa do francês, grifos da nossa autoria.

6 No artigo “A crise económica mostra a falência das relações sociais de produção capitalista” na revista International Review nº115, tivemos ocasião para mostrar que a recusa do IBRP e do PCI (Programa Comunista) se basearem neste quadro de análise, é sintomática do escorregar destas organizações para posições próximas do alter-mundialismo, portanto, longe da análise marxista da crise e da posição social da classe trabalhadora.

7 Para aqueles que gostam de colocar Marx contra Engels, talvez devessem notar no seguinte: “Eu devo dizer de passagem que na medida em que a perspectiva exposta neste livro foi fundada e desenvolvida em grande medida por Marx, e num grau muito insignificante apenas por mim. Ficou combinado entre nós que a minha exposição não seria publicada sem o seu conhecimento. Eu li-lhe todo o manuscrito antes de ter sido impresso e o décimo capítulo sobre a parte da economia (From Kritische Geschichte) foi escrito por Marx mas infelizmente teve de ser reduzido no seu tamanho meramente por razões externas”. (Prefácio de Engels à segunda edição, 23 de Setembro de 1885, Obras Completas, Vol.25, p.9).

8 Para uma crítica da concepção bordiguista da evolução histórica, ver o nosso artigo na revista International Review nº54, p.14-19.

9 “Dialéctica das forças produtivas e das relações de produção na teoria comunista” publicado na RIMC, escrita em conjunto por ‘Comunismo ou civilização” e ‘Comunismo a união proletária’ acessível em http://membres.lycos.fr/rgood/formprod.htm

10 http://users.skynet.be/ippi/4discus1tex.htm

11 Ver o interessante livro de Guy Bois, “A grande depressão medieval, séculos XIV e XV”, PUF.

12 Grundrisse, “Formas que precedem a produção capitalista”. http://www.marxists.org/archive/marx/works/1857/grundrisse/ch09.htm#iiie2

13 Apenas dando conta das análises de Marx e Engels mostrou-se suficiente para rechaçar as estupidezes ilimitadas de grupos parasíticos como ‘International Perspectives’, ‘Robin Goodfellow’ (ex-Comunismo ou Civilização e RIMC), etc. que sempre afirmaram o contrário dos fundadores do materialismo histórico e factos históricos inquestionáveis. Teremos a oportunidade de voltar em maior detalhe aos seus meandros sinuosos em futuros artigos porque, infelizmente, continuam a ter uma influência muito negativa em jovens elementos ainda não solidamente enraizados em posições marxistas.

14 Este tipo de modo de produção foi identificado por Marx na Ásia, mas não estava limitado a esta região geográfica. Historicamente, correspondeu a sociedades megalíticas e a egípcia, etc. indo até 4000 anos AC, como a culminação de um processo lento da divisão das sociedades em classes. A diferenciação social que se desenvolveu com a emergência de riqueza material excedente levou à criação de um poder político sob a forma de um estado real. A escravatura existia neste modo de produção, mesmo num nível considerável (criados, trabalhadores de grandes obras públicas, etc.), mas só raramente dominava no trabalho agrícola; não era a forma dominante de produção. Marx deu uma definição muito clara sobre isto n’O Capital: «os produtores directos não eram confrontados por um senhor das terras privado, mas antes, como na Ásia, sob a subordinação directa de um Estado que se coloca acima como máximo senhor das terras e, simultaneamente, como soberano, então a renda e os impostos coincidem, ou melhor, não existe nenhum imposto que difira da renda da terra. Sob essas circunstâncias, não existe maior pressão económica ou política que a comum sujeição ao Estado. O Estado é o senhor supremo. A soberania consiste então na posse da terra concentrada à escala nacional» (Volume III, “Génese da renda fundiária capitalista). Todas estas sociedades desapareceram entre 1000 e 500 AC. A sua decadência manifestou-se nas recorrentes revoltas camponesas, no desenvolvimento gigantesco dos gastos improdutivos do Estado e nas guerras incessantes entre estados tentando através da pilhagem encontrar uma solução para os bloqueios internos da produção. Os conflitos políticos intermináveis e as rivalidades intestinas no seio da casta dominante levaram os recursos da sociedade à exaustão, e os limites geográficos dos impérios mostraram o máximo nível de desenvolvimento compatível com as relações de produção a que podiam chegar.

15 Esses mesmos comentários desapontados, em ordem a limitar o significado desta frase do Manifesto, gostam de argumentar que este extracto não se refere ao processo geral de passagem de um modo de produção para outro, mas sobre as crises conjunturais de sobreprodução que abrem a possibilidade de um resultado revolucionário. Nada podia estar mais longe da verdade; o contexto do extracto não tem ambiguidades, aparecendo logo a seguir a Marx focar o processo de transição entre o feudalismo e o capitalismo. Para além disso, todo o argumento distorce os objectivos do Manifesto, que está inteiramente devotado a mostrar o carácter transitório dos modos de produção, incluindo o capitalismo; não pretendeu dar um exame detalhado do funcionamento do capitalismo e suas crises periódicas, como foi o caso d’O Capital, uns anos mais tarde.

16 Ou novamente, a teoria da decadência leva «toda a teoria comunista para o plano da ideologia e da utopia dado que a coloca fora de qualquer base material [na fase ascendente – Ed.]. A humanidade não coloca problemas que não consegue resolver praticamente. Nestas condições, porquê reclamar as posições de Marx e Engels? Teríamos de fazer o mesmo tipo de crítica que fizeram ao socialismo utópico. Assim, o socialismo científico não seria um corte com o socialismo utópico mas um novo episódio dentro deste último» (Robin Goodfellow, http://members.lycos.fr/resdint).

17 «Que papel tem então o conceito de decadência em termos de crítica militante da economia política, isto é, para um nível mais profundo de análise das características e dinâmica do capitalismo no tempo em que vivemos? Nenhuma. Na medida em que a palavra em si nunca aparece nos três volumes que constituem O Capital. Não é a partir do conceito de decadência que poderemos explicar os mecanismos da crise...» (“Comentários acerca da última crise da ICC”), International Communist nº21, p.23).

18 http://www.marxists.org/archive/marx/works/a894-c3/ch15.htm

19 «Finalmente, a propensão do capital para aumentar a produtividade, e dessa forma o desenvolvimento das forças produtivas, não decresce na fase da decadência(...). A existência do capitalismo na fase decadente, ligado à extracção de mais-valia extraída do capital vivo mas em face do facto que a massa de mais-valia tende a diminuir à medida que a produtividade do trabalho aumenta, força o aceleramento do desenvolvimento das forças produtivas numa ritmo frenético» (Perspectivas Internacionalistas, “Valor, decadência e tecnologia, 12 teses”, http//users.skynet.be/ippi/3thdecad.htm, nossa tradução)

20 http://www.marxists.org/archive/marx/works/1894-c3/ch51.htm

21 «As relações de dominação e de escravidão (...) constituem um fermento necessário para o desenvolvimento e declínio de todas as relações de propriedade e produção, tal como expressam a sua natureza limitada. Por tudo isso, elas reproduzem-se em capital – numa forma mediada – e constituem por sua vez para a sua dissolução e são um elemento para a sua natureza limitada» (Grundrisse, Editions Sociales, 1980 Tomo I, p.438, nossa tradução do francês). Mais tarde, Marx escreve: «de um ponto de vista ideal, a dissolução de uma dada forma de consciência deve ser suficiente para enterrar uma época inteira. De um ponto de vista real, este limite da consciência corresponde a um dado grau de desenvolvimento das forças produtivas materiais e da riqueza. Na realidade, o desenvolvimento não toma lugar na base antiga, mas é a própria base que se desenvolve. O máximo desenvolvimento da base em si mesma(...) é o ponto onde ela própria se elaborou até tomar a forma em que se torna compatível com o máximo desenvolvimento das forças produtivas, bem como do mais rico desenvolvimento do indivíduo. Uma vez atingido este nível, o desenvolvimento seguinte aparece como um declínio e um novo desenvolvimento começa sob uma nova base» (Grundrisse, Editions Sociales, 1980, Tomo II, p.33). Também, em 1857, nos Grundrisse, Marx fala, nestes termos, da evolução histórica dos modos de produção e da sua capacidade para se compreenderem e criticarem a si mesmos: «a chamada apresentação histórica do desenvolvimento é fundada, regra geral, no facto de a última forma ver as anteriores como passos que vão até si, e, desde que raramente e só sobre condições específicas que lhe permitam auto-criticar-se – deixando de lado os períodos históricos que lhe aparecem como tempos de decadência – só os concebe unilateralmente» (“O método da economia política”, http://www.marxists.org/archive/marx/works/1857/grundrisse/ch01.htm#3).

22 “Sobre a decadência: teoria do declínio ou declínio da teoria” é um texto do grupo britânico Aufheben.

23 Ver o nosso livro A Esquerda Comunista Italiana.

24 Ler as reflexões críticas de Bordiga sobre a teoria da decadência, escrita em 1951: “A doutrina do diabo no corpo”, republicado em Le proletaire (O Proletário) nº464 (o jornal do PCI em França); também “A ruína da praxis na teoria marxista” republicado em Programme Communiste nº56 (a revista teórica do PCI em França), bem como os procedimentos da reunião de Roma de 1951 publicados em Invariance nº4.

25 Battaglia Comunista, juntamente com a Communist Workers Organization (Organização dos Trabalhadores Comunistas) é uma das organizações fundadoras do IBRP.

26 Num panfleto recente, inteiramente devotado à crítica das nossas posições (Le Courant Communiste International [a ICC] a contre curant du marxisme et de la lutte de classe), o PCI, levado pela sua própria prosa, contradiz as suas próprias posições básicas quando afirma que «a ICC vê uma série de fenómenos como a necessidade de o capital se destruir periodicamente como uma condição para uma nova fase de acumulação (...) para a ICC estes fenómenos são supostamente novos e interpretados como manifestações da decadência (...) e não como expressões do desenvolvimento e fortalecimento do modo de produção capitalista» (p.8). O PCI devia dizer-nos sim ou não, como as suas posições básicas nos levam a indicar, que «as guerras mundiais imperialistas mostram que as crises da desintegração do capitalismo são inevitáveis graças ao facto de terem entrado no período em que a sua expansão não é mais historicamente possível, ou seja, assente no desenvolvimento das forças produtivas, mas amarra a sua acumulação a repetidas e crescentes destruições» ou então, como dizem no seu panfleto, se «a necessidade de o capital se destruir periodicamente» não são « como expressões do desenvolvimento e fortalecimento do modo de produção capitalista»! Aparentemente a invariância programática depende no que acontece dizer em cada momento!

27 «Em conclusão, enquanto os emigrantes políticos, aqueles que levaram a cabo todo o trabalho da Fracção de Esquerda, não tiveram a iniciativa de formar o Internationalist Communist Party [Partido Comunista Internacionalista] em 1943, o partido foi fundado nas bases que a Fracção defendeu de 1927 até à guerra» (introdução à plataforma política do ICP, publicações da Esquerda Comunista, 1946).

28 «As balizas históricas no capitalismo decadente. Desde o início da fase imperialista do capitalismo no início do presente século, a sua evolução tem oscilado entre a guerra imperialista e a revolução proletária. Na época do crescimento do capitalismo, as guerras abriram caminho para a expansão das forças produtivas através da destruição das obsoletas relações de produção. Na fase da decadência capitalista, as guerras não têm outra função senão levar a cabo a destruição de riqueza...» (Resolução sobre a constituição do Bureau Internacional de Fracções da Esquerda Comunista, Octobre nº1, Fevereiro 1938); «a guerra de 1914-18 marcou o final da fase de expansão do regime do capitalismo(...). Na última fase do capitalismo, a fase do declínio, são as balizas fundamentais da luta de classes que determinam a evolução histórica» (Manifesto do Bureau Internacional de Fracções da Esquerda Comunista, Octobre nº3, Abril de 1938).

29 Uma autoproclamada “Fracção Interna” da nossa organização que juntou alguns ex-membros que tiveram de ser expulsos porque se comportaram como informadores (tendo previamente roubado dinheiro e material, para além de terem atacado a nossa organização). Ver o artigo “Os métodos de tipo policial do IFICC” no nosso site.

30 Respondemos logo em Outubro de 2002 ao aparecimento das primeiras indicações de que o IBRP estava a abandonar a noção de decadência (cf. International Review nº111). Um ano mais tarde fizemos uma crítica substancial em International Review nº115.

31 Estes elementos compartilhavam a análise da decomposição quando eram membros da ICC (ver o nosso artigo: “Compreender a decomposição do capitalismo” em International Review nº117).