O combate dos revolucionários diante da derrota da onda revolucionaria de 1917-23

Versão de impressãoSend by email

História do comunismo: Entender a derrota e preservar a visão do futuro

(A partir do artigo O comunismo: a entrada da humanidade em sua verdadeira história (IV), da Revista Internacional n° 126)

Na primeira parte
deste resumo do segundo volume (ver Revista Internacional nº 125)
analisamos como um programa comunista se enriqueceu com o enorme avanço
realizado pelo proletariado no seu crescimento revolucionário provocado pela Primeira
Guerra mundial.

Nesta
segunda parte veremos o combate que levaram os revolucionários para compreender
o retrocesso e a posterior derrota desta onda revolucionária, e como esse
combate também nos legou lições de importância inestimável para as futuras
revoluções.

1918:
A revolução critica seus erros
(Revista
Internacional
nº99.) 

Como assinalou Rosa Luxemburgo, a revolução
russa foi "a primeira experiência da ditadura do proletariado na história
mundial" (
A
revolução russa
),
se deve deduzir que qualquer revolução futura deverá tomar em conta esta
primeira experiência e as lições que ela proporcionou.Visto que o movimento
operário não tem o menor interesse em evitar a realidade dos acontecimentos, o
esforço para entender essas lições deverá abraçar o conjunto do movimento
revolucionário desde o seu início, para assimilar completamente o legado
deixado pela revolução, que foi o resultado de anos de experiências penosas e
de reflexões não menos caras.

O folheto de Rosa Luxemburg, A Revolução russa, foi escrito no cárcere em 1918,
e constitui um autentico exemplo de como fazer a crítica dos erros da
revolução, posto que o primeiro que faz é manifestar sua completa solidariedade
com o poder dos soviets e o Partido bolcheviques e deduz que as dificuldades a que
estes enfrentaram resultaram, antes de tudo, do isolamento do baluarte
revolucionário russo. Concluí assim que só a intervenção do proletariado
mundial – e especialmente do proletariado alemão – ao executar a sentença
histórica do capitalismo e acabar com ele, permitiria superar essas
dificuldades.

A partir daí. Rosa Luxemburgo ressalta três
críticas aos bolcheviques:

* Sobre a questão
agrária.
Embora
Rosa reconhecesse que a consigna dos bolcheviques, “a terra para os
camponeses", estivesse plenamente justificada desde um ponto de vista
tático para ganhar a simpatia das massas camponesas para a revolução, via
também que atuando assim os bolcheviques estavam criando um problema a mais ao
estabelecer formalmente a divisão da propriedade agrária. Rosa tinha razão ao
afirmar que esse processo conduziria a formação de uma camada conservadora de
camponeses proprietários, porém a
verdade é que tão pouco a coletivização da terra houvesse colocado, por si
mesma, garantia algum avanço ao socialismo, se a revolução continuasse isolada

*Sobre a questão
nacional.
A
validade das críticas de Luxemburgo à consigna da "autodeterminação das
nações" (críticas que também surgiam nas fileiras bolcheviques, como foi o
caso de Piatakov), foi completamente confirmada pelos acontecimentos.
Efetivamente a "auto determinação das nações" só podia significar a
"autodeterminação" para a burguesia. E por isso na época já do
imperialismo e das revoluções proletárias, os países (ou seja as burguesias)
aos quais o poder soviético concedeu a "independência", caíram na
realidade subordinados às grandes potências imperialistas em seu combate contra
a revolução russa. É verdade que o proletariado não podia ignorar os
sentimentos nacionais dos proletários das "nações oprimidas", porém
para ganha-los para a causa da revolução haveria de apelar por seus interesses
comuns de classe, e não às suas ilusões nacionalistas.

*Sobre a
"democracia" e a "ditadura".
A posição de Rosa, a esse aspecto, era muito
contraditória. Por um lado julgava que a supressão da Assembléia constituinte
pelos bolcheviques havia produzido um efeito negativo sobre a revolução. Aqui
Luxemburgo parece mostrar uma estranha nostalgia pelas formas já superadas da
democracia burguesa. Entretanto poucos meses mais tarde, na redação do programa
da Liga espartaquista, reivindica a substituição das caducas assembléias
parlamentares pelos congressos de conselhos operários. Isso demonstra que,
sobre essa questão, Rosa evoluiu muito rapidamente. Em qualquer caso, estão
plenamente justificadas suas críticas a tendência dos bolcheviques em suprimir
a liberdade de expressão no seio do movimento proletário, pois as medidas que
estes tomaram contra outros partidos e agrupamentos proletários, assim como a
transformação dos soviets em meros cartórios de registro do Partido-Estado
bolcheviques, tiveram um efeito altamente negativo para a sobrevivência e a
integridade da ditadura do proletariado.

Porém também na mesma Rússia, e também desde
1918, começaram a surgir reações contra o progressivo descarrilamento do
partido. O principal foco dessa resposta (pelo menos no seio da corrente
revolucionária marxista) foi a tendência da Esquerda comunista que existia
dentro do próprio Partido bolcheviques. A essa tendência se conhece,
especialmente, por sua oposição ao tratado de paz de Brest-Litovsk, dele se
temia que significasse a perda não só de importantes territórios, como também
sobre tudo, dos princípios mesmo da revolução. No que é relativo aos princípios
temos que dizer que não há qualquer comparação possível entre este tratado e o
que, quatro anos depois, se firmou em Rapallo. O primeiro se expôs abertamente
sem ocultar suas graves conseqüências, enquanto o segundo se pactuou
secretamente e significou, de fato, uma aliança entre o imperialismo alemão e o
Estado soviético. Também é verdade que a posição defendida por Bukarin y outros
comunistas de esquerda a favor de uma "guerra revolucionária" se
baseava como mais tarde demonstrou
Bilan,
em uma grave confusão: a crença na possibilidade de estender a revolução
mediante ações militares, quando, na realidade , a única forma de ganhar para a
sua causa o restante dos trabalhadores do mundo era através de meios
essencialmente políticos (como a formação da Internacional comunista em 1919).

Entretanto, os primeiros debates entre Lênin
e as Esquerdas sobre a questão do capitalismo de estado permitiram tirar liçoes
mais proveitosas da revolução. Se Lênin defendeu a aceitação dos termos da paz
impostos pela Alemanha em Brest-Litovsky, pois era necessário que o poder dos
soviets possa dispor de "um espaço vital" que fizesse possível
reconstruir um mínimo de vida social e econômica.

Os desacordos se centravam em duas questões:

  • Os métodos empregados para conseguir tal
    objetivo. Lênin, muito preocupado por desenvolver a produtividade e a eficácia,
    para poder compensar o enorme atraso da Rússia, postulava medidas radicais com
    a aplicação do taylorismo e o restabelecimento da direção unipessoal nas
    fábricas. A esquerda insistia que tais medidas colocavam em perigo a possibilidade
    de que o proletariado pudesse assumir sua própria educação e sua própria
    atividade. Também houve calorosos debates acerca de até que ponto os princípios
    da Comuna eram aplicáveis ao Exército Vermelho.
  • O perigo do capitalismo de Estado. Para Lênin, considerando o estado de fragmentação quase medieval em
    que sem encontrava a economia russa, o capitalismo de estado constituía um
    passo adiante. E nisto era coerente com as suas análises de que as medidas de
    capitalismo de estado que os países mais adiantados haviam adotado durante a
    guerra, constituíam de certo modo, uma preparação para a transformação
    socialista. Em troca as Esquerdas, viam no capitalismo de estado uma ameaça
    iminente contra o poder dos soviets, e alertavam para o risco que o partido se
    enredasse nos mecanismos de controle do Estado burocrático e que, finalmente,
    se colocaria em oposição aos interesses do proletariado.

É verdade que essas críticas das Esquerdas
ao capitalismo de estado, ainda muito embrionárias, não estavam isentas de confusões,
como por exemplo: crer que a principal ameaça vinha da pequena burguesia e não
ver que a própria burocracia estatal poderia desempenhar, por si mesma, o papel
de uma nova burguesia. Mantinham, igualmente, ilusões nas possibilidades de uma
autentica transformação socialista dentro das fronteiras da Rússia. Porém
Lênin, se equivocava ao não ver que o capitalismo de estado era a antítese do
comunismo. As advertências lançadas pela Esquerda contra os riscos do
desenvolvimento do capitalismo de estado na Rússia demonstraram ser verdadeiras
e premonitórias.

1921:
O proletariado e o Estado de transição
(Revista
Internacional
nº 100)

Apesar das importantes diferenças que
existiam no seio do Partido Bolcheviques a propósito da direção tomada pela
revolução e mais ainda sobre a orientação que tomava o Estado soviético, a
ameaça iminente da contra-revolução fez que esses desacordos tornassem, de
alguma forma, contidos. O mesmo cabe dizer das tensões que vivia na sociedade
russa em geral. Trabalhadores e camponeses sofreram terríveis condições de vida
durante a guerra civil, porém a prioridade da luta contra os Brancos (reação
internacional ligada contra a revolução proletária, aos Vermelhos) relegou a um
segundo plano os conflitos daqueles contra o recém criado aparato de estado.
Porém depois da vitória na guerra civil se apresentaram abertamente. Além
disso, o isolamento da revolução, que se acentuou ainda mais após uma série de
derrotas cruciais do proletariado na Europa, colocou mais em evidência esses
conflitos e os converteu na contradição central do regime de transição.

No seio do Partido Bolcheviques, esses
problemas de fundo foram abordados através do debate sobre a questão sindical,
que ocupou um lugar proeminente nas secções do Xº. Congresso do Partido (março
de 1921). Nesse debate se confrontaram, essencialmente, três posições
distintas, se bem temos de dizer que dentro delas se manifestavam também
diferenças e matizes:

* A posição de Trotsky. Tendo conduzido o
Exército Vermelho à vitória sobre os Brancos (embora muitas vezes de maneira
inesperada), Trotsky tinha se convertido em um ardoroso partidário dos métodos
militares e desejava que elas fossem aplicadas em todos os âmbitos da vida
social e, sobretudo à esfera do trabalho. Trotsky pensava que não podia existir
conflito de interesses entre o proletariado e as necessidades do dito estado já
que quem aplicava tais mecanismos era um estado "proletário". Chegou
inclusive a teorizar a hipótese do seu suposto caráter historicamente
progressista do trabalho forçado. Ao mesmo tempo, Trotsky defendeu que os
sindicatos deviam atuar, pura e simplesmente como órgãos da disciplina do
trabalho em nome do estado proletário. Ao mesmo tempo, começou a desenvolver
uma justificativa teórica explicita da noção da ditadura do partido comunista e
do terror vermelho.

*A posição da Oposição Operária reunida em
torno de A. Kollontai, Shliapnikoy e outros. Para Kollontai, o Estado Soviético
tinha um caráter bem mais heterogêneo e era extremamente vulnerável à
influência de forças não proletárias tais como o campesinato ou a burocracia. O
que eles propugnavam era que os órgãos específicos da classe operária, que para
a Oposição Operária eram os sindicatos, se encarregassem da atividade criativa
de reconstrução da economia russa. Postulavam que através dos sindicatos
industriais, a classe operária poderia manter o controle da produção e
empreender um decisivo avanço até o socialismo. Embora esta corrente tenha
representado uma sincera reação proletária contra a crescente burocratização do
estado dos soviets, também era vítima de importantes equívocos como, por
exemplo, suas alegações em favor dos sindicatos industriais como melhor forma
de expressão dos interesses do proletariado. Essa idéia suponha uma regressão a
respeito da compreensão de que os verdadeiros instrumentos proletários para
fazer-se direção não só da vida econômica, como também da política, eram os
conselhos operários surgidos na nova época revolucionária. Igualmente, as
ilusões da Oposição Operária sobre a possibilidade de construir as novas
relações comunistas na Rússia, expressavam uma profunda subestimação dos
estragos do isolamento da revolução nesse momento, 1921, que já era
praticamente completo.

* A posição de Lênin que se opôs firmemente aos excessos de Trotsky nesse
debate, e criticou o sofisma de que já que o estado era um estado
"proletário" não poderiam existir divergências de interesses
imediatos entre este e o proletariado. De fato Lênin afirmou em um momento
dado, que o Estado dos Soviets era em realidade um estado "operário e
camponês", porém que, em qualquer caso, se tratava de um Estado
profundamente marcado por deformações burocráticas e que por tanto em uma
situação assim, a classe operária devia defender seus interesses materiais
inclusive contra o próprio Estado se fosse necessário. Por tanto os sindicatos
não poderiam ser relegados a meros instrumentos da disciplina do trabalho,
senão que deviam atuar como órgãos de autodefesa dos trabalhadores. Lênin
rechaçou igualmente a posição da Oposição Operária ao considerá-la uma
concessão ao anarco-sindicalismo.

Com a vantagem que hoje há distância dos
acontecimentos, podemos assinalar que as premissas mesmas desse debate se
manifestavam muitas debilidades. Em primeiro lugar, o fato de que os sindicatos
tenham aparecido como os órgãos mais apropriados para impor a disciplina do
trabalho não é uma casualidade, e sim que sua trajetória era ditada pelas novas
condições do capitalismo decadente. Não podiam ser os sindicatos, senão os
organismos criados pela classe operária em resposta e essas novas condições –
quer dizer os comitês de fábrica, os Conselhos Operários, – os que haviam de
encarregar-se da defesa da autonomia operária. Por outra parte todas as
posições que se confrontaram nesse debate compartiam, em maior ou menor medida,
a idéia de que a ditadura do proletariado devia ser exercida pelo partido
comunista.

Este debate representava, isso sim, um
intento de compreensão, dentro de uma situação marcada por uma grande confusão,
dos problemas que surgem quando o poder de um Estado criado pela revolução
começa a escapar das mãos do proletariado e se voltar na realidade contra os
interesses destes. Este problema adquiriu dimensões dramáticas quando, após uma
série de greves em Petrogrado, desembocou no levante de Cronstadt no mesmo
momento em que se celebrava o Xº Congresso.

A direção bolcheviques denunciou em um
primeiro momento, que este levante era uma nova conspiração dos Guardas
Brancos. Mais tarde insistiu muito mais no seu caráter pequeno burguês, porém
sempre justificou o esmagamento da revolta assinalando que se esta triunfasse
abriria as portas tanto geográficas como políticas para a erupção da
contra-revolução. Entretanto, Lênin particularmente, se viu obrigado a
reconhecer que a revolta era um aviso de que os métodos de trabalho forçado,
instaurados na etapa do comunismo de guerra não poderiam continuar sendo
mantidos, e que, pelo contrário a situação exigia uma espécie de
"normalidade" de ralações sociais capitalistas. Porém em momento se pôs
em questão que só a dominação exclusiva por parte do Partido Bolcheviques
poderia garantir a defesa do poder do proletariado na Rússia. Esta posição era
compartida por muitos comunistas de esquerda. Por exemplo, os membros dos
grupos de oposição presentes no Xº. Congresso foram os primeiros em
apresentar-se voluntariamente para participar no assalto a guarnição de
Cronstadt. Nem sequer o KAPD na Alemanha apoiou aos rebeldes, inclusive Victor
Serge defendeu, com muita do no coração, que o esmagamento da revolta era um
mal menor comparado com a queda dos Bolcheviques e a submissão a uma nova
tirania dos Brancos.

Ouviram-se, entretanto, muitas vozes do
campo revolucionário se elevaram contra a repressão de Cronstadt. Os
anarquistas que já haviam criticado acertadamente os excessos da Checa e as
supressões de organizações do proletariado se opuseram evidentemente a isso.
Porém o anarquismo não tem muito para contribuir com lições desta importante
experiência visto que, segundo ele, a resposta dos bolcheviques à revolta estava
inscrita, desde as suas origens, na natureza mesma de todo partido marxista.

Tem de ser dito que em Cronstadt mesmo,
muitos bolcheviques participaram da revolta invocando os ideais iniciais de
outubro de 1917: para o poder dos soviets e para a revolução mundial. O
comunista de esquerda, Miasnikov, se negou a somar-se aos que participaram no
assalto contra a guarnição de Cronstadt pois previa os resultados catastróficos
que produziria o esmagamento de uma rebelião operária por parte de um Estado "proletário".
Nessa época, isso era so intuições. Tiveram de esperar os anos de 1930, quando
o trabalho da Esquerda comunista italiana permitiu tirar mais claramente as
lições. Reconhecendo o caráter proletário da revolta de Cronstadt, rechaçou,
por uma questão de princípios, o emprego da violência entre os proletários. A
Esquerda italiana compreendeu também que a classe operária deve continuar
conservando os meios para defender-se diante do Estado de transição, dado que
este, por sua própria natureza, é propenso a ser o ponto de concentração das
forças da contra-revolução. Viu também que o partido comunista não podia
implicar-se no aparato do estado, que devia manter-se independente dele. Com
esta análise que colocava os princípios acima das contingências imediatas, pôde
afirmar que teria mais valia perder Cronstadt que manter-se no poder e solapar
os objetivos fundamentais da revolução.

Em 1921 o partido enfrentou um dilema
histórico: ou conservar o poder e converter-se em um agente da contra
revolução, ou bem entrar em oposição e militar nas filas da classe operária. Na
realidade, a fusão entre o partido e o estado já estava tão avançada que o
conjunto do partido podia dificilmente reivindicar esta segunda opção. Havia
chegado pois o momento do desenvolvimento do trabalho das frações de esquerda
para, atuando tanto dentro como fora do partido, opor-se a sua inclinação
degenerativa. O fato de que o Xº. Congresso do partido proibira as frações fez
que estas se viram cada vez mais obrigadas a trabalhar fora do partido e
definitivamente, contra ele.

1922-23: As
frações comunistas contra o auge da contra revolução
(Revista
Internacional
nº.101)

As concessões ao campesinato – que Lênin via
como uma necessidade inexorável que o levantamento de Cronstadt havia colocado
a luz – permaneceram acolhidas na Nova política econômica (NEP). A esta NEP se
considerou como um retrocesso momentâneo que permitiria ao poder soviético
devastado pela guerra poder reconstruir uma economia arrasada e poder dar
prosseguimento mantendo-se como estandarte da revolução mundial. Porém na
prática o esforço para superar o isolamento do estado soviético conduziu a
concessões cada vez maiores sobre os princípios da revolução. Não nos referimos
com isso ao comércio com potências capitalistas, que em si mesmo não supõe
nenhum atentado a esses princípios, porém ao estabelecimento de alianças
militares secretas como a estabelecida com a Alemanha no tratado de Rapallo.
Essas alianças militares tinham seu corolário em alianças políticas
"contra natureza" com forças como a social-democracia a qual, poucos
anos antes, era denunciada como ala esquerda da burguesia. Esta foi a política
de "Frente Única" adotada pelo IIIº.Congresso da Internacional
Comunista.

Na própria Rússia, Lênin que em 1918
afirmava que o capitalismo de estado constituía um passo adiante para um país
tão atrasado, continuou afirmando em 1922, que esse capitalismo de estado
poderia ser útil ao proletariado, sempre e quando estivesse regido por o
"Estado Proletário", o que cada vez mais equivalia dizer pelo partido
do proletariado. Entretanto, o próprio Lênin teve que admitir que, em vez de o
proletariado e partido do proletariado dirigir o estado herdado da revolução, o
que acontecia era muito ao contrário; era o estado que os dirigia cada dia
mais, não na perspectiva que queriam, mas para a restauração da burguesia.

Lênin se deu conta de que o próprio partido
comunista se encontrava profundamente afetado por esse processo de involução.
Começou por atribuir a origem do problema aos estratos inferiores de burocratas
sem preparação que haviam conseguido afluir ao partido. Porém já nos últimos
anos da sua vida, começou a tomar dolorosamente consciência de que essa
podridão alcançava os níveis mais elevados do partido:Como Trotsky o tinha evidenciado
o último combate de Lênin foi contra Stálin e contra o crescente stalinismo.
Porém, entranhado na engrenagem infernal do estado, Lênin se viu incapaz de
fazer propostas que não fossem puras medidas administrativas para conter o
avanço da maré burocrática. Se tivesse vivido alguns anos a mais,
provavelmente, haveria de acentuar mais ainda essa oposição, porém o certo é
que a luta contra uma contra-revolução ascendente devia passar já a outras
mãos.

Em 1923 estourou a primeira crise econômica
da NEP que necessitou reduções dos salários e supressões de empregos que
motivaram uma onda de greves espontâneas. Isto provocou, no seio do partido,
debates e conflitos que deram lugar a novos agrupamentos da oposição. A
primeira expressão aberta disto foi a "Plataforma dos 46" em que se
encontravam elementos próximos de Trotsky (este já muito afastado do poder pelo
triunvirato: Stálin, Kamenev e Zinoviev), assim como membros do grupo
Centralismo Democrático. Esta plataforma criticava a tendência a considerar a
NEP como se fosse a melhor via para o socialismo, e exigia, em troca, que a
prioridade fosse uma maior planificação centralizada. Alertava também, e isto
era o mais importante, da asfixia progressiva da vida interna do partido.

Essa plataforma, entretanto, quis manter as
distâncias com os grupos de oposição mais radicais. Destes o mais importante
era o Grupo Operário de Miasnikov, que tinha certa presença nos movimentos
grevistas que aconteceram nos centros industriais. Embora fosse etiquetado como
uma reação compreensível, porém "pessimista" frente ao progresso da
burocratização, o
Manifesto do Grupo Operário, foi, de fato uma expressão da seriedade e
do rigor da Esquerda Comunista russa, pois:

  • situava claramente a origem das
    dificuldades que afrontavam o regime dos soviets no isolamento deste, e no
    fracasso da extensão da revolução;
  • realizava uma crítica muito lúcida da
    política oportunista da Frente Única, -reafirmando a análise original sobre os
    partidos social-democratas como partidos do capitalismo;
  • alertava quanto ao perigo do surgimento de
    uma nova oligarquia capitalista e conclamava a revitalização dos soviets e
    comitês de fábrica;
  • ao mesmo tempo se mostrava sumamente
    prudente na hora de caracterizar o regime dos soviets e o Partido Bolcheviques.
    Diferente do que reivindicava, por exemplo, o grupo de Bogdnov ("Verdade
    Operária"), o Grupo Operário não pensava em absoluto que a revolução ou o
    partido bolchevique fossem burgueses desde a sua origem. Concebia-se a si mesmo
    como uma fração de esquerda que trabalhava tanto pó dentro como por fora do
    partido pela regeneração deste.

Os comunistas de esquerda foram pois a
vanguarda teórica da luta contra a contra-revolução na Rússia. O fato de que
Trotsky passara, em 1923, abertamente para a oposição teve grande importância
por conta do seu imenso prestígio como líder da insurreição de Outubro. Porém
se compararmos as posições intransigentes do Grupo Operário e a posição de
Trotsky diante do estalinismo, comprovaremos de que este esteve muito marcado
por uma atitude centrista e vacilante:

  • Trotsky perdeu várias oportunidades
    para levar a cabo um combate aberto contra o estalinismo, por conta de suas
    reticências em utilizar o famoso "Testamento" de Lênin para mostrar
    quem era Stálin e que havia de descartá-lo da direção do partido;
  • Tinha tendência á reclusão e ao
    mutismo e a não participar em muitos debates que tinham lugar no seio do órgão
    central do Partido Bolcheviques;

Esses erros resultam em parte, de traços de
personalidade. Trotsky não era um renomado conspirador como Stálin, não tinha a
desmesurada ânsia de poder deste. Mas havia motivações políticas mais
transcendentais que explicam por que Trotsky não pode levar até o final suas
críticas ao estalinismo e chegar assim ás mesmas conclusões as que chegaram a
Esquerda Comunista:

  • em primeiro lugar, Trotsky nunca
    entendeu que Stálin e a sua fração não eram uma tendência centrista equivocada,
    dentro do campo proletário, senão a ponta de lança da contra-revolução
    burguesa;
  • em segundo lugar, da própria trajetória pessoal de Trotsky, figura
    central do regime dos soviets, resultava a sua grande dificultade para
    distanciar-se do processo de degeneração. Trotsky e outros militantes da
    oposição estavam imbuídos de um "patriotismo de partido" que lhes
    impedia de aceitar plenamente que o partido se equivocava.

1924-28:
o triunfo do capitalismo de estado estalinista
(Revista
Internacional
nº102)

Em 1927 Trotsky aceitou a idéia de um
possível perigo de restauração da burguesia na Rússia através de uma espécie de
contra-revolução se desenvolvendo insidiosamente, sem necessidade de que o
regime bolchevique fosse formalmente derrubado. E ainda subestimava enormemente
a magnitude de já havia alcançado essa contra-revolução, já que:

  • Era muito difícil para ele dar-se conta e
    entender que ele mesmo havia contribuído, e muito, nesse processo de
    degeneração, através de políticas como as da militarização do trabalho ou a
    repressão de Cronsdat;
  • embora compreendendo que o problema com
    que se deparava a URSS era resultado do seu isolamento y do retrocesso da
    revolução mundial, Trotsky não mensurava o alcance da derrota que havia sofrido
    a classe operária e não soube reconhecer que a URSS começava a integrar-se no
    sistema imperialista mundial;
  • estava convencido que o "Thermidor"
    surgiria das forças que impulsionavam a volta da propriedade privada (os
    chamados "homens da NEP", os "Kulaks", e da ala direita
    encabeçada por Bukarin....). Definia o estalinismo como uma espécie de
    centrismo y não como a ponta de lança da contra-revolução capitalista de
    Estado.

As teorias econômicas da Oposição de
esquerda organizada em volta de Trotsky, constituíam além disso, um obstáculo
importante para a compreensão de que o mesmíssimo "Estado Soviético"
estava se convertendo em agente direto da contra-revolução sem necessidade de
retornariam as formas clássicas da propriedade "privada"
. Até o significado da declaração
de Stálin, proclamando o socialismo em um só país, passou despercebido até
depois de algum tempo, e nem assim compreendida em profundidade considerando o
que verdadeiramente significava. Com efeito Stálin, cheio de valentia pela
morte de Lênin e pelo estancamento evidente da revolução mundial, proclamou tal
aberração que representava uma clara ruptura com o internacionalismo proletário
e, em troca, um compromisso de fazer da Rússia uma potência imperialista. Tal
declaração se situava no sentido contrário da posição dos bolcheviques em 1917,
que viam que só no triunfo da revolução mundial poderia chegar ao socialismo.
Porém quanto mais implicados estavam os bolcheviques na gestão do Estado e da
economia Russa, mais desenvolviam teorias sobre o avanço até o socialismo que
supostamente poderia realizar-se inclusive nas condições de um país isolado e
atrasado. O debate sobre a NEP, por exemplo, se pôs em grande medida nesses
termos. E se a ala direita do partido defendia que poderia alcançar o
socialismo através das leis do mercado, a esquerda postulava, em troca, a
planificação e o desenvolvimento da indústria pesada. Preobrazhenky, que era o
principal teórico em matéria econômica da esquerda opositora, preconizava a
superação da lei do valor capitalista mediante o monopólio sobre o comércio
exterior e a acumulação no setor estatizado, o que chegou inclusive a batizar
como "acumulação socialista primitiva".

Esta teoria da acumulação socialista
primitiva identificava erroneamente o crescimento da indústria com os
interesses da classe operária e o socialismo.
O certo e que o crescimento industrial na Rússia só poderia fazer-se
acentuando a exploração da classe operária.
Em definitivo essa "acumulação socialista primitiva" era,
pura e simplesmente, acumulação de capital. Por isso mais tarde, a Esquerda
Comunista italiana, por exemplo, colocou-se em defesa contra qualquer crença de
que o desenvolvimento de uma indústria estatizada, constituiria uma medida de
avanço até o socialismo.

De fato quem tomou a iniciativa na luta
contra a teoria do socialismo em um só país foi, uma vez rachado o triunvirato
governante, o próprio setor "zinovievista". Isto estabeleceu a
formação em 1926, da Oposição Unificada que, em primeiro momento, incluía
também os Centristas Democráticos. Embora tivesse se manifestado formalmente de
acordo com a proibição das frações, esta nova oposição se viu cada vez mais
obrigada a desenvolver suas críticas ao regime nas organizações de base do
partido e inclusive diretamente entre os trabalhadores. Por isso ela teve que
enfrentar ameaças, insultos e difamações de todo tipo, a repressão y a
expulsão.
Apesar de tudo isso, não compreendia bem
ainda a natureza do que estava combatendo. Stálin se aproveitou do desejo
desses opositores de reconciliar-se com o partido para obrigar a si retirarem
de qualquer atividade considerada "fracional". Os
"zinovievistas" e alguns seguidores de Trotsky capitularam
imediatamente. De fato, quando Stálin anunciou em 1928, seu famoso "giro à
esquerda", que consistia em uma industrialização a marcha forçada, muitos
trotskistas, incluindo o próprio Preobrazhensky, acreditaram que finalmente
Stálin havia feito suas propostas.

Ao mesmo tempo, entretanto, alguns
elementos da oposição se viam influenciados cada vez mais pelos comunistas de
esquerda, que eram muito mais conscientes da realidade da contra-revolução. Os
Centralistas Democráticos, por exemplo, apesar de ainda não se iludirem sobre
as possibilidades de uma reforma radical do regime dos soviets, tinham mais
claro que a indústria estatizada não equivalia a socialismo, que a fusão do
partido e do estado conduzia a liquidação do partido e que a política exterior
do regime soviético estava cada vez mais contra os interesses
internacionalistas da classe operária. Após as expulsões massivas dos membros
da oposição em 1927, os comunistas de esquerda compreenderam que nem o regime
nem o partido podiam ser reformados. Os elementos que permaneciam no grupo de
Maisnikov desempenharam um papel chave nesse processo de radicalização. Mais
nos anos seguintes, foi essencialemente nas masmorras de Stálin que intensos
debates sobre a natureza do regime iam desenvolvendo.

1926-1936: O "enigma russo"
desentranhado
(Revista Internacional nº105)

Por conta da
magnitude da derrota na Rússia, o centro da gravidade dos esforços para
compreender a natureza do regime estalinista se deslocou para a Europa
ocidental. E posto que os partidos comunistas estivessem
"bolchevizados" – quer dizer, convertidos em instrumentos ao serviço
da política exterior russa-, uma série de grupos de oposição que surgiam deles
se viam rapidamente colocados em dissidência ou a expulsão.

Na Alemanha
esses grupos alcançaram, em ocasiões, milhares de membros, porém em seguida
esse número se viu reduzido rapidamente. O KAPD, que ainda seguia existindo,
desenvolveu uma intensa atividade diante desses agrupamentos. Um dos mais
conhecidos foi o grupo ao redor de Karl Korsch. A Correspondência mantida entre
este e Bordiga em 1926 coloca a luz os imensos problemas enfrentados pelos
revolucionários daquela época.

Uma das
características da Esquerda alemã – e um dos fatores que contribuíram para a
sua debilidade organizativa – era sua tendência a precipitar-se em tirar
conclusões sobre a natureza do novo sistema existente na Rússia. Mesmo chegando
a entender que se tratava de um regime capitalista se mostrou muitas vezes
incapaz de responder a questão chave: como é possível que um poder proletário
houvesse conseguido transformar-se no seu contrário? Muito frequentemente a
única resposta que alcançavam dar era de dizer que esse regime nunca tivera um
caráter proletário, que a revolução de Outubro não havia sido mais que uma
revolução burguesa, e que os bolcheviques não eram outra coisa que um partido
da "intelligentsia". A resposta de Bordiga era característica do
método mais paciente da Esquerda italiana. Bordiga, que se opunha a construção
precipitada de novas organizações sem uma base programática séria, preconizava,
em troca, a necessidade de um amplo e profundo debate sobre uma situação que
colocava numerosas e muito novas questões. Esse debate seria a única base
possível de um agrupamento revolucionário conseqüente. Ao mesmo tempo, Bordiga
se negava a capitular sobre a natureza proletária da revolução de Outubro, e
insistia em que a questão que o movimento revolucionário devia abordar era
compreender como um poder proletário isolado em um só país poderia sofrer um processo
de degeneração interna.

Após o triunfo
do nazismo na Alemanha, o centro dessas discussões se deslocou novamente, desta
vez para a França, onde alguns desses grupos de oposição se reuniram em uma
Conferência em Paris em 1933, com objetivo de discutir a natureza do regime
russo. A essa Conferência assistiram partidários "oficiais" de
Trotsky participaram tabém, mas a maioria dos grupos participantes se situava
mais à esquerda e, entre eles, estava a Esquerda italiana no exílio. Nessa
Conferência se expuseram numerosas teorias sobre a natureza do regime russo,
muitas delas extremamente contraditórias. Para alguns se tratava de um sistema
de classe de novo tipo ao que não deveria dar apoio. Outros reivindicavam que
era efetivamente um sistema de classes de novo tipo mas que havia de ser
defendido. Houve também quem defendeu que se tratava de um regime proletário
mas que não haveria de apoiar... Tudo isto põe manifestadamente em evidência as
imensas dificuldades que tinham os revolucionários para compreender
verdadeiramente o significado e a perspectiva dos acontecimentos na União
Soviética. Também pode ver-se tambem que a posição dos trotskistas
"ortodoxos" – segundo a qual a URSS continuava sendo, apesar da sua
degeneração, um Estado operário, o qual havia de defender contra o imperialismo
– era combatida desde os diferentes ângulos.

Essas posições
da Esquerda foram em grande parte a causa de que Trotsky escrevera em 1936, sua
famosa análise da revolução russa: A Revolução Traída.

Este livro é a
demonstração palpável de que apesar dos seus deslizes oportunistas, Trotsky
continuava sendo, todavia um marxista. Assim, por exemplo, fustigava de forma
eloqüente as mentiras de Stálin que apresentava a URSS como um paraíso dos
trabalhadores. Igualmente e baseando-se na tomada de posição de Lênin de que o
Estado de transição era "um estado burguês, porém sem a burguesia",
expões através de pontos de vista completamente válidos, a natureza desse
Estado, e os riscos que representava para o proletariado. Trotsky concluía
também que o velho Partido Bolchevique havia morrido e que não haveria
possibilidade de reformar a burocracia, e sim que deveria ser derrubada pela
força. Entretanto, esse livro é fundamentalmente incoerente: com argumentos
explícitos contra a visão de que a URSS era uma forma de capitalismo de estado,
Trotsky aferrava-se na tese de que a existência de formas de propriedade
nacionalizadas provava o caráter proletário do estado. E embora chegue a
admitir, teoricamente, que no período de declínio do capitalismo se manifesta
uma tendência ao capitalismo de estado, rechaça, entretanto a idéia de que a
burocracia estalinista possa ser uma nova classe dirigente por conta do fato
que nao tinha títulos de propriedades ou ações, e que não podia transmitir
propriedade alguma aos seus herdeiros. Quer dizer que em vez de ver a essência
do capital como uma relação social impessoal,
Trotsky o reduz a uma forma jurídica.

A idéia mesma de
que a URSS podia ser ainda um Estado operário expressava as profundas
incompreensões de Trotsky sobre a natureza da revolução proletária, embora
admitisse que a classe operária, como tal, estava completamente excluída do
poder político. A revolução proletária é em efeito a primeira na história que é
obra de uma classe sem propriedade alguma, de uma classe que não possui sua
própria forma de economia e que não pode alcançar sua emancipação senão
utilizando-se do poder político como alavanca para submeter às leis
"naturais" da economia ao controle consciente pelo homem.

O mais grave
entretanto, é que essa caracterização por parte de Trotsky da URSS como um
Estado "operário", obrigava os seus seguidores a converter-se em
apologistas do estalinismo em todo o mundo. Por exemplo, Trotsky assinalava que
o rápido crescimento industrial da Rússia sob Stálin demonstrava a
superioridade do socialismo sobre o capitalismo, quando na realidade tal
industrialização se fazia graças a uma exploração feroz da classe operária, e
constituía um aspecto essencial do desenvolvimento de uma economia de guerra na
preparação de uma nova repartição imperialista do planeta. Outro exemplo do que
dizemos foi o apoio sem restrições dos trotskistas à política exterior russa e
a sua defesa incondicional da URSS contra os ataques imperialistas, quando já o
próprio Estado russo estava se convertendo em protagonista ativo do cenário
imperialista mundial. Estas análises continham os germes da traição definitiva
desta corrente ao internacionalismo proletário durante a Segunda Guerra
Mundial.

No mencionado
livro de Trotsky se deixa entrever que a questão da natureza da URSS ainda não
havia sido resolvida definitivamente, e que, por conseguinte, haveria de
esperar que acontecimentos históricos decisivos, como a guerra mundial,
pudessem fazê-lo. Em seus últimos escritos, talvez consciente da inconsistência
da sua teoria do "Estado Operário", mas mantendo-se ainda reticente a
aceitar a natureza capitalista de Estado da URSS, Trotski começou a especular
com o fato de que se confirmasse que o estalinismo era uma forma de sociedade
de classe, nem capitalista, nem socialista, isso significaria que o marxismo
acabaria desacreditado. Trotsky morreu assassinado antes que pudesse pronunciar
sobre se o "enigma russo" havia finalmente sido elucidado pela
guerra. Mas, dos seus camaradas mais antigos, sós aqueles (nos referimos a
Stinas na Grécia, Munis na Espanha, e sua própria mulher, Natalia) que
descobriram os aportes da Esquerda comunista e caracterizaram a URSS como
capitalismo de estado, foram capazes de manterem-se leais ao internacionalismo
proletário, tanto, durante a Segunda Guerra mundial, como depois.

1933-46: O "enigma
russo" e a Esquerda comunista Italiana
(Revista internacional nº106)

A Esquerda
comunista teve suas expressões mais avançadas nas frações do proletariado
mundial nos países que, além da Rússia, haviam desafiado com maior força o
capitalismo durante a grande onda revolucionária mundial de 1917-1923, ou seja,
o proletariado alemão e o italiano. Por isso, as Esquerdas comunistas da
Alemanha e da Itália, foram a vanguarda teórica da Esquerda comunista em geral,
fora da Rússia.

A Esquerda alemã
foi, muitas vezes, a que mais longe chegou à compreensão da natureza do regime
surgido das cinzas da derrota na Rússia. Não só compreendeu que o sistema
estalinista era uma forma de capitalismo de estado, e também foi capaz de
elaborar de maneira perspicaz que o capitalismo de estado era uma tendência
universal do capitalismo em crise. E, entretanto, também muito frequentemente,
essas análises eram acompanhadas de uma tendência em renegar a revolução de
Outubro e a ver o bolchevismo como a ponta de lança da contra-revolução. Esta
visão foi acompanhada de uma tendência precipitada em abandonar a idéia mesma
de um partido proletário e a subestimar o papel da organização revolucionária.

A esquerda
italiana, ao contrario, dedicou mais tempo para chegar a uma compreensão clara
da natureza da URSS, porém sua atitude, mais paciente e mais e mais rigorosa,
se apoiava em premissas fundamentais:

  • reafirmar sua
    convicção de que em Outubro havia ocorrido uma revolução proletária;
  • posto que o
    capitalismo mundial fosse um sistema em declínio, a revolução burguesa já não
    estava mais na ordem do dia em nenhuma parte do mundo.
  • e, sobretudo,
    defesa intransigente do princípio do internacionalismo proletário, o que
    significava um rechaço cortante da noção de socialismo em um só país.

Porém, apesar da
firmeza destas premissas, a visão de que a Esquerda italiana tinha nos anos 30
sobre a natureza da URSS era, todavia muito contraditória. Aparentemente
coincidia com Trotsky em que a manutenção de formas nacionalizadas de
propriedade permitia falar de Estado proletário. Por outra parte, definia a
burocracia estalinista mais como uma casta parasitária que como uma classe
exploradora no pleno sentido do termo.

Entretanto, o
apurado internacionalismo da Esquerda italiana o destingia nitidamente dos
trotskistas cuja posição de defesa do Estado operário degenerado acabou
fazendo-os cair na armadilha de preparação da guerra imperialista. A publicação
teórica da Esquerda italiana (Bilan) começou a ser editada em 1933. Os
acontecimentos que foram se sucedendo nos anos seguintes (o ascensão de Hitler
ao poder, o apoio ao rearmamento francês, à adesão da URSS à Sociedade das
Nações, a guerra da Espanha), a convenceram que, ainda quando a URSS continuava
possuindo um Estado proletário, desempenhava, entretanto, um papel
contra-revolucionário em escala mundial. E, por conseguinte, o interesse
internacional da classe operária exigia que os revolucionários rechaçassem
qualquer solidariedade com o dito Estado.

Esta análise de Bilan
guardava uma estreita relação com seu reconhecimento de que a classe operária
tinha sofrido uma derrota histórica e que o mundo caminhava para uma nova
guerra imperialista. Bilan previu, com uma impressionante clarividência,
que a URSS acabaria inevitavelmente aliando-se a um dos campos que estavam se
formando para preparar o massacre. Rechaçou igualmente a análise de Trotsky
segundo qual, já que a URSS eram fundamentalmente hostis ao capital mundial, as
potências imperialistas mundiais se viriam forçadas a aliar-se contra ela.

Pelo contrário, Bilan,
demonstrou que apesar da sobrevivência de formas de propriedades
"coletivizadas", a classe operária sofreria na Rússia um nível
desapiedado de exploração, e que a industrialização acelerada batizada como
"construção do socialismo" não edificava na realidade mais que uma
economia de guerra que permitiria a URSS defender seus interesses na nova ordem
imperialista. A Esquerda italiana rechaçava totalmente louvores que Trotsky
dedicava a industrialização da URSS.

Bilan estava também consciente de que existia uma tendência crescente ao
capitalismo de estado nos países ocidentais, seja com a forma do fascismo ou
com a do "New Deal" democrático. Entretanto, Bilan vacilava
ainda em levar essas análises até o final, quer dizer: reconhecer que a
burocracia estalinista era de fato uma burguesia de estado. Inclinava-se mais
por apresentá-la como "agente do capital mundial" que como uma nova
representação da classe capitalista.

Não obstante os
argumentos a favor do "Estado proletário" caiam cada vez mais em
contradição com a evolução dos acontecimentos no cenário mundial. Por isso umas
minorias de camaradas dessa Fração da Esquerda comunista, começaram questionar
toda essa teoria. Não é casualidade que foram os ditos camaradas que estiveram
mais bem armados para resistir diante do desconcerto que a deflagração da
guerra provocou na Fração, em um primeiro momento. A expressão maior deste
desconcerto se concretizou na teoria revisionista da "economia de
guerra" que previa que a Guerra Mundial finalmente não seria deflagrada, o
que havia levado a Fração a um verdadeiro impasse.

Sempre se pensou
que a deflagração da guerra resolveria, em um ou outro sentido, a questão
russa. Os militantes mais claros da Esquerda italiana pensavam que a
participação da URSS em uma guerra imperialista de rapina constituiria a prova
definitiva. Os que primeiro expuseram uma argumentação mais coerente para
definir a URSS como imperialista e capitalista foram os militantes que faziam o
trabalho de Bilan da Fração na França da Esquerda comunista e, após a
guerra, a Esquerda comunista da França. Esta corrente integrou as melhores
análises da Esquerda alemã, sem por isso cair na desqualificação conselhista de
Outubro, podendo assim demonstrar porque o capitalismo de estado era a forma
essencial que adotava o sistema na sua etapa de declínio. Considerando a
Rússia, abandonaram os últimos resíduos de uma visão "jurídica" do
capitalismo, e reafirmaram a visão marxista que define o capitalismo como uma
relação social que pode ser administrada tanto por um estado centralizado, como
por um conglomerado de capitalistas privados. Esta corrente deduziu pois as
conclusões para obordar, desde um ponto de vista proletário, os problemas do
período de transição: o progresso em direção ao comunismo não pode medir-se
pelo crescimento do setor centralizado – na realidade este contém os maiores
perigos de uma volta ao capitalismo - senão pela tendência ao domínio do
trabalho vivo sobre o trabalho morto, pela substituição da produção de
mais-valia por uma produção orientada à satisfação das necessidades humanas.

CDW

Herança da Esquerda comunista: