A decomposição fase última da decadência do capitalismo

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A decadência do capitalismo, como o mundo a conhece desde o inicio do século, se revela desde já como o período mais trágico da história da humanidade.

Nunca a sociedade humana tinha conhecido massacres de amplitude como os das duas guerras mundiais. Nunca o progresso da ciência tinha sido utilizado em tal escala para provocar a destruição, os massacres e a desgraça dos homens. Nunca tal acumulação de riquezas havia costeado, nem havia provocado tanta fome e tanto sofrimento como esses que desencadearam nos países do terceiro mundo desde décadas. Mas parece que a humanidade ainda não tinha "atingido o fundo". A decadência do capitalismo significa a agonia desse sistema. Mas, essa agonia por si mesma tem uma história. Hoje nós atingimos a sua fase final, esta da decomposição geral da sociedade, essa de seu apodrecimento pela base.

Pois é o apodrecimento mesmo da sociedade que está acontecendo agora. Depois do fim da segunda guerra mundial, o capitalismo tinha conseguido repelir nos países subdesenvolvidos as manifestações mais bárbaras e sórdidas de sua decadência. Hoje, é no centro dos países mais avançados que essas manifestações de barbaridade se desenvolvem. Assim, os conflitos étnicos absurdos onde populações se massacram porque elas não têm a mesma religião ou a mesma língua, porque elas perpetuam tradições folclóricas diferentes, pareciam reservados, depois de décadas, para os países do "Terceiro mundo", da África, da índia ou do Oriente Médio.

Agora é na Iugoslávia, a centenas de quilômetros das metrópoles industriais da Itália do Norte e da Áustria, que se desencadeiam tais absurdos. E que não nos digam que os movimentos nacionalistas como os que se desenvolvem nesses países, mas também no antigo império russo, representam uma "reinvidicação Justa para a liberdade", para o estabelecimento de um Estado Nacional "progressista" liberto das correntes que antes travaram seu desenvolvimento.

No último século, certas lutas nacionais tinham eletivamente tal caráter progressista na medida em que elas estavam abrindo o caminho para a constituição de entidades territoriais viáveis permitindo superar o desmembramento e todos os entraves particulares deixados pelo regime feudal. Em particular foi o que aconteceu com os diferentes movimentos que permitiram a constituição de um Estado nacional na Alemanha e na Itália. Mas após o início desse século, com a entrada do capitalismo no seu período de decadência, as lutas "de independência nacional" têm perdido toda natureza "progressista", tomando-se antes de tudo, os "peões" do confronto entre as grandes potências, entre os blocos imperialistas. Hoje mesmo se certos movimentos nacionalistas que se desenvolvem nos "Balcãs" ou na Europa central são fomentadas secretamente para esta ou aquela potência, o conjunto desses movimentos revela "um absurdo ainda maior": Na hora em que a economia tem atingido um grau de generalização no mundo desconhecido na história, em que a burguesia dos países avançados tenta sem conseguir, se dar um quadro mais vasto que este da nação, como por exemplo, com a C.E.E., para gerar sua economia, o deslocamento dos Estados, que nos foram legados pela segunda guerra mundial, numa multidão de pequenos Estados é uma pura aberração, mesmo do ponto de vista dos interesses capitalistas. Quanto às populações dessas regiões, seu destino não será melhor, será pior ainda: desordem econômica muito maior, submissão aos demagogos chauvinistas e xenófobos, regulamento de contas e perseguições entre comunidades que tinham coabitado até agora, e sobretudo, divisão trágica entre os diferentes setores da classe operária. Ainda mais miséria, opressão, terror, destruição da solidariedade de classe entre os proletários em face aos seus exploradores: Eis o que significa o nacionalismo hoje. E a explosão deste, agora, é bem a prova que o capitalismo decadente passou uma nova etapa na crueldade e no apodrecimento.

Mas o desencadeamento da histeria nacionalista em certas partes da Europa não é a única manifestação, longe disso, desta decomposição que está ganhando os países avançados pela crueldade que o capitalismo tinha antes repelido em sua periferia.

A barbaria ganha o centro do capitalismo

Assim ontem, para fazer crer aos operários dos países mais desenvolvidos que eles não têm razão de se revoltar, as mídias iam às favelas de Bogotá ou sobre as calçadas de Manille para fazer reportagens sobre a criminalidade e a prostituição de crianças. Hoje é no país mais rico do mundo, em Nova York, Los Angeles, Washington, que as crianças de doze anos vendem seus corpos ou matam por algumas gramas de "crack". Nesses mesmos países, é agora por centenas de milhares que se contam os "sem- teto": A dois passos de Wall Street, templo das finanças mundiais, as massas de seres humanos estão dormindo em caixas de papelão sobre a calçada como em Calcutá (Índia). Ontem, a concussão e a prevaricação "institucionalizadas" apareciam como especialidade dos dirigentes do "terceiro mundo". Hoje, não passa um mês sem que se manifeste um escândalo revelando os costumes de vigaristas do conjunto do pessoal político dos países "avançados" : demissões repetidas dos membros do governo no Japão onde encontrar um político "apresentável" para lhe confiar um ministério torna-se uma "missão impossível"; participação importante da C.I.A. no tráfico de drogas; penetração da Máfia nos mais altos postos do Estado na Itália; auto-anistia dos deputados franceses para evitar a prisão que mereciam suas infâmias... Mesmo na Suíça, país legendário da transparência encontrou-se um ministro da polícia e da justiça compromissado num negócio de desculpa de dinheiro de drogas. A corrupção diária sempre fez parte das práticas da sociedade burguesa, mas ela está atingindo tal nível atualmente, ela está tão generalizada, que aqui também se deve constatar que a decadência dessa sociedade tem passado além de uma nova etapa na podridão.

De fato, é o conjunto da vida social que parece ter-se completamente desarranjado, que se afunda no absurdo, na lama e no desespero. É toda a sociedade humana que, sobre todos os continentes, de maneira crescente, transpira a barbaria por todos os seus poros. A fome se desenvolve nos países do terceiro mundo, e em breve atingirá os países que se dizem "socialistas", enquanto na Europa ocidental e na América do Norte se destroem os estoques de produtos agrícolas, se pagam os camponeses para cultivarem menos terra, e esses últimos são penalizados se produzem mais que as cotas impostas. Na América Latina, as epidemias, como a cólera, matam milhares de pessoas, enquanto se tenha afastado o "flagelo" depois de longo tempo. Em toda a parte no mundo, as inundações e os tremores de terra continuam matando dezenas de milhares de seres humanos a certas horas, enquanto a sociedade seja perfeitamente capaz de contrair diques e casas que podem evitar essas hecatombes. No mesmo instante não se pode mesmo invocar a "fatalidade" ou os "caprichos da natureza" quando em Chernobyl, em 1986, a explosão de uma central atômica matou centenas (senão milhares) de pessoas e contaminou várias províncias, quando nos países mais desenvolvidos se assiste às catástrofes mortais, mesmo no centro das grandes cidades: 60 mortos numa estação parisiense, mais de 100 mortos num incêndio do metrô de Londres, há pouco tempo. Do mesmo modo esse sistema se revela incapaz de fazer face à degradação do meio ambiente, as chuvas de ácido, as poluições de todas as ordens e notadamente a nuclear, o efeito estufa, a desertificação que põem em jogo a sobrevivência da espécie humana.

Ao mesmo tempo, se assiste a uma degradação irreversível da vida social; além da criminalidade e da violência urbana que não cessam de crescer em toda a parte, as drogas causam prejuízos cada dia mais assustadores, particularmente entre as gerações mais novas, prova de desespero, do isolamento e da atomização que invadem toda a sociedade.

O capitalismo no impasse só pode conduzir a destruição da humanidade

Se a sociedade está chegando a tal grau de podridão, se o desespero, está chegando a esse ponto, o sentimento dominante no seu seio, é mesmo porque o capitalismo hoje mais do que nunca, é incapaz de oferecer qualquer perspectiva de futuro à humanidade, a um nível bem mais alto ainda que no passado, está incapaz de oferecer a menor perspectiva para a humanidade. Depois de mais de 20 anos, esse sistema está abalado por uma crise aguda e insuperável de sua economia. Nos anos 30, a crise econômica tinha levado a guerra mundial. Essa não era uma "solução" para a crise, mas na medida em que a classe operária, que chegava a sofrer a mais terrível derrota de sua história, não estava em condições de atrapalhar os planos da burguesia, esta podia organizar simultaneamente a vida social, suas forças políticas e econômicas, em fim o massacre imperialista. Mas, hoje, tal possibilidade é proibida ao capitalismo. Desde que a crise começou a se manifestar, no final dos anos 60, ela imediatamente provocou uma gigantesca resposta da classe operária mundial: a greve de 9 milhões de operários em maio 1968 na França; o "Maio rompante" de 1969 na Itália; a revolta dos operários de Córdoba na Argentina, no mesmo ano, as greves em massa dos operários poloneses do Báltico durante o inverno de 1970/71 e bem outras lutas ainda de grande envergadura em diversos países, fato que prova que a classe operária tinha superado a contra-revolução, que ela estava doravante capaz, por seus combates e por suas recusas em aceitar as privações que a burguesia exige, de fechar o caminho para uma nova guerra mundial, na medida em que os operários que rejeitem os sacrifícios pela economia nacional estão ainda menos dispostos a fazer sacrifício supremo, este o de sua vida.

Mas se o proletariado tinha a força de impedir o desencadeamento de uma nova mortandade generalizada, ele ainda não tinha a força de avançar sua própria perspectiva: A derrubada do capitalismo e a edificação da sociedade comunista. Fazendo isso, ele não pôde impedir a decadência capitalista se fazer sentir diariamente mais seus efeitos sobre o conjunto da sociedade.

Nesse bloqueio momentâneo da situação mundial, a história não parou entretanto. Durante duas décadas, a sociedade continuou a sofrer a acumulação de todas as características da decadência exacerbadas pelo afundamento na crise econômica, embora quando, cada dia mais a classe dominante fazia a prova de sua incapacidade de superar esta crise. O único projeto que esta classe possa propor ao conjunto da sociedade é este de resistir ao dia a dia, vez por vez e sem esperar êxito, ao desmoronar-se irremediável do modo de produção capitalista.

Sem o menor projeto histórico capaz de mobilizar suas forças, mesmo o mais suicida como a guerra mundial, a sociedade capitalista não podia nada a não ser afundar-se na podridão, na decomposição social avançada, e no desespero generalizado.

E esse desespero só pode desenvolver-se enquanto o mundo atual demonstra cada dia um pouco mais, que não oferece nenhuma perspectiva ao conjunto da humanidade, senão esta de uma crueldade crescente com, finalmente, sua própria morte. Pois "não devemos ter ilusões"!

Se deixarmos o capitalismo dominar a sociedade ele terminará, mesmo na ausência de uma guerra mundial, por destruir a humanidade: através da acumulação das guerras locais, das epidemias, das degradações, do meio ambiente, da fome, e outras catástrofes que nos são apresentadas como "naturais".