Prefácio à edição de 1985

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Há um século, os operários já lutavam para impor à classe dominante o direito de existência de suas organizações sindicais.

Hoje, os governos da classe dominante tudo fazem para que os operários em luta não ultrapassem os sindicatos e não continuem a abandonar essas organizações.

Os sindicatos ainda são organizações que defendem os interesses da classe operária?

 O sindicalismo permite, na nossa época, impedir ou mesmo limitar o ataque permanente da burguesia às condições de existência dos trabalhadores?

Qual é o futuro da luta operária?
Como lutar?

São essas perguntas que este livreto, publicado pela primeira vez em 1974, quer responder. E as respostas estão, abaixo, resumidamente apresentadas.

Depois da primeira guerra mundial, os sindicatos tornaram-se parte do aparelho do Estado capitalista.

A forma sindicato corresponde ao capitalismo florescente, historicamente ascendente, da segunda metade do século XIX. Então, o capitalismo podia admitir reformas duráveis, em favor da classe operária. O proletariado se unia na luta por reformas (sindicalismo, parlamentarismo). Ao contrário, no capitalismo decadente dos últimos 70 anos (dos quais: 30 de crise econômica e 10 de guerra mundial, sem contar as guerras locais permanentes) o capital intensificou a exploração, a miséria, a barbárie, a alienação da vida até os seus últimos limites. O capitalismo não é mais capaz de conceder reformas, isto é, não é mais reformável.

 Para sobreviver e incapaz de resolver a crise econômica, o capitalismo impõe uma dominação cada vez mais totalitária: o estado tornou-se uma máquina gigantesca que absorve e controla toda a vida social. "Democrático", nos países industrializados do ocidente; "burocrático", nos países sob regime stalinista; "militar", na maioria dos países subdesenvolvidos, o capitalismo decadente é essencialmente um capitalismo de Estado.

Portanto, a eficácia de uma luta operária depende diretamente da capacidade de impor uma relação de forças suficiente ao Estado capitalista, da capacidade de assumir seu conteúdo político. Ou seja, da capacidade de afirmar de maneira intransigente seus próprios interesses de classe contra os do capital: a lógica exploradora do lucro.

Por isso, a dinâmica de extensão constitui a principal força de uma luta operária. Só o desenvolvimento do número e da unidade das forças proletárias no combate pode impor, ainda que momentaneamente, uma relação de forças que obrigue o Estado a recuar e questione a lógica absurda e bárbara do capital em crise.

A luta sindical separa o econômico do político e enquadra o proletariado no interior da opressão econômica capitalista, segmentando-o em setores, ramos e nações. Na nossa época é, pois, totalmente inadequada e nociva. O sindicalismo não fortalece mais a classe operária. Ele a divide e condena à derrota.

A perspectiva da luta operária é a de assumir cada vez mais um conteúdo anticapitalista, afirmando seu caráter de classe e assim sua unidade, destruindo todas as barreiras: corporativistas, setoriais, raciais, nacionais, sindicais.

Por isso, a classe operária tem de desconfiar das organizações sindicais, por mais "radical" que seja o discurso que as apóia. É o conjunto dos trabalhadores em luta que deve organizar e dirigir seu combate.

Intransigência na defesa de seus interesses de classe, extensão da luta e auto-organização são as armas principais de toda luta operária conseqüente no capitalismo decadente.

O futuro da luta operária é o confronto cada vez mais global e generalizado contra todos os defensores da ordem estabelecida. Confronto que terminará formulando claramente a alternativa fundamental: barbárie capitalista ou revolução comunista mundial.

° ° °

Este é, em resumo, o conteúdo deste livreto. Depois de 1974, data de sua primeira publicação, estas análises se confirmariam. O fim dos anos 70 e o começo dos anos 80 não as desmentiram.

Na realidade, esses anos e, particularmente os anos 80 - "os anos da verdade" - desnudaram as contradições profundas que se produziram, durante mais de meio século de decadência, no sistema capitalista.

O agravamento e a generalização da crise econômica capitalista exacerbaram o antagonismo entre as duas classes principais da sociedade: o proletariado e a burguesia.  A crise se torna cada vez mais evidente o antagonismo irreconciliável entre a lógica da economia capitalista e as necessidades das massas operárias e da humanidade.

Todos os elementos dessa hedionda realidade, as tendências essenciais do capitalismo decadente e da luta de classes que fundamentam nossas análises se confirmaram plenamente.

Nos anos 80, aparece cada vez mais claramente, desde que se encare a realidade:

  • a integração dos sindicatos no Estado capitalista;
  • a impossibilidade de reformar o capitalismo, em benefício da classe operária;
  • a necessidade de uma resposta política, massiva e radical da classe operária;
  • a integração dos sindicatos ao Estado capitalista;
  • a responsabilidade histórica da classe operária pelo futuro da humanidade.

 Examinemos cada um desses pontos, relacionando-os às experiências da luta proletária dos últimos anos.

1. A impossibilidade de reformar o capitalismo, em benefício da classe operária

Os anos 80 situam-se no quadro de um sistema econômico historicamente decadente e bárbaro, há mais de um século. Mas no seio da decadência, esses anos são um momento de intensa aceleração da crise econômica na qual se debate o capitalismo, desde o fim dos anos 60, desde o fim do período de reconstrução posterior à segunda guerra mundial.

Durante aproximadamente meio século, o capitalismo tem conseguido sobreviver, recorrendo a todo tipo de manipulações monetárias e financeiras, destruindo para isso pilares do sistema tão importantes quanto a estabilidade do sistema monetário internacional ou o equilíbrio das finanças públicas das nações, e se jogando numa protelação por políticas de crédito que só "resolvem" imediatamente os problemas para que eles reapareçam pouco tempo depois, com uma gravidade muito maior.

Assim, em meados dos anos 80, o capitalismo enfrentou a mais profunda e extensa crise econômica de sua história.

O empobrecimento absoluto

A classe operária não enfrenta unicamente a impossibilidade de arrancar reformas duráveis de suas condições de existência. Além disso, o proletariado mundial sofre, da parte do capital, o ataque mais violento, sistemático e generalizado. O mínimo social necessário para sobreviver é colocado em questão. Não é mais somente contra um crescimento da exploração que ele deve lutar, mas contra a perda do pouco que se acreditava ter "adquirido", luta-se contra a ameaça do empobrecimento absoluto.

A máquina capitalista está travada. Não somente não consegue integrar novos proletários, no ritmo de crescimento da população - o que ocorre há decênios, na periferia do sistema. Ela lança no desemprego massas proletárias cujo sobretrabalho (e lucro) não pode mais ser extraído pelo sistema, tanto nos países subdesenvolvidos como nas metrópoles industriais.

Nos países desenvolvidos, o desemprego cresce sem parar e cada vez mais rápido. No maior centro industrial do planeta, na Europa Ocidental, o número de desempregados reconhecido pelas estatísticas oficiais passou entre 1970 e 1980 de 5 para 11 milhões. Nos anos 80, bastaram cinco anos para que dobrasse de novo, atingindo 20 milhões no fim de 1984. Nessa época, nos países industriais do bloco norte-americano, o número de desempregados ultrapassa os 32 milhões... Os governos não cessam de anunciar todos os dias novas demissões.

Durante os anos de reconstrução e parcialmente nos anos 70, a maioria dos desempregados dos países mais industrializados da Europa recebia salário-desemprego. Mas, nos anos 80, os Estados em falência se declaram cada vez menos capazes de prover as necessidades de todos os que o capital refuga ou nunca integrou ao processo de produção. Milhões de proletários são condenados à miséria, ao empobrecimento absoluto. As "sopas populares" reaparecem em cidades como Paris! Mas o desemprego ameaça também os "que ainda têm a sorte de ter um emprego", chantageando-os como um fuzil nas costas. Os salários reais não cessam de baixar, ao mesmo tempo em que um número cada vez maior de famílias operárias tem desempregados sob sua responsabilidade (cônjuges, jovens), acarretando uma diminuição de renda com um maior número de bocas a alimentar.

O chamado "salário social", que o Estado fornece sob a forma de serviços (saúde, educação, salário-família etc.), também sofre cortes brutais. É o que a mídia chama cinicamente de "o fim do Estado-providência".

A barbárie

Se fosse necessário resumir em dois números o aceleramento da decadência histórica do capitalismo, bastaria dizer que em plenos anos 80, morreram de fome no mundo mais de trinta milhões de pessoas por ano (mais do que durante os quatro anos da Primeira Guerra Mundial!).  Mas os gastos militares mundiais superavam um milhão de dólares por minuto! Uma soma que permitiria não só atenuar o problema da fome, mas eliminá-lo. Enquanto isso, a produção de bens de subsistência em todos os países diminuiu por causa da superprodução.

Os últimos dez anos não enfraqueceram a idéia básica deste livreto, segundo a qual não é possível reformar o capitalismo ou dele arrancar benefícios duráveis para os explorados.  Ao contrário, torna-se cada vez mais claro o antagonismo total que opõe à lógica das leis econômicas capitalistas (que datam do século XVI!) e os interesses mais elementares da classe operária.

Cada vez mais, a sobrevivência do capitalismo acarreta empobrecimento absoluto dos proletários; a própria sobrevivência dos proletários exige que levem sua luta de classe a níveis cada vez mais globais, unitários, radicais. Só a luta política de massas abre uma perspectiva ao proletariado.  

II. A necessidade de uma resposta política, massiva e radical da classe operária

A experiência da luta de classes dos dez últimos anos confirmou não apenas a necessidade, mas a possibilidade de uma resposta da classe operária.

A única resposta que permitirá ao proletariado quebrar definitivamente a máquina que o explora e oprime cada dia mais é a revolução social: a destruição total da máquina capitalista, a instauração de novas relações sociais fundadas não mais em função do lucro e da acumulação de capital, mas exclusivamente das necessidades humanas. No fim das contas, não há outra saída.

Isto quer dizer que, até lá, os proletários sofrerão passivamente a putrefação de suas vidas, esperando a "aurora do grande dia". Semelhante conclusão, típica dos pretensos revolucionários de palavra radical e "modernista" (para quem Marx está "ultrapassado"), traduz, além de uma idéia completamente falsa da revolução social, um desprezo do movimento real do combate proletário.

Inicialmente: como poderia uma classe que não aprendeu a lutar e não se defende quando é atacada, encontrar a força e a vontade para se lançar na revolução até a vitória final? A revolução não "substitui" a resistência diária da classe explorada, é sua decorrência. A luta de classes diária é a única escola de guerra de que dispõe o proletariado.

Dada a impossibilidade para o capitalismo de voltar a uma situação de prosperidade, a concentração de todos os poderes no Estado e o reforço dos meios de repressão não implicam que toda luta de resistência está fadada à derrota. Mas, para lograr êxito, toda luta operária deve se dar os meios adequados ao momento e às condições históricas presentes.

Para imobilizar, mesmo momentaneamente, a ofensiva da burguesia, a classe operária terá de impor uma relação de forças tal que a burguesia só possa recuar para evitar desestabilizar perigosamente seu poder político. Como o ilustram os dez últimos anos, hoje, mais do que nunca, a única linguagem efetiva, entre as duas classes antagonistas da sociedade, é a da força, da violência de classe.

Essa relação de forças, o proletariado só pode impor:

  • recusando toda passividade e resignação;
  • unindo todas as suas forças, além das separações profissionais, raciais ou nacionais;
  • combatendo diretamente o núcleo do poder burguês: o Estado e seu governo;
  • aplicando uma estratégia de classe contra classe, na luta em defesa de seus interesses contra a lógica do sistema.

A experiência das lutas operárias dos dez últimos anos confirma plenamente esta realidade. Há derrota, completa ou parcial, das lutas que não se estendem, nem se radicalizam.  Há êxito quando, ao contrário, a luta se estende, se organiza  - de modo unitário, autônomo, coordenado e centralizado - e permanece firme no seu terreno de classe, afirmando claramente seu caráter operário, priorizando as reivindicações comuns e unitárias (Polônia - 1980).

Dez Anos de Lutas

Desde a primeira publicação deste livreto, a luta de classes conheceu momentos diversos, no processo da luta operária mundial. Após a onda de lutas operárias, iniciada com a greve geral de 1968 na França, e que, sucessivamente, abalou a Itália (outono de 1969), a Polônia (1970), o conjunto dos países centrais e periféricos até 1974-75; após uma pausa relativa das lutas, em nível internacional - com exceção da Espanha, em 76-77 - são visíveis, no período que vai de 78 a 85, dois ciclos em que a combatividade proletária se manifestou abertamente em escala mundial.

O primeiro: inicia em 1978 (greve dos mineiros nos Estados Unidos), prossegue com lutas importantes, tanto na periferia (metalúrgicos, no Brasil) do sistema, quanto na Europa (trabalhadores dos hospitais, na Itália; siderúrgicos na França, Longwy e Denain, começo de 1979; do porto de Rotterdam, outono de 79; caminhoneiros, setor público e, principalmente, os siderúrgicos da Inglaterra, 1980. E culmina na greve de massas dos operários poloneses, em agosto de 1980.

O segundo: começa no outono europeu de 1983, com a greve do setor público na Bélgica. Em seguida, as lutas ocorrem no mundo inteiro: dos Estados Unidos à Índia, do Peru à África do Sul. Entre o outono de 83 e o fim de 84, levando em consideração apenas os movimentos mais significativos contra as demissões e o ataque aos salários na Europa ocidental, as greves atingiram: na Bélgica, o setor público, as minas; na Holanda, o setor público, as docas de Rotterdam; na Alemanha Federal, os estaleiros, a imprensa, a metalurgia; na Inglaterra, as minas de carvão, as docas, a indústria automobilística; na França, contra a esquerda no governo, a indústria automobilística, a siderurgia, as minas; na Espanha, a siderurgia, os estaleiros.

Essas greves se acrescentam a outras lutas, nesses mesmos ou em outros países.  É o começo de uma nova onda de lutas operárias cuja principal característica é uma simultaneidade internacional sem precedentes.

A possibilidade da extensão

As lutas na Polônia são um exemplo claro de que só uma resposta radical, política e massiva da classe operária pode, atualmente, fazer recuar a classe dominante e seu Estado.

Uma luta radical: uma luta que vai à raiz das coisas. Desde logo, a luta proletária na Polônia se contrapôs radicalmente aos "imperativos da segurança da economia nacional".

Às medidas do governo - impondo aumento de preços dos bens de consumo, em nome dos interesses da economia nacional falida segundo a lógica capitalista - os operários responderam radicalmente, com sua linguagem de classe: "A lógica econômica que privilegia a acumulação do lucro, a produção massiva de armamentos e a manutenção dos privilégios dos burocratas da classe dominante não é a nossa lógica. Exigimos a satisfação de todas as nossas reivindicações!". Por sua firmeza, intransigência e determinação na defesa de seus interesses, os operários poloneses questionavam, na prática, as "sacrossantas leis da economia nacional". Esta era sua primeira força.

Uma luta política e massiva. A classe operária não pode se situar fora e contra a lógica do sistema econômico dominante, não pode resistir e coagir os governos a não reagir brutalmente contra os interesses das massas exploradas, sem se unir, sem efetivar sua principal força: o número.

Os operários poloneses se organizaram e unificaram suas lutas, com rapidez e eficácia extraordinárias. Em poucos dias, os operários do Báltico, sem sindicatos, organizaram-se em assembléias coordenadas e centralizadas pelos comitês eleitos e revogáveis. Logo, as lutas se estenderam ao conjunto da classe operária do país. Assim, milhões de proletários auto-organizados criaram uma relação de forças capaz de dobrar o governo.

Apesar das dificuldades - devidas essencialmente ao seu isolamento internacional e ao papel do Solidariedade [1] - que enfrentou o proletariado na Polônia,  as lições positivas, desse  que foi o auge das lutas na onda internacional de 78-81, continuam perfeitamente válidas: só uma resposta radical, política e massiva pode fazer recuar os governos do capitalismo em crise.

A necessidade da extensão

O proletariado polonês não foi capaz de se manter auto-organizado, deixando-se enquadrar no aparelho sindical: os MKZ (comitês inter-empresas autônomos) transformaram-se em MKS (seções locais do sindicato Solidariedade). Tal debilidade tornou possível o golpe de Jaruzelsky, em 3 de dezembro de 1981, abrindo o caminho para o fracasso das  lutas nos países ocidentais.  Lutas que, por não terem se estendido massivamente nem se unificado numa força de pressão política contra o Estado, confirmam, negativamente, as mesmas lições.

A greve dos mineiros ingleses, em 84-85, apesar de sua massividade, foi esmagada porque a luta não se estendeu duravelmente a outros setores da classe operária (se bem que as manifestações de solidariedade ativa tenham sido numerosas: greve dos portuários, com apoio dos desempregados).

Uma luta que não se estende está condenada à derrota.

As condições de uma real extensão

Na Revista Internacional no38 (3e trimestre de 84), escrevíamos, a propósito das lutas na Europa ocidental:

"Até o momento, o proletariado não pôde estender, coordenar e, menos ainda, generalizar o seu combate. Enquanto os operários não conseguirem impedir o controle de suas lutas pelos sindicatos, enquanto não assumirem o controle em suas próprias mãos, eles não poderão organizar sua extensão. Ou seja: a auto-organização é fundamental para responder as necessidades de toda luta, hoje."

"Cabe às assembléias decidir e organizar a extensão e a coordenação das lutas. São elas que, se puderem, enviam delegados chamando à greve nas outras fábricas. São elas que nomeiam e destituem, a qualquer momento, se necessário, os delegados. Ora, até o momento, a burguesia conseguiu esvaziar desse conteúdo todas as assembléias".

"Sem auto-organização, sem assembléias gerais não há extensão nem, muito menos, generalização internacional do combate. Mas sem extensão, os raros exemplos de auto-organização, de assembléias gerais na Bélgica, na França, na Espanha... perdem sua função e seu conteúdo proletários e deixam assim os sindicatos ocupar o terreno. Os operários começam a compreender que a organização da extensão só se fará ao preço do combate contra o sindicalismo" (R. L., "simultaneidade das greves operárias: quais perspectivas?").

Esta é a primeira condição de uma real extensão das lutas: que os trabalhadores e suas assembléias mantenham o controle e a direção real desta extensão.

Outras condições importantes devem ser sublinhadas:

  • a prioridade do caráter horizontal de uma real extensão;
  • a importância da luta dos desempregados em todo o movimento de extensão.

Quando os trabalhadores de uma fábrica entram em luta, pode parecer "natural" que toda extensão seja orientada para outras fábricas da mesma empresa ou setor (extensão vertical). Mas as experiências mostram que semelhante orientação resulta no isolamento da luta na dinâmica corporativista ou setorial, que enfraquece o movimento em vez de revigorá-lo num combate em termos de classe e de massas. A extensão horizontal, isto é, em direção aos centros de produção mais próximos geograficamente, mais combativos e determinantes politicamente, constitui, ao contrário, um reforço imediato da luta e representa uma ameaça, uma pressão muito mais potente contra a classe dominante. Eis porque ela deve ser prioritária.

A generalização da crise econômica tende a nivelar por baixo as condições de vida de todos os setores da classe operária e cria assim as condições desta forma de extensão.

Mas a crise econômica aguçou o desemprego, como ameaça para aqueles que ainda trabalham (desempregados potenciais) e condição de vida para milhões de proletários. A extensão de uma luta é, antes de tudo, a busca da unidade entre operários empregados e desempregados.

A luta dos proletários desempregados representará, desenvolvendo-se, um potente fator de aceleração da unidade e da força de classe. Por não serem ligados a tal ou qual empresa ou setor produtivo, os desempregados em luta são um fator ativo contra as divisões corporativistas e pela unidade do combate de classe. Por dependerem da ação do Estado para sobreviver, os desempregados são forçados a colocar a luta num nível político.  Dada à falta de perspectivas de sua existência, no capitalismo em crise mortal, eles são levados a conceber a luta contra a lógica capitalista em termos mais fundamentais.

O problema do desemprego e a luta dos desempregados são fatores de radicalização, de extensão e de dinamização da luta. Desde que os sindicatos não enquadrem essa luta em organismos separados do tipo "sindicato de desempregados", "associações de pobres" etc.

Os dez últimos anos evidenciaram a necessidade e a possibilidade de que o proletariado estenda e unifique suas lutas, adequando-as às condições históricas, pois os sindicatos se transformaram em engrenagens do Estado capitalista e não haverá luta conseqüente senão fora deles e contra eles. 

III. A integração dos sindicatos no Estado capitalista

Após a primeira publicação deste livreto, um fenômeno se generalizou nos países industriais do bloco ocidental europeu: os operários abandonam os sindicatos. Como entender que os operários abandonem as organizações, que supostamente os defendem, no exato momento em que eles sofrem um ataque sem precedentes?

Cada vez mais os operários recusam o tipo de ação sindical que conduziu tantas lutas a impasses: os "dias de ação" e as greves de algumas horas, as petições aos parlamentares, as ações simbólicas etc. encontram um eco cada vez menor entre os operários, cuja desconfiança com relação de seus "representantes oficiais" só faz aumentar.

Durante os dez últimos anos, os sindicatos, foram cada vez mais percebidos como instituições estatais. Sua impotência diante dos ataques da crise capitalista é evidente, além da função - que eles desempenham, mais ou menos abertamente - de agências do capital no encaminhamento das políticas "de austeridade" e "reestruturação industrial" que golpeiam direta e brutalmente as condições de vida dos proletários.

A participação na gestão da crise capitalista

Os sindicatos colaboram na gestão do capitalismo em crise, exatamente como o fizeram na reconstrução do pós-guerra e durante as duas guerras mundiais: convocando para a "defesa da Pátria" e sacrificar a sua vida para o capital nacional.

Quando a burguesia, para preservar suas margens de lucro, impõe sacrifícios aos trabalhadores, os sindicatos geralmente respondem: "Nada de sacrifícios!" Mas, logo acrescentam: "A menos que eles sejam igualmente repartidos entre todos". Então, ocorrem espetaculares "negociações entre governo e sindicatos" ([2]), em que a questão nunca é "sacrifícios ou não", mas "como organizar a imposição dos sacrifícios".

O resultado dessa farsa - representada por atores cada vez mais desacreditados - é sempre o mesmo: novos sacrifícios para os trabalhadores em proveito do capital nacional.  E os sindicatos gritam vitória: "poderia ter sido pior, se não estivéssemos lá".

Interlocutores oficiais do governo e representantes oficiais dos trabalhadores, os sindicatos negociam oficialmente as leis antioperárias e assinam os documentos oficiais que impõem, com a força do Estado, a lógica do capital (a lógica de rentabilidade) às condições de vida dos trabalhadores.  O sindicato funciona em termos de economia nacional, subordinando-se à lógica do sistema capitalista. E se essa lógica exige mais sacrifícios, cabe aos sindicatos defendê-los perante os trabalhadores, em nome de um "realismo" que consiste apenas em considerar a crise econômica como um "evento natural" - como um terremoto ou uma onda de frio - e o capitalismo como um fenômeno eterno da natureza.

Em nome de tal "realismo" os sindicatos franceses assinaram, inicialmente com um governo de direita, depois com um governo de esquerda, a redução sistemática dos auxílios-desemprego e do número dos que a eles têm direito. É como defensores desse "realismo" que eles estão nos países "democráticos", direta ou indiretamente associados à elaboração de todas as medidas políticas e econômicas antiproletárias. Na Alemanha social-democrata, os sindicatos apoiaram o governo que reduziu salário-família; foi com a ajuda dos sindicatos espanhóis que o governo "socialista" concluiu a redução das taxas de aposentadoria. Foi com os "experts" das "Trade Unions" britânicas, que o governo conservador preparou meio milhão de demissões na função pública, é com os sindicatos italianos que reduziu as aposentadorias.  Os sindicatos italianos, atrelados ao governo de "centro-esquerda", liquidaram a escala móvel dos salários. Ajudado pela socialista FGTG, o governo belga cortou 10 % dos auxílios-desemprego.

Mas não foi somente porque apareceram cada vez mais como instituições estatais que os sindicatos foram abandonados pelos operários.

A sabotagem das lutas

Nas lutas abertas, a ação das grandes centrais sindicais aparece cada vez mais claramente aos olhos dos operários como o que ela é: sabotagem do interior.

Nos dez últimos anos, são inumeráveis as manobras dos sindicatos, que, sabotando greves e mediante a demagogia nacionalista, a tudo recorrem para enquadrar toda revolta proletária.

Desviar as lutas para impasses nacionalistas, isolando-as localmente; impossibilitar a unificação das lutas; canalizar a combatividade para ações ineficazes e desmoralizantes; enfraquecer a solidariedade de classe... Os sindicatos, no mundo inteiro, usaram esses estratagemas para molhar a pólvora social e sabotar as lutas. Exemplos não faltam.

Os sindicatos desviaram a combatividade dos metalúrgicos franceses, em 1979, nas ações contra os trens de minério de ferro alemão aos gritos de "Produzamos francês". Na Polônia, o Solidariedade, com Walesa, o alarde da mídia, e a ajuda dos "sindicatos democráticos" do bloco norte-americano, arregimentaram os operários num nacionalismo que os desarmava face à lógica econômica do Estado e os isolava dos trabalhadores de outros países, que eram apresentados privilegiados porque tinham patrões e sindicatos "democráticos".

Isolaram a greve dos mineiros britânicos, apresentando-a como uma luta corporativa oposta à das outras corporações. O sindicato dos mineiros, chamado NUM, radicalizou a linguagem para melhor credibilizar a "natureza operária dos sindicatos"... Assim, justificou a recusa de todos os outros sindicatos oficiais em apoiar ativamente a greve dos mineiros.

Os sindicatos confundiram os metalúrgicos de Lorena (França), em 1984, fazendo-os instalar barreiras nas rodovias da região, o que os separava dos trabalhadores das outras regiões, além de isolá-los dos companheiros de luta.

Na Alemanha Ocidental, os sindicatos promoveram uma gigantesca campanha pelas 35 horas para desorganizar a combatividade operária. Uma greve, controlada e dirigida pelos sindicatos, de cidade em cidade, de região em região, de hora em hora, de maneira a evitar todo acúmulo de forças.

Na Itália, os sindicatos canalizaram  o descontentamento proletário, para ações espetaculares e inúteis: o bloqueio de trens e a "Marcha em Roma", em março de 1984, que reuniu mais de um milhão de trabalhadores numa deprimente procissão.

Eles enfraqueceram os movimentos de solidariedade dos trabalhadores, usando as coletas financeiras e outras "atividades beneficentes" para substituir a solidariedade ativa no combate.  Assim fizeram, com grande reforço publicitário, em nível internacional, tanto na Polônia, como na greve dos mineiros britânicos.

Em todos os casos, o resultado é o mesmo: sabotagem do interior das tentativas de unificação das forças do proletariado.

Gestores da crise capitalista, agentes das políticas antioperárias, sabotadores da luta proletária do interior, os sindicatos têm tido sempre maior dificuldade para ocultar sua colaboração com a burguesia e sua natureza de engrenagem do Estado capitalista. É por isso que lenta, mas irreversivelmente, os operários abandonam os sindicatos e ignoram suas "ações" e "mobilizações" de fachada. 

IV. O impossível bom sindicalismo

Os agentes políticos e sindicais da burguesia, em particular nos países industrializados, não nasceram ontem. Têm muita experiência. Tais agentes tentam canalizar a desconfiança - que cresce mais e mais entre os operários - com relação aos sindicatos, para os dirigentes das grandes centrais, contra essa ou aquela central sindical em oposição às demais. Mantém-se assim a ilusão - ainda forte entre certos trabalhadores - de que pode existir "bom sindicalismo".

Assim, desde o fim dos anos 70, assistimos à radicalização da linguagem de certas centrais sindicais, à aparição de tendências "críticas" ou de sindicalismo mais ou menos "anti-centrais sindicais" e, mesmo... "anti-sindicalista".

São as formas mais perniciosas de autodefesa do sindicalismo.

O radicalismo verbal dos burocratas e a armadilha do sindicalismo de base

Nos anos 70, a orientação da farsa política utilizada pela burguesia para subjugar o proletariado consistia em empossar "governos de esquerda" (Trabalhistas, na Grã-Bretanha; Democratas, nos Estados Unidos; Social-Democracia, na Alemanha Ocidental). Ou, ao menos, em orientar sua ala esquerda para a participação no governo ("Compromisso Histórico" do PC na Itália, "Programa Comum" do PC/PS na França). Ainda eram os "anos de ilusões". Os "representantes oficiais dos trabalhadores" deviam participar do governo para obter dos trabalhadores "sacrifícios momentâneos", em troca de alegres amanhãs.  A presença das "forças operárias" no governo serviria para garantir que os frutos desses sacrifícios trariam benefícios à classe operária...

Mas os amanhãs chegaram e, com eles, o agravamento da crise econômica e da ofensiva capitalistas. A onda de lutas operárias de 78/80 evidenciou para a burguesia, que a participação de sua ala esquerda no governo - com o apoio dos sindicatos - não apenas não conseguia mais impedir as lutas operárias, mas tinha cada vez mais dificuldades para representar eficazmente seu papel de polícia das fileiras operárias, aparecendo como responsáveis pela situação.

Os anos 80 começam com a inversão de orientação da burguesia nos principais países industrializados. Os partidos "operários" (Partidos Socialistas, Sociais Democratas ou Democratas em países como a Grã-Bretanha, a Alemanha e os Estados Unidos; Partidos Comunistas nos países latinos), retornam à oposição, retomam uma linguagem "radical", "intransigente", e mesmo "revolucionária", para tentar recuperar a credibilidade indispensável ao exercício de sua função de sabotadores da luta operária.

Na França, o proletariado fez a experiência da "esquerda no governo" mais tardiamente. Mas, em pouco tempo, a realidade se impôs: após três anos de participação do PCF (Partido Comunista Francês) no governo e de descrédito da CGT (Confederação Geral dos Trabalhadores), a esquerda teve que deixar o governo, voltando à oposição, sob pena de perder todo o controle das lutas.

É preciso observar que essa "radicalização da linguagem" não é consensual em todas as centrais, nem mesmo numa delas. Em todos os países, as estruturas sindicais sabem dividir seus papéis: existem os sindicatos que se "radicalizam" e aqueles que são mais "realistas", e depois, dentro de cada sindicato, existem tendências mais "combativas" e outras mais "prudentes". São as duas peças complementares das garras sindicais.  Assim:

  • a greve dos mineiros britânicos ficou presa entre o radicalismo do sindicato dos mineiros e seu líder Scargill de um lado, e o "realismo" do conjunto do aparelho das "Trade-Unions" do outro;
  • as lutas dos operários alemães em 84, entre a "combatividade" do IG Metal e a "moderação" do aparelho do DGB;
  • a greve dos operários da Talbot na França, no começo de 84, entre o "radicalismo" da CFDT e a "prudência" da CGT;
  • as respostas proletárias na Bélgica no começo de 84 entre o tom "intrépido" da FGTS e o "conciliador" da CSC (cristã).

A divisão de papéis entre as centrais é acompanhada de outra divisão, no interior das centrais.  Há, também, as tendências sindicalistas exteriores às centrais, constituídas no que, de acordo com o país, é chamado de sindicalismo "de base", sindicalismo "de combate", sindicalismo "autônomo" ou sindicalismo "assembleísta".

É com essas tendências que se choca o proletariado, quando tenta ultrapassar as centrais sindicais. Quanto mais uma luta consegue se desembaraçar da influência direta das grandes centrais oficiais, mais se envolve com o "sindicalismo envergonhado", esse sindicalismo da linguagem e das ações espetaculares, cuja função é a de tentar resgatar o brasão do sindicalismo, essa forma de luta ultrapassada, com uma forma de organização impotente.

O sindicalismo de base critica as "direções" para melhor defender a possibilidade de transformar e de "regenerar" os sindicatos - e, portanto, de neles militar; critica os sindicatos oficiais para melhor defender a possibilidade de um sindicalismo "puro".

As organizações "esquerdistas" (trotskistas, maoístas, "autônomas" ou anarquistas) especializaram-se nesse tipo de trabalho em todos os países. Seus militantes são freqüentemente os principais animadores dos últimos restos de vida sindical nas empresas, em tempos de paz social, e os mais hábeis sabotadores da luta em tempos de conflito.

O sindicalismo dos delegados de base ("shop‑stewards"), na Grã-Bretanha; dos "conselhos de fábrica", na Itália; dos "assembleístas", na Espanha; do STL (Sindicato dos Trabalhadores em Luta), do Sindicato dos Bancários etc., na França; das tendências "combativas", no interior do Solidariedade, constituem uma parte, um complemento indispensável das direções sindicais e do sindicalismo "oficial".

Não existe na nossa época a possibilidade de um bom sindicato.  Mas não é porque as grandes centrais sindicais são podres e "vendidas" que o sindicalismo é ineficaz e nefasto para o combate operário. É porque o sindicalismo - isto é a luta por reformas respeitando as leis econômicas dominantes - tornou-se ineficaz, anacrônica no capitalismo em declínio, que os sindicatos, grandes ou pequenos, são inevitavelmente absorvidos pela instituição estatal.

Essas tendências que defendem a possibilidade de um "bom sindicalismo" - quaisquer que sejam os motivos originais de seus protagonistas - só fazem obstruir o avanço das lutas operárias, em direção ao seu único desenvolvimento possível: a greve de massas, radical, política, auto-organizada. Elas são o último obstáculo que a classe operária terá de superar para a luta contra os sindicatos.

O significado do sindicalismo de base

Por eficazes que possam ter sido, até agora, as manobras do "radicalismo sindical" para conter o avanço proletário não deixam de expressar uma grande fraqueza da burguesia.

Estamos muito longe de uma situação como a dos anos 30, quando as grandes centrais sindicais européias dirigiam sem dificuldades as greves operárias, bandeiras e hinos nacionais à frente, na arregimentação nacionalista e bélica. Se, nos anos 80, os grandes sindicatos têm necessidade de deixar que se exprimam tendências "combativas" e "antidireção"; se, hoje, o sindicalismo deve, para manter sua credibilidade, vestir a ideologia "anti-organizações sindicais oficiais" é porque há muito que amadurece nos operários, freqüentemente de forma subterrânea, a consciência da natureza capitalista dos sindicatos e do sindicalismo em geral. 

V. A responsabilidade histórica da classe operária pelo futuro da humanidade

Em meados dos anos 80, o pior da crise econômica ainda virá. A máquina capitalista não está programada para satisfazer prioritariamente as necessidades humanas, mas para extrair lucro e acumular capital. Quando não pode mais fazê-lo - como é cada vez mais o caso - ela não sabe e não pode fazer outra coisa senão destruir: capital, riquezas, seres humanos. No capitalismo decadente, a guerra mundial, sua preparação e a reconstrução que se segue, tem até agora ritmado a vida da sociedade. No extremo da crise econômica atual, o capital não terá outra "saída" a oferecer que uma terceira guerra mundial, pondo em risco, desta vez, a própria sobrevivência da humanidade.

Mas o modo de produção capitalista não é uma realidade eterna da natureza, como não o foram o escravismo antigo e o feudalismo. Como todos os sistemas de exploração, o capitalismo é uma criação humana, um conjunto de relações sociais impostas pelo desenvolvimento das forças produtivas e pela dominação (econômica e política) de uma classe sobre as outras. A sobrevivência da humanidade depende diretamente do resultado dessa luta entre as principais classes da sociedade.

Ora, o desenvolvimento da luta do proletariado conduz ao questionamento das próprias leis capitalistas. Ao longo de quase dois séculos, a classe operária mundial mostrou que seus combates não eram simples escaramuças defensivas, dispersas e descontínuas. A luta operária atual continua a dos "Canuts de Lyon" em 1834, dos operários da Comuna de Paris em 1871, da Revolução Russa em 1905 e 1917, a dos operários alemães em 1919 etc. Esta luta, que tem continuidade histórica e uma lógica própria, só poderá desembocar numa revolução social total, trazendo uma nova sociedade na qual, enfim, a humanidade se (re)apropriará de suas forças produtivas e de sua evolução histórica: o comunismo.

"Atrás de cada greve, esconde-se a hidra da revolução", dizia Lênin. Para quem sabe, segundo Marx, "ver na miséria não apenas a miséria", o atual desenvolvimento das lutas operárias no mundo e, em particular, na Europa ocidental, anuncia a reconstituição e a reunificação conscientes desta força mundial revolucionária que é o proletariado.

Apesar da sabotagem sindical, das gigantescas campanhas de intoxicação ideológica, da repressão policial, da ameaça do desemprego que pesa sobre cada operário de modo permanente, da cooperação de toda a burguesia internacional frente ao "perigo" proletário, as lutas mais marcantes dos últimos anos traduzem uma combatividade intacta.

A luta dos operários poloneses, em 1980, foi a mais importante manifestação proletária, desde a onda revolucionária internacional que obrigou a burguesia parar a Primeira Guerra Mundial.  As greves do funcionalismo público em 1983 na Bélgica e na Holanda foram as mais importantes deste setor nestes países, em toda a sua história; o ataque da sede do Partido Socialista em Longwy, em 1984, pelos trabalhadores siderúrgicos franceses é um fato sem precedentes naquele país; a ocupação dos estaleiros pelos operários alemães, em 1984, foi a primeira desde os anos 20, e a mobilização pelas 35 horas semanais, a mais importante desde a mesma época; a greve dos mineiros britânicos, em 1984-85, é a maior desde a greve geral de 1926.

Mas o mais importante desta terceira onda, começada em 1983, é a simultaneidade das lutas ao nível internacional.

A luta proletária só poderá verdadeiramente passar à ofensiva assumindo seu conteúdo internacional, unificando-se através das fronteiras das nações burguesas. A consciência de classe necessária a esta unificação está justamente se forjando na efervescência social internacional que se desenvolve hoje. A simultaneidade atual das lutas operárias no plano internacional constitui a base objetiva sobre a qual deve se desenvolver o movimento, em direção à unificação do proletariado mundial.

É no desenvolvimento conseqüente das lutas atuais que se encontra a única força capaz de liquidar o capitalismo decadente e de oferecer um futuro à humanidade.

É através dos combates de resistência que o proletariado mundial se prepara para assumir suas responsabilidades históricas. Mas o proletariado não pode se emancipar, nem mesmo defender seus interesses mais imediatos sem uma unidade extrema e sem a mais rigorosa e implacável lucidez. Os sindicatos e o sindicalismo, na nossa época, desarmam a classe operária dividindo-a e cegando-a. A classe operária não pode desenvolver sua força e sua consciência sem lutar, fora dos sindicatos e contra eles. Esta é a idéia de base deste livreto, e está mais do que nunca na ordem do dia.

(Prefácio à edição de Janeiro de 1985)

[1] Os operários poloneses colidiram rapidamente com dificuldades maiores:

  • suas ilusões sobre a "democracia" e principalmente sobre a possibilidade de construir um sindicato "verdadeiramente operário", o Solidariedade;
  • o trabalho de sabotagem da muito nacionalista organização sindical de Walesa e companhia;
  • seu isolamento internacional: a única fração do proletariado mundial que podia, pela sua luta, contribuir para destruir as ilusões e contrariar a gigantesca campanha organizada em nível mundial pela burguesia para construir e credibilizar o Solidariedade, a única fração do proletariado que podia abrir uma verdadeira perspectiva de internacionalização da luta era o proletariado da Europa ocidental. Mas este recuava diante de uma ofensiva da burguesia que, com a estratégia da "esquerda na oposição" (após anos de "esquerda no poder") e campanhas de mídia de desorientação ideológica, reduziu a combatividade operária e impediu toda solidariedade efetiva. A burguesia apresentou a luta operária na Polônia como uma resistência de patriotas, ávidos de catolicismo e de democracia à ocidental.

[2] É uma tática clássica e generalizada dos sindicatos: fazer da negociação em si o objetivo principal da luta, deixando de lado as reivindicações que estão na origem da mobilização.