A herança oculta da Esquerda do Capital (I): Uma falsa visão da classe operária

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Um dos flagelos que afetam as organizações revolucionárias da Esquerda comunista é que muitos de seus militantes já passaram por partidos e grupos de esquerda e extrema esquerda do capital (PS, PC, trotskismo, maoísmo, anarquismo oficial, a suposta "nova esquerda" de Syriza ou Podemos). Isto é inevitável porque nenhum militante nasce com clareza sob o braço. No entanto, este passo deixa um lastro que é difícil de superar: é possível romper com as posições políticas destas organizações (sindicalismo, defesa da nação e nacionalismo, participação em eleições, etc.), porém, é muito mais difícil livrar-se das atitudes, do modo de pensar, do modo de debater, dos comportamentos, das concepções, que estas organizações injetam em grau supremo e que constituem seu modo de vida.

Esta herança, o que chamamos de herança oculta da esquerda do capital, contribui para provocar dentro das organizações revolucionárias tensões entre camaradas, desconfiança, rivalidades, comportamentos destrutivos, bloqueios de debate, posições teóricas aberrantes, etc., que combinadas com a pressão da ideologia burguesa e pequeno-burguesa lhes causam muito dano. O objetivo da série que iniciamos é identificar e combater este lastro pesado.

Esquerda do Capital: a política capitalista em nome do "socialismo"

Desde o seu primeiro congresso (1975), a CCI abordou o problema das organizações que afirmam reivindicar o "socialismo" e praticar a política capitalista.  A Plataforma que este congresso adotou em seu ponto 13 destaca: "O conjunto de partidos e grupos que defendem, inclusive condicionalmente ou de maneira "crítica", certos Estados ou certas frações da burguesia contra outras, seja em nome do "socialismo", da "democracia", do "antifascismo", da "independência nacional", da "frente única" ou do "mal menor"; que fundam sua política sobre o jogo burguês das eleições, sobre a atividade antioperária dos sindicatos ou sobre as mistificações autogestionárias são órgãos do aparelho político do capital. Destacam-se entre eles os partidos "socialistas" e "comunistas"." (A natureza contrarrevolucionária dos partidos "operários")

Nossa Plataforma também enfoca o problema dos grupos e pequenos grupos que se colocam "à esquerda" desses dois grandes partidos, que muitas vezes fazem "críticas incendiárias" a eles, e adotam posturas mais "radicais": "O conjunto das correntes chamadas "revolucionárias", tais como o maoísmo - que é uma simples variante dos partidos passados à burguesia -, o trotskismo - que após ter se constituído uma reação proletária contra a traição dos PC's, viu-se apanhado em um processo similar de degeneração - ou o anarquismo tradicional - que se situa hoje em uma postura política de defesa de certas posições dos partidos socialistas ou comunistas (como por exemplo, as alianças "antifascistas") pertencem ao mesmo campo que eles, o campo do capital: que tenham menos influência ou o que utilizem uma linguagem mais radical não muda em nada o caráter burguês de seu programa e de sua natureza, o que faz deles úteis aliciadores ou suplentes dos grandes partidos de esquerda".

Para compreender a função da esquerda e da extrema esquerda do capital, devemos lembrar que, com a decadência do capitalismo, o Estado "exerce um controle cada vez mais potente, onipresente e sistemático sobre todos os aspectos da vida social. A uma escala muito superior à decadência romana ou feudal, o Estado da decadência capitalista se converteu em uma máquina monstruosa, fria e impessoal que terminou por devorar a substância da sociedade civil". (O capitalismo de estado Ponto 4 da nossa Plataforma). Esta natureza aplica-se tanto aos regimes de partido único abertamente ditatoriais (estalinistas, nazis, ditaduras militares) como aos regimes democráticos.

Dentro deste quadro, os partidos políticos não são os representantes das diferentes classes e camadas da sociedade, mas os instrumentos totalitários do Estado para submeter aos imperativos do capital nacional toda a população e principalmente a classe operária. Eles também se tornam líderes de redes clientelistas, grupos de pressão e esferas de influência, que misturam ação política e econômica e se tornam o terreno fértil para a corrupção incontrolável.

Nos sistemas democráticos, o aparelho político do Estado capitalista está estruturado em duas alas: a direita, ligada às fracções clássicas da burguesia e encarregada de enquadrar os sectores mais atrasados da população[1], e a esquerda (juntamente com os sindicatos e uma série de organizações de extrema esquerda), dedicada essencialmente ao controlo, divisão e destruição da consciência da classe trabalhadora.

Porque é que os antigos partidos operários se tornaram os partidos de esquerda do capital?

As organizações que o proletariado dá a si próprio não estão isentas da degeneração. A pressão da ideologia burguesa os corrói a partir de dentro e pode levá-los ao oportunismo que, se não for combatido no tempo, leva à traição e à integração no Estado capitalista[2]. O oportunismo dá o passo decisivo diante dos acontecimentos históricos decisivos da vida social capitalista: os dois momentos-chave até agora foram a Guerra Mundial Imperialista e a Revolução Proletária. Na plataforma, tentamos explicar o processo que leva a este passo fatal: "Em um processo de gangrena pelo reformismo e pelo oportunismo, a maioria dos mais importantes entre os partidos socialistas, por ocasião da Primeira Guerra Mundial (que marca a morte da Segunda Internacional), comprometeram-se, sob a direção de sua direita "social-chauvinista" passada definitivamente à burguesia primeiro com a política de defesa nacional, para depois se opor abertamente à onda revolucionária do pós-guerra até o extremo de jogar o papel de verdugos do proletariado como na Alemanha em 1919. A integração final de cada um destes partidos em seus Estados nacionais respectivos teve lugar em diferentes momentos no período que se seguiu ao estouro da Primeira Guerra Mundial, entretanto, este processo se viu definitivamente concluído no começo dos anos 20, quando as últimas correntes proletárias foram eliminadas ou saíram de suas filas para unir-se à Internacional Comunista.

Do mesmo modo, os partidos comunistas passaram por sua vez ao campo do capitalismo depois de um processo semelhante de degeneração oportunista. Este processo, teve início no começo dos anos 20 e continuou depois da morte da Internacional Comunista (marcada em 1928 pela adoção da teoria do "socialismo em um só país") até desembocar em uma completa integração ao Estado capitalista no começo dos anos 30, face à luta encarniçada de suas frações de esquerda, com sua participação nos esforços de armamento de suas burguesias respectivas e sua entrada nas "Frentes Populares". Sua participação ativa na "Resistência" durante a Segunda Guerra Mundial e posteriormente na "reconstrução nacional" após sua finalização, confirmou-os como fiéis servidores do capital nacional e como a mais pura encarnação da contrarrevolução". (A natureza contrarrevolucionária dos partidos "operários")

No período de 25 anos - entre 1914 e 1939 - a classe operária primeiro perdeu os partidos socialistas, depois, na década de 1920, os partidos comunistas e, finalmente, a partir de 1939, os grupos da Oposição de Esquerda de Trotsky que apoiaram a barbárie ainda mais brutal da Segunda Guerra Mundial. "Em 1938, a Oposição de Esquerda tornou-se a Quarta Internacional. É uma aventura oportunista porque não se pode constituir um partido mundial em situação de marcha para a guerra imperialista e, portanto, de profunda derrota do proletariado. Os resultados foram desastrosos: em 1939-40, os grupos da dita 4ª Internacional tomam posição a favor da guerra mundial argumentando os mais variados pretextos: a maioria apoiando à "pátria socialista" russa, mas houve mesmo uma minoria que apoiou a França de Pétain (satélite por sua vez dos nazistas).

Contra esta degeneração das organizações trotskistas reagiram os últimos núcleos internacionalistas remanescentes: especialmente o camarada de Trotsky e o revolucionário de origem espanhola Munis. Desde então, as organizações trotskistas tornaram-se agências "radicais" do Capital que tentam tomar o proletariado com todos os tipos de "causas revolucionárias" que geralmente correspondem a frações "anti-imperialistas" da burguesia (como atualmente o famoso sargento Chavez). Da mesma forma, recuperam os trabalhadores revoltados do jogo eleitoral fazendo-os votar de forma "crítica" para os "socialistas" para, assim, "bloquear o caminho para a direita". Finalmente, eles ainda têm a grande esperança de "recuperar" os sindicatos através de "candidaturas combativas"."[3].

A classe trabalhadora é capaz de gerar frações de esquerda dentro dos partidos proletários quando eles começam a ser afetados pela doença oportunista. Assim, os bolcheviques, a corrente de Rosa Luxemburgo, o tribunismo holandês, os intransigentes italianos, etc.  A história do combate que estas fracções travaram é suficientemente conhecida porque os seus textos e contribuições conseguiriam cristalizar-se na formação da 3ª Internacional.

Por seu lado, desde 1919, a reação proletária às dificuldades, erros e posterior degeneração da 3ª Internacional se expressou na esquerda comunista (italiana, holandesa, alemã, russa, etc.) que levou (com muitas dificuldades e infelizmente muito dispersa) um combate heroico e consequente. A Oposição Esquerda de Trotsky nasceu mais tarde e muito mais incoerentemente. Nos anos 1930, o fosso entre a esquerda comunista principalmente o seu grupo mais consistente, Bilan, expoente da esquerda comunista italiana e a oposição de Trotsky tornou-se mais evidente. Enquanto Bilan sabia como ver as guerras imperialistas localizadas como expressões de um curso em direção à guerra mundial imperialista, a oposição se enredou em divagações sobre a libertação nacional e o caráter progressista do antifascismo. Enquanto Bilan soube ver o alistamento ideológico para a guerra imperialista e o interesse do Capital depois da mobilização dos trabalhadores espanhóis para a guerra entre Franco e a República, Trostky viu nas greves de julho de 1936 na França e na luta antifascista na Espanha o início da revolução ... No entanto, a pior coisa foi que, embora Bilan ainda não estivesse claro sobre a natureza exata da URSS, ele estava claro que ela não poderia ser apoiada de forma alguma e que a URSS era um agente ativo na guerra que estava sendo preparada. Por outro lado, Trotsky com suas especulações sobre a URSS como um "Estado operário degenerado" abriu a porta para apoiar a URSS como forma de apoiar a segunda carnificina mundial de 1939-45.

O papel da extrema esquerda do capital contra o ressurgimento da luta operária em 1968

Desde 1968, a luta proletária renasceu em todo o mundo. O Maio francês, o "Outono quente" italiano, o "Cordobazo" argentino, o Outubro polaco, etc. são expressões desse combate vigoroso. Esta luta dá origem a uma nova geração revolucionária. Muitas minorias de trabalhadores estão a surgir em todo o lado e tudo isto constitui uma força fundamental para o proletariado.

No entanto, é importante salientar o papel de destruição destas minorias desempenhado pelos grupos de extrema-esquerda do capital. O trotskismo de que já falamos, o anarquismo oficial[4] e, finalmente, o maoísmo. Em relação a este último, é de notar que nunca foi uma corrente proletária. Os grupos maoístas nascem das disputas e das guerras de influência imperialistas entre Pequim e Moscou que levaram à ruptura entre os dois Estados e ao alinhamento de Pequim com o imperialismo norte-americano em 1972.

Calcula-se que em 1970 havia mais de cem mil militantes no mundo que, embora com enorme confusão, se pronunciaram a favor da revolução, contra os partidos de esquerda tradicionais (PS, PC), contra a guerra imperialista e procuraram promover a luta proletária em curso. Uma imensa maioria deste importante contingente foi recuperada por esta constelação de grupos de extrema-esquerda. A Série que estamos escrevendo demonstrará meticulosamente todos os mecanismos através dos quais eles exercitaram essa recuperação. Falaremos não só do programa capitalista envolto em bandeiras radicais e "operárias", mas dos métodos organizacionais, de debate, de funcionamento, de moralidade, que empregaram.

O certo é que sua ação foi muito importante para destruir o potencial da classe operária de construir uma ampla vanguarda para seu combate. Os potenciais militantes foram desviados para o ativismo e o imediatismo, canalizados para o combate estéril dentro dos sindicatos, municipalidades, campanhas eleitorais, etc.

Os resultados foram conclusivos:

  • A maioria abandonou a luta profundamente decepcionada e caindo no ceticismo sobre a luta dos operários e a possibilidade do comunismo; uma parte não desprezível deste setor caiu nas drogas, nas bebidas, no mais absoluto desespero;
  • Uma minoria permaneceu como uma tropa de base de sindicatos e partidos de esquerda, propagando uma visão céptica e desmoralizante da classe trabalhadora;
  • Outra minoria, mais cínica, fez carreira em sindicatos e partidos de esquerda, embora alguns desses "vencedores" passaram a fazer parte dos partidos de direita[5].

Os militantes comunistas são um bem vital para o proletariado e a tarefa central dos atuais grupos de esquerda comunista que hoje herdaram a trajetória de Bilan, Internationalisme etc., é tirar todas as lições do que permitiu aquele enorme sangramento de forças militantes que o proletariado sofreu em seu despertar histórico de 1968. Uma falsa visão da classe trabalhadora

Para realizar seu trabalho sujo de enquadramento, divisão e confusão, os partidos de esquerda e extrema esquerda propagam uma falsa visão da classe operária. Ela permeia os militantes comunistas, deformando o seu pensamento, o seu comportamento e as suas abordagens. É, pois, vital identificá-la e combatê-la.

Uma soma de cidadãos individuais

Para a esquerda e a extrema-esquerda, os trabalhadores não formam uma classe social antagônica ao capitalismo, mas uma soma de indivíduos. São a parte "inferior" da "cidadania". Como tal, os proletários individuais teriam de aspirar a uma "situação estável", um "preço justo" pelo seu trabalho, um "respeito pelos seus direitos", etc.

Isso permite que a esquerda esconda algo essencial: a classe operária é uma classe indispensável para a sociedade capitalista porque sem o seu trabalho associado ela não poderia funcionar, mas, ao mesmo tempo, é uma classe excluída da sociedade, estranha a todas as suas regras e normas vitais, e, portanto, é uma classe que só pode ser realizada como tal pela abolição da sociedade capitalista de cima para baixo. Em vez desta realidade aparece a ideia de uma classe "integrada", que através de reformas e participação nas instituições poderia satisfazer os seus interesses.

Em seguida, esta visão dissolve a classe operária na massa amorfa e interclassista da "cidadania". Em tal magma o trabalhador aparece igual ao pequeno burguês que o engana, o policial que o reprime, o juiz que o condena ao despejo, o político que o engana e até a "burguesia progressista". As noções de classe social e antagonismo de classe desaparecem para dar lugar à noção de cidadãos da nação, a falsa "comunidade nacional".

Apagada das mentes da classe trabalhadora, a noção de classe também desaparece da noção fundamental de classe histórica. O proletariado é uma classe histórica que, além da situação de suas diferentes gerações ou setores geográficos, tem em suas mãos um futuro revolucionário, o estabelecimento de uma nova sociedade que supera e resolve as contradições que levam o capitalismo à destruição da humanidade.

Ao varrer as noções vitais e científicas de classe, antagonismo de classes e classe histórica, a esquerda e a extrema esquerda do capital reduzem a revolução ao nível de uma esperança piedosa que deve ser deixada nas mãos "especializadas" de políticos e partidos. Eles introduzem a noção de delegação de poder, um conceito que é perfeitamente válido para a burguesia, mas absolutamente destrutivo para o proletariado. Na verdade, a burguesia, a classe exploradora que detém o poder econômico, pode confiar a gestão de seus negócios a uma equipe política especializada que forma uma camada burocrática com seus próprios interesses dentro do quadro do capital nacional.

Não é o mesmo para o proletariado, que é ao mesmo tempo uma classe explorada e revolucionária, que não possui nenhum poder econômico, mas sua única força é sua consciência, sua unidade e sua solidariedade, sua autoconfiança, ou seja, fatores que são radicalmente destruídos se contar com uma camada especializada de intelectuais e políticos.

Armados por essa delegação, os partidos de esquerda e extrema esquerda defendem a participação nas eleições como forma de "barrar o caminho para a direita". Ou seja, eles destroem nas fileiras dos trabalhadores a ação autônoma como uma classe para se transformarem em uma massa de cidadãos votantes. Uma massa individualizada, cada um fechado nos seus "próprios interesses". A unidade e a auto-organização do proletariado são assim esmagadas.

Finalmente, os partidos de esquerda e extrema-esquerda pedem ao proletariado que se coloque nas mãos do Estado para "conseguir uma nova sociedade". Fazem a prestidigitação de transformar o carrasco capitalista que é o Estado em "amigo dos trabalhadores" ou seu aliado.

Uma massa de perdedores imersos em materialismo vulgar

A esquerda e os sindicalistas propagam uma visão materialista vulgar dos proletários. Segundo eles, os proletários são indivíduos que só pensam em sua família, em seu conforto, em ter o melhor carro, na casa mais luxuosa, afogados por esse consumismo, não têm "ideal" de luta, preferem ficar em casa para ver futebol ou ir ao bar com seus amigos. Para completar o ciclo, eles afirmam que os trabalhadores estão endividados até aos fios do cabelo para pagar por seus caprichos consumistas e, portanto, são incapazes de qualquer luta[6].

Com estas lições de moralidade hipócrita, transformam a luta operária, que é uma necessidade material, num ideal voluntarista, enquanto o comunismo, objetivo último da classe trabalhadora, é uma necessidade material em resposta às contradições insolúveis do capitalismo[7]. Separam e opõem a luta reivindicativa à luta revolucionária, quando há uma unidade entre os dois porque a luta do proletariado é, como dizia Engels, econômica, política e uma batalha de ideias.

Privar nossa classe dessa unidade leva à visão idealista de uma luta "suja", "egoísta" e "materialista" pelas necessidades econômicas e uma luta "gloriosa" e "moral" pela "revolução". Isto desmoraliza profundamente os proletários que se envergonham e se sentem culpados por se preocuparem com as necessidades de suas vidas, de seus filhos e vizinhos, de serem indivíduos rastejantes que só pensam no dinheiro. Com estas falsas abordagens que seguem a linha cínica e hipócrita da Igreja Católica, a esquerda e a extrema esquerda minam a partir de dentro a autoconfiança dos trabalhadores como classe e tentam apresentá-los como a parte "mais baixa" da sociedade.

Com isso convergem com a ideologia dominante que apresenta o proletariado como a classe dos perdedores. O famoso "senso comum" diz que um proletário é um indivíduo que se ele permaneceu um proletário é porque ele não é bom para outra coisa ou não lutou o suficiente para subir na escala social. Os proletários seriam os preguiçosos, os sem aspirações, os que não "conseguiram" ...

É realmente o mundo de cabeça para baixo! A classe social que produz através de seu trabalho associado as principais riquezas da sociedade seria composta dos piores elementos desta. Uma vez que o proletariado agrupa a maioria da sociedade, verificar-se-ia que a sociedade é fundamentalmente constituída por indivíduos preguiçosos, fracassados, sem instrução e desmotivados. Além de explorar o proletariado, a burguesia goza com ele. Ela, que é uma minoria que vive dos esforços de milhões de seres humanos, tem a audácia de considerar os proletários indolentes, fracassadas, inúteis e sem aspirações.

A realidade social é radicalmente diferente: no trabalho mundialmente associado do proletariado desenvolvem-se laços culturais, científicos e, simultaneamente, laços humanos profundos, a solidariedade, a confiança, um espírito crítico. São a força que silenciosamente, move a sociedade, fonte do desenvolvimento das forças produtivas.

A aparência do proletariado é a de uma massa anônima, anódina e silenciosa. Esta aparência é o resultado de uma contradição sofrida pelo proletariado enquanto classe explorada e revolucionária. Por um lado, é a classe de trabalho associado e, como tal, move as rodas da produção capitalista e tem em suas mãos as forças e capacidades para mudar radicalmente a sociedade. Mas, por outro lado, a concorrência, a mercadoria, a vida normal de uma sociedade onde reina a divisão e todos estão contra todos, esmagá-lo como uma soma de indivíduos, cada um desamparado, com o sentimento de fracasso e culpa, separado dos outros, atomizado, forçado a lutar apenas por si mesmo.

A esquerda e a extrema esquerda do capital, em linha com a ideologia burguesa, querem que vejamos apenas essa massa amorfa de indivíduos atomizados. Com isso, servem ao Capital e ao Estado em sua tarefa de desmoralizar e excluir a classe trabalhadora de qualquer perspectiva social.

Aqui vemos o que dissemos no início: a concepção do proletariado como a soma dos indivíduos. No entanto, o proletariado é uma classe e age como tal toda vez que, com uma luta consistente e autônoma, consegue se libertar das correntes que o oprimem e atomizam. Então, não só vemos uma classe em ação, mas também vemos cada um de seus componentes transformados em seres que agem, lutam, pensam, tomam iniciativas, desenvolvem a criatividade. Isso foi visto nos grandes momentos de luta de classes, como, por exemplo, nas revoluções russas de 1905 e 1917. Como Rosa Luxemburgo justamente apontou na Greve de massa, partido e sindicatos, "na tempestade do período revolucionário até o proletário, um pai de família prudente transforma-se num "revolucionário romântico", para quem o próprio bem supremo, vida, e, mais ainda, o bem-estar material tem pouco valor em relação ao ideal da luta".

Como classe, a força individual de cada proletário liberta-se, livra-se dos seus obstáculos, desenvolve o seu potencial humano. Como a soma dos indivíduos, as capacidades de cada um são aniquiladas, diluídas, desperdiçadas para a humanidade. A tarefa da esquerda e da extrema esquerda do capital é manter os trabalhadores dentro das cadeias de cidadania, ou seja, da soma dos indivíduos.

Uma classe com o relógio parado nas tácticas do século XIX

Em geral, na ascendência do capitalismo e mais especificamente no seu apogeu (1870-1914), a classe operária podia lutar por melhorias e reformas no âmbito do capitalismo, sem considerar imediatamente a sua destruição revolucionária. A isto correspondia, por um lado, a constituição de grandes organizações de massas (partidos socialistas, sindicatos, cooperativas, universidades de trabalhadores, associações de mulheres e jovens, etc.) e, por outro lado, táticas de luta que incluíam participação em eleições, ações de pressão, greves planejadas pelos sindicatos, etc.

Estes métodos tornaram-se cada vez mais inadequados desde o início do século XX. Nas fileiras revolucionárias houve um amplo debate que se opôs, por um lado, o Kautsky, apoiador deles, e, por outro, a Rosa Luxemburg[8] que, tirando lições da revolução russa de 1905[9], mostrou claramente que a classe operária estava orientada para novos métodos de luta correspondentes à nova situação que se aproximava, com guerras generalizadas, a crise capitalista, etc., isto é, a queda do capitalismo em sua época de decadência. Os novos métodos de luta foram baseados na ação direta das massas, na auto-organização do proletariado nas Assembleias e Conselhos de Trabalhadores, na    abolição da velha divisão entre o programa mínimo e o programa máximo. Estes métodos colidiram frontalmente com o sindicalismo, as reformas, a participação eleitoral e a via parlamentar.

A esquerda e a extrema-esquerda do capital focalizam sua política em encerrar a classe trabalhadora naqueles velhos métodos que hoje são radicalmente incompatíveis com a defesa de seus interesses imediatos e históricos. Pararam o relógio da história de forma interessada nos anos "dourados" de 1890 a 1910 com toda sua rotina cada vez mais desmobilizadora de participação eleitoral, ações sindicais, participação passiva em eventos "partidários", manifestações pré-agendadas, etc.., uma rotina que transforma os proletários em "bons cidadãos trabalhadores", ou seja, em seres passivos, atomizados, que se submetem disciplinadamente a tudo o que o capital precisa: trabalhar duro, votar a cada quatro anos, gastar a sola  dos sapatos em marchas sindicais, continuar sem reclamar aos autoproclamados líderes.

Esta política é vergonhosamente defendida pelos partidos socialista e comunista, enquanto os seus apêndices "mais à esquerda" a reproduzem com toques "críticos" e tons "radicais". Ambos defendem uma visão da classe operária como classe do capital, que deve submeter-se a todos os seus imperativos e contentar-se com algumas supostas migalhas que, de vez em quando, caem da sua mesa dourada.

C.Mir 18-12-17


[1] Os clássicos partidos de direita (conservadores, liberais, centrais, progressistas, democratas, radicais) complementam o seu controle da sociedade com partidos de extrema direita (fascistas, neonazistas, populistas de direita, etc.). A natureza desta última é mais complexa, ler em espanhol Contribución sobre el problema del populismo, junio de 2016,

[2] Para um estudo sobre como o oportunismo penetra e destrói a vida proletária da organização, com todas as suas consequências desastrosas, ler em espanhol 1914 – El camino hacia la traición de la socialdemocracia alemana. Revista internacional n° 153.

[4] Não estamos falando aqui dos grupos mais minoritários do anarquismo internacionalista, que, apesar de suas confusões, reivindicam muitas posições da classe operária e tem se manifestado claramente contra a guerra imperialista e pela revolução proletária.

[5] Os exemplos são abundantes. Durão Barroso, Presidente da União Europeia, era maoísta na sua juventude. Cohn Bendit é membro do Parlamento Europeu; Lionel Jospin, antigo primeiro-ministro francês, foi trotskista na sua juventude...

[6] É preciso reconhecer que o consumismo - promovido desde a década de 1920 nos Estados Unidos e depois da Segunda Guerra Mundial estendido a outros países industrializados - tem contribuído para minar a visão vindicativa nas fileiras da classe trabalhadora, pois as necessidades que todo trabalhador tem de viver são deformadas pelo viés consumista, transformando-as em um assunto individual que "tudo pode ser obtido através do crédito".

[8] Ler em espanhol o livro "Debate sobre la huelga de masas” (textos de Parvus, Mehring/ Luxemburg/ Kautsky/ Vandervelde/Anton Pannekoek)

[9] Veja o livro clássico de Rosa Luxemburg  "Greve de massas, partido y sindicatos"