1) Existe uma diferença fundamental entre a evolução dos partidos da burguesia e a evolução dos partidos da classe trabalhadora. Os primeiros, por serem órgãos políticos de uma classe dominante, conseguem atuar dentro da classe trabalhadora, e alguns de fato o fazem, pois fazem parte da divisão do trabalho entre as forças políticas da burguesia, tendo recebido a tarefa específica de mistificar o proletariado, de controlar e sabotar sua luta por dentro. Para tanto, a burguesia prefere utilizar antigas organizações da classe trabalhadora que migraram para o campo burguês.
Por outro lado, a situação inversa de uma organização proletária atuando dentro do campo da burguesia jamais poderá existir. Isso se aplica ao proletariado, assim como a qualquer classe oprimida, devido ao lugar que ocupa na história como classe explorada, que jamais poderá ser uma classe exploradora.
Essa realidade pode, portanto, ser resumida nas seguintes afirmações sucintas:
-- pode haver, deve haver e sempre haverá organizações políticas burguesas atuando dentro do proletariado;
-- como toda a experiência histórica demonstra, jamais poderão existir partidos políticos proletários atuando dentro do campo burguês.
2) Isso não se aplica apenas a partidos políticos estruturados. Aplica-se também às correntes políticas divergentes que podem surgir dentro desses partidos. Embora membros de partidos políticos existentes possam transitar de um campo para o outro, e isso em ambas as direções (do proletariado para a burguesia e da burguesia para o proletariado), essa transição só pode ocorrer individualmente. Por outro lado, a passagem coletiva de um organismo político já estruturado ou em formação nos partidos existentes só pode ocorrer em uma direção: dos partidos do proletariado para a burguesia, e nunca na direção oposta: dos partidos burgueses para o proletariado. Ou seja, em nenhum caso um conjunto de elementos derivados de uma organização burguesa pode evoluir em direção a posições de classe sem uma ruptura clara com qualquer ideia de manter uma continuidade com sua atividade coletiva anterior no campo da contrarrevolução. Em outras palavras: dentro das organizações do proletariado, podem se formar e desenvolver tendências que se movem em direção às posições políticas da burguesia e que difundem a ideologia burguesa na classe trabalhadora. Mas isso é absolutamente excluído nas organizações da burguesia.
3) A explicação dos pontos acima reside no fato essencial de que a classe economicamente dominante na sociedade também é dominante nos níveis político e ideológico. Esse fato também explica:
-- a influência exercida pela ideologia da burguesia sobre a imensa maioria da classe trabalhadora, uma ideologia da qual, até a revolução, a maioria só conseguiu se desvencilhar de maneira muito parcial;
-- as vicissitudes e dificuldades do processo pelo qual a classe como um todo toma consciência de seus interesses e, sobretudo, de sua existência histórica , resultando no movimento constante de suas lutas por meio de vitórias e derrotas parciais que se expressam em avanços e retrocessos na extensão de sua tomada de consciência;
-- o fato obrigatório e inelutável de que apenas uma pequena minoria da classe é capaz de se desvencilhar suficientemente (mas não totalmente) do domínio da ideologia burguesa dominante para empreender o trabalho teórico sistemático e coerente, elaborar os fundamentos políticos necessários para fertilizar o processo pelo qual a classe se torna consciente e o desenvolvimento da luta imediata e histórica da classe;
-- a função indispensável e insubstituível atribuída às minorias que a classe gera(secreta), função que não pode ser desempenhada por indivíduos ou por pequenos clubes intelectuais, mas apenas por elementos que se elevaram a uma compreensão das tarefas para as quais a classe, no desenvolvimento de sua luta, os produziu. Somente dando a si mesma uma estrutura, dando origem a uma organização política centralizada com atividade militante na luta operária, é que essa minoria, produzida pela classe, pode exercer sua função de ser um fator ativo, um crisol no qual e com o qual a classe forja as armas de que necessita para sua vitória final;
-- a razão pela qual correntes oportunistas e centristas podem se manifestar dentro da classe explorada e revolucionária e nas organizações dessa classe, e somente nessa classe e em suas organizações. Nesse sentido, falar de oportunismo e centrismo (em relação ao proletariado) na burguesia não faz sentido, porque uma classe dominante jamais renunciará voluntariamente aos seus privilégios em favor da classe que explora (é precisamente isso que a torna uma classe dominante).
4) Há duas fontes subjacentes ao surgimento de tendências oportunistas e centristas na classe trabalhadora: a pressão e a influência da ideologia burguesa e o difícil processo de maturação da consciência no proletariado. Isso se expressa, em particular, pela principal característica do oportunismo, que consiste em isolar, separando os objetivos finais do movimento proletário dos meios que levam a eles, acabando por opor um ao outro, quando, na verdade, qualquer questionamento dos meios resulta na negação do objetivo final, assim como qualquer questionamento do objetivo final tende a comprometer o caráter proletário dos meios utilizados para atingi-lo. Como esses são elementos permanentes no confronto histórico entre o proletariado e a burguesia, fica claro que o oportunismo e o centrismo são perigos que ameaçam a classe de forma permanente, tanto no período de decadência quanto no de ascensão. Contudo, assim como essas duas fontes estão interligadas, também estão ligadas na forma como afetam o movimento de classe, a evolução geral do capitalismo e o desenvolvimento de suas contradições internas. Por isso, os fenômenos históricos do oportunismo e do centrismo se expressam de maneira diferente, com maior ou menor grau de severidade, conforme os momentos dessa evolução e desse desenvolvimento.
5) Embora a entrada do capitalismo em sua fase decadente, que impõe diretamente a necessidade da revolução, seja uma condição favorável que facilita a maturação da consciência na classe trabalhadora, essa maturação não é de forma alguma algo automático, mecânico ou predestinado.
O período de decadência do capitalismo vê, por um lado, a burguesia concentrar todo o seu poder de repressão e aperfeiçoar seus métodos de imposição de sua ideologia à classe; por outro lado, a consciência do proletariado passa por um importante e urgente desenvolvimento, visto que a alternativa histórica entre socialismo e barbárie se apresenta de forma imediata e com toda a sua gravidade: a história não concede ao proletariado um tempo ilimitado. O período de decadência, ao colocar a escolha entre guerra imperialista e revolução proletária, socialismo e barbárie, não só não faz desaparecer o oportunismo e o centrismo, como torna a luta das correntes revolucionárias contra essas tendências ainda mais aguda e amarga, em consonância com o que está em jogo na conjuntura.
6) Como a história demonstrou, a corrente oportunista aberta, por se situar em posições extremas e inequívocas, acaba, em momentos decisivos, passando definitiva e irrevogavelmente para o campo da burguesia. Já a corrente que se situa entre a esquerda revolucionária e a direita oportunista, uma corrente heterogênea que transita constantemente entre as duas e busca reconciliá-las em nome de uma unidade organizacional impossível, evolui de acordo com as circunstâncias e vicissitudes da luta do proletariado.
No momento da traição da corrente oportunista, se esta coincidir com um ressurgimento e um movimento ascendente da luta de classes, o centrismo poderá, inicialmente, representar um momento de passagem das massas trabalhadoras rumo a posições revolucionárias. O centrismo, enquanto corrente estruturada, organizada na forma de um partido, está, em circunstâncias favoráveis, destinado a explodir, com a sua maioria ou grande parte aderindo à organização recém-constituída da esquerda revolucionária, como ocorreu com o Partido Socialista Francês, o Partido Socialista Italiano e o USPD na Alemanha em 1920-21, após a Primeira Guerra Mundial e a revolução vitoriosa na Rússia.
Em contrapartida, numa situação em que o proletariado sofreu uma série de grandes derrotas, abrindo caminho para a guerra, o centrismo está inevitavelmente condenado a ficar preso nos braços da burguesia e a passar para o campo inimigo, tal como a corrente oportunista declarada.
Com toda a firmeza necessária, o partido revolucionário deve ser capaz de compreender essas duas possíveis direções que o centrismo pode seguir em diferentes circunstâncias, a fim de assumir uma postura política adequada em relação a ele. Não reconhecer essa realidade leva à mesma aberração de proclamar a impossibilidade da existência de oportunismo e centrismo na classe trabalhadora durante o período de decadência do capitalismo.
7) Quanto a esta última "teoria", toda a história da Terceira Internacional e dos Partidos Comunistas serve para demonstrar sua inutilidade, para mostrar o quão absurda ela é. Não só o oportunismo e o centrismo surgiram dentro da organização revolucionária, como, fortalecido pelas derrotas e pelo recuo do proletariado, o centrismo conseguiu dominar esses partidos e, após uma luta implacável ao longo de anos para esmagar as oposições e as frações da esquerda comunista, expulsá-las de todos os Partidos Comunistas. Tendo esvaziado esses partidos de qualquer substância de classe, transformou cada um deles em órgãos de suas respectivas burguesias nacionais.
A "teoria" da impossibilidade de existência de correntes oportunistas e centristas no proletariado durante o período de decadência pressupõe, na realidade, a existência de um proletariado puro e de partidos revolucionários puros , absolutamente e para sempre imunizados e protegidos contra qualquer penetração da ideologia burguesa. Tal "teoria" não é apenas uma aberração, mas baseia-se numa visão abstrata e idealista da classe e de suas organizações. Assemelha-se ao método de Coué (consolar-se dizendo "Estou melhorando a cada dia") e vira resolutamente as costas ao marxismo. Longe de fortalecer a corrente revolucionária, enfraquece-a ao obscurecer o perigo real que a ameaça, desviando sua atenção da indispensável vigilância contra esse perigo.
A CCI deve lutar com todas as suas energias contra essas "teorias" em geral e, em particular, dentro de suas próprias fileiras, porque elas apenas permitem que o centrismo se camufle por trás de uma fraseologia radical que, ao ostentar sua "pureza" programática, só consegue isolar as organizações revolucionárias do verdadeiro movimento da luta de classe.
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Rubrica:
Lutar contra a ideologia dominante