Desde 10 de outubro de 2025, o exército paquistanês vem bombardeando intermitentemente cidades afegãs. Depois de Cabul, Kandahar e Jalalabad também foram atingidas, e os bombardeios continuam. O objetivo é pressionar o regime afegão a proibir as atividades do Tehrik-e-Taliban (TTP) no Paquistão. Embora esses ataques ainda não tenham conseguido reduzir a atuação do TTP, bairros inteiros de cidades afegãs foram gravemente danificados, e centenas de pessoas foram mortas ou ficaram seriamente feridas.
Há oito meses, o Paquistão também decidiu interromper o comércio transfronteiriço para forçar o regime afegão a agir contra o TTP.[1] O impacto sobre a economia afegã é enorme, pois compromete gravemente o comércio, a estabilidade econômica e a vida cotidiana da população. As restrições ao abastecimento provocaram uma disparada nos preços de produtos essenciais, como farinha, óleo de cozinha, arroz e combustível. Milhares de operários, caminhoneiros e trabalhadores diaristas das províncias afegãs fronteiriças perderam seus meios de subsistência, enquanto o desemprego entre os jovens cresce rapidamente. A economia afegã corre o risco de colapsar.
O “cada um por si” imperialista leva inevitavelmente à guerra
Como explicar esse confronto entre dois países quando o movimento Talibã foi acolhido, financiado e armado pelo próprio Estado paquistanês?
Entre 2001 e 2021, os líderes talibãs foram treinados, protegidos e doutrinados dentro das fronteiras do Paquistão, frequentemente em redes de madrassas impregnadas pela ideologia islamista radical. Essas instituições funcionavam não apenas como escolas religiosas, mas também como centros estratégicos que formavam combatentes e comandantes destinados a moldar a insurgência talibã.
Em resumo, ao apoiar amplamente a luta dos talibãs, Islamabad contribuiu diretamente para a criação do atual regime afegão. Com isso, o exército e os serviços de inteligência paquistaneses esperavam obter o que os especialistas em segurança chamam de “profundidade estratégica”[2],fortalecendo sua influência no Afeganistão e permitindo um maior controle das minorias dentro de seu próprio território, ao garantir a segurança da fronteira ocidental.
Entretanto, isso não levou em conta as ambições imperialistas de seu antigo protegido. O novo regime de Cabul se recusa a subordinar seus próprios interesses às exigências paquistanesas e concede liberdade de ação — ou até apoio — ao movimento talibã paquistanês TTP. Este grupo mudou sua estratégia e passou a realizar ataques terroristas a partir do território afegão, especialmente na província paquistanesa de Khyber Pakhtunkhwa.
Segundo o ministro da Defesa do Paquistão, Khawaja Asif, os bombardeios são necessários porque o Emirado Islâmico do Afeganistão teria “trazido terroristas do mundo inteiro para o Afeganistão e exportado o terrorismo”.
Essa acusação é particularmente hipócrita. O Paquistão sempre abrigou organizações terroristas, e grupos militantes fazem parte integrante de seu aparato de segurança. O país chegou a utilizar os talibãs como força auxiliar para “pacificar” a região rebelde do Baluchistão. Durante a guerra do Afeganistão, o Paquistão intensificou sua política de uso de grupos radicalizados para cometer atos de terror e alcançar seus objetivos de política externa.
Além disso, diversos atentados terroristas ao redor do mundo foram atribuídos a grupos baseados no Paquistão. Organizações como Lashkar-e-Taiba (LeT) e Hizbul Mujahideen (HM), que atuam na Caxemira administrada pela Índia, operam há décadas a partir do território paquistanês com considerável tolerância das autoridades locais.
Por sua vez, o Emirado Islâmico do Afeganistão, embora não disponha dos mesmos recursos das grandes potências ou mesmo das potências regionais médias, compartilha as mesmas ambições imperialistas. É como no mundo do crime: enquanto o chefe controla a cidade inteira, o pequeno chefe domina apenas uma rua.
Sem capacidade para lançar uma grande ofensiva militar contra o Paquistão, Cabul recorre ao método que conhece bem: o terrorismo. Para isso, utiliza o TTP O grupo afirma que, devido à composição étnica da região, a província predominantemente pashtun de Khyber Pakhtunkhwa e as antigas Áreas Tribais Administradas Federativamente pertencem aos talibãs. Com base nessa reivindicação, conduz uma campanha de guerrilha e atentados sangrentos.
O conflito entre Paquistão e Afeganistão expressa perfeitamente a intensificação do “cada um por si” que domina cada vez mais as relações imperialistas contemporâneas. Potências regionais e organizações terroristas por elas instrumentalizadas procuram constantemente enfraquecer rivais, explorar instabilidades e obter vantagens temporárias e ilusórias, sem se submeter a alianças estáveis ou à disciplina de blocos políticos.
Ao mesmo tempo, a destruição maciça e os escombros acumulados, sem que nenhum dos lados obtenha qualquer benefício duradouro, evidenciam a total irracionalidade desses conflitos. Não há reconstrução, apenas danos colaterais. Em Cabul, muitos edifícios permanecem reduzidos a ruínas há décadas.
O conflito entre Paquistão e Afeganistão ilustra concretamente tendências mais amplas da decomposição do capitalismo: multiplicação de conflitos locais, intervenções militares incessantes, crescente irracionalidade das decisões políticas e aumento da instabilidade global.
Tensões imperialistas em toda a Ásia do Sul
O conflito não se limita às tensões entre os imperialismos paquistanês e afegão. O fato de a Índia ter condenado firmemente os ataques aéreos paquistaneses em território afegão evidencia isso.
Desde novembro de 2024, a Índia — principal rival imperialista do Paquistão, com quem esteve em guerra aberta em maio de 2025 — vem fortalecendo seus laços políticos com o regime talibã. Diante da crescente pressão da China e da política errática do governo Trump, que ameaça constantemente aumentar tarifas e se aproxima politicamente do Paquistão, o governo de Narendra Modi reforçou significativamente as relações diplomáticas, de segurança e econômicas entre Cabul e Nova Délhi.
A Índia reabriu sua embaixada em Cabul, coopera com os talibãs em áreas relacionadas ao combate aos narcóticos e à estabilidade interna, e estuda projetos para facilitar investimentos de empresas indianas no Afeganistão.
Naturalmente, o Paquistão vê essa aproximação como uma ameaça direta. O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, acusou abertamente o regime talibã de favorecer os objetivos indianos.
Além disso, a desestabilização da província de Khyber Pakhtunkhwa também preocupa profundamente a China, já que a chamada “Nova Rota da Seda” em direção ao porto paquistanês de Gwadar atravessa essa região. Pequim também observa com preocupação a crescente aproximação do Paquistão com os Estados Unidos.
Embora a China, que possui importantes interesses econômicos em ambos os países, esteja tentando mediar o conflito, o Paquistão permanece determinado a continuar sua política até que Cabul ponha fim aos ataques do TTP. Essa postura intransigente recebe apoio dos Estados Unidos.
Desde 2022, o Paquistão possui um novo governo que busca reduzir sua dependência da China. Priorizando os laços com Washington, aderiu ao Conselho para a Paz promovido por Donald Trump e procura conquistar o apoio do presidente americano na defesa dos seus interesses.[3]
Os Estados Unidos passaram a considerar o Paquistão um aliado no combate à ameaça terrorista que, segundo Washington, o Afeganistão representa para o sul da Ásia. Entre os resultados dessa cooperação estão a classificação do Exército de Libertação do Baluchistão como organização terrorista estrangeira e a prisão do responsável pelo atentado suicida no aeroporto internacional de Cabul, em 26 de agosto de 2021, que matou 182 pessoas.
Os Estados Unidos também autorizaram o Paquistão a utilizar o espaço aéreo afegão para bombardear posições estratégicas do TTP ao longo da fronteira e em determinadas cidades.
Assim, às manobras dos imperialismos locais somam-se as intrigas das grandes potências, tornando extremamente instável e imprevisível a formação de alianças no sul da Ásia. A explosão do “cada um por si” imperialista evidencia, aqui como em outras regiões, o aprofundamento do sistema no caos e na barbárie.
O capitalismo é guerra! Os proletários não têm pátria!
Além da confusão criada pelas ambições imperialistas de pequenos, médios e grandes atores, essa guerra revela uma característica mais geral do atual período de decomposição da sociedade capitalista: conflitos que persistem e se prolongam sem solução, mergulhando regiões inteiras em situações sem saída.
A decisão dos Estados Unidos de dar carta branca ao Paquistão para bombardear posições do TTP apenas aumenta o caos e o risco de conflitos regionais ainda maiores. O confronto entre Paquistão e Afeganistão demonstra como os conflitos imperialistas escapam cada vez mais ao controle das grandes potências, estejam elas envolvidas direta ou indiretamente.
Como consequência, um militarismo cada vez mais bárbaro se dissemina no mundo: multiplicação de operações militares, aumento dos bombardeios fronteiriços, proliferação de milícias armadas, atentados terroristas e propaganda nacionalista, mesmo quando essas políticas apenas ampliam a instabilidade.
O recurso crescente ao militarismo, apesar de sua evidente incapacidade de resolver os problemas políticos e as contradições subjacentes, revela o caráter profundamente irracional do sistema capitalista decadente.
Como todas as guerras, esta também é criminosa. Em primeiro lugar, porque os bombardeios paquistaneses e os atentados do TTP causam centenas de mortos e feridos. Além disso, esses regimes gastam bilhões de dólares na guerra enquanto grande parte de suas populações vive em extrema miséria.
No Paquistão, 11 milhões de pessoas sofrem de insegurança alimentar e desnutrição grave, enquanto 1,7 milhão está à beira da fome. No Afeganistão, 17,4 milhões enfrentam insegurança alimentar aguda, e 4,7 milhões correm risco de fome.
Essa guerra não corresponde aos interesses da classe trabalhadora de nenhuma região. Embora não possa permanecer indiferente diante das balas e das bombas e se solidarize com todas as vítimas, a classe trabalhadora não deve tomar partido nesses conflitos. Pelo contrário, deve denunciar todos os campos imperialistas envolvidos.
Sua solidariedade deve se expressar na luta contra a classe capitalista exploradora e no desenvolvimento da luta internacional contra todas as ilusões nacionalistas, defendendo, acima de tudo, o internacionalismo proletário.
F., 1º de junho de 2026.
[1]Organização terrorista com base no Paquistão e no Afeganistão, formada em 2007.
[2]Ver “Islamabad e Cabul: O Custo da Proximidade”, Le Monde diplomatique, maio de 2026.
[3] A família Trump demonstra seu interesse mais específico no setor de criptomoedas no Paquistão.