Há noventa anos, a revolução alemã

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Há 90 anos a revolução proletária chegava a seu auge trágico com as lutas na Alemanha de 1918-19. Depois da revolução vitoriosa de Outubro 1917 na Rússia, a Alemanha passou a ser o principal campo de batalha da revolução mundial. Aí a batalha decisiva foi travada e perdida. O movimento revolucionário na Alemanha quase conseguiu provocar a queda da dominação de classe da burguesia alemã.

Mas de que revolução alemã trata-se? Até na própria Alemanha muitos operários nada sabem deste acontecimento. A contra-revolução, notadamente sob sua forma nazista e stalinista, afetou em muito a memória coletiva do proletariado. Será que realmente houve uma revolução alemã? Para responder essa pergunta, deixemos os eventos históricos falarem por eles mesmos.

O contexto: traição da social-democracia, dos sindicatos e da retomada da luta de classe

A onda revolucionária mundial iniciou como oposição à Guerra; e isso simplesmente dois ou três anos depois da maior derrota política do movimento operário. Essa foi constituída pela queda da internacional socialista pela traição da maior parte dos partidos social-democratas que votaram a favor dos créditos de guerra, avalizando assim sua aprovação à guerra e seu alistamento a um campo imperialista. Os sindicatos assumiram essa política, mobilizando o proletariado no massacre dos seus irmãos de classe além das fronteiras.

Para os revolucionários de então, era importante que fosse a classe operária que colocasse um termo à guerra pela revolução. Qualquer outro cenário de final de guerra teria significado somente um "cessar-fogo" até a próxima guerra.

Em 1917 na Alemanha, já tinha acontecido greves massivas em solidariedade com a revolução russa. Em 1918, o proletariado na Rússia esperava ardentemente a revolução na Alemanha, perspectiva apoiada pela existência de greves massivas estourando nas grandes cidades. Entretanto, isso era somente o prelúdio da revolução. Os soldados cansavam da guerra, muitos desertavam enquanto a população na retaguarda sofria de fome.

E a revolução estourou não em Berlin onde se podia esperá-la, mas no litoral, em Wilhelmshaven.

Ao estourar, a revolução coloca um termo à guerra

No dia 4 de novembro 1918, uma parte dos marinheiros da frota se sublevou. Os rebeldes foram levados para Kiel onde a execução os esperava. O que aconteceu em reação a isso para impedir tal fim trágico? A solidariedade se expressou concretamente e foi estimulada por essa outra parte dos marinheiros que não participaram nesse primeiro ato da rebelião. Passaram três dias em discussão, com os operários e os estivadores, sobre o que fazer. No terceiro dia, milhares de operários se juntaram a eles numa grande passeata de demonstração de força.

Era o início da revolução cujo destino devia ser decidido em Berlim. Já chegavam à capital as tropas contra-revolucionarias que tinham sido utilizadas com êxito para massacrar a revolução finlandesa.

Em Berlim, no dia 9 de novembro, mais de 100.000 operários saíram das fábricas na madrugada, dirigindo-se para o centro da cidade. Fizeram paradas no caminho para arrastar massas operárias e também diante dos quartéis. Esperavam o pior, mas, apesar disso, a determinação era grande para tentar convencer os soldados. Havia cartazes dizendo "Irmãos, não atirem!". A tensão aumentava e os soldados abriram os quartéis, ajudaram a erguer a bandeira vermelha e acompanharam as massas. A guerra foi encerrada e iniciou a revolução alemã. Mas a dominação do capital não estava ainda derrubada.

O SPD[1], pilar da resistência ao desenvolvimento da revolução

Ao meio dia, diante da pressão das massas reunidas na frente do Reichstag, o reformista Scheidemann - traidor - proclamou a república alemã livre. Pouco tempo depois, Karl Liebknecht e outros prisioneiros que tinham sido libertados pelo proletariado revolucionário, estavam com 100 000 operários na frente do palácio do imperador. Proclamou a república socialista e chamou à luta pela revolução mundial. Nesse intervalo, os delegados de fábrica ocupavam uma sala do Reichstag redigindo um chamamento aos soldados e operários de Berlim para que elegessem, no dia seguinte, delegados ao conselho de operários e soldados. O conselho nomeou um governo socialista provisório sob a direção de Friedrich Ebert, chefe da fração reformista - traidora -da social-democracia.

À noite do mesmo dia, Ebert assinava um acordo secreto com o alto comando geral militar com a finalidade de esmagar a revolução.

Era o final da dominação imperial na Alemanha, por enquanto a batalha real entre proletariado e o capital estava ainda à frente.

Apesar da revolução do dia 9 de novembro ter sido liderada pelos operários, Rosa Luxemburgo chamou essa primeira fase de "revolução dos soldados", pois a principal preocupação tinha sido a paz. Uma vez a guerra acabada, a revolução tinha de enfrentar as ilusões dos soldados e operários na social-democracia. Richard Müller, delegado de fábrica e que, como Trotski na Rússia foi eleito presidente do conselho geral dos operários e soldados, confirmou que, nas reuniões do conselho, muitos soldados estavam quase para linchar qualquer revolucionário estigmatizando a social-democracia como contra-revolucionária.

Apesar disso, segundo os revolucionários, a revolução se mantinha proletária, pois tinha criado conselhos operários e de soldados, os próprios órgãos de poder. A própria existência destes órgãos, apesar de serem dominados pela social-democracia, constituía uma declaração de guerra aos próprios órgãos de poder na Alemanha. Isso significava o começo da guerra civil na Alemanha. A questão fundamental era: Serão os conselhos e a classe operária capazes de impulsionar para diante o projeto revolucionário? O tempo jogava a favor do proletariado, pois era cada vez mais claro que, apesar do fim da guerra, seus problemas não deixavam de exigir uma solução urgente: a fome, a inflação, as reduções de salário, a aceleração do desemprego, etc.

No final de 1918, foi realizado o congresso do Spartakusbund e dos comunistas internacionalistas da Alemanha (Esquerda de Bremen). Foi o congresso de fundação do KPD.

As reivindicações econômicas tinham jogado um papel secundário durante a revolução de novembro. Precisava da segunda fase caracterizada pela luta massiva do conjunto do proletariado combinando as reivindicações econômicas e políticas.

Naturalmente, a contra-revolução não estava alheia. Estava ocupada em preparar o esmagamento da revolução através de provocações. A social-democracia era o cérebro dessa estratégia que se apoiava sobre as ilusões de muitos operários sobre este partido que consideravam ainda como proletário, apesar dele ter traído a classe operária em 1914.

A guerra civil na Alemanha 1918 - 19

O estado de dissolução do exército dificultava sua utilização como instrumento do terror branco. É por conta disso e com objetivo de assumir esta tarefa que foram fundados Corpos-Francos que, mais tarde, constituirão a coluna vertebral do movimento nazista.

A Social-democracia justificava nas mídias o terror branco na luta contra os "Spartaquistas assassinos". Ao mesmo tempo, o principal jornal social-democrata, Vorwärts, instigava abertamente o assassinato de Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo.

Houve três ofensivas abertas da burguesia contra a revolução:

  • A primeira: No dia 6 de dezembro, a sede do jornal spartaquista Rote Fahne foi atacada; e logo depois uma manifestação de Spartacus foi atacada de surpresa perto do centro da cidade; houve uma tentativa de deter e assassinar Liebknecht. Em reação houve as primeiras manifestações em solidariedade com o Spartakusbund em Berlin e greves na indústria pesada na Alta-Silésia e em Ruhr.
  • A segunda ofensiva da contra-revolução foi o assalto da divisão de marinheiros armados que ocupavam o arsenal em Berlim. A presença desta constituía uma mera provocação à burguesia, pois tinham trazido a revolução do litoral para a capital. Campanhas das mídias preparando a ação militar acusaram os marinheiros de serem assassinos, ladrões e Spartaquistas. Assim que os marinheiros foram atacados, numerosos operários, mulheres e filhos, despertados pelo barulho chegaram espontaneamente para apoiá-los. Muitos entre eles, sem nenhuma arma, ficaram entre os soldados e os alvos de seus tiros, os marinheiros. Sua coragem e capacidade de persuasão fizeram com que os soldados baixassem suas armas e tomassem as de seus oficiais. No dia seguinte, em Berlim, houve a manifestação mais massiva desde o início da revolução, desta vez contra o SPD.

O SPD e as elites militares se deram conta de que os ataques diretos contra símbolos da revolução, como Liebknecht ou a divisão de marinheiros, só faziam fortalecê-la, pois resultavam em reações de solidariedade e de protesto no seio do proletariado. É a razão pela qual o alvo da terceira ofensiva não teve nada a ver com tal símbolo: o chefe de polícia de Berlim, Emil Eichhorn, membro da esquerda da USPD, fração centrista da Social-democracia, oscilando entre a direita reformista e traidora e a esquerda marxista, os Spartaquistas. Foi por "capricho do destino" que tal homem se encontrava em tal lugar. A contra-revolução esperava pouca solidariedade dos operários para Eichhorn, e uma reação limitada do proletariado em Berlim poderia ser esmagada antes dela receber o apoio da província. Ai começou uma campanha contra o prefeito Eichhorn. Mas os operários entenderam que o ataque ao prefeito era um ataque à revolução. No dia seguinte, 500 000 operários manifestaram em Berlim.

Todas essas reações do proletariado constituíram na realidade etapas na direção da revolução permitindo ao proletariado fortalecer a confiança em si mesmo.

Nesse período, o Rote Fahne do KPD apoiava a necessidade de novas eleições nos conselhos, totalmente dominados pelo SPD e pelo USPD para que se refletisse neles a evolução dos operários para as posições da esquerda. Além disso, conclamava o armamento dos operários sem deixar de evidenciar que a hora da tomada do poder não tinha chegado ainda, pois o resto do país não estava tão avançado como em Berlim.

Uma armadilha fatal contra a revolução em janeiro de 1919

Os chefes revolucionários se reuniram para dar objetivos a essa massa de 500 000 operários nas ruas de Berlim. Participaram 70 delegados de fábrica (esquerda do USPD e próximos ao KPD), Karl Liebknecht e Wilhelm Pieck pelo KPD e, mais tarde, alguns chefes da USPD. Tinham recebido relatórios informando que algumas guarnições militares tinham expressado sua vontade em participar da insurreição armada. Os chefes revolucionários estavam indecisos. Chegaram outras informações dizendo que o bairro "dos jornais", e em particular o Vorwärts, tinha sido ocupado. Aí perderam a cabeça. De repente Karl Liebknecht se posicionou a favor da tomada do poder. A greve geral foi votada e houve uma grande maioria a favor de derrubar o governo e manter a ocupação do bairro dos jornais (só seis votaram contra). Além disso, fundaram um Comitê provisório de iniciativa revolucionária. O proletariado tinha caído na armadilha. Logo foi comprovado que os relatórios recebidos eram falsos.

A direção do KPD ficou horrorizada quando soube da insurreição proposta. Neste instante, era claro que as advertências de Rosa Luxemburgo contra uma insurreção prematura não tinham sido entendidas. O que podia ser feito para libertar o proletariado desta armadilha? O KPD logo encontrou uma postura comum. Até agora tinha sido contra uma insurreição prematura. Já que o erro foi cometido, julgaram que deviam apoiar totalmente a classe nesta orientação. Só a tomada do poder em Berlim podia doravante impedir um derramamento de sangue.

Apesar dos operários terem evoluído para a esquerda desde 1918 e desconfiarem cada vez mais da social-democracia isso não implicava que a liderança política estava claramente entre as mãos do KPD. Não havia tal liderança revolucionaria clara e reconhecida do proletariado e isso constituía uma fraqueza crucial para ele. Na realidade a liderança estava nas mãos dos centristas da USPD. Sua política de oscilações confundia os operários, especialmente quando o Comitê provisório de iniciativa revolucionária (do qual os membros do KPD tinham saído) iniciou negociações com o SPD em lugar de combatê-lo.

Chegou o momento que era esperado pela reação há muito tempo. O terror branco atacou com força através da artilharia, de assassinatos, atos de violência contra os operários e soldados, maltratando mulheres e crianças. Além disso, a contra-revolução lançou rapidamente a caça sistemática contra Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Mas a batalha não estava ainda definida.

Diante da inflação, das demissões, do desemprego massivo, as greves massivas se estenderam no país inteiro, particularmente na Alta-Silesia, na Renânia, em Westphalia (ao longo do Ruhr) e na Alemanha central. A região do Ruhr especificamente era muito combativa com milhões de mineiros e operários siderúrgicos implicados nas greves e outras ações.

Enquanto a greve de massa se expandia no país inteiro, a Berlim revolucionária lutava pela sua sobrevivência.

No dia 15 de janeiro, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht foram detidos e brutalmente assassinados pelos Corpos Francos. No dia seguinte a mídia disseminava a mentira segundo a qual Rosa Luxemburgo foi linchada pela multidão exasperada e que Liebknecht foi morto quando tentou fugir. Alguns dias mais tarde, já estava claro que tudo isso era mentira. Quando os operários tomaram conhecimento do assassinato foram tomados por um sentimento de horror. No dia 25 de janeiro, o carrasco Noske do SPD pôde proclamar o estado de guerra em Berlim sem ter medo das reações do proletariado. O SPD instalou uma ditadura militar.

A luta pelo prosseguimento da revolução foi derrotada

Diante da repressão na Renânia e Westphalia, a greve retomou vigor em todo país até que as guarnições militares como nas cidades de Erfurt e Merseburg deram explicitamente seu apoio aos operários revolucionários. Nesse instante, a greve tinha alcançado seu auge. A única possibilidade de passar para uma etapa superior era que os operários de Berlim se juntassem a greve. No dia 25 de fevereiro a greve geral era total e o governo tinha fugido para a pequena cidade de Weimar. Depois de ter assistido aos atos sangrentos do SPD em Berlim e em outros locais, os operários não acreditavam mais nos seus apelos pela paz.

O SPD tentou impedir a greve em Berlim por todos os meios. O conselho geral do soviete hesitava. A decisão foi finalmente tomada pelos próprios operários que enviaram delegados das grandes fábricas para informar ao conselho que todas as fábricas já tinham votado a greve. A greve geral se expandiu na cidade inteira. Diante desta situação, os delegados do SPD no conselho operário e de soldados votaram a favor da revolução, contra a linha de seu partido.

Foi um momento trágico: o proletariado de Berlim conseguiu mais uma vez se levantar para seguir seus irmãos e irmãs de classe, porém tarde demais. A greve na Alemanha central, que tinha esperado tanto por um sinal de Berlim, estava acabando. O trauma de Janeiro 1919 tinha sido fatal. A hora da contra-revolução tinha chegado. O terror branco foi desencadeado no país inteiro, mais particularmente em Berlim. Milhares de operários revolucionários e revolucionárias foram caçados e assassinados. Entre eles, Jogiches.

Conclusão

Terminamos destacando os ensinamentos essenciais da revolução alemã:

  • Ela foi feita pelas massas proletárias e teve como primeiro efeito o de obrigar a buguesia colocar um termo final à Primeira Guerra mundial para não correr o risco de precipitar o desenvolvimento da revolução mundial;
  • Faltou pouco para que a revolução conseguisse derrubar a burguesia na Alemanha. Obviamente tal conclusão teria levado à possibilidade da vitória da revolução em escala mundial;
  • Um fator essencial da derrota era que a revolução alemã foi confrontada com um inimigo muito mais forte do que na Rússia. O SPD, partido socialista, contribuiu em muito para dar essa força à burguesia. Com efeito, soube aproveitar-se da confiança que ainda gozava no seio da classe operária para assumir o papel de verdugo da revolução e do proletariado.

       Corrente Comunista. Internacional

[1] Partido Social-democrata de Alemanhã.