A esquerda comunista e a continuidade do marxismo

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Artigo publicado em Tribuna Proletária (Rússia)
 

1. Desde a derrota da onda revolucionária internacional de 1917-23 poucos termos foram tão deformados ou mal empregados como socialismo, comunismo, e marxismo. A idéia de que os regimes estalinistas do antigo bloco dos países do Leste, ou países como a China, Cuba e Coréia do Norte atualmente, sejam expressões de comunismo ou marxismo é em realidade a Grande Mentira do século XX, uma mentira perpetuada deliberadamente por todas as facções da classe dominante, da extrema direita à extrema esquerda. Durante a guerra mundial imperialista de 1939-45, o mito da "defesa da pátria socialista" foi utilizado conjuntamente com o "antifascismo" e a "defesa da democracia" para mobilizar os trabalhadores tanto fora como dentro da Rússia para o maior massacre na história da humanidade.

Durante o período de 1945-89, dominado pelas rivalidades entre os dois gigantescos blocos imperialistas sob a liderança americana e russa, a mentira se utilizou mais extensivo: no leste, para justificar as ambições imperialistas do capital russo; no oeste, como cobertura para o conflito imperialista ("defesa da democracia contra o totalitarismo soviético") e como meio para envenenar a consciência da classe operária exibiam-se os campos de trabalho russos (o famoso GULAG) e perguntavam à população ocidental: Se isso é o socialismo não preferiria ter capitalismo apesar de todos seus enganos?

Este tema voltou ainda mais ensurdecedor quando se disse que o colapso do bloco dos países do Leste significaria a "morte do comunismo", a "bancarrota do marxismo", e inclusive o fim da própria classe trabalhadora. Por sua parte, a "extrema" esquerda do capitalismo lhe adicionou mais moenda a este moinho burguês. Os trotskistas em particular, que seguiram encontrando "fundamentos proletários" no edifício estalinista, apesar das suas graves "deformações burocráticas".

2. Este montão de distorções ideológicas também serviu para obscurecer a continuidade real e o desenvolvimento do marxismo no século XX. Os falsos defensores do marxismo - os estalinistas, os trotskistas, e, todo tipo de "marxólogos" acadêmicos, modernizadores e filósofos - ocuparam o centro de atenção, enquanto seus verdadeiros defensores foram desterrados a um segundo plano, descartados como seitas irrelevantes, e ou como supostos fósseis de um mundo perdido, quando não foram diretamente reprimidos e silenciados. Para reconstruir a continuidade autêntica do marxismo neste século, é necessário, portanto, começar com uma definição do que é o marxismo. Desde sua primeira grande declaração no Manifesto Comunista de 1848, o marxismo se auto-definiu não como um produto de "pensadores" isolados ou gênios, mas sim como a expressão teórica do movimento real do proletariado.

Como tal, só pode ser uma teoria de combate, a qual prova sua adesão à causa da classe explorada pela defesa intransigente dos interesses imediatos e históricos desta. Esta defesa, embora apoiada em uma capacidade para permanecer fiel a princípios fundamentais e inalteráveis tais como o internacionalismo proletário, também envolve o enriquecimento da teoria marxista em relação direta e viva com a experiência da classe trabalhadora. Além disso, como o produto de uma classe que personifica trabalho coletivo e luta, o marxismo mesmo só pode desenvolver-se através de coletivos organizados - através de frações e partidos revolucionários. Desta maneira o Manifesto Comunista apareceu como o programa da primeira organização marxista na história - a Liga dos Comunistas.

3. No século XIX, quando o capitalismo era ainda um sistema em expansão, ascendente, a burguesia tinha menos necessidade de esconder a natureza exploradora de seu domínio pretendendo que negro era branco e que o capitalismo era em realidade socialismo. Perversões ideológicas deste tipo são sobretudo típicas da decadência histórica do capitalismo, e se expressam mais claramente pelos esforços da burguesia para utilizar o mesmo "marxismo" como uma ferramenta de mistificação. Mas ainda na fase ascendente do capitalismo, a pressão implacável da ideologia dominante, tomou freqüentemente a forma de versões falsas do socialismo que penetraram de contrabando no movimento operário. Foi por esta razão que o Manifesto Comunista se viu obrigado a distinguir do socialismo "feudal", "burguês" e "pequeno burguês" e que a fração marxista da Primeira Internacional teve que travar uma batalha em duas frentes, por um lado contra o Bakuninismo e pelo outro, contra o "socialismo de estado" Lasalleano.

4. Os partidos da Segunda Internacional tiveram a sua fundação sobre a base do marxismo, e neste sentido representavam um passo considerável com respeito a Primeira Internacional, a qual tinha sido uma coalizão de diferentes tendências dentro do movimento operário. Entretanto, como existiram em um período de enorme crescimento capitalista, foram particularmente vulneráveis às pressões que as empurravam à integração no sistema capitalista. Estas pressões se expressaram através do desenvolvimento das correntes reformistas que começaram a argumentar que deviam ser "revisadas" as previsões do marxismo com referência à queda inevitável do capitalismo e, que seria possível evoluir pacificamente para o socialismo sem nenhuma interrupção revolucionária.

Durante este período - particularmente em finais de 1890 e princípio de 1900 - a continuidade do marxismo foi defendida pelas correntes de "esquerda" que eram as mais intransigentes na defesa dos princípios básicos marxistas, e as primeiras em ver as novas condições que surgiam para a luta proletária enquanto o capitalismo alcançava os limites de sua era ascendente. Os nomes que personificam a ala esquerda da social democracia são bem conhecidos - Lênin na Rússia, Luxemburgo na Alemanha, Pannekoek na Holanda, Bordiga na Itália - mas também é importante recordar que nenhum destes militantes trabalhou de maneira isolada. Cada vez mais, enquanto a gangrena do oportunismo se pulverizava pela Internacional, eles se viram obrigados a trabalhar como frações organizadas, os Bolcheviques na Rússia, o grupo Tribuna na Holanda, e assim sucessivamente, cada um dentro de seus partidos respectivos e internacionalmente.

5. A guerra imperialista de 1914 e a Revolução Russa de 1917 confirmaram a visão marxista de que o capitalismo entraria indevidamente em sua "época de revolução social", e precipitaram uma separação fundamental no movimento operário. Pela primeira vez, organizações que se reclamavam de Marx e Engels se encontraram em lados distintos das barricadas: os partidos oficiais social-democratas, a maioria dos quais tinham passado à direção de antigos "reformistas", apoiaram a guerra imperialista invocando os escritos de Marx de um período anterior, e denunciaram a revolução de Outubro argumentando que na Rússia ainda tinha que acontecer uma fase burguesa de desenvolvimento. Mas ao fazerem isto, passaram irrevogavelmente ao campo da burguesia, convertendo-se em estandartes para a guerra em 1914 e em cães sangrentos da contra-revolução em 1918, como um deles, o alemão Noske, intitulava-se.

Isto demonstrou definitivamente que a adesão ao marxismo não se apóia em declarações piedosas, ou etiquetas partidárias, a não ser em uma prática viva. Unicamente as correntes da ala esquerda da 2ª Internacional, foram capazes de içar a bandeira do internacionalismo proletário contra o holocausto imperialista, que se unificaram na defesa da revolução proletária na Rússia, e que encabeçaram as greves e sublevações que estalaram em numerosos países do começo da guerra. Foram estas mesmas correntes as que proporcionaram o núcleo da nova Internacional Comunista fundada em 1919.

6. 1919 foi o ponto culminante da onda revolucionária do pós-guerra, e as posições da Internacional Comunista em seu congresso de fundação expressaram as posições mais avançadas do movimento proletário: por uma ruptura total com os traidores social-patriotas, pelos métodos de ação maciça demandados pelo novo período de decadência capitalista, pela destruição do estado capitalista e pela ditadura internacional dos Soviets operários. Esta claridade programática refletia o enorme ímpeto da onda revolucionária, mas também tinha sido preparada mediante as contribuições políticas e teóricas das frações de esquerda dentro dos velhos partidos: assim, contra a visão legalista e gradualista do caminho ao poder de Kautsky, Luxemburgo e Pannekoek tinham elaborado a concepção da greve de massas como terreno da revolução; ao contrário do cretinismo parlamentar de Kautsky, Pannekoek, Bujarin e Lênin tinham revivido e refinado a insistência de Marx na necessidade de destruir o estado burguês e criar o "estado da Comuna". Estes desenvolvimentos teóricos foram convertidos em matéria de políticas práticas quando surgiu a hora da revolução.

7.  O retrocesso da onda revolucionária e o isolamento da revolução Russa deram lugar a um processo de degeneração dentro da Internacional Comunista e do poder soviético na Rússia. O partido bolchevique se fundiu mais e mais com o aparelho de estado burocrático o qual cresceu em proporção inversa aos próprios órgãos de poder e participação do proletariado: os Sovietes, comitês de fábricas e guardas vermelhos. Dentro da Internacional, os intentos de ganhar apoio das massas em uma fase de retrocesso destas, engendraram "soluções" oportunistas: a insistência crescente na importância dada ao trabalho no Parlamento e sindicatos, o chamamento aos "povos do Leste" a levantar-se contra o imperialismo e, sobretudo, a política de Frente Única com os partidos social-patriotas, a qual atirou ao lixo a claridade ganha com tanto empenho a respeito da natureza doravante capitalista destes partidos. 

Do mesmo modo que o crescimento do oportunismo na Segunda Internacional tinha provocado uma resposta proletária na forma de correntes de esquerda, também a maré do oportunismo na Terceira Internacional foi resistida pelas correntes da Esquerda comunista - muitos de cujos porta-vozes, tais como Pannekoek e Bordiga, já tinham provado e demonstrado ser os melhores defensores do marxismo na velha Internacional. A esquerda comunista era essencialmente uma corrente internacional e tinha expressões em muitos países, desde a Bulgária até Grã-Bretanha e dos Estados Unidos até a África do Sul. Mas seus representantes mais importantes se encontravam precisamente nos países onde a tradição marxista estava em seu ponto mais sólido: Alemanha, Itália e Rússia.

8. Na Alemanha, a profundidade da tradição marxista unida ao enorme ímpeto do movimento das massas proletárias, já tinha engendrado, na crista da onda revolucionária, algumas das mais avançadas posições políticas, particularmente sobre as questões parlamentares e sindicais. Mas o comunismo de esquerda como tal apareceu como resposta aos primeiros sinais de oportunismo no Partido Comunista Alemão e a Internacional, e foi encabeçado pelo Partido Comunista Operário Alemão "KAPD", formado em 1920 quando a oposição dentro do KPD foi expulsa por uma manobra inescrupulosa. Apesar de ser criticado pela liderança da Internacional Comunista como "infantil" e "anarquista-sindicalista", o rechaço do KAPD das antigas táticas parlamentares e sindicalistas estava apoiado em uma análise marxista profunda da decadência do capitalismo, que fazia estas táticas obsoletas e demandava novas formas de organização de classe - os comitês de fábrica e os conselhos operários; o mesmo pode dizer-se de seu claro rechaço da velha concepção de "partido de massas" da social-democracia, a favor da noção do partido como um núcleo programaticamente claro - uma noção herdada diretamente do bolchevismo. A defesa intransigente do KAPD destas aquisições contra um retorno às velhas táticas social-democratas o colocou no centro de uma corrente internacional que teve expressões em numerosos países, particularmente na Holanda, cujo movimento revolucionário estava estreitamente ligado à Alemanha através do trabalho de Pannekoek e Gorter.

Isto não significa que a esquerda comunista na Alemanha a princípios da década de 20 não tivesse debilidades importantes. Sua tendência a ver o declive do capitalismo na forma de uma "crise mortal" final em vez de um longo e extenso processo fez-lhe difícil ver o retrocesso da onda revolucionária e lhe expôs ao perigo do voluntarismo; ligado a isto estavam as debilidades sobre a questão organizacional, o que conduziu a uma ruptura prematura com a Internacional Comunista e tentar o esforço funesto de convocar uma nova Internacional em 1922. Estas gretas em sua armadura dificultaram a resistência no curso da contra-revolução que se estabeleceu em 1922 e teve como resultado um processo desastroso de fragmentação, teorizado em muitos casos pela ideologia do "conselhismo" que negava a necessidade de uma organização política distinta.

9. Na Itália, pelo outro lado, a esquerda comunista - que tinha ocupado inicialmente uma posição majoritária dentro do Partido Comunista da Itália - foi particularmente clara sobre a questão da organização e lhe permitiu não só levar uma valorosa batalha contra o oportunismo dentro da Internacional em declive, mas também além de engendrar uma fração comunista que fosse capaz de sobreviver o desastre do movimento revolucionário e desenvolver a teoria marxista durante a noite da contra-revolução. Mas a princípios dos anos 20, seus argumentos a favor do abstencionismo ante a participação em parlamentos burgueses, contra fundir a vanguarda comunista com grandes partidos centristas para dar uma ilusão de "influência de massas", contra os slogans de Frente Única e "governo dos trabalhadores", apoiaram-se também em uma profunda compreensão do método marxista.

O mesmo se aplica a sua análise do novo fenômeno do fascismo e seu rechaço conseqüente de qualquer frente antifascista dentro dos partidos da burguesia "democrática". O nome de Bordiga se associa irrevogavelmente com esta fase na história da esquerda comunista italiana, mas apesar da enorme importância desta contribuição militante, a esquerda italiana não se pode reduzir só a Bordiga, da mesma forma que o bolchevismo não se podia reduzir a Lênin: ambos foram produtos orgânicos do movimento político proletário.

10. O isolamento da revolução na Rússia tinha desembocado, como temos dito, em um divórcio crescente entre a classe trabalhadora e uma máquina estatal cada vez mais burocrática - sendo a expressão mais trágica deste divórcio a repressão da revolta de operários e marinheiros do Kronstadt pelo próprio partido bolchevique proletário, o qual estava cada vez mais embrenhado nas engrenagens do estado.

Mas precisamente porque era um partido verdadeiramente proletário, o partido bolchevique também produziu numerosas reações internas contra sua própria degeneração. Lênin mesmo - quem em 1917 tinha sido o mais claro porta-voz da ala esquerda do partido - fez algumas críticas pertinentes à queda do partido no burocratismo, particularmente para o fim de sua vida; e pelo mesmo período, Trotsky se converteu no principal representante de uma oposição de esquerda que procurava restaurar as normas da democracia proletária no partido, e que continuou combatendo as expressões mais notáveis da contra-revolução estalinista, particularmente a teoria do "socialismo em um só país". Mas em sua grande maioria, posto que o bolchevismo tinha sufocado seu próprio papel como uma vanguarda proletária ao fundir-se com o estado, as correntes de esquerda mais importantes dentro do partido que foram lideradas por figuras menos reconhecidas foram as mais capazes de manter-se mais perto da classe que da máquina do estado.

Todos esses grupos não somente emergiram do partido bolchevique; eles continuaram combatendo dentro do partido por um retorno aos princípios originais da revolução. Mas enquanto as forças da contra-revolução burguesa ganhavam terreno dentro do partido, o ponto chave deveu-se à capacidade das diversas oposições de ver a natureza real desta contra-revolução e romper com qualquer lealdade sentimental às suas expressões organizadas. Isto evidenciou a divergência fundamental entre Trotski e a esquerda comunista russa: enquanto o primeiro ia permanecer toda sua vida futura à noção da defesa da União Soviética e inclusive a manter a natureza proletária dos partidos estalinistas, os comunistas de esquerda viram que o triunfo do estalinismo - incluindo seus giros de "esquerda", que confundiram a muitos dos seguidores de Trotski - significou o triunfo da classe inimiga e implicava a necessidade de uma nova revolução.

Entretanto, muitos dos melhores elementos na oposição trotskista - os assim chamados "irreconciliáveis" - passaram às posições da esquerda comunista no final dos anos 20 e princípios dos anos 30. Mas o terror estalinista os eliminou praticamente durante os anos 30.

11. Em palavras de Victor Serge, os anos 1930 foram a "meia-noite no século". As últimas brasas da onda revolucionária - a greve geral na Grã-Bretanha em 1926, a revolta de Xangai de 1927 - já se extinguiram. Os partidos comunistas se converteram em partidos de defesa nacional; o terror fascista e estalinista alcançaram seu ponto mais feroz, precisamente naqueles países onde o movimento revolucionário tinha alcançado seu ponto mais alto; e todo mundo capitalista estava se preparando para outro holocausto imperialista. Nestas condições, as minorias revolucionárias sobreviventes tinham que encarar o exílio, a repressão e um isolamento cada vez maior. Como a classe como um todo sucumbiu à desmoralização e às ideologias de guerra da burguesia, os revolucionários não podiam esperar ter um impacto extenso nas lutas imediatas da classe.

A incapacidade de Trotski para entender esta situação desfavorável o levou, e ao grupo que gravitava a seu redor, a oposição de esquerda, em uma direção cada vez mais oportunista - o "giro francês" para os partidos social-democratas, a capitulação ante o anti-fascismo, etc. - com a vã esperança de "conquistar as massas". O resultado final deste curso, para o trotskismo mais que para Trotski mesmo, foi sua integração dentro da máquina de guerra durante os anos 40. Após o trotskismo, como a social-democracia e o estalinismo, passou a formar parte do aparelho político do capitalismo, e em que pese a todas suas pretensões, não tem nada que ver com a continuidade do marxismo.

12. Em contraste com esta trajetória, a fração da esquerda italiana definiu corretamente ao redor da revista Bilan as tarefas da hora: primeiro, não trair os princípios elementares do internacionalismo, face a marcha para a guerra; segundo, elaborar um "balanço" do fracasso da onda revolucionária e da revolução russa em particular, e elaborar as lições apropriadas para que pudessem servir de base teórica para os partidos que emergiriam de um futuro renascimento da luta de classe.

A guerra na Espanha particularmente foi uma prova bastante dura para os revolucionários de então, muitos dos quais capitularam ante os cantos de sereia do anti-facismo e não chegaram a ver que a guerra era imperialista em ambos os lados, um ensaio geral para a guerra mundial que se anunciava. Bilan, entretanto se manteve firme, chamando à luta de classe contra as frações fascista e republicana da burguesia, tal como Lênin fazia, denunciando a ambos os bandos, durante a Primeira guerra mundial.

Ao mesmo tempo, as contribuições teóricas feitas por esta corrente - que mais tarde assumiram frações na Bélgica, França e México - foram imensas e na verdade insubstituíveis. Em sua análise da degeneração da revolução russa - que nunca lhe levou a questionar o caráter proletário de 1917; em suas investigações sobre os problemas de um futuro período de transição; em seu trabalho sobre a crise econômica e as bases da decadência do capitalismo; em seu rechaço ao apoio da Internacional Comunista às lutas de "liberação nacional"; em sua elaboração da teoria do partido e a fração; em suas polêmicas incessantes, mas fraternais com outras correntes políticas proletárias; nestas e muitas outras áreas, a fração da esquerda italiana levou a cabo sem dúvida sua tarefa de assentar as bases programáticas para as organizações proletárias do futuro.

13. A fragmentação dos grupos da esquerda comunista na Alemanha foi completada pelo terror nazista, ainda quando algumas atividades revolucionárias clandestinas seguiam levando-se a cabo sob o regime do Hitler. Durante os anos 30, a defesa das posições revolucionárias da esquerda alemã foi levada a cabo em sua maioria na Holanda, particularmente por meio do trabalho do Grupo de Comunistas Internacionais, mas também nos Estados Unidos com o grupo liderado pelo Paul Mattick. Como Bilan, a esquerda holandesa permaneceu fiel ao internacionalismo contra todas as guerras imperialistas locais que preparou o caminho ao massacre global, resistindo às tentações de "defender à democracia".

Continuou aprofundando seu entendimento da questão dos sindicatos, das novas formas de organização dos trabalhadores na época de decadência capitalista, das raízes materiais da crise capitalista, da tendência para o capitalismo de estado. Também manteve uma intervenção importante na luta de classes, particularmente no movimento dos desempregados. Mas a esquerda holandesa, traumatizada pela derrota da revolução russa, caiu mais e mais na negação conselhista da organização política - negando desta maneira todo papel da organização dos revolucionários. Junto com isto, rechaçava totalmente o bolchevismo e a revolução russa, descartada como burguesa desde o começo. Estas teorizações foram a semente de sua futura morte. Embora a esquerda comunista na Holanda continuou ainda sob a ocupação nazista e deu lugar a uma organização importante depois da guerra - o Spartacusbund, que inicialmente retrocedeu por volta das posições pró-partido do KAPD - as concessões da esquerda holandesa ao anarquismo na questão organizacional lhe fez cada vez mais difícil manter qualquer tipo de continuidade organizada em anos posteriores. Hoje estamos muito perto da extinção completa desta corrente.

14. A esquerda italiana, por outro lado, embora mantivesse a continuidade organizacional não deixou de pagar um tributo à contra-revolução. Justo antes da guerra, a fração italiana foi levada ao deslocamento pela "teoria da economia de guerra" a qual negava a iminência da guerra mundial, entretanto, seu trabalho conseguiu ser contínuo, particularmente, através da aparição de uma fração francesa no meio do conflito imperialista. Para o final da guerra, o estalo de importantes lutas proletárias na Itália criou mais confusão nas filas da fração, quando a maioria retorna a Itália para formar, junto com Bordiga que tinha permanecido inativo politicamente desde finais dos anos 20, o Partido Comunista Internacionalista da Itália, que apesar de opor-se à guerra imperialista estava formado sobre bases programáticas confusas e com uma análise equivocada do período, estimado como de uma ascensão no combate revolucionário.

A esta orientação política lhe opôs a maioria da fração francesa, a qual viu rapidamente que o período que se abria era de contra-revolução triunfante, e conseqüentemente que as tarefas da fração não tinham sido completadas. A esquerda comunista da França assim continuou trabalhando no espírito de Bilan, e embora não descuidava sua responsabilidade de intervir nas lutas imediatas da classe, enfocava suas energias no trabalho de uma clarificação política e teórica, e fez um número de avanços importantes, particularmente sobre a questão do capitalismo de Estado, o período de transição, os sindicatos e o partido. Enquanto mantinha a rigorosidade do método marxista típico da esquerda italiana, também foi capaz de integrar algumas das melhores contribuições da esquerda germano-holandesa no conjunto de sua blindagem programática.

15. Em 1952, entretanto, erroneamente convencida da iminência de uma terceira guerra mundial, a Esquerda Comunista da França se dissolveu. No mesmo ano, o PCI na Itália foi gretado pela divisão entre a tendência "bordiguista" e a tendência liderada pelo Onarato Damen, um militante que tinha permanecido ativo politicamente na Itália durante o período fascista. A tendência "bordiguista" foi mais clara em seu entendimento da natureza reacionária do período, mas seu esforço para manter-se firme em sua defesa do marxismo a levou a cair no dogmatismo. Sua (nova!) teoria da "invariabilidade do marxismo" lhe levou a ignorar cada vez mais os avanços feitos pela fração italiana nos anos 30 e retroceder à "ortodoxia" da Internacional Comunista em muitos aspectos. Os diversos grupos bordiguistas de hoje (ao menos três dos quais se chamam a si mesmos de "Partido Comunista Internacional") são descendentes diretos desta tendência.

A tendência do Damen foi muito mais clara em questões básicas de política como o papel do partido, os sindicatos, liberação nacional e capitalismo de Estado, mas nunca se dispôs analisar as origens dos enganos cometidos na formação original do PCI. Durante os anos 1950 e 1960 estes grupos se estancaram politicamente, com a corrente bordiguista em particular "protegendo-se" atrás do muro do sectarismo. A burguesia tinha quase conseguido eliminar todas as expressões organizadas de marxismo, rompendo o fio vital que ligava às organizações revolucionárias do presente, com as grandes tradições do movimento operário.

16. Ao final da década dos 60, entretanto, o proletariado reapareceu no cenário da história com a greve geral na França em maio de 68, e a posterior explosão de combates operários ao redor do mundo. Esse ressurgimento deu nascimento a uma nova geração de elementos politizados, procurando a claridade das posições comunistas, deu nova vida aos grupos revolucionários existentes e finalmente produziu novas organizações que procuravam renovar a herança da esquerda comunista. Inicialmente, este novo entorno político, reagindo contra a imagem "autoritária" do bolchevismo, foi impregnado profundamente pela ideologia conselhista, mas quando maturou, foi capaz de despojar-se de seus prejuízos antiorganizacionais e ver sua continuidade com toda a tradição marxista.

Não é acidental que hoje em dia a maioria dos grupos nos entornos revolucionários sejam descendentes da corrente da esquerda italiana, a qual dá uma grande ênfase na questão da organização e a necessidade de preservar uma tradição revolucionária intacta. Tanto os grupos bordiguistas e o Birô Internacional para o Partido Revolucionária (BIPR) são os herdeiros do Partido Comunista Internacionalista da Itália, enquanto que a Corrente Comunista Internacional é em grande medida descendente da Esquerda Comunista da França.

17. O ressurgimento proletário no final dos anos 60 seguiu um caminho tortuoso, indo através de movimentos de avanços e retrocessos, encontrando muitos obstáculos no caminho, mas nenhum maior que as enormes campanhas burguesas sobre a morte do comunismo, parte da qual envolveu ataques diretos contra a esquerda comunista, falsamente injuriada como a fonte da corrente "negacionista" que nega a existência das câmaras de gás nazista.

As dificuldades deste processo semearam muitos obstáculos no caminho do mesmo meio revolucionário, retardando seu crescimento e atrasando sua unificação. Mas apesar destas debilidades, o movimento de Esquerda Comunista atual é a única continuação viva do marxismo autêntico, a única "ponte" possível para a formação do futuro partido comunista mundial. É de vital importância que os novos elementos militantes que, apesar de tudo, continuam desenvolvendo-se por todo mundo neste período, relacionem-se com os grupos de esquerda comunista, debatam com eles, e em última instância, unam suas forças com eles; ao fazer isto estarão fazendo sua própria contribuição à construção do partido revolucionário, sem o qual não pode haver revolução triunfante.

Corrente Comunista Internacional, setembro 1998.