Por que o proletariado fracassou na suas tentativas revolucionarias passadas?

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Antes de examinar as causas do fracasso do
proletariado para cumprir sua tarefa histórica ao longo do século XX, é
necessário tratar uma questão sobre a qual os revolucionários nem sempre tem
manifestado uma clareza suficiente.

A revolução comunista é inevitável?

A questão é fundamental já que da sua
resposta depende, em grande parte, a capacidade da classe operária em compreender
plenamente a dimensão da sua tarefa histórica. Um grande revolucionário como
Amadeu Bordiga afirmou, por exemplo, que "... a
revolução socialista é tão certa como se já tivesse ocorrido...
". E não
foi o único que emitiu tal idéia. Podemos encontrá-la também em certos escritos
de Marx, de Engels ou de outros marxistas.

No Manifesto Comunista podemos ler uma
afirmação que pode ser interpretada no sentido de que a vitória do proletariado
não será inevitável: "...
opressores e oprimidos, em
constante oposição, têm vivido numa guerra ininterrupta, ora franca, ora
disfarçada; uma guerra que terminou sempre ou por uma transformação
revolucionária da sociedade inteira, ou pela destruição das duas classes em conflito

[1]

. No entanto, esta constatação se aplica
unicamente às classes do passado. No que diz respeito ao enfrentamento entre
proletariado e burguesia, a saída não coloca dúvidas: "
O progresso da indústria,
de que a burguesia é agente passivo e involuntário, substitui o isolamento dos
operários, resultante da competição, por sua união revolucionária resultante da
associação. Assim, o desenvolvimento da grande indústria retira dos pés da
burguesia a própria base sobre a qual ela assentou o seu regime de produção e
de apropriação dos produtos. A burguesia produz, sobretudo, seus próprios
coveiros. Seu declínio e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis

[2]

.

Na realidade, nos
termos empregados pelos revolucionários, há frequentemente uma confusão entre o
fato de que a revolução comunista é absolutamente necessária, indispensável
para salvar a humanidade e seu caráter certo.

Na nossa opinião, o
mais importante, evidentemente, é demonstrar, e o marxismo assim tem tentado,
desde seus inícios que:
 

  • o capitalismo não é um modo de produção
    definitivo, a forma "finalmente encontrada" de organização da
    produção que poderia finalmente assegurar uma riqueza crescente para todos os
    seres humanos;
  • que em um momento determinado da sua
    história, esse sistema só pode levar a sociedade a convulsões crescentes,
    destruindo os progressos que tinha aportado anteriormente;
  • que a revolução comunista é
    indispensável para permitir que a sociedade prossiga sua marcha para uma
    verdadeira comunidade humana na qual o conjunto das necessidades humanas sejam
    plenamente satisfeitas;
  • que a sociedade capitalista já criou no
    seu seio as condições objetivas e pode criar as condições subjetivas que
    permitam tal revolução: as forças produtivas materiais, uma classe capaz de
    transformar a ordem burguesa e dirigir a sociedade, a consciência para que esta
    classe possa levar a cabo sua tarefa histórica.

No entanto, todo o século XX põe em relevo
a imensa dificuldade desta tarefa histórica. O século que termina nos permite,
particularmente, compreender melhor que, para a revolução comunista,
absoluta
necessidade
não quer dizer certeza, que a partida não se ganha
antes de jogar, que a vitória do proletariado ainda não está escrita no grande livro
da História. De fato, além da barbárie em que caiu esse século, a ameaça de uma
guerra nuclear que tinha pesado como uma espada de Dâmocles sobre o mundo
durante mais de 40 anos permitiu ver, quase tocar, o fato de que o capitalismo
poderia ter destruído a sociedade. Esta ameaça está no momento descartada pelo
fato do desaparecimento dos grandes blocos imperialistas, mas as armas que
podem por fim a sociedade humana continuam aí, tanto como os antagonismos entre
os Estados que podem chegar um dia a utilizá-las.

Por outra parte, desde finais do século
passado, evocando explicitamente a alternativa "Socialismo ou
Barbárie", Engels, redator com Marx de O
Manifesto Comunista
, voltou atrás a propósito da ideia do caráter inevitável
da revolução e da vitória do proletariado. Hoje em dia, é muito importante que
os revolucionários digam claramente à sua classe, e para fazê-lo devem estar
realmente convencidos, que não há fatalidade, que a partida não se ganha de
antemão e que o que está em jogo na sua luta não é nem mais nem menos que a
sobrevivência da humanidade. Somente se for consciente da amplitude da sua
tarefa, do que verdadeiramente está em jogo, que a classe operária poderá
encontrar a vontade e a força para acabar com o capitalismo. Marx dizia que a
vontade é a manifestação de uma necessidade. A vontade do proletariado para
fazer a revolução comunista será maior quanto mais imperiosa seja a seus olhos a
necessidade de tal revolução.

Por que a revolução comunista não é
uma fatalidade?

Os revolucionários do século passado,
inclusive não dispondo da experiência do século XX para dar uma resposta a essa
pergunta, ou ao menos para formulá-la claramente, nos deram, entretanto, os
elementos para abordar a resposta.

"Revoluções
burguesas, como a do século 18, avançam impetuosamente de êxito em êxito, os
seus efeitos dramáticos atropelam-se, os homens e as coisas parecem iluminados
por fogos de artifícios, o êxtase é o espírito de cada dia; mas essas
revoluções têm vida curta, chegam rapidamente ao seu apogeu e um longo
mal-estar se apodera da sociedade, antes de ter aprendido a apropriar-se
serenamente dos resultados dos seus períodos de ímpeto e tempestade. Em contrapartida,
as revoluções proletárias, como as do século 19, criticam-se constantemente a
si próprias, interrompem-se continuamente na sua própria marcha, voltam ao que
parecia terminado, para começá-lo de novo, troçam profunda e cruelmente das
hesitações dos lados fracos e da mesquinhez das suas primeiras tentativas,
parece que apenas derrubam o seu adversário para que este tire da terra novas
forças e volte a levantar-se mais gigantesco frente a elas, retrocedem
constantemente perante a indeterminada enormidade dos seus próprios fins, até
que se cria uma situação que torne impossível qualquer retrocesso e as próprias
circunstâncias gritam:
Hic Rhodus, hic salta! [Aqui está Rodes, salta aqui!]". 

[3]

Esta
citação muito conhecida de O 18 de Brumário de Luís Bonaparte,
escrito por Marx no início de 1852 (ou seja, algumas semanas depois do golpe de
Estado de 2 de dezembro de 1851) dá conta do difícil e tortuoso curso da
revolução proletária. Tal idéia foi recolhida, cerca de 70 anos depois, por
Rosa Luxemburgo em um artigo que escreveu às vésperas do seu assassinato, pouco
depois da insurreição de Berlim ser esmagada em janeiro de 1919: "...Desta
contradição entre a tarefa que se impõe e a ausência, na etapa inicial do
processo revolucionário, das condições prévias que permitam a sua realização,
resulta que as lutas parciais terminaram com uma derrota formal. Porém a
revolução
[proletária]
é a única forma de “guerra” – e esta é também uma lei vital que lhe é própria –
na qual a vitória final só pode ser obtida através de uma série de "derrotas".
 (...)
As revoluções não nos deram nada até agora a não ser derrotas, mas justamente essas
derrotas inevitáveis que são a garantia reiterada da vitória final.
(...)
Com uma condição, é claro! Estudar em que circunstâncias foi produzida cada
derrota
". 

[4]

Essas citações evocam essencialmente o
curso doloroso da revolução comunista, a série de derrotas que marcam seu
caminho para a vitória. Mas, ao mesmo tempo, permitem colocar em evidência duas
idéias essenciais:
 

  • a diferença que existe entre a revolução
    proletária e as revoluções burguesas;
  • a condição essencial da vitória do
    proletariado, uma condição que não está ganha de antemão: a capacidade dessa
    classe em tomar consciência extraindo as lições das suas derrotas.

É justamente a diferença entre as
revoluções burguesas e a revolução proletária que permite compreender porque
esta última não há de ser considerada como uma certeza.

De fato, a especificidade das revoluções
burguesas, ou seja, a tomada do poder político exclusivo pela classe
capitalista, é que elas não constituem o ponto de partida, mas o de chegada, de
todo processo de transformação econômica no seio da sociedade. Uma
transformação econômica na qual as antigas relações de produção, ou seja, as
relações de produção feudais, são progressivamente substituídas pelas relações
de produção capitalistas que servem de apoio a burguesia para a conquista do
poder político:

"Dos servos da Idade Média nasceram
os moradores dos primeiros burgos; desta população municipal saíram os primeiros
elementos da burguesia.

A descoberta da América, a circunavegação da África abriram
um novo campo de ação à burguesia emergente. Os mercados das Ín­dias Orientais
e da China, a colonização da América, o comércio colonial, o incremento dos
meios de troca e das mercadorias em geral imprimiram ao comércio, à indústria e
à navegação um impulso des­conhecido até então; e, por conseguinte,
desenvolveram rapidamente o elemento revolucionário da sociedade feudal em
decomposição.

A organização feudal da indústria, em que esta era
circunscrita a corporações fechadas, já não satisfazia as necessidades que
cresciam com a abertura de novos mercados. A manufatura a substituiu. A pe­quena
burguesia industrial suplantou os mestres das corporações; a divisão do trabalho
entre as diferentes corporações desapareceu dian­te da divisão do trabalho
dentro da própria oficina.

Todavia, os mercados ampliavam-se cada vez mais, a procura
por mercadorias continuava a aumentar. A própria manufatura tornou-se
insuficiente; então, o vapor e a maquinaria revolucionaram a pro­dução
industrial. A grande indústria moderna suplantou a manufatu­ra; a média
burguesia manufatureira cedeu lugar aos milionários da indústria, aos chefes de
verdadeiros exércitos industriais, aos burgue­ses modernos.
 (...)

Vemos, pois, que a própria burguesia moderna é o produto de
um longo processo de desenvolvimento, de uma série de transformações no modo de
produção e de circulação.

Cada etapa da evolução percorrida pela burguesia foi acompa­nhada
de um progresso político correspondente. Classe oprimida pelo despotismo
feudal, associação armada e autônoma na comuna, aqui república urbana
independente, ali terceiro estado tribu­tário da monarquia; depois, durante o
período
manufatureiro,
con­trapeso da nobreza na monarquia
feudal ou absoluta, base principal das grandes monarquias, a burguesia, com o estabelecimento
da grande indústria e do mercado mundial, conquistou, finalmente, a soberania
política exclusiva no Estado representativo moderno
". 

[5]

Totalmente diferente é
o processo da revolução proletária. Enquanto as relações de produção
capitalista puderam desenvolver progressivamente no seio da sociedade feudal,
as relações de produção comunistas não podem se desenvolver no seio da
sociedade capitalista dominadas por relações mercantis e dirigidas pela
burguesia. A idéia de um desenvolvimento progressivo de “ilhas de comunismo” no
seio do capitalismo pertence ao ideário do socialismo utópico e foi combatida
pelo marxismo e o movimento operário desde meados do século passado. Isto também
é certo para outra variante dessa mesma idéia, a das cooperativas de produção
ou de consumo que não podiam nem podem fugir das leis do capitalismo e que no
“melhor dos casos”, transformam os operários em pequenos capitalistas quando
não os tornam em exploradores de si mesmos. Na realidade, em virtude de ser a
classe explorada do modo de produção capitalista, privada por definição de
qualquer meio de produção, a classe operária não dispõe no seio do capitalismo,
e não pode dispor, de pontos de apoio econômicos para a conquista do poder
político. Pelo contrário, o primeiro ato de transformação comunista da
sociedade consiste na tomada do poder político em escala mundial pelo conjunto
do proletariado organizado em Conselhos Operários, ou seja, um ato consciente e
deliberado. A partir dessa posição após a tomada do poder político, a ditadura
do proletariado, este poderá transformar progressivamente as relações
econômicas, socializar o conjunto da produção, abolir as trocas mercantis, sobretudo
o primeiro dentre todos eles, o sistema de trabalho assalariado, e criar uma
sociedade sem classes.

A revolução burguesa,
a tomada do poder político exclusivo pela classe capitalista, era inevitável na
medida em que ela era o resultado de um processo econômico, inevitável em um
momento determinado da vida da sociedade feudal, um processo no qual a vontade
política consciente dos homens pouco tinha que fazer. Em função das condições
existentes em cada país, ela pode intervir mais ou menos no início no desenvolvimento
do capitalismo pelo que este tomou diferentes formas: mudança violenta do
Estado monárquico, como na França, ou conquista progressiva de posições
políticas pela burguesia no seio desse Estado, como foi o caso da Alemanha. Em
outras ocasiões foi possível obter uma república, como nos Estados Unidos ou
uma monarquia constitucional, da qual o exemplo mais típico é o representado
pelo regime monárquico da Inglaterra, ou seja, a primeira nação burguesa. No
entanto, em todos os casos, a vitória política final da burguesia estava
assegurada. Inclusive quando as forças políticas revolucionárias da burguesia
sofreram reveses (como ocorreu na França com a Restauração ou na Alemanha com o
fracasso da revolução de 1848
), isso pouco influiu no
avanço no plano econômico e igualmente no plano político.

Para o proletariado, a primeira condição
de êxito da sua revolução é evidentemente que existam as condições materiais de
transformação comunista da sociedade, condições que são dadas pelo próprio
desenvolvimento do capitalismo.

A segunda
condição da revolução proletária reside no desenvolvimento de uma crise aberta
da sociedade burguesa, prova evidente de que as relações de produção
capitalista devem ser substituídas por outras relações de produção.

Mas, uma vez que essas condições materiais
estejam presentes, disso não se depreende forçosamente que o proletariado seja
capaz de fazer sua revolução. Privado de todo ponto de apoio econômico no seio
da sociedade capitalista, sua única verdadeira força, além de seu número e
organização, é sua capacidade para tomar consciência plena da natureza, dos
objetivos e dos meios do seu combate. Este é o sentido profundo da citação de
Rosa Luxemburgo que reproduzimos acima. E esta capacidade do proletariado para
tomar consciência não se desprende automaticamente das condições materiais nas
quais vive, já que não está escrito em nenhuma parte que poderá adquirir essa
consciência antes que o capitalismo possa conseguir afundar a sociedade na
barbárie total ou na destruição.

E um dos meios dos que o proletariado dispõe
para evitar cair nesta última saída, salvando também o conjunto da sociedade, é
justamente tirar todas as lições das suas derrotas anteriores, como recordava
Rosa Luxemburgo. É necessário, particularmente, compreender por que não foi capaz
de fazer sua revolução ao longo do século XX.

Revolução e contrarrevolução

É com freqüência que os revolucionários
tendam subestimar as potencialidades do proletariado em um momento dado. Marx e
Engels não puderam evitar essa tendência já que, quando redigiram O Manifesto Comunista, no início de
1848, apresentaram a revolução comunista como algo iminente e que a revolução
burguesa na Alemanha, que sucedeu poucos meses depois, serviria para que aquele
tomasse o poder naquele país. Esta tendência se explica perfeitamente pelo fato
de que os revolucionários, e por isso precisamente o são, aspiram com todas as
suas forças à destruição do capitalismo e a emancipação da sua classe e daí a
impaciência que é acometida com frequência. No entanto, contrariamente aos
elementos pequeno-burgueses ou os que estão influenciados pela ideologia da
pequena burguesia, são capazes de reconhecer rapidamente a imaturidade das
condições para a revolução. De fato, a pequena burguesia é por excelência uma
classe que, politicamente falando, vive o presente, e que não tem nenhum papel
histórico a desempenhar. O imediatismo e a impaciência (“A revolução já” como
conclamavam os estudantes de 1968) são próprios dessa categoria social da qual,
quem sabe durante uma revolução proletária, uma parte dos seus elementos poderão
se unir ao combate da classe operária, mas na sua maior parte tende a se aliar
com o mais fortes, ou seja, com a burguesia. Ao contrário, os revolucionários
proletários, expressão de uma classe histórica, são capazes de superar a impaciência
e implicar-se decididamente na paciente e difícil tarefa de se preparar para os
futuros combates de classe.

Por isso em 1852, Marx
e Engels, reconheceram que as condições da revolução proletária não estavam
maduras em 1848 e que o capitalismo devia viver ainda um amplo desenvolvimento
para que essas condições chegassem. Desse modo, estimaram que se devia dissolver
sua organização, a Liga dos Comunistas, que havia sido fundada nas vésperas da
revolução de 1848, antes que esta caísse sob a influência de elementos
impacientes e aventureiros (a tendência Willich-Schapper).

Em 1864, quando
participaram na fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT),
Marx e Engels pensaram, de novo, que a hora da revolução havia chegado, mas
justamente antes da Comuna de Paris de 1871, se deram conta de que o
proletariado ainda não estava preparado, já que o capitalismo ainda tinha diante
de si todo um potencial de desenvolvimento da sua economia. Após a derrota da
Comuna de Paris, que significou uma grave derrota para o proletariado europeu,
compreenderam que o papel histórico da AIT tinha terminado e que era necessário
preservá-la da ação de elementos impacientes e aventureiros (como Bakunin)
representados principalmente pelos anarquistas. Por isso, no Congresso de Haia
de 1872, intervieram com determinação para conseguir a exclusão de Bakunin e
sua Aliança para a Democracia Socialista e, do mesmo modo, propuseram e
defenderam a decisão de transferir o Conselho Geral da AIT de Londres para Nova
York, longe das intrigas que estavam se desenrolado por parte de toda uma série
de elementos que ambicionavam se apoderar da Internacional. Esta decisão
correspondia de fato a uma decisão de suspender a AIT, para que depois da Conferência
da Filadélfia pudessem pronunciar sua dissolução em 1876.

Assim, as duas revoluções que tinham se
produzido até aquele momento, a de 1848 e a Comuna, haviam fracassado porque as
condições materiais da vitória do proletariado ainda não existiam. Será no
período seguinte, em que se conhecerá o desenvolvimento mais pujante da
história do capitalismo, quando essas condições se deram.

Esse é um período de grande
desenvolvimento do movimento operário. É nesse momento quando se criam os
sindicatos na maior parte dos países, e é quando se fundam Partidos Socialistas
de massas que, em 1889, se reagruparam no seio da Internacional Socialista (II
Internacional).

Na maior parte dos países da Europa
Ocidental, o movimento operário organizado ganhava mais e mais posições. Embora
seja correto que durante certo tempo os governos perseguiram os partidos
socialistas (assim foi na Alemanha entre 1878 e 1890, aplicando as chamadas “leis anti-socialistas”), esta política em pouco tempo
tendeu a ser modificada em favor de uma atitude mais benévola para eles. Então,
esses partidos se converteram em verdadeiros poderes na sociedade, até o ponto
em que, em certos países, dispunham do grupo parlamentar mais forte e davam a
impressão de que podiam conseguir o poder no seio do Parlamento. O movimento
operário parecia ter se convertido em invencível. Para muitos, aproximava-se a
hora em que se poderia derrubar o capitalismo se apoiando nessa instituição
especificamente burguesa: a democracia parlamentar.

Paralelamente ao auge das organizações
operárias, o capitalismo conheceu uma prosperidade sem igual, dando a impressão
de que seria capaz de superar as crises cíclicas que o havia afetado no período
anterior. No seio dos partidos socialistas desenvolveram-se tendências
reformistas que consideravam que o capitalismo tinha conseguido superar suas
contradições econômicas e que, por isso, não era necessário acabar com ele por
meio da revolução. Apareceram teorias, como a de Bernstein, que considerava que
havia que “revisar” o marxismo, em particular, para abandonar sua visão “catastrófica”. A vitória do proletariado seria, portanto,
o resultado de toda uma série de conquistas obtidas no terreno parlamentar e
sindical.

Na realidade, ambas as
forças antagônicas que pareciam desenvolver sua potência paralelamente, o
capitalismo e o movimento operário, estavam minados a partir de seu interior.

O capitalismo, de um
lado, vivia seus últimos dias de glória (que tinha ficado na memória coletiva
como a Belle époque). Enquanto, no domínio
econômico, sua prosperidade parecia não ter fim, particularmente nas potências
emergentes que a Alemanha e os Estados Unidos eram, a chegada da sua crise
histórica era notada fortemente com a ampliação do imperialismo e do
militarismo. Os mercados coloniais, como Marx tinha colocado em evidência meio
século antes, tinham sido um fator fundamental para o desenvolvimento do
capitalismo. Cada país capitalista avançado, incluindo os pequenos como Holanda
e Bélgica, tinha constituído seu império colonial como fonte de matérias primas
e mercados para dar saída às suas mercadorias. Precisamente no fim do século
XIX, o mundo capitalista estava inteiramente repartido entre as velhas nações
burguesas. Desde então, o acesso a cada uma delas a novos mercados e a novos
territórios as conduziam a um enfrentamento direto na zona “privada” de seus
rivais. O primeiro choque ocorreu em setembro de 1898 na Fachoda, Sudão,
conflito no qual França e Inglaterra, as duas principais potências coloniais,
estiveram a ponto de se enfrentarem. Os objetivos daquela (controlar o Alto
Nilo e colonizar um eixo Oeste-Leste, Dacar-Djibuti) chocou com a ambição da
Inglaterra (fazer a fusão de um eixo Norte-Sul com um eixo Cairo-Cidade do Cabo).
Finalmente, França retrocedeu e os dois rivais decidiram chegar a um
“Entendimento Cordial” diante da pressão e das ambições de um terceiro em
discórdia com ambições tão grandes como era reduzido seu império colonial, ou
seja, Alemanha. As ambições gananciosas imperialistas alemãs com relação às demais
potências européias se concretizaram, alguns anos mais tarde, entre outros acontecimentos
no incidente de Agadir em 1911, no qual uma fragata alemã se apresentou com a
vontade de ofender a França e suas ambições no Marrocos. O outro aspecto dos
apetites imperialistas da Alemanha no terreno colonial se concretizou no
impressionante desenvolvimento da sua marinha de guerra, frota que ambicionava
competir com a frota inglesa pelo controle das vias marítimas.

Também, nesse aspecto,
a vida do capitalismo mudou de forma radical nos inícios do século XX: ao mesmo
tempo que se multiplicavam as tensões e os conflitos armados que envolviam mais
ou menos ocultamente as potências burguesas européias, houve um importante
incremento do armamento dessas potências ao tempo em que se tomavam medidas
sistemáticas para o aumento dos efetivos militares (como a da duração do
serviço militar na França, a lei dos “três anos”).

Este aumento das
tensões imperialistas e do militarismo, do mesmo modo que as grandes manobras
diplomáticas entre as principais nações europeias que reforçavam suas alianças
respectivas para a guerra, foi evidentemente objeto de grande atenção por parte
dos grandes partidos da Segunda Internacional. Esses, no seu congresso de 1907
em Stuttgart, dedicaram uma importante resolução a esta questão, resolução que
integrava uma emenda apresentada especialmente por Lênin e Rosa Luxemburgo na
qual se colocava explicitamente que: "... se, apesar de tudo, eclodir uma
guerra, os socialistas têm o dever de atuar para que esta finalize o quanto antes
possível e devem utilizar por todos os meios a crise econômica e política
provocada pela guerra para despertar o povo e assim acelerar a queda da
dominação capitalista
". 

[6]

Em novembro de 1912, a Internacional Socialista convocou um
Congresso extraordinário (Congresso de Basileia) para denunciar a ameaça de
guerra e chamar a mobilização do proletariado contra ela. O Manifesto desse
Congresso colocava a burguesia em guarda: "... Que os governos burgueses não
esqueçam que a guerra franco-alemã deu lugar à insurreição da Comuna e a guerra
russo-japonesa colocou em marcha o movimento das forças revolucionárias da
Rússia. Para os proletários, é crime disparar um contra os outros em favor dos
capitalistas, do orgulho das dinastias ou dos comprometimentos dos tratados
secretos...
".

Assim, na aparência, o
movimento operário tinha se preparado para enfrentar o capitalismo no caso
deste último desencadeasse a barbárie guerreira. Por outra parte, naquela
época, entre a população dos diferentes países europeus, e não unicamente entre
a classe operária, existia um forte sentimento de que a única força da
sociedade que poderia impedir a guerra era a Internacional Socialista. Na
realidade, da mesma forma que o sistema capitalista estava minado desde o seu
interior e se aproximava inexoravelmente a época da sua falência histórica, o
movimento operário, apesar da sua força aparente, seus poderosos sindicatos, os
"êxitos eleitorais crescentes" de seus partidos, tinha se debilitado
notavelmente e se encontrava nas vésperas de uma catástrofe. Mais ainda: o que
constituía essa força aparente do movimento operário era na realidade sua fraqueza.
Os êxitos eleitorais dos partidos socialistas ampliaram excepcionalmente as
ilusões democráticas e reformistas entre as massas operárias. Do mesmo modo, o
enorme poder das organizações sindicais, especialmente na Alemanha e no Reino
Unido, se transformou, na realidade, em um instrumento de defesa da ordem
burguesa e de alistamento dos operários para a guerra e a produção de armamentos.

Também convém
recordar, que no início do verão de 1914, após o atentado em Sarajevo contra o
herdeiro do trono austro-húngaro, as tensões militares começaram a se acelerar
a passos gigantes para a guerra, os partidos operários, não só deram mostra de
impotência, como aportaram, além disso, na maioria dos casos, seu apoio à
própria burguesia nacional. Na França e Alemanha, até contatos diretos foram
estabelecidos entre os dirigentes dos partidos socialistas e o governo para
discutir sobre quais políticas adotar para conseguir o alistamento para a
guerra. E quando irrompeu, como um só homem, esses partidos deram seu pleno
apoio ao esforço de guerra da burguesia e conseguiram implicar as massas
operárias na tão terrível sangria. Enquanto os governos de plantão apelavam à "grandeza"
das suas nações respectivas, os partidos socialistas empregavam argumentos mais
adaptados ao seu papel de recrutadores dos operários. Não se tratava, segundo
eles, de guerras a serviço de interesses burgueses para, por exemplo, recuperar
Alsácia e Lorena, mas de uma guerra para proteger a "civilização"
contra o "militarismo alemão", como diziam na França. Do outro lado
do Reno, não era uma guerra em defesa do imperialismo alemão sim uma guerra "pela
democracia e pela civilização" contra a "tirania e a barbárie czarista".
Mas com discursos diferentes, os dirigentes socialistas tinham o mesmo objetivo
que a burguesia: realizar a "União nacional", enviar os operários à
matança e justificar o estado de exceção, ou seja, a censura militar, a
proibição das greves e das manifestações operárias, e de todas as publicações e
reuniões que denunciavam a guerra.

O proletariado não pôde
impedir a eclosão da guerra mundial

Foi uma terrível
derrota para ele, mas uma derrota sofrida sem combates abertos contra a
burguesia. No entanto, a luta contra a degeneração dos partidos socialistas,
degeneração que conduziu a sua traição no verão de 1914 e a eclosão da matança
imperialista, havia começado muito antes, para ser mais preciso no final do
século XIX e início do século XX. Assim, no partido alemão, Rosa Luxemburgo
tinha levado a batalha contra as teorias revisionistas de Bernstein
justificadoras do reformismo. Oficialmente o partido havia rechaçado tais
teorias, porém, alguns anos mais tarde, ela teve de reiniciar o combate não só
contra a direita do partido, mas também contra o centro representado
principalmente por Kaustky, cuja linguagem mais radical servia, na realidade,
de máscara para o abandono da perspectiva da revolução. Na Rússia, em 1903, os
bolcheviques travaram uma luta contra o oportunismo no seio do partido
social-democrata, no início sobre problemas de organização, depois a propósito
da natureza da revolução de 1905 e da política que deviam desenvolver no seu
seio. Mas essas correntes revolucionárias no seio da Internacional Socialista eram,
no seu conjunto, muito fracas, por mais que os Congressos dos partidos
socialistas e da Internacional adotassem, frequentemente, suas posições.

Na hora da verdade, os
militantes socialistas que defendiam posições internacionalistas e
revolucionárias se encontraram tragicamente isolados. Na Conferência
internacional contra a guerra de setembro de 1915 em Zimmerwald (Suíça), os
delegados (entre os que se encontravam também elementos do centro, vacilantes
entre as posições da esquerda e a direita) cabiam em quatro táxis, como
recordava Trotski. Este terrível isolamento não os impediu prosseguir seu
combate, apesar da repressão que se abateu sobre eles (na Alemanha, Rosa Luxemburgo
e Karl Liebknecht, os dois principais dirigentes do grupo Spartacus que
defendiam o internacionalismo, conheceram a prisão e o encarceramento em
fortalezas militares).

De fato, as terríveis
provas da guerra, as matanças, a fome, a exploração feroz que reinava nas
fábricas da retaguarda começaram despertar as mentes dos operários que em 1914
tinham se deixado levar à carnificina com  a "flor no fuzil" 

[7]

.
Os discursos sobre a "civilização" e a democracia se esgotaram diante
da realidade da inaudita barbárie na qual se afundava a Europa e com a
repressão de qualquer tentativa de luta operária. Assim, a partir de fevereiro
de 1917, o proletariado na Rússia, que já tinha passado pela experiência de uma
revolução em 1905, se levantou contra a guerra e contra a fome. Com seus atos,
e nos fatos, concretizou resoluções adotadas pelos Congressos de Stuttgart e Basiléia
da Internacional Socialista. Lênin e os bolcheviques compreendem que tinha
soado a hora da revolução e animavam os operários a não se conformarem com a
queda do czarismo e sua substituição por um governo "democrático". Tinha
que se preparar para a derrubada da burguesia e a tomada do poder pelos sovietes
(os conselhos operários). Esta perspectiva se cumpriu efetivamente na Rússia em
outubro de 1917. Imediatamente, o novo poder anima a seguir seu exemplo com a
finalidade de acabar com a guerra e derrubar o capitalismo. De certo modo, os
bolcheviques e com eles todos os revolucionários dos demais países, chamam o
proletariado mundial para que esteja presente neste novo evento histórico após
ter faltado ao de 1914.

O exemplo russo é
seguido pela classe operária de outros países particularmente na Alemanha onde,
um ano mais tarde, o levantamento de operários e camponeses derrota o regime
imperial de Guilherme II e obriga a burguesia alemã a retirar-se da guerra
colocando, assim, fim a quatro anos de uma barbárie nunca antes vivida pela
humanidade. No entanto, a burguesia tinha tirado as lições da sua derrota na
Rússia. Neste país o Governo provisório instaurado após a revolução de Fevereiro
de 1917 foi incapaz de satisfazer uma das reivindicações essenciais dos
operários, a paz.  Acossados pelos seus
aliados da Entente, França e Inglaterra, manteve-se na guerra o que provocou
uma rápida queda nas ilusões que as massas operárias e de soldados haviam
depositado nele, contribuindo para sua radicalização. A derrubada da burguesia,
e não só do regime czarista, aparece como a única maneira de por fim à matança.
Na Alemanha, ao contrário, a burguesia teve a maior pressa em deter a guerra
nos primeiros dias da revolução. A burguesia apresenta como uma vitória
decisiva a derrubada do regime imperial e a instauração de uma república.
Imediatamente chama o partido socialista para tomar as rédeas do governo, o
qual obtém o apoio do Congresso de Conselhos Operários, dominado precisamente,
pelos socialistas. Mas, sobretudo, o novo governo exige imediatamente o
armistício aos aliados da Entente, que estes atendem sem mais demora. Além
disso, os da Entente fazem de tudo para permitir ao novo governo alemão fazer
frente à classe operária. Por exemplo, a França restitui imediatamente ao
exército alemão 16.000 metralhadoras que lhe foi confiscado como espólio de
guerra. Metralhadoras que seriam utilizadas mais tarde para esmagar a classe
operária.

A burguesia alemã, com
o partido socialista à sua frente, aplica um golpe terrível no proletariado em
janeiro de 1919.  Arma uma provocação,
conscientemente, para incitar uma insurreição prematura dos operários de
Berlim. A insurreição acaba com um banho de sangue e seus principais dirigentes
revolucionários, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht (e mais tarde Leo Jogiches),
são assassinados. Apesar disso, a classe operária alemã ainda não está
definitivamente derrotada. Até 1923 levará a cabo tentativas revolucionárias 

[8]

.
No entanto, todas essas tentativas serão derrotadas, assim como as tentativas
revolucionárias ou os vigorosos movimentos da classe operária que se deram em
outros países durante esse período (por exemplo, na Hungria, em 1919, e Itália,
na mesma época) 

[9]

.

De fato, o fracasso do
proletariado na Alemanha sela a derrota da revolução mundial, a qual terá um
último sobressalto na China em 1927, afogado também em sangue.

Ao mesmo tempo que se
desenvolve a onda revolucionária na Europa foi fundada em Moscou, em março de
1919, a Internacional Comunista (IC) ou Terceira Internacional, que reagrupa as
forças revolucionárias de todos os países. No momento da sua fundação só
existem dois grandes partidos comunistas, o da Rússia e o da Alemanha, este
último constituído alguns dias antes da derrota de janeiro de 1919. Esta
internacional fomenta, em todos os países, a criação de partidos comunistas que
rechaçam o chauvinismo, o reformismo e o oportunismo que engoliu os partidos
socialistas. Os partidos comunistas são a direção da revolução mundial, porém
foram constituídos tarde demais por conta das condições históricas presentes no
seu nascimento. Quando a Internacional Comunista realmente se constitui, ou
seja, no seu II Congresso em 1920, o momento mais forte da onda revolucionária
já tinha passado e o capitalismo mostra que é capaz de recuperar a situação,
tanto no plano econômico como no político. A classe dominante conseguiu,
sobretudo, quebrar o impulso revolucionário ao colocar um final ao seu
principal alimento, a guerra imperialista. Com o fracasso da onda
revolucionária mundial, os partidos comunistas, que se formaram contra a
degeneração e a traição dos partidos socialistas, acabaram se degenerando um
após outro.

Vários são os fatores
dessa degeneração dos partidos comunistas. O primeiro é que aceitam nas suas
filas toda uma série de elementos que já eram "centristas" dentro dos
partidos socialistas, e que saíram deles mediante uma rápida conversão à fraseologia
revolucionária, beneficiando-se assim do imenso entusiasmo revolucionário do
proletariado mundial pela Revolução Russa. Outro fator, ainda mais decisivo,
foi a degeneração do principal partido dessa internacional, o que tinha maior
autoridade, o Partido bolchevique que tinha conduzido a Revolução de Outubro e
foi o principal protagonista da fundação da Internacional. Com efeito, esse
partido alçado na direção do Estado é absorvido progressivamente por ele; e,
devido ao isolamento da revolução, vai se convertendo cada vez mais em defensor
dos interesses da Rússia em detrimento da sua função de baluarte da revolução
mundial. Além disso, como não pode haver "socialismo em um só país" e
a abolição do capitalismo só pode ser feita em escala mundial, o Estado russo
se transforma progressivamente em defensor do capital nacional russo, um
capital no qual a burguesia está formada principalmente pela burocracia do
Estado e, portanto, do partido. O Partido bolchevique vai se transformando
progressivamente de partido revolucionário em partido burguês e
contrarrevolucionário, apesar da resistência de um grande número de verdadeiros
comunistas, como Trotsky, que mantém de pé a bandeira da revolução mundial. E foi
assim que, em 1925, o partido bolchevique, apesar da oposição de Trotsky, adota
como programa "a construção do socialismo em um só país", um programa
promovido por Stálin, e que é uma verdadeira traição ao internacionalismo
proletário. Um programa que em 1928 vai se impor à Internacional Comunista, o
que será sua morte definitiva.

Após isso, os partidos
comunistas nos diferentes países irão passando ao serviço do seu capital
nacional, apesar da reação e do combate de toda uma série de frações de
esquerda que serão excluídas uma após a outra. Os partidos comunistas que
haviam sido ponta de lança da revolução mundial se convertem em ponta de lança
da contrarrevolução: a contrarrevolução mais terrível da história.

A classe operária não só
perdeu o segundo encontro com a história, mas ainda ia se afundar no pior
período que jamais tinha vivido, que fica muito bem refletido no título do
livro do escritor Victor Serge: É meia
noite no século
.

Enquanto na Rússia o
aparato do partido comunista se converte em classe exploradora e também em
instrumento de uma repressão e opressão das massas operárias e camponesas sem
comparação com os do passado, o papel contrarrevolucionário dos partidos
comunistas fora da Rússia se concretiza, nos anos 30, na preparação do
alistamento do proletariado na Segunda Guerra Mundial, ou seja, a resposta
burguesa à crise aberta que vive o capitalismo a partir de 1929.

Justamente esta crise aberta,
a terrível miséria que se abate sobre as massas operárias durante os anos 30,
poderia ter constituído um potente fator de radicalização do proletariado
mundial e da tomada de consciência da necessidade de acabar com o capitalismo. Mas
o proletariado vai faltar a este terceiro encontro com a história.

Na Alemanha, país
chave para a revolução proletária, onde se encontra a classe operária mais
concentrada e experimentada do mundo, vive uma situação similar à da classe
operária na Rússia. Como ela, a classe operária alemã tinha empreendido o
caminho da revolução e sua conseqüente derrota foi ainda mais terrível. O
aniquilamento da revolução alemã não foi obra dos nazistas, mas dos partidos "democráticos",
e em primeiro lugar do partido socialista [social-democrata]. Mas justamente
porque o proletariado tinha sofrido essa derrota, o partido nazista, que
naquele momento correspondia melhor às necessidades políticas e econômicas da
burguesia alemã, pôde terminar a tarefa da esquerda empregando o terror para
aniquilar toda luta proletária e alistando, por esse mesmo meio principalmente,
os operários na guerra.

De outro lado, nos
países da Europa ocidental onde o proletariado não tinha feito a revolução e,
portanto, não tinha sido aniquilado fisicamente, o terror não era o melhor meio
para alistar os operários na guerra. Para alcançar resultado a burguesia tinha
que empregar mistificações como as que tinham utilizado com êxito em 1914 e que
tinham servido para levar o proletariado à Primeira Guerra Mundial. Nesta
tarefa os partidos stalinistas cumpriram de maneira exemplar seu papel burguês.
Em nome da "defesa da pátria socialista" e da democracia contra o
fascismo, esses partidos desviaram sistematicamente as lutas operárias para
becos sem saída, desgastando assim a combatividade e a moral do proletariado.

A moral do
proletariado ficou muito afetada pela derrota da revolução mundial durante os
anos 20. Após um período de entusiasmo pela idéia da revolução comunista,
muitos operários perderam a esperança na perspectiva comunista. Um dos fatores
da sua desmoralização foi constatar que a sociedade instaurada na Rússia não
era nenhum paraíso, como apresentado pelos partidos stalinistas, o que facilita
sua recuperação pelos partidos socialistas. Entretanto, a maioria dos que ainda
continuavam acreditando na perspectiva revolucionária caem nas redes dos
partidos stalinistas que lhes dizem que essa perspectiva passa pela "defesa
da pátria socialista" e pela vitória sobre o fascismo que havia se
instaurado na Itália e, sobretudo, na Alemanha.

Um dos episódios chave
nessa desorientação do proletariado mundial foi a guerra da Espanha que não
foi, longe disso, uma revolução, mas ao contrário foi um dos preparativos
militares, diplomáticos e políticos da Segunda Guerra Mundial.

A solidariedade que os
operários do mundo inteiro quiseram expressar para seus irmãos de classe na
Espanha, os quais se levantaram espontaneamente diante do golpe fascista de 18
de julho, é canalizada e enrolada nas Brigadas internacionais (dirigidas
principalmente por stalinistas), com a reivindicação de "armas para
Espanha" (na realidade para o governo burguês da "Frente Popular")
e também pelas mobilizações antifascistas que, de fato, permitem o alistamento
dos operários dos países "democráticos" na guerra contra Alemanha.

Nas vésperas da Primeira
Guerra Mundial, o que estava sendo considerado como a grande força do
proletariado (os poderosos sindicatos e partidos operários) era, na realidade,
sua debilidade mais considerável. O mesmo cenário se repete diante da Segunda
Guerra Mundial, embora os atores sejam de algumas maneiras diferentes. A grande
força dos partidos "operários" (os partidos stalinistas e também os
partidos socialistas, unidos em uma aliança antifascista), as grandes "vitórias"
contra o fascismo na Europa ocidental, a suposta "pátria socialista",
são todas elas marcas da contrarrevolução, de uma debilidade do proletariado
sem precedentes. Uma debilidade que o levará de pés e mãos atados à segunda carnificina
imperialista.

O proletariado diante da
Segunda Guerra Mundial

A Segunda Guerra
Mundial ultrapassa de longe o horror da Primeira. O novo grau de barbárie
mostra que prossegue o afundamento do capitalismo na sua decadência. Contudo,
contrariamente ao que passou em 1917 e 1918, não é o proletariado que faz com
que ela termine. A guerra continua até o esmagamento completo de um dos campos
imperialista. Na realidade o proletariado não ficou totalmente sem resposta
durante a carnificina. Na Itália de Mussolini, por exemplo, se desenvolveu um
vasto movimento de greves, em 1943, no Norte industrial que levou as forças
dirigentes da burguesia a colocar Mussolini fora do caminho e colocar no seu
lugar um almirante pró-aliado, Bodoglio. Igualmente, no fim de 1944 e início de
1945, se produzem movimentos de revolta contra a fome e a guerra em várias
cidades alemãs. Mas o que ocorreu durante e Segunda Guerra Mundial não é em
nada comparável ao acontecido durante a Primeira. E isso por várias razões. Em
primeiro lugar, porque antes de declarar a Segunda Guerra Mundial, a burguesia
contava com a experiência da Primeira e por isso se dedicou a esmagar prévia e
sistematicamente o proletariado não só física, como também ideologicamente. Uma
das expressões dessa diferença é que se os partidos socialistas traíram a
classe operária no momento da [primeira] guerra, os partidos comunistas
cometeram sua traição bem antes de ser desencadeada a Segunda Guerra Mundial.
Uma das conseqüências desse fato é que no seu seio não ficou a menor corrente
revolucionária, contrariamente ao que havia passado durante a Primeira Guerra Mundial
em que a maioria dos militantes que logo formaram os partidos comunistas tinham
sido membros anteriormente dos partidos socialistas. E na terrível contrarrevolução
que se abateu durante os anos 30, só um pequeno punhado de militantes continuou
defendendo as posições comunistas, isolados completamente de todo contato
direto com a classe operária, completamente submetida à ideologia burguesa. Foi
impossível desenvolver um trabalho no seio de partidos com influência na classe
operária, diferente dos revolucionários durante a Primeira Guerra Mundial, não
só porque tinha sido expulsos desses partidos, mas porque neles já não existia
o menor sopro de vida proletária. Aqueles que tinham mantido posições
revolucionárias quando da eclosão da Primeira Guerra Mundial, como Rosa Luxemburgo
e Karl Liebknecht, puderam encontrar um eco crescente da sua propaganda entre
os militantes da social-democracia à medida que a guerra fazia romper suas
ilusões. Nada disso nos partidos comunistas: a partir do começo dos anos 30, se
convertem em um terreno totalmente estéril e no qual não pode surgir nenhum
pensamento proletário e internacionalista. Durante a guerra, alguns pequenos grupos
revolucionários que tinham mantido os princípios internacionalistas não tinham
nenhum impacto significativo na classe, que estava totalmente atrelada à ideologia
antifascista.

A outra razão pela
qual não há um ressurgimento proletário durante a Segunda Guerra Mundial é que
a burguesia mundial, instruída pela experiência do final da Primeira, toma suas
medidas para prevenir qualquer ressurgimento nos países vencidos, onde a
burguesia era mais vulnerável. Na Itália, por exemplo, o meio pelo qual a classe
dominante faz frente à sublevação de 1943 caracteriza-se por uma divisão de
tarefas entre o exército alemão, que ocupa diretamente o norte da Itália
restabelecendo o poder de Mussolini, e os aliados que desembarcam no sul. No
norte, são as tropas alemãs as que restabelecem a ordem com tal brutalidade que
obriga os operários, que tinham mais se destacado nos movimentos de 1943, a se
refugiarem nas guerrilhas, de onde, amputados das suas bases de classe, se
convertem em presa fácil da ideologia antifascista e de "libertação
nacional". Ao mesmo tempo, os Aliados interrompem sua marcha para o Norte,
dizendo que havia de deixar que a Itália "se cozinhasse no seu próprio
molho" (nas palavras de Churchill) com a finalidade de deixar que o "mal",
a Alemanha, faça o trabalho sujo da repressão antioperária deixando que as
forças democráticas, particularmente o partido stalinista, tomem o controle
ideológico sobre a classe operária.

Essa mesma tática se
empregou na Polônia, enquanto o "Exército Vermelho" está a poucos quilômetros
de Varsóvia, Stálin deixa que se desenvolva, sem dar nenhum apoio, a
insurreição nesta cidade. O exército alemão tem as mãos livres para perpetrar
um autêntico banho de sangue e arrasar completamente a cidade. Quando vários
meses depois o Exército Vermelho entra em Varsóvia, os operários dessa cidade
que podiam lhes causar problemas tinham sido totalmente aniquilados e
desarmados.

Na própria Alemanha,
os Aliados se encarregam de esmagar qualquer tentativa de levante operário, por
isso realizam primeiro uma abominável campanha de bombardeios nos bairros
operários (em Dresde em 13 e 14 de fevereiro de 1945, os bombardeios que causam
mais de 250.000 mortos, três vezes mais que em Hiroshima). Ou seja, os Aliados
rechaçam todas as tentativas de armistício proposta por vários setores da
burguesia alemã incluídos militares de renome como o marechal de campo Rommel
ou o chefe dos serviços secretos o almirante Canaris. Para os Aliados, deixar a
Alemanha unicamente em mãos da burguesia alemã, inclusive dos setores
antinazistas, é impensável. A experiência de 1918 quando o governo que tinha
tomado o regime imperial tinha grandes dificuldades para restabelecer a ordem,
permanecia ainda na memória dos políticos burgueses. Por isso decidem que os
vencedores devem se incumbir diretamente da administração da Alemanha vencida e
ocupar militarmente cada porção do seu território. O proletariado alemão,
aquele gigante que durante décadas tinha sido o farol do proletariado mundial e
que, entre 1918 e 1923, tinha feito tremer o mundo capitalista, estava agora humilhado,
oprimido, disperso em uma multidão de pobres sombras que buscavam os escombros
para encontrar seus mortos e seus objetos familiares, submetidos à benevolência
dos "vencedores" para poder comer e sobreviver. Nos países vencedores,
muitos operários tinham entrado na Resistência com a ilusão, propagada pelos
partidos stalinistas, de que a luta contra o nazismo era o prelúdio da
derrubada da burguesia. Na realidade, nos países sob o domínio da URSS, os
operários se viam obrigados a apoiar a implantação dos regimes stalinistas
(como durante o Golpe em Praga de 1948), regimes que uma vez consolidados
desarmam os operários e exercem sobre eles o terror mais brutal. Nos países
dominados pelos Estados Unidos, como França ou Itália, os partidos stalinistas
no governo pedem que os operários devolvam as armas porque a tarefa do momento
não é a revolução, mas a "reconstrução nacional".

Assim, por todas as
partes em uma Europa que não é nada mais que um imenso campo de ruínas, no qual
centenas de milhões de proletários sobrevivem em condições de vida e de
exploração muito piores do que aconteceram na Primeira Guerra Mundial, onde a
fome ronda permanentemente, onde o capitalismo estende mais que nunca sua
barbárie, a classe operária não tem a força de empreender o mínimo combate de
importância contra o poder capitalista. A Primeira Guerra Mundial tinha ganho
para o internacionalismo milhões de trabalhadores, a Segunda os arrastou à infâmia
do chauvinismo mais abjeto, da caça ao "boche" 

[10]



aos "colaboracionistas".

O proletariado tinha
chegado ao fundo do poço. O que lhe é apresentado, e o que ele interpreta como
sua grande "vitória", o triunfo da democracia frente ao fascismo, é
na realidade sua maior derrota histórica. O sentimento de vitória que
experimenta, a crença nas "virtudes sagradas" da democracia burguesa que
essa vitória implica, essa mesma democracia que o levou a duas carnificinas
imperialistas e que esmagou a revolução no começo dos anos 20, a euforia que o domina
é a melhor garantia da ordem capitalista. E o período de reconstrução, do "boom"
econômico da pós-guerra, da melhoria momentânea das condições de vida, não
permite, ao proletariado, medir a dimensão da derrota sofrida.

De novo o proletariado
falta ao encontro com a história. Mas nesta ocasião não é porque tenha chegado
demasiado tarde ou mal preparado: simplesmente ficou ausente da cena histórica.

Na segunda parte deste
artigo veremos como ele voltou à cena histórica, mas também o quanto comprido ainda
é o seu caminho.

Fabienne


[1]

Marx e Engels, Manifesto
Comunista
. Ed. Boitempo, p.42.

[2]

Ibid, p. 51.

[3]

Marx, O 18 de Brumário de
Louis Bonaparte
. (A expressão “
Hic Rhodus, hic salta!” é de uma fábula de Esopo em
que um fanfarrão sustenta ter dado um salto prodigioso em Rhodes, uma das
maravilhas arquitetônicas do mundo antigo. A ele se replicou, então: "Aqui
está Rhodes, agora salta.") Ed. Expressão Popular, p. 212.

[4]

Rosa Luxemburgo, A Ordem
Reina em Berlim
. Tradução nossa.

[5]

Marx e
Engels, Manifesto Comunista. Ed. Boitempo, p.41-42.

[6]

Passagem citada na "Resolução sobre a posição para as correntes
socialistas e a conferência de Berna" no Primeiro Congresso da
Internacional Comunista.

[7]

NdT: expressão francesa que remete ao
entusiasmo, felicidade e ingenuidade dos soldados da época.

[8]

Veja nossa série de artigos sobre a revolução alemã na Revista Internacional números 81 a 99.

[9]

Veja nosso artigo Lecciones
de 1917-23: la primera oleada revolucionaria del proletariado mundial
,
Revista internacional nº 80, primeiro trimestre de 1995. Link: < http://es.internationalism.org/rint80lecciones >

[10]

NdT: termo francês de tom pejorativo dado
aos alemães.