A conjuntura mundial e as eleições

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A conjuntura mundial vai ser abordada sobre os planos da guerra e das lutas sociais. Dentro deste contexto, examinaremos como as eleições podem influenciar esta conjuntura.

A Guerra

O mundo viveu durante 40 anos sob a ameaça de uma guerra mundial que, com certeza, se tivesse ocorrido, teria devastado o planeta e provavelmente acabado com a espécie humana.

Este cenário prevaleceu durante o período entre o fim da Segunda Guerra mundial e o desmoronamento do bloco do Leste, em 90.

O que foi que descartou esta alternativa mórbida? Foi o fim da rivalidade entre dois blocos imperialistas, pois, pouco tempo depois do desmoronamento do bloco do Leste, o bloco do Oeste se dissolveu.

Mas este acontecimento de alcance mundial, ao descartar o risco de guerra mundial, não significou o fim das tensões imperialistas e das guerras.

Com efeito, o fim da Guerra fria não significou a abertura de um período de paz e prosperidade, como tinha afirmado o presidente Bush pai, nessa época.

Desde a Primeira Guerra do Golfo, cada dia que passa inicia um novo conflito no planeta. E, ao contrario do período anterior, estes conflitos tiveram como motivação principal as rivalidades imperialistas entre os Estados-Unidos e seus ex-aliados do bloco do Oeste. Na realidade, enquanto os Estados-Unidos estão tentando, com cada vez menos sucesso, manter sua dominação mundial, seus ex-aliados, fazem tudo para enfraquecer esta dominação.

Isso não significa, entretanto, que existiria de novo, uma bi-polarização entre, de um lado, um campo imperialista constituído pelos Estados-Unidos e alguns aliados e, por outro lado, um campo oposto aglutinando o resto do mundo, e que seria menos imperialista, porque menos potente.

Com efeito, os ex-aliados do Estados-Unidos não atuam no seio de uma aliança crescente contra o imperialismo americano, mas dentro de alianças efêmeras, circunstanciais, em função de seus próprios interesses imperialistas, que podem até incluir acordos circunstanciais com os Estados-Unidos.

Vale a pena dar alguns exemplos ilustrando esta volatilidade das alianças, que na realidade pode ser caracterizada pelo “cada um por si”:

  1. Nos inicio do atual conflito no Iraque, houve uma aliança da Grã-bretanha e dos estados unidos contra uma aliança comportando essencialmente a França, a Alemanha, a Rússia.
  2. Na primeira Guerra em Iugoslávia, no começo dos anos 90, a configuração era totalmente diferente. Com efeito, três campos se destacaram:
    • A Alemanha que utilizou a Croácia para provocar a desintegração da Iugoslávia por conta de interesses estratégicos próprios, em particular o acesso ao mar mediterrâneo;
    • A aliança entre Grã-bretanha e a França que ambas utilizaram a Servia para tentar impedir a extensão da influencia alemã e também para impedir que os Estados-Unidos se envolvesse neste conflito situado quase no coração da Europa;
    • Os Estados-Unidos que utilizou o pretexto da exterminação das populações da Bosnia para justificar sua intervenção armada.

Outras características dos conflitos do período depois dos blocos imperialistas devem ser evocadas.

Em primeiro lugar, a barbárie crescente que engendram. Citemos dois exemplos:

  • O genocídio da população Tutsi pela guerrilha Hutu, armada pelo governo francês, na guerra em Ruanda em 1994, fez perto de um milhão de vítimas num curto período de três meses. Nessa guerra, o imperialismo francês não fez nada menos de que defender sua dominação sobre esta parte da África contra a pressão americana, através da guerrilha Tutsi.
  • No Iraque, não há um dia em que não ocorram verdadeiras matanças nas ruas das cidades. E esta violência não é dirigida especialmente contra as tropas de ocupação, mas sim principalmente contra as populações civis por parte de grupos terroristas a serviço de estados da região, de segunda ou terceira ordem, ou até por parte de chefãos de guerra, como Bin Laden, de comunidades religiosas e / ou étnicas.

Se a maior parte das vítimas se conta nos países que constituem os objetivos estratégicos destas guerras, a população das maiores potências econômicas não é poupada:

  • Mais de 2500 jovens soldados americanos já morreram no Iraque;
  • Centenas de proletários morreram nos transportes nos atentados terroristas cegos em Madrid e Londres em 2005.

Na realidade, podemos dizer que a erupção do terrorismo, num grau desconhecido até agora, constitui a maior característica das guerras atuais, por parte de todos os protagonistas dos conflitos.

Os atentados terroristas do 11 de setembro 2001 em New York foram uma ilustração brilhante disso. Não somente por conta do objetivo dos terroristas, destruir duas torres cheias de gente, e sim da manobra da burguesia americana que deixou acontecerem os preparativos e o atentado, já que ela estava informada de tudo isso desde o início.

Para que? Utilizar a indignação criada na população para fazê-la aceitar as intervenções militares no Afeganistão e no Iraque. 

O procedimento não é novo, foi mais bárbaro ainda de que outras vezes. Já foi utilizado em 1941, pelo estado americano, para mobilizar a população americana na Segunda guerra mundial. O bombardeio do porto militar de Pearl Harbor pela aviação japonesa, na realidade, não foi uma surpresa, como o fingiu o governo americano nessa época. Seus serviços de informação tinham interceptado e interpretado as informações cifradas japonesas, relativas ao bombardeio da frota militar americana baseada neste porto.

Agora vêm duas questões:

  • Qual é a causa da tendência crescente do capitalismo para a guerra?
  • Porque esta situação de agravamento dos antagonismos imperialistas entre as grandes potências não resulta numa confrontação militar direita entre elas?

Desde a segunda guerra mundial, e durante toda a época da guerra fria, as guerras locais, conseqüência do antagonismo Leste Oeste, nunca pararam.

As tensões guerreiras, ampliadas pelo agravamento da crise econômica mundial, expressaram, ao nível dos blocos, a rivalidade crescente entre nações capitalistas, tendo como objetivo a supremacia militar sobre o mundo.

Quando existe cada vez menores possibilidades de um desenvolvimento econômico, a sobrevivência só pode passar pela submissão dos rivais. 

Os conflitos atuais expressam esta mesma contradição e o impasse do capitalismo mundial. Mas, pelo fato do desaparecimento dos blocos imperialistas e do agravamento da crise econômica, eles são mais numerosos e bárbaros, e criam um caos mundial maior.

Apesar do agravamento das guerras, estas não desembocaram numa guerra frontal entre duas grandes potências, assim como as tensões entre os blocos não tinham desembocado numa Terceira Guerra mundial.

Uma Guerra mundial e também uma confrontação direta entre duas grandes potências, precisam a mobilização de todas as forças da nação e principalmente da que produz o essencial das riquezas, o proletariado. Ora o proletariado não está disposto a aceitar os sacrifícios de uma exploração decuplicada pela necessidade da produção de guerra e, ainda menos, o sacrifício supremo de sua vida na participação direta nos combates.

Suas reações diante do ataques econômicos atuais o comprovam.

A luta de classe 

Assim, a luta de classe mundial, nas grandes concentrações industriais em particular, constitui um freio na tendência à guerra.

Mas a luta de classe não constitui somente isso. O proletariado tem a capacidade, como o demonstrou a onda revolucionaria mundial de 1917-23, de entrar em luta, internacionalmente, contra a ordem capitalista para derrubá-la.

O fato desta tentativa ter sido derrotada não prova que uma próxima tentativa será necessariamente derrotada.

Assim, no seio de toda esta barbárie sangrenta do mundo atual, a única centelha de esperança para a humanidade reside na retomada dos combates do proletariado em escala mundial, notadamente há cerca de um ano. 

Pelo fato que a crise econômica se desenvolve em escala mundial e não poupa nenhum país, nenhuma região do mundo, a luta do proletariado contra o capitalismo tende cada vez mais a se desenvolver em escala universal. Ela carrega consigo a perspectiva futura da derrubada do capitalismo.

Neste sentido, o caráter simultâneo dos combates do proletariado nesses últimos meses, tanto nos países industrializados como no “Terceiro-Mundo”, é indicativo da retomada atual da luta de classe.

Depois das greves que paralisaram o aeroporto d´Heathrow e os transportes de Nova York em 2005, são os trabalhadores da fabrica Fiat em Barcelona, depois os estudantes na França, seguidos pouco depois pelos metalúrgicos de Vigo na Espanha, que entraram maciçamente em luta na última primavera européia. No mesmo momento, nos Emirados Árabes Unidos, em Dubaï, estourou uma onda de luta de classe por parte dos operários imigrantes da construção civil. Diante da repressão, os trabalhadores do aeroporto de Dubai entraram espontaneamente em greve em solidariedade com os da construção civil. Em Bengladesh, são perto de dois milhões de operários da industria têxtil na região de Daka que se engajaram numa série de greves selvagens maciças no final do mês de maio, em protesto contra os salários de miséria e as condições de vida insustentáveis que lhes impõem o capitalismo.

Em todos os lugares do mundo, seja nos países mais desenvolvidos como os Estados-Unidos, Grã-Bretanha, França e anteriormente Alemanha e Sueca, ou seja, nos países entre os menos desenvolvidos como o Bengladesh, o proletariado está de novo levantando a cabeça. 

Assim são dois mundos que se encaram: o mundo da burguesia e o mundo do proletariado.  A primeira, apesar de ter personificado, diante do feudalismo, o progresso da humanidade, passou a ser, hoje, a personificação da barbárie, da bestialidade e do desespero que oprime a espécie humana. Por outro lado, o proletariado, apesar de não ter ainda consciência disso, representa o futuro, um futuro que será definitivamente livre da miséria e da guerra.

E o papel das eleições nessa situação?

As consultas eleitorais são apresentadas como momentos em que “se joga o futuro social dos explorados”, desde que saibam “votar a favor dos que os defendem”, quer dizer os partidos de esquerda. Alguns vão até dizer, como os trotskistas na extrema esquerda, que as eleições constituem um momento da defesa da independência de classe do proletariado e de seu projeto histórico, o socialismo.

Convém aí colocar a questão seguinte: Qual foi o benefício para os proletários das vitórias eleitorais dos pretendidos defensores dos explorados em todos os países do mundo?

Benefício nulo. A esquerda, quando está no governo, não age de maneira diferente da direita.

E é normal, porque ela é eleita com a mesma missão, nem sempre reconhecida: defender os interesses do capital nacional, o que só pode ser realizado em detrimento do proletariado. 

Eleição depois de eleições, quer seja a direita ou a esquerda a vencedora, as condições de vida do proletariado não deixam de piorar.

Não pode ser diferente no seio do capitalismo, pois:

  • a crise mundial deste sistema só vai se agravando,
  • e cabe ao Estado capitalista fazer com que as conseqüências desta sejam pagas pelo proletariado.

Mas além de ser uma ferramenta ineficaz nas mãos dos proletários, as eleições constituem uma instituição muito eficaz a serviço da burguesia contra o proletariado.

A burguesia nos apresenta sua democracia como a melhor forma de organização que pode existir. Com efeito:

  • Ela permite que os cidadãos "livres" e "iguais" escolham pelo voto os representantes políticos que querem;
  • Ela é sempre perfectível.

Assim, se os eleitores querem o "socialismo", ou o "comunismo", é só votar pelos representantes destes programas políticos. Na realidade, e como já o vimos no passado, nenhuma formação política que pretenda defender tal programa, jamais agiu no sentido de defender os interesses do proletariado.

Assim, as eleições são uma arma ideológica da burguesia contra a consciência e a unidade do proletariado.

A democracia burguesa é na realidade o biombo ideológico que serve para dissimular o antagonismo entre duas classes com interesses irreconciliáveis, a burguesia exploradora e o proletariado explorado.

A democracia é uma mera mistificação, cuja função é a de mascarar a ditadura da classe dominante, a burguesia, sobre o conjunto da sociedade. E o instrumento desta ditadura não é outro senão o Estado, seja ele governado pela direita ou pela esquerda.

A Terceira Internacional tinha razão, quando não ainda degenerada, dizia que não existia mais possibilidades para o proletariado de utilizar as eleições.  Assim, em 1920, durante seu segundo congresso, ela declara: "A atitude da terceira Internacional não é determinada por uma nova doutrina mas pela modificação do próprio papel do parlamento. Na época precedente, o parlamento como instrumento do capitalismo ainda em processo de desenvolvimento, de uma certa maneira trabalhou a favor do pregresso histórico. Mas, nas condições atuais, na época do desencadeamento imperialista, o parlamento passou a ser   ao mesmo tempo um instrumento de mentira, de engano, de violência e uma exasperante conversa fiada. Atualmente, o parlamento não pode ser, de maneira nenhuma, para os comunistas, o teatro de uma luta para reformas e para a melhoria das condições do proletariado, como foi no passado. O centro de gravidade da vida política saiu definitivamente do parlamento."

Corrente Comunista Internacional