Os Esquerdistas e os Sindicatos

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Nos sindicatos, existe um setor "crítico": os esquerdistas. Repetindo os erros da III Internacional, eles defendem hoje a tática de participação nos sindicatos - dos quais eles criticam os "erros" permanentes - considerando-os como organizações operárias, e se arrogando a tarefa de "desburocratizá-los" através da conquista dos cargos de direção.

Os Sindicatos têm dupla função?

Para justificar seu apoio "critico" aos sindicatos, certas tendências esquerdistas exprimem a idéia que os sindicatos têm dupla função: em tempos "calmos", quando não há lutas importantes, os sindicatos defenderiam a classe operária face ao patronato; em tempos de efervescência social, eles defenderiam o patronato contra a classe operária. Este raciocínio é apenas uma forma enviesada de continuar defendendo os sindicatos fingindo rejeitá-los. Esta era, por exemplo, a posição do grupo Poder Operário em maio de 1968, na França, que especificava na sua plataforma política: "Atualmente, na maior parte dos países capitalistas, os sindicatos exercem uma dupla função:

  • defender, contra o patronato, os interesses imediatos dos assalariados;
  • defender o capitalismo contra toda luta dos trabalhadores que possa colocá-lo em dificuldades ” (P.O. no 90, Maio 68).

Este pensamento não ultrapassa a profundidade da opinião segundo a qual a polícia defende os interesses do trabalhador quando o salva do afogamento na praia e que não os defende mais quando o espanca numa greve, servindo, então, ao patronato.

Não se determina a natureza de classe de uma organização pela sua atitude nos momentos de "calma social", quando o proletariado fica submisso ao poder burguês. Se quisermos determinar a natureza da classe de uma organização, devemos fazê-lo quando as classes se enfrentam abertamente.

A função dos sindicatos fica clara quando os vemos, durante toda luta operária que se generaliza, impedir os contatos entre operários de diferentes fábricas, falsificar as reivindicações dos trabalhadores, usar a mentira e a calúnia para fazê-los retomar o trabalho, dizendo, em cada empresa em luta, que "os outros retomaram" e que "não podemos continuar sozinhos", em uma palavra, quando fazem o papel de fura-greve. É aí que a natureza de classe dos sindicatos aparece claramente. A comédia reivindicativa que representam diariamente nos períodos de calmaria, apresentando-se como defensores da classe operária nas palhaçadas das negociações coletivas e na aplicação escrupulosa do direito do trabalho - esse conjunto de regras que rege a exploração do trabalho - não os torna representantes do proletariado frente ao capital, mas funcionários do capital encarregados de facilitar o funcionamento normal da exploração. As lágrimas de crocodilo dos sindicatos diante dos “abusos” do capital, as greves de protesto de algumas horas, a preocupação com os problemas individuais dos operários na fábrica, as "pequenas tarefas" nas quais se fundamenta o mito da identificação dos sindicatos com os interesses da classe operária, mito que os esquerdistas retomam à sua maneira "crítica", são apenas uma condição necessária para a eficácia do enquadramento sindical no momento das verdadeiras lutas.

Assim como os salva-vidas devem salvar afogados e os policiais organizar o tráfego nas rodovias para justificar sua existência e poder reprimir as lutas operárias em nome do interesse público, os sindicatos devem preencher essas funções de "assistência social" dos operários e de válvula de escape para melhor cumprir, no dia do combate, sua função de enquadramento e repressão em nome do "interesse operário".Sabotagem das lutas operárias e "representação oficial" dos trabalhadores no quadro da exploração capitalista não são, no capitalismo decadente, duas funções diferentes e ainda menos contraditórias dos sindicatos,. São somente dois aspectos de uma única e mesma função anti-proletária.

A burocratização dos sindicatos e as ilusões sobre sua "reconquista"

Outro argumento repetido pelos esquerdistas, para justificar seu apoio "critico" e sua participação nesses órgãos, é o que apresenta os sindicatos como organizações que, por si mesmas, seriam formas de organização válidas para a luta operária, mas teriam sido desviadas de sua verdadeira função pela burocratização e pelos "maus dirigentes" que se encontram a sua frente. Tratar-se-ia, então, de "reconquistar os sindicatos", tornando-os mais democráticos (reivindicação do direito de tendência no seu interior), de substituir a "direção corrupta" pelos verdadeiros líderes operários. Em vez de entender a burocracia e os "maus" chefes sindicais como produto inevitável da natureza capitalista dos sindicatos, apresentam-nos como causa dos "erros" e das traições sindicais.

A burocratização de uma organização não é o reforço do poder de decisão de seus órgãos centrais. Contrariamente ao que pensam os anarquistas, centralizar não é sinônimo de burocratizar. Ao contrário, numa organização em que predomine a atividade consciente e apaixonada dos seus membros, a centralização é o meio mais eficaz para estimular a participação de cada membro na vida da organização. O que caracteriza a burocratização é o fato de que a vida da organização é artificialmente, formalmente, reduzida à de seus "escritórios", de seus órgãos centrais. Se tal fenômeno se generalizou nos sindicatos, com a decadência capitalista, não é pela malevolência dos responsáveis sindicais, nem por um fenômeno inexplicável de "burocratização".

Se a burocracia se apoderou dos sindicatos foi porque os trabalhadores não podem levar vida, nem paixão a um organismo que não é mais o seu.

A indiferença dos operários em relação à vida sindical não é, como pensam os esquerdistas, uma prova de inconsciência dos trabalhadores. Ela manifesta, ao contrário, a existência no proletariado de uma compreensão da ineficácia dos sindicatos na defesa dos seus interesses de classe e mesmo da sua participação na classe inimiga.

As relações entre os trabalhadores e seu sindicato não são as relações da classe operária com seu instrumento de luta. Elas assumem, na maior parte do tempo, a forma de relações entre indivíduos, com problemas individuais, e uma assistência social (que é um conchavo com o patrão).

Há burocracia porque não há e não pode haver vida operária nos sindicatos. Os esquerdistas que militam nos sindicatos atribuem-se entre outras tarefas a de "reanimar" a vida sindical. Eles o conseguem, enquanto o jovem militante sindical "que acredita" no começo, antes de deixá-los, decepcionado, ou de se tornar ele também um dirigente sindical. A única coisa que eles conseguem é retardar a tomada de consciência do caráter capitalista dessas organizações. A justificação desses esquerdistas ("é uma organização ruim, mas é operária") é finalmente a melhor defesa desses órgãos quando a desconfiança dos trabalhadores aumenta. As burocracias sindicais encontram, nos "exaltados", nos profissionais da "crítica construtiva", seus melhores aliados, os recuperadores dos proletários que "se extraviam no anti-sindicalismo".

Quanto à tática da reconquista da direção dos sindicatos para fazer deles verdadeiras organizações de classe, ela indica a mesma miopia, quando não é só fachada de ambições burocráticas. A atitude antioperária dos sindicatos não é uma questão de bons ou maus chefes.

Não é por acaso que, há mais de cinqüenta anos, os sindicatos só tiveram "maus dirigentes". Nem é porque os chefes são maus que os sindicatos não se dedicam às verdadeiras lutas da classe operária. É, ao contrário, porque os sindicatos, como organização, não podem mais servir à luta proletária que seus chefes são inevitavelmente "maus". Como fazia notar Pannekoek:

"O que Marx e Lênin disseram e repetiram do Estado, que seu modo de funcionamento, apesar da existência de uma democracia formal, não permite utilizá-lo como instrumento da revolução proletária, aplica-se, portanto, aos sindicatos. Sua função contra-revolucionária não será aniquilada, nem mesmo abalada, por uma mudança de dirigentes, pela substituição de chefes reacionários por homens de "esquerda" ou revolucionários. É verdadeiramente a própria forma de organização que reduz as massas à impotência ou quase e que as impede de fazer dela o instrumento de sua vontade ”.