Quem é quem no "nuevo curso"?

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O proletariado só será capaz de libertar a humanidade das cadeias cada vez mais sufocantes do capitalismo mundial se sua luta for inspirada e fertilizada pela continuidade histórica crítica de suas organizações comunistas, o fio histórico que vai desde a Liga dos Comunistas em 1848 até as organizações atuais que reivindicam ser da esquerda comunista. Privadas dessa bússola, suas reações contra a barbárie e a miséria impostas pelo capitalismo serão condenadas a ações cegas e desesperadas, que podem levar a uma cadeia de derrotas definitivas.

O blog do Nuevo Curso afirma passar como "esquerda comunista" o trabalho de Munis, que nunca conseguiu realmente romper com a abordagem e as orientações errôneas da Oposição de Esquerda, que acabará degenerando no trotskismo, corrente que desde os anos 40 se posiciona claramente na defesa do capitalismo, junto com seus grandes irmãos, o estalinismo e a social-democracia.

Respondemos a esta afirmação com o artigo "Nuevo Curso e a 'Esquerda Comunista Espanhola': Quais são as origens da esquerda comunista?" ao salientar que "o futuro partido mundial, para que possa realmente contribuir para a revolução comunista, não pode assumir o legado da Oposição de Esquerda. Terá necessariamente de basear o seu programa e os seus métodos de ação na experiência da Esquerda comunista (...) existe uma herança comum da Esquerda comunista que a distingue das outras correntes de esquerda que emergiram da Internacional Comunista. Portanto, quem afirma pertencer à Esquerda comunista tem a responsabilidade de se esforçar para conhecer e dar a conhecer a história deste componente do movimento operário, as suas origens em reação à degeneração dos partidos da Internacional Comunista, os diferentes grupos que estão ligados a esta tradição por terem participado na sua luta, os diferentes ramos políticos que a compõem (a esquerda italiana, a esquerda holandesa-alemã, etc.). Em particular, é importante esclarecer os contornos históricos da Esquerda comunista e as diferenças que a distinguem de outras correntes de esquerda, em particular a trotskista".Este artigo escrito em agosto de 2019 foi totalmente ignorado pelo Nuevo Curso. O som do seu silêncio ressoava alto nos ouvidos de todos nós que defendemos o legado e a continuidade crítica da Esquerda comunista. Isto é ainda mais chocante quando o Nuevo Curso publica todos os dias um novo artigo que aborda todos os temas imagináveis, desde a Netflix ou a mensagem de Natal do Rei de Espanha até à origem da festa de Natal. Entretanto, ele não considerou necessário dedicar nada a algo tão vital como a justificação fundamentada de sua pretensão de passar como a esquerda comunista a continuidade mais ou menos crítica de Munis com a oposição de esquerda que deu origem ao trotskismo.

No final, o nosso artigo fez a seguinte pergunta: "Talvez possa ser um culto sentimental a um antigo combatente operário. Se for esse o caso, devemos dizer que o resultado será uma maior confusão, porque as suas teses, convertidas em dogmas, apenas destilarão o pior dos seus erros. Recordemos a análise precisa do Manifesto Comunista em relação aos socialistas utópicos e àqueles que mais tarde tentaram justificá-los: "embora alguns dos autores desses sistemas socialistas fossem em muitos aspectos verdadeiros revolucionários, seus discípulos hoje formam seitas inquestionavelmente reacionárias, que tremem e mantêm as velhas ideias de seus professores diante dos novos caminhos históricos do proletariado".

Outra explicação possível é que a autêntica Esquerda comunista está sendo combatida com uma "doutrina" de spam construída da noite para o dia, usando os materiais daquele grande revolucionário. Se for esse o caso, é obrigação dos revolucionários lutar com o máximo de energia contra tal impostura.

O pior na derrota da onda revolucionária mundial de 1917-23 foi a gigantesca adulteração perpetrada pelo estalinismo, passando-o como "comunismo", "marxismo" e "princípios proletários". As organizações revolucionárias de hoje não podem permitir que todo o legado que foi duramente conquistado durante quase um século pela esquerda comunista seja substituído por uma doutrina de spam baseada na confusão e na gangrena oportunista que foi a Oposição de Esquerda. Isto seria um golpe brutal para a perspectiva de uma revolução proletária mundial.

As origens do Nuevo Curso

Em setembro de 2017, descobrimos a existência de um website (blog) de um grupo intitulado "Nuevo Curso"[1], que inicialmente se apresentou como interessado nas posições da Esquerda comunista e aberto ao debate. Pelo menos foi o que o NC disse na sua resposta à primeira carta que nós, CCI, lhes enviamos. Aqui está a resposta deles:

  • "...Não nos consideramos um grupo político ou um proto-partido ou algo do gênero... Pelo contrário, vemos o nosso trabalho como algo "formativo", para ajudar a discussão nos locais de trabalho, entre os jovens, etc., e uma vez esclarecidos alguns elementos básicos, servindo de ponte entre estas novas pessoas que descobrem o Marxismo e as organizações internacionalistas (essencialmente a TCI e você, CCI) que, a nosso ver, deveriam ser os aglutinadores naturais do partido do futuro, mesmo que vocês estejam muito fracos agora (como, é claro, toda a classe)".[2]Esta abordagem desapareceu alguns meses depois, sem qualquer explicação detalhada e convincente, e pouco tempo depois, porém, o NC declarou ser a continuidade de uma chamada Esquerda Comunista Espanhola cujas origens seriam Munis e seu grupo, o FOR[3]. Já assinalamos que esta suposta filiação é apenas uma confusão entre a esquerda comunista e o trotskismo, e que do ponto de vista da continuidade dos princípios políticos, as posições do NC não estão de forma alguma em continuidade com as da esquerda comunista, mas com as do trotskismo, ou, na melhor das hipóteses, tentativas de romper com ele[4]. Não há, portanto, continuidade programática do NC com a esquerda comunista.E a continuidade orgânica? Isto é o que eles próprios disseram no início:
  • "Atrás do blog e a 'Escola de Marxismo' somos um pequeno grupo de cinco pessoas que trabalham e vivem juntas há quinze anos em uma cooperativa de trabalho que funciona como uma comunidade de bens. Era a nossa maneira de resistir à precariedade e de ganhar a vida. E também para manter um modo de vida onde pudéssemos conversar, aprender e ser úteis às nossas famílias e amigos em tempos difíceis" (idem)."

E como eles também reconhecem, sua atividade principal estava longe de ser uma crítica marxista; consistia em geral, na ausência de maior concretização, em dedicar seus esforços "para tornar possível um trabalho organizado de forma produtiva (um novo movimento cooperativo ou comunitário que tornasse evidente a possibilidade tecnológica de uma sociedade desmercantilizada, ou seja, comunista)"[5] (idem).Por outro lado, para além deste núcleo central, e aparentemente proveniente das diferentes dinâmicas de reflexão e discussão, diferentes grupos de jovens convergiram para este grupo em várias cidades.[6]

O que é surpreendente é como, com tais elementos, o site NC foi capaz de se apresentar desde o início referindo-se às posições da esquerda comunista. Um dos elementos que contribuem também é explicado na sua carta:

  • "Um de nós - isto é, do núcleo cooperativo, NdR -, Gaizka[7], que foi um dos seus antigos contatos nos anos 90, e cuja cabeça, como ele próprio diz, se encheu bem quando aprendeu o marxismo com vocês. Confiar nele e na biblioteca que ele trouxe com ele foi uma parte importante do nosso processo."

 (Idem)De facto, este "membro cooperativista" apresentou-se em dezembro de 2017 na nossa reunião pública em Madrid, por ocasião do centenário da Revolução Russa, e revelou-se um velho conhecido, apelidado Gaizka, que nos anos 90 teve uma discussão programática com a CCI. No final do encontro, ele nos informou que estava em contato com um grupo de jovens, aos quais "ele estava dando uma formação marxista", e nos encorajou a fazer contato novamente.

Nossa resposta à sua proposta de restabelecer o contato foi que ele primeiro teve que esclarecer certos comportamentos políticos que não foi capaz de explicar nos anos 90, e que o envolveram em atitudes carreiristas e em uma relação mantida com o PSOE[8] ao mesmo tempo em que ele reivindicava as posições da esquerda comunista.[9]Ele não respondeu em dezembro (2017), nem depois, às 4 cartas que lhe enviamos no mesmo sentido. É por isso que, seguindo a tradição proletária de chegar a uma clareza sobre este tipo de episódios duvidosos que permanecem obscuros, continuamos a pedir explicações.

Porque, na ausência destas explicações, o acompanhamento da sua atividade política[10] desde a nossa reunião mostra uma ligação mantida principalmente com o PSOE.A "Trilha Tortuosa" de Gaizka

1992-1994, contato com a CCI, fuga e evasão

Em 1992, Gaizka aproximou-se da CCI, apresentando-se como membro de um grupo chamado "Unión Espartaquista", que alegou defender as posições da esquerda comunista alemã (posições que hoje já não parece mais gostar). Na realidade, foi essencialmente ele e sua parceira[11]. O seu conhecimento das posições e tradições da esquerda comunista era mais uma aspiração do que uma realidade.

Desde o início, mostrou interesse em juntar-se rapidamente à nossa organização, sentindo-se desconfortável quando as discussões foram prolongadas devido à necessidade de esclarecimento, ou quando alguns dos seus comportamentos foram questionados - especialmente em relação a outro elemento que tinha aderido a um círculo de discussão em Madrid, no qual uma delegação da Battaglia Comunista também participou pontualmente.

A discussão sobre a sua trajetória política também tinha sido problemática. Embora nos tenha informado que tinha mantido contato com os Jovens Socialistas (do PSOE), mostrou uma espécie de fascínio pela experiência do kibutz[12], e um discurso que por vezes parecia ligá-lo ao Borrell[13] e ao lobby socialista pró-israelita[14]. Além disso, Gaizka nunca tinha esclarecido a sua relação orgânica com o PSOE ou a sua ruptura.[15]

Em 1994, na CCI houve debates sobre o problema do peso do espírito do círculo no movimento operário desde 1968 e sobre o afinitarismo sob o pretexto de projetos de vida "comunitários". Durante as discussões sobre os nossos princípios organizacionais, apresentamos as nossas posições sobre todos aspectos a Gaizka. E talvez por esta razão, quando lhe pedimos diretamente explicações sobre os aspectos que nos pareciam pouco claros sobre a sua trajetória[16], à primeira vista ele não ficou nada surpreendido, apesar do fato de lhe termos apresentado um confronto que incluía uma gravação (nunca tínhamos gravado uma discussão com ele). E em segundo lugar, ele simplesmente não deu nenhuma explicação e desapareceu da esquerda comunista...até recentemente!

Uma laço mantido com o PSOE

O que levanta questões na trajetória política de Gaizka não é o fato de que em certo momento ele tenha sido um apoiador ou militantes dos Jovens Socialistas e não o tenha dito claramente; o que merece uma explicação é o fato de que, apesar de sua suposta convicção nas posições da Esquerda comunista, a história da sua vida está cheio de traços que mostram uma relação política com pessoas que são ou foram altos funcionários do PSOE.

Em 1998-99, ele participou como "conselheiro", sem nunca especificar o que isso significava, na campanha de Borrell para as primárias PSOE, como relatado em alguns de seus próprios relatórios na web. Um dos nossos militantes o viu na televisão, no gabinete do candidato[17]. Gaizka tentou minimizar o problema dizendo que ele era apenas o "moço de recados" da campanha, alguém que Borrell nem teria notado. Mas a verdade é que alguns líderes do PSOE, como Miquel Iceta[18] por exemplo, dizem publicamente que se encontraram com Gaizka nesta campanha. E não parece muito lógico que os altos funcionários do PSOE tenham ido pedir a Borrell para lhes apresentar o moço de recados.

Além disso, durante estes mesmos anos, Gaizka participou também numa "Missão Humanitária" do Conselho Europeu para a Ação Humanitária e Cooperação de l'UE[19] no Kosovo ao lado de David Balsa, atual Presidente da Conferência Euro-Centro-Americana, então Presidente do Conselho Europeu para a Ação Humanitária e Cooperação, ex-líder dos Jovens Socialistas e ex-membro do executivo do Partido Socialista da Galiza. Numa carta para o Partido Radical Italiano, Gaizka diz dele que é "o rapaz que foi para a Albânia no meu lugar".

Para além do que isto pode sugerir em relação à suspeita de uma relação mais estreita entre Gaizka e o PSOE do que alguma vez reconheceu, implica a participação ativa numa guerra imperialista sob o disfarce de "ação humanitária" e "direitos humanos".[20]

Em 2003, também assessorou a campanha de Belloch[21] do PSOE na Câmara Municipal de Saragoça, e lá, desta vez, reconhece: "Estive muito envolvido na campanha do prefeito, Juan Alberto Belloch, para redefinir a cidade como um espaço urbano, como uma paisagem econômica, onde este tipo de negócios ligados a comunidades reais, altamente transnacionalizados e hiper-conectados, podem se desenvolver".

Em 2004, após os ataques de 11 de março e a vitória eleitoral do PSOE, Rafael Estrella, num prólogo a um livro de Gaizka, elogia e louva as qualidades deste. Este senhor foi membro do PSOE, porta-voz da Comissão dos Negócios Estrangeiros do Congresso dos Deputados e Presidente da Assembleia Parlamentar da OTAN[22]. O livro destaca a incompetência do PP em compreender os ataques de Atocha, mas não há uma única crítica ao PSOE. O próprio Felipe Gonzalez o cita ocasionalmente.

O mesmo deputado do PSOE tornou-se mais tarde embaixador espanhol na Argentina a partir de 2007 (até 2012) e convidou Gaizka a apresentar o seu livro na embaixada, pondo-o em contato com os círculos políticos e econômicos daquele país.

Outro "padrinho" que teve um papel importante na aventura sul-americana de Gaizka foi Quico Mañero, de quem ele disse em uma dedicatória de outro de seus livros: "Para Federico 'Quico' Mañero, amigo, conector de mundos e tantas vezes mestre, que há anos nos impulsiona a "viver na dança" de continentes e conversas, recebendo-nos e cuidando de nós em todos os lugares onde pousamos. Sem ele, nunca teríamos podido viver como neo-venetianos".

Isto é o que Izquierda Socialista (corrente de esquerda do PSOE) diz sobre este senhor:

  • "A parte da REPSOL[23] detida pela Argentina é da responsabilidade do Sr. Quico Mañero, ex-marido de Elena Valenciano[24], líder histórico do PSOE (Secretaria Geral da Juventude Socialista), assessor e comprador de negócios próximo a Felipe González, nomeado em 2005 membro da diretoria argentina da Repsol-YPF. Ele está atualmente sendo investigado pelo escândalo Invercaria e pelos fundos andaluzes "dos répteis" [escândalo financeiro], dos quais recebeu 1,1 milhões de euros".[25]

Durante o mesmo período, em 2005, Gaizka trabalhou para a Fundação Jaime Vera do PSOE, que é tradicionalmente uma instituição de formação para os quadros políticos do partido, e aparentemente partir de 2005 iniciou um programa internacional de formação para quadros com o objetivo de ganhar influência para além das fronteiras de Espanha. Neste contexto, Gaizka participa na formação de ciberactivistas-K na Argentina, que apoiaram a campanha de Cristina Kirchner em 2007, quando ela se tornou presidente do governo:

  • "A ideia nasceu há dois anos, a partir de um acordo político do governo. Foi em 2005, entre cerca de 20 jovens selecionados pela Casa Rosada [sede da presidência argentina] para serem capacitados na Fundação Jaime Vera, a escola de governo para líderes do PSOE, o Partido Socialista Espanhol. Foram os criadores do ciberativismo K: o ativista Sebastián Lorenzo (www.sebalorenzo.com.ar) e Javier Noguera (nogueradetucuman.blogspot.com), secretário de governo de José Alperovich, governador de Tucumán."
  • "Ficamos chocados quando falaram sobre blogs e redes sociais", disse Noguera ao jornal La Nacion. Era o mínimo que podíamos fazer: o "professor" espanhol era a referência mundial para o ciberativismo ... O mesmo que há um mês, acompanhado pelo embaixador Rafael Estrella, apresentou seu novo livro em Buenos Aires" (ver anteriormente, NdR).[26]

Na década de 2010, e especialmente após a derrota eleitoral do PSOE, há menos evidências de envolvimento com este partido.

...e pontual com o liberalismo de direita

De fato, antes da vitória do PSOE em 2004, Gaizka tentou puxar a capa do PP para ele, e desta vez colaborou com a juventude do PP, na criação do liberales.org, que, nas mesmas palavras dos organizadores, serviria para "criar um diretório no qual colocar alguma ordem no liberalismo hispânico presente na Internet". Este fim de semana chegamos ao trabalho e, após várias horas em frente ao computador, mapeamos o que existe na Internet, o produto das diferentes famílias liberais e libertárias (não confundir com os anarquistas), às vezes antagonistas. Assim nasceu LosLiberales.org, um projeto não partidário para liberais e interessados neste tipo de pensamento."[27]

Esse carrossel incluía caras como Jiménez Losantos[28] e seu jornal Libertad digital, para o qual Gaizka escreveu vários artigos, ou os conservadores cristãos liberais, cujos próprios autores não sabiam se deveriam ser considerados liberais ou de extrema-direita.

Como diz o jornalista Ignacio Escolar[29] no livro "A blogosfera espanhola", este clube "não durou muito. Desentendimentos ideológicos e pessoais entre os fundadores próprios encerraram o projeto".

O que faz alguém como Gaizka num lugar como a esquerda comunista?[30]

O exame do curriculum vitae político de Gaitzka mostra claramente sua estreita relação com o PSOE. O PSOE, desde que abandonou definitivamente o campo proletário no Congresso Extraordinário de abril de 1921[31], tem uma longa história de serviço ao Estado capitalista: sob a ditadura de Primo de Rivera (1923-30), seu sindicato, a UGT, foi o informante policial que traiu muitos militantes da CNT e um dos principais atores do conglomerado PSOE-UGT, Largo Caballero, foi conselheiro do ditador. Em 1930, o PSOE rapidamente virou seu casaco e assumiu a liderança das forças que em 1931 estabeleceram a Segunda República, onde foi chefe de governo em coalizão com os republicanos de 1931 a 1933. Deve-se notar que durante estes dois anos, 1500 trabalhadores foram mortos na repressão de greves e tentativas de insurreição. Mais tarde, o PSOE foi o eixo do governo da Frente Popular que dirigiu o esforço de guerra, militarização e deu carta branca à matilha stalinista para reprimir a revolta dos trabalhadores em Barcelona, em maio de 1937. Com a restauração da democracia em 1975, o PSOE foi a espinha dorsal do Estado, sendo o partido que liderou o governo durante o mais longo período de tempo (1982-1996, 2004-2011 e desde 2018). As medidas mais brutais contra as condições da classe trabalhadora foram impostas pelos governos PSOE, destacando os planos de conversão dos anos 80 que envolveram a perda de UM MILHÃO DE POSTOS DE TRABALHO ou o programa de cortes sociais que o governo PSOE de Zapatero tinha lançado e que o governo PP de Rajoy continuaria mais tarde.

Foi com este bastião do Estado burguês que Gaizka colaborou; não se trata de forma alguma de relações com "elementos básicos", mais ou menos enganados, mas com altos funcionários do Partido, nem mais nem menos do que com Borrell que acaba de ser nomeado chefe da política externa da Comissão Europeia, com Belloch que foi Ministro do Interior, com Estrella que foi presidente da assembleia parlamentar da OTAN.

No currículo de Gaizka, não há o menor vestígio de firme convicção nas posições da esquerda comunista, e para ser claro, nem mesmo que ele tenha convicções políticas de qualquer tipo, já que ele não hesitou em flertar por um tempo com o campo de direita. O "marxismo" de Gaizka seria mais do tipo "groucho-marxismo": recordemos o famoso ator Groucho Marx quando disse que "Estes são os meus princípios, se não gostas deles, tenho outros no meu bolso".

É por isso que a questão é: o que é que faz hoje Gaizka pretender criar o com Nuevo Curso uma vinculação "histórica" com uma chamada esquerda comunista espanhola, o que é que este cavalheiro tem a ver com estas posições, com a luta histórica da classe operária?

E em continuidade com isso, o que é que faz um grupo parasita como o GIGC, do qual alguns dos seus membros eram membros dos órgãos centrais da CCI em 1992-94, e que estavam conscientes do comportamento de Gaizka, tal como o são hoje sabem que ele é o principal líder do Nuevo Curso, mas desviam o olhar, ficam calados e tentam esconder a sua trajetória, declarando que este grupo é o futuro da esquerda comunista e coisas deste tipo?

  • "Nuevo Curso é um blog de camaradas que começou a publicar regularmente posições sobre a situação e sobre questões mais amplas, incluindo as teóricas, desde setembro passado. Infelizmente, este blog está apenas em espanhol. O conjunto de posições que defende são posições de classe que se enquadram no quadro programático da esquerda comunista... Estamos muito impressionados não só pela sua lembrança intransigente das posições de classe, mas especialmente pela "qualidade marxista" dos textos dos camaradas..."[32]
  • "Assim, a constituição da Emancipación como grupo político de direito próprio expressa o fato de que o proletariado internacional, embora submisso e longe de poder repelir um mínimo os ataques de qualquer ordem imposta pelo capital, tende a resistir através da luta e a se libertar do domínio ideológico deste último e que seu futuro revolucionário permanece relevante. Ela expressa a "vitalidade" (relativa) atual do proletariado."[33]

Na tradição do movimento operário, cuja continuidade histórica é hoje representada pela Esquerda comunista, os princípios organizacionais de funcionamento, comportamento e honestidade dos militantes são tão importantes como os princípios programáticos. Alguns dos congressos mais importantes da história do movimento operário, como o congresso da AIT em Haia em 1872, foram dedicados a esta luta em defesa do comportamento proletário (apesar de o congresso ter sido realizado um ano após a Comuna de Paris e ter sido confrontado com a necessidade de aprender com este evento considerável)[34]. O próprio Marx dedicou um trabalho, que levou mais de um ano, interrompendo seu trabalho no projeto de "O Capital", à defesa desse comportamento proletário contra as intrigas do Sr. Vogt, um agente Bonapartista que organizou uma campanha de difamação contra ele e seus camaradas. Publicamos recentemente um artigo de denúncia por Bebel e W. Liebknecht do comportamento desonesto de Lassalle e Schweitzer[35]. E no século XX, Lênin dedicou um livro – "Um Passo à Frente Dois Passos para Trás" - tirando lições do 2º Congresso do POSDR sobre o peso do comportamento estranho ao proletariado. Também podemos mencionar Trotsky, que chamou um júri de honra para defender sua integridade contra as calúnias de Stalin.

Que uma figura com laços estreitos com a liderança de topo do PSOE aterrisse subitamente no campo da Esquerda comunista deveria alertar todos os grupos e militantes que lutam pelos interesses históricos da nossa classe, incluindo os participantes do blog Nuevo Curso que o fazem de boa fé, acreditando que estão lutando pelos princípios da Esquerda comunista.

Em 1994, pedimos a Gaizka que esclarecesse sua trajetória e suas relações, que já eram questionáveis na época. Ele desapareceu do mapa. Em 2018, com uma mochila cheia de contatos de "alto nível" nas esferas PSOE, nós lhe perguntamos novamente e ele permaneceu em silêncio. Em defesa da esquerda comunista, da sua integridade e da sua contribuição futura, devemos lhe pedir para explicar essa sua atitude.

CCI, 20 de janeiro de 2020


[1] Desde junho de 2019, o Nuevo Curso formou de fato um grupo político com o nome de Emacipación, apesar de seu blog ainda funcionar com o nome de Nuevo Curso. Esta alteração não afeta o conteúdo deste artigo.

[2] 7 de novembro de 2017 - [email protected] a [email protected]

[5] Entenda quem pode! Da nossa parte, não vamos tentar descobrir exatamente o que este tipo de atividade significa. Basta dizer por enquanto que, apesar das qualificações lúdicas de "comunista", não tem nada a ver com a atividade revolucionária ou verdadeiramente comunista, como reconhecemos na própria carta, quando dissemos que para avançar rumo ao marxismo devemos partir da crítica a essa atividade.

[6] "Mas, no último ano e meio ou dois anos, começamos a notar uma mudança à nossa volta. Poderíamos falar de maneira diferente e dezenas de jovens chegaram com um espírito que nos agradou, mas que caiu no estalinismo ou no trotskismo mais folclórico" (da carta citada do NC, op. cit.).

[7] A carta usa o nome verdadeiro; aqui, usamos o apelido pelo qual o conhecemos nos anos 90.

[9] No entanto, não tivemos nenhum problema - pelo contrário - em encontrar os grupos de jovens, e o fizemos com um deles em novembro de 2018.

[10] Sob seu nome e sobrenome verdadeiro, Gaizka é uma figura pública na web, o que nos permite acompanhar sua presença e participação em diferentes iniciativas políticas. Ao mesmo tempo, isto explica porque não podemos fornecer toda a documentação aqui sem revelar a sua identidade.

[11] No início, houve outras pessoas que abandonaram o grupo.

[12] Este fascínio permanece hoje no discurso mais recente de Gaizka, mas é disfarçado como uma defesa das experiências comunitárias do kibutz, especialmente na sua primeira fase no início do século XX, sem referência ao papel político que desempenhou nos interesses imperialistas do Estado de Israel. "Os 'indianos' (ou seja, a comuna de Gaizka, NdR) são comunidades semelhantes ao kibutz (não há poupança individual, as próprias cooperativas estão sob controlo coletivo e democrático, etc.) mas existem distinções importantes, tais como a ausência de uma ideologia nacional ou religiosa partilhada, distribuída por várias cidades em vez de estar concentrada em poucas instalações, e o entendimento de que certos critérios vão para além da racionalidade económica" (Excerto de uma entrevista com Gaizka).

[13] Engenheiro aeronáutico e economista por formação, Borrell entrou na política nos anos 70 como ativista do PSOE durante a transição espanhola e ocupou vários cargos de responsabilidade nos governos de Felipe González, primeiro na Economia e Finanças como Secretário-Geral do Orçamento e das Despesas Públicas (1982-1984) e Secretário de Estado das Finanças (1984-1991); depois no Conselho de Ministros com a pasta da Indústria e dos Transportes. Na oposição, após as eleições gerais de 1996, Borrell tornou-se inesperadamente o candidato escolhido pelo PSOE para a presidência do governo em 1998, mas renunciou em 1999. A partir daí, concentrado na política europeia, tornou-se membro do Parlamento Europeu para o período 2004-2009 e tornou-se presidente da câmara durante a primeira metade da legislatura. Depois de se retirar da primeira linha política, regressou ao Conselho de Ministros em Junho de 2018, com a sua nomeação como Ministro dos Negócios Estrangeiros, da União Europeia e da Cooperação no governo presidido por Pedro Sánchez. (fonte: Wikipedia). Recentemente, ele tem sido o Comissário Europeu para os Negócios Estrangeiros.

[14] Borrell estava em 1969 em um kibutz e sua primeira esposa e mãe de dois filhos é de origem judaica. Ele é conhecido como um defensor dos interesses pró-israelitas dentro do Partido Socialista.

[15] Este não é o único relatório que permanece confuso. Hoje sabemos que no mesmo período em que ele quis discutir a adesão à CCI, participou e foi o principal facilitador na Espanha da tendência chamada cyberpunk, e o promotor do ciberativismo.

[16] Entre eles estava o desejo de um estilo de vida "comunitário", o que explica seu fascínio pelo kibutz, e que estava presente na União Espartakista, onde houve a tentativa de viver juntos.

[17] Nos anos 80, um elemento chamado "Chenier" foi descoberto e denunciado em nossa imprensa como um aventureiro. Pouco depois, ele foi visto a trabalhar sob as ordens de Mitterrand. Isto alertou-nos para uma possível relação entre Gaizka e o PSOE que era mais próxima do que ele alguma vez tinha reconhecido.

[18] Atual Secretário-Geral do PSC (Partido Socialista da Catalunha); militante da Juventude Socialista e do PSOE desde 1978; em 1998-99 deputado de Barcelona no Congresso dos Deputados.

[19] Como a instituição é pouco conhecida, aqui está uma referência à sua fundação no jornal Última Hora de Mallorca, com base num artigo da agência Efe: Un español preside el nuevo Consejo Europeo de Acción Humanitaria y Cooperación

[20] A guerra na ex-Jugoslávia (os primeiros bombardeamentos e massacres na Europa depois da Segunda Guerra Mundial) foi travada em nome do "humanitarismo", e os ataques aéreos da NATO apresentados como "ajuda à população" contra a guerrilha. Para a nossa posição sobre o conflito imperialista de 1999 no Kosovo, por favor visite o nosso website em francês: La “paix” au Kosovo, un moment de la guerre impérialiste.

[21] Juan Alberto Belloch foi Ministro da Justiça e Assuntos Internos com Felipe González (1993-1996) antes de concorrer a prefeito de Sarag.

[23] A REPSOL é a empresa espanhola líder na extração, refinação e comercialização de petróleo e seus derivados. Tem uma importante presença internacional, particularmente na América do Sul..

[24] Líder do PSOE e número dois do Alfredo Pérez Rubalcaba, o falecido Ministro do Interior e autêntico "Richelieu" dos governos socialistas, que obrigaram os controladores de tráfego aéreo a trabalhar sob a ameaça de uma metralhadora.

[26] Jornal La Nación – Argentina

[27] Este blog não existe mais, mas esta citação pode ser vista em screenshots  .

[28] Jornalista de origem maoista, militante da Bandera Roja e do Partido Estalinista da Catalunha (PSUC), que hoje apoia a Vox e a ala extrema-direita do PP. Ele escreveu para o ABC e El Mundo e foi locutor na rádio COPE. Atualmente é o apresentador do jornal Libertad digital e do seu rádio es.radio.

[29] Fundador do jornal Público, que mais tarde abandonou para promover o Diario.es, do qual é o principal gestor. Ele é analista nos talk shows do canal de TV "La Sexta".

[30] "¿Qué hace una chica como tú en un sitio como éste?" (Mas o que faz uma garota como você em um lugar como este?) Expressão tirada de uma música da banda madrilena Burning que fez tanto sucesso nos anos 80 que um filme foi feito a partir dela (por Fernando Colomo e estrelado por Carmen Maura).

[31] Neste congresso houve a separação das tendências proletárias ainda resistindo no PSOE, embora se deva reconhecer que elas eram muito confusas (centristas). O tema deste congresso foi a filiação ou não na Terceira Internacional, que foi rejeitada por 8269 mandatos contra 5016 apoiantes da filiação. Estes últimos deixaram o congresso para fundar o Partido Comunista Espanhol.

[32] Revolução ou Guerra No. 9 (GIGC).

[33] Revolução ou Guerra No. 12

Rubric: 

Defesa do meio político proletário