Debate: Princípios revolucionários e prática revolucionária

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No Foro Comunistas Internacionais[1], uma pessoa que subscreve como Cleto e que se apresenta como "companheiro aderente às posições do BIPR"[2] dirigiu uma crítica a nosso artigo Aporte para uma história da Esquerda Comunista[3] que, amavelmente tinha sido publicada pelo moderador do Foro[4].

Neste artigo fazemos uma reflexão sobre a primeira época do Partido Comunista Internacional, na Itália, no período 1943-48 onde esta organização que se reivindica da Esquerda Comunista cometeu o que a nosso julgamento são dois graves enganos: por uma parte, travar relações com os grupos partisanos[5] e, por outro lado, participar das eleições de 1948 apresentando uma lista própria[6].

 

Mentiras e distorções ou uma análise política diferente?

Cleto começa nos acusando de "distorções e mentiras". Entretanto, ao ler seu texto comprovamos que confirma completamente tudo o que dizemos: reconhece que o PCI participou dos grupos partisanos, reconhece que uma parte da seção de Turim participou da insurreição que organizou o Comitê de Libertação Nacional onde se agrupavam todas as forças burguesas italianas exceto os fascistas que não tinham trocado a tempo de camisa; reconhece enfim que o PCI participou das eleições de 48.

Se quisermos levar um debate frutífero devemos começar distinguindo entre o que são os fatos e o que é a sua interpretação e análise política. Os fatos são claros e evidentes e Cleto não os pode negar. Outra coisa muito distinta é que ele tem uma análise e uma interpretação diferentes. Mas isso não lhe autoriza a nos lançar a acusação de "mentir e distorcer". Ou, que não estar de acordo com sua interpretação significa ser um mentiroso?

É idealismo defender de forma intransigente os princípios proletários?

Entremos na questão de fundo. Cleto afirma que estamos cegos por um "idealismo diletante"; que estaríamos encerrados em "fantasias" que nada teriam que ver com "a verdadeira luta de classes"; que viveríamos em um "castelo encantado" o que nos levaria a "não entender a dialética dos fatos históricos" e a "desacreditar a atividade de quem interpôs suas vidas em altares da militância comunista".

Estalinistas e trotskistas costumam justificar suas políticas em nome do "realismo" e do sacrossanto "estar com as massas", desqualificando toda posição revolucionária como "infantilismo teórico". Eles se apresentam como os mais comunistas do mundo para acrescentar a seguir que "se vêem obrigados" a apoiar todo tipo de guerras imperialistas, de movimentos de "libertação nacional", todo bando burguês, em suma, "devido a que terá que estar com as massas".

Agora bem, o que é surpreendente é que um argumento de lógica similar proceda de alguém que se reclama da Esquerda Comunista. Em tal caso é necessário pôr as coisas no seu lugar, porque o que diferencia radicalmente à Esquerda Comunista das correntes políticas antes mencionadas é precisamente a coerência entre os princípios que se proclamam e as práticas com os que se defendem.

Cleto se pergunta "Enquanto as massas estão derramando seu sangue guiadas por uma perspectiva política enganosa (a frente popular ou a Resistência), o que devem fazer os comunistas? Devem permanecer fechados em seu círculo e escrever escolasticamente meticulosas análise sobre os enganos das massas?".

Quando os operários tomam partido por um dos bandos em conflito dentro de uma guerra entre frações da burguesia, perdem com isso toda sua força, transformam-se em peões dirigidos ao bel prazer, dão seu sangue por quem lhes explora e oprimem. Ante semelhante situação, só os princípios revolucionários podem ajudar os operários a recuperar sua autonomia como classe e poder lutar com força contra o capitalismo. Em 1944-45, aceitar o terreno da luta partisana -um movimento nacionalista e imperialista- sob pretexto de "convencer às massas" era contribuir a que continuassem encerradas no círculo infernal da guerra e a exploração capitalista. Somente o "círculo fechado" das "meticulosas análises" podia ajudar aos operários a sair do "círculo vicioso" no que se achavam encerrados.

Em 1914, a Primeira Guerra mundial pôde ser desencadeada porque o capitalismo, com o concurso ativo da maioria da Social-democracia e os sindicatos, fez acreditar aos operários que deviam aceitar a morte no front e os sacrifícios na retaguarda para defender uma "causa "justa" de geometria variável. No bando alemão se tratava de acabar com a barbárie tzarista enquanto que no bando aliado -que contava em suas filas o sinistro regime do Czar- o objetivo era acabar com a ditadura germânica do Kaiser!.

O que fizeram os revolucionários? Aceitaram o terreno da defesa nacional sob pretexto de "ficar com as massas"? Rotundamente não! Sua batalha foi defender os princípios internacionalistas, declararam guerra à guerra imperialista, preconizaram a luta intransigente pela Revolução Proletária Mundial. A minoria internacionalista (Lênin, Rosa Luxemburgo, Trotski, Bordiga...) "separou-se das massas", "permaneceu encerrada em seu círculo" e escreveu "meticulosas análises" sobre os enganos das massas. Com essa atividade contribuiu a que estas pudessem sair de seu engano, ajudou a que fossem encontrando sua força, sua solidariedade, e, desta forma preparou as condições da quebra de onda revolucionária mundial que se iniciou em 1917.

Foi Lênin um idealista?

Em abril de 1917, quando Lênin voltou para a Rússia defendendo a necessidade de orientar a revolução iniciada em fevereiro para a tomada do poder e a luta pelo socialismo, encontra-se com uma forte oposição por parte do comitê central da Partido bolchevique -dirigido nesse momento por Stalin, Kamenev e Molotov- que apoiavam o Governo Provisório, cujos objetivos declarados era a continuação da guerra e encerrar a revolução na camisa de força da democracia burguesa. Na polêmica que se inicia no Partido contra as posições de Lênin, Kamenev acusa a este de "idealismo" e de "separar-se das massas". Lênin lhe responde: "O camarada Kamenev contrapõe "o partido das massas" a "um grupo de propagandistas". Porém as "massas" tem se deixado levar precisamente agora pela embriaguez do defensismo "revolucionário"[7]. Não será mais decoroso particularmente para os internacionalistas saber opor-se em um momento como este a embriaguez "massiva" em lugar de querer "ficar vinculado com as massas" ? Não se deve saber ficar em minoria durante um tempo para combater uma embriaguez "massiva"? Não é precisamente o trabalho dos propagandistas no momento atual o ponto central para libertar a linha proletária da embriaguez defensiva e pequeno-burguesa "massiva"? Cabalmente a união das massas proletárias e não proletárias, sem importar as diferenças de classe no seio das massas, tem sido uma das premissas da epidemia defensivista. Não acreditamos que seja bom falar com desprezo de "um grupo de propagandistas" da linha proletária"[8].

Em outro documento da mesma época[9], Lênin rebate a insistente acusação de idealismo contra sua posição argüindo que "aparentemente isto não é mais que um trabalho de mera propaganda. Mas, em realidade, é o trabalho revolucionário mais prático, pois impossível impulsionar uma revolução que se estancou, que se afoga entre frases e se dedica a marcar o passo sem mover do lugar".

Possivelmente Cleto pense que Lênin também foi um "idealista", que "desdenhava descender às massas porque não são eminentemente comunistas". Nós pensamos que essa contribuição de Lênin é essencial para inspirar a atividade dos revolucionários. Lênin, na resposta a Kamenev antes citada recorda que "a burguesia se mantém não só pelos meios de violência mas também graças à falta de consciência, a rotina, a ignorância e a falta de organização das massas".

A classe operária é a classe portadora do comunismo[10] mas é também uma classe explorada que permanece durante a maior parte do tempo submetida ao império da ideologia dominante. Sua natureza comunista se expressa, em particular, pela sua capacidade de segregar em seu seio minorias comunistas que tentam expressar seus princípios e metas assim como os meios para alcançá-los.

Estas minorias não têm como fim ir correndo atrás das massas as seguindo nas múltiplas e contraditórias situações que acontecem. Terá que estar com o proletariado como classe revolucionária e não ficar colado com o "proletariado sociológico" que pode passar por diferentes estados de consciência. No texto antes citado Lênin recordava que "Valia mais ficar sozinho, como Liebchneck - e ficar só assim significa ficar com o proletariado revolucionário - que abrigar nem por um minuto a idéia de uma união com o Comitê de Organização[11]"

A classe operária não é uma massa cega a que teria que insuflar, sem que se dê conta, as receitas comunistas. Esse tacticismo pragmático encerra no fundo uma visão manipuladora, um desprezo profundo da classe operária. Os operários não têm medo dos que criticam seus erros. Rosa Luxemburgo dizia do proletariado "tão gigantescos como seus erros são suas tarefas . Não tem esquema preestabelecido sempre válido, não tem guia par lhe mostrar o caminho a ser percorrido. Seu único guia é a experiência histórica. Sua via dolorosa para a liberdade está balizada não só de sofrimentos inenarráveis, mas também de incontáveis erros. A meta da viagem, a libertação definitiva, depende por inteiro do proletariado, de se este aprende de seus próprios erros. A autocrítica, a crítica cruel e implacável que vai até a raiz do mal, é vida e fôlego para o proletariado"[12].

Qual foi a postura de nossos "pais" políticos?

Cleto menciona a postura da Esquerda Comunista Italiana ante a Frente Popular e a guerra na Espanha de 1936 dizendo: " O problema que nossos pais políticos se colocaram - tanto que o que respeita a Espanha como à luta partisana - é o que sempre a CCI (e seus derivados) não se coloca nunca, porque é totalmente estranho a seu método (idealista) e a seu modo de entender a militância comunista: Como fazer para que encontrassem os princípios com as massas em movimento, dispostas a uma luta sem quartel e aos maiores sacrifícios?".

Esta passagem parece dar a entender que Bilan sustentou a mesma postura ante 1936 que a do PCI em 1944-48. Nada mais irreal!. Pode-se consultar nosso livro 1936: Franco e a República massacram aos trabalhadores[13] que tem como eixo os textos de Bilan onde pode comprovar-se que Bilan seguiu então uma política "idealista" de defesa intransigente dos princípios.

Alguns anos antes, Bilan tinha polemizado com a Oposição de Esquerdas[14] que também invocava - como desgraçadamente fizeram em 1948 os "pais políticos" do Cleto- a necessidade de "não isolar-se das massas". O artigo se intitulava significativamente "As Principais armas da Revolução" e denunciava que "o militante que expõe uma posição de princípio em uma situação dada, e apressa-se a acrescentar que esta posição seria válida se todos os operários fossem comunistas, que seria muito feliz de podê-la aplicar, mas que se vê forçado a tomar em conta as situações concretas e sobre tudo a mentalidade dos operários"[15]. Põe a nu os "argumentos" com o que se avaliza semelhante capitulação: "Em cada ocasião, o problema se exporá de forma interrogativa: há em jogo uma questão de princípio? Ao responder pela negativa terá que deixar-se levar pelas sugestões da situação, livrar-se a conjeturas sobre as vantagens que se poderia tirar da luta pois, em definitivo, tanto Marx como Lênin, por muito intransigentes que tenham sido sobre as questões de princípio, não duvidavam em jogar-se na luta para realizar o maior número possível de aliados, sem ter em conta sua natureza, sem estabelecer previamente se sua natureza social lhes permitiria contribuir num verdadeiro apoio à luta revolucionária?".

Frente a estas posturas, Bilan defende que: "O partido deve permanecer escrupulosamente fiel às teses políticas que elaborou, pois se não proceder assim se proibirá avançar na luta revolucionária", concluindo categoricamente que "para preparar a vitória proletária atuam de uma vez os antagonismos sociais e a obra consciente das frações de esquerda: o proletariado retomará sua luta unicamente sobre a base de seus princípios e de seu programa".

1948: a regressão do PCI na questão eleitoral e parlamentar

Foi a predecessora da Esquerda Comunista Italiana, a Fração Comunista Abstencionista, constituída em outubro 1919, a que denunciou a mistificação eleitoral e parlamentar. Foi um de seus militantes mais destacados - Bordiga - quem fez contribuições muito claras sobre esta questão[16] e levou a efeito uma batalha tenaz contra a degeneração da Internacional Comunista combatendo um de seus mais graves enganos: o "parlamentarismo revolucionário".

Por isso, constituiu uma regressão que em 1948, o fato do Partido Comunista Internacional jogar pela janela esse patrimônio e preconizar a participação na farsa eleitoral destinada a avalizar a configuração política do Estado democrático italiano ao redor de um governo apoiado na Democracia Cristã e uma oposição constituída pelo partido estalinista.

Cleto defende esta participação com argumentos muito pouco convincentes: "O que dizer sobre as eleições de 1948? Simplesmente que foi um intento de inserir-se na grande excitação política na qual tinha enredado o proletariado, para dar a conhecer melhor nossas posições, aproveitando a visibilidade que oferecia a propaganda eleitoral; mas ninguém se iludia em fazer ressuscitar o parlamentarismo revolucionário: quem diz o contrário mente ou não sabe o que diz. O partido, em seus manifestos, em sua imprensa, convidava à abstenção, motivando-a politicamente e acrescentava "se não puderem fazer nada mais que votar, então votem por nós"".

Propor às massas abster-se e votar ao mesmo tempo não contribui minimamente em esclarecê-la e que a única demonstração é a própria confusão do Partido. Dar como tarefa ao Partido "inserir-se na grande excitação política que tinha aprisionado o proletariado" (uma "excitação" criada pela burguesia para que todo mundo avalizasse seu Estado democrático) confirma tudo o que continuamos dizendo: uma organização revolucionária não pode ir a reboque dessa "excitação" e deve contribuir para desenvolver a consciência das massas para as ajuda-las a liberar-se dela.

Do mesmo modo, Cleto argumenta que teria de "aproveitar a visibilidade que oferecia a propaganda eleitoral" e proclama arrogantemente que "isso não é parlamentarismo revolucionário" tachando quem diz o contrário de mentiroso e ignorante. Parece que nosso censor não conhece bem a Resolução sobre "O Partido Comunista e o Parlamento" que adotou o 2º Congresso da Internacional Comunista em março de 1920 onde se proclamou o "parlamentarismo revolucionário". Nela se diz que "a participação nas campanhas eleitorais e a propaganda revolucionária na tribuna parlamentar têm um significado particular para a conquista política dos meios operários que, igualmente às massas trabalhadoras rurais, permaneceram até agora à margem do movimento revolucionário e da política"[17]. Que diferença há entre esta postura e a que invoca Cleto? Que diferença há entre a postura de Cleto e a que defendem os trotskistas para justificar sua participação na mistificação eleitoral? Sinceramente nenhuma.

O argumento sentimental

"Nossos companheiros entraram em contato com bandas partisanas, correndo perigos mortais, por tratar de lhes fazer compreender o erro político no qual tinham enredado; organizaram e participaram das greves contra a guerra - em plena guerra! - e não poucos pagaram com sua vida de militância revolucionária, posto que foram deportados para campos de extermínio nazista ou foram fuzilados. Como se permite a CCI externar semelhantes aberrações sobre a dificílima experiência de nossos companheiros?".

O alvo da nossa crítica não é, obviamente, a organização e participação nas greves. O que rechaçamos com ênfase é a política denominada com pudor por Cleto de "entrar em contato com os grupos "partisanos" que consiste em praticar o "entrismo" no seio de uma organização militar contra-revolucionaria desprezível constituída direitamente sob o controle dos Aliados e, no lugar, do PC e do PS. Uma organização burguesa baseada sobre o voluntarianismo (que, a este título, não oferece nenhum terreno propício a divulgação dos princípios e da tática revolucionária, pelo contrario, do exército oficial no qual operários são mobilizados sob a força. É a razão pela qual, o heroismo dos militantes que foram enviados para infiltrar nas fileiras dos "partisanos", como também as perseguições que sofreram não constituem nenhum argumento a favor de tal política. Esta deve ser analisada unicamente a partir do critério de se responder à situação existente e de ser coerente ou não com os princípios e os meios de luta do proletariado. Mesclar as coisas só serve para introduzir confusão.

Cleto deveria refletir sobre o fato de que os grupos de extrema esquerda do Capital avalizam suas políticas de anti-fascismo, de libertação nacional, de sustentação a um campo imperialista, invocando os mortos, torturados, os presos destas causas burguesas. A oposição chilena a Pinochet falou longamente e à exaustão de seus mortos e encarcerados. O mesmo fizeram peronistas, montoneros, trotskistas com os desaparecidos e torturados pela ditadura argentina. Aproveitam-se desse sangue derramado como capital do qual hoje estão sacando dividendos para impor uma política de miséria e repressão aos operários e explorados como pode ver-se com o Bachelet e com o casal Kirchner. O partido estalinista francês se apresentava depois do pós-guerra de 1945 como "o partido dos 100 mil fuzilados". Com essa chantagem emocional, pôde sabotar a greve da Renault em 1947 proclamando que a "greve é uma arma dos trust", os 100.000 fuzilados foram utilizados por seu chefe de então, Maurice Thorez, para pedir aos operários franceses "que se desdobrassem para levar adiante a economia nacional".

Os princípios, armas da revolução

A burguesia estigmatiza uma atitude de defesa intransigente dos princípios como fanatismo e fundamentalismo. Ela pelo contrário é a classe do pragmatismo, os arremedos e a manobra maquiavélica. A política burguesa se converteu num espetáculo degradante de alianças contra a natureza, onde a vantagem e as contorções ideológicas mais delirantes abundam em qualquer parte. Isso provocou o alheamento geral da "política".

O proletariado pelo contrário não tem nenhuma necessidade de ocultar - nem de ocultar-se a si mesmo - seus princípios e os meios de luta. Para ele não há contradição entre seus interesses históricos e seus interesses imediatos, entre os princípios e a luta cotidiana. A contribuição dos revolucionários é uma política clara onde princípios e prática são coerentes e não se contradigam a cada passo. Para o proletariado, o prático é a defesa intransigente de seus princípios de classe, pois são eles os que lhe dão uma perspectiva para sair do atoleiro em que o capitalismo submete à humanidade, são eles o guia que orienta suas lutas imediatas para a perspectiva revolucionária. Como diziam nossos antepassados de Bilan os princípios são armas da revolução.

CCI 28-10-07

 

 

ANEXO: TEXTO DO CLETO

Saudações a todos.

Os companheiros aderentes às posições políticas do Birô Internacional pelo Partido Revolucionário (BIPR http://www.ibrp.org/) estão, de muito tempo, habituados às distorções, por não dizer as mentiras, difundidas pela CCI. Entretanto, nesta ocasião decidi que não se pode deixar acontecer impunemente os comentários vertidos pela CCI ao final da sua resenha "Aporte para uma história da Esquerda Comunista", publicada nesta lista de discussão no dia 26 de setembro. Naturalmente, espero a contra-réplica da CCI, mas me desculpo com os membros desta lista por não ter respondido com antecedência, dado que não tenho muito tempo disponível e o pouco que tenho prefiro dedicá-lo à luta de classes verdadeira e não às fantasias da CCI. A CCI projeta para o passado seu idealismo diletante, distorcendo a história, justificando seu idealismo característico e, o pior de tudo, desacreditando a atividade de quem interpôs suas vidas em altar da militância comunista.

Cega por seu idealismo, a CCI não é nem sequer capaz de ler o que está escrito claramente e muito menos de entender a dialética dos fatos históricos. Como pode dizer que nossos companheiros em 1943-45 tinham a mesma posição da minoria que foi a Espanha? Nossos companheiros procuravam pôr em prática um marxismo vivo e não um marxismo tipo receita de cozinha, tentando levar aos partisanos (em grande parte proletários, convencidos - ilusoriamente - convencidos de combater ao nazista-fascismo para preparar a via da revolução proletária) para posições de classe. Por isso não derramaram seu sangue por uma causa burguesa. Por outro lado, isto o fizeram em condições dificílimas, protegendo-se dos fascistas e dos estalinistas. O problema colocado a nossos pais políticos -tanto que no que respeita a Espanha como à luta partisana - é o que nunca se coloca a CCI (e seus derivados) porque lhe é totalmente estranho ao seu método (idealista) e a seu modo de entender a militância comunista: como fazer para com que os princípios se encontrassem com as massas em movimento, dispostas a uma luta sem quartel e aos maiores sacrifícios? Enquanto as massas estão derramando seu sangue, guiadas por uma perspectiva política enganosa (a frente popular ou a Resistência), o que devem fazer os comunistas? Devem permanecer fechados em seu círculo e escrever escolasticamente meticulosas análises sobre os enganos das massas, desdenhando o descender à luta porque as massas não são... comunistas puras (e se já fossem comunistas, que necessidade haveria do partido e/ou da simples propaganda... cciísta), ou devem procurar traduzir os princípios em ação, a fim de que sejam entendidos e assumidos como próprios pelas próprias massas?

Naturalmente, isto pode comportar enganos, mas são os enganos de quem vive na verdadeira vida, não na livresca própria do castelo encantado onde tudo é justo porque, portanto, nunca seria verificado pela realidade.

Nossos companheiros entraram em contato com bandos partisanos, correndo perigos mortais, por tratar de lhes fazer entender o erro político no qual tinham se aprisionado; organizaram e participaram das greves contra a guerra -em plena guerra!- e não poucos pagaram com sua vida de militância revolucionária, posto que foram deportados aos campos de extermínio nazista ou foram fuzilados. Como se permite a CCI externar semelhantes aberrações sobre a dificilíssima experiência de nossos companheiros?

Quanto a Turím, em abril de 1945, o proletariado participou da insurreição, e uma parte da seção de Turím participou da mesma, mas em total independência do CLN (Comitato dava Liberazione Nazionale), sem nenhuma intenção de frentismo ou ilusão de condicionar a luta partisana, além de que a guerra se aproximava do seu fim com os aliados tocando as portas do Turín. Foi um engano? Possivelmente o tipo de engano que comete quem vive na luta de classes, quer dizer, o tipo de enganos que a CCI não cometerá nenhuma vez!

O que dizer sobre as eleições de 1948? Simplesmente que foi um intento de inserir-se na grande excitação política na qual tinha feito preso o proletariado, para dar a conhecer melhor nossas posições, aproveitando a visibilidade que oferecia a propaganda eleitoral; mas nenhum se iludia em fazer ressuscitar o parlamentarismo revolucionário: quem diz o contrário mente ou não sabe o que diz. O Partido, nos seus manifestos, na sua imprensa, convidava à abstenção, motivando-a politicamente e adicionava "se não poderem fazer nada mais que votar, então votem por nós".

[1] Pode-se acessar através de: http://espanol.groups.yahoo.com/group/comunistasinternacionales/

[2] Birô Internacional da Partido Revolucionário: http://www.bipr.org/ . Sobre a origem do BIPR e o de nossa organização e sobre como concebe cada grupo a continuidade com a Esquerda Comunista Italiana pode ser consultado: Polêmica sobre as origens da CCI e do BIPR na Revista Internacional números 90 e 91. Ver http://es.internationalism.org/rint90-ccibipr e http://es.internationalism.org/rint91-bipr

[3] Ver http://es.internationalism.org/2051

[4] Ver no Anexo o texto de crítica de Cleto ao nosso artigo

[5] Que eram organizações guerrilheiras impulsionadas pelo partido estalinista para perseguir os exércitos nazi-fascistas para favorecer o bando rival, o estalinista-democrático

[6] Na Revista Internacional nº 36-37 publicamos a análise do 2º Congresso do PCI (1948) que fez Internationalisme, órgão da Esquerda Comunista da França, nosso grupo predecessor.

[7] Elucidação por nossa parte: o "defensivo revolucionário" preconizado abertamente por mencheviques e social revolucionários - e sustentado indiretamente pelo Comitê Central bolchevique - consistiu em continuar a participação da Rússia na guerra imperialista em nome de que "agora a situação tinha mudado e a Rússia tinha uma democracia"

[8] Lênin: Cartas sobre a tática.

[9] As tarefas do proletariado na presente revolução (mais conhecido como Tese de Abril). Em Obras Escolhidas tomo 2, página 50, da edição em espanhol

[10] O que não quer dizer que todos os operários tenham que declarar-se "comunistas puros" e que para fazer possível a revolução cada um deles tenha que doutrinar-se no "comunismo"

[11] Centro organizador da partido menchevique

[12] Rosa Luxemburgo Obra Escolhidas tomo II página 62 edição espanhola

[13] editamos uma quarta edição. pode-se encontrar em formato eletrônico em http://es.internationalism.org/libros/1936

[14] Que daria finalmente lugar em sua degeneração ao que se chamou a corrente "trotskista"

[15] Ver Bilan nº 5: As principais armas da revolução

[16] Ver, por exemplo, O Princípio Democrático

[17] Ver o livro Os Quatro Primeiros Congressos da Internacional Comunista tomo I página 178 edição espanhola