Relatório das discussões sobre o tema da onda revolucionária de 1917-23

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Como se pode constatar na leitura do texto introdutivo, a apresentação foi essencialmente histórica, o que se justifica pelo fato que existe uma responsabilidade dos revolucionários em suscitar nas novas gerações, estas que terão um papel insubstituível nos futuros combates de classes, a vontade de reapropriação das experiências das gerações passadas para transformar radicalmente o mundo.

Deste ponto de vista, a reação dos participantes fortaleceu nossa convicção que a maturação da situação, determinada pelo agravamento da crise do capitalismo e a tendência a erosão de algumas mistificações burguesas como a mentira sobre um futuro possível no seio do capitalismo, originam um processo ainda embrionário de politização dentro de uma minoria do proletariado assim como uma tendência de certas lutas em exprimir características significativas dos grandes movimentos da classe operária: solidariedade, surgimento de assembléias massivas abertas a todos os operários, existência de assembléias soberanas, capazes de preservar a independência da luta.

Uma maioria das intervenções refletiu uma vontade real de conhecer e compreender o passado da nossa classe enquanto outras demonstraram um interesse para entender como o desenvolvimento da situação atual poderia resultar num processo revolucionário. Relatamos em seguida alguns questionamentos que se expressaram nestas duas reuniões, sem a pretensão nem a possibilidade de sermos exaustivos[1].

Os conselhos operários são a criação espontânea da classe operária ou da luta?

Os conselhos operários são o produto da luta de massa do proletariado. Assim, ao contrario da forma sindical de luta, é a luta que cria a organização geral dos operários e não o inverso. Por sua vez, quando criados, os conselhos operários constituem um fortalecimento da luta, pois aumentam assim sua força de atração sobre o conjunto do proletariado, e permitem a centralização e a unidade do movimento.

Qual é, nas circunstanciais atuais, o papel do bloqueio da produção no fortalecimento da luta contra a burguesia?

À diferença da maioria das lutas sindicais do século XIX, as do século XX não encaram um patrão isolado que tem muito receio da ocorrência de uma luta duradoura paralisando a sua produção, mas têm diante delas a potencia do conjunto do estado capitalista. A partir deste momento, não é mais a luta dentro de um setor isolado que constitui uma ameaça real para o estado e a burguesia mais a união crescente dos proletários além das divisões corporativistas, setoriais, ... no seio de uma luta massiva. Por conta disso, a paralisação da produção não joga o mesmo papel de que no século XIX. Alem disso, não é cada setor da classe operária que detêm esta arma do bloqueio da produção, como o ilustra, por exemplo, o caso dos desempregados cuja luta é também essencial. Estas considerações não significam que o bloqueio da produção não constituía mais uma arma do proletariado na sua luta contra a burguesia; continua sendo, mas dentro de condições diferentes como o ilustra a luta recente dos estudantes na França, na primavera européia de 2006. As jovens gerações, já proletarizadas pois trabalhando para assumir sua sobrevivência, ou futuros proletários, se mobilizaram contra uma reforma do governo destinada a acentuar a precariedade das condições de trabalho do conjunto da classe operária. Durante quase dois meses, a luta suscitou expressões de solidariedade por parte de um número crescente de proletários participando em manifestações de ruas massivas. Finalmente o governo recuou, não por conta da paralisação das universidades, mas por medo que a classe operária, e notadamente a classe operária industrial, entrasse em massas em luta e paralizasse assim a produção. Entretanto não é sempre e em todas circunstancias que o proletariado deve paralisar a atividade social como o ilustra o fato que o comitê de greve na luta massiva em Polônia 1980 insistiu para que os transportes não parassem para não travar o desenvolvimento da luta.

Como teria sido possível mudar o curso para a derrota da onda revolucionária mundial?

A apresentação tinha colocado em evidência como a onda revolucionária mundial, depois da tomada do poder pelo proletariado na Rússia, não tinha conseguido o mesmo êxito nos países em que aconteceram sublevações proletárias. Cada uma destas tentativas foi esmagada pela burguesia, e a primeira derrota importante que sofreu o proletariado na Alemanha em janeiro de 1919 foi decisiva, dando um golpe na dinâmica revolucionária mundial que, a partir deste momento, se inverteu, apesar das outras batalhas que livrou novamente o proletariado na Alemanha. Na realidade, o devir da revolução mundial não se decidia na Rússia, mas na sua capacidade de estender a outros países. Nossa resposta desenvolveu o que já tinha sido dito na apresentação, colocando em evidencia que a derrota na Alemanha resultou da capacidade da social-democracia, depois de ter traído o internacionalismo proletário frente à Primeira Guerra mundial, de enganar novamente uma fração significativa do proletariado ao encabeçar o movimento de revolta contra a sociedade burguesa. Podemos acrescentar que, dentro de um período tão curto, o proletariado não foi capaz de assimilar todas as conseqüências de uma traição por parte de partidos originários da classe operária, em particular o fato que tal traição era irreversível. De maneira mais geral, são todas as conseqüências da nova época de decadência do capitalismo que proletariado não tinha conseguido assimilar, se iludindo sobre o fato de que o fim desta guerra, provocada em toda consciência pelos principais países em guerra para eliminar uma causa essencial de extensão da revolução, poderia ter significado o fim das guerras e da barbárie.

Será que existe uma tendência espontânea dos partidos à traição dos interesses operários do proletariado?

Esta questão é legitima visto que, como o sublinhamos na apresentação, os partidos socialistas traíram o internacionalismo proletário e a classe operária diante da Primeira Guerra mundial. Os partidos comunista degenerescentes fizeram a mesma coisa quando foram os primeiros em preparar ideologicamente o proletariado para a Segunda Guerra mundial, e a corrente trotskista igualmente quando se alinhou, nesta guerra, ao campo imperialista da Rússia e das potencias democráticas contra o campo da Alemanha. Quando um partido originário da classe operária trai, isso significa uma vitória do inimigo de classe, a burguesia. Tal traição resulta essencialmente do peso da ideologia dominante no seio das organizações do proletariado se expressando por um desenvolvimento do oportunismo dentro delas. Pode-se dizer que existe uma tendência "natural" das idéias, no seio da sociedade burguesa onde domina a ideologia desta classe, a ser influenciadas pela ideologia burguesa. A teoria do proletariado, baseando-se sobre o marxismo consiste justamente em um esforço teórico para definir os fundamentos, as perspectivas e os meios da luta para uma sociedade sem classes, livrando-se da influencia da ideologia burguesa como de todos os preconceitos herdados das sociedades de exploração do passado. Se a traição de um partido proletário significa sua derrota diante do oportunismo, a vitória deste último não é total, pois sempre houve minorias de esquerda que combateram a degenerescência dos partidos proletários e, ao mesmo tempo, contribuíram muito para o desenvolvimento da teoria revolucionária e da preparação dos futuros combates de classe. Foi o caso da esquerda dos partidos social-democratas com militantes como Rosa Luxemburgo, Lênin, Pannekoek, Gorter, ... Foi o caso das esquerdas comunistas italianas, alemãs, holandesas, ... que se destacaram da degenerescência dos partidos da IC e seu trabalho constitui um aporte essencial ao programa revolucionário.

Qual foi o papel do anarquismo na história da luta de classe?

Trata-se de uma questão muito ampla que, no contexto de uma reunião pública, só é possível dar uma resposta limitada. Pode-se dizer que há duas épocas do anarquismo. Uma primeira em que constituía uma corrente operária ao lado de outros (blanquismo, marxismo) no seio da primeira internacional, por exemplo. Nesta primeira fase, participou também de uma certa maneira em animar sindicatos sindicalista-revolucionários - muito embora com fraquezas corporativistas importantes - como a CGT na França ou a CNT na Espanha. Uma parte dos militantes anarquistas participou ativamente da primeira onda revolucionária mundial e geralmente se tornaram marxistas, aderindo à Terceira internacional. Mas não foi o caso de todos, pois uma parte significativa dos anarquistas, diante da primeira guerra mundial, fez como os social-democratas, apoiando à burguesia nacional e traindo o internacionalismo proletário. A traição aberta da CNT espanhola não aconteceu diante da Primeira Guerra mundial que não tinha afetado a Espanha, mais diante dos acontecimentos de 1936 e 1937. Em Julho 1936, os operários se sublevaram espontaneamente contra o golpe de Franco, assaltando de mãos vazias os quartéis do exercito e se armando deste jeito, sem que os soldados de Franco opusessem uma resistência real, eles também operários ou camponeses. Na realidade, a força que impediu os operários sublevados a continuarem sua ofensiva contra o estado burguês era constituída pelos traidores social-democratas, stalinistas e os anarquistas, estes últimos argumentando que este Estado não tinha nada a ver com um Estado clássico, e que combatê-lo só enfraqueceria a luta necessária contra o fascismo, e também que seria muito mais subversivo desenvolver o movimento de coletivização das empresas. Em maio de 37, quando o proletariado de Barcelona se sublevou, ele não tinha mais a mesma força como em Julho de 36 por conta da desorientação ideológica resultando da propaganda dos social-democratas, dos stalinistas e dos anarquistas, e foi sem dificuldade real que o governo de frente popular pôde massacrá-lo. Assim, os anarquistas se destacaram como os servidores mais radicais e enganadores da classe:

  • criando a ilusão que o estado burguês, no qual participavam os ministros anarquistas, tinha desaparecido;
  • criando a ilusão que as coletivizações correspondiam a uma socialização enquanto estas eram perfeitamente supervisionadas pelo estado burguês e constituíram um meio de obter dos operários que eles aceitassem a intensificação da exploração para satisfazer às necessidades do esforço de guerra;
  • enganando os operários sobre o fato que eles teriam que tomar parte na guerra entre dos campos igualmente burgueses, o da democracia e ou outro do fascismo.

Quando a CCI critica a política de Frente única, falta a contextualização, notadamente a necessidade de fazer alianças contra o desenvolvimento do perigo fascista

A política de frente única constitui uma forma do oportunismo que se desenvolveu no seio da vanguarda revolucionária com o refluxo da onda revolucionária mundial. Para não se distanciar das massas que tendiam a se afastar da revolução, a IC promoveu a política de "ir à massas" através de alianças com partidos como a social-democracia. Um outro argumento a favor desta política invocava a necessidade de constituir uma frente ampla incluindo partidos democratas burgueses, diante do desenvolvimento do fascismo. Isso foi uma política desastrosa porque pregava uma aliança com um inimigo mortal do proletariado: a social-democracia; esta tinha traído a classe operária diante da guerra mundial, tinha derrotado o movimento revolucionário na Alemanha e mandado assassinar os lideres operários como Rosa Luxemburgo, Karl Liebnecht e Leo Joguishes, salvando neste país a dominação capitalista diante da revolução. Pior ainda, ao designar o fascismo como o pior inimigo da classe operária, esta política tendia a substituir a luta de classes com a luta pela defesa da democracia contra o fascismo. Tal política desembocou no alistamento de uma fração significativa dos proletários no campo dos aliados contra o campo imperialista oposto, o da Alemanha e do Japão. Todos os antifascistas justificam tal abandono pelo proletariado de seu terreno clássico de luta de classes, internacionalista e contra todas as frações da burguesia como na primeira onda revolucionária mundial, pelas atrocidades que cometeu o fascismo e seu caráter ditatorial. Nenhuma entre estas duas características pode ser negada, mas também nenhuma vale, pois a democracia é uma forma da ditadura do capital sobre os explorados e não há uma fração da burguesia que escape da dinâmica bárbara do capitalismo decadente. Os crimes do nazismo durante a Segunda Guerra mundial são muito conhecidos, os das grandes democracias muito menos. Os campos de concentração foram uma expressão dos primeiros. Mas pouco se divulga que as grandes potências democráticas conheceram a existência destes campos desde o início e nada fizeram para impedir sua utilização, como poderiam ter feito, por exemplo, pelo bombardeio das vias de comunicação dando acessos a estes. Mais ainda. Sob iniciativas de organizações judiais para conseguir que presos judeus dos campos de concentração fossem trocados por caminhões americanos, negociações tiveram lugar entre representantes dos campos alemão e americano. Não resultaram em nada, pois não somente a burguesia americana não queria entregar caminhões, mas também não queria acolher dezenas de milhares de judeus, inclusive sem ter que dar nada em compensação. Quanto aos bombardeios americanos e ingleses das cidades alemãs, quando a guerra já estava perdida para a Alemanha, eles tiveram cada vez mais como objetivo de aterrorizar a população, de exterminá-la e, no seu seio, a classe operária, para evitar que aconteçam sublevações operárias. Assim, em pouco tempo morreram centenas de milhares de pessoas nas cidades de Hamburgo e Dresde por conseqüência das bombas incendiarias dos aliados.

O que a CCI pensa da quarta internacional?

A fundação das três primeiras internacionais sempre correspondeu a um movimento de desenvolvimento da luta de classe. Cada uma destas internacionais correspondeu também a progresso na concepção da luta política do proletariado. Assim, a segunda, se dedicava ao aspecto político da luta do proletariado, ao contrario da primeira que assumia ao mesmo tempo luta política e luta econômica. A terceira soube se adaptar às novas condições da luta revolucionária com um partido minoritário de vanguarda enquanto os partidos da segunda internacional eram partidos de massas.

As "leis" que orientaram à constituição da quarta Internacional, em 1938, não têm nada a ver com as das três primeiras Internacionais. Foi um ato totalmente voluntarista por parte de Trotsky e de seus seguidores, num período que não tinha nada de revolucionário, mas muito pelo contrario de derrota profunda da classe operária com um peso ideológico cada vez mais importante da contra-revolução, o que se materializou pouco depois pelo desencadeamento da Segunda Guerra mundial. Alem disso, foi um ato totalmente dogmático, incapaz de se basear sobre o que de melhor orientou fundação da terceira internacional, e que resultou de uma concepção alheia ao marxismo atribuindo as dificuldades do movimento operário à "crise de sua direção revolucionária". Assim, para o trotskismo, só bastava colocar a direção correta para que o movimento operário se encaminhe para a revolução.

Até que ponto a luta para as reformas participa ou não do processo para a revolução

Em qualquer período da vida do capitalismo, a classe operária teve de se defender contra uma tendência natural do capitalismo em ampliar suas condições de exploração. A diferença se situa no resultado desta luta. Enquanto na fase de ascendência do capitalismo, tal luta podia desembocar na obtenção de reformas duradouras, já não é mais o caso na fase de decadência na qual toda luta conseqüente da classe operária coloca em questão, pelo menos de maneira embrionária, a existência do sistema. É assim que, nesta época, as maiores manifestações desta luta de defesa de suas condições pela classe operária a levaram a enfrentar o conjunto da burguesia representada pelo estado capitalista e a obrigaram a se organizar para esta tarefa, como foi ilustrado através do surgimento dos conselhos operários em 1905 na Rússia. Neste contexto, a responsabilidade dos revolucionários é de colocar em evidência que não há mais possibilidade de melhoria das condições de vida sob o capitalismo, e que , diante da crise mortal do capitalismo, a classe operária não vai ter outra alternativa, senão desenvolver cada vez mais suas lutas. Diante da única perspectiva de barbárie que este sistema decadente pode oferecer a humanidade, os revolucionários devem também evidenciar que a única classe na sociedade capaz de derrubar o capitalismo para instaurar uma outra sociedade é o proletariado.

O que fazer com o sindicalismo e o parlamentarismo para impedi-los de travar a luta de classe?

O proletariado mundial não se submete à lei da deterioração constante de suas condições de vida, resultando do agravamento da crise mundial. Por conta disso, ele vai necessariamente ampliar suas lutas. É óbvio que a burguesia não ficará de braços cruzados diante disso como o demonstram todas suas manobras contra a luta de classe, desde que o proletariado voltou a lutar em escala internacional a partir de maio de 68. Contra esta, ela vai continuar utilizando todos os meio à sua disposição e em particular os órgãos do estado capitalista que são os sindicatos e a mistificação eleitoral que vão constituir ainda travas ao desenvolvimento da luta e da consciência. Entretanto, ao serem utilizadas repetidamente contra a classe operária, essas armadilhas da burguesia vão inelutavelmente perder progressivamente sua eficácia enquanto a classe operária vai desenvolver a confiança na suas próprias forças. Nesse processo, os revolucionários têm a papel da maior importância.

No último relatório que fizemos de uma reunião pública numa universidade brasileira[2] notamos: "um interesse crescente das novas gerações para um futuro de luta de classe que recusa a miséria material, moral e intelectual deste mundo em decomposição". Estas duas últimas reuniões não desmentiram tal tendência que se fortalece por um interesse crescente para a história da luta da nossa classe e dos ensinamentos que podem ser tirados deste combate.


[1] Por exemplo, não vamos falar de novo de questões como "a natureza de classe dos movimentos altermundialistas", "o papel do sindicato Solidarnosk na Polônia em 1980" que são tratadas em diversos textos de nosso site em português

[2] [2] http://pt.internationalism.org/icconline/2006/conjuntura-mundial