Maio de 68 e a perspectiva revolucionária

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Maio de 68 não estourou como um trovão no céu azul. Desde 1964 a contestação estudantil se desenvolveu por toda a parte no mundo, sobretudo contra a guerra do Vietnã: nos Estados-Unidos, na Alemanha, na Grã-Bretanha, mas também no México e no Senegal. Quanto ao movimento da classe operária na França, que se expressou pela primeira vez simultaneamente com o dos estudantes, culmina numa greve de massa de mais de 9 milhões de proletários. Ele dá inicio a uma onda de lutas internacionais (o outono quente na Itália e o Cordobazo na Argentina em 1969, as greves de 1970 na Polônia...).
É uma realidade que os protagonistas mais famosos de 68 (Cohn-Bendit, Glucksmann, July...) se transformaram nos porta-vozes reconhecidos da ordem dominante. Isso é apresentado por alguns como a prova de que Maio de 68 não foi portador de uma mensagem revolucionária. Os ideólogos burgueses de todos os horizontes concordam, porém em afirmar que há um "antes-Maio de 68" e um "pós-Maio de 68". Mas, para eles, por traz da "evolução dos costumes" legada pelo maio de 68, houve somente uma simples adaptação para uma sociedade capitalista mais moderna ou mais progressista.
Na realidade, houve com certeza uma mudança de período histórico no pós-maio de 68 que traduz o fim de um longo período de contra-revolução sofrida pelo proletariado depois do esmagamento da onda revolucionária de 1917-1923. Os acontecimentos de maio de 68, consecutivos ao voltar das primeiras manifestações da crise aberta do capitalismo, abriram uma nova perspectiva de desenvolvimento internacional da luta de classes.

O interesse atual para os eventos de 68

Maio de 68 está se transformando no maior motivo de vendas para os editores em alguns países: Já na França se enumera dezenas de livros, testemunhos, compilação de foto ou cartazes, etc. Espera-se mais de uma centena...

Os editores são mercadores, e se há tantos livros publicados é porque existe um público interessado em comprá-los.

De onde provém esta "demanda" a propósito de maio de 68:

  • "Ex-combatentes" que vão se aposentando e estão com vontade de reviver um pouco sua juventude...;
  • Sobretudo, as novas gerações que têm uma preocupação, um interesse para o assunto. Para elas, maio de 68 tem um aspecto mítico: "a juventude se revoltava", "era a revolução", etc.

Uma prova que maio de 68 volta a representar uma preocupação de muitas pessoas. O presidente francês Sakozy disse durante sua campanha eleitoral que se devia "acabar com maio de 68": isso era dirigido para os velhos burgueses eleitores para quem "maio de 68 foi a personificação do horror"

Na realidade, este interesse voltado para maio de 68 não leva em conta só o "saudosismo" dos "ex-combatentes" ou a vontade de uma parte da juventude atual de que isso "aconteça novamente". Existe também o medo de que isso aconteça novamente, um temor por parte de todos os que ficam horrorizados com a idéia da revolução, ou da luta de classes, um temor que impregna as entranhas da burguesia, um temor de classe...

No grande falatório literário atual e também televisivo que está se desenvolvendo há o desejo, por parte da burguesia, de exorcizar este pesadelo que perturba as noites dos burgueses... Um desejo de que todos aqueles que têm simpatia pelo maio de 68 retirem ensinamentos incorretos, que não entendam o significado destes acontecimentos.

Frente a todas as mentiras que começaram a aparecer sobre maio de 68, é uma necessidade dos revolucionários restabelecerem a verdade, fornecerem as indicações para entender o significado e as lições destes acontecimentos, impedirem que seja seu sepultamento sob uma avalanche de flores e coroas. Para poder tirar as lições tem que se recordar o que realmente aconteceu em maio de 68.

O que aconteceu em 1968?

Muitas coisas!
A burguesia se aproveita desta profusão de eventos: na avalanche literária atual, o que é essencial e particularmente significativo em relação a 68 fica submerso sob uma massa de detalhes. É uma visão totalmente deformada da realidade que é transmitida. É a maneira clássica de proceder da burguesia "democrática": geralmente não através da censura como na China, mas fazendo o máximo de barulho para impedir que as verdadeiras mensagens possam ser ouvidas.

Alguns elementos cronológicos

22 de março de 68:

  • 142 estudantes da universidade de Nanterre, na periferia de Paris, ocupam a sala do Conselho de Universidade em protesto contra a detenção de alguns entre seus companheiros depois de uma manifestação contra a guerra do Vietnã; decidiram constituir o "movimento do 22 de março", movimento informal animado por trotskistas e anarquistas; entre eles, o conhecido Daniel Cohn-Bendit, estudante de sociologia de nacionalidade alemã apesar de ter nascido na França.

Entre o 23 de março e o 2 de maio:

  • No campus de Nanterre, as concentrações e jornadas de mobilização convocadas pelo M22 (Movimento do 22 de março) estão alternando com o fechamento administrativo da universidade. Eis alguns slogans estudantis da época:
    • "Professores, vocês são velhos e sua cultura também",
    • "Deixem-nos viver",
    • "Tomem seus desejos por realidades",
    • "Recusemos ser os futuros quadros da exploração capitalista".
  • Durante este período, o Partido Comunista Francês (PCF) e a central sindical controlada por este (a CGT) não deixam de denunciar os estudantes que se apresentam enquanto "revolucionários" como "filhos de papai" que desprezam a classe operária. Os grupos de extrema-esquerda, trotskistas, maoístas e anarquistas são acusados de estarem a serviço do governo e da polícia. A extrema-direita denuncia a atuação do "judeu alemão" Cohn-Bendit; Georges Marchais, número 2 do PCF, por sua vez denuncia, no jornal L'Humanité, este "anarquista alemão".

3 de maio:

  • A universidade de Nanterre é fechada e cercada pelas forças policiais enquanto algumas centenas de estudantes desta universidade organizam uma concentração no pátio da Sorbonne, a universidade mais antiga e famosa em Paris que fica no centro do "bairro latino", o bairro das universidades no coração da capital;
  • Os CRS (polícia anti-manifestações) invadem a Sorbonne e expulsam todos os ocupantes. Os homens são sistematicamente presos;
  • Rapidamente, algumas centenas de estudantes se juntam na entrada da Sorbonne. São dispersos pelas bombas de gás da polícia, mas se mantém concentrados um pouco mais afastados. Cada vez mais numerosos, começam a assediar os policiais durante algumas horas. Balanço: 72 policiais feridos, 400 estudantes presos.

Entre o 6 e o 9 de maio:

  • Depois de dois dias de calma, as manifestações retomam na segunda, 6 de maio, com os slogans:
    • "A Sorbonne aos estudantes",
    • "Chui fora do bairro latino",
    • "Libertem nossos companheiros" (4 manifestantes do 3 de maio são condenados a alguns meses de prisão);
  • Diante da recusa do governo em recuar, as manifestações são cada vez mais numerosas: algumas dezenas de milhares de manifestantes, as quais se juntam jovens operários durante a noite;
  • Canta-se a Internacional diante do Arco do Triunfo, símbolo guerreiro do nacionalismo;
  • Início das manifestações em diversas cidades do país;
  • O PCF e a CGT continuam denunciando os "provocadores".

10 de maio:

  • A manifestação termina no bairro latino, perto da Sorbonne ainda bloqueada pela polícia;
  • Às 9 da noite, dezenas de barricadas são erigidas;
  • Às duas da manhã, depois de ter feito maciçamente uso de bombas de gás, os policiais assaltam as barricadas;
  • Até a madrugada a repressão é brutal: gás lacrimogêneo, granadas ofensivas, espancamentos sistemáticos inclusive dos feridos nas ambulâncias.

11 de maio:

  • Enorme indignação em toda França diante da repressão;
  • Várias manifestações espontâneas não somente de estudantes, mas também de seus pais, alunos de curso secundário, operários;
  • Várias universidades são ocupadas pelos manifestantes;
  • Os sindicatos convocam um dia de greves e manifestações para a segunda 13 de maio
  • Às vésperas, o governo anuncia a libertação dos estudantes presos e a reabertura da Sorbonne. Está recuando para tentar acalmar a situação, mas já é tarde demais.

13 de maio:

  • A greve de 24 horas convocada por todos os sindicatos não recebe adesão significativa: 1 milhão de grevistas em toda França. No entanto as manifestações reúnem multidões enormes como jamais tinha acontecido desde o fim da Segunda Guerra Mundial: 800 000 pessoas em Paris, por exemplo;
  • Os principais slogans das manifestações são:
    • "Professores, estudantes, trabalhadores solidários!"
    • "Governo popular!" (um slogan promovido pelo PCF)
    • e sobretudo, "10 anos, basta!" (pois o general de Gaulle tinha voltado ao poder no 13 de maio 1958);
  • Depois do recuo do governo, no dia 11 de maio, o enorme êxito das manifestações do dia 13 provoca um sentimento de força, não somente no seio dos estudantes, mas também na classe operária.

14 de maio:

  • Logo pela manhã a greve por tempo indeterminado com reivindicações antigas é votada numa pequena fábrica metalúrgica em Lorraine, na cidade de Woippy. A ação é iniciada na grande fábrica Sud-Aviation em Nantes onde também a greve por tempo indeterminado é decretada, com ocupação da fábrica e seqüestro da Direção;
  • Os estudantes da cidade trazem solidariedade aos operários, se incorporam ao piquete de greve, confraternizam;
  • São os operários jovens que lançaram o movimento. Seu raciocino é simples: "se os estudantes, que não podem fazer pressão através da greve, tiveram a força de fazer recuar o governo, os operários também poderão fazê-lo recuar."
  • Nesse dia registra-se o total de 3100 grevistas.

15 de maio:

  • O movimento chega à fábrica Renault em Cléon, na Normandie e também às duas outras fábricas da região: greve total, ocupação por tempo indeterminado, seqüestro da Direção, bandeira vermelha nas grades;
  • Há 11 000 grevistas;
  • A jornada de ação convocada pelos sindicatos contra os ataques à segurança social é um fracasso e passa despercebida.

16 de maio:

  • Os operários das outras fábricas Renault aderem ao movimento: bandeira vermelha em Flins, Sandouville, le Mans e Billancourt;
  • Naquela noite existem apenas 75 000 grevistas no total, mas a entrada dos operários Renault-Billancourt na luta é um sinal: é a maior fábrica da França (35 000 trabalhadores), há muito tempo existe um provérbio que diz: "quando Renault espirra, a França fica gripada".

17 de maio:

  • 215 000 grevistas: a greve começa a expandir-se a toda a França, particularmente fora da capital. O movimento é totalmente espontâneo. Por toda a parte são operários jovens que estão na frente e os sindicatos só acompanham. Muitas confraternizações entre estudantes e operários jovens acontecem: estes últimos vão para as universidades ocupadas e convidam os estudantes a comer na suas cantinas;
  • Não tem reivindicações precisas: é uma exasperação que se expressa. Numa parede em Normandie, estava escrito "O tempo de viver com mais dignidade!"
  • Com medo de ser "ultrapassada pela base" também pela CFDT (sindicato de orientação social-democrata, porém com uma linguagem radical nessa época) muito mais presente nas greves dos primeiros diais, a CGT chama a extensão da greve. "Pegou o bonde andando". Seu chamamento só é conhecido no dia seguinte.

18 de maio:

  • 1 milhão de trabalhadores em greve ao meio dia, antes das consignas da CGT serem conhecidas;
  • 2 milhões de grevistas as vésperas.

Segunda 20 de maio:

  • 4 milhões de grevistas

21 de maio:

  • 6,5 milhões de grevistas

22 de maio:

  • 8 milhões de trabalhadores em greve por tempo indeterminado. É a maior greve na história do movimento operário internacional. Ela é muito mais massiva de que as duas referências anteriores: a greve geral de maio de 1926 na Grã-Bretanha e as greves de maio-junho 1936 na França. Todos os setores são afetados: indústria, transportes, correios e comunicações, ensino, administrações, mídias (a televisão nacional está em greve, os trabalhadores denunciam a censura que lhes é imposta), laboratórios de pesquisa, serviços funerários (morrer em maio de 68 não era uma boa idéia), desportistas profissionais (a bandeira vermelha flutua no prédio da federação francesa de futebol);
  • Há diferentes causas para esta generalização da greve em poucos diais:
    • Um descontentamento enorme (do qual voltaremos a falar)
    • Os erros do governo
    • O exemplo estudante segundo o qual a luta redime
    • A ação dos sindicatos a partir do dia 20 de maio: incitam a greve por toda a parte, inclusive nas empresas em que os operários não estão com vontade de fazer greve. Veremos mais adiante por que;
  • A Assembléia nacional, dominada pela Direita, rechaça uma moção de censura apresentada pela Esquerda duas semanas antes (no dia 8 de maio): as instituições oficiais da República francesa parecem viver num outro mundo, como os políticos:
    • À direita: estes políticos só fazem repetir como um disco arranhado que existe "uma conspiração" contra a França, notadamente por parte do Partido comunista a quem é atribuído muito mais poder do que na realidade tem
    • À esquerda: políticos fazem todo tipo de manobra para encontrar uma saída política alternativa ao movimento como a substituição da direita pela esquerda no governo;
  • O governo toma a decisão de proibir o retorno de Cohn-Bendit que foi para Alemanha;

24 de maio:

  • Varias manifestações, notadamente para denunciar a proibição de permanência na França de Cohn-Bendit. Os slogans são: "As fronteiras não nos interessam" (estão apenas nos desenhos dos mapas) ; "todos somos judeus alemães";
  • A CGT impõe um cordão de isolamento contra os "aventureiros" e "provocadores" (quer dizer os estudantes "radicais" ombro a ombro com muitos operários jovens);
  • À noite houve um discurso do general de Gaulle: propõe um referendum para que os franceses se pronunciem sobre a "participação" (um tipo de associação capital-trabalho): é um fracasso total que revela a confusão do governo e da burguesia em geral. Depois, em vários lugares, os funcionários municipais anunciam que se recusarão organizar o referendum. Da mesma maneira, não se sabe como imprimir os boletins de voto visto que a imprensa nacional está em greve e as imprensas privadas, que não estão em greve, recusam. Os patrões não querem mais problemas com seus operários.
  • Os manifestantes ouvem o discurso nos seus rádios portáteis. A cólera aumenta mais ainda: "vai à merda com seu discurso"; Houve confrontos e barricadas durante toda a noite. A bolsa de Paris foi incendiada.

Durante todo este período

  • As universidades ocupadas se transformam em locais de discussão política permanente; muitos operários, notadamente os jovens comparecem; alguns operários pedem aos que defendem a idéia da revolução ir a sua fábrica ocupada: em Toulouse o pequeno núcleo que depois vai fundar a secção da CCI na França é convidado a expor a idéia dos conselhos operários numa fábrica por militantes do PCF!
  • Muitas discussões acontecem também na rua, nas calçadas. Surgem espontaneamente, pois cada um tem alguma coisa a dizer. Reina um atmosfera de festa;
  • Por toda a França, nos bairros, em algumas grandes empresas ou ao redor, surgem "Comitês de ação": se discute neles como lutar, a perspectiva revolucionária. Geralmente são animados por grupos esquerdistas ou anarquistas, mas reúnem muito mais pessoas que os membros destas organizações.

25 de maio

  • Abertura das negociações entre sindicatos, patronato e governo (no ministério do trabalho, rua de Grenelle);
  • De imediato os patrões estão dispostos a conceder mais do que os sindicatos pedem: é óbvio que a burguesia está com medo;
  • O primeiro ministro, Pompidou, preside. Ele tem um encontro a sós com Seguy, patrão da CGT. Mais tarde se tomará conhecimento que Chirac, Secretário de Estado para questões sociais, encontrou numa mansão Krasucki, número dois da CGT.

Noite de 26 a 27 de maio

  • Conclusão dos "acordos de Grenelle":
  •  
    • Aumento dos salários para todos de 7% mais 3% em setembro
    • Aumento do salário mínimo ao redor de 25%
    • Redução da porcentagem das despesas de saúde não reembolsadas pela seguridade social: de 30% até 25%
    • Reconhecimento da secção sindical dentro da empresa
    • Uma série de promessas nebulosas sobre a abertura de negociações
  • Dado a importância e a força do movimento, é uma verdadeira provocação:
    • os 10% serão corroídos pela inflação (significativa nessa época)
    • nada sobre a compensação salarial da inflação;
    • nada de concreto sobre a redução da jornada de trabalho: só é declarado o objetivo de "uma redução progressiva para 40 horas" (já conseguida oficialmente em 1936!). No ritmo proposto pelo governo, seria alcançada em 2008;
    • os únicos que conseguem algo significativo são os operários mais pobres (é uma manobra para dividir os operários incitando estes ao retorno ao trabalho) e os sindicatos (retribuídos pelo desempenho do seu papel de sabotadores)

Segunda 27 de maio

  • Rejeição unânime dos "acordos de Grenelle" pelas assembléias operárias. Na Renault Billancourt, Séguy é vaiado por 10 000 operários quando apresenta os acordos;
  • Na Renault Billancourt:
  •  
    • desde a madrugada, os 10 000 operários reunidos já haviam decidido a continuidade do movimento;
    • Benoîst Frachon, líder "histórico" da CGT (que havia participado das negociações de 1936) declara: "Os acordos da rue de Grenelle vão trazer à milhões de operários um bem-estar que não esperavam": faz-se um silêncio de morte;
    • André Jeanson da CFDT congratula-se com voto inicial em favor da continuidade da greve e fala da solidariedade dos operários com os estudantes em luta: aplausos ruidosos;
    • Séguy apresenta "um relatório objetivo" do que "foi obtido em Grenelle": assobios e vaia geral durante vários minutos;
    • réplica de Séguy: "segundo o que estou ouvindo, vocês não vão se deixar burlar": aplausos mas na multidão dá para ouvir falar: ele está nos gozando.
  • O número de grevistas aumenta ainda mais chegando a 9 milhões;
  • Grande concentração no Estádio Charlety em Paris convocada pelo sindicato dos estudantes UNEF, os grupos esquerdistas e a CFDT (que quer parecer mais radical do que a CGT). Conta com a presença de políticos social-democratas como Mendès-France. Cohn-Bendit reaparece, os cabelos pintados de preto.

28 de maio Os partidos de esquerda chafurdam na água.

  • Entrevista coletiva de François Mitterrand: visto que o poder fica vago, anuncia sua candidatura a presidência da república;
  • À tarde, Waldeck Rochet, chefe do PCF, propõe um governo "com participação comunista".

29 de maio

  • Grande manifestação da CGT e do PCF que, com medo de uma alternativa social-democrata ao governo, reivindicam um "governo popular". Resultado: a direita alardeia a existência de "conspiração comunista";
  • O general de Gaulle desaparece (na realidade foi para Alemanha onde encontrou o general Massu para assegurar-se da fidelidade das forças armadas).

30 de maio

  • Novo discurso de de Gaulle:
    • Ele afirmou: "Eu fico" (no governo),
    • Proclamou a dissolução da assembléia nacional,
    • Anunciou novas eleições previstas para 23 e 30 de junho;
  • Enormes manifestações em Paris e no país para apoiar de Gaulle nas quais participam seus velhos inimigos de extrema-direita.
  • A CGT chama negociações, ramo por ramo para "melhorar as aquisições dos acordos de Grenelle": é o instrumento para dividir o movimento.

A partir deste momento (é uma quinta feira), operários começam a voltar para o trabalho, mas parcialmente: no dia 6 de junho existem ainda 6 milhões de grevistas. O retorno para trabalho se efetua de maneira dispersa:

  • 31 de maio: siderurgia em Lorraine, têxtil no Norte;
  • 4 de junho: arsenais, seguranças;
  • 5 de junho: Energia e Gás, minas de carvão;
  • 6 de junho: correios, telecomunicações, transportes. Em Paris, a CGT faz pressão para que o trabalho volte a normal: em cada garagem anuncia que as outras já retomaram o trabalho, o que não era verdade;
  • 7 de junho: ensino primário;
  • 10 de junho: ocupação da fábrica Renault em Flins pelas forças policiais: um aluno do curso secundário acossado pela polícia cai no rio Sena e se afoga;
  • 11 de junho: intervenção dos CRS na fábrica de Peugeot de Sochaux (segunda fábrica da França - automóveis): 2 operários são mortos. Novas manifestações violentas com os slogans: "mataram nossos camaradas". Frente à determinação da resistência operária, os CRS evacuam a fábrica. O trabalho só será retomado 10 dias mais tarde.
  • Com medo de que a indignação desse uma nova impulsão a greve (existem ainda 3 milhões de grevistas), os sindicatos (a CGT a sua testa) e os partidos de esquerda liderados pelo PCF, chamam com insistência à retomada do trabalho "para que as eleições possam acontecer e completar a vitória da classe operária":
    • O jornal do PCF, L'Humanité, tem como titulo: "Fortalecidos pela sua vitória, milhões de trabalhadores retomam o trabalho calmamente".
    • Neste momento dá para entender claramente o sentido do chamamento à greve por parte dos sindicatos a partir do dia 20 de maio: precisava controlar o movimento com a finalidade de poder provocar a retomada dos setores menos combativos e assim desmoralizar os outros.
    • Waldeck Rochet, nos seus discursos de campanha eleitoral declara que "O partido comunista é um partido da ordem";

O retorno para trabalho continua: 12 de junho: retomada no ensino secundário; 14 de junho: Air France e Marinha mercante; 17 de junho: Renault Billancourt.

23 de junho: 1° turno das eleições com um avanço muito forte da direita

24 de junho: retomada a Citroen Javel (automóveis), concentrada no centro de Paris. Krasucki, o número 2 da CGT intervém na assembléia geral para chamar a retomada.

26 de junho: retomada Usinor Dunkerque (siderurgia)

30 de junho: segundo turno das eleições com uma vitória histórica da direita.

Causas e significação de maio de 68

Na França houve a conjunção de dois movimentos:

  • O movimento estudante que tinha começado no outono de 64 nos Estados-Unidos e que se propagou na quase totalidade dos países ocidentais;
  • O movimento da classe operária.

Tal fenômeno nunca aconteceu antes em qualquer outro lugar. Isso é essencialmente o resultado das imperícias do governo. É uma realidade que "A França tem a direita  mais burra do mundo".

O movimento estudantil mundial chegou a seu ponto mais alto em 1968: Grã-Bretanha, Itália, Alemanha, Estados-Unidos, etc. e, sobretudo na França. Há diversas causas para isso:

  • Um dos principais fatores da contestação estudantil era a guerra empreendida pelos Estados-Unidos no Vietnã: em maio de 68 se iniciam em Paris (paradoxo!) as negociações entre este país e o Vietnã do norte;
  • A revolta estudantil tinha como protagonistas os filhos do "baby-boom" pós-guerra que chegaram maciçamente nas universidades. Por conta disso e do fenômeno da proletarização dos quadros, as perspectivas profissionais dos recém formados são menos atrativas do que antes;
  • Em seguida, a burguesia vai cuidar melhor do "mal-estar estudantil" e recuperar muitos temas colocados à testa pelos estudantes: contra o autoritarismo nas universidades; contra a discriminação racial nos Estados-Unidos; pela "libertação das mulheres"; pela "liberação sexual"; etc. Ela transforma muitos entre esses temas em produtos de marketing.

Enfim, a causa fundamental de Maio de 68 é que a classe operária se encarregou por sua vez da luta contra a ordem capitalista:

  • Já em maio de 68, na França, a contestação estudantil passou ao segundo plano, a nível político e em todas as discussões, atrás da greve operária;
  • A classe operária dos demais países por sua vez continua a luta dos proletários franceses:
  • Primavera 1969: lutas massivas na Argentina. A cidade de Córdoba passa ao controle completo dos operários antes da intervenção dos tanques do exército;
  • Outono 1969: "outono quente" na Itália (chamado também maio rastejando porque durou mais tempo sem apresentar uma simultaneidade tão importante como na França). Muito mais do que na França, os sindicatos são ultrapassados. Em seguida, durante anos, a Itália será o país no mundo com mais greves;
  • Inverno 1970: lutas massivas dos operários poloneses do mar Báltico. A repressão sangrenta (300 mortos) não os freia, ao contrário provoca a extensão do movimento. O primeiro secretário do partido é substituído e o novo vem discutir com os operários de Gdansk. Há concessões econômicas do governo, evento insólito num país liderado por um partido stalinista. As greves retomarão em 1976 e, sobretudo, em agosto de 1980, obrigando o regime stalinista a autorizar a constituição de um "sindicato independente" (Solidarnosc) que terá como tarefa de fazer os operários retornarem ao trabalho;
  • Início dos anos 1970 na Grã-Bretanha: mobilização massiva dos operários, sem comparação desde a Guerra. A Esquerda volta ao poder em 1974 para "acalmar a classe operária", mas deve sair e passar para a oposição como conseqüência das imensas mobilizações operárias do inverno 78-79.

Assim, a retomada do trabalho em junho de 68 na França não foi o fim do movimento da classe operária mundial, foi o fim do primeiro episódio.

Como entender este ressurgimento da classe operária mundial que é sistematicamente "esquecido" pelos programas de televisão sobre 68, enquanto se fala muito do movimento dos estudantes que o precedeu?

Absolutamente não por causas circunstanciais como a imperícia da burguesia francesa, por exemplo. Já a amplitude do movimento de greves de maio-junho de 68 na França assinalava que existiam causas gerais e internacionais (como tínhamos escrito nessa época):

  • É o fim do "milagre" pós-guerra (o estado social). A partir de 67, as nuvens se acumulam: crise da Libra esterlina, do dólar, recessão em alguns países;
  • A classe operária sofre os primeiros golpes da crise: redução do crescimento dos salários, elevação do nível de desemprego. Esta degradação econômica contribuiu também (ainda que de maneira não consciente) para o mal-estar estudantil em 1968 em muitos países. A propósito disso houve na própria França em 1967 e início de 68 várias greves muito combativas, ultrapassando muitas vezes os sindicatos;
  • Ao contrário da situação de 1929, o proletariado não tinha acabado de sofrer uma derrota: fracasso e esmagamento da revolução mundial nos anos 20, controle dos partidos stalinistas em muitos países nos anos 30;
  • Os temas "clássicos" que permitiram sua asfixia (anti-fascismo, "resistência contra o nazismo", defesa da democracia) se esgotaram, em particular no seio das gerações jovens da classe operária que não conheceram a segunda guerra mundial, que não são marcadas pelas derrotas como seus pais.

Hoje, muitos "analistas" nos dizem que há um "antes-Maio de 68" e um "pós-Maio de 68" e que "esta data marca uma mudança considerável na vida da sociedade".

É absolutamente verdade!

Entretanto, a mudança que celebram (e alguns deploram):

  • "a libertação sexual" (contracepção, direito ao aborto, aceitação da homossexualidade), a "liberação das mulheres";
  • o questionamento do autoritarismo nas relações familiares;
  • a "democratização" de algumas instituições (na universidade por exemplo);
  • as novas formas artísticas;

Tudo isso é muito secundário (e perfeitamente absorvido pelo capitalismo) diante da manutenção da exploração, do crescimento do desemprego, da intensificação da opressão e da barbárie geral do mundo capitalista.

A real mudança ocupa outro lugar.

Na realidade, maio de 68 assinala o fim da contra-revolução que tinha sofrido o proletariado mundial no fim dos anos 20 e que a vitória dos aliados em 1945 tinha ainda ampliado. Entre os marcos significativos desta nova situação está o fato de que os sindicatos e os partidos de esquerda, notadamente os partidos stalinistas, não lideravam mais as mobilizações operárias. Eles estão na obrigação de "pegar o bonde andando". Ao mesmo tempo, existe um interesse renovado pela história do movimento operário, pela teoria revolucionária: Marx, e também Rosa Luxemburgo ou Pannekoek, Bordiga, etc. Em vários países, pequenos grupos surgem e querem restabelecer a ligação com as verdadeiras posturas revolucionárias, com a Esquerda comunista. A CCI nasceu desta efervescência.

Faz 40 anos que aconteceram as imensas greves de 68. A revolução não aconteceu, ainda. Muitos entre os protagonistas deste período se integraram perfeitamente no sistema:

  • Joschka Fischer dirigiu a política do imperialismo alemão durante anos;
  • Cohn-Bendit, passou do "vermelho ao verde", é agora uma "personalidade européia";
  • Glucksmann, o filósofo mais famoso de 68 (seu livro "Estratégia da revolução na França de 68") chamou a votar Sarkozy nas últimas eleições na França;
  • Kouchner, ex-maoísta, seguiu o exemplo de Fischer, mas no seio de um governo de direita;
  • etc.

O movimento da classe operária não encontrou caminho livre na sua frente. Os obstáculos se multiplicaram:

  • a capacidade da burguesia em limitar o ritmo da crise permitindo que se criem ilusões entre os operários;
  • todas as manobras da burguesia, da direita como da esquerda, com a contribuição dos esquerdistas que atuaram como aliciadores e suplentes da esquerda oficial;
  • o desmoronamento dos regimes stalinistas no fim dos anos 80 que ocasionou a perda de 15 anos à classe operária.

Mas as causas fundamentais que permitiram maio de 68 estão presentes ainda hoje:

  • a burguesia não resolveu a crise de seu sistema como se pode perceber claramente a cada dia;
  • ela não foi capaz de infligir uma derrota decisiva ao proletariado mundial que teria transformado o curso histórico atual de desenvolvimento da luta de classe. Isso pode se perceber novamente desde 2003 em vários paises e notadamente na Alemanha (onde os operários se mobilizaram pouco durante os anos 60 e 70)

O interesse que suscita hoje maio de 68 é significativo:

  • De que as gerações operárias novas, incluído os estudantes futuros proletários, procuram um exemplo;
  • E de que a burguesia quer enterrar a idéia da revolução.

Um slogan de maio de 68 era: "E só um começo, continuamos o combate".

O combate continua.

O futuro pertence ao proletariado.