Debates sobre Maio de 68 e a perspectiva revolucionaria

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A CCI celebrou duas reuniões públicas no Brasil sobre maio de 68. A primeira teve lugar numa universidade pública (UESB) do estado da Bahia[1] por iniciativa de um círculo de discussão e a segunda em São Paulo, assumida conjuntamente com duas outras organizações proletárias, Oposição operária[2] (OPOP) e o grupo Anarrres[3]. O Brasil em nada faz exceção a essa campanha ideológica de todas as frações da burguesia no mundo, para transfigurar maio de 68 e fazer com que "aqueles que têm simpatia por estes acontecimentos retirem ensinamentos errados, que não captam o significado destes acontecimentos"[4]. Para aqueles que não tiveram a oportunidade de viver estes acontecimentos ou ter acesso a documentos que possam lhes fornecer uma visão mais objetiva do que realmente aconteceu, as mídias têm um discurso e imagens já prontas que resumem Maio de 68 às confrontações de rua com a polícia e reduzem a ação da classe operária a um papel de figurante longe a reboque do movimento estudantil. Porém, no Brasil como em muitos outros países, existem pessoas, particularmente das jovens gerações, interessadas em entender o que realmente aconteceu em maio de 68. Foi comprovado pela assistência razoável na UESB, que ultrapassou o número de quarenta pessoas.

A real mudança histórica apresentada por maio de 68

A defesa do significado, profundo e histórico, representado por maio de 68, que marcou o fim de um período de contra-revolução vivido ao longo de quarenta anos, foi perfeitamente assumida por algumas intervenções:

  • "É importante recuperar a memória histórica do proletariado. Maio de 68 é apresentado no Brasil como uma luta contra a ditadura enquanto este foi uma expressão da crise mundial do capitalismo. Maio de 68 pos fim a um período de contra revolução (...) a juventude não agüentava mais o peso da contra-revolução. Falava-se sobre o comunismo porem a luta de 68 não permitiu ultrapassar o capitalismo (...) Existiam as condições objetivas para revolução, mas não havia um partido revolucionário. Hoje em dia existem condições mais favoráveis do que em 68" (Grupo Anarres na reunião de SP);
  • "Depois da derrota da onda revolucionaria mundial, o proletariado foi desviado do caminho da revolução. Dizia-se que o proletariado tinha se acomodado ao capitalismo e que a luta de classe tinha desaparecido. O papel da juventude foi central no reaparecimento do proletariado na cena social. Além de desmentir toda essa propaganda burguesa, esse ressurgimento da luta de classe demonstrou o papel central dos países industrializados ao contrario do que de se pensava geralmente em seguida da revolução russa" (OPOP na reunião da UESB).

"Porque não aconteceu a revolução em 68 e como fazer para que ela possa acontecer futuramente?" Pode se dizer que essa questão constituiu uma preocupação explicita ou implícita que atravessou os debates nas duas reuniões, respondida através a discussão de vários questionamentos: O que realmente mudou em 68 em relação ao período precedente de contra-revolução? Quais foram as limitações de 68?

Entender o que foi realmente o período de contra-revolução

Para entender a importância da mudança no ambiente social trazida pelos acontecimentos de 68, foi necessário ilustrar previamente, nas discussões, o que significaram esses 40 anos de contra-revolução sofridos pelo proletariado. Nesse período, este nunca deixou de lutar, mas todas suas lutas, ao contrário de contribuir em libertá-lo da influência da ideologia dominante - que se expressava notadamente sob a forma do nacionalismo e das ilusões democráticas - e da dominação dos sindicatos, só faziam fortalecê-los.

Por exemplo, nas lutas massivas de maio-junho 1936 na França, seguindo as consignas chauvinistas do PCF (Partido Comunista Francês) o proletariado manifestava agitando as bandeiras vermelhas e da França indistintamente. O veneno ideológico stalinista tinha assim como função fazer crer que havia a possibilidade de conciliar o interesse nacional (necessariamente o interesse do capital) e o interesse da luta proletária. É assim que estas lutas, longe de favorecerem a autonomia do proletariado, só o submeteram ao interesse nacional até seu alistamento num campo imperialista na Segunda Guerra Mundial. Quanto à ação dos sindicatos para conter esta luta no quadro social da ordem burguês, longe de suscitar a desconfiança dos operários resultou no incremento do número de filiados.

O fim da Segunda Guerra mundial não foi o teatro de um novo reavivamento revolucionário, como tinha acontecido depois da Primeira, mas ao contrario constituiu mais um fator de desorientação do proletariado, notadamente graças à vitória do campo dos aliados, celebrada como a vitória da democracia sobre o fascismo, enquanto ambos os campos foram igualmente bárbaros e capitalistas.

O peso da contra-revolução se expressou até nas limitações de uma luta verdadeiramente proletária como a dos proletários húngaros em 1956: chegando a se organizar num conselho operário e colocando em evidência a natureza claramente anti-operária do stalinismo. Entretanto, ao contrario dos antecedentes da primeira onda revolucionaria, essa luta jamais colocou em questão o poder do estado, mas também se pronunciou para que o governo se apoiasse sobre a polícia ordinária (não a serviço do stalinismo) e o exercito nacional.

Em outros termos, as lutas do proletariado nesse período de contra-revolução não conseguiam destacar uma perspectiva de questionamento da ordem dominante, de sua ideologia, de seus órgãos de enquadramento do proletariado.

A ruptura de 68

O movimento de 68 teve duas contribuições inestimáveis: 1) demonstrar novamente na prática a capacidade da classe operária de desenvolver espontaneamente uma luta massiva sem que obviamente os ditos partidos e organizações operários fizessem nada a favor dessa luta, mas que na realidade tudo fizeram para que nada acontecesse; 2) questionar "verdades" que pareciam eternas e que fecharam a classe operária no beco sem saída da arapuca ideológica da contra-revolução.

Assim foram colocados em questão por frações da classe operária a natureza comunista da União Soviética, a natureza operária dos partidos de esquerda, o papel "operário" dos sindicatos, etc.

Ao desenvolver esta analise crítica de seu passado, o proletariado se re-apropriava sua própria história: redescobria que tinham existido os conselhos operários, órgãos da luta unitária e revolucionaria; que havia acontecido a revolução na Alemanha em 1919, depois da revolução russa; que esta última tinha sido o teatro de confrontações entre operários e sindicatos e que finalmente tinha sido derrotada pela social-democracia (traidora desde 1914) no poder. Foi essa necessidade de entender o mundo, de querer mudá-lo que animava as inúmeras discussões que se desenrolavam nas ruas, em algumas universidades transformadas em foro permanente, em algumas empresas. Toda essa efervescência realmente foi a grande característica de maio de 68.

Foi uma contribuição enorme à retomada da luta de classe em escala internacional, mas não se podia exigir dessa nova geração que contribuiu muito em fazer maio de 68 um rompimento com a dominação esmagadora da contra-revolução, que ela fosse também capaz de imprimir uma dinâmica revolucionaria.

As limitações de Maio de 68

Ao querer defender o caráter autenticamente proletário deste evento, notadamente frente às campanhas ideológicas ignomínias da burguesia para transfigurar Maio de 68, existe a tendência por parte de elementos proletários e sinceros em subestimar algumas limitações de 68, muitas vezes por falta de informação.

O peso das manobras sindicais

Como dito na apresentação, 1 milhão trabalhadores entraram em greve antes das consignas da CGT serem conhecidas. Foi geralmente naquelas empresas onde a greve foi espontânea, ocupadas pela ação dos operários tomando sua luta em suas mãos próprias, que se expressou a vida política mais rica e intensa. Mas não se pode esquecer que as demais empresas, quer dizer uma maioria, foram ocupadas pela iniciativa dos sindicatos que conseguiram assim um controle maior sobre a luta e se empregaram em fragmentá-la, colocando cordões sanitários sindicais para impedir a entrada das empresas às delegações de elementos politizados. Aí, os sindicatos organizavam partidas de pingue-pongue nas fábricas ocupadas para distrair os operários e impedi-los de se envolverem demais na luta e na política. O ambiente não era a efervescência política, mas muitas vezes sinistra. O contraste era enorme com os foros permanentes de algumas universidades ou outras empresas.

Isso significa que havia disparidades importantes quanto ao que a classe operária vivenciava nesses instantes.

O fato dos sindicatos terem conseguido tomar o bonde andando teve como efeito de enfraquecer o movimento espontâneo de desenvolvimento da luta.

O melhor quanto à participação ativa na luta se encontrava em algumas assembléias gerais de grevistas e nos diversos comitês que apareceram. Mas, ao contrario do que supuseram algumas interrogações nas discussões, este processo não chegou de maneira nenhuma a dar nascimento a conselhos operários, e menos ainda a uma situação de duplo poder, entre burguesia e proletariado. Longe disso.

As dificuldades próprias às condições da época

Muitos estudantes dessa época, que se consideravam revolucionários, eram fortemente influenciados por mistificações do período de contra-revolução. Assim consideravam também como revolucionários personagens como Che Guevara, Ho Chi Min ou Mao Tzé Tung, sem se dar conta de que estes últimos, que tinham sido ou ainda eram protagonistas da contra-revolução, só se diferenciam dos stalinistas clássicos do Kremlin por opções imperialistas divergentes.

Uma determinação da situação nessa época foi também a ruptura muito importante entre a nova geração e a de seus pais, que recebiam criticas por parte da primeira. Em particular, por ter trabalhado duro para sair da situação de miséria, até da fome, resultante da Segunda Guerra Mundial, esta geração era criticada por se preocupar só com o bem-estar material. Disso veio o sucesso das fantasias sobre a "sociedade de consumo" e de slogans como "nunca trabalhem", favorecidas pelo grau ainda baixo do nível da crise econômica aberta que mal tinha reaparecido.

Maio de 68 foi somente um início

Apesar de ter se despertado à consciência de muitas realidades sociais, a classe operária estava longe, em 68, de poder fazer a revolução. Nessa época se falava muito de revolução, mas as condições subjetivas estavam longe de se apresentarem para isso. A revolução era concebida como uma possibilidade próxima, sem tomar em conta a dificuldade real do processo que leva a uma situação revolucionaria. À diferença da primeira onda revolucionaria mundial de 1917-23 em reação ao horror da Primeira Guerra Mundial, e à diferença também das confrontações que acontecerão futuramente entre burguesia e proletariado em reação ao desastre da crise econômica mundial atual, a classe operária de 1968 tinha muitas ilusões sobre as possibilidades do capitalismo continuar da mesma maneira sem sofrer crises cada vez mais profundas. Em outros termos, a revolução não era concebida como uma necessidade.

Não é de um dia para o outro que se passa da contra-revolução a um período revolucionário. Era necessária uma maturação geral da situação, em particular um desenvolvimento da consciência no seio do proletariado como conseqüência do agravamento da crise econômica. A falência deste sistema devia deixar obvia não só a impossibilidade de qualquer melhoria no seu seio, mas também que apresentava um perigo crescente para humanidade. Através de todo um processo de experiências de lutas repetidas e de ilusões perdidas, o proletariado devia reforçar sua consciência da natureza dos sindicatos como órgãos de enquadramento de suas lutas pelo capital, do impasse das eleições, do papel contra-revolucionário da esquerda do capital (PS, PC) e também da extrema-esquerda (trotskistas em particular) que só difere da esquerda pelo radicalismo da linguagem. Atualmente, a nossa classe já percorreu um longo caminho neste sentido, mas que não terminou ainda.

Lutas significativas depois maio de 68 confirmaram que os acontecimentos na França tinham constituído só o primeiro passo de uma nova dinâmica de desenvolvimento da luta de classe. Por exemplo, as lutas na Itália no outono europeu de 69 assumiram mais explicitamente a confrontação aos sindicatos. A luta dos operários na Polônia de 80 constituiu a mais importante tentativa da classe operaria de se organizar por si mesma desde a onda revolucionária mundial.

Será que as limitações de 68 decorreram da ausência de um partido revolucionário?

Já implicitamente presente em muitos debates, esta questão foi colocada explicitamente na reunião de São Paulo. É obvio que não havia nenhum partido revolucionário em 68. Os pequenos grupos internacionalistas e revolucionários que existiam e atuaram nessa época no movimento eram ultra-minoritários - apesar de terem uma audiência bem mais além deles -, dispersos, heterogêneos e geralmente muito imaturos.

Na realidade, a questão não é que "faltava um partido revolucionário para que a situação fosse revolucionaria", mas que a ausência de um partido revolucionário era a expressão da insuficiência das condições subjetivas para dar nascimento a tal partido e criar as condições de uma situação pré-revolucionária. Com efeito, a dimensão histórica do partido revolucionário (que lhe permite sintetizar a experiência histórica do proletariado) se apóia sobre a continuidade política das organizações revolucionarias que se mantiveram fieis à defesa dos interesses do proletariado internacional. Mas também o partido é o produto da luta da classe operária através da qual se desenvolve até conseguir uma influência direta sobre esta. Em outros termos, sem desenvolvimento da luta de classe capaz de segregar uma vanguarda revolucionaria conseqüente, não há possibilidade da existência de um partido revolucionário. Ora, como já vimos, o período de contra-revolução em nada era propício a que se destacasse a vanguarda necessária. Os eventos de 68 que fecharam este período também não podiam ter essa capacidade imediata de fazer surgir um partido revolucionário.

Entretanto, a efervescência política de 68 constituiu o ambiente propício à cristalização de grupos políticos proletários que procuraram restabelecer a ligação com as verdadeiras posturas revolucionárias, intervir na luta de classe e trabalhar para o agrupamento dos revolucionários a nível internacional. Este ganho de 68 constitui um elo essencial do trabalho de preparação pela formação do futuro partido quando o nível de desenvolvimento da luta de classe em escala internacional o permita.

Como o proletariado vai conseguir superar o peso da ideologia burguesa?

Quanto tempo ainda o proletariado vai continuar se manifestando como classe explorada submetida aos interesses do capital, antes de expressar seu ser revolucionário? Será que mesmo ele vai conseguir se libertar de todas as barreiras ideológicas que constituem obstáculos à luta, como o individualismo, o corporativismo, etc? Isso foi uma questão explicitamente colocada na UESP que expressa certa ansiedade mais geral e compartilhada por vários elementos ao constatar que 40 anos depois de maio de 68 a revolução não tenha acontecido ainda.

Como o vimos, as condições objetivas e subjetivas se desenvolveram muito depois do maio de 68, pelo agravamento considerável da crise econômica, da barbárie (cuja manifestação mais explicita é a proliferação dos conflitos imperialistas através do mundo), do fortalecimento da consciência da falência do sistema capitalista, do desenvolvimento da luta da classe, com altos e baixos. Essa dinâmica sofreu uma regressão importante a nível da consciência do proletariado quando desmoronou o bloco de leste, cujo regime era mentirosamente caracterizado de comunista, o que permitiu a burguesia desencadear campanhas sobre "a morte do comunismo e da luta de classes". Mas desde 2003, a maturação das condições subjetivas para a revolução retomou. Atualmente como nunca tinha acontecido, há uma simultaneidade das lutas a nível internacional que afetam vários países, desenvolvidos ou da periferia do capitalismo, e no seio das quais se expressam características essenciais para o fortalecimento da luta: solidariedade ativa entre setores da classe operária, mobilizações massivas, tendências a não esperar, até ignorar, as consignas sindicais para entrar em luta, ....

Uma diferença importante com maio de 68 considera também as mobilizações estudantis. Os estudantes que trabalham para poder pagar seus estudos não têm muitas ilusões quanto a situações sociais que poderiam alcançar ao término dos estudos. Acima de tudo, sabem que seu diploma apenas lhes dará o "direito" de encontrar-se com a condição proletária sob suas formas mais dramáticas: o desemprego e a precariedade. A solidariedade que expressaram os estudantes em luta na França contra o CPE[5] em 2006 para os trabalhadores é, em primeiro lugar, conseqüência da consciência, que existe na sua maior parte, de pertencer ao mesmo mundo, aquele dos explorados em luta contra um mesmo inimigo, os exploradores. Esta solidariedade está muito longe do procedimento de origem pequeno-burguesa dos estudantes de 1968 do qual testemunham alguns slogans dessa época.

Quando se avalia o nível atual da luta de classe e sua evolução desde décadas, não se pode limitar a uma visão fotográfica, num país e num instante (fora da luta) dados. Necessita-se de uma visão internacional, dinâmica, capaz de tomar em conta o caminho subterrâneo da consciência (a "velha toupeira" da qual Marx falava) e que se expressa abertamente, só em momentos particulares, mas significativos do futuro.

Para avaliar as perspectivas, se deve também tomar em conta um fator importante: o impacto da ideologia burguesa sobre o proletariado que determina, de certa maneira, sua capacidade a se livrar - ou não - de todos os preconceitos que travam o desenvolvimento de sua visão histórica do futuro e dos meios para assumir seu ser revolucionário. Dentro de um período histórico como a da decadência do capitalismo, desde o início do qual - Primeira Guerra Mundial - é colocada a alternativa Revolução ou barbárie, as condições de uma dinâmica histórica para confrontações de classes, entretanto, não existem permanentemente. Com efeito, precisa-se de uma crise aberta do sistema (crise econômica como agora ou nos anos trinta ou guerra mundial) e a recusa do proletariado a sacrificar-se pelo capital nacional, quer dizer pelos interesses da burguesia. A conjunção destes dos fatores, crise aberta e recusa da lógica capitalista por parte do proletariado, enfraquece o impacto da ideologia da classe dominante. Com efeito, a base material da ideologia burguesa é a dominação política e econômica desta classe sobre a sociedade. Ora, quando a crise econômica vem colocar em questão a idéia de que o capitalismo é o sistema universal e eterno, e abrir os olhos dos explorados sobre a catástrofe que apresenta sua dominação sobre o mundo, tudo que pode ser dito pela burguesia para defender esta sociedade de miséria não pode obviamente ser tido como certo. Ao contrario, isso só pode suscitar a indignação, o questionamento e a procura de uma saída política.

Como o proletariado vai conseguir se livrar dos sindicatos?

Quarenta anos depois de 68, esta questão fica na ordem do dia, como o ilustrou notadamente uma pergunta feita na reunião da UESB. Como explicar isso quando justamente Maio de 68 constituiu uma concretização explicita do papel dos sindicatos, contra a luta de classes, a favor da ordem dominante? Maio de 68 surpreendeu a burguesia e a primeira resposta do aparelho político burguês veio da esquerda, dos sindicatos. Se os sindicatos não tivessem tido essa capacidade de tomar o bonde andando, aí a situação teria provavelmente sido o cenário de um nível superior de confrontação entre as classes. Esse controle que conseguiram tomar sobre o movimento permitiu à burguesia finalmente fazer com que o trabalho retomasse, sem que os operários tivessem conseguido concessões importantes (em relação à importância da mobilização), e que a classe operária sofresse uma derrota. Mas foi uma derrota rica de ensinamentos, notadamente sobre o papel anti-operário dos sindicatos, que se exprimiu à época pelo fato de milhares operários rasgaram seu cartão sindical.

O problema é que a burguesia soube tirar os ensinamentos destes eventos para que não se reproduzisse uma situação em que os sindicatos ficassem desacreditados de maneira tão significativa frente à luta de classe. De maneira mais geral o conjunto do aparelho político da burguesia soube adaptar-se, notadamente suas frações de esquerda e extrema esquerda pela adoção de uma linguagem radical, capaz de enganar os operários. Os sindicatos também operaram tal mudança em relação à luta, tentando antecipar as mobilizações espontâneas da classe operaria. Além disso, foi instaurada uma divisão do trabalho entre sindicatos moderados e sindicatos de "luta de classe" para melhor dividir as fileiras operarias (tal divisão realiza-se às vezes no seio de um mesmo sindicato através da divisão entre base e direção). Esta divisão em nada corresponde ao caráter mais ou menos "operário" de certos sindicatos, mas unicamente às necessidades da estratégia anti-operária destes órgãos.

Na realidade, a capacidade dos sindicatos sabotarem eficazmente a luta de classe depende da sua capacidade de mistificar os operários. Isso foi comprovado pelas experiências importantes da luta de classe em países nos quais os sindicatos não têm tal capacidade de mistificação e aparecem diretamente como a policia do estado, encarregados de enfrentar a luta de classe. O exemplo mais famoso foi o da Polônia em 1970, 76 e particularmente 1980 onde as lutas chegaram a um grau importante de auto-organização. Nesta última luta, a burguesia stalinista se encontrou na obrigação de autorizar a constituição de um "sindicato independente" (Solidarnosc) com a tarefa de fazer os operários retornarem ao trabalho. Mais recentemente, nos dois últimos anos, lutas de grande envergadura se desenvolveram no Egito, na indústria têxtil onde os operários tiveram de se organizar por alem do setor para fazer frente ao inimigo (sindicatos, exercito) na sua luta reivindicativa.

Alem de limitar as possibilidades de desenvolvimento das lutas, impedindo sua auto-organização e extensão, a ação permanente dos sindicatos contribui em muito para impedir a classe operária adquirir confiança na sua capacidade de empreender a luta em suas próprias mãos, como também geralmente adquirir a consciência que representa uma força imensa na sociedade. É por tudo isso que os sindicatos constituem um empecilho essencial no caminho do desenvolvimento da luta de classe.

Entretanto, não é insuperável e o desenvolvimento da crise, mais uma vez, joga a favor da luta de classe, obrigando os sindicatos a se implicar cada vez mais em manobras de sabotagem das lutas. Ora, quanto mais a classe operária estiver resoluta em assumir as necessidades da luta unida para alem dos setores e controlada pelos operários, mais os sindicatos tenderão a ser desmascarados. A base operária sobre a qual se apóia o sindicalismo dos países industrializados democráticos para mistificar o proletariado (ausente na Polônia stalinista e no Egito ainda hoje, o que permitiu os desenvolvimentos de luta que expomos) se encontra cada vez mais na situação de optar em escolher seu campo. Uma parte voltará a sair dos sindicatos, retomando um processo iniciado nos anos 70 e 80.

Conclusão

Movimentos de luta de classe de grande amplitude eram colocados na perspectiva aberta por maio de 68, mas, nessa época, não estavam ainda na ordem do dia.

As questões e preocupações colocadas na ocasião desses debates[6] que relatamos expressam, segundo nós, a maturação das condições subjetivas que prepara estes movimentos futuros. Encorajamos nossos leitores a se encarregarem de tais debates a seu redor. Quanto a nós, estaremos sempre disponíveis para participar das discussões quando convidados, sob uma ou outra forma.

(5 de maio 08)

[1] Vitória da Conquista.

[2] Organização a qual já nos referimos em alguns artigos nossos, notadamente Saudação à criação de um núcleo da CCI no Brasil, http://pt.internationalism.org/ICCOnline/2007/nucleo_da_CCI_no_Brasil.

[3] Organização existindo no estado de São Paulo a qual já nos referimos em alguns artigos nossos, notadamente Saudação à criação de um núcleo da CCI no Brasil, em que a descrevemos como "um grupo em constituição, influenciado pelas posturas da Esquerda comunista".

[4] Ler o documento a base do qual foi introduzido o debate: Maio de 68 e a perspectiva revolucionaria, http://pt.internationalism.org/ICCOnline/2007/maio_de_68_e_perspectiva_revolucionaria.htm.

[5] Ler o nosso artigo Teses sobre o movimento dos estudantes da primavera 2006 na França, http://pt.internationalism.org/icconline/2006_estudiantes_franca.

[6] Todas não foram relatadas neste artigo, notadamente quando não diretamente ligadas com o assunto original. Queremos assinalar, entretanto, a expressão de uma preocupação a propósito da China considerando notadamente as perspectivas de desenvolvimento da luta de classe neste país e uma outra a propósito da situação atual na América latina.