Junho de 2013 no Brasil: A indignação detona a mobilização espontânea de milhões

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“Um espectro ronda o mundo”, o espectro da INDIGNAÇÃO. Há mais de dois anos do despertar da chamada “Primavera Árabe” que sacudiu de maneira surpreendente os alicerces de vários países do Norte da África cujas consequências ainda são sentidas; há dois anos do movimento dos Indignados na Espanha, dos Ocuppy nos Estados Unidos… e simultaneamente com os movimentos que ainda sacodem a Turquia, em junho passado levanta-se no Brasil uma onda de manifestações que chegou a mobilizar milhões de pessoas em mais de 100 cidades, com características inéditas neste país.

Esses movimentos que tem ocorrido em países tão dessemelhantes e tão distantes em sua geografia possuem vários aspectos em comum: sua espontaneidade, uma repressão brutal do Estado, sua massividade, uma participação majoritária de jovens, são promovidos através das redes sociais, etc.; entretanto, o denominador comum que os identifica é uma grande INDIGNAÇÃO diante da deterioração das condições de vida do conjunto da população mundial, causada pela profunda crise que sacode os fundamentos do sistema capitalista, que se acelerou depois de 2007. Deterioração que se expressa numa precarização acelerada, sobretudo no nível de vida das massas trabalhadoras e; cria no seio juventude proletarizada ou em processo de proletarização uma grande incerteza frente ao futuro. Não é casual que o movimento na Espanha se identificou com o nome de “Indignados”, e dentro dessa maré de movimentos sociais foi o mais avançado tanto na sua denúncia contra o sistema capitalista quanto na sua forma de organização através de assembleias massivas [1].

Esses movimentos, como observamos, podem surgir em qualquer parte do mundo e algumas vezes por motivos aparentemente pouco significativos, são um indicativo de que as lutas sociais tendem a se colocarem em primeiro plano no cenário mundial. Por suas reivindicações, seus meios de luta, sua confrontação contra o Estado burguês e contra os partidos do status quo, sejam de direita ou esquerda, se inscrevem na perspectiva de luta do proletariado mundial pela superação do modo de produção capitalista, que se mostra incapaz de garantir o desenvolvimento da humanidade, sem contar a potencial ameaça à sua sobrevivência. Presenciamos desta maneira como os movimentos iniciais dessa “velha toupeira” que Marx se referia começam a escavar as bases da ordem capitalista, e tenta atingir a superfície.

Um movimento do proletariado

Os movimentos sociais de junho no Brasil, que saudamos e nos quais pudemos intervir na medida das nossas forças, tem um significado muito importante para o proletariado brasileiro, da América Latina e do resto do mundo, pois transcendem em grande medida o marco local deste país. Foram movimentos massivos que se diferenciam radicalmente dos “movimentos sociais” sob o controle do Estado, do PT e outros partidos políticos, e organizações sociais como o MST, por exemplo. Além disso, também se diferenciam de movimentos que surgiram em vários países da região nas últimas décadas, como o da Argentina no início do século, o indigenista na Bolívia e Equador, o movimento zapatista no México e do chavismo na Venezuela, que foram o resultado de confrontações entre frações burguesas e pequenas burguesas, entre elas grupos, movimentos sociais, organizações esquerdistas e partidos de esquerda, defensores do capital nacional, que buscavam o controle do Estado. Nesse sentido, as mobilizações de junho no Brasil representam a maior mobilização espontânea de massas nesse país e na América Latina nos últimos 30 anos. Por isso, é fundamental para os que lutam contra o capitalismo e por uma nova sociedade, façamos um balanço deste movimento a partir de uma perspectiva de classe e que se aproprie das lições desses acontecimentos.

Sem dúvida este movimento surpreendeu a burguesia brasileira e mundial, as organizações revolucionárias dentro e fora do Brasil [2], bem como os próprios grupos e organizações que inicialmente o impulsionaram. A luta contra o aumento do preço das passagens (acordo celebrado anualmente entre os empresários do transporte com o Estado) foi apenas o detonante para que brotassem expressões de indignação que vinham se acumulando há muito tempo na sociedade brasileira [3], que se manifestaram em 2012 com as lutas dos funcionários públicos, nas universidades e nas construções de grandes obras públicas do PAC; e em “inúmeras greves contra a baixa dos salários e precarização das condições de trabalho, educação e saúde” que aconteceram no Brasil nos últimos anos.

Diferentemente dos movimentos sociais massivos que ocorreram em vários países desde 2011, o do Brasil surgiu e se unificou ao redor de uma reivindicação concreta que permitiu a mobilização espontânea de amplas camadas do proletariado: contra o aumento da passagem do transporte público [4]. O movimento tomou um caráter massivo em escala nacional depois do dia 13 de junho, quando as manifestações de protesto contra o aumento, convocados pelo MPL [5] em São Paulo. Entretanto, desde antes, há varias semanas antes das grandes mobilizações em SP, realizaram-se protestos pela mesma reivindicação em várias cidades do país, promovidas pelo MPL e outros movimentos a tal ponto que, por exemplo, em Porto Alegre, Goiânia e outras cidades governos locais foram obrigados  a revogar o aumento da passagem, depois de árduas lutas violentamente reprimidas pelo Estado. Isso deixava claro o movimento social de Goiânia em 19/06/2013: 

  •  Em Goiânia, após cinco semanas de manifestação e um dia antes do grande sexto ato, que tinha a confirmação de dezenas de milhares de pessoas, a prefeitura comandada por Paulo Garcia (PT) e o governador Marconi Perillo (PSDB) se reuniram e decidiram pela revogação permanente do aumento da tarifa do transporte coletivo. Sabemos que essa revogação é fruto da pressão de mais de um mês de mobilização e do receio da possibilidade de que as coisas saiam totalmente do controle desses governos e das empresas parceiras.” [6] 

O movimento apresentou elementos que o identificam como um movimento claramente inscrito no campo do proletariado. Em primeiro lugar, é preciso destacar que a maioria dos manifestantes pertencem à classe trabalhadora, principalmente eram jovens proletários e estudantes, na sua maioria filhos de famílias proletárias e futuros proletários. A imprensa burguesa apresentou o movimento como expressão das “classes médias”, com a clara intenção de criar divisão entre os trabalhadores, já que a maioria dos catalogados como classe média, economicamente recebem salários precários, menores do que muitos operários qualificados das zonas industriais do país. Isto explica o apoio e simpatia que o movimento despertou contra o aumento do preço das passagens, pois representa um ataque direto nos rendimentos das famílias proletárias. Também explica porque essa reivindicação inicial rapidamente se ampliou para uma denúncia contra o Estado devido ao péssimo estado dos sistemas de saúde, educação e assistência social, além da denúncia contra o imenso volume de dinheiro público investido para a celebração da Copa do Mundo do próximo ano e para os Jogos Olímpicos de 2016 [7], eventos que ocasionaram o despejo forçado de comunidades próximas dos estádios, como foi o caso da Aldeia Maracanã no Rio no primeiro semestre desse ano e vários incêndios em favelas em zonas de interesses de empresas imobiliárias em São Paulo. Tal situação foi denunciada pelo Bloco de Lutas Pelo Transporte 100% Público de Porto Alegre em 20/06/13: 

  • A luta não é por centavos e tampouco somente em Porto Alegre, pois ganhamos um caráter nacional de mobilizações que extrapola a demanda do transporte público. Hoje, já são mais de dez cidades que anunciaram a redução da tarifa. Agora somos centenas de milhares de pessoas e ganhamos as ruas do Brasil lutando por nossos direitos. O tema da Copa já é recorrente nas manifestações. A mesma massa popular que questiona o modelo de transporte questiona também os milionários investimentos públicos em estádios, as remoções das famílias, o poder da Fifa e o Estado de Exceção que vai cercear os direitos da população.” [8] 

Foi bastante significativo que o movimento se organizou para realizar protestos nas proximidades dos estádios das diversas cidades onde eram realizados os jogos da Copa das Confederações, pois permitiu utilizar a cobertura midiática a nível internacional para mostrar seu rechaço ao espetáculo preparado pela burguesia brasileira; bem como mostrar a brutal repressão do Estado contra os que protestavam em volta dos estádios, e que provocou a morte de alguns manifestantes. Foi uma grande lição para o proletariado mundial o fato dos proletários brasileiros se manifestarem por essa via, levando-se em conta que o futebol é o esporte nacional e muito explorado sabiamente pela burguesia brasileira como parte do circo necessário para o controle da sociedade. A população brasileira mostrou que gosta de futebol, mas não está disposta a suportar sobre as suas costas os custos dos eventos esportivos preparados pela burguesia brasileira para exibir suas qualidades de “burguesia do primeiro mundo”. Por tal motivo, os manifestantes exigiam qualidade de serviços “padrão FIFA”. Os movimentos de junho jogaram água no chopp da festa promovida pela burguesia brasileira.

Ao lado dessas reivindicações o movimento mostrou sua indignação diante dos altos níveis de decomposição demonstrados pela burguesia brasileira, rechaçando o gasto, a corrupção, a indolência e a arrogância do Estado, orientando o protesto contra as instituições mais emblemáticas do Estado brasileiro: em Brasília, a capital, o prédio do Congresso foi tomado e houve tentativas de adentrar no Palácio do Itamaraty, emblema da política exterior do Estado; no Rio de Janeiro tentaram entrar na Assembleia Legislativa e vários habitantes das favelas, dentre as quais a da Rocinha, protestaram diante da residência do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral do PMDB; em São Paulo tentaram entrar na prefeitura e na Assembleia Legislativa e em Curitiba tentaram entrar na sede do Governo Estadual. Do mesmo jeito, houve um rechaço massivo aos partidos políticos, principalmente ao PT, bem como organizações sindicais ou estudantis: em SP foram expulsos vários de seus membros das manifestações por portarem bandeiras do PT e da CUT e outras organizações, partidos da esquerda, eleitorais ou não, como PSTU, PSOL, PC do B, PCB e sindicatos.

Aconteceram outras expressões do caráter de classe do movimento, manifestadas, contudo, de forma minoritária. No calor do movimento foram realizadas assembleias para organizar as ações, embora não com a difusão e grau de organização dos Indignados na Espanha. Temos como exemplo as que foram celebradas no Rio de Janeiro e Belo Horizonte, sendo que nesta segunda cidade adotaram a identificação de “Assembléia Popular e Horizontal” que se propuseram fazer um “novo espaço espontâneo, aberto e horizontal de debate”, onde chegaram a participar mais de 1000 pessoas.

Essas assembleias, apesar de ter mostrado a vitalidade que teve o movimento e a necessidade de organização das massas por suas reivindicações, apresentaram várias debilidades: 

  • Embora participassem na sua organização vários grupos e coletivos, foram promovidas por forças da esquerda do capital e esquerdistas que concentraram sua atividade principalmente na periferia das cidades.
  • Seu objetivo principal é ser um meio de pressão e negociação contra o Estado, por reivindicações de melhoras pontuais em tal comunidade ou cidade. Portanto, tendem a serem formas de organização permanentes.
  • Pretendem ter uma independência do Estado e dos partidos; mas são perpassadas por partidos e organizações pró-governistas ou esquerdistas que aniquilam sua espontaneidade.
  • tendem a possuir uma visão local ou nacional, lutando contra os efeitos e não contra as causas dos problemas, que é o capitalismo. 

O movimento também colocou algumas referências aos movimentos sociais em outros países, principalmente ao da Turquia, que também fazem referências ao do Brasil [9].  Embora fosse através de expressões minoritárias, foi possível ver algo em comum em ambos os movimentos.

Em Goiânia em uma Frente de Luta contra o Aumento que reuniu várias organizações de base destacava a necessidade de solidariedade e do debate entre os diferentes atores: 

  • “NÃO DEVEMOS CONTRIBUIR COM A CRIMINALIZAÇÃO E A PACIFICAÇÃO DO MOVIMENTO! DEVEMOS NOS MANTER FIRMES E UNIDOS!”
  • "Apesar das discordâncias, devemos manter a nossa solidariedade mútua, a nossa resistência, a nossa combatividade e aprofundar a nossa organização e discussão. Assim como na Turquia pacíficos e combativos conseguem coexistir e lutar juntos, devemos seguir o exemplo [10]
  • SÓ A LUTA MUDA A VIDA!
    SOLIDÁRIOS VENCEREMOS!” 

Ademais, em várias manifestações foram exibidos cartazes que proclamava a seguinte palavra de ordem: 

  • "Não é Turquia, não é a Grécia; É o Brasil, saindo da inércia”. 

A grande indignação que reside no proletariado brasileiro fica concretizada na seguinte reflexão da Rede Extremo Sul, rede de movimentos sociais da periferia de São Paulo: 

  • Para que essas possibilidades se tornem realidade, não podemos deixar que a indignação expressa nas ruas seja canalizada para objetivos nacionalistas, conservadores, moralistas, enfim, que as lutas sejam capturadas pelo Estado e pelas elites, de modo a esvaziar seu conteúdo político. A luta contra o aumento das passagens e das condições degradantes de transporte está ligada diretamente à luta contra o Estado e as grandes corporações econômicas, contra a exploração e a humilhação dos trabalhadores, e contra essa forma de vida em que o dinheiro é tudo, e as pessoas, nada.” [11] 


Publicado em http://passapalavra.info/2013/06/79539

 Por que dizemos que as causas das mobilizações no Brasil vinham sendo gestadas há algum tempo?

A burguesia brasileira, tal como aspira em maior ou menor grau cada burguesia nacional, tem trabalhado há décadas para fazer o Brasil uma potência regional e mundial. Para conseguir esse fim, não bastava dispor de um imenso território que ocupa quase a metade da América do Sul, nem contar com grandes quantidades de recursos naturais. Era necessário criar as condições para manter o controle social, principalmente dos trabalhadores. Não sob a bota militar, mas através dos mecanismos mais sofisticados da democracia. Com essa finalidade, preparou uma transição nos anos 80 de um regime de ditadura militar a um de democracia republicana, objetivo alcançado no plano político com a conformação de dois polos: um de forças de direita formada por partidos surgidos nos anos 80, como o PSDB (composto por intelectuais, burguesia e pequena burguesia) e partidos de direita ligados com forças da ditadura (PMDB, DEM, etc); outro de centro-esquerda que se consolidou ao redor do PT, com uma grande influência a nível popular, mas principalmente a nível operário e camponês. Desse modo, estabilizou-se um marco de alternância de governos de direita e centro-esquerda, baseado em eleições “livres e democráticas”, imprescindível para poder fortalecer o capital brasileiro no mercado mundial [12].

Assim a burguesia brasileira conseguiu fortalecer seu parque industrial e suportar o pior da crise económica dos anos 1990, enquanto na esfera política o PT ganhava força, e graças à sua juventude conseguiu cooptar organizações e dirigentes sindicais, membros da igreja católica adeptos da “Teologia da Libertação”, os trotskistas que viam no PT como o partido revolucionário de massas, intelectuais, artistas e elementos democratas. O PT representou a resposta de esquerda da burguesia brasileira, depois da derrubada do bloco russo em 1989 que deixou enfraquecidas as forças da esquerda do capital a nível mundial. Assim, conseguiu algo que causava inveja nas outras burguesias da região: uma força política que lhes permitia o controle das massas pauperizadas, pero sobretudo manter a “paz trabalhista” no que se refere à força de trabalho. Por fim, a situação consolidou-se com a ascensão do PT ao poder nas eleições de 2002, utilizando o carisma e o perfil “operário” de Lula [13].

Com estes precedentes, na primeira década do novo século a economia brasileira se colocou como a sétima economia do mundo segundo o Banco Mundial, de modo que atualmente faz parte da “nata” dos países emergentes do grupo dos BRICs. Além disso, a burguesia mundial elogia o “milagre brasileiro” alcançado pelos governos de Lula, que supostamente permitiu tirar da pobreza milhões de brasileiros e inserir na “classe média”  outros milhões. Entretanto, algo que nunca fizeram menção nem o PT, nem Lula, nem o conjunto da burguesia, é que esse “grande êxito” se fez sobre a base de uma reorganização do Estado para orientar parte da mais-valia para repartir migalhas às massas mais miseráveis, sustentada numa precarização progressiva das massas trabalhadoras.

A crise como pano de fundo

Quando irrompeu a crise económica de 2007, cujos efeitos depois de 6 anos continuam afetando a economia mundial, Lula, assim como outros governantes da região, disse que a economia brasileira estava “blindada”. Enquanto as principais economias do mundo se balançavam, a economia brasileira continuava galopante. Embora o Brasil não estivesse no olho do furacão da crise, não há dúvidas que em uma economia mundial tão inter-relacionada, onde nenhum país que podia escapar aos seus efeitos, não seria diferente para o Brasil que depende em grande medida das exportações de matérias primas e commodities. Para exemplificar temos a China (o grande sócio do Brasil no grupo dos BRIC’s,) cuja economia está seriamente abalada pela crise mundial.

Para suavizar os efeitos da crise, a burguesia brasileira desenvolveu uma agressiva política de ampliação do mercado interno, criando um boom na construção a nível público e privado, que se ampliou com as reformas e construções da infraestrutura esportiva para os compromissos esportivos de 2014 e 2016. Promovendo um endividamento das famílias, ao facilitar a compra, desde apartamentos e automóveis até eletrodomésticos, essa política tem ocasionado um incremento do gasto público devido aos subsídios diretos e indiretos as famílias.

A crise mundial e sua consequente retração do comércio mundial, aliada a pressão monetária afetaram  negativamente as exportações brasileiras, evidenciado no déficit da balança de pagamentos em 3,0 bilhões de dólares no primeiro trimestre deste ano, o pior semestre desde 1995. Este quadro provocou um enfraquecimento da economia nos últimos dois anos (crescimento de 0,9% em 2012; e uma queda nas estimativas de crescimento para este ano entre 2,9% a 2,4%), e um crescimento progressivo da inflação (de 5,8% em 2012, 30% maior que o estimado; de 3,15% no primeiro semestre, com projeção anual de 6,7%) que repercute bastante no poder aquisitivo dos trabalhadores devido ao aumento dos bens e serviços. Do mesmo modo, há uma tendência à diminuição dos postos de trabalho e ao incremento do desemprego, situação percebida pela população.

Nesse sentido, o movimento de protestos no Brasil não surge do nada. Há um conjunto de causas que o fizeram surgir, que não só se mantém como vão se agravar, com o aprofundamento da crise econômica. Devido aos protestos o Estado se viu obrigado a aumentar os gastos na área social, mas a realidade é que a crise econômica o obriga a tomar medidas para a redução de gastos. Por isso a própria presidente Dilma Rousseff declarou que tem de cortar o gasto público.

As armadilhas da burguesia

Como era de se esperar, a burguesia brasileira não ficou de braços cruzados para enfrentar a crise social, que embora acalmada, continua latente. A única coisa concreta que outorgou, por causa da pressão das massas, foi a revogação do aumento das passagens em várias cidades, que o Estado terá de cobrir por outros meios para subsidiar os empresários do transporte, embora seja evidente que os preços sejam absurdamente altos. Em São Paulo, as passagens de ônibus e do metrô custam R$ 3,00, algo em torno de U$ 1,53.

No início dos protestos, para acalmar os ânimos, enquanto o governo preparava sua estratégia para tentar controlar o movimento, a presidente Dilma Rousseff declarou, através de uma cadeia nacional de rádio e televisão, que considerava “legítimas e próprias da democracia” o protesto da população, enquanto seu mentor Lula, “criticava” os “excessos” da polícia. Mas a repressão do Estado não cessava e os protestos tampouco.

Uma das armadilhas mais elaboradas contra o movimento foi a criação do mito do “golpe de Estado” de direita propagado não só pelo PT e o PCdoB, como também pelos trotskistas do PSTU e PCO e ainda PSOL e PCB. Desta maneira se tentou desviar o movimento para um apoio ao governo de Dilma, fortemente debilitado pelo movimento. Mas não só isso, e sim com essa armadilha se pretendeu encorajá-lo no falso dilema “Ditadura versus democracia” ou “democracia versus fascismo” mediante o qual as frações burguesas de direita e esquerda do capital têm levado desde o século passado as lutas proletárias ao campo de defesa do capitalismo. As forças de esquerda e esquerdistas do capital brasileiro fazem seu grande aporte neste sentido ao identificar o fascismo com repressão ou com regimes de direita: a repressão feroz contra os protestos de junho no Brasil exercida pelo governo de esquerda do PT foi às vezes foi tão brutal que a dos regimes militares.

Diante da queda abismal da popularidade de Dilma, que atenta contra sua possível reeleição nas eleições presidenciais de outubro de 2014, a ala governista lançou uma cortina de fumaça com uma “reforma política”, que visa entre outros objetivos enfrentar a corrupção na esfera dos partidos políticos e fazer algumas reformas no Estado. Estão tentando, por essa via, mobilizar a população para um processo votação, mediante um plebiscito ou referendo, que aparentemente não vai arregimentar grandes parcelas da população em sua defesa.

Como uma tentativa de ganhar as ruas e as mobilizações sociais, os partidos políticos da esquerda do capital e sindicatos, com várias semanas de antecedência anunciaram a convocatória de um “Dia Nacional de Lutas” para o dia 11 de julho, supostamente com objetivo de protestar pelo cumprimento dos acordos trabalhistas e contra direitos trabalhistas retirados nos últimos 20 anos. Desta forma também se antecipavam a qualquer manifestação de apoio ao movimento por parte de setores da classe trabalhadora. Nesta simulação de mobilização, onde participaram apenas dirigentes e membros dos sindicatos, foram de mãos dadas todas as organizações sindicais tanto do governo como da oposição.

Do mesmo modo, Lula, mostrando sua grande experiência contra os trabalhadores, se reuniu em 25 de junho com “representantes” de movimentos sociais e organizações estudantis controladas pelo PT e pelo PCdoB, integrantes da base aliada do governo (União da Juventude Socialista- PCdoB), Consulta Popular e Levante Popular da Juventude, UNE - União Nacional dos Estudantes (PT e PCdoB), CUT (sindicato controlado pelo PT), e Conselho Nacional da Juventude; com o fim expresso de tomar a rua e neutralizar o movimento de protestos [14].

Fortalezas e limitações do movimento

A grande força do movimento foi que desde seu início se afirmou como um movimento contra o Estado, não só pela reivindicação central contra o aumento da passagem, mas também pela denúncia do abandono nos serviços públicos bem como o repúdio à orientação de recursos para os espetáculos esportivos. Assim também, a amplitude e contundência dos protestos que obrigaram a burguesia a voltar atrás na medida de aumento das passagens em diversas cidades.

O fato de ter uma reivindicação concreta foi uma característica a favor do movimento, embora por outro lado representou uma limitação em vários sentidos. Em primeiro lugar, a tendência natural ao seu enfraquecimento depois de conseguida a revogação do aumento das passagens; por outro lado, e é o mais importante, não se via como um movimento contra a ordem capitalista, aspecto que foi central por exemplo no movimento dos indignados na Espanha.

Outro ponto positivo foi o rechaço aos partidos políticos e sindicatos, que expressa uma desconfiança para os principais meios de controle social da burguesia. Representa uma fratura no plano ideológico para a burguesia, devido ao peso da decomposição nas suas filas e uma tendência ao esgotamento dos planos políticos que surgiram depois da ditadura. Embora por trás desse rechaço, esconda-se o perigo do apoliticismo, que se expressou na desorientação política do movimento, pois  tende a rechaçar a discussão e a compreensão da raiz dos problemas pelos quais se protesta, que são eminentemente políticos, pois requerem de uma crítica aos fundamentos do sistema capitalista de produção. Sem debate político não existe possibilidade de avanço real dos movimentos de luta.

Estreitamente relacionado com o debate político estão os meios para consegui-lo. Neste sentido, uma das debilidades do movimento foi a ausência de assembleias de rua abertas a todos os participantes onde se debatam as ações a realizar, a organização do movimento, o balanço e os objetivos.  As redes sociais são um meio para a convocação, mas nunca irão substituir o debate vivo e aberto das assembleias.

Uma das maiores debilidades do movimento foi o peso do nacionalismo, que se expressou não só na presença das bandeiras do Brasil e palavras de ordem nacionalistas nas mobilizações, bem como no frequente canto do hino nacional. Neste sentido, o movimento de junho no Brasil apresentou as mesmas debilidades das mobilizações na Grécia ou nos países árabes, onde a burguesia conseguiu diluir a grande vitalidade dos movimentos para um reforçamento ou salvação do Estado. Neste sentido, a denúncia do movimento contra a corrupção promovida por setores da burguesia e pequena burguesia, favorece ao capital a burguesia e seus partidos políticos principalmente os de oposição, que por essa via pretendem tirar algum ganho política diante das próximas eleições. O nacionalismo é um beco sem saída para as lutas do proletariado e prejudica a solidariedade internacional dos movimentos de classe.

Mesmo que o movimento apresentasse uma participação majoritária de camadas do proletariado, essa presença ocorreu de maneira atomizada. O movimento não alcançou mobilizar os trabalhadores dos setores industriais que possuem um grande peso, principalmente em SP; nem se propôs a isso. A classe operária, que sem dúvida alguma viu com simpatia o movimento e se identificou com ele, pois se lutava por uma reivindicação que a beneficiava, não conseguiu se mobilizar como tal. Esse comportamento não deve nos surpreender, já que ela esteve sujeita há décadas de imobilização devido à ação exercida no seu interior pelos partidos políticos e sindicatos, principalmente do PT e da CUT.

Esta situação nos leva a levantar a questão da identidade de classe, que não só está debilitada a nível da classe operária no Brasil, mas a nível mundial. Isso explica de alguma maneira a emergência dos movimentos sociais com as características do Brasil, Turquia, Espanha, Estados Unidos, Egito etc., onde são as novas gerações de proletários, alguns deles sem empregos, que se revelam e percebem que o capitalismo impede as possibilidades de terem uma vida decente e sentem na própria carne os sofrimentos da precarização dos seus familiares.

Nesse sentido, as mobilizações no Brasil são uma fonte de inspiração e deixam um grande ensinamento para o conjunto do proletariado brasileiro e mundial: que não há saída possível para os nossos problemas sob o capitalismo. Espera-se que o proletariado assuma sua responsabilidade histórica de lutar contra o capital, buscar novamente sua identidade de classe através da solidariedade não só do proletariado no Brasil, mas a nível mundial. Assim, sua luta convergirá com as dos jovens proletários que hoje se mobilizam contra o capital e será uma referência para eles.

 

Revolução Internacional (Corrente Comunista Internacional)
9/8/2013

 

[2] Referimo-nos às organizações que defendem o proletariado como sujeito da revolução, que estão contra qualquer expressão de apoio ao nacionalismo e que defendem o internacionalismo, que lutam pela revolução proletária como via de superação do capitalismo e pela construção do comunismo. Sob esses alicerces que se fundamenta as posições da Esquerda Comunista.

[3] Uma reunião pública realizada pela CCI e outros companheiros na Universidade Federal de Santa Catarina em abril de 2012, onde apresentamos o tema do movimento dos indignados na Espanha, despertou um grande interesse entre os participantes que fizeram muitas perguntas sobre as características desse movimento: suas causas, seus fins, forças sociais que o impulsionaram, formas de organização, etc. Naquela oportunidade uma estudante presente nos fez a seguinte pergunta: “Por favor, explique-nos porque no Brasil não tem acontecido um movimento como o dos indignados na Espanha, se aqui também estamos bastante indignados?” Pois o próprio proletariado brasileiro, principalmente seus setores mais jovens, está dando a resposta.

[5] Movimento Passe Livre, organização que tem um programa de reformas que considera que o Estado capitalista deve garantir como direito o transporte público e gratuito para toda população. http://saopaulo.mpl.org.br/

[6] Cf. artigo publicado pela Frente de Luta contra o aumento. http://passapalavra.info/2013/06/79588

[7] Segundo estimativas os dois eventos custaram ao Estado brasileiro 31,3 bilhões de dólares, cerca de 1,26% do PIB, enquanto o investimento no programa social Bolsa Família, emblemático programa implantado pelo governo Lula, só representa 0,5% do PIB.

[9] Logo publicaremos um artigo em que faremos um balanço dos movimentos de Turquia e Brasil, que aconteceram de modo simultâneo.

[10] Publicado em http://passapalavra.info/2013/06/79539

[12] Uma transição estratégica e calculada pelos militares e articuladores civis do regime, de modo a evitar qualquer contratempo na execução do projeto que consistia em primeiro lugar uma "distensão", depois uma "abertura" e por fim "eleições democráticas", onde finalmente as diversas orientações políticas pudessem formar novos partidos, na esteira desses acontecimentos surgem os diversos partidos que desde a instauração da ditadura militar estavam confinados em apenas dois: ARENA (partido de sustentação política dos militares e da direita) e MDB que se constituía em uma frente onde abrigava elementos socialdemocratas, esquerdistas, etc. Assim, para participarem das eleições diretas, a ARENA dá lugar ao nascimento do PDS e PP, formado por elementos da direita e dissidentes respectivamente; MDB agrupando a chamada burguesia nacional desenvolvimentista e organizações stalinistas (PCB e PCdoB, MR8 e outros agrupamentos menores); PT foi formado por elementos socialdemocratas de diversas orientações, trotskistas e dissidências dos PC’s juntamente com os novos sindicalistas (inspirado na socialdemocracia europeia) e  lideranças católicas que atuavam no movimento operário em sindicatos ou nas comissões de fábricas; esses últimos arregimentaram para suas bases operários, camponeses e segmentos importantes do movimento popular influenciados pelas Comunidades Eclesiais de Base da Igreja católica.  Completando essa primeira rearrumação das forças da burguesia,  os trabalhistas representados pelo PDT e PTB. Resumidamente, dessa maneira se consolidou um marco de alternância de governos de direita e centro-centro esquerda, imprescindíveis para poder fortalecer o capital brasileiro no mercado mundial.

[13] Evidentemente que para se consolidar como alternativa de poder o PT ao longo da sua trajetória teve que se despojar em grande medida do perfil socialdemocrata apresentado em seu programa para ampliar o apoio de setores da burguesia mais reticentes e paralelamente excluir das suas fileiras elementos das tendências trotskistas e outros mais aparentemente mais radicais que vieram a constituir o PSTU(Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados), PSOL(Partido Socialismo e Liberdade ) e PCO (Partido da Causa Operária). 

[14] - UJS: União da Juventude Socialista, entidade vinculada ao PCdoB. Com atuação no meio estudantil e movimentos culturais;

 

  • Consulta Popular: agrupamento que reúne majoritariamente pessoas simpatizantes do PT, que fazem uma branda crítica ao seu eleitoralismo. Atuam nos movimentos sociais extraparlamentares como no Movimento do Sem Terras, Movimento dos Trabalhadores Desempregados, Via Campesina, Movimento de Pequenos Agricultores etc;
  • Levante Popular da Juventude é um apêndice da Consulta Popular composta principalmente por jovens estudantes;
  • CNJ: Conselho Nacional da Juventude, criado em 2005 pelo Governo Federal, juntamente com a Secretaria Nacional de Juventude e Programa Nacional de Inclusão de Jovens, todos vinculados a Presidência da República do Brasil.