Darwinismo e Marxismo - Ia parte - (Anton Pannekoek)

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Introdução da CCI

O ano de 2009 foi proclamado "Ano Darwin" no mundo inteiro, tanto por parte das instituições científicas como pelas editoras e as mídias. Com efeito, corresponde ao bicentenário do nascimento de Charles Darwin (12 de fevereiro de 1809) e aos cento e cinqüenta anos da publicação da sua primeira obra fundamental, Sobre a origem das espécies através da seleção natural, publicado em 24 de novembro de 1859. Atualmente nos encontramos diante de um sem número de conferências, livros, estudos e programas de televisão tratando de Darwin e sua teoria, que se bem permitem de quando em quando fazer-se uma idéia mais precisa desta, mais freqüentemente conseguem envolvê-la em uma névoa espessa na qual se torna difícil orientar-se. Isso é devido em parte ao fato que muitos autores, conferencistas e jornalistas, que se pretendem "especialistas em Darwin", não o conheciam há um ano e que o Ano Darwin, para eles como para os seus patrões, graças a uma rápida leitura de alguns artigos de Wikipédia, não é mais que uma boa ocasião para aumentar sua notoriedade ou suas receitas. Porém é também por outra causa que tanta confusão embrulha as concepções de Darwin. É que quando foram expostas na Origem das espécies, estas concepções passaram a ser um tema de primeira ordem a nível ideológico e político notadamente porque golpeavam brutalmente os dogmas religiosos do tempo, e também porque foram imediatamente instrumentalizadas por vários ideólogos da burguesia. O que estava em jogo à época, hoje continua presente, nas várias interpretações e falsificações cuja teoria de Darwin continua sendo objeto. Com a finalidade de permitir a nossos leitores compreenderem um pouco melhor, publicamos em duas partes o folheto de Anton Pannekoek, Darwinismo e marxismo, escrito em 1909 como motivo do centenário do nascimento de Darwin e que continua pelo essencial mantendo atualidade. O marxismo sempre tem se interessado pela evolução das ciências, que fazem parte integrante do desenvolvimento das forças produtivas da sociedade e, também, porque considera que a perspectiva do comunismo não pode basear-se simplesmente em uma exigência moral de justiça, assim como foi para uma quantidade de "socialistas utópicos" do passado, mas também sobre o conhecimento científico da sociedade humana e da natureza da qual faz parte. Por isso, muito antes da publicação do folheto de Pannekoek, o mesmo Marx tinha dedicado em junho de 1873, um exemplar da sua obra principal o Capital, a Charles Darwin. Com efeito, Marx e Engels haviam reconhecido na sua teoria da evolução no âmbito do estudo dos organismos vivos, uma abordagem similar ao do materialismo histórico, como atestam esses dois extratos da sua correspondência:

  • "Darwin, a quem acabo de ler, é magnífico. Nunca houve até agora uma tentativa de demonstrar a evolução histórica na natureza de maneira tão esplendida, ao menos com tanto êxito" (Engels a Marx, 11 de dezembro de 1859)
    "Neste livro se encontra o fundamento, na história natural, de nossa concepção" (Marx a Engels, 19 de dezembro de 1860)[1]

O texto de Pannekoek, redigido com muita sensibilidade, nos proporciona um excelente resumo da teoria da evolução das espécies. Porém Pannekoek não só era um homem de ciência erudito (foi um astrônomo muito famoso). Era antes de tudo um marxista e um militante do movimento operário. Por isso no seu folheto Darwinismo e marxismo se esforça em criticar qualquer tentativa de aplicar esquemática e mecanicamente a teoria de Darwin da seleção natural à espécie humana. Pannekoek faz ressaltar claramente as analogias entre marxismo e darwinismo e dá conta da utilização, por parte dos setores mais progressistas da burguesia, da teoria da seleção natural contra os vestígios reacionários do feudalismo. Porém também critica a exploração fraudulenta pela burguesia da teoria de Darwin contra o marxismo, em particular as derivas do "darwinismo social", ideologia desenvolvida em particular pelo filósofo britânico Herbert Spencer (e retomada hoje pelos ideólogos do liberalismo para justificar a concorrência capitalista, a lei da selva, o cada um por si e a eliminação dos mais débeis).

Frente à volta das crenças obscurantistas saídas da noite dos tempos e, em particular, do "criacionismo" com seu avatar da "concepção inteligente" segundo a qual a evolução dos organismos vivos (e o aparecimento do próprio homem) corresponderia a um "plano" preestabelecido por uma "inteligência superior" de essência divina, aos marxistas lhes cabe reafirmar o caráter cientifico e materialista da teoria de Darwin e destacar o passo importante, que contribuiu para as ciências da natureza.

Obviamente, o folheto de Pannekoek deve estar situado no contexto dos conhecimentos científicos do seu tempo e algumas das suas visões, desenvolvidas na segunda parte (que publicaremos logo), hoje estão um tanto superadas por um século de investigações e descobertas cientificas (em particular, as da paleantropologia e a genética). Porém no essencial, sua contribuição (redigida em holandês e que até a data, foi traduzida só em inglês e português[2], segundo o que sabemos) é uma contribuição inestimável a história do movimento operário.

CCI (19 de abril de 2009)
  • Folheto de Anton Pannekoek

I. Darwinismo

Dificilmente dois cientistas poderiam ser mencionados, na segunda metade do século XIX, que tenham dominado a mente humana em um grau maior do que Darwin e Marx. Seus ensinamentos revolucionaram a concepção que as grandes massas tinham sobre o mundo. Por décadas seus nomes estiveram na boca de todo o mundo e seus ensinamentos se tornaram o ponto central das lutas intelectuais que acompanham as lutas sociais de hoje. O motivo disso reside primeiramente no alto conteúdo científico de seus ensinamentos.

A importância científica do Marxismo assim como do Darwinismo consiste em sua fidelidade rigorosa à teoria da evolução, pertencendo o Darwinismo ao campo de análise do mundo orgânico, das coisas animadas, vivas, da natureza; e o Marxismo ao campo da sociedade. Esta teoria da evolução, entretanto, de modo algum era nova, pois já tinha sido defendida antes de Darwin  e Marx. Hegel o filósofo, a fez mesmo o ponto central de sua filosofia. É, portanto, necessário observar mais de perto quais as realizações de Darwin e de Marx neste campo.

A teoria que diz que plantas e animais se desenvolveram uns a partir dos outros foi primeiramente conhecida no século XIX. Em tempos passados a questão "de onde vêm todas estas milhares e centenas de milhares de diferentes espécies de plantas e animais que conhecemos?" era respondida: "no momento da criação Deus as criou todas conforme sua espécie". Esta teoria primitiva estava em conformidade com as experiências realizadas e com as mais velhas informações que poderiam ser obtidas. De acordo com essas informações, todas as plantas e animais conhecidos sempre foram os mesmos. Cientificamente, essa experiência foi assim expressa: "todas as espécies são invariáveis porque os pais transmitem suas características aos seus filhos".

Havia, entretanto, algumas peculiaridades entre plantas e animais que gradualmente necessitaram a formulação de uma concepção diferente. Então elas ficaram bem dispostas dentro de um sistema que foi primeiramente fundado pelo cientista sueco Lineu. De acordo com esse sistema, os animais estão distribuídos em reinos; estes reinos em classes; as classes em ordens; as ordens em famílias, as famílias em gêneros, cada gênero contendo algumas espécies. Quanto mais aparência há em suas características, mais próximos estão entre si os seres vivos no sistema menor é o grupo ao qual eles pertencem. Todos os animais classificados como mamíferos apresentam as mesmas características gerais em sua estrutura corpórea. Os animais herbívoros, animais carnívoros, macacos, que pertencem a ordens diferentes, são novamente diferenciados. Ursos, cachorros e gatos, todos os animais predadores, têm muito mais em comum na forma corporal do que têm com cavalos ou macacos. Esta concordância é ainda mais óbvia quando examinamos variedades das mesmas espécies; o gato, o tigre e o leão parecem-se mais entre si em muitos aspectos onde eles se diferem dos cachorros e ursos. Se nós sairmos da classe dos mamíferos para outras classes, tais como os pássaros ou os peixes, encontraremos maiores diferenças entre as classes do que encontramos no seio de uma classe. Há ainda, entretanto, uma leve semelhança na formação do corpo, do esqueleto e do sistema nervoso. Estas características desaparecem quando nos afastamos desta divisão principal, a qual abarca todos os vertebrados e vamos até os moluscos (animais de corpo mole) e os pólipos.

Todo mundo animal pode assim ser organizado dentro de divisões e subdivisões. Se todas as diferentes espécies de animais tivessem sido criadas inteiramente independentes de todas as outras, não haveria razão para tais categorias (divisões e subdivisões) existirem. Não haveria nenhuma razão que impedisse a exisência de mamíferos portadores de seis patas. Teríamos de assumir, então, que no momento da criação, Deus tomou o sistema de Lineu como um plano e criou todas as coisas de acordo com esse plano. Felizmente nós temos uma outra maneira de considerar isso. A semelhança na construção do corpo pode ser devida a um real relacionamento familiar. De acordo com essa concepção, a conformidade de peculiaridades demonstra qual a proximidade ou distância do relacionamento; assim como a semelhança de irmãos e irmãs é maior do que de parentes distantes. As espécies animais não foram, portanto, criadas individualmente, mas se desenvolveram umas a partir das outras. Elas formam um tronco que se iniciou de uma base simples e que se desenvolveu continuamente; os últimos e mais finos galhos são constituídas das espécies existentes atualmente. Todas as espécies de gatos descendem de um gato primitivo, o qual tal como o cachorro e o urso primitivos, é um descendente de algum tipo primitivo de animal carnívoro. O animal predador primitivo, o animal primitivo que tem cascos, e o macaco primitivo descenderam de um mamífero primitivo etc.

Esta teoria da descendência foi defendida por Lamarck e por Geoffroy St. Hilaire. Não foi, entretanto, recebida com aprovação geral. Estes naturalistas não puderam provar a correção desta teoria e, portanto, ela permaneceu somente como uma hipótese, uma mera suposição. Quando Darwin  apareceu, entretanto, com seu principal livro, A Origem das Espécies, caiu como um raio; sua teoria foi imediatamente aceita como uma verdade fortemente provada. A teoria da evolução, desde então, tornou-se inseparável do nome de Darwin . Por quê?

Isto ocorreu particularmente devido ao fato de que através da experiência uma quantidade maior de material foi acumulada e deu suporte a esta teoria. Animais foram encontrados que não podiam ser facilmente encaixados na classificação, tais como os mamíferos ovíparos, peixes que têm pulmões e animais vertebrados sem vértebras. A teoria da ascendência reivindicava que estes são simplesmente os remanescentes da transição entre os principais grupos. Escavações revelaram restos fósseis que pareciam ser diferentes dos animais existentes atualmente. Estes restos mostraram-se, em parte, como sendo as formas primitivas dos nossos animais e que os animais primitivos desenvolveram-se gradualmente até os atuais. Então a teoria das células foi formada: cada planta, cada animal, consiste de milhões de células e tem se desenvolvido pela incessante divisão e diferenciação de células individuais. Tendo chegado a este ponto, o pensamento de que os organismos superiores são descendentes dos seres primitivos que possuem uma só célula, não poderia parecer estranho.

Todas estas novas experiências não puderam, entretanto, elevar a teoria à condição de verdade solidamente provada. A melhor prova da correção desta teoria seria a transformação real de uma espécie animal para outra ter acontecido ante nossos olhos, de modo que pudéssemos observá-la. Mas isso é impossível. Como então é possível provar de algum modo que formas animais estão realmente mudando para novas formas? Isto pode ser feito mostrando a causa, a força propulsora de tal desenvolvimento. Isto Darwin fez. Darwin descobriu o mecanismo do desenvolvimento animal e ao fazê-lo mostrou que sob certas condições algumas espécies animais necessariamente se desenvolverão e se transformarão em outras. Iremos agora esclarecer este mecanismo.

Seu principal fundamento é a natureza da transmissão, o fato de que os pais transmitem suas peculiaridades aos filhos, mas que ao mesmo tempo os filhos diferem de seus pais em alguns aspectos e também diferem entre si. É por essa razão que os animais da mesma espécie não são todos parecidos, mas diferem em todas as direções do tipo médio. Sem a assim chamada variação seria totalmente impossível para uma espécie animal se desenvolver em outra. Tudo o que é necessário para a formação de novas espécies é que as diferenças a partir do tipo central se tornem cada vez maiores, e que prossigam na mesma direção até que estas se tornem tão grandes que o novo animal não mais se pareça com aquele do qual ele descendeu. Mas onde está aquela força que poderia empurrar para frente uma sempre crescente variação na mesma direção?

Lamarck declarou que isto era devido ao uso e muito exercício de certos órgãos; que, devido ao exercício contínuo de certos órgãos, estes se tornam cada vez mais perfeitos. Assim como os músculos das pernas dos homens ficam mais fortes quando se corre muito, do mesmo modo o leão adquiriu suas poderosas patas e a lebre suas pernas velozes. Da mesma maneira as girafas conseguiram ter seus pescoços compridos porque para alcançar as folhas das árvores, as quais elas comiam, seus pescoços esticavam tanto que um animal de pescoço curto se desenvolveu e se transformou na girafa de pescoço longo. Para muitos esta explicação era inacreditável e não dava conta do fato de que o sapo devesse ter uma cor verde a qual serve a ele como uma boa proteção.

Para resolver a mesma questão, Darwin voltou-se para uma outra linha de experiência. O criador de animais e o horticultor são capazes de fazer crescer artificialmente novas raças e variedades. Quando um horticultor quer cultivar certa variedade de planta com flores grandes, tudo o que ele tem de fazer é matar antes da maturidade todas aquelas plantas que têm flores pequenas e preservar aquelas que têm flores grandes. Se repetir isto por alguns anos sucessivamente, as flores serão sempre maiores, porque cada nova geração se assemelha à sua predecessora e nosso jardineiro, tendo sempre escolhido as maiores entre as grandes para o propósito de propagação, obtém sucesso em criar uma planta com flores muito grandes. Através desta ação, feita às vezes deliberadamente, às vezes acidentalmente, as pessoas criaram um grande número de raças de nossos animais domesticados, os quais diferem de sua forma original muito mais do que as espécies selvagens diferem entre si.

Se questionássemos um criador de animais sobre a transformação de um animal de pescoço curto em um animal de pescoço longo, não pareceria a ele uma impossibilidade. Tudo o que ele teria de fazer seria escolher aqueles que tivessem pescoços relativamente mais compridos, cruzá-los, matar os jovens que tivessem pescoços curtos e novamente cruzar os animais com pescoços longos. Se repetisse essa operação a cada nova geração o resultado seria que o pescoço tornar-se-ia cada vez mais longo e teríamos conseguido um animal parecido com a girafa.

Este resultado foi encontrado porque há uma vontade definida com um objetivo definido, o qual, para criar certa variedade, escolhe certos animais. Na natureza não há tal vontade e todos os desvios devem novamente ser ajustados através do cruzamento, de modo que é impossível para um animal continuar partindo do tipo original e ir sempre na mesma direção até tornar-se uma espécie complemente diferente. Onde então está o poder da natureza que escolhe os animais do mesmo jeito que faz um criador?

Darwin refletiu sobre este problema muito tempo antes que encontrasse sua solução na "luta pela existência". Nesta teoria temos o reflexo do sistema produtivo do tempo em que Darwin  viveu; por isso, foi à luta competitiva capitalista que serviu a ele como retrato da luta pela existência predominando na natureza. Não foi através de sua própria observação que esta solução se apresentou a ele. Veio a ele pela leitura dos trabalhos do economista Malthus. Malthus tentou explicar que em nosso mundo burguês há muita fome, miséria e privação porque a população cresce muito mais rápido do que os meios de subsistência. Não há alimento suficiente para todos; as pessoas precisam, portanto, lutar com cada um pela sua existência e muitos cairão nesta luta. De acordo com esta teoria a competição capitalista, bem como a miséria existente, foi declarada como uma inevitável lei natural. Em sua autobiografia Darwin declara que foi o livro de Malthus que o fez pensar sobre a luta pela existência:

  • "Em outubro de 1838, isto é, quinze meses depois que eu iniciei minha pesquisa sistemática, comecei a ler, por entretenimento, Malthus, no que concerne à população e estando bem preparado para apreciar a luta pela existência, que ocorre em todas as partes, por uma longa observação contínua dos hábitos dos animais e plantas, iluminou-me o fato de que sob estas circunstâncias variações favoráveis tenderiam a ser preservadas e variações desfavoráveis tenderiam a ser destruídas. O resultado disto seria a formação de novas espécies. Aqui, então, eu encontrei finalmente uma teoria pela qual trabalhar."

É um fato que o aumento do nascimento dos animais é maior do que a comida existente permite sustentar. Não há exceção à regra de que todos os seres orgânicos tendem a aumentar numericamente tão rapidamente que nossa Terra seria coberta muito brevemente pela descendência de um simples casal, se uma parte desta não fosse destruída. É por essa razão que a luta pela existência deve se impor. Cada animal tenta viver, faz o possível para comer e evita ser comido pelos outros. Com suas peculiaridades e armas específicas ele luta contra o mundo inteiro que lhe é antagônico, contra animais, frio, calor, aridez, inundações e outras ocorrências naturais que podem ameaçar destruí-lo. Acima de tudo, ele luta contra animais de sua própria espécie que vivem do mesmo modo que ele, têm as mesmas particularidades, usam as mesmas armas e vivem do mesmo alimento. Esta luta não é uma luta direta; a lebre não luta diretamente com a lebre, nem o leão com o outro leão - a não ser a luta pela fêmea - mas esta é uma luta pela existência, uma corrida, uma luta competitiva. Todos eles não podem alcançar uma idade adulta; a maior parte deles é destruída e somente aqueles que vencem a corrida permanecem. Mas quais são aqueles que vencem a corrida? Aqueles que, através de suas particularidades, através de suas estruturas corporais, são mais capazes de encontrar alimento ou de escapar de um inimigo; em outras palavras, aqueles que são mais adaptados às condições existentes sobreviverão. "Porque existem sempre mais indivíduos que nascem do que podem permanecer vivos, a luta pela sobrevivência deve começar novamente e aquela criatura que tem alguma vantagem sobre os demais, sobreviverá, mas como suas diferentes particularidades são transmitidas para as novas gerações, a natureza por si mesma faz a escolha e uma nova geração aparecerá contendo peculiaridades modificadas."

Aqui temos uma outra explicação para a origem da girafa. Quando a grama não mais cresce em alguns lugares, os animais devem se alimentar de folhas de árvores e todos aqueles cujos pescoços são muito curtos para alcançar as folhas vão perecer. Na própria natureza há seleção e ela seleciona somente aqueles que têm pescoços longos. Em referência à seleção feita pelo criador de animais, Darwin chamou este processo de "seleção natural".

Este processo deve necessariamente produzir novas espécies. Pelo fato de demais originários de certa espécie nascerem, mais do que a quantidade existente de alimentos pode suprir, eles estão sempre tentando se espalhar por uma grande área. Para conseguir sua comida, aqueles que vivem nas florestas vão para as planícies, os que vivem na terra vão para a água e aqueles que vivem no chão sobem nas árvores. Sob estas novas condições, uma aptidão ou uma mudança é muitas vezes apropriada enquanto não era antes, e se desenvolve. Os órgãos mudam com o modo de vida. Adaptam se às novas condições de vida e a partir das velhas espécies uma nova se desenvolve. Este contínuo movimento das espécies existentes se ramificando em novos galhos resulta nestes milhares de animais diferentes diferenciando-se cada vez mais.

Enquanto a teoria darwinista assim explica assim a descendência geral dos animais, sua transmutação e formação a partir dos seres primitivos, ela explica, ao mesmo tempo a admirável adaptação em toda a natureza. Anteriormente esta admirável adaptação poderia somente ser explicada através da sábia e cuidadosa supervisão de Deus. Agora, entretanto, esta descendência natural é claramente entendida. Pois esta adaptação é nada mais do que adaptação aos meios de vida. Cada animal e planta estão exatamente adaptados a circunstâncias existentes e aqueles cuja construção está em menor conformidade com estas circustâncias serão exterminados na luta pela existência. O sapo verde, tendo descendido do sapo marrom, deve preservar sua cor protetora, porque todos aqueles que desviarem desta cor serão mais rapidamente descobertos por seus inimigos e destruídos ou encontrarão maiores dificuldades de obter seu alimento e deverão perecer.

Foi assim que Darwin nos mostrou, pela primeira vez, que novas espécies continuamente formam-se originadas de velhas espécies. A teoria da ascendência, que até então era meramente uma inferência de muitos fenômenos que não podiam ser bem explicados de outra maneira, ganhou a certeza de uma funcionamento necessário de forças definidas e que poderia ser comprovado. É nisto que reside a principal razão pela qual esta teoria dominou tão rapidamente nas discussões científicas e chamou a atenção pública.

II. Marxismo

Se nos voltarmos para o marxismo imediatamente veremos uma grande conformidade com o darwinismo. Como com Darwin , a importância científica da obra de Marx consiste em que ele descobriu a força propulsora, a causa do desenvolvimento social. Não teve que provar que tal desenvolvimento ocorria; todos sabiam que desde os tempos mais primitivos, novas ordens sociais sempre suplantaram as velhas formas, mas as causas e objetivos deste desenvolvimento eram desconhecidos.

Nesta teoria Marx procedeu com as informações que tinha à mão em sua época. A grande revolução política que deu à Europa o aspecto que ela tomou, a revolução francesa, era conhecida por todos por ter sido uma luta pela supremacia, conduzida pela burguesia contra a nobreza e a realeza. Depois dessa luta, novas lutas de classes surgiram. A luta levada adiante na Inglaterra pelos capitalistas manufatureiros contra a dominação política dos latifundiários dominava a política; ao mesmo tempo a classe operária revoltou-se contra a burguesia. O que foram todas essas classes? De que maneira elas se diferenciavam umas das outras? Marx provou que estas distinções eram devidas a várias funções que cada uma cumpria no processo produtivo. É no processo produtivo que as classes têm sua origem e é este processo que determina a que classe cada um pertence. Produção é nada mais do que o processo de trabalho social pelo qual os homens obtêm seus meios de subsistência da natureza. É a produção das necessidades materiais da vida que forma a estrutura principal da sociedade e que determina as relações políticas, as lutas sociais e as formas da vida intelectual.

Os métodos de produção mudaram continuamente com a passagem do tempo. De onde vêm essas mudanças? O modo de trabalho e as relações de produção dependem das ferramentas com as quais as pessoas trabalham; do desenvolvimento da técnica e dos meios de produção em geral. Pelo fato de as pessoas na Idade Média trabalharem com ferramentas rudes enquanto agora elas trabalham com maquinarias gigantes, tivemos naquele tempo um pequeno comércio e o feudalismo, enquanto agora temos o capitalismo. É também por essa razão que naquela época a nobreza feudal e a pequena-burguesia formavam as classes mais importantes enquanto atualmente é a burguesia e o proletariado que são as classes fundamentais.

É o desenvolvimento das ferramentas, destes auxiliares técnicos, que o homem conduz, que é a principal causa, a força propulsora de todo desenvolvimento social. Está subentendido que as pessoas estão sempre tentando aperfeiçoar estas ferramentas para que seu trabalho seja mais fácil e mais produtivo, e a prática que elas adquirem no seu uso leva seus pensamentos a outros e maiores aperfeiçoamentos. Devido a este desenvolvimento, um progresso técnico lento ou rápido ocorre, o que ao mesmo tempo muda as formas sociais do trabalho. Isto leva a novas relações de classe, novas instituições sociais e novas classes. Ao mesmo tempo lutas sociais, isto é, políticas, surgem. Aquelas classes predominantes sob o velho processo de produção tentam preservar artificialmente suas instituições, enquanto que as classes ascendentes tentam promover o novo processo de produção; e pelas lutas contra a classe dominante e pela conquista do poder, pavimentam o caminho para um ainda mais desembaraçado desenvolvimento da técnica.

Assim a teoria marxista descobriu a força propulsora e o mecanismo do desenvolvimento social. Desta forma, a teoria provou que a história não é algo errático e que os vários sistemas sociais não são o resultado do acaso ou de eventos acidentais, mas que existe um desenvolvimento regular em uma direção definida. Foi também provado que o desenvolvimento social não cessa com o nosso sistema, porque a técnica continua a se desenvolver.

Assim, ambos os ensinamentos, o de Darwin e o de Marx, um no campo do mundo orgânico e o outro na esfera da sociedade humana, elevaram a teoria da evolução para uma ciência positiva.

Agindo dessa maneira, eles tornaram a teoria da evolução aceitável para as massas como uma concepção básica do desenvolvimento biológico e social.

III. Marxismo e luta de classes

Enquanto é verdade que para certa teoria ter uma influência duradoura na mente humana, é necessário ter um alto valor científico, isso, por si só não é suficiente. É certo que na maioria das vezes aconteceu que uma teoria científica de maior importância para a ciência não produziu qualquer interesse, todavia, com a provável exceção de uns poucos homens letrados. Como por exemplo, foi a Lei da Gravidade, de Newton. Esta teoria é a fundação da astronomia e é devido a ela que temos o conhecimento dos corpos celestes e podemos prever a chegada de certos planetas e eclipses. Mesmo assim, quando a Lei da Gravidade de Newton apareceu, somente uns poucos cientistas ingleses foram seus adeptos. As amplas massas não prestaram atenção a esta teoria. Ela se tornou conhecida da massa só através de um livro popular escrito por Voltaire meio século mais tarde.

Não há nada de surpreendente nisto. A ciência tornou-se uma especialidade para certo grupo de homens letrados e seu progresso diz respeito somente a eles, como a fundição é a especialidade do ferreiro e um desenvolvimento na fundição de ferro diz respeito a ele também. Somente um conhecimento que a massa do povo pode fazer uso e que é visto por todos como uma necessidade vital, pode ganhar adeptos entre as grandes massas. Quando, então, vemos que certa teoria científica causa entusiasmo e paixão nas amplas massas, isto pode ser atribuído ao fato de que esta teoria serve a elas como uma arma na luta de classes. Pois é a luta de classes que envolve quase todo o povo.

Isto pode ser visto mais claramente no marxismo. Se os ensinamentos econômicos do marxismo não tivessem importância na moderna luta de classes, apenas poucos economistas profissionais gastariam tempo os estudando. No entanto, devido ao fato de que o marxismo serve como arma aos proletários na luta contra o capitalismo, é que as lutas científicas estão centradas nesta teoria. É devido ao serviço que esta teoria presta que o nome de Marx é honrado por milhões de pessoas que conhecem muito pouco de seus ensinamentos e, por outro lado, é desprezado por milhares que não entendem nada de sua teoria. É pelo grande papel que cumpre a teoria marxista na luta de classes que é diligentemente estudada pelas amplas massas e domina a mente humana.

A luta de classe proletária existia antes de Marx, pois é o resultado da exploração capitalista. Nada mais natural que os trabalhadores, sendo explorados, pensassem sobre a necessidade de outro sistema social onde a exploração fosse abolida e o reivindicassem. Mas tudo o que podiam fazer era ter esperança e sonhar com isso. Eles não estavam certos de como isso se passaria. Marx deu ao movimento operário e ao socialismo uma fundamentação teórica. Sua teoria social mostrou que os sistemas sociais estavam num fluxo contínuo onde o capitalismo era apenas uma forma temporária. Seus estudos sobre o capitalismo mostraram que devido ao desenvolvimento contínuo do aperfeiçoamento da técnica, o capitalismo deve necessariamente se desenvolver até chegar ao socialismo. Este novo modo de produção pode ser estabelecido somente pelos proletários em luta contra os capitalistas, os quais têm o interesse em manter o velho sistema de produção. O socialismo é, portanto, o fruto e o objetivo da luta de classe proletária.

Graças a Marx, a luta do proletariado adquiriu uma forma inteiramente diferente. O marxismo se tornou uma arma nas mãos do proletariado; no lugar de vagas esperanças ele deu um objetivo positivo e ao ensinar um claro reconhecimento do desenvolvimento social, Marx deu força ao proletariado e ao mesmo tempo criou os fundamentos para as táticas corretas a perseguir. É através do marxismo que os trabalhadores podem provar a transitoriedade do capitalismo e a necessidade e certeza da sua vitória. Ao mesmo tempo o marxismo destruiu as visões utópicas de que o socialismo seria conquistado pela inteligência e boa vontade de alguns homens sensatos; como se o socialismo fosse uma exigência por justiça e moral; como se o objetivo fosse estabelecer uma sociedade infalível e perfeita. Justiça e moralidade mudam de acordo com o sistema produtivo; e cada classe tem diferentes concepções delas. O socialismo só pode ser conquistado pela classe cujo interesse reside no socialismo e não é uma questão de um sistema social perfeito, mas de uma mudança nos métodos de produção, que leve a um degrau mais elevado, isto é, à produção social.

Pelo fato da teoria marxista do desenvolvimento social ser indispensável ao proletariado em sua luta, os proletários tentam fazer dela parte do seu ser interior, ela domina seus pensamentos, sentimentos, toda sua concepção do mundo. Porque o marxismo é a teoria do desenvolvimento social, no centro do qual estamos, ele se coloca como o ponto central dos grandes embates intelectuais que acompanham nossa revolução econômica.

IV. Darwinismo e luta de classes

Que o marxismo deve sua importância e posição somente pelo papel que cumpre na luta do proletariado, todos sabem. Com o darwinismo, entretanto, as coisas parecem diferentes para o observador superficial, pelo fato de o darwinismo lidar com uma nova verdade científica, que deve enfrentar os preconceitos religiosos e a ignorância. Todavia não é difícil ver que, na realidade, o darwinismo se submeteu às mesmas experiências, teve de sofrer as mesmas vicissitudes que o marxismo. O darwinismo não é uma mera teoria abstrata que foi adotada pelo mundo científico depois de discutida e testada de uma maneira puramente objetiva. Não, imediatamente depois de seu aparecimento, houve entusiastas defensores e apaixonados oponentes; o nome de Darwin , também, foi altamente honrado pelas pessoas que entenderam alguma coisa de sua teoria, ou desprezado por aqueles que não conheciam nada mais de sua teoria do que "o homem descendeu do macaco" e que eram certamente desqualificados para julgar de um ponto de vista científico a correção ou falsidade da teoria de Darwin. O darwinismo, também, teve um papel na luta de classes e é devido a esse papel que a teoria se espalhou tão rapidamente e teve entusiastas defensores e venenosos oponentes.

O darwinismo serviu como uma ferramenta para a burguesia em sua luta contra a classe feudal, contra a nobreza, os direitos do clero e dos senhores feudais. Esta luta foi inteiramente diferente da luta que agora os proletários travam. A burguesia não era uma classe explorada se esforçando para abolir a exploração. Não! O que a burguesia queria era livrar-se do poder da velha classe dominante que estava em seu caminho. A burguesia queria ela própria governar, baseando suas exigências no fato de que ela era a classe mais importante que liderava a indústria. Que argumento poderia a velha classe, a classe que havia se tornado nada mais do que inútil parasita, apresentar contra a burguesia? Ela se apoiava na tradição, nos seus antigos "direitos divinos". Estes foram seus pilares. Com a ajuda da religião os padres mantiveram a grande massa na sujeição e pronta para se opor às exigências da burguesia.

Foi, portanto, por seu próprio interesse que a burguesia trabalhou para minar o direito "divino" dos governantes. A ciência natural tornou-se uma arma na oposição à crença e à tradição; a ciência e as recentes descobertas de leis naturais foram promovidas. Foi com estas armas que a burguesia lutou. Se as novas descobertas pudessem provar que o que os padres estavam ensinando era falso, a autoridade "divina" destes padres se reduziria a pó e os "direitos divinos" gozados pela classe feudal seriam destruídos. É claro que a classe feudal não foi derrotada por isso somente; como um poder material só pôde ser derrubado por um poder também material, mas as armas intelectuais se tornaram ferramentas materiais. Foi por essa razão que a burguesia ascendente deu tanta importância na ciência natural.

O darwinismo veio no tempo desejado. A teoria de Darwin de que o homem descendeu de um animal mais primitivo destruiu todo o fundamento do dogma cristão. É por essa razão que tão logo o darwinismo apareceu, a burguesia o agarrou com grande entusiasmo.

Não foi o caso da Inglaterra. Aqui vemos novamente como foi importante a luta de classes para a expansão da teoria de Darwin . Na Inglaterra a burguesia já dominava havia alguns séculos e, no seu conjunto, eles não tinha interesse em atacar ou destruir a religião. É por essa razão que embora esta teoria tenha sido amplamente lida na Inglaterra, mesmo assim não causou alvoroço em ninguém; ela simplesmente foi considerada como uma teoria científica sem grande importância prática. Darwin considerou-a como tal e por medo que sua teoria pudesse chocar os preconceitos religiosos vigentes, ele propositalmente evitou aplicá-la imediatamente ao homem. Foi somente depois de numerosos adiamentos e depois de outros fazerem antes dele, que decidiu dar esse passo. Em uma carta a Haeckel ele deplorou o fato de que sua teoria deveria bater de frente com muitos preconceitos e tanta indiferença e que não tinha a perspectiva de viver o suficiente para vê-la transpor estes obstáculos.

Mas na Alemanha as coisas eram inteiramente diferentes e Haeckel corretamente respondeu a Darwin que sua teoria teve uma recepção entusiasmada na Alemanha. Isso aconteceu porque no momento em que apareceu naquele país a teoria de Darwin , a burguesia estava se preparando para levar adiante um novo ataque ao absolutismo e ao junkerismo. A burguesia liberal era encabeçada pelos intelectuais. Ernest Haeckel, um grande cientista e de ainda maior ousadia, imediatamente esboçou em seu livro, "Criação Natural", conclusões mais ousadas contra a religião. Então, enquanto o darwinismo conhecia a recepção mais entusiasmada por parte da burguesia progressista, era amargamente rejeitado pelos reacionários.

A mesma luta também aconteceu em outros países europeus. Em todo lugar a burguesia liberal progressista tinha que lutar contra os poderes reacionários. Esses reacionários possuíam ou tentavam obter, através dos seguidores religiosos o poder cobiçado. Sob estas circunstâncias mesmo as discussões científicas eram imbuídas de entusiasmo e paixão da luta de classes. Os escritos que apareciam a favor ou contra Darwin tinham, portanto, a marca de polêmicas sociais, a despeito do fato de que eles levavam os nomes de autores científicos. A litania dos escritos populares de Haeckel, quando olhada de um ponto de vista científico, é muito superficial, enquanto os argumentos e demonstrações de seus oponentes mostram tolices inacreditáveis que só podem ser encontradas nos argumentos usados contra Marx.

A luta travada pela burguesia liberal contra o feudalismo não tinha como objetivo ser levada até o fim. Foi particularmente devido ao fato de que em todo lugar os proletários socialistas faziam sua aparição, ameaçando todos os poderes dominantes, incluindo o da burguesia. A burguesia liberal se afrouxou, enquanto as tendências reacionárias ganharam força. O entusiasmo anterior em combater a religião apagou se inteiramente e enquanto é verdade que os liberais e os reacionários se mantiveram lutando entre si, na realidade, entretanto, eles se aproximaram. O interesse anteriormente manifestado na ciência como uma arma revolucionaria na luta de classes, desapareceu totalmente, enquanto que a tendência reacionária cristã que desejava que o povo conservasse sua religião tornou-se cada vez mais poderosa e brutal.

A estima pela ciência também sofreu uma mudança a par com a necessidade dela. Antes, a burguesia instruída tinha fundado na ciência uma concepção materialista do universo, de onde ela via a solução para o enigma deste. Agora o misticismo dominava cada vez mais; tudo o que foi explicado pela ciência apareceu como trivial, enquanto todas as coisas que permanecem sem explicação, apareciam como sendo muito grandes, abarcando as mais importantes questões vitais. Um estado de espírito feito de ceticismo, crítica e dúvida tomou cada vez mais o lugar do júbilo espírito anterior em favor da ciência.

Isto poderia também ser visto na posição tomada contra Darwin . "O que demonstra esta teoria? Ela deixa sem resolução o enigma do universo! De onde vem esta maravilhosa natureza da transmissão; De onde vem a habilidade dos seres animados de se modificar tão adequadamente?" Aqui reside o misterioso enigma da vida, que não podia ser superado com princípios mecânicos. Então, o que restou do darwinismo à luz desta última crítica?

É claro, o avanço da ciência começou a permitir progressos rápidos. A solução de um problema sempre traz novos problemas à superfície para serem resolvidos, os quais estavam escondidos sob a teoria da transmissão. Essa teoria, que Darwin teve que aceitar como uma base de investigação, continuava sendo estudada; uma calorosa discussão se colocou sobre os fatores individuais do desenvolvimento e a luta pela existência. Enquanto alguns cientistas dirigiram sua atenção à variação, a qual eles consideravam devida ao exercício e adaptação à vida (de acordo com o princípio posto por Lamarck), esta idéia foi expressamente negada por cientistas como Weissman e outros. Enquanto Darwin somente supôs graduais e lentas mudanças, De Vries encontrou repentinos e abruptos casos de variação resultantes de súbitos aparecimentos de novas espécies. Tudo isto, enquanto fortalecia e desenvolvia a teoria da descendência, em alguns casos dava a impressão de que as novas descobertas despedaçavam a teoria darwinista e, portanto, cada nova descoberta que causasse esta impressão era saudada pelos reacionários como uma falência do darwinismo. Esta concepção social teve sua influência na ciência. Cientistas reacionários clamaram que um elemento espiritual é necessário. O sobrenatural e o insolúvel, que o darwinismo tinha varrido, foram re-introduzidos pela porta traseira. Era a expressão de uma tendência cada vez mais reacionária no seio daquela classe que, no início, tinha sido a porta-bandeira do darwinismo.

V. Darwinismo versus socialismo

O darwinismo prestou um serviço inestimável à burguesia na sua luta contra os velhos poderes. Foi, portanto, apenas natural que os burgueses devessem aplicá-lo contra seu futuro inimigo, o proletariado; não porque os proletários tivessem uma disposição contrária ao darwinismo, mas exatamente o oposto. Tão logo o darwinismo apareceu, a vanguarda do proletariado, os socialistas, saudaram a teoria darwinista, porque viam no darwinismo uma confirmação e um acabamento de sua própria teoria; não como alguns oponentes superficiais acreditavam, que ela queria basear o socialismo no darwinismo, mas no sentido em que a descoberta darwinista - de que mesmo no aparentemente estagnante mundo orgânico há um contínuo desenvolvimento - é uma gloriosa confirmação que completa a teoria marxista do desenvolvimento social.

Mesmo assim era natural para a burguesia fazer uso do darwinismo contra o proletariado. A burguesia teve que encarar dois exércitos e as classes reacionárias sabiam disso muito bem. Quando a burguesia ataca sua autoridade eles apontam o proletariado e previnem-na do desmoronamento da autoridade. Agindo assim, os reacionários tentam assustar os burgueses de tal modo que eles desistam de qualquer atividade revolucionária. É claro, os representantes burgueses respondem que não há nada a temer; que sua ciência apenas refuta a infundada autoridade da nobreza e sustenta os reacionários em sua luta contra os inimigos da ordem.

No congresso dos naturalistas, o cientista e político reacionário Virchow atacou a teoria darwinista sobre a base que esta dava suporte ao socialismo. "Cuidado com esta teoria", disse aos darwinistas, "pois esta teoria está intimamente relacionada com aquela que causou muito pavor no país vizinho". Esta alusão à Comuna de Paris, feita no famoso ano da caça aos socialistas, deve ter tido um grande efeito. O que deveria ser dito, entretanto, sobre a ciência de um professor que ataca o darwinismo com o argumento de que não é correto porque é perigoso! Esta censura, a de estar coligada com os revolucionários vermelhos, causou um grande aborrecimento em Haeckel, seu defensor. Ele não podia suportá-la. Imediatamente depois tentou demonstrar que é precisamente a teoria darwinista que mostra a insustentabilidade das reivindicações socialistas e que darwinismo e marxismo "relacionam-se um ao outro como água e fogo".

Vejamos a alegação de Haeckel, cujos principais pensamentos reaparecem na maior parte dos autores que baseiam seus argumentos contra o socialismo no darwinismo.

O socialismo é a teoria que pressupõe a igualdade natural entre as pessoas e se esforça promover a igualdade social; direitos e deveres iguais, iguais posses e gozo. O darwinismo, ao contrário, é a prova científica da desigualdade. A teoria da descendência estabeleceu o fato de que o desenvolvimento animal caminha sempre na direção de uma maior diferenciação ou divisão do trabalho; quanto mais superior o animal e se aproxima da perfeição, maior a desigualdade existente. O mesmo vale para a sociedade. Aqui também vemos a grande divisão do trabalho entre ofícios, classes etc. e quanto mais alto estivermos no desenvolvimento social, maiores as desigualdades de força, habilidade e capacidade. A teoria da descendência é, portanto, recomendável como "o melhor antídoto às aspirações do socialismo de igualitarismo total".

O mesmo vale, mas numa extensão maior, para a teoria darwinista da sobrevivência. O socialismo quer abolir a competição e a luta pela existência, mas o darwinismo nos ensina que esta luta é inevitável e é uma lei natural para todo o mundo orgânico. Não apenas esta luta é natural, como é útil e benéfica. Esta luta pela sobrevivência traz uma perfeição cada vez maior e essa perfeição consiste numa maior eliminação dos inaptos. Somente a minoria escolhida, aquela que é qualificada para suportar a competição, pode sobreviver; a grande maioria deve perecer. Muitos são chamados, mas poucos escolhidos. A luta pela existência resulta ao mesmo tempo na vitória do melhor, enquanto os piores e inaptos devem perecer. Isto pode ser lamentável, como é lamentável que todos devam morrer, mas o fato não pode ser negado nem mudado.

Gostaríamos de observar aqui como uma pequena mudança de palavras quase similares serve como defesa do capitalismo. Darwin  falou da sobrevivência do mais apto, daqueles que são melhores adaptados às condições. Vendo que nesta luta aqueles que estão mais bem organizados vencem os outros, os vencedores foram chamados de vigilantes e depois os "melhores". Esta expressão foi cunhada por Hebert Spencer. Vencendo em seu domínio, os vencedores na luta social, os grandes capitalistas foram proclamados a melhor gente.

Haeckel tomou para si e ainda mantém esta concepção. Em 1892 ele disse:

  • "O darwinismo, ou a teoria da seleção, é completamente aristocrática; ela é baseada na sobrevivência dos melhores. A divisão do trabalho gerou, por causas de desenvolvimento, uma variação cada vez maior nas características e sempre uma maior desigualdade entre indivíduos, em sua atividade, educação e condição. Quanto maior o avanço da cultura humana, maior a diferença e o fosso entre as várias classes existentes. O comunismo e as demandas apresentadas pelos socialistas ao reivindicar uma igualdade de condições e atividades é sinônimo de uma volta aos estágios primitivos da barbárie".

O filósofo inglês Hebert Spencer já tinha uma teoria do desenvolvimento social antes de Darwin . Esta era a teoria burguesa do individualismo, baseada na luta pela existência. Mais tarde ele trouxe esta teoria para uma relação mais estreita com o darwinismo. "No mundo animal", ele disse, "os velhos, fracos e doentes perecem sempre e somente os fortes e saudáveis sobrevivem. A luta pela existência serve, portanto, como uma purificação da raça, protegendo-a da deterioração. Este é o feliz efeito desta luta, pois, se por acaso a luta cessasse e cada um tivesse a certeza de encontrar sua subsistência sem nenhuma luta, a raça necessariamente deterioraria. A ajuda dada ao doente, fraco e inapto causa uma degeneração geral na raça. Se a simpatia, encontrando suas expressões na caridade, vai além de limites razoáveis, ela frustra seus objetivos; ao invés de diminuir, aumenta o sofrimento para as novas gerações. O bom efeito da luta pela existência pode melhor ser visto nos animais selvagens. Todos eles são fortes e saudáveis porque sofreram milhares de perigos, nos quais aqueles que não estavam qualificados tiveram que perecer. Entre os homens e animais domésticos, a doença e a fraqueza são tão comuns devido ao fato de o fraco e o doente serem preservados. O socialismo, tendo como objetivo a abolição da luta pela existência no mundo humano, trará necessariamente um crescimento da deterioração física e mental".

Estas são as principais posições daqueles que usam o darwinismo como uma defesa do sistema burguês. Fortes como estes argumentos podiam parecer à primeira vista, não foram difíceis de ser superados pelos socialistas. Em grande medida, são os velhos argumentos usados contra o socialismo, mas desta vez com uma roupagem terminológica nova darwinista e mostram uma completa ignorância do socialismo bem como do capitalismo.

Aqueles que comparam o organismo social com o corpo animal deixam desconsiderado o fato de que os homens não diferem entre si como as várias células ou órgãos, mas somente em graus de sua capacidade. Na sociedade a divisão do trabalho não pode ir tão longe a ponto de que todas as capacidades devam perecer a custa de uma única. E mais, qualquer um que conheça alguma coisa de socialismo sabe que a eficiente divisão do trabalho não acabará com o socialismo; que sob o socialismo uma divisão real será possível. A diferença entre os trabalhadores, suas habilidades e os empregos não acabará; o que terminará é a diferença entre trabalhadores e exploradores.

Enquanto é verdadeiro que na luta pela existência aqueles animais fisicamente mais fortes, saudáveis e bem preparados sobrevivem, isto não acontece sob a competição capitalista. Aqui a vitória não depende da perfeição daqueles que estão na disputa. Enquanto o talento pelos negócios e o dinamismo podem jogar um papel no mundo pequeno burguês, com o desenvolvimento cada vez maior da sociedade, o sucesso depende cada vez mais da posse de capital. O capital maior vence o menor, mesmo sendo o último a disposição de alguém mais qualificado. Não são as qualidades pessoais, mas a posse de dinheiro, que decide quem será o vencedor da luta pela sobrevivência. Quando os pequenos capitalistas perecem, não é como homens, mas como capitalistas; eles não são varridos da existência física, mas da classe burguesa. Eles ainda existem, mas não mais como capitalistas. A competição existente no sistema capitalista é, portanto, algo diferente em requisitos e resultados da luta animal pela existência.

As pessoas que perecem como pessoas são membros de uma classe inteiramente diferente, uma classe que não participa da luta competitiva. Os trabalhadores não competem com os capitalistas, apenas vendem sua força de trabalho a eles. Não tendo propriedade alguma, eles não têm a oportunidade de medir suas grandes qualidades e entrar numa corrida com os capitalistas. Sua pobreza e sua miséria não podem ser atribuídas ao fato de que eles caíram na luta competitiva devido à sua fraqueza, mas porque eles foram muito mal remunerados pela sua força de trabalho e é por essa razão que, embora seus filhos nasçam fortes e saudáveis, eles perecem em massa, enquanto as crianças nascidas de pais ricos, mesmo nascendo doentes, permanecerão vivas por meio de alimentação e grandes cuidados dispensados a elas. Estas crianças pobres não morrem porque são doentes ou fracas, mas devido a causas externas. É o capitalismo quem cria todas as condições desfavoráveis por meio da exploração, redução de salários, crises de desemprego, péssimas moradias, longas jornadas de trabalho. É o sistema capitalista que causa a destruição de muitos fortes e saudáveis.

Assim os socialistas provam que diferentemente do mundo animal, a luta competitiva entre os homens não favorece os melhores e mais qualificados, mas destrói muitos indiviuos fortes e saudáveis devido à sua pobreza, enquanto aqueles que são ricos, mesmo fracos e doentes, sobrevivem. Os socialistas provam que a força pessoal não é o fator determinante, mas que este é algo exterior ao homem, isto é, a posse de dinheiro que determina quem deve sobreviver e quem deve morrer.

Anton Pannekoek

[1] É necessário destacar que, pouco tempo depois, em outra carta a Engels com data de 18 de junho de 1862, Marx retornará sobre essa apreciação fazendo esta crítica a Darwin: "É marcante ver como Darwin reconhece nos animais e nas plantas sua própria sociedade inglesa, com sua divisão do trabalho, sua concorrência, sua abertura de novos mercados, suas invenções e sua maltusiana luta pela vida. É o bellum omnium contra omnes de Hobbes (a guerra de todos contra todos), e recorda Hegel na Fenomenologia, onde a sociedade civil intervém enquanto que "reino animal do Espírito", quando em Darwin, é o reino animal o que intervém enquanto sociedade civil" (Marx-Engels. Correspondência, Ediciones Sociales, Paris, 1979). Em conseqüência, Engels retomará em parte esta crítica de Marx no Antiduring (Engels fará alusão ao "erro maltusiano" de Darwin) e na Dialética da natureza. Numa próxima publicação, voltaremos novamente sobre isto que se pode considerar como uma interpretação errônea da obra de Darwin por Marx e Engels.

[2] Esta versão em português provém inicialmente do site http://marxists.org/portugues/pannekoe/ano/darwinismo/index.htm, onde tinha sido traduzida muito provavelmente a partir da versão inglesa (1912. Nathan Weiser). Efetuamos alterações na tradução ora compilada, notadamente levando em conta a versão do autor publicada originalmente em holandes.