Da Praça Tahrir a Puerta del Sol

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Um elo na cadeia internacional de lutas de classe

Os acontecimentos estão sendo explicado a partir de fatores supostamente nacionais o que se resumiria na famosa "Spanish Revolution".

Nada mais falso e enganoso! O desencanto com a chamada "classe política" é um fenômeno mundial, é muito difícil encontrar um país onde seus habitantes confiem em seus "representantes", sejam esses ratificados no circo eleitoral ou ditatorialmente impostos. A corrupção que tem se adicionado como outra possível explicação é igualmente um fenômeno mundial do qual não há país que escape [1]. Certamente, tanto na "qualidade" dos políticos como na corrupção há distintos graus segundo os países, porém essas diferenças são as árvores que nos impedem ver o fenômeno histórico e mundial da degeneração e do apodrecimento do capitalismo.

Outras razões colocadas sobre a mesa são o desemprego massivo, especialmente entre os jovens. Tem-se falado também da precariedade, dos cortes nos gastos sociais generalizados que se têm perpetrado e se preparam para depois das eleições. Tudo isso não tem nada de espanhol. Vimos isso não só na Grécia, Irlanda ou Portugal, mas também nos Estados Unidos e Inglaterra. Mas se é verdade que esses ataques na classe trabalhadora e na grande maioria da população variam em graus diferentes segundo os países – o capitalismo é uma fonte permanente de desigualdade e agravos comparativos – é um erro colocar "se X é menos pobre que Y" quando todos tendemos a ser mais e mais pobres!

O rosto amargo do desemprego o vemos tanto em Madrid como no Cairo, tanto em Londres como em Paris, tanto em Atenas como em Buenos Aires. Torna-se absurdo e estéril buscar impetuosamente tudo o que distingue e diferencia quando o que devemos ver é tudo o que une e generaliza. Na situação atual se vê de forma cada vez mais patente o que impera é a degradação geral das condições de vida dos explorados do mundo. Todos nos vemos unificados em uma mesma queda em direção ao abismo, que não só se manifesta no desemprego, na inflação, na precariedade, na eliminação de prestações sociais, mas igualmente na multiplicação de desastres nucleares, de guerras e em um poderoso deslocamento das relações sociais acompanhada de uma crescente barbárie moral.

É evidente que a pressão da ideologia dominante, estreitamente nacionalista, tenta encarcerar o movimento que estamos vivendo nas quatro paredes da  "Spanish Revolution". É certo que as dificuldades da tomada de consciência fazem com que muitos protagonistas os vejam segundo esse prisma deformado, assim, nas Assembléias é muito escassa a reflexão sobre a situação mundial, ou sobre a própria situação da imensa maioria dos trabalhadores [2]...

Porém, como é possível que falemos de um elo do movimento internacional da classe operária quando a grande maioria dos assistentes embora seja operários (desempregados, jovens trabalhadores precários, funcionários, aposentados, estudantes, emigrantes...), não se reconheçam como pertencentes à classe operária e cujo termo apenas é pronunciado nas assembleias [3]

Diferentes fatores explicam esta dificuldade: a classe operária padece de um forte problema de identidade e de confiança em si mesma. Por outro lado, a insatisfação generalizada não afeta unicamente a classe operária, mas também amplas camadas da população oprimida e não exploradora, o que se nota através de uma proletarização de extratos sociais pequeno-burgueses ou de profissões liberais [4]. Tudo isso faz com que o movimento possa parecer, segundo uma visão superficial, como interclassista, caoticamente desviado para uma infinidade de preocupações, muito sensíveis às reinvidicações democráticas... no entanto, se o olharmos mais profundamente, o movimento pertence por inteiro ao combate internacional da classe operária. Estamos imersos em um processo de lutas massivas, as quais servirão para que o proletariado comece a tomar confiança nas suas próprias forças e comece a se ver como uma classe social autônoma capaz de propor uma alternativa a esta sociedade condenada à ruína. A falha tectônica que vai da França 2006 [5] à Grécia 2008 [6] para voltar de novo à França 2010 [7], prosseguindo com Inglaterra 2010 e continuar com o Egito-Tunísia 2011 [8], se manifesta no imenso terremoto espanhol. Estão sendo preparadas as bases para grandes terremotos sociais que acabarão abrindo a via dolorosa para a emancipação da humanidade.

Os detonantes imediatos do movimento

Uma análise internacional e histórica é mais clara se consegue integrar os fatores particulares, nacionais ou conjunturais. Em contrapartida, jamais se pode compreender os fatos caso se parte desses fatores específicos. O movimento que estamos vivendo partiu de um protesto "contra os políticos" organizado pela Democracia Real Já (Democracia Real Ya). As manifestações de 15 de maio foram um êxito espetacular: o descontentamento generalizado, o mal estar ante a falta de futuro, encontraram nelas um canal inesperado.

Aparentemente tudo terminava aí, porém em Madrid e em Granada, ao final da manifestação, houve violentos ataques da polícia com mais de 20 detidos que foram duramente tratados nos comissariados. Os detidos se agruparam em uma Assembléia que adotou um comunicado [9], cuja difusão produziu uma forte impressão e uma fulminante reação de indignação e solidariedade. Um grupo de jovens decidiu estabelecer um acampamento na Puerta del Sol  de Madrid  – praça central da cidade. No mesmo domingo, o exemplo se estende a Barcelona, Granada e Valência. Um novo ato da repressão acentua os ânimos e desde então as concentrações acabaram generalizando-se a mais de 70 cidades e a afluência às mesmas foi crescendo vertiginosamente.

A terça-feira à tarde constitui um momento decisivo. Os organizadores haviam programado atos silenciosos de protesto ou inofensivas encenações lúdicas (as chamadas "performances"), mas a participação aumentava rapidamente e pedia aos gritos a realização de Assembléias. Na terça-feira às 20 horas acontecem assembléias em Madrid, Barcelona, Valência e outras cidades, mas a partir da quarta-feira a avalanche foi formidável, as concentrações se transformam em Assembléias Abertas.

Apesar de ser um símbolo, o movimento se chama de 15-M, esta convocatória não foi criada por causa dele, mas simplesmente ofereceu um primeiro invólucro. E esse invólucro é na realidade uma couraça que o aprisiona, pois lhe dá como objetivo algo tão utópico como mistificador: a "regeneração democrática" do Estado espanhol [10]. O enorme descontentamento social tenta se canalizar para o que se conhece como "Segunda Transição". Após 34 anos de democracia, a grande maioria da população está muito decepcionada, mas isto se "explica" porque "estamos padecendo de uma democracia imperfeita e limitada" por culpa do pacto que houve de fazer com os "setores inteligentes" do franquismo, é preciso, portanto, uma "segunda transição" que nos levará a uma "democracia plena".

O proletariado na Espanha é vulnerável a esta mistificação dado que a Direita espanhola é altamente autoritária, arrogante e irresponsável, fazendo desta forma pouco acreditável a "democracia realmente existente". Porém ao impulsionar o "povo" a se "rebelar contra os políticos" e a exigir uma "Democracia Real Já", a burguesia trata de ocultar que essa é a única democracia possível e não há outra.

O governo Zapatero não tem sido muito delicado diante de uma situação explosiva com mais de 40% de jovens no desemprego. Zapatero chamou de "velhacos" aos que se atreveram a duvidar das – grandes conquistas sociais!- do seu governo o que tem inflamado os ânimos de muitos jovens. Entretanto, existe algo mais profundo: o jogo democrático propunha como alternativa ao PSOE, um PP que todo mundo teme porque conhece de sobra a sua arrogância, brutalidade e reflexos autoritários. Espanha não é Inglaterra onde Cameron – apoiado pelos "modernos" liberais – gozava previamente de uma melhor imagem, aqui – embora na prática sempre seja o PSOE o que comete os piores ataques – a Direita tem uma merecida fama de inimiga das classes trabalhadoras além de representar um bando de personagens fanáticos e corruptos [11].

Uma grande maioria da população contempla assustada o panorama de passar da bestialidade dos "amigos" socialistas a maior bestialidade, se é possível, às mãos dos inimigos declarados do PP. É a confiança no jogo democrático  e seus resultados eleitorais! Diante de uma situação insuportável e um futuro dos mais aterrorizantes, as pessoas tomaram as ruas. Suas próprias confusões e ilusões, assim como a propaganda democrática, fizeram com que houvesse uma forte presença nas assembléias a proposta de terminar com o bi-partidarismo. Mas se trata de algo irrealista e puramente mistificador, o mapa político espanhol é rigidamente bi-partidarista – a partir do longo período de bipartidarismo da época de Cánovas [12] – e, como tem demonstrado os resultados das eleições municipais e autônomas, tende a reforçar-se [13].

As Assembléias, uma arma carregada de futuro

No entanto, diante dessa democracia que reduz a "participação" a eleger a cada 4 anos o político de plantão que nunca cumprirá as promessas e sempre executará o "programa oculto" do qual jamais havia falado, o movimento na Espanha tem encontrado uma arma gigantesca onde de verdade a grande maioria pode se reunir, pensar e decidir: as Assembléias multitudinárias de cidade.

Na democracia burguesa o poder de decisão é entregue a um corpo burocrático de políticos profissionais que por sua vez obedecem sem questionar as ordens do Partido, o qual não é senão um defensor e intérprete do interesse do Capital.

Em contrapatida, nas Assembléias o poder de decisão é exercido diretamente pelos participantes que pensam, discutem e decidem juntos e são eles mesmos os que se organizam para colocar em prática as decisões.

Na democracia burguesa se consagra e reforça a atomização individual, a concorrência e o encerramento de cada qual "na sua", que caracteriza esta sociedade. Por outro lado, nas Assembléias se desenvolve um pensamento coletivo, todos podem aportar o melhor de si mesmo, todos podem sentir a força e a solidariedade comum, cria-se um espaço onde gera o antídoto contra a divisão e a fragmentação da sociedade capitalista e forjar os fundamentos de uma nova sociedade baseada na abolição da exploração e das classes, na formação de uma comunidade humana mundial.

Sé é certo que a democracia burguesa representou um indiscutível progresso frente ao poder absoluto dos monarcas, a evolução do Estado desde princípios do século XX consagrou o poder absoluto de uma combinação entre o que se chama a classe política e os grandes poderes econômicos e financeiros, ou seja, o Capital em seu conjunto. Por muitas listas abertas[14] que tenha, por muitas restrições que se coloque ao bipartidarismo, o poder descansa nessa minoria privilegiada e resulta ainda mais absoluto e ditatorial que o mais absolutista dos monarcas feudais. No entanto, diferentemente deles, essa ditadura do capital se legitima periodicamente com a farsa eleitoral.

As assembléias cruzam com a tradição proletária dos Conselhos Operários de 1905 e 1917 [15] que se estenderam à Alemanha e outros países durante a onda revolucionária de 1917-23.

Que penoso é o ambiente de uma mesa eleitoral onde os "cidadãos" ficam silenciosos, como cumprindo uma obrigação de cuja utilidade duvidam e sentem uma forte culpabilidade pelo voto emitido que sempre resulta "equivocado"!

Por outro lado, que emocionante é o ambiente que estamos vendo esses dias nas assembléias! Percebe-se um grande entusiasmo e uma vontade enorme de participar. Numerosos oradores fazem uso da palavra colocando toda ordem de questões. Terminada a assembléia geral, celebram-se reuniões de comissões que se prolongam durante as 24 horas do dia. Toma-se contato, se conhece pessoas, fazem reflexões em voz alta, se repassa de cima a baixo todos os aspectos da vida política, social, cultural, econômica... Descobre-se que se pode falar, que se pode tratar coletivamente de todos os assuntos...  nas praças ocupadas são montadas bibliotecas, se organiza um "banco de tempo" para dar aulas de todos os temas tanto científicos como culturais, artísticos, políticos ou econômicos. Expressam-se sentimentos de solidariedade, se escuta atentamente sem que nada diga nem imponha nada, um canal se abre para a empatia geral. De maneira ainda tímida está criando-se uma cultura do debate massiva [16], reflexões múltiplas, propostas muitas vezes interessantes, variadas idéias, parece que os assistentes querem fazer públicos seus pensamentos, seus sentimentos, depois de tanto tempo meditando na solidão e na atomização. As praças se vêem inundadas por uma gigantesca e coletiva tormenta de idéias, a massa consegue expressar o melhor e mais profundo de si mesma. Essa massa anônima de pessoas, que supostamente são os perdedores da vida, detêm capacidades intelectuais, sentimentos ativos, emoções sociais, inesperadas, imensas, profundas.

A pessoa se sente libertada e goza apaixonadamente do prazer imenso de poder discutir coletivamente. Na aparência, a torrente de pensamentos não acaba em nada. Não há propostas concretas. Porém isto não é necessariamente uma debilidade, após longos anos de opressiva normalidade capitalista onde a imensa maioria sofre a ditadura do desprezo, as rotinas mais alienantes, os sentimentos negativos de culpa, de frustração, de atomização, torna-se inevitável uma primeira etapa de explosão desordenada. Não existe outra maneira, não há planos pedantes para que o pensamento da imensa maioria possa se expressar. Tem de percorrer esse caminho – que na aparência não vai a lugar nenhum – para transformar-se a si mesma e transformar de cima abaixo o panorama social.

É certo que os organizadores apresentam uma e outra vez manifestos democráticos e nacionalistas. Em parte estão refletindo as ilusões e confusões que padece a maioria, porém, ao mesmo tempo, o curso que está seguindo o pensamento de muitos participantes vai por outras direções que se esforçam por sair à superfície. Assim, por exemplo, em Madrid uma palavra de ordem que está se tornando popular sem que tenha sido recolhida pelos alto-falantes é "Todo o poder para as Assembléias", também "sem trabalho, sem casa, sem medo", "o problema não é a democracia, o problema é o capitalismo". "Operários despertai!" Em Valência algumas mulheres diziam “Enganaram os avós, enganaram os filhos, que os netos não se deixem enganar! Ou "600 euros ao mês, isso sim que é violência!".

As assembleias foram o teatro de um debate que surgiu como uma tensão entre diferentes ênfases polarizadas em 3 eixos:

  • 1º Basta limitar-se à regeneração democrática [17], ou então, os problemas tem sua origem no capitalismo que não se pode reformar e é necessário destruí-lo de cima abaixo?
  • 2º O movimento deve dar-se por terminado no dia 22, dia das eleições, ou, pelo contrário, prosseguirá para lutar massivamente contra os cortes sociais, o desemprego, a precariedade, as expulsões?
  • 3º Não haveria de estender as assembléias aos centros de trabalho, aos bairros, agências de empregos [para chamar os desempregados], aos institutos e universidades para que o movimento tome raízes nos trabalhadores, os únicos que tem a força e as bases para desenvolver uma luta generalizada?

Nas Assembléias convivem duas "almas"; a alma democrática que constitui um freio conservador e a alma proletária que busca definir-se em uma abordagem de classe.

Olhando serenamente o futuro

As assembléias celebradas no domingo 22 resolvem no segundo ponto de debate a continuidade do movimento, muitas intervenções dizem "não estamos aqui pelas eleições embora elas tenham sido o detonante". Com relação ao terceiro ponto,  multiplicam-se as intervenções de "ir em direção à classe operária" propondo adotar reivindicações contra o desemprego, a precariedade, os cortes sociais. Do mesmo modo, foi decidido estender as Assembléias aos bairros e começam a surgir vozes pedindo sua extensão aos centros de trabalho, universidades, escritórios de desemprego... Em Málaga, Barcelona e Valência se tem colocado a realização de uma manifestação contra os cortes sociais pedindo uma nova greve geral que "seja de verdade", como reclamou um dos oradores.

A fase inicial de agora, constitui por si mesma uma grande conquista do movimento. Deveria continuar, pois significa que massas importantes de explorados começam a resistir a "viver como até então". A indignação leva à necessidade de uma regeneração moral, de uma mudança cultural, as propostas que se fazem –inclusive embora pareçam ingênuas ou peregrinas – manifestam uma ânsia, ainda tímida e confusa, de "querer viver de outra maneira".

Porém, ao mesmo tempo pode findar o movimento nesse nível sem formular alguns objetivos concretos?

É difícil responder: há duas respostas que estão lutando em silêncio, expressão das duas "almas" que dissemos antes, a democrática e a proletária. A democrática finca suas raízes na falta de confiança da classe nas suas próprias forças, o peso de camadas sociais não proletárias, mas não exploradoras, o impacto da decomposição social [18] que faz agarrar-se a batata quente de um Estado"justo" e "equitativo".

A outra via, a de estender as assembléias a centros de trabalho, centros de estudos, agências de empregos, bairros, polarizando na luta contra os efeitos do desemprego e da precariedade, em resposta aos inumeráveis ataques que temos sofrido e estão por vir. Encarna-se em um setor muito combativo. Em Barcelona trabalhadores da Telefônica, trabalhadores de hospitais, bombeiros, estudantes de universidade, mobilizados contra os cortes sociais, têm se unido às assembléias e começam a dar uma tonalidade diferente. A Assembléia central de Barcelona parece a mais distanciada das colocações de regeneração democrática. A Assembléia central de Madrid tem convocado assembléias em bairros e distritos. Em Valência houve conjunção com um protesto de motoristas de ônibus e também com uma manifestação de moradores contra os cortes no ensino. Em Zaragoza, os trabalhadores de ônibus têm se reunido aos congregados com grande entusiasmo.

Essa segunda via apresenta uma dificuldade a mais. Está claro que existe o perigo real de que a "extensão" do movimento acabe levando à sua dispersão e fechar-se em reivindicações setoriais e corporativas. Trata-se de uma contradição real. Por um lado, o movimento somente pode continuar se lograr recolher, ou ao menos começar a despertar, a participação da classe operária como tal. No entanto, tal extensão pode dar fôlego aos sindicatos para pongar no movimento em marcha e aprisionar em reivindicações localistas etc. Sem negar este perigo, cabe perguntar: O fato mesmo de tentar inclusive, embora fracasse, não proporciona as premissas de uma luta coletiva que pode ter grande força no futuro?

Qualquer que seja o rumo que tome o movimento, sua contribuição à luta internacional da classe operária torna indiscutível:

  • é um movimento massivo e geral, com a implicação de todos os setores sociais.  

  • a referência não é um ataque concreto como na França ou Inglaterra, mas a indignação com a situação que estamos vivendo. Isto lhe dificulta centrar em reivindicações concretas, o que torna mais difícil manifestar seu caráter proletário [19]. Mas, ao mesmo tempo, expressa um claro despertar de massas importantes diante dos problemas da sociedade e abre a via a sua politização.
  • tem como coração as Assembléias.

A compreensão do que está ocorrendo deve impulsionar a abandonar velhos esquemas. A Revolução Russa de 1905 mostrou claramente uma nova maneira de ação das massas. Tal evento resultou na perplexidade e posteriormente no rechaço, para acabar na traição, de muitos dirigentes sindicais e sociais-democratas, e teóricos importantes como Kautsky e Plekhanov, que se agarravam desesperadamente aos velhos esquemas da "acumulação metódica de forças" mediante um gradual trabalho sindical e parlamentar [20].

Hoje temos que evitar uma armadilha semelhante. Os fatos não sucedem tal e como poderia esperar segundo um esquema amarrado às lutas dos anos 1970 e 1980. É certo que um proletariado com dificuldades de identidade e de confiança em si mesmo, não se mostra "gritando a pleno pulmão"; é certo, também, que junto a ele se mobilizam as camadas sociais não exploradoras. O movimento de avanço para lutas massivas, para um combate revolucionário, não escorre por canais bem definidos e delimitados que deixam claro e inequívoco seu terreno de classe. Isto apresenta riscos  -um proletariado ainda débil pode se sentir desorientado e confuso em meio a um vasto movimento social, poderia inclusive parecer que está completamente perdido como aconteceu na Argentina em 2001.

Isso não diminui nem um pouco o potencial do que está acontecendo:

  • Hoje as grandes concentrações industriais tem menor peso e aparecem dispersas em uma imensa rede nacional e internacional, o que faz que seja difícil a luta tradicional a partir de grandes fábricas. Para superar essa dificuldade o proletariado encontra na via de tomar massivamente a rua acompanhado de outras camadas sociais. Tudo isso faz que o caráter de classe não apareça tão fácil e diretamente como no passado, mas sua trilha pode ser acompanhada através de um esforço maior de consciência e esclarecimento.

  • Diante da decomposição social reinante que destrói os laços sociais e aprofunda a barbárie moral, a orientação das Assembléias para uma ágora onde toda a vida humana é refletida com consciência embora confusamente, aponta para uma resposta onde se possam tecer laços sociais, afirmar a moral proletária, a solidariedade, a alternativa frente a uma sociedade de concorrência mortal.

  • É verdade que, como expressão de uma situação desesperada e que se apodrece por longo tempo, o proletariado está lançando-se em um combate massivo acompanhado por camadas sociais não exploradoras que não compartem necessariamente seus mesmos objetivos revolucionários e tendem a diluí-lo em uma massa confusa. Isto carrega sérios perigos, mas, ao mesmo tempo, proporciona a vantagem de ir criando uma convivência na luta, de poder abordar metodicamente os problemas, de uma maior compreensão mútua, tudo o qual será vital frente a futuros enfrentamentos revolucionários com o estado burguês.

CCI 25-05-2011

[1] A corrupção está no próprio genoma do capitalismo considerando que sua "moral" consiste em que "vale tudo" para conseguir o maior lucro. Com essa premissa congênita e no marco da agudização da crise, que propaga a máxima irresponsabilidade tanto da classe empresarial como política, a corrupção se faz inevitável em todo Estado qualquer que sejam suas leis

[2] No entanto, nas assembléias começam a surgir colocações internacionalistas. Um orador em Valência, no domingo, se proclamou "cidadão do mundo" e disse que não podíamos nos limitar a mudar a Espanha. Está se fazendo um esforço de tradução dos comunicados das Assembléias em todos os idiomas "estrangeiros" possíveis o que contrasta com a colocação inicial "espanhol". Embora seja verdade que as mobilizações fora da Espanha em numerosos países se coloca como "assunto de espanhóis no mundo", parece que algumas concentrações começam a adotar outro símbolo.

[3] Embora começa a se repetir a partir das assembléias do domingo 22.

[4] Não somente nos países do "Terceiro Mundo" (que terminologia tão anacrônica!), mas igualmente nos países centrais. Técnicos de informática altamente capacitados, advogados, jornalistas etc., se veem relegados à condição de precarizados ou freelancer em situação instáveis. Pequenos empresários se transformam em autopatrões que trabalham mais horas que um relógio...

[5] Ver Teses sobre o movimento dos estudantes da primavera 2006. [http://pt.internationalism.org/icconline/2006_estudiantes_franca]

[6] Ver Las Revueltas de la juventud en Grecia confirman el desarrollo de la lucha de clases. [http://es.internationalism.org/ri/136_grecia]

[7] Ver Francia, GB, Túnez, el porvenir es que la clase obrera desarrolle internacionalmente sus luchas y sea dueña de ellas. [http://es.internationalism.org/Rint144-edito+lucha]

[9] Ver em http://madrid.indymedia.org/node/17370  (O comunicado dos detidos que reflete eloquentemente o tratamento recebido).

[10] O Estado é o órgão da classe dominante. Embora se apresente sob a forma democrática sua própria estrutura se fundamenta na delegação do poder, o que não apresenta nenhum problema para a minoria exploradora que ao possuir os meios de produção tem "a carta na manga" e pode submeter os políticos profissionais aos seus interesses. Entretanto, é muito diferente para a classe operária  e a imensa maioria: sua "participação" se reduz a outorgar um cheque em branco a esses senhores que – ainda que atuem com a maior honradez e renunciem a todo interesse pessoal – se vêem totalmente enredados na teia de aranha burocrática do Estado. Por outro lado, de maneira mais específica, as reformas propostas, no caso de ser tomada realmente a sério, levariam um longo tempo de trâmites parlamentares – onde podem ser facilmente desnaturalizadas – e a sua aplicação tornaria mais que incerta.

[11] É significativo que a estratégia adotada pelo candidato do PP, Rajoy, consista em não dizer absolutamente nada, mantendo um discurso vazio recheado dos mais patéticos  lugares comuns, mantendo um silêncio ensurdecedor, é a única forma que tem de impedir que os votantes de esquerda se mobilizem contra ele.

[12] Após a revolução de 1868 – chamada de A Gloriosa e os convulsivos anos que se seguiram, em 1876 se instaurou um compromisso entre o partido conservador de Cánovas e o liberal de Sagasta, que perdurou até 1900.

[13] Os pequenos partidos, nos quais muitas intervenções nas assembléias depositam esperanças, embora tenham um programa de defesa do capitalismo tão contudente como o dos grandes e de se dotar de uma estrutura interna tão burocrática e ditatorial como aqueles, não possuem nenhum papel próprio, são como uma espécie de bolsa que se inflam conjunturalmente quando algum dos grandes baixa e se comprime quando os dois grandes necessitam ocupar todo o espaço no Governo e na Oposição.

[14] Na Espanha vigora o sistema eleitoral de lista fechada. Por lista fechada, compreende-se o sistema pelo qual os partidos, antes das eleições, definem a ordem dos candidatos na lista. Assim, o eleitor vota na lista proposta pelo partido. Daí as ilusões nas listas abertas.

[17] Expresso no Decálogo democrático aprovado pela Assembléia de Madrid: listas abertas, reforma eleitoral...

[18] Ver La Descomposición: fase última de la decadencia capitalista. [http://es.internationalism.org/node/2123]

[19] Diferente do que ocorreu na França e Inglaterra onde as mobilizações tinham como eixo visível a resposta aos ataques muito duros dos governos.

[20] Diante deles Rosa Luxemburgo com Greve de massas, partido e sindicatos , ou Trotsky com Balanço e Perspectivas souberam captar as características e a dinâmica da nova época da luta de classes.