O stalinismo não é a criança da revolução mas a encarnação da contra-revolução

Versão para impressãoEnviar por email

Face às campanhas repugnantes da propaganda burguesa, o primeiro dever dos revolucionários é de restabelecer a verdade, de lembrar ao proletariado o que foi realmente, e o que será a revolução comunista que hoje a burguesia se deleita a encarregar de todos os males que faz sofrer a espécie humana. Em particular, é seu dever denunciar essa monstruosa mentira apresentando como "comunistas" os regimes que dominaram toda uma parte do mundo durante décadas, e mostrar porque esses regimes nunca foram as crianças, mesmo ilegítimas, da revolução do proletariado, mas que são eles mesmos que a enterraram.

No início do século xx, durante e após a primeira guerra mundial, o proletariado travou combates titânicos que estiveram quase a vencer o capitalismo. Em 1917, derrubou o poder burguês na Rússia. Entre 1918 e 1923, no principal país europeu, a Alemanha, ele conduziu múltiplos ataques para conseguir o mesmo alvo. Esta onda revolucionária se repercutiu em todas as partes do mundo, e por toda a parte onde existia uma classe operária desenvolvida da Itália ao Canadá, da Hungria a China. Foi a reposta que levou o proletariado mundial à entrada do capitalismo no seu período de decadência cuja guerra mundial tinha constituído a primeira grande manifestação. Essa era a confirmação brilhante de todas as previsões dos revolucionários depois da metade do Século xix: era chegada a hora do proletariado como havia anunciado o Manifesto Comunista de 1848, hora de executar a sentença pronunciada pela história contra o capitalismo, contra um sistema de produção doravante incapaz de assegurar o progresso da humanidade.

 

A derrota da classe operária e a contra-revolução capitalista

Mas a burguesia mundial conseguiu conter esse movimento gigantesco da classe operária que abalou o planeta. Passando por cima do terror que lhe inspirou a perspectiva de seu próprio desaparecimento, ela reagiu como um leão ferido, juntando todas as suas forças na batalha, não recuando perante nenhum crime.

Num instante, ela ocultou os antagonismos imperialistas que a tinham rasgado durante quatro anos de guerra a fim de opor uma frente unida contra a revolução. Através da astúcia, da repressão, das mentiras e dos massacres, ela venceu as massas operárias em revolta. Ela rodeou a Rússia revolucionária de um "cordão sanitário" em forma de um bloqueio levando à pior das fomes centenas de milhões de seres humanos, fome que ela evidentemente se esforçou para colocar na conta do movimento revolucionário. Para um apoio maciço, em homens e armamentos, aos exércitos "brancos" do tzarismo decaído, ela desencadeou uma guerra civil horrível, provocando milhões de mortos e destruindo totalmente a economia. No campo de ruínas, isolada pelo insucesso da revolução mundial, dizimada pelos combates e pela fome, a classe operária da Rússia, embora conseguisse repelir e vencer as armas da contra-revolução, não pôde conservar o poder que ela havia tomado em outubro 1917. Ela podia menos ainda, "construir o socialismo". Vencida nos outros países, e particularmente nas grandes metrópoles industriais da Europa Ocidental e da América do Norte, ela não podia ser vencedora mesmo na Rússia.

A vitória da contra-revolução em escala mundial repercutiu-se neste país, não sob a forma de uma queda do Estado que tinha surgido depois da revolução, mas por uma degenerescência desse Estado. Num país que, por causa da manutenção do poder burguês a nível mundial, não podia se libertar do capitalismo, foi o aparelho desse estado que constituiu a nova forma da burguesia encarregada de explorar a classe operária e de gerir o capital nacional. O partido bolchevista depois de haver sido a vanguarda da revolução em 1917, suportou por sua parte igualmente sua decadência em sua identificação progressiva com o Estado. Em seu seio, os melhores combatentes da revolução foram progressivamente descartados das suas funções de responsabilidade, excluídos, exilados, prisioneiros, depois finalmente executados por uma câmara de arranjistas e de burocratas que encontraram em Stalin seu melhor representante, e cuja razão de ser não era mais de defender os interesses da classe operária mas, ao contrário, de exercer sobre ela, através da mentira e da repressão, a mais ignóbil das ditaduras a fim de preservar e consolidar a nova forma de capitalismo que era instaurada na Rússia.

Os outros partidos da Internacional, os partidos "comunistas", seguiram o mesmo caminho. O revés da revolução mundial e a confusão que se seguiu dentro das fileiras operárias favoreceram o desenvolvimento do oportunismo no seio desses partidos, isto é, uma política que sacrifica os princípios revolucionários e as perspectivas históricas do movimento da classe operária a falsos "sucessos" imediatos. Esta evolução dos partidos comunistas permitiu aumentar em força os elementos que pensavam mais em "fazer carreira" dentro dos meios da sociedade burguesa, no parlamento ou dentro dos conselhos municipais, do que combaterem ao lado da classe operária e defenderem os interesses dela. Infestados pela paixão oportunista, esses partidos caíram sob o controle de burocratas arranjistas, e foram submetidos pela pressão do Estado Russo que, através da mentira e da intimidação, promoveu estes burocratas aos órgãos de direção. Após terem expulsado de suas fileiras os elementos fiéis ao combate revolucionário, terminaram por trair e andar com armas e bagagens para dentro do campo da burguesia. Como o partido bolchevista dominado pelo stalinismo, esses partidos se converteram na vanguarda da contra-revolução nos seus respectivos países. Eles puderam cumprir bem melhor este papel, porque continuaram a se apresentar como partidos da revolução comunista, como os herdeiros do "Outubro Vermelho". Do mesmo modo que Stalin, para estabelecer seu poder no partido bolchevista degenerescente, a fim de eliminar os militantes os mais sinceros e devotos à causa do proletariado, se tinha enfeitado com todo o prestígio de Lênin; do mesmo modo os partidos stalinistas, a fim de sabotar mais eficazmente as lutas operárias, usurpado o prestígio que adquiriram, aos olhos dos operários do mundo inteiro, a revolução russa de 1917 e os combatentes bolchevistas.

A identificação entre o stalinismo e o Comunismo, que a burguesia nos serve de novo hoje, constitui certamente a maior mentira da história. Na realidade, o stalinismo é o pior adversário do comunismo, é a sua negação.

O comunismo só pode ser internacionalista, o stalinismo é o triunfo do chauvinismo

Assim, depois de suas origens, a teoria comunista tem colocado o internacionalismo, a solidariedade internacional de todos os operários do mundo, na frente dos seus princípios: "Proletários de todos os países, uni-vos", era a palavra de ordem do Manifesto Comunista, redigido por Marx e Engels, os dois principais fundadores dessa teoria. Esse mesmo manifesto afirma claramente que "os proletários não tem pátria". E se o internacionalismo sempre teve uma importância tão grande para o movimento operário, não é por causa de idéias utópicas de quaisquer falsos profetas, mas porque a revolução do proletariado, e só ela pode acabar com a exploração capitalista e toda forma de exploração do homem pelo homem, não pode realizar-se de outra forma senão em escala internacional.

É bem essa realidade que estava exprimida com força desde 1847:

"A revolução comunista (...) não será uma revolução puramente nacional; ela acontecerá ao mesmo tempo em todos os países civilizados (...). Ela exercerá igualmente sobre todos os outros países do globo, uma repercussão considerável e ela transformará completamente e acelerará o curso do desenvolvimento desses países. Ela será uma revolução universal; ela terá, por consequência, um terreno universal." (F. Engels, Princípios do Comunismo).

É ainda esse mesmo princípio que defenderam com unhas e dentes os bolchevistas no momento da revolução na Rússia: "A Revolução russa só é um destacamento militar da armada socialista mundial, e o sucesso e o triunfo da revolução que temos realizado é dependente da ação desta armada. E um fato que nenhuma pessoa entre nós esquece (...). O proletariado russo tem consciência de seu isolamento revolucionário, está vendo claramente que sua vitória tem como condição indispensável e premissa fundamental a intervenção unida dos operários do mundo inteiro" (Lênin, 23 de julho de 1918).

É por isso que a tese da "construção do socialismo num só país" lançada por Stalin em 1925, depois da morte de Lênin, não é nada mais que uma traição cínica dos princípios elementares do movimento operário. No lugar do internacionalismo, pelo qual os bolchevistas e todos os revolucionários se bateram, particularmente ao curso da primeira guerra mundial que terminou justamente graças à ação dos proletários na Rússia e na Alemanha, Stalin e seus cúmplices se fizeram porta-vozes do nacionalismo mais desprezível.

Na Rússia, restabeleceram-se, sob o pretexto de defender a "pátria socialista", as velhas campanhas chauvinistas que tinham servido de bandeira às armadas brancas dentro do seu combate contra a revolução do proletariado, alguns anos antes. E na época da segunda guerra mundial, Stalin se glorificou da participação do seu país na carnificina imperialista, dos vinte milhões de soviéticos mortos pela "Vitória da Pátria". Nos outros países, os partidos stalinistas se encarregaram, como um dever, de juntar os hinos nacionais à melodia da Internacional, o canto universal do proletariado, de misturar a bandeira vermelha, estandarte dos combates operários depois de quase um século, com todas as rodilhas nacionalistas ostentadas pela polícia e pelos militares quando massacraram os trabalhadores. E na histeria chauvinista que desencadeou, ao fim da segunda guerra mundial nos países ocupados pelas armadas alemãs, os partidos stalinistas reivindicaram orgulhosamente o primeiro lugar, e não quiseram deixar para outra parte o cuidado de assassinar como "traidores da pátria", os que tentaram fazer ouvir uma voz internacionalista.

Nacionalismo contra internacionalismo, eis a melhor prova que o stalinismo nada tem a ver com o comunismo. Mas isso não é tudo.

O comunismo é a abolição da exploração, graças à ditadura do proletariado, o stalinismo, é a ditadura sobre o proletariado a fim de manter sua exploração.

O comunismo só pode estabelecer-se com a ditadura do proletariado, isto é, pelo poder da classe dos trabalhadores assalariados sobre o conjunto da sociedade. Este poder, a classe operária o exerce graças aos conselhos operários, isto é, as assembléias supremas de trabalhadores que têm a responsabilidade das decisões essenciais concernentes ao rumo da sociedade e que controlam permanentemente esses que elas delegam para a empreitada da centralização e coordenação. Com certeza foi sobre esses princípios que se estabeleceu o poder dos "soviets" (conselhos em russo) em 1917. O stalinismo representa a negação total de tal regime. A única ditadura que ele conhece não é a ditadura do proletariado, mas em nome desta última, é uma ditadura sobre o proletariado por uma pequena minoria de burocratas, apoiando-se sobre o terror, o mais monstruoso, a denúncia, os campos de concentração e o massacre dos operários que ousam se revoltar contra ela, como ainda se viu na Hungria em 1956, na Polônia em 1970 e em 1981.

Enfim o comunismo significa a abolição da exploração do homem pelo homem, o fim da divisão da sociedade entre classes privilegiadas e classes exploradas cujo trabalho serve antes de tudo para enriquecer as primeiras. Nos regimes stalinistas, os operários não cessaram de ser explorados. Seu trabalho, seu suor e suas privações não tiveram outro objetivo que permitir aos membros dirigentes do aparelho do Partido-Estado de continuar a usufruir seus privilégios, de beneficiá-los com residências luxuosas enquanto as famílias operárias se amontoavam em habitações miseráveis, de ter à sua disposição armazéns especiais onde não falta nada enquanto os armazéns destinados aos trabalhadores são efetivamente vazios e que precisa-se esperar horas na fila para ter uma chance de encontrar uma pequena porção de carne com metade avariada. Além disso, na verdadeira sociedade comunista, a produção é fundamentalmente orientada para a satisfação das necessidades humanas: bom exemplo de sociedade "comunista" ou "em transição para o comunismo" do que o da URSS e dos outros países do mesmo tipo. Ainda mais que nos países oficialmente capitalistas, o melhor da produção é destinado aos armamentos, aos meios da destruição, os mais sofisticados e perigosos.

No final das contas, os regimes que têm reinado durante décadas sobre toda uma parte do mundo em nome do comunismo, do socialismo ou da classe operária, apresentam todas as características essenciais do capitalismo. E por esta razão, esses regimes são perfeitamente capitalistas, mesmo se constituem uma forma particularmente frágil de capitalismo, mesmo se a burguesia "privada", como as conhecidas nos países ocidentais, fosse substituída por uma burguesia de Estado, mesmo se a tendência universal do capitalismo de Estado, que afeta o sistema capitalista em todos os países depois que ele está entrando em sua fase de decadência, tomasse nestes países as suas formas mais caricaturizadas e "anômalas".

As "democracias" são cúmplices do stalinismo

É efetivamente porque o regime que existiu na Rússia após o revés da revolução não era nada além de uma variante do capitalismo, e mesmo a lança de ferro da contra-revolução, que recebeu o apoio caloroso de todas as burguesias que tinham combatido ferozmente o poder dos "soviets" há alguns anos atrás. Em 1934, com efeito, essas mesmas burguesias aceitaram a URSS na "Sociedade das Nações" (antecessora da ONU) que os revolucionários como Lênin tinham qualificado de "antro de bandidos" na época de sua fundação. É o sinal de que Stalin tornou-se "respeitável" aos olhos da classe dominante de todos os países, a mesma que apresentava os bolchevistas de 1917 como bárbaros com a faca entre os dentes. Os bandidos imperialistas reconheceram nessa personagem um dos deles. Estes que doravante suportaram as perseguições da burguesia internacional, esses são_ os revolucionários que se opuseram ao stalinismo. Assim, Trotsky ([1]), um dos principais dirigentes da revolução de 1917 tornou-se proscrito no mundo inteiro. Afastado da URSS em 1929, depois expulso de país em país, dominado por uma vigilância policial em todos os instantes, ele foi obrigado a enfrentar as campanhas de calúnias as mais devassas que os stalinistas desencadearam contra ele e que foram complacentemente repercutidas pelas burguesias do Ocidente. Assim, quando Stalin organiza a partir de 1936, os vis "processos de Moscou", então se pôde ver os velhos companheiros de Lênin, fatigados pela tortura, a acusarem-se a si próprios dos crimes mais desprezíveis e a reclamar para eles mesmos uma pena digna, e aí essa mesma burguesia deu a entender "que onde há fumaça há fogo". É portanto com a cumplicidade da burguesia de todos os países que Stalin cometeu seus crimes monstruosos, que ele exterminou, nas suas prisões e nos seus campos de concentração, centenas de milhares de comunistas, mais de dez milhões de operários e de camponeses. E os setores burgueses que mostraram o maior zelo nesta cumplicidade, são os setores "democráticos", e particularmente a social-democracia, os mesmos setores que hoje denunciam com a mais extrema virulência os crimes stalinistas e que se apresentam como os modelos da virtude.

A cumplicidade das "Democracias" com a vileza do stalinismo, cumplicidade que cuidam agora de bem dissimular, não constitui seu único crime. Na realidade, a democracia burguesa é tanto especialista em atrocidades quanto as outras formas de regime capitalista, o stalinismo ou o fascismo.

[1]) É importante não confundir Trotsky com as diferentes organizações políticas que hoje se reclamam do «trotskismo». Trotsky foi um grande revolucionário mesmo se a ação que ele levou contra o stalinismo foi manchada por concepções políticas erradas e por concessões tais como a permanência na URSS de «conquistas operárias» e a necessidade pelo proletariado de «defender» essas pretendidas «conquistas». Entretanto, as correntes que, depois de seu assassinato pêlos agentes de Stalin em 1940 e depois da segunda guerra mundial, continuaram a se reclamar de Trotsky e de suas posições, em nome das quais chamaram os proletários a se massacrar reciprocamente na guerra imperialista, abandonaram definitivamente o campo da classe operária e juntaram-se ao stalinismo no campo capitalista.