As mobilizações dos indignados na Espanha e suas repercussões no mundo: um movimento carregado de futuro

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Dar uma ideia do que realmente se passou é a condição para compreender a dinâmica que está tomando a luta de classes internacional em direção a movimentos massivos da classe operária, os quais vão ajudá-la a recuperar a confiança em si mesma e a dar-lhe os meios para apresentar uma alternativa a esta sociedade moribunda. [1]

Ausência de futuro do capitalismo, pano de fundo do movimento 15 M

A palavra crise tem uma tradução dramática para milhões de pessoas, afetadas por uma avalanche de miséria que vai desde a crescente deterioração das condições de vida, passando pelo desemprego que se prolonga durante anos, a precariedade que torna impossível a mínima estabilidade vital, até situações mais extremas que falam diretamente de pobreza e fome. [2]

No entanto, o que mais angústia provoca é a ausência de futuro. Como denuncia a Assembleia de Encarcerados de Madri [3] em um comunicado que, como veremos, foi a centelha do movimento: "(...) nos encontramos frente a um panorama sem nenhuma esperança e sem um futuro que nos incite a viver tranquilos e podendo nos dedicar ao que cada um gosta"[4] Quando segundo a OCDE (Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômicos), a Espanha necessitará de 15 anos para recuperar o nível de emprego de 2007 – quase uma geração inteira impedida de trabalhar – e quando dados semelhantes podem ser extrapolados para os Estados Unidos ou Grã-Bretanha, torna-se palpável até que ponto esta sociedade se precipita num turbilhão sem retorno de miséria, desemprego e barbárie.

Aparentemente, o movimento se polarizou contra "o sistema bipartidário" dominante na Espanha (2 partidos, Partido Popular – de direita – e Partido Socialista Obrero  Español – de esquerda – ocupam 86% dos cargos eletivos) [5]. Este fator desempenhou um papel, precisamente em relação a essa ausência de futuro, posto que em um país onde a Direita possui uma acreditada fama de autoritária, arrogante e antioperária, amplos setores da população têm visto com inquietação como após os ataques governamentais infligidos pelos falsos amigos – o PSOE –, os inimigos declarados – o PP –ameaçam instalar-se no poder durante muitos anos sem alternativa dentro da briga eleitoral, refletindo o bloqueio geral da sociedade.

Esse mesmo sentimento foi alimentado pela atitude dos sindicatos que primeiro convocaram uma "greve geral" em 29 de setembro, que se concretizou em uma encenação desmobilizadora, e depois concertaram com o governo um Pacto Social em janeiro de 2011 que aceitava uma infame reforma das aposentadorias e fechava portas a toda possibilidade de mobilizações massivas sob sua batuta.

A esses fatores se agregou um profundo sentimento de indignação. Uma das consequências da crise é que, como foi dito na Assembleia de Valência, "(...) os poucos que têm muito são muito menos e possuem muito mais, embora os muitos que têm pouco são muito mais e têm muito menos". Os capitalistas e seu pessoal político tornam-se cada vez mais arrogantes, vorazes e corruptos, não hesitam em se apropriar de riquezas imensas, ainda que ao seu redor se espalhe a miséria e a desolação. Tudo isto faz com que se compreenda que as classes existem e que não somos "cidadãos iguais".

Diante disso, desde finais de 2010 têm surgido coletivos que propagam ideias de "ajuntar-se na rua", "atuar à margem de partidos e sindicatos", "organizar-se em assembleias"… A "Velha Toupeira" de que falava Marx preparava nas profundidades da sociedade uma maturação subterrânea que entrou em erupção em plena luz em maio! A mobilização da Juventude Sem Futuro em abril congregou 5.000 jovens em Madri. Por outro lado, o êxito de algumas manifestações de jovens em Portugal – Geração à Rasca, Geração Enrascada – que aglutinou mais de 200.000 pessoas, e o exemplo muito popular da Praça Tahrir do Egito, situaram-se entre os estímulos do movimento.

As Assembleias: um primeiro olhar voltado para o futuro

Em 15 de maio foram convocadas manifestações nas capitais das províncias por um conglomerado de mais de 100 organizações – chamado Democracia Real Já (DRY, na sigla em espanhol) [6] – dirigidas "contra os políticos" e reclamando uma "democracia de verdade".

Pequenos grupos de jovens (desempregados, precários e estudantes), inconformados com o caráter de válvula de escape do descontentamento social que pretendiam dar os organizadores, trataram de estabelecer um acampamento na praça principal em Madri, Granada e outras cidades para dar continuidade ao protesto. O DRY os desaprovou e deixou que as tropas policiais exercessem uma brutal repressão, especialmente nas delegacias de polícia. Entretanto, os atingidos se constituíram na Assembleia de Encarcerados de Madri e emitiram rapidamente um comunicado onde os tratamentos degradantes foram claramente denunciados (ver nota 4). Isto causou uma grande impressão o que estimulou numerosos jovens a engrossar os acampamentos.

Na terça-feira 17, embora o DRY quisesse encerrar os Acampamentos através de atos simbólicos de protesto, a enorme massa que afluía a eles impôs a realização de Assembleias. Na quarta e quinta-feira as Assembleias massivas se estenderam a mais de 73 cidades. Nelas foram expostas reflexões interessantes, propostas sensatas, passando em revista aspectos da vida social, política, econômica, cultural. Nada que é humano era estranho a essa imensa ágora [7] improvisada!

Uma manifestante madrilena exclamava "(...) o melhor são as Assembleias, a palavra é franqueada, as pessoas se entendem, pensa-se em voz alta, milhares de desconhecidos podem chegar a acordos comuns. Não é maravilhoso?". Contrastando com o ambiente sombrio que reina nas mesas de votação ou entusiasmo de marketing dos atos eleitorais, as Assembleias eram outro mundo: "Abraços fraternais, gritos de entusiasmo e contentamento, cânticos de liberdade, risos felizes, alegria e delírio. Um perfeito concerto despontava desta de milhares de pessoas indo e vindo através da cidade, de manhã à noite. Reinava uma atmosfera de euforia; quase se crer que uma nova e melhor vida principiara na Terra. Espetáculo profundamente comovedor, idílico e enternecedor ao mesmo tempo" [8].

Milhares de pessoas discutiam apaixonadamente em um ambiente de respeito profundo, de ordem admirável, de escuta atenta. Não apenas a indignação e a inquietação frente ao futuro as unia, mas sobretudo a vontade de compreender suas causas, daí esse esforço de debate, de análise sobre múltiplas questões, de centenas de reuniões, de criação de bibliotecas de rua... Um esforço aparentemente sem resultado concreto, mas que tem sacudido as mentes e semeado ganhos de consciência nos campos do futuro.

No terreno subjetivo, a luta da classe operária tem dois pilares: por um lado, a consciência, por outro lado, a confiança e a solidariedade. E neste caso, as Assembleias lançaram importantes sementes para o futuro, os laços humanos que foram sendo tecidos, a corrente de empatia que percorria as praças, a solidariedade e a unidade que floresciam, tinham tanta importância como tomar uma decisão ou aprovar uma reivindicação. Isso enfurecia os políticos e a imprensa que, com o típico imediatismo e utilitarismo que caracteriza a ideologia burguesa, reclamavam que o movimento resumisse suas demandas em uma "lista reivindicativa", que o DRY tratava de converter em um "Decálogo" que recolhia ridículas e desgastadas medidas democráticas, tais como as listas de candidatos abertas, as iniciativas legislativas populares e a reforma da lei eleitoral.

A resistência feroz com que se depararam essas medidas precipitadas mostrou que o movimento expressa o futuro da luta de classes. Em Madri gritava-se "(...) não vamos lentos, mas vamos muito longe". Em uma Carta Aberta às Assembleias, um grupo de Madri dizia: "(...) sintetizar o que esse protesto que estamos realizando quer, é o mais difícil. Estamos convencidos de que não será às pressas, como interesseiramente querem que façamos os políticos e todos aqueles que querem que nada mude, ou melhor dizendo, os que querem mudar pequenos detalhes para que tudo continue igual, que não será propondo de repente uma tábua de reivindicações que conseguiremos sintetizar o que queremos todos os que lutamos, não será criando uma confusão de reivindicações que nossa revolta se expressará e se fortalecerá" [9]

O esforço para conhecer as causas de uma situação dramática e de um futuro incerto, assim como, consequentemente, saber a forma de lutar, tem sido o eixo das Assembleias, daí seu caráter deliberativo que desorientou aqueles que esperavam uma luta centrada em reivindicações precisas. Igualmente a reflexão sobre temas éticos, culturais, inclusive artísticos e literários – havia intervenções em forma de canções ou poesias – criou a sensação enganosa de um movimento pequeno burguês de "indignados". Aqui devemos separar o joio do trigo. Há erva daninha na casca democrática e cidadã em que essas preocupações foram em muitas ocasiões envolvidas. As preocupações, contudo, são trigo limpo, pois apoiam a transformação revolucionária do mundo, ao mesmo tempo em que estimulam uma gigantesca mudança cultural e ética, "Mudar o mundo e mudar a vida, mudando a nós mesmos", tal é a divisa revolucionária que há mais de um século e meio Marx e Engels formularam em A ideologia alemã: "tanto para a criação em massa dessa consciência comunista quanto para o êxito da própria causa faz-se necessária uma transformação massiva dos homens, o que só se pode realizar por um movimento prático, por uma revolução; que a revolução, portanto, é necessária não apenas porque a classe dominante não pode ser derrubada de nenhuma outra forma, mas também porque somente com uma revolução a classe que derruba detém o poder de desembaraçar-se de toda a antiga imundície e de se tornar capaz de uma nova fundação da sociedade" [10].

As Assembleias constituíram uma primeira tentativa de resposta a um problema geral da sociedade o qual temos colocado em relevo há mais de 20 anos: a decomposição social do capitalismo. Nas Teses sobre a Decomposição, que à época escrevemos [11], assinalávamos a tendência à decomposição da ideologia e das superestruturas da sociedade capitalista e a crescente desintegração das relações sociais que as mesmas supõem. Esse conjunto que com certeza afeta a burguesia e a pequena burguesia, também atinge a classe operária, entre outras razões porque convive com esta última. Alertávamos no referido documento sobre os efeitos desse processo: "(1) a ação coletiva, a solidariedade, encontram diante de si a atomização, o "salve-se quem puder" o "cuidar de si mesmo"; (2) a necessidade de organização é confrontada à decomposição social, a desintegração das relações em que se baseia qualquer vida em sociedade; (3) a confiança no futuro e nas suas próprias forças se vê minada constantemente pela desesperança geral que invade a sociedade, o niilismo, a "ausência de futuro"; (4) a consciência, a compreensão, a coerência e unidade de pensamento, o gosto pela teoria, devem abrir um difícil caminho em meio à fuga nas quimeras, drogas, seitas, no misticismo, rechaço à reflexão e na destruição do pensamento que estão definindo a nossa época".

Contudo, o que mostram as Assembleias massivas na Espanha – como igualmente apontaram as que ocorreram durante o movimento de estudantes na França em 2006 [12] –é que os setores mais vulneráveis a esses efeitos – os jovens, os desempregados, devido a pouca experiência que até então conseguiram desenvolver de trabalho coletivo – são os que estiveram na vanguarda das Assembleias e do esforço de consciência, por um lado, e da solidariedade e empatia, por outro lado.

Por todas as razões anteriores, as Assembleias massivas têm sido um primeiro reconhecimento de tudo o que está na nossa frente. Isso pode parecer muito pouco para quem espera que o proletariado, como uma tempestade repentina em um céu azul, manifeste-se claramente e sem rodeios como a classe revolucionária da sociedade. Porém, desde o ponto de vista histórico e compreendendo as enormes dificuldades que o proletariado encontrará para alcançar esse objetivo, foi um bom começo, pois começou preparando com rigor o terreno subjetivo.

Mas isso tem sido, paradoxalmente, o Calcanhar de Aquiles do movimento "15 M", tal qual se expressou em uma primeira etapa. Por não ter nascido sobre um objetivo concreto, o cansaço, a dificuldade de ir mais além das primeiras aproximações aos graves problemas colocados, a ausência de condições para que o proletariado entrasse em luta a partir das regiões de trabalho, lançou o movimento em uma espécie de vácuo e indefinição que não podia durar muito tempo e que o DRY tentou preencher com objetivos de "reforma democráticas" supostamente "fáceis" e "realizáveis", porém na realidade utopicamente reacionários.

Armadilhas que o movimento tem enfrentado

Durante quase duas décadas, o proletariado mundial tem realizado uma travessia do deserto caracterizada pela ausência de lutas massivas e, sobretudo, por uma falta de confiança em si mesmo e uma perda de confiança da sua própria identidade como classe [13]. Ainda que esta atmosfera viesse se rompendo desde 2003 com lutas significativas em um bom número de países e com o aparecimento de uma nova geração de minorias revolucionárias, dominava a imagem estereotipada de uma classe operária que "não se move", que está "completamente ausente".

A erupção repentina de grandes massas na cena social tinha que arcar esse peso do passado, acrescido pela presença no movimento de camadas sociais em vias de proletarização, mais vulneráveis às armadilhas cidadãs e democráticas. Isso, em conjunto com o fato do movimento não ter surgido a partir do combate contra uma medida concreta, produziu o paradoxo (que não é novo na história [14]): de que as duas grandes classes da sociedade, o proletariado e a burguesia, pareceram fugir do corpo a corpo declarado, dando a impressão de um movimento pacífico, que goza do "beneplácito de todos". [15]

 Mas na verdade, a confrontação entre as classes esteve presente desde o primeiro dia. Não foi a brutal repressão sobre um punhado de jovens a primeira resposta do governo do PSOE? Não foi a rápida e apaixonada resposta da Assembleia dos Encarcerados de Madri a que desencadeou o movimento? Não foi aquela denúncia que abriu os olhos de muitos jovens que exclamaram desde então "chamam a isso democracia e não é", bandeira ambígua que uma minoria converteu em "chama a isso de ditadura e é isso mesmo"?

Para todos aqueles que acreditam que a luta de classes é uma sucessão de "emoções fortes", o aspecto "tranquilo" que manifestaram as Assembleias, levou-os a acreditar que estas não eram mais do que o exercício de um "inofensivo direito constitucional". Pode-se inclusive supor que muitos participantes acreditassem que estavam limitados a isso.

No entanto, as Assembleias massivas em praça pública, o slogan de "Tomar a praça", significam um desafio em regra da ordem democrática. O que as relações sociais capitalistas determinam e as leis santificam é que a maioria explorada "fique na sua", e se quiserem "participar" dos assuntos públicos, que utilizem o voto e o protesto sindical que a atomizam e individualizam ainda mais. Unir-se, viver a solidariedade, discutir coletivamente, começar a atuar como um corpo social independente constitui a violência mais irresistível à ordem burguesa.

A burguesia tem feito o impossível para acabar com as Assembleias. Na aparência, com a asquerosa hipocrisia que a distingue, a burguesia não parava em aplausos e acenos de cumplicidade para com os "indignados", porém os fatos – que são o que realmente conta – desmentiam essa aparente complacência.

Ante a proximidade da marcha eleitoral – o domingo 22 de maio – a Junta Eleitoral Central decide proibir as Assembleias em todo o país no sábado 21 considerado como "jornada de reflexão". À zero hora do sábado um imenso dispositivo policial cerca o Acampamento da Porta do Sol, mas rapidamente uma massa gigantesca rodeia por sua vez o cordão policial o que motivou o próprio ministro do Interior a dar a ordem de retirada. Mais de vinte mil pessoas ocupam a Praça em meio a uma grande explosão de alegria. Vemos aqui outro episódio de confrontação de classes, embora a violência explícita tenha se reduzido a alguns empurrões.

O DRY propõe a manutenção nos acampamentos, mas guardando silêncio para respeitar a jornada de reflexão e, portanto, não realizar Assembleias. Mas ninguém lhes deu importância. As Assembleias do sábado 21, formalmente ilegais, registraram os maiores níveis de assistência. Na Assembleia de Barcelona cartazes, bandeiras e gritos proclamavam que "estamos refletindo", em irônica resposta à Junta Eleitoral.

No domingo 22, dia da eleição, ocorre uma nova tentativa de acabar com as Assembleias. O DRY informa que "o objetivo foi alcançado" e que se deve pôr fim ao movimento. A resposta é unânime: "não estamos aqui pelas eleições". Na segunda 23 e na terça 24, as Assembleias chegam a seu ápice, tanto em assistência como na riqueza dos debates. Proliferam intervenções, consignas, cartazes que mostram uma apurada reflexão: "Onde está a esquerda? No fundo a direita", "Nossos sonhos não cabem nas urnas", "600 euros ao mês, isso sim é violência!", "Se não nos deixam sonhar, não os deixaremos dormir", "Sem trabalho, sem casa, sem medo", "Enganaram os avós, enganaram os filhos, que não enganem os netos!". Mas mostram igualmente uma consciência sobre a perspectiva: "Nós somos o futuro, o capitalismo é passado", "Todo poder às Assembleias", "Não há evolução sem revolução", "O futuro começa agora", "Continuas pensando que é uma utopia?"…

A partir desse momento de ápice, as Assembleias começam a diminuir. Em parte devido ao cansaço, mas o contínuo bombardeio do DRY para que se adotasse seu "decálogo democrático" também jogou um papel importante. Os pontos do decálogo não são neutros, pelo contrário, vão diretamente contra as Assembleias. Por agarrar-se à reivindicação mais "radical", uma Iniciativa Legislativa Popular [16], que além de supor uma interminável tramitação parlamentar, desmobiliza os mais ativos, e o mais importante, substitui o debate massivo, onde todos podem sentir-se como parte de um corpo coletivo, por ações individuais, unicamente cidadãs, de protestos fechados entre as quatro paredes do Eu [17].

A sabotagem por dentro foi reforçada pelo ataque repressivo vindo de fora, demonstrando que a burguesia não acredita de maneira nenhuma que as Assembleias sejam "um direito constitucional de reunião". Na sexta-feira 27, o Governo catalão – coordenado com o governo central – desfere um golpe de força: os "mossos de esquadra" (polícia autônoma) invadem a Praça de Catalunha de Barcelona e reprimem de modo selvagem a Assembleia, produzindo inúmeros feridos e fazendo um significativo número de prisioneiros. A Assembleia de Barcelona – até então mais orientada para reivindicações de classe – fica enredada nas típicas reivindicações democráticas: petição de demissão do conselheiro do Interior, repúdio à "repressão desproporcional" [18], reivindicação de um "controle democrático da polícia". Sua reviravolta é tão evidente que dá lugar ao veneno nacionalista e inclui nas suas demandas o "direito de autodeterminação".

Os episódios repressivos durante a semana de 5 a 12 de junho multiplicaram-se: Valência, Santiago, Salamanca... Contudo, o golpe mais brutal acontece nos dias 14 e 15 de junho em Barcelona. O Parlamento catalão discutia uma lei chamada Lei Ônibus que estipulava violentos cortes sociais principalmente na saúde e educação (entre outras medidas, 15 mil demissões na Saúde). Fora de toda dinâmica de discussão em Assembleias de trabalhadores, o DRY convoca um "protesto pacífico", que consistia em cercar o Parlamento para "impedir os deputados de votarem uma lei injusta". Trata-se da típica ação puramente simbólica dirigida à "consciência" dos deputados e não ao combate contra uma lei e as instituições que a impõe, quer dizer, o terreno democrático por excelência, que amarra os manifestantes a um falso dilema: ou a violência "radical" de uma minoria, ou o chamamento impotente e passivo da maioria.

Os insultos e o empurrão de alguns deputados dão motivo a uma histérica campanha que criminaliza os "violentos" (metendo nesse saco os que defendem posturas de classe) e chama a "defender as instituições democráticas ameaçadas". Fechando o círculo, o DRY corrobora o pacifismo para justificar que os próprios manifestantes exerçam a violência sobre os "violentos" [19], porém vai mais longe ainda: pede abertamente a entrega dos "violentos" à polícia e que os manifestantes aplaudam a polícia pelos seus "bons serviços"!

As manifestações de 19 de junho e a extensão à classe operária

Desde o início, o movimento teve dois "espíritos": um espírito democrático, alimentado pelas confusões e dúvidas muito amplas, por seu caráter socialmente heterogêneo e pela tendência a evitar a confrontação aberta. Mas também esteve presente um espírito proletário, materializado nas Assembleias [20] e num impulso sempre presente de ir "até a classe operária".

Na Assembleia de Barcelona, trabalhadores da Telefônica, saúde, bombeiros, estudantes universitários, mobilizados contra os cortes sociais, participaram ativamente dela. Foi constituída uma "Comissão de Extensão e Greve Geral", onde havia debates muito acalorados e se organizou uma rede de Trabalhadores Indignados de Barcelona, que convocou uma Assembleia de empresas em luta no sábado 11 de junho e um novo Encontro no sábado 2 de julho. Na sexta-feira 3 de junho, desempregados e empregados realizaram em torno da Praça Catalunha uma manifestação onde se exibia uma faixa que dizia "Abaixo a burocracia sindical! Greve geral!". Em Valência, a Assembleia apoiou um protesto de condutores de ônibus e também uma manifestação de vizinhos contra os cortes no ensino. Em Zaragoza, os condutores de ônibus se uniram aos demais manifestantes com grande entusiasmo [21]. Nas Assembleias se decide pela realização de Assembleias de Bairro [22].

Não obstante, a manifestação de 19 de junho expressa outro impulso do "espírito proletário". Esta manifestação tinha sido convocada pelas Assembleias de Barcelona, Valência e Málaga com o objetivo de lutar contra os cortes sociais. O DRY tinha tentado desvirtuá-la, dando-lhe exclusivamente lemas democráticos. Isso provocou uma resistência que se concretizou em Madri com uma iniciativa espontânea de ir ao Congresso para manifestar-se contra os cortes sociais com mais de 5 mil participantes. Por outro lado, uma coordenação de Assembleias de Bairro do Sul de Madri, surgida em resposta ao fiasco da greve de 29 de setembro e com uma orientação muito similar às das Assembleias Gerais Interprofissionais criadas na França no calor do movimento do outono passado, convocou "desde os povoados e bairros de trabalhadores de Madri, vamos ao congresso, onde se decidem esses cortes sem nos consultar, para dizer "basta!" (...). Esta iniciativa nasce de uma concepção assembleísta de base da luta operária, frente àqueles que adotam decisões às costas dos trabalhadores sem submetê-las ao referendo dos mesmos. Como a luta é longa, incentivamo-lhes a organizar-se em assembleias de bairro ou locais, e em espaços de trabalho e estudo".

As manifestações de 19 de junho constituíram um novo êxito, a assistência foi massiva em mais de 60 cidades, porém ainda mais importante foi seu conteúdo. Responderam à brutal campanha "contra os violentos", expressando um amadurecimento para o qual tinham contribuído numerosos debates nos meios mais ativos [23]. A palavra de ordem mais ecoada na manifestação de Bilbao é "Violência é não chegar ao final do mês", enquanto que em Valladolid se grita "violência é também o desemprego e os despejos".

No entanto, é sobretudo a manifestação de Madri a que marca a viragem que representa o 19 de junho frente à perspectiva futura. Foi convocada por um organismo diretamente vinculado à classe operária e nascido das suas minorias mais ativas [24]. Seu lema é "Caminhemos juntos contra a crise e o Capital". Suas reivindicações: "Não aos cortes trabalhistas, de pensões ou sociais; para lutar contra o desemprego, luta operária contra a subida dos preços, para o aumento dos salários, para o aumento dos impostos aos que mais ganham, em defesa dos serviços públicos,contra a privatização da saúde, educação, ... Viva a unidade da classe operária" [25]

Um coletivo em Alicante adota o mesmo manifesto. Em Valência, um Bloco Autônomo e Anticapitalista formado por vários grupos muito ativos nas Assembleias difunde um manifesto onde se diz "Queremos uma resposta ao desemprego. Que os desempregados, os precarizados, os afetados pelo trabalho informal, se reúnam em Assembleias, acordem coletivamente suas reivindicações e que estas sejam aplicadas. Queremos a retirada da lei da reforma trabalhista e da que autoriza ERE's [26] sem controle e com indenização de 20 dias. Queremos que se retire a lei das aposentadorias, pois após toda uma vida de privações e misérias não queremos cair em mais misérias e incertezas. Queremos o fim dos despejos. A necessidade humana de uma moradia está acima das leis cegas do negócio e do máximo lucro. Dizemos NÃO aos cortes na educação e na saúde, às novas demissões que, após as recentes eleições, estão sendo preparadas nas Autarquias e Departamentos" [27].

A marcha de Madri foi organizada em várias colunas que partiram de 7 povoados ou bairros da periferia, às quais se somaram uma quantidade de pessoas cada vez maior. Essas "serpentes" recuperam a tradição operária das greves de 1972-1976 na Espanha (e igualmente na França em Maio de 68) onde, a partir de uma concentração operária – à época uma fábrica "farol" como a Standard madrilena –, os manifestantes iam agrupando massas crescentes de operários, vizinhos, desempregados, jovens, até convergir ao centro. Esta tradição reapareceu nas lutas de Vigo de 2006 e 2009 [28].

Em Madri, o manifesto lido na concentração chamava "Assembleias para preparar uma greve geral" e foi acolhido por gritos massivos de "Viva a classe operária".

A necessidade de um entusiasmo reflexivo

As manifestações de 19 de junho produziram um sentimento de entusiasmo. Uma manifestante madrilense disse: "O ambiente era de uma autêntica festa. Caminhávamos juntos, pessoas as mais variadas e de todas as idades: dos vinte anos, aposentados, famílias com filhos, os que não estavam em nenhum dos grupos anteriores... e isso enquanto alguns vizinhos apareciam nas varandas para aplaudir. Cheguei esgotada em casa, mas com um sorriso de orelha a orelha. Não só tinha a sensação de ter participado de uma causa justa, mas que, além disso, de tê-lo feito muito bem". Outro disse: "acho muito interessante ver as pessoas em uma praça, falando de política ou lutando pelos seus direitos. Você não tem a sensação de que estamos retomando a rua?"

Após a primeira irrupção marcada por algumas Assembleias "em busca", agora se começa a buscar a luta aberta, a se vislumbrar que a solidariedade, a união, a construção de uma força coletiva, pode ser levada a cabo [29]. Começa a se desenvolver a ideia de que "Podemos ter força diante do Capital e seu Estado" e que a chave disso é a entrada da classe operária em luta. Nas Assembleias de Bairro de Madri surgiu um debate sobre a convocação de uma greve geral em outubro para "reverter os cortes sociais". Os sindicatos CCOO (Confederación Sindical de Comisiones Obreras) e UGT (Union General de Trabajadores) gritaram aos céus dizendo que essa convocação seria "ilegal" e que só eles estão autorizados a fazê-la, ao que muitos setores responderam claramente: só as Assembleias massivas podem convocá-la.

No entanto, não devemos cair na euforia. A entrada em combate da classe operária não vai ser um processo fácil. Pesam ilusões e confusões sobre a democracia, as reivindicações cidadãs, as "reformas", reforçadas pela pressão do DRY, dos políticos, dos meios de comunicação, que exploram as dúvidas existentes, o imediatismo que impele a obter "resultados rápidos e palpáveis", o medo diante da amplidão amplitude de tudo o que é colocado. Porém, o mais importante é compreender que a mobilização direta nos locais de trabalho é hoje verdadeiramente difícil, por causa da chantagem do desemprego, do risco real de que qualquer perda de remuneração, por mínima que seja, possa fazer cruzar a fronteira não tanto entre uma vida aceitável e a miséria, mas entre esta e a fome.

Os critérios democráticos e sindicais enfocam a luta de classe como uma soma de decisões individuais. Não está descontente? Não se sente pisoteado? Então porque não se rebela? A coisa seria tão simples como se cada operário apenas diante da sua consciência, da mesma maneira que quando está na cabine de votação, "decide livremente" eleger entre um ser "valente" ou um ser "covarde". Mas a luta de classes não segue esse esquema idealista e falsificador, os atos de luta são resultado de uma força e uma consciência coletivas. Estas se forjam não somente pelo mal estar que produz uma situação insustentável, senão porque se vislumbra que é possível atuar em comum e que existe um mínimo de solidariedade e determinação que o permitem.

Esse estado coletivo não aparece da noite para o dia nem é produto mecânico da navalha da miséria; é resultado de um processo subterrâneo que tem três pilares. Organização em Assembleias abertas que permitem visualizar a força de que se dispõe e o caminho para acrescentá-la. Consciência para determinar o que queremos e como podemos conseguir. Combatividade diante do trabalho de sabotagem dos sindicatos e de todos os organismos de mistificação.

Esse processo está se desenvolvendo, mas é difícil determinar quando e como vai se manifestar. Uma comparação pode talvez nos ajudar. Na grande luta massiva de Maio de 68 [30], em 13 de maio de 1968 houve uma gigantesca manifestação em Paris em apoio aos estudantes brutalmente reprimidos. O sentimento de força que aquilo gerou se traduziu de forma fulminante no dia seguinte na deflagração de numerosas greves espontâneas começando pela Renault de Cléon e em continuidade a de Paris. Mas isso não se produziu após as grandes manifestações de 19 de junho. Por quê?

Em maio de 68, a burguesia estava pouco preparada politicamente para enfrentar a classe operária, a repressão inflamou os ânimos e acabou jogando lenha na fogueira. Hoje a burguesia conta, em grande número de países, com um aparato ultrassofisticado de sindicatos, partidos, campanhas ideológicas, alicerçado precisamente na democracia, que permite um uso politicamente muito eficaz de uma repressão seletiva. A deflagração da luta requer um esforço de consciência e solidariedade muito maior que no passado.

Em maio de 68, a crise apenas dava seus primeiros passos, hoje constitui pelo capitalismo um beco sem saída. Isso intimida, torna difícil entrar em greve, inclusive por um motivo tão "simples" como o aumento dos salários. A gravidade da situação faz que as lutas sejam deflagradas porque "o copo da paciência transborda". Mas então é preciso a conclusão que "Os proletários nada têm a perder a não ser as suas cadeias e têm um mundo a ganhar." (Manifesto Comunista)

Este movimento não tem fronteiras

Apesar do caminho ser mais longo e doloroso que em maio 68, as bases que estão sendo construídas são muito mais firmes. A mais determinante é tentar se conceber como parte de um movimento internacional. Após uma etapa de "experimentos" com alguns movimentos massivos (o movimento dos estudantes na França em 2006 e as revoltas da juventude na Grécia em 2008 [31]), nos últimos 9 meses se sucedem movimentos que têm uma maior amplitude e que permitem vislumbrar a possibilidade de paralisar a mão bárbara do capitalismo: França em novembro de 2010, Grã-Bretanha em novembro-dezembro de 2010, Egito e Tunísia em 2011, Espanha em maio 2011, Grécia em 2011...

A compreensão de que o movimento "15 M" faz parte dessa cadeia internacional, tem começado a se desenvolver embrionariamente. Em uma manifestação em Valência se gritava: "Este movimento não tem fronteiras". Foram organizadas por vários acampamentos manifestações "para uma Revolução européia", em 15 de junho houve manifestações em apoio à luta na Grécia, o que voltou a se repetir em 29 de junho. Em 19 de junho, os slogans internacionalistas apareceram minoritariamente: um cartaz dizia "Feliz união mundial", outra exibia em inglês "World Revolution".

Durante anos, o que chamavam de "globalização da economia" servia à burguesia de esquerda para provocar reflexos nacionalistas, seu discurso consistia em reivindicar frente aos "mercados apátridas" a "soberania nacional", quer dizer, propunham aos operários ser mais nacionalistas que a própria burguesia! Com o desenvolvimento da crise, mas igualmente com a popularização do uso da internet, as redes sociais etc., a juventude operária começa a dar o troco contra seus promotores. Desenvolve-se a ideia de que "frente à globalização da economia há que se responder com a globalização internacional das lutas", que diante da miséria mundial a única resposta possível é uma luta mundial.

O "15 M" tem tido uma ampla repercussão internacional. As mobilizações que vêm ocorrendo na Grécia há 2 semanas seguem o mesmo "modelo" de assembleias massivas nas praças principais, cuja inspiração consciente são os acontecimentos da Espanha [32]. Segundo Kaosenlared, em 19 de junho "Milhares de pessoas de todas as idades se manifestaram neste domingo na Praça Syntagma, diante do Parlamento grego, pelo quarto domingo consecutivo em resposta a um chamado do movimento pan-europeu de "indignados" para protestar contra as medidas de austeridade".

Na França, Bélgica, México, Portugal, ocorreram assembleias regulares, contudo menores, onde a solidariedade com os indignados e a tentativa de impulsionar um debate e uma resposta, abriu passagem. Em Portugal "umas 300 pessoas, na sua maioria jovens, marcharam no domingo à tarde pelo centro de Lisboa convocados pelo movimento "Democracia Real Já", inspirado pelos "indignados" espanhóis. Os manifestantes portugueses marcharam tranquilos detrás de uma faixa na qual se podia ler "Europa desperta", "Espanha, Grécia, Irlanda, Portugal: nossa luta é internacional"." [33]

O papel das minorias ativas na preparação de novas lutas

A crise mundial da dívida ilustra a realidade da crise sem saída do capitalismo. Tanto na Espanha como nos demais países há um dilúvio de ataques frontais e não se vislumbra nenhum alívio, senão novos e piores golpes nas nossas condições de vida. A classe operária necessita dar uma resposta e para isso deve se apoiar no impulso dado pelas Assembleias de maio e as manifestações de 19 de junho.

Para preparar essa resposta, a classe operária segrega no seu seio minorias ativas, companheiros que buscam compreender o que está passando, que se politizam, animam debates, ações, reuniões, assembleias, tentam convencer os que duvidam, acrescentam argumentos aos que buscam... Como vimos no início, essas minorias contribuíram para o surgimento do 15 M.

A CCI, com suas modestas forças, tem participado do movimento, tentando dar orientações. "Durante um conflito entre classes, assiste-se a flutuações importantes muito rápidas diante das quais há que saber se orientar, guiando-se pelos princípios e pelas análises. É preciso estar ao corrente do movimento, saber concretizar os "fins gerais" para responder às preocupações reais de uma luta, para poder apoiar e estimular as tendências positivas que aparecem" [34]. Temos elaborado numerosos artigos tratando de compreender as distintas fases pelas quais o movimento tem passado e fazendo propostas de marcha concreta e realizáveis: a emergência das assembleias e sua vitalidade, a ofensiva do DRY contra elas, a armadilha da repressão, o giro que representam as manifestações do 19 de junho [35].

Outra necessidade do movimento sendo o debate, estabelecemos uma rubrica na nossa Web em espanhol – Debates del "15 M" – onde companheiros com diversas análises e a partir de diversas posturas está podendo se expressar.

Trabalhar junto com outros coletivos e minorias ativas tem sido outra das nossas prioridades. Temos nos coordenado com o Círculo Operário de Debate de Barcelona, com a Rede de Solidariedade de Alicante e com vários coletivos de participantes das assembléias de Valência, com os quais temos assumido iniciativas comuns.

Nas Assembleias, nossos militantes falaram sobre pontos concretos: defesa das Assembleias, orientar a luta para a classe operária, impulsionar Assembleias massivas nos centros de trabalho e estudo, rechaçar as reivindicações democráticas colocando no seu lugar a luta contra os cortes sociais. O capitalismo não pode ser reformado nem democratizado, a única possibilidade realista é destruí-lo…[36] Do mesmo modo, na medida das nossas possibilidades, participamos ativamente de Assembleias de Bairro.

Após o "15 M", a minoria que tem uma orientação de classe tem se ampliado e tornado mais dinâmica e influente. Agora, deve manter-se unida, articular um debate, coordenar-se a nível nacional e internacional. Diante do conjunto da classe deve tornar-se visível uma postura que colete suas necessidades e aspirações mais profundas: diante do engano democrático, a perspectiva que se encerra sob a palavra de ordem "Todo poder às Assembleias"; contra às reivindicações a favor de reformas democráticas, evidenciar a luta consequente contra os cortes sociais; diante das ilusórias "reformas" do capitalismo, colocar para frente a luta tenaz e perseverante na perspectiva de destruição do capitalismo.

O importante é que neste meio se desenvolva um debate e um combate. Um debate acerca das numerosas questões que têm sido colocadas no último mês: reforma ou revolução? Democracia ou Assembleias? Movimento cidadão ou movimento de classe? Reivindicações democráticas ou reivindicações contra os cortes sociais? Pacifismo cidadão ou violência de classe? Apoliticismo ou política de classe? Greve geral ou greves massivas? Sindicatos ou Assembleias? Etc. Um combate para impulsionar a auto-organização e a luta independente, mas, sobretudo, para saber captar e superar as numerosas armadilhas nas quais vão tentar nos enredar.

C.Mir (1-7-2011)

[1] Ver na Revista Internacional nº 144: Francia, Gran Bretaña, Túnez - El porvenir es que la clase obrera desarrolle internacionalmente sus luchas y sea dueña de ellas.

[2] Um responsável da Cártias espanhola, ONG eclesiástica que se ocupa da pobreza, assinalava: "Falamos já de mais de 8 milhões de pessoas em processo de exclusão e outros 10 milhões abaixo da linha da pobreza". Fonte: http://www.burbuja.info/inmobiliaria/burbuja-inmobiliaria/230828-tenemos-18-millones-de-excluidos-o-pobres-francisco-lorenzo-responsable-de-caritas.html (tradução nossa). 18 milhões equivalem a um terço da população espanhola! Evidentemente, isto não é uma peculiaridade espanhola. Em um ano o nível de vida dos gregos retrocedeu em 8%.

[3] Falaremos dela no próximo parágrafo: As Assembleias um primeiro olhar voltado ao futuro.

[5] Dois slogans muito repetidos eram: "PSOE-PP, são a mesma merda" e "Com rosas e gaivotas nos tomam por idiotas", a rosa é o símbolo é o símbolo do PSOE e gaivota o do PP.

[6] Para se ter uma ideia deste movimento e dos seus métodos, pode-se consultar nosso artigo Movimento Cidadão Democracia Real Já!: Ditadura do Estado contra as assembleias massivas [http://pt.internationalism.org/ICConline/2011/Movimento_Cidadao_Democracia_Real_Ja].

[7] Ágora é um lugar público para encontros; uma praça pública, na Grécia Antiga, que servia de comércio e para certos atos políticos e civis (pt.wiktionary.org/wiki/ágora)

[8] Esta citação de Rosa Luxemburgo em Greve de massas, partido e sindicatos (Kairós, 1979, p. 47), refere-se à grande greve do sul da Rússia em 1903, e vem a calhar perfeitamente com o ambiente existente nas assembleias um século depois.

[10] Marx e Engels, A Ideologia alemã. Ed. Boitempo, pag.42.

[12] Teses sobre o movimento dos estudantes da primavera 2006 na França [http://pt.internationalism.org/icconline/2006_estudiantes_franca]

[13] Ao nosso ver, a causa fundamental dessas dificuldades reside nos acontecimentos de 1989, que varreram os regimes do Leste, falsamente identificados como  "socialistas" e que permitiram à burguesia uma campanha esmagadora sobre a  "queda do comunismo", o  "fim da luta de classes", o  "fracasso do marxismo", etc., que afetaram duramente várias gerações operárias. Ver Dificultades creciente para el proletariado, Revista Internacional nº 60.

[14] Recordemos como, na França, entre fevereiro e junho de 1848, também acontece essa "grande festa de todas as classes sociais", o que se romperá com os enfrentamentos de junho, quando o proletariado se baterá com armas na mão contra o Governo Provisório. Igualmente, na revolução russa de 1917, de fevereiro a abril reina o mesmo ambiente de todos unidos sob a bandeira "democracia revolucionária".

[15] Salvo a extrema direita que, levada por seu irrefreável ódio antiproletário, expressava em voz alta o que as demais frações burguesas guardavam para a intimidade de seus escritórios.

[16] Possibilidade dos cidadãos, recolhendo certo número de assinaturas, possam reivindicar leis e reformas ao parlamento.

[17] A democracia se baseia na passividade e atomização da imensa maioria, reduzida a uma soma de indivíduos que quanto mais soberanos se crêem sobre seu próprio Eu, mais indefesos e vulneráveis são. Ao contrário, as Assembleias partem do postulado oposto: os indivíduos são fortes porque se apoiam sobre a "riqueza de seus laços sociais" (Marx) ao se integrar e ser parte ativa de um vasto corpo coletivo.

[18] O que permite introduzir a ideia de que existiria uma repressão "proporcional"!

[19] Pede que se for detectado um "violento" ou um  "suspeito de ser violento" (sic), que seja abordado e condenado publicamente seu  "comportamento".

[20] Sua origem mais remota são as reuniões de distrito na Comuna de Paris, mas é com o movimento revolucionário na Rússia de 1905 que se afirmam e, desde então, aparecem em todo grande movimento de classe sob diferentes formas e nomes: Rússia em 1917, Alemanha em 1918, Hungria em 1919 e 1956, Polônia em 1980... Na Espanha houve em Vigo em 1972 uma Assembleia Geral da cidade que se repetiu em Pamplona em 1973 e Vitória em 1976, para reaparecer de novo em Vigo em 2006. Escrevemos diferentes artigos sobre a origem das Assembleias operárias. Ver em particular a série O que são os Conselhos Operários?, neste endereço: http://pt.internationalism.org/ICConline/2010/O_que_sao_os-Conselhos_Operários

[21] Além disso, em Cádiz a Assembleia Geral organiza um debate sobre a precariedade com grande assistência. Em Cáceres se denuncia a desinformação sobre o movimento na Grécia. Em Almeria se organiza para 15 de julho uma reunião sobre "a situação do movimento operário".

[22] Estas são uma faca de dois gumes: contém como pontos favoráveis a extensão do debate massivo em camadas mais profundas da população trabalhadora e a possibilidade – como já começou a acontecer – de impulsionar Assembleias contra Desemprego e a Precariedade, rompendo a atomização e o sentimento de vergonha que domina muitos trabalhadores precários das pequenas empresas. Mas, simultaneamente, servem para dispersar o movimento, fazê-lo perder o foco nas preocupações globais e encerrá-lo em dinâmicas civis, dão que o bairro – lugar onde convivem operários com pequena burguesia, empresários, etc. – dá mais oportunidade a esse tipo de reivindicação.

[24] Na Coordenação de Assembleias de Bairros e Povoados do Sul de Madri há fundamentalmente Assembleias de trabalhadores de diversos setores, ainda que igualmente participem pequenos sindicatos radicalizados. Ver http://asambleaautonomazonasur.blogspot.com/

[25] A privatização de serviços públicos e caixas de pensões é uma resposta do capitalismo ao agravamento da crise e, mais concretamente, a que os Estados, cada vez mais endividados, vejam-se obrigados a reduzir os gastos, recorrendo para isso à degradação de serviços essenciais de maneira insuportável. No entanto, é importante compreender que a alternativa às privatizações não é a manutenção desses serviços sob a titularidade estatal. Em primeiro lugar, porque os serviços "privatizados" seguem sendo controlados por instituições estatais que subcontratam os serviços a empresas privadas. E, em segundo lugar, porque o Estado e a propriedade estatal não tem nada de "social" ou de "bem estar social". O Estado é um órgão exclusivo e excludente da classe dominante e a propriedade estatal se baseia na exploração assalariada. Este problema começou a se colocar em certos meios operários. Por exemplo, em uma reunião em Valência contra o desemprego e a precariedade. Ver http://www.kaosenlared.net/noticia/cronica-libre-reunion-contra-paro-precariedad

[26] ERE: Expediente de Regulación de Empleo, procedimiento legal para despedir trabajadores temporal o definitivamente.

[28] Ver Huelga del metal en Vigo: los métodos proletarios de lucha, http://es.internationalism.org/ccionline/2006/vigo.htm y Vigo, los métodos sindicales conducen a la derrota, http://es.internationalism.org/node/2585

[29] O que não significa subestimar os graves obstáculos que a natureza intrínseca do capitalismo, baseada na competição até a morte e a desconfiança de todos sobre todos, opõe a este processo de unificação. Isto somente poderá realizar-se ao preço de enormes e complicados esforços baseando-se na luta unitária e massiva da classe operária, uma classe que por ser produtora coletiva e associada das principais riquezas sociais, leva em seu seio a reconstrução do ser social da humanidade.

[30] Ver la serie Mayo 68 y la perspectiva revolucionaria, primera parte http://es.internationalism.org/rint133-mayo68

[31] Ver Las revueltas de la juventud en Grecia confirman el desarrollo de la lucha de clases, http://es.internationalism.org/ri/136_grecia

[32] A censura sobre o que ocorre na Grécia a nível dos movimentos de massa é total, o que dificulta a realização de uma análise. Depois da realização deste artigo, publicamos em nosso site um artigo dos companheiros do TPTG, grupo revolucionário que atua na Grecia: Notas preliminares para un análisis del "Movimiento de asambleas populares": http://es.internationalism.org/notaspreliminares-tptg

[33] Dados recolhidos de Kaosenlared: http://www.kaosenlared.net/

[34] Revista Internacional nº 20, Acerca de la intervención de los revolucionarios, respuesta nuestros censores, http://es.internationalism.org/node/2142

[35] Ver em nossa imprensa os diferentes artigos que pontuam cada um desses movimentos.

[36] Isto não era uma insistência específica da CCI, uma palavra de ordem bastante popular dizia  "Ser realista é ser anti-capitalista", una bandeira sustentava  "O sistema é desumano, sejamos anti-sistema".