O Internacionalismo e a guerra

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Juntamente com correntes burguesas estabelecidas
(como os partidos tradicionais de direita) ou "gestores" da
sociedade burguesa com linguagem "proletária" (tais
como os partidos de esquerdas "social-democratas" e também
comunistas"), a ordem capitalista pode apoiar-se também
sobre organizações de extrema esquerda que não
vacilam em ostentar uma "perspectiva revolucionária".
Assim são as variantes da corrente trotskista cuja linguagem
"radical" não tem outro objetivo do que trazer para
o terreno burguês (seja através das eleições
ou do sindicalismo) os elementos mais combativos do proletariado que
conseguem compreender o papel anti-proletário desses partidos
de esquerda. Igualmente, juntos com os argumentos da burguesia
"oficial" para justificar a participação na
guerra imperialista ("guerra contra o terrorismo", guerra
para "a defesa dos direitos do homem", para o "respeito
do direito internacional"), estão os argumentos que
defendem os grupos trotskistas com o mesmo objetivo: alistar aos
proletários em um ou outro dos campos imperialistas ou levar
para o beco sem saída do pacifismo aclassista que os paralisa
frente às manobras guerreiras da classe dominante. No seio
dessas organizações, certos elementos começam a
entrever o papel obstaculizador que elas vão desempenhando
frente ao desenvolvimento das lutas do proletariado e a sua tomada de
consciência. Entretanto, muitos desses elementos são
incapazes de entender que não é reivindicando-se de um
"verdadeiro trotskismo" que poderão juntar-se ao
campo do proletariado. É assim porque a corrente trotskista,
como um todo, passou para o campo burguês durante a Segunda
Guerra mundial ao participar nela em nome da "luta contra o
fascismo" ou da "defesa da URSS" apresentada como
"Estado operário".

Desde então, o conjunto das variantes da
corrente trotskista tem chamado regularmente aos proletários a
alistar-se (seja de forma "incondicional" ou "crítica")
nas fileiras de tal ou qual campo nas guerras imperialistas,
principalmente em nome do apoio das "lutas de libertação
nacional" contra o "imperialismo", que é
apresentado como uma aplicação das posições
dos bolcheviques e de Lênin sobre a questão nacional.
Assim foi notadamente quando da guerra do Vietnam nos anos 1960-1970
e durante o conflito do Oriente Próximo. Mas recentemente, a
guerra no Iraque, tem sido uma oportunidade a mais para a maior parte
dos grupos trotskistas de demonstrar seu caráter burguês,
chamando a apoiar a "resistência" contra a
intervenção norte-americana nesse país. O Texto
que segue se baseia sobre um documento polêmico redigido contra
um grupo em ruptura, em nome do "verdadeiro trotskismo" e
da "tradição leninista", com uma organização
trotskista na França1.
Nesse texto, evidenciamos, apoiando-nos em várias citações
do próprio Lênin, que as posições
defendidas hoje em dia pelo trotskismo (seja "verdadeiro"
ou "falso") não têm nada a ver com as de
Lênin: Os erros que pôde cometer Lênin sobre a
questão nacional, não o impediram de defender uma
posição internacionalista intransigente durante a
Primeira Guerra Mundial. E além do mais, sentenciou mais
adiante todos os "argumentos" dos trotskistas atuais que
tentam apoiar-se em suas posições errôneas para
fazer contrabandear suas mercadorias burguesas. E se Lênin pôde
antecipar o que o que diriam um dia os trotskistas, é
simplesmente porque os argumentos que utilizam são do mesmo
tipo que os social-patriotas da Primeira Guerra Mundial, o seja
aqueles setores da social-democracia "socialistas em palavras e
patrioteiros em seus atos" que tanto ajudaram a burguesia
alistando o proletariado na matança mundial.

A história do século XX demonstrou com
clareza que o critério primordial que define a identidade de
classe de uma verdadeira organização que se reivindica
do proletariado é o internacionalismo. Não foi por
casualidade se foram as mesmas correntes que haviam pronunciado
claramente contra a guerra imperialista em 1914 e que haviam
impulsionado as conferências de Zimmerwald e Khiental (os
bolcheviques e os espartaquistas, sobretudo) as que voltamos a
encontrar depois à frente da revolução, enquanto
as correntes social-chauvinistas e incluídas centristas
(Ebert-Scheidemann, ou os mencheviques) constituíram a linha
avançada da contra-revolução. Não é
tão pouco casual se a consigna "Proletários de
todos os países! Uni-vos!" a que conclui não só
o Manifesto comunista de 1848, senão também ao
chamamento inaugural da AIT em 1864.

Hoje, quando as guerras não param de fazer
estragos por todas as partes do planeta, a defesa do
internacionalismo continua sendo o critério decisivo de
pertencimento de uma organização ao campo da classe
proletária. Diante dessas guerras, a única atitude em
conformidade com os interesses de nossa classe é a de
rechaçar toda participação em um ou outro dos
campos antagônicos, denunciar todas as forças burguesas
que chamam aos proletários seja sob qual pretexto, a que
entreguem as suas vidas a um ou outro campo capitalista, apontar
como fizeram os bolcheviques em 1914, á única
perspectiva: a da luta de classes intransigente pela derrubada do
capitalismo.

Adotar qualquer outra atitude, em particular que
leve aos proletários que se alistem em um ou outro campo
militar antagônico, significa transformar-se em recrutadores da
guerra capitalista, em cúmplices da burguesia e, portanto, em
traidor. E do mesmo modo que Lênin e os bolcheviques
consideraram os social-democratas, quem em nome da luta contra o
"militarismo prussiano" uns, e contra a "pressão
tzarista" outros, chamaram os proletários a matarem-se
mutuamente em 1914. É precisamente essa política
nacionalista denunciada por Lênin a que adota o trotskismo em
geral frente à guerra no Iraque, apesar de todas as boas
intenções que podem ostentar certas de seus correntes.

O Apoio a "resistência
iraquiana" uma consigna burguesa

A consigna de apoio "incondicional a resistência armada
do povo iraquiano diante do invasor", é chamar os
proletários do Iraque a converter-se em bucha de canhão
a serviço dos setores da sua burguesia nacional que concebem
hoje a defesa de seus interesses imperialistas fora e contra da
aliança com os Estados Unidos (embora outros setores burgueses
considerem preferível aliar-se aos Estados Unidos, na defesa
de seus interesses). Cabe destacar que os setores dominantes da
burguesia iraquiana (que durante décadas estiveram em apoio a
Saddam Hussein) puderam ser, segundo as circunstâncias, os
melhores aliados dos Estados Unidos, (especialmente na guerra contra
o Iran durante os anos 1980) ou pertencer ao "eixo do mal"
que supostamente desejaria acabar com a potência estadunidense.

Para justificar sua política de apoio a um
dos setores da burguesia iraquiana, correntes no seio do trotskismo
invocam a posição defendida por Lênin durante a
Primeira Guerra Mundial quando em O socialismo e a guerra,
escrevia, por exemplo, "...se amanhã Marrocos declara
a guerra à França, Índia à Inglaterra,
Pérsia ou China à Rússia, etc.(...) todo
socialista desejaria a vitória dos estados oprimidos,
dependentes, amputados em seus direitos, sobre as `grandes` potências
opressoras, escravistas, espoliadoras
" (Cap.I, Os
princípios do socialismo e a guerra de 1914-1915
)

O que esquecem constantemente, entretanto (quando
não o ocultam deliberadamente) é precisamente que um
dos eixos essenciais desse texto fundamental de Lênin (como, em
outras partes dos demais textos escritos nessa época) é
o de denunciar ferozmente os pretextos utilizados pelas correntes
social-chauvinistas para justificar seu apoio à guerra
imperialista, pretextos esses baseados na "independência
nacional" de tal ou qual país ou nacionalidade.

Assim Lênin afirma por um lado que: "Na
realidade, a burguesia alemã empreendeu uma guerra de rapina
contra a Sérvia para submeter y subjugar a revolução
nacional dos Eslavos do Sul....
" (A guerra e a
social-democracia russa).
Escreve também que: "O
elemento nacional na guerra atual só está representado
pela guerra da Sérvia contra Áustria (...) Só na
Sérvia e entre os sérvios existe um movimento de
liberação nacional velho já desde muitos anos,
que aglutina milhões de indivíduos entre as "massas
populares" e cuja "prolongação" é
a guerra da Sérvia contra Áustria. Se esta guerra
estivesse isolada, o seja, se não estivesse vinculada à
guerra européia em geral, as pretensões egoístas
e espoliadoras da Inglaterra, da Rússia e demais, todos os
socialistas estariam obrigados a desejar a vitória da
burguesia sérvia - isto é a única conclusão
justa e totalmente necessária que possa extrair-se do fator
nacional na guerra atual
". E, não obstante,
prossegue: "A dialética de Marx, que é a
expressão mais acabada do método evolucionista
científico, exclui precisamente o exame isolado, ou seja,
unilateral e deformado, do objeto estudado. O fator nacional na
guerra Sérvio-austríaca não tem nem pode ter a
menor importância séria na guerra européia geral.
Se vencer Alemanha, esta tragará a Bélgica, uma parte
da Polônia outra vez, quem sabe uma parte da França,
etc. Se a Rússia for vitoriosa tragará a Galícia
, parte da Polônia outra vez, Armênia etc. Se a partida
acaba "na mesa" permanecerá a antiga opressão
nacional. Para a Sérvia, ou seja, para mais ou para menos uma
centésima parte dos beligerantes na guerra atual, esta é
a "continuação da política" do
movimento de libertação nacional burguês. Para
99%, a guerra é a continuação da política
da burguesia imperialista, quer dizer, algo caduco, capaz de
corromper as nações, e nem muito menos redimi-las. A
Entente, ao "liberar" a Sérvia, vende os interesses
da liberdade Sérvia ao imperialismo italiano em troca do seu
apoio ao saque da Áustria. Tudo isso, de notoriedade pública,
tem sido deformado sem escrúpulos por Kautsky para justificar
aos oportunistas
" (Falência da II Internacional,
Cap.6 – tradução nossa).

Recordemos a propósito da Sérvia de
1914 que o partido socialista desse país (e por isso foi
saudado por todos os internacionalistas de ontem) se negou por
completo e denunciou a "resistência do povo sérvio
contra o invasor austríaco
" e isso que este estava
naquele momento bombardeando a população civil de
Belgrado.

Voltando para a atualidade, "é de
notoriedade pública" (e podemos acrescentar que os que
não o reconhecem não fazem nada além do que
"deformar sem escrúpulos a realidade") que a guerra
levada a cabo pelos Estados Unidos e Inglaterra contra o Iraque em
2003 (igualmente a guerra desencadeada em agosto de 1914 pela Áustria
e Alemanha contra a "pequena Sérvia") tem
repercussões imperialistas que superam em muito ao Iraque.
Concretamente, frente aos países da "coalizão",
tem um grupo de países como França e Alemanha cujos
interesses são antagônicos daqueles. Por isso, esses
dois países fizeram tudo para impedir a intervenção
norte-americana no Iraque e, desde então negaram a enviar
qualquer tipo de tropas ao Iraque. E o fato de votarem na ONU em 2004
a favor de uma resolução apresentada pelos Estados
Unidos e Inglaterra, não significa outra coisa que os acordos
diplomáticos, com as discórdias, não são
senão outros momentos da guerra disfarçada que travam
as grandes potências.

Por maiores que sejam o número de declarações
de amizade que façam, tão alardeadas, sobretudo por
ocasião do aniversário do desembarque de junho de 1944,
o imperialismo francês tira vantagens diante das dificuldades
que possam encontrar os Estados Unidos, no Iraque. Em resumo, no que
desemboca o apoio a "resistência do povo iraquiano"
é fazer o jogo da burguesia dos países cujos interesses
são antagônicos ao dos Estados Unidos . Aqui já
se torna impossível a um trotskista francês ou alemão
invocar Lênin para justificar essa política, pois ele
conclamava para "....combater em primeiro lugar o chauvinismo
de "sua própria" burguesia
" (A situação
e as tarefas da internacional socialista
, 1/11/1914 - Tradução
nossa)

Qualquer um que deseje seguir o exemplo de Lênin
na defesa do internacionalismo tem de aceitar a evidência e
deixar de contar estórias de fadas: o apoio a "resistência
do povo iraquiano contra o invasor
" é pura e
simplesmente uma traição ao internacionalismo e é,
portanto, uma política chauvinista antiproletária. Foi
contra semelhante política, que Lênin escreveu: "Os
social-chauvinistas fazem sua a mistificação do povo
por parte da burguesia, segundo a qual a guerra seria feita pela
defesa da liberdade e da existência de nações,
colocando-se assim ao lado da burguesia contra o proletariado
"
(O socialismo e a guerra, cap.1 - tradução
nossa)

Isso dito, o apoio à "resistência
do povo iraquiano", seja aos setores antiamericanos da burguesia
iraquiana, não é só uma traição ao
internacionalismo proletário desde o enfoque do que representa
o Iraque nos antagonismos entre grandes potências
imperialistas. Ou seja, que não só é uma traição
ao internacionalismo a respeito aos proletários dessas
potências. O é também para com os proletários
iraquianos a que se quer vender gato por lebre, chamando-lhes a
deixar-se matar em defesa dos interesses imperialistas da sua
burguesia. Tem que deixar de contar novelas: o Estado iraquiano é
imperialista. Na realidade, no mundo atual, todos os Estados são
imperialistas, desde o mais poderoso até o menor deles. Assim
a "pequena Sérvia", cuja história lhe havia
transformado em uma das presas favoritas dos apetites imperialistas
de potências maiores como a Alemanha ou Rússia (passando
pela França) tinha se comportado, durante os anos 90, em
Estado imperialista modelo, a base de matanças e "limpezas
étnicas" para construir a "Grande Sérvia"
a expensas de outras nacionalidades da antiga Iugoslávia.
Tudo isso está claro, em um contexto dominado pelo antagonismo
entre as diferentes potências que defendiam seja a Croácia
(Alemanha e Áustria), seja a Bósnia (Estados Unidos) ou
seja Sérvia (França e Inglaterra).

O Estado Iraquiano não é uma exceção
na realidade do mundo atual. Nem muito menos. É pelo
contrário, uma ilustração das mais
significativas.

Com efeito, desde a sua independência da
esfera britânica, depois da Segunda Guerra Mundial, o estado
Iraquiano, pelo lugar que ocupa e pelos seus recursos petrolíferos,
não tem deixado nunca de ser um ponto central nas rivalidades
entre as grandes potências. "Cliente" durante certo
tempo da URSS, se voltou para a aliança ocidental
(particularmente com uma aproximação espetacular com
Alemanha e, sobretudo com a França) durante os anos 70 quando
a influência soviética retrocedeu no Oriente Médio.
Entre 1980 e 1988, em uma das guerras mais longas e mortíferas
(1.200.000 mortos) desde 1945, o Iraque foi a frente avançada
da ofensiva dos países ocidentais contra o Iran de Komeini, o
qual havia chamado a guerra santa contra o "Grande Satã"
norte-americano. As potências ocidentais, especialmente os
Estados Unidos, deram apoio irrestrito ao Iraque, a partir do verão
de 1987, sobretudo, mandando ao Golfo Pérsico uma importante
frota que enfrentou cotidianamente as forças do Iran,
obrigando este país a aceitar cessar as hostilidades durante o
verão de 1988, enquanto, antes disso havia infligido pungentes
derrotas ao Iraque.

Está claro que não foi por amor aos
Estados Unidos, que Saddam Hussein mandou centenas de milhares de
proletários e campesinos uniformizados deixar-se matar na
frente iraniana a partir de 1980 (e que de passagem exterminou com
utilização de gás 5.000 civis curdos em um só
dia, em 16 de março de 1988 em Halabia). Na realidade a
burguesia iraquiana tinha seus próprios objetivos na guerra ao
lançar-se no conflito. Além do mais de submeter pelo
terror a população curda e xiita, queria apoderar-se do
Chat Al Arab (estuário dos rios Eufrates e Tigre) que o Iran
controlava. Ademais, a guerra devia permitir ao Iraque e Saddam
Hussein ocupar a liderança do mundo árabe. Em resumo,
uma guerra plenamente imperialista.

A guerra de 1990/91 foi, por sua parte, da mesma
índole. Temos colocado constantemente em evidência e
temos denunciado amplamente os objetivos imperialistas dos Estados
Unidos e seus aliados de então na operação
"Tempestade no deserto". Porém o acontecimento que
serviu de pretexto para a cruzada contra o Iraque foi a invasão
do Kuwait por esse país durante em julho de 1990.
Evidentemente, não se trata para os marxistas de entrar em
considerações de saber quem era o "agressor"
e quem era o "agredido", nem passar a defender o xeique
Yaber e a sua conta bancária ou suas reservas petrolíferas.
Isso dito, a operação militar de agosto de 1990 do
Iraque contra Kuwait foi a de um bandido imperialista contra outro
bandido imperialista (empregando a terminologia que tanto gostava
Lênin). Embora fossem bandidos não muda em nada a
natureza profunda da sua política nem da que deve ter o
proletariado a respeito deste tipo de conflitos.

Um último comentário a respeito da
natureza imperialista dos Estados do mundo atual.

Um dos argumentos apresentados constantemente para
apoiar a idéia de um Estado como o Iraque que não
seria imperialista, é que não exporta capitais. Este
argumento pretende estar em conformidade com a análise
desenvolvida por Lênin em sua obra O imperialismo, fase
suprior do capitalismo
, que insiste muito especialmente a esse
respeito de política imperialista. Na realidade, a exploração
que fazem os epígonos dessa visão unilateral do
imperialismo para justificar suas traições ao
internacionalismo é do mesmo tipo que fazem os estalinistas de
uma frase (totalmente isolada de seu contexto por demais) de um
artigo de Lênin escrito durante a Primeira Guerra mundial.

"A desigualdade do desenvolvimento econômico
e político é uma lei absoluta do capitalismo. Daqui se
deduz que é possível que o socialismo seja vitorioso
primeiramente em uns quantos países capitalistas e inclusive
um só país capitalista. O proletariado triunfante desse
país depois de expropriar os capitalistas e organizar a
produção socialista dentro de suas fronteiras, se
enfrentaria com o resto do mundo, com o mundo capitalista atraindo
para o seu lado as classes oprimidas dos demais países,
levantando com eles a insurreição contra os
capitalistas, empregando, caso necessário, inclusive a força
das armas contra as classes exploradoras e seus estados
" (A
propósito da consigna dos Estados Unidos de Europa
. Obras
escolhidas I - tradução nossa).

Para os estalinistas (que em geral "se
esquecem" de la última frase desta mesma citação),
"Foi este o maior descobrimento da época e passou a ser o
princípio diretor de toda atividade do Partido Comunista, de
toda sua luta pela vitória da revolução
socialista e da edificação do socialismo em nosso país.
A doutrina de Lênin acerca da possibilidade da vitória
do socialismo em um só país ofereceu ao proletariado
uma clara perspectiva de luta, liberou a energia e a iniciativa dos
proletários de cada país para o embate contra sua
burguesia nacional y dotou o partido e a classe operária de
uma segurança, cientificamente fundamentada, na vitória."
(Instituto de marxismo-leninismo del C.C. del P.C.U.S;, Prefacio das
obras escogidas de Lênin, Moscú, 1961 - tradução
nossa)

O Trotskismo é
a estrema esquerda do capital

O Método não é novo. Sempre foi
empregado pelos falsificadores do marxismo, e pelos renegados. Os
social-democratas alemães se apoiaram em tal ou qual fórmula
errônea ou ambígua do marxismo para justificar sua
política reformista e sua traição ao socialismo.
Em especial abusaram sem cessar da citação de Engels
retirada de seu prefácio de 1895 do folheto de Marx, A
luta de classes na França
:

"Como Marx previu, a guerra de 1870-1871 e a
derrota da Comuna desprezaram no momento, da França para
Alemanha, o centro de gravidade do movimento operário europeu.
Na França, naturalmente, necessitava anos para recomporse da
sangria de maio de 1871. Em troca, na Alemanha, onde a indústria
– impulsionada como uma planta de estufa pelos milhares e milhões
pagos pela França – se desenvolvia cada vez mais
rapidamente, a social-democracia crescia mais depressa e com mais
persistência. Graças a inteligência com que os
operários alemães souberam utilizar o sufrágio
universal, implantando em 1866, o crescimento assombroso do partido
aparece em cifras indiscutíveis aos olhos do mundo inteiro,
(...) Porém com este eficaz emprego do sufrágio
universal entrava em ação um método de luta do
proletariado totalmente novo, método de luta que se seguiu
desenvolvendo rapidamente. Se viu que as instituições
estatais nas quais se organizava a dominação da
burguesia ofereciam novas possibilidades à classe operária
para lutar contra essas mesmas instituições. E se tomou
parte nas eleições às dietas provinciais, nos
organismos municipais, e os tribunais de artesãos, se disputou
a burguesia cada posto, e na distribuição das funções,
uma parte suficiente do proletariado mesclava com sua voz. E assim se
deu o caso de que a burguesia e o Governo chegassem a temer muito
mais a atuação legal que a atuação ilegal
do partido operário, mas os êxitos eleitorais que os
êxitos insurreicionais
" (tradução
nossa).

E foi esta utilização de uma citação
errônea de Engels, que Rosa Luxemburgo denunciou na tribuna do
Congresso de fundação do Partido Comunista Alemão:

"Engels não viveu o tempo suficiente
para ver os resultados, as conseqüências políticas
do uso que se fez de seu prefácio, da sua teoria. Porém
estou segura de uma coisa: quando se conhece as obras de Marx e de
Engels, quando se conhece o espírito revolucionário
vivo, autêntico, inalterado que emana de todos os seus
escritos, de todos seus ensinamentos, estou convencida de que Engels
teria sido o primeiro a protestar contra os excessos resultantes do
parlamentarismo puro e simples; o movimento operário na
Alemanha cedeu a corrupção e a degradação
muito antes do 4 de agosto, pois o 4 de agosto não caiu dos
céus, não foi uma viragem inesperada, senão a
continuação lógica das experiências que
havíamos feito anteriormente, dia após dia, ano após
ano. Engels e inclusive Marx – se tivessem vivido haveriam de ser
os primeiros a erguer-se violentamente contra isso, para deter,
freiar brutalmente o veículo no sentido de impedir que se
metessem no lamaçal. Porém Engels faleceu no mesmo
ano em que escreveu o prefácio" (Rosa Luxemburgo, "Nosso
programa e a situação política
",
Relatório para o congresso de fundação do
P.C.A. - tradução nossa).

Voltando a idéia de que a única
manifestação de uma política imperialista seria
a exportação de capitais, temos que precisar que essa
idéia não está no livro de Lênin, O
imperialismo fase superior do capitalismo
. Muito pelo contrário,
já que escreve: "Aos numerosos "antigos"
móbiles da política colonial, o capital financeiro (que
é segundo Lênin o motor principal do imperialismo) tem
acrescentado a luta pelos recursos em matérias primas, pela
exportação de capitais por "zonas de influência"
- quer dizer pelas zonas de transações vantajosas, de
concessões, de obtenções de monopólio,
etc., - e por fim, pelo território econômico em geral
"
(O imperialismo, fase suprema do capitalismo, cap. X. –
tradução nossa)

Na realidade, esta deformação
unilateral da análise do imperialismo de Lênin tinha um
objetivo da mesma ordem que a interpretação feita pelos
estalinistas da curta passagem citada acima, sobre a "edificação
do socialismo em um só país": tentar fazer
acreditar que o sistema que se instaurou na URSS depois da revolução
de outubro de 1917, uma vez fracassada a onda revolucionária
mundial que a seguiu, não tinha nada de capitalista nem
imperialista. Como a URSS não possuía os meios
financeiros de exportar capital (já que ocupava uma posição
ridícula comparada com a a das potências ocidentais), a
política que levava a cabo não podia ser
imperialista
, segundo tal concepção. E isso incluiu
quando essa política consistia na conquista territorial, na
ampliação das suas "zonas de influência",
no saque das matérias primas e de recursos agrícolas, e
até a desmontagem pura e simples das instalações
dos paises ocupados. Na realidade, a política da URSS foi
muito parecida a da Alemanha naziista na Europa ocupada (de onde
houve muito pouco capital exportado e sim muitos saques, pura e
simplesmente). Evidentemente, tal análise do imperialismo era
o “pão bendito" para a propaganda estalinista contra
quem denunciava as ações imperialistas do Estado
soviético. Porém cabe recordar que os estalinistas não
eram os únicos a rechaçar qualquer idéia que a
URSS fosse capitalista ou imperialista. Em sua mentirosa montagem
receberam o idefectível apoio do movimento trotskista com a
análise desenvolvida por Trotsky que apresentava a URSS como
um "Estado operário degenerado" no qual haviam
desaparecido as relações de produção
capitalistas.

Não é a intenção deste
texto tentar demonstrar a inconsistência da análise de
trotsky sobre as relações de produção na
URSS. Recomendamos a respeito diferentes artigos publicados na nossa
Revista internacional, especialmente "La classe não
identificada, a burocracia soviétiva vista por Trotsky
"
(Revista internacional nº92). É importante,
entretanto, sublinhar que foi, sobretudo, em nome da "defesa da
URSS y das suas conquistas operárias" que o movimento
trotskista apoiou o campo dos aliados durante a Segunda Guerra
Mundial, participando, em particular, nos movimentos de
"resistência", ou seja adotando a mesma política
dos sociais chauvinistas de 1914. Em outras palavras, traiu o campo
da classe operária aliando-se ao da burguesia.

E que os "argumentos" empregados pela
corrente trotskista para apoiar a participação na
guerra imperialista não foram idênticos a dos sociais
chauvinistas da Primeira Guerra, não muda em nada o fundo do
problema. Na realidade, eram da mesma natureza posto que ambos
chamassem a fazer uma diferença fundamental entre duas formas
de capitalismo e apoiar a uma delas em nome do "mal menor".
Na Primeira Guerra Mundial, os chauvinistas comprovados chamavam a
defender a pátria. Os social-chauvinistas chamavam, uns a
defender a "civilização alemã" contra
o "despotismo do Tzar", e outros a "França da
Grande Revolução" contra o "militarismo
prussiano", Na segunda Guerra Mundial, junto com De Gaulle que
defendia a "França eterna", os estalinistas (que
também se referiam, por certo, a essa "França
eterna") conclamavam para defender a democracia contra o
fascismo e a defender a "pátria do socialismo". Por
sua parte, os trotskistas seguiram os passos dos estalinistas
conclamando participar da "Resistência" em nome da
"defesa das conquistas operárias da URSS". Desse
modo, como os estalinistas, se converteram em recrutadores para o
campo anglo-norteamericano na guerra imperialista.

Foi dando o seu apoio à união sagrada
na Primeira Guerra Mundial que os partidos socialistas acertaram seu
passo para o campo da burguesia. Foi adotando a teoria da "edificação
do socialismo em um só país" que os partidos
estalinistas deram o passo decisivo a caminho para o campo do capital
nacional, passo que foi arrematado com o seu apoio aos esforços
de rearmamento das suas burguesias nacionais respectivas e a
preparação ativa para a guerra que se anunciava. Foi a
sua participação na 2ª. Guerra mundial que
assinalou a passagem da corrente trotskista para o campo do capital.
Por isso não pode haver outra alternativa, se pretende
retornar ao terreno de classe do proletariado, senão a de
romper com o trotskismo e desde já não pretendendo
voltar ao "trotskismo verdadeiro". Isso foi o que
compreenderam as correntes no seio da IV Internacional que quiseram
manter-se em uma oposição internacionalista, correntes
como a de Munis (representante oficial do trotskismo na Espanha), a
de Scheuer na Austria, de Stinas na Grécia, Socialismo ou
Barbárie na França. Também foi o caso da própria
viúva de Trotsky, Natália Sedova, que rompeu com a IV
Internacional depois da Segunda Guerra mundial sobre a questão
da defesa da URSS e da participação, em nome desta
defesa, na guerra imperialista.

Qualquer um que deseje sinceramente levar a cabo um
combate junto ao proletariado, não poderá evitar a
ruptura clara com a corrente trotskista e não só com
esta ou aquela organização da dita corrente.

Uma vez mais, o problema seja quais voltas queiram
dar, se pode invocar a Trotsky, a Lênin, inclusive Marx,
recitar de memória tal passagem de O imperialismo, fase
superior do capitalismo
; pode ou não tapar os olhos ou os
ouvidos, ou ambos ao mesmo tempo; pode ou não enfiar a cabeça
na areia ou em outra parte, nada poderá mudar a dura
realidade: um grupo que hoje na França, apóia a
"resistência Iraquiana", não só é
recrutador para transformar em bucha de canhão os proletários
iraquianos a serviço de um dos setores (seja xiitas ou
sunitas) entre os mais retógrados da burguesia iraquiana, além
do mais aporta um apoio garantindo aos interesses imperialistas da
sua própria burguesia nacional quando esta se opõe como
hoje é o caso da Alemanha, França ou Espanha, às
aspirações norte americanas.. Inclusive quando o setor
dominante da burguesia de um país apóia essas
aspirações, como é o caso da Itália
atualmente, semelhante grupo não faz senão cultivar os
sentimentos nacionalistas anti-americanos dos proletários
desse país. Em todo caso, este grupo está usurpando o
qualificativo comunista ou de internacionalista. No que é
diferente dos que Lênin intitulava de social-chauvinistas:
socialistas em palavras, patrioteiros e burgueses nas atitudes.

E quanto aos argumentos de cores "marxista"
enfeitados com tal ou qual frase de Lênin ou inclusive de Marx
para justificar a participação na guerra imperialista,
Lênin já respondeu de antemão:

"De libertador de nações que
foi o capitalismo na luta contra o regime feudal, o capitalismo
imperialista se converteu no maior opressor de nações.
Antigo fator de progresso, o capitalismo se tornou reacionário:
tendo desenvolvido.lia Sedova que rompeu com a IVa.omo a de
Munis(representante oficial do trotskismo na Espanha) a de Scheuer na
Austria,m o seu a um tal grau as forças produtivas que a
humanidade já não resta senão passar ao
socialismo, ou se não, sofrer durante anos, décadas
inclusive, a luta armada das "grandes" potências pela
manutenção artificial do capitalismo graças às
colônias, aos monopólios, aos privilégios e
opressões nacionais de todo tipo
" (Os princípios
do socialismo e a guerra de 1914-1915
– "A guerra atual é
uma guerra imperialista"– tradução nossa).

"Os social chauvinistas russos (Plejánov
a cabeça) invocam a tática de Marx na guerra de 1870;
os social-chauvinistas alemães (estilo Lensch, David y cia.)
invocam as declarações de Engels em 1891 sobre a
necessidade, para os socialistas, de defender a pátria em caso
de guerra contra a Rússia e a França reunidas; por fim
os social-chauvinistas estilo Kautsky, desejosos de transigir com o
chauvinismo internacional e dar-lhe legitimidade, invocam que o fato
que Marx e Engels, ainda condenando as guerras, se colocaram cada
vez, entretanto, desde 1854-1855 a 1870-1871 e em 1876-1877, do lado
de tal ou qual Estado beligerante, uma vez iniciado o conflito. Todas
essas referências deformam de uma maneira revoltante as idéias
de Marx e de Engel por sua complacência diante da burguesia e
dos oportunistas (...) invocar hoje a atitude de Marx diante das
guerras da época da burguesia progressista y esquecer das
palavras das palavras de Marx: "Os proletários não
tem pátria", palavras que se referem precisamente à
época da burguesia reacionária cujo tempo havia
caducado, à época da revolução
socialista, é deformar cinicamente o pensamento de Marx,
substituindo o enfoque socialista pelo burguês" (O
socialismo e a guerra, cap.1– tradução nossa).

CCI (junho de 2004)


[1]
Groupe communiste révolutionnaire internationaliste, ruptura
do partido trotskista francês Parti des travailleurs.

Herança da Esquerda comunista: