O Internacionalismo e a guerra

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Juntamente com correntes burguesas estabelecidas (como os partidos tradicionais de direita) ou "gestores" da sociedade burguesa com linguagem "proletária" (tais como os partidos de esquerdas "social-democratas" e também comunistas"), a ordem capitalista pode apoiar-se também sobre organizações de extrema esquerda que não vacilam em ostentar uma "perspectiva revolucionária". Assim são as variantes da corrente trotskista cuja linguagem "radical" não tem outro objetivo do que trazer para o terreno burguês (seja através das eleições ou do sindicalismo) os elementos mais combativos do proletariado que conseguem compreender o papel anti-proletário desses partidos de esquerda. Igualmente, juntos com os argumentos da burguesia "oficial" para justificar a participação na guerra imperialista ("guerra contra o terrorismo", guerra para "a defesa dos direitos do homem", para o "respeito do direito internacional"), estão os argumentos que defendem os grupos trotskistas com o mesmo objetivo: alistar aos proletários em um ou outro dos campos imperialistas ou levar para o beco sem saída do pacifismo aclassista que os paralisa frente às manobras guerreiras da classe dominante. No seio dessas organizações, certos elementos começam a entrever o papel obstaculizador que elas vão desempenhando frente ao desenvolvimento das lutas do proletariado e a sua tomada de consciência. Entretanto, muitos desses elementos são incapazes de entender que não é reivindicando-se de um "verdadeiro trotskismo" que poderão juntar-se ao campo do proletariado. É assim porque a corrente trotskista, como um todo, passou para o campo burguês durante a Segunda Guerra mundial ao participar nela em nome da "luta contra o fascismo" ou da "defesa da URSS" apresentada como "Estado operário".

Desde então, o conjunto das variantes da corrente trotskista tem chamado regularmente aos proletários a alistar-se (seja de forma "incondicional" ou "crítica") nas fileiras de tal ou qual campo nas guerras imperialistas, principalmente em nome do apoio das "lutas de libertação nacional" contra o "imperialismo", que é apresentado como uma aplicação das posições dos bolcheviques e de Lênin sobre a questão nacional. Assim foi notadamente quando da guerra do Vietnam nos anos 1960-1970 e durante o conflito do Oriente Próximo. Mas recentemente, a guerra no Iraque, tem sido uma oportunidade a mais para a maior parte dos grupos trotskistas de demonstrar seu caráter burguês, chamando a apoiar a "resistência" contra a intervenção norte-americana nesse país. O Texto que segue se baseia sobre um documento polêmico redigido contra um grupo em ruptura, em nome do "verdadeiro trotskismo" e da "tradição leninista", com uma organização trotskista na França1. Nesse texto, evidenciamos, apoiando-nos em várias citações do próprio Lênin, que as posições defendidas hoje em dia pelo trotskismo (seja "verdadeiro" ou "falso") não têm nada a ver com as de Lênin: Os erros que pôde cometer Lênin sobre a questão nacional, não o impediram de defender uma posição internacionalista intransigente durante a Primeira Guerra Mundial. E além do mais, sentenciou mais adiante todos os "argumentos" dos trotskistas atuais que tentam apoiar-se em suas posições errôneas para fazer contrabandear suas mercadorias burguesas. E se Lênin pôde antecipar o que o que diriam um dia os trotskistas, é simplesmente porque os argumentos que utilizam são do mesmo tipo que os social-patriotas da Primeira Guerra Mundial, o seja aqueles setores da social-democracia "socialistas em palavras e patrioteiros em seus atos" que tanto ajudaram a burguesia alistando o proletariado na matança mundial.

A história do século XX demonstrou com clareza que o critério primordial que define a identidade de classe de uma verdadeira organização que se reivindica do proletariado é o internacionalismo. Não foi por casualidade se foram as mesmas correntes que haviam pronunciado claramente contra a guerra imperialista em 1914 e que haviam impulsionado as conferências de Zimmerwald e Khiental (os bolcheviques e os espartaquistas, sobretudo) as que voltamos a encontrar depois à frente da revolução, enquanto as correntes social-chauvinistas e incluídas centristas (Ebert-Scheidemann, ou os mencheviques) constituíram a linha avançada da contra-revolução. Não é tão pouco casual se a consigna "Proletários de todos os países! Uni-vos!" a que conclui não só o Manifesto comunista de 1848, senão também ao chamamento inaugural da AIT em 1864.

Hoje, quando as guerras não param de fazer estragos por todas as partes do planeta, a defesa do internacionalismo continua sendo o critério decisivo de pertencimento de uma organização ao campo da classe proletária. Diante dessas guerras, a única atitude em conformidade com os interesses de nossa classe é a de rechaçar toda participação em um ou outro dos campos antagônicos, denunciar todas as forças burguesas que chamam aos proletários seja sob qual pretexto, a que entreguem as suas vidas a um ou outro campo capitalista, apontar como fizeram os bolcheviques em 1914, á única perspectiva: a da luta de classes intransigente pela derrubada do capitalismo.

Adotar qualquer outra atitude, em particular que leve aos proletários que se alistem em um ou outro campo militar antagônico, significa transformar-se em recrutadores da guerra capitalista, em cúmplices da burguesia e, portanto, em traidor. E do mesmo modo que Lênin e os bolcheviques consideraram os social-democratas, quem em nome da luta contra o "militarismo prussiano" uns, e contra a "pressão tzarista" outros, chamaram os proletários a matarem-se mutuamente em 1914. É precisamente essa política nacionalista denunciada por Lênin a que adota o trotskismo em geral frente à guerra no Iraque, apesar de todas as boas intenções que podem ostentar certas de seus correntes.

O Apoio a "resistência iraquiana" uma consigna burguesa

A consigna de apoio "incondicional a resistência armada do povo iraquiano diante do invasor", é chamar os proletários do Iraque a converter-se em bucha de canhão a serviço dos setores da sua burguesia nacional que concebem hoje a defesa de seus interesses imperialistas fora e contra da aliança com os Estados Unidos (embora outros setores burgueses considerem preferível aliar-se aos Estados Unidos, na defesa de seus interesses). Cabe destacar que os setores dominantes da burguesia iraquiana (que durante décadas estiveram em apoio a Saddam Hussein) puderam ser, segundo as circunstâncias, os melhores aliados dos Estados Unidos, (especialmente na guerra contra o Iran durante os anos 1980) ou pertencer ao "eixo do mal" que supostamente desejaria acabar com a potência estadunidense.

Para justificar sua política de apoio a um dos setores da burguesia iraquiana, correntes no seio do trotskismo invocam a posição defendida por Lênin durante a Primeira Guerra Mundial quando em O socialismo e a guerra, escrevia, por exemplo, "...se amanhã Marrocos declara a guerra à França, Índia à Inglaterra, Pérsia ou China à Rússia, etc.(...) todo socialista desejaria a vitória dos estados oprimidos, dependentes, amputados em seus direitos, sobre as `grandes` potências opressoras, escravistas, espoliadoras" (Cap.I, Os princípios do socialismo e a guerra de 1914-1915)

O que esquecem constantemente, entretanto (quando não o ocultam deliberadamente) é precisamente que um dos eixos essenciais desse texto fundamental de Lênin (como, em outras partes dos demais textos escritos nessa época) é o de denunciar ferozmente os pretextos utilizados pelas correntes social-chauvinistas para justificar seu apoio à guerra imperialista, pretextos esses baseados na "independência nacional" de tal ou qual país ou nacionalidade.

Assim Lênin afirma por um lado que: "Na realidade, a burguesia alemã empreendeu uma guerra de rapina contra a Sérvia para submeter y subjugar a revolução nacional dos Eslavos do Sul...." (A guerra e a social-democracia russa). Escreve também que: "O elemento nacional na guerra atual só está representado pela guerra da Sérvia contra Áustria (...) Só na Sérvia e entre os sérvios existe um movimento de liberação nacional velho já desde muitos anos, que aglutina milhões de indivíduos entre as "massas populares" e cuja "prolongação" é a guerra da Sérvia contra Áustria. Se esta guerra estivesse isolada, o seja, se não estivesse vinculada à guerra européia em geral, as pretensões egoístas e espoliadoras da Inglaterra, da Rússia e demais, todos os socialistas estariam obrigados a desejar a vitória da burguesia sérvia - isto é a única conclusão justa e totalmente necessária que possa extrair-se do fator nacional na guerra atual". E, não obstante, prossegue: "A dialética de Marx, que é a expressão mais acabada do método evolucionista científico, exclui precisamente o exame isolado, ou seja, unilateral e deformado, do objeto estudado. O fator nacional na guerra Sérvio-austríaca não tem nem pode ter a menor importância séria na guerra européia geral. Se vencer Alemanha, esta tragará a Bélgica, uma parte da Polônia outra vez, quem sabe uma parte da França, etc. Se a Rússia for vitoriosa tragará a Galícia , parte da Polônia outra vez, Armênia etc. Se a partida acaba "na mesa" permanecerá a antiga opressão nacional. Para a Sérvia, ou seja, para mais ou para menos uma centésima parte dos beligerantes na guerra atual, esta é a "continuação da política" do movimento de libertação nacional burguês. Para 99%, a guerra é a continuação da política da burguesia imperialista, quer dizer, algo caduco, capaz de corromper as nações, e nem muito menos redimi-las. A Entente, ao "liberar" a Sérvia, vende os interesses da liberdade Sérvia ao imperialismo italiano em troca do seu apoio ao saque da Áustria. Tudo isso, de notoriedade pública, tem sido deformado sem escrúpulos por Kautsky para justificar aos oportunistas" (Falência da II Internacional, Cap.6 – tradução nossa).

Recordemos a propósito da Sérvia de 1914 que o partido socialista desse país (e por isso foi saudado por todos os internacionalistas de ontem) se negou por completo e denunciou a "resistência do povo sérvio contra o invasor austríaco" e isso que este estava naquele momento bombardeando a população civil de Belgrado.

Voltando para a atualidade, "é de notoriedade pública" (e podemos acrescentar que os que não o reconhecem não fazem nada além do que "deformar sem escrúpulos a realidade") que a guerra levada a cabo pelos Estados Unidos e Inglaterra contra o Iraque em 2003 (igualmente a guerra desencadeada em agosto de 1914 pela Áustria e Alemanha contra a "pequena Sérvia") tem repercussões imperialistas que superam em muito ao Iraque. Concretamente, frente aos países da "coalizão", tem um grupo de países como França e Alemanha cujos interesses são antagônicos daqueles. Por isso, esses dois países fizeram tudo para impedir a intervenção norte-americana no Iraque e, desde então negaram a enviar qualquer tipo de tropas ao Iraque. E o fato de votarem na ONU em 2004 a favor de uma resolução apresentada pelos Estados Unidos e Inglaterra, não significa outra coisa que os acordos diplomáticos, com as discórdias, não são senão outros momentos da guerra disfarçada que travam as grandes potências.

Por maiores que sejam o número de declarações de amizade que façam, tão alardeadas, sobretudo por ocasião do aniversário do desembarque de junho de 1944, o imperialismo francês tira vantagens diante das dificuldades que possam encontrar os Estados Unidos, no Iraque. Em resumo, no que desemboca o apoio a "resistência do povo iraquiano" é fazer o jogo da burguesia dos países cujos interesses são antagônicos ao dos Estados Unidos . Aqui já se torna impossível a um trotskista francês ou alemão invocar Lênin para justificar essa política, pois ele conclamava para "....combater em primeiro lugar o chauvinismo de "sua própria" burguesia" (A situação e as tarefas da internacional socialista, 1/11/1914 - Tradução nossa)

Qualquer um que deseje seguir o exemplo de Lênin na defesa do internacionalismo tem de aceitar a evidência e deixar de contar estórias de fadas: o apoio a "resistência do povo iraquiano contra o invasor" é pura e simplesmente uma traição ao internacionalismo e é, portanto, uma política chauvinista antiproletária. Foi contra semelhante política, que Lênin escreveu: "Os social-chauvinistas fazem sua a mistificação do povo por parte da burguesia, segundo a qual a guerra seria feita pela defesa da liberdade e da existência de nações, colocando-se assim ao lado da burguesia contra o proletariado" (O socialismo e a guerra, cap.1 - tradução nossa)

Isso dito, o apoio à "resistência do povo iraquiano", seja aos setores antiamericanos da burguesia iraquiana, não é só uma traição ao internacionalismo proletário desde o enfoque do que representa o Iraque nos antagonismos entre grandes potências imperialistas. Ou seja, que não só é uma traição ao internacionalismo a respeito aos proletários dessas potências. O é também para com os proletários iraquianos a que se quer vender gato por lebre, chamando-lhes a deixar-se matar em defesa dos interesses imperialistas da sua burguesia. Tem que deixar de contar novelas: o Estado iraquiano é imperialista. Na realidade, no mundo atual, todos os Estados são imperialistas, desde o mais poderoso até o menor deles. Assim a "pequena Sérvia", cuja história lhe havia transformado em uma das presas favoritas dos apetites imperialistas de potências maiores como a Alemanha ou Rússia (passando pela França) tinha se comportado, durante os anos 90, em Estado imperialista modelo, a base de matanças e "limpezas étnicas" para construir a "Grande Sérvia" a expensas de outras nacionalidades da antiga Iugoslávia. Tudo isso está claro, em um contexto dominado pelo antagonismo entre as diferentes potências que defendiam seja a Croácia (Alemanha e Áustria), seja a Bósnia (Estados Unidos) ou seja Sérvia (França e Inglaterra).

O Estado Iraquiano não é uma exceção na realidade do mundo atual. Nem muito menos. É pelo contrário, uma ilustração das mais significativas.

Com efeito, desde a sua independência da esfera britânica, depois da Segunda Guerra Mundial, o estado Iraquiano, pelo lugar que ocupa e pelos seus recursos petrolíferos, não tem deixado nunca de ser um ponto central nas rivalidades entre as grandes potências. "Cliente" durante certo tempo da URSS, se voltou para a aliança ocidental (particularmente com uma aproximação espetacular com Alemanha e, sobretudo com a França) durante os anos 70 quando a influência soviética retrocedeu no Oriente Médio. Entre 1980 e 1988, em uma das guerras mais longas e mortíferas (1.200.000 mortos) desde 1945, o Iraque foi a frente avançada da ofensiva dos países ocidentais contra o Iran de Komeini, o qual havia chamado a guerra santa contra o "Grande Satã" norte-americano. As potências ocidentais, especialmente os Estados Unidos, deram apoio irrestrito ao Iraque, a partir do verão de 1987, sobretudo, mandando ao Golfo Pérsico uma importante frota que enfrentou cotidianamente as forças do Iran, obrigando este país a aceitar cessar as hostilidades durante o verão de 1988, enquanto, antes disso havia infligido pungentes derrotas ao Iraque.

Está claro que não foi por amor aos Estados Unidos, que Saddam Hussein mandou centenas de milhares de proletários e campesinos uniformizados deixar-se matar na frente iraniana a partir de 1980 (e que de passagem exterminou com utilização de gás 5.000 civis curdos em um só dia, em 16 de março de 1988 em Halabia). Na realidade a burguesia iraquiana tinha seus próprios objetivos na guerra ao lançar-se no conflito. Além do mais de submeter pelo terror a população curda e xiita, queria apoderar-se do Chat Al Arab (estuário dos rios Eufrates e Tigre) que o Iran controlava. Ademais, a guerra devia permitir ao Iraque e Saddam Hussein ocupar a liderança do mundo árabe. Em resumo, uma guerra plenamente imperialista.

A guerra de 1990/91 foi, por sua parte, da mesma índole. Temos colocado constantemente em evidência e temos denunciado amplamente os objetivos imperialistas dos Estados Unidos e seus aliados de então na operação "Tempestade no deserto". Porém o acontecimento que serviu de pretexto para a cruzada contra o Iraque foi a invasão do Kuwait por esse país durante em julho de 1990. Evidentemente, não se trata para os marxistas de entrar em considerações de saber quem era o "agressor" e quem era o "agredido", nem passar a defender o xeique Yaber e a sua conta bancária ou suas reservas petrolíferas. Isso dito, a operação militar de agosto de 1990 do Iraque contra Kuwait foi a de um bandido imperialista contra outro bandido imperialista (empregando a terminologia que tanto gostava Lênin). Embora fossem bandidos não muda em nada a natureza profunda da sua política nem da que deve ter o proletariado a respeito deste tipo de conflitos.

Um último comentário a respeito da natureza imperialista dos Estados do mundo atual.

Um dos argumentos apresentados constantemente para apoiar a idéia de um Estado como o Iraque que não seria imperialista, é que não exporta capitais. Este argumento pretende estar em conformidade com a análise desenvolvida por Lênin em sua obra O imperialismo, fase suprior do capitalismo, que insiste muito especialmente a esse respeito de política imperialista. Na realidade, a exploração que fazem os epígonos dessa visão unilateral do imperialismo para justificar suas traições ao internacionalismo é do mesmo tipo que fazem os estalinistas de uma frase (totalmente isolada de seu contexto por demais) de um artigo de Lênin escrito durante a Primeira Guerra mundial.

"A desigualdade do desenvolvimento econômico e político é uma lei absoluta do capitalismo. Daqui se deduz que é possível que o socialismo seja vitorioso primeiramente em uns quantos países capitalistas e inclusive um só país capitalista. O proletariado triunfante desse país depois de expropriar os capitalistas e organizar a produção socialista dentro de suas fronteiras, se enfrentaria com o resto do mundo, com o mundo capitalista atraindo para o seu lado as classes oprimidas dos demais países, levantando com eles a insurreição contra os capitalistas, empregando, caso necessário, inclusive a força das armas contra as classes exploradoras e seus estados" (A propósito da consigna dos Estados Unidos de Europa. Obras escolhidas I - tradução nossa).

Para os estalinistas (que em geral "se esquecem" de la última frase desta mesma citação), "Foi este o maior descobrimento da época e passou a ser o princípio diretor de toda atividade do Partido Comunista, de toda sua luta pela vitória da revolução socialista e da edificação do socialismo em nosso país. A doutrina de Lênin acerca da possibilidade da vitória do socialismo em um só país ofereceu ao proletariado uma clara perspectiva de luta, liberou a energia e a iniciativa dos proletários de cada país para o embate contra sua burguesia nacional y dotou o partido e a classe operária de uma segurança, cientificamente fundamentada, na vitória." (Instituto de marxismo-leninismo del C.C. del P.C.U.S;, Prefacio das obras escogidas de Lênin, Moscú, 1961 - tradução nossa)

O Trotskismo é a estrema esquerda do capital

O Método não é novo. Sempre foi empregado pelos falsificadores do marxismo, e pelos renegados. Os social-democratas alemães se apoiaram em tal ou qual fórmula errônea ou ambígua do marxismo para justificar sua política reformista e sua traição ao socialismo. Em especial abusaram sem cessar da citação de Engels retirada de seu prefácio de 1895 do folheto de Marx, A luta de classes na França:

"Como Marx previu, a guerra de 1870-1871 e a derrota da Comuna desprezaram no momento, da França para Alemanha, o centro de gravidade do movimento operário europeu. Na França, naturalmente, necessitava anos para recomporse da sangria de maio de 1871. Em troca, na Alemanha, onde a indústria – impulsionada como uma planta de estufa pelos milhares e milhões pagos pela França – se desenvolvia cada vez mais rapidamente, a social-democracia crescia mais depressa e com mais persistência. Graças a inteligência com que os operários alemães souberam utilizar o sufrágio universal, implantando em 1866, o crescimento assombroso do partido aparece em cifras indiscutíveis aos olhos do mundo inteiro, (...) Porém com este eficaz emprego do sufrágio universal entrava em ação um método de luta do proletariado totalmente novo, método de luta que se seguiu desenvolvendo rapidamente. Se viu que as instituições estatais nas quais se organizava a dominação da burguesia ofereciam novas possibilidades à classe operária para lutar contra essas mesmas instituições. E se tomou parte nas eleições às dietas provinciais, nos organismos municipais, e os tribunais de artesãos, se disputou a burguesia cada posto, e na distribuição das funções, uma parte suficiente do proletariado mesclava com sua voz. E assim se deu o caso de que a burguesia e o Governo chegassem a temer muito mais a atuação legal que a atuação ilegal do partido operário, mas os êxitos eleitorais que os êxitos insurreicionais" (tradução nossa).

E foi esta utilização de uma citação errônea de Engels, que Rosa Luxemburgo denunciou na tribuna do Congresso de fundação do Partido Comunista Alemão:

"Engels não viveu o tempo suficiente para ver os resultados, as conseqüências políticas do uso que se fez de seu prefácio, da sua teoria. Porém estou segura de uma coisa: quando se conhece as obras de Marx e de Engels, quando se conhece o espírito revolucionário vivo, autêntico, inalterado que emana de todos os seus escritos, de todos seus ensinamentos, estou convencida de que Engels teria sido o primeiro a protestar contra os excessos resultantes do parlamentarismo puro e simples; o movimento operário na Alemanha cedeu a corrupção e a degradação muito antes do 4 de agosto, pois o 4 de agosto não caiu dos céus, não foi uma viragem inesperada, senão a continuação lógica das experiências que havíamos feito anteriormente, dia após dia, ano após ano. Engels e inclusive Marx – se tivessem vivido haveriam de ser os primeiros a erguer-se violentamente contra isso, para deter, freiar brutalmente o veículo no sentido de impedir que se metessem no lamaçal. Porém Engels faleceu no mesmo ano em que escreveu o prefácio" (Rosa Luxemburgo, "Nosso programa e a situação política", Relatório para o congresso de fundação do P.C.A. - tradução nossa).

Voltando a idéia de que a única manifestação de uma política imperialista seria a exportação de capitais, temos que precisar que essa idéia não está no livro de Lênin, O imperialismo fase superior do capitalismo. Muito pelo contrário, já que escreve: "Aos numerosos "antigos" móbiles da política colonial, o capital financeiro (que é segundo Lênin o motor principal do imperialismo) tem acrescentado a luta pelos recursos em matérias primas, pela exportação de capitais por "zonas de influência" - quer dizer pelas zonas de transações vantajosas, de concessões, de obtenções de monopólio, etc., - e por fim, pelo território econômico em geral" (O imperialismo, fase suprema do capitalismo, cap. X. – tradução nossa)

Na realidade, esta deformação unilateral da análise do imperialismo de Lênin tinha um objetivo da mesma ordem que a interpretação feita pelos estalinistas da curta passagem citada acima, sobre a "edificação do socialismo em um só país": tentar fazer acreditar que o sistema que se instaurou na URSS depois da revolução de outubro de 1917, uma vez fracassada a onda revolucionária mundial que a seguiu, não tinha nada de capitalista nem imperialista. Como a URSS não possuía os meios financeiros de exportar capital (já que ocupava uma posição ridícula comparada com a a das potências ocidentais), a política que levava a cabo não podia ser imperialista, segundo tal concepção. E isso incluiu quando essa política consistia na conquista territorial, na ampliação das suas "zonas de influência", no saque das matérias primas e de recursos agrícolas, e até a desmontagem pura e simples das instalações dos paises ocupados. Na realidade, a política da URSS foi muito parecida a da Alemanha naziista na Europa ocupada (de onde houve muito pouco capital exportado e sim muitos saques, pura e simplesmente). Evidentemente, tal análise do imperialismo era o “pão bendito" para a propaganda estalinista contra quem denunciava as ações imperialistas do Estado soviético. Porém cabe recordar que os estalinistas não eram os únicos a rechaçar qualquer idéia que a URSS fosse capitalista ou imperialista. Em sua mentirosa montagem receberam o idefectível apoio do movimento trotskista com a análise desenvolvida por Trotsky que apresentava a URSS como um "Estado operário degenerado" no qual haviam desaparecido as relações de produção capitalistas.

Não é a intenção deste texto tentar demonstrar a inconsistência da análise de trotsky sobre as relações de produção na URSS. Recomendamos a respeito diferentes artigos publicados na nossa Revista internacional, especialmente "La classe não identificada, a burocracia soviétiva vista por Trotsky" (Revista internacional nº92). É importante, entretanto, sublinhar que foi, sobretudo, em nome da "defesa da URSS y das suas conquistas operárias" que o movimento trotskista apoiou o campo dos aliados durante a Segunda Guerra Mundial, participando, em particular, nos movimentos de "resistência", ou seja adotando a mesma política dos sociais chauvinistas de 1914. Em outras palavras, traiu o campo da classe operária aliando-se ao da burguesia.

E que os "argumentos" empregados pela corrente trotskista para apoiar a participação na guerra imperialista não foram idênticos a dos sociais chauvinistas da Primeira Guerra, não muda em nada o fundo do problema. Na realidade, eram da mesma natureza posto que ambos chamassem a fazer uma diferença fundamental entre duas formas de capitalismo e apoiar a uma delas em nome do "mal menor". Na Primeira Guerra Mundial, os chauvinistas comprovados chamavam a defender a pátria. Os social-chauvinistas chamavam, uns a defender a "civilização alemã" contra o "despotismo do Tzar", e outros a "França da Grande Revolução" contra o "militarismo prussiano", Na segunda Guerra Mundial, junto com De Gaulle que defendia a "França eterna", os estalinistas (que também se referiam, por certo, a essa "França eterna") conclamavam para defender a democracia contra o fascismo e a defender a "pátria do socialismo". Por sua parte, os trotskistas seguiram os passos dos estalinistas conclamando participar da "Resistência" em nome da "defesa das conquistas operárias da URSS". Desse modo, como os estalinistas, se converteram em recrutadores para o campo anglo-norteamericano na guerra imperialista.

Foi dando o seu apoio à união sagrada na Primeira Guerra Mundial que os partidos socialistas acertaram seu passo para o campo da burguesia. Foi adotando a teoria da "edificação do socialismo em um só país" que os partidos estalinistas deram o passo decisivo a caminho para o campo do capital nacional, passo que foi arrematado com o seu apoio aos esforços de rearmamento das suas burguesias nacionais respectivas e a preparação ativa para a guerra que se anunciava. Foi a sua participação na 2ª. Guerra mundial que assinalou a passagem da corrente trotskista para o campo do capital. Por isso não pode haver outra alternativa, se pretende retornar ao terreno de classe do proletariado, senão a de romper com o trotskismo e desde já não pretendendo voltar ao "trotskismo verdadeiro". Isso foi o que compreenderam as correntes no seio da IV Internacional que quiseram manter-se em uma oposição internacionalista, correntes como a de Munis (representante oficial do trotskismo na Espanha), a de Scheuer na Austria, de Stinas na Grécia, Socialismo ou Barbárie na França. Também foi o caso da própria viúva de Trotsky, Natália Sedova, que rompeu com a IV Internacional depois da Segunda Guerra mundial sobre a questão da defesa da URSS e da participação, em nome desta defesa, na guerra imperialista.

Qualquer um que deseje sinceramente levar a cabo um combate junto ao proletariado, não poderá evitar a ruptura clara com a corrente trotskista e não só com esta ou aquela organização da dita corrente.

Uma vez mais, o problema seja quais voltas queiram dar, se pode invocar a Trotsky, a Lênin, inclusive Marx, recitar de memória tal passagem de O imperialismo, fase superior do capitalismo; pode ou não tapar os olhos ou os ouvidos, ou ambos ao mesmo tempo; pode ou não enfiar a cabeça na areia ou em outra parte, nada poderá mudar a dura realidade: um grupo que hoje na França, apóia a "resistência Iraquiana", não só é recrutador para transformar em bucha de canhão os proletários iraquianos a serviço de um dos setores (seja xiitas ou sunitas) entre os mais retógrados da burguesia iraquiana, além do mais aporta um apoio garantindo aos interesses imperialistas da sua própria burguesia nacional quando esta se opõe como hoje é o caso da Alemanha, França ou Espanha, às aspirações norte americanas.. Inclusive quando o setor dominante da burguesia de um país apóia essas aspirações, como é o caso da Itália atualmente, semelhante grupo não faz senão cultivar os sentimentos nacionalistas anti-americanos dos proletários desse país. Em todo caso, este grupo está usurpando o qualificativo comunista ou de internacionalista. No que é diferente dos que Lênin intitulava de social-chauvinistas: socialistas em palavras, patrioteiros e burgueses nas atitudes.

E quanto aos argumentos de cores "marxista" enfeitados com tal ou qual frase de Lênin ou inclusive de Marx para justificar a participação na guerra imperialista, Lênin já respondeu de antemão:

"De libertador de nações que foi o capitalismo na luta contra o regime feudal, o capitalismo imperialista se converteu no maior opressor de nações. Antigo fator de progresso, o capitalismo se tornou reacionário: tendo desenvolvido.lia Sedova que rompeu com a IVa.omo a de Munis(representante oficial do trotskismo na Espanha) a de Scheuer na Austria,m o seu a um tal grau as forças produtivas que a humanidade já não resta senão passar ao socialismo, ou se não, sofrer durante anos, décadas inclusive, a luta armada das "grandes" potências pela manutenção artificial do capitalismo graças às colônias, aos monopólios, aos privilégios e opressões nacionais de todo tipo" (Os princípios do socialismo e a guerra de 1914-1915 – "A guerra atual é uma guerra imperialista"– tradução nossa).

"Os social chauvinistas russos (Plejánov a cabeça) invocam a tática de Marx na guerra de 1870; os social-chauvinistas alemães (estilo Lensch, David y cia.) invocam as declarações de Engels em 1891 sobre a necessidade, para os socialistas, de defender a pátria em caso de guerra contra a Rússia e a França reunidas; por fim os social-chauvinistas estilo Kautsky, desejosos de transigir com o chauvinismo internacional e dar-lhe legitimidade, invocam que o fato que Marx e Engels, ainda condenando as guerras, se colocaram cada vez, entretanto, desde 1854-1855 a 1870-1871 e em 1876-1877, do lado de tal ou qual Estado beligerante, uma vez iniciado o conflito. Todas essas referências deformam de uma maneira revoltante as idéias de Marx e de Engel por sua complacência diante da burguesia e dos oportunistas (...) invocar hoje a atitude de Marx diante das guerras da época da burguesia progressista y esquecer das palavras das palavras de Marx: "Os proletários não tem pátria", palavras que se referem precisamente à época da burguesia reacionária cujo tempo havia caducado, à época da revolução socialista, é deformar cinicamente o pensamento de Marx, substituindo o enfoque socialista pelo burguês" (O socialismo e a guerra, cap.1– tradução nossa).

CCI (junho de 2004)

[1] Groupe communiste révolutionnaire internationaliste, ruptura do partido trotskista francês Parti des travailleurs.