Diante da crise mortal do capitalismo, o futuro pertence à luta de classe

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Um século de afundamento
na barbaridade


Todo mês traz uma quantidade de acontecimentos
que alimenta o horror da sociedade atual :

  • catástrofes naturais que se transformam num
    drama humano pela incapacidade dos regimes no poder, de proteger ou socorrer as
    populações contra os efeitos destas catástrofes : Tsunami na Indonésia há
    alguns meses e há pouco um tufão em Nova Orleans,
    no país mais poderoso do mundo ;
  • guerras que ensangüentam  o planeta 
    : matanças no Iraque, guerra no
    continente  africano que com a aids e a
    fome constituem a primeira causa de mortalidade,
    guerra no Afeganistão,
    na Chechênia, e até nas metrópoles capitalistas como Nova York, Madri, Londres.
    As  imagens
    horripilantes do que aconteceu há pouco nesta cidade são emblemáticas da
    perspectiva que  oferece este mundo.
    Neste caso são os proletários as primeiras vítimas, nos transportes que os
    levam para o trabalho.
  • agravamento dramático de uma
    crise econômica sem-fim que esfomeia uma proporção crescente da população
    mundial, infligindo a ela condições de vida que são um verdadeiro pesadelo, e
    joga na miséria milhares de operários dos centros industrias.

Não se deve também esquecer da acumulação das
conseqüências de décadas de uma atividade industrial desenfreada, sem nenhum
controle geral. Disso resultam poluições de todo tipo,
o crescente
desastre do meio-ambiente, desordem climática, etc

O século 20 foi o mais bárbaro que a humanidade
conheceu. O século 21 é a continuidade do precedente, mas em edição piorada.

Para provar a barbaridade do século 20, não há
necessidade de uma descrição completa. Para isso, basta lembrar o peso que
tomou a guerra na sociedade através do desenvolvimento do militarismo e do
desencadeamento das matanças.

Duas guerras mundiais com 15 e 50 milhões de
mortos respectivamente, mas o número de mortos não basta para exprimir a
barbaridade destas.

A barbaridade dos nazistas é certamente a mais
conhecida, mas tem que ver que a propaganda da burguesia democrática - que foi
a vencedora do segundo conflito mundial - fez questão de exibi-la com intenção
de tirar da memória coletiva seus próprios crimes que são tão abomináveis
quanto os crimes nazistas: cidades inteiras alemães e japonesas, sem nenhum
objetivo militar, devastadas por incêndios causados de propósito pelos
bombardeios. Unicamente para matar e aterrorizar a população. Quanto à
burguesia stalinista, ela também participou plenamente da orgia macabra
capitalista, pelo massacre totalmente gratuito de milhares de mulheres e
crianças alemães cometidos pelo exército dito vermelho nos territórios da
Europa do leste.

Desde a segunda guerra mundial, a guerra nunca
parou. Ela permaneceu através de conflitos locais, como o do Vietnam, que foram
a expressão do antagonismo entre os dois grandes blocos imperialistas: o do
Leste e o do Oeste.

Depois do desencadeamento do bloco do leste,
longe de se acalmar, as tensões imperialistas se amplificaram e se expressaram
numa proliferação de conflitos em todo o planeta.

O que tudo
isso ilustra é nada mais nada menos que a crise histórica do capitalismo.

A crise histórica do capitalismo


A generalização desta situação no
conjunto do planeta chegou a tal ponto que se pode difícilmente acreditar na
idéia que o responsável por ela seja tal ou tal regime político. O responsável
é a organização social que domina o mundo inteiro, ou seja o capitalismo.

A barbaridade não se exprime somente pela
acumulação das perdas humanas pelas quais o sistema é responsável. Ela se
exprime, também na enorme desproporção que existe entre a realidade da vida na
sociedade atual e o que poderia ser a vida numa outra sociedade para a qual as
riquezas criadas na historia estariam disponíveis.

Foi o capitalismo que permitiu a eclosão destas
riquezas graças a uma exploração feroz da classe operária.

Assim ele criou condições para ser ultrapassado
e substituído por uma sociedade que não seja conduzida pela procura do lucro,
mas pela satisfação das necessidades humanas.

Estas
condições existem desde o começo do século 20, ou seja :


  • desde
    que o capitalismo impôs a sua lei para a terra inteira ;


  • que
    ele acabou sua tarefa histórica de desenvolvimento das forças produtivas, como
    nunca na historia, e especialmente a primeira entre elas, o proletariado.

A partir daquele momento, tinha chegado a hora
dele deixar o palco histórico, como aconteceu antes com as sociedades que o
precederam,  a sociedade escravista e a
feudal.

Mas o capitalismo não podia desaparecer por si
só. Era responsabilidade da classe revolucionária da sociedade assumir a
sentença de morte pronunciada pela história contra a sociedade burguesa.

Depois de ter chagado a seu apogeu, o
capitalismo entrou numa época de agonia, a de sua decadência, desencadeando uma
barbaridade crescente sobre a sociedade.

A lição de um século de barbaridade é que,
enquanto o capitalismo existir, apresentará uma ameaça crescente para
humanidade. Na verdade, ele não pode resolver as contradições que o agridem.

O centro destas contradições reside no objetivo
da produção capitalista : como já dissemos, não produzir para satisfazer as
necessidades humanas mas produzir cegamente com intenção de fazer lucro
para alimentar a acumulação capitalista.

Enquanto o capitalismo é capaz de
produzir cada vez mais, a sociedade é cada vez menos capaz de constituir um
mercado solvável para sua produção. Assim, as crises de superprodução do século
20 se tornaram uma crise permanente.

Uma tal contradição não tem solução no seio do
sistema. Ela implica a destruição crescente das forças produtivas e em primeiro
lugar o trabalho humano.

Ela implica também uma tendência que todo
capital nacional tem de fugir para o militarismo e a guerra, com intenção de se
impor frente a seus rivais por meio da potência militar.

O único meio encontrado pelo capitalismo para
escapar momentaneamente das contradições econômicas, é o endividamento sem fim,
mas isso só faz adiar o problema, com consequências ainda piores para o futuro.

Uma expressão caricatural da falência do modo
de produção capitalista é constituída pela existência de um desemprego massivo
e crescente. Na verdade, a situação atual não tem nada ver com o que era
chamado o “exército industrial de reserva” do século 19. Este último,
constituído também por desempregados, servia de reserva de mão-de-obra para
satisfazer as necessidades crescentes de um modo de produção em pleno
desenvolvimento e manter baixo o preço da força de trabalho. Hoje em dia, a
existência de uma massa de desempregados ainda maior, mostra a incapacidade
crescente do sistema para integrar no seu seio uma quantidade de novos
operários. Na realidade, o sistema só é capaz de explorar um numero cada vez
mais limitado de operários. O problema para ele é que a exploração da classe
operaria constitui fundamentalmente sua fonte de riquezas. Assim este fenômeno
de desemprego massivo é bem uma ilustração das contradições insuperáveis do
sistema. Mas não é por isso que ele vai dar pacificamente seu lugar a uma outra
sociedade. A burguesia iria até correr o risco de exterminar a raça humana para
não perder seu poder sobre a sociedade.

O que é uma classe
revolucionária para o marxismo ?

É uma questão que pede uma atenção especial,
porque, a contra-revolução deixou espaço aberto para várias teorias, segundo as
quais, a classe operaria não seria mais a classe revolucionária, ou, que ao
lado dela existiria outras classes revolucionarias : os estudantes, os
camponeses, o lúmpen, ..

Também tem gente que  confunde classe explorada com classe
revolucionária.

Para o marxismo, o antagonismo entre
exploradores e explorados, é um motor da historia, mas não é o único nem o mais
importante.

As lutas dos explorados nas sociedades feudal e
escravista, se expressaram algumas vezes através de combates de grande
importância. Basta se lembrar da luta heróica de Espartacus no império romano,
mas, nunca tais combates, chegaram à uma transformação radical da sociedade.

Na realidade, a sociedade escravista não foi
abolida pelos escravos, mas, pela nobreza que se tornou assim a nova classe
dominante que reinou no Ocidente cristão durante mais de um milênio.

Da mesma maneira, o antagonismo de classe que
resultou da derrubada da nobreza pela burguesia, e aboliu seus privilégios, não
era entre a nobreza e os camponeses que ela explorava, mas opunha a nobreza
a uma outra classe exploradora, a burguesia.

Nas sociedades do passado, escravista e feudal,
as classes revolucionárias nunca foram as classes exploradas, mas, novas
classes exploradoras.

A razão é a seguinte : enquanto o
desenvolvimento das forças produtivas, não era suficiente para permitir uma
abundância de bens na sociedade, não era possível abolir as desigualdades, e
conseqüentemente as relações de exploração. Assim, só uma classe exploradora
era capaz de se impor no comando do corpo social.

Não é mais o caso no capitalismo. Como
identificar no seio dele, a classe revolucionaria ? É ela que pode instaurar
uma nova ordem social, capaz de resolver e ultrapassar as contradições
insuperáveis do edifício social em declino.

O modo de produção capitalista pôde se impor
diante do feudalismo, generalizando a produção de mercadorias. A principal
delas sendo a força de trabalho. O advento de uma sociedade baseada na
satisfação das necessidades humanas - permitida pela abundância - e não baseada
no lucro, passa pela abolição de toda mercadoria, incluindo a primeira delas, o
trabalho assalariado.

A classe operária é a única classe na sociedade
que tem como único meio de subsistência a venda de sua força de trabalho.

Assim, não existe outra classe na sociedade que,
como a classe operária, por excelência a classe do trabalho assalariado, tem
interesse na abolição do mesmo e da mercadoria.

Além disso, só uma classe realmente
internacional, que não tenha nenhum interesse especial em defender tal ou tal
país, é capaz de quebrar os entraves à produção social mundial que constitui a
divisão deste mundo em nações antagonistas.

  uma
classe implicada no trabalho coletivo da produção capitalista é capaz de dar
espontaneamente um caráter coletivo a sua luta.

A afirmação histórica da classe
operaria

Apesar de ainda não ter conseguido derrubar o
capitalismo, a classe operária, já demonstrou que ela é a classe da sociedade,
capaz de desafiar a dominação da burguesia para edificar uma outra sociedade.

A primeira onda revolucionaria mundial de 17-23
que aconteceu em reação ao horror  da
primeira guerra mundial, ilustrou grandiosamente o papel revolucionário que o
proletariado é capaz de assumir. Esta reação do proletariado mundial obrigou a
burguesia a parar a matança mundial para não favorecer o desenvolvimento da
revolução. Ela constitui até hoje o ponto mais alto do combate histórico do
proletariado.

Pela primeira vez na historia, a classe
operaria tinha conseguido derrubar a burguesia e tomar o poder político num
país : a Rússia. Assim, o proletariado russo, se tornava a fração mais avançada
da revolução mundial: sua luta decisiva contra o capitalismo na Rússia
constituía  a ponta de lança da luta assumida
pelo proletariado  dos outros países.
Pela primeira vez na historia, o proletariado tinha conseguido ameaçar a
dominação da ordem burguesa mundial.

Mas, depois de uma série de derrotas maiores,
na Alemanha especialmente, a onda revolucionaria foi vencida, e o poder
político do bastão proletário na Rússia degenerou. A contra-revolução se impôs
com a vitória do stalinismo, infligiu danos consideráveis à classe operaria
internacional, através de uma repressão feroz pela social-democracia alemã,
pelo stalinismo e pelo fascismo. Mas o mais pernicioso de todos estes danos considera
a consciência. Em todos os países era propagada a mentira, segundo a qual
existia socialismo no Leste.

Todas as facções da burguesia mundial
participaram na propagação desta mentira : da extrema-direita até os partidos
chamados “operários” e recentemente passados para o campo burguês depois de ter
abandonado o internacionalismo proletário : os partidos socialistas na primeira
guerra mundial, os partidos comunistas nos anos trinta e os trotskistas na
segunda guerra mundial.

Finalmente, era necessária a retomada histórica
dos combates de classe para que o proletariado começasse a livrar-se do peso
ideológico da contra-revolução.

Quais perspectivas?

Não há possibilidade de reformar o capitalismo.
A única possibilidade é a sociedade comunista. Se ela não for estabelecida a
humanidade desaparecerá. É por isso que só existe uma alternativa que é
“revolução comunista ou destruição da humanidade”.

Nas condições atuais da vida do capitalismo, a
luta dos explorados não pode mais trazer qualquer melhora durável às condições
de vida. Diante de ataques massivos e brutais que não poupam nem uma fração do
proletariado mundial, a classe operaria está se engajando no caminho da luta de
classe internacional.

Temos diante de nós um caminho ainda longo
antes desta luta se exprimir em confrontações decisivas com a burguesia. Neste
caminho o proletariado vai se confrontar com dificuldades enormes. Estas
resultam de vários fatores :


  • as
    seqüelas da contra-revolução ;


  • impacto
    das campanhas ideológicas democráticas da burguesia desde a vitória dos aliados
    na segunda guerra mundial. Campanhas que a burguesia reativou com o tema da
    morte do comunismo graças ao desencadeamento do bloco de leste ;


  • a
    capacidade da burguesia de criar falsas alternativas ao capitalismo assim como
    nestes últimos anos, o altermundialismo

Mas as razões mais profundas das dificuldades
do proletariado resultam da amplidão da tarefa que ele tem que assumir :


  • derrubar
    a classe dominante mais poderosa de todas as classes dominantes na história : a
    burguesia ;


  • criar
    a primeira sociedade sem classes desde a aparição das relações sócias de exploração
    ;


  • caminhar
    para a conquista do poder político, sem dispor dentro do capitalismo de uma
    base econômica, justamente, porque ele está privado de todo meio de produção ;

Ao contrário da burguesia, que tinha esta base
econômica para desenvolver progressivamente seu sistema no seio das relações de
produção feudais, o primeiro ato da transformação comunista da sociedade pela
classe operária, consiste na tomada do poder político em escala mundial. É só a
partir desta posição de poder político, a ditadura do proletariado organizado
em conselhos operários, que a classe operária poderá conscientemente
transformar as relações econômicas e socializar o conjunto da produção.

Atualmente os grandes movimentos massivos da
classe operária como o da Polônia em 80 ficaram para trás e uma tal perspectiva
pode até parecer utópica.

Ela é não somente cientificamente fundada, mas
também existem na situação atual, sinais anunciando este futuro :


  • minorias
    no seio da classe operária aparecem em vários lugares do planeta, colocando a
    questão da perspectiva diante da evidência da falência do capitalismo ;


  • algumas
    lutas operarias já prefiguram o que deverá constituir o essencial do combates
    operários de amanhã.

Vamos ilustrar isso. Começamos esta
introdução com a evocação dos atentados de Londres que simbolizam o futuro que
nos prepara o capitalismo. Vamos terminá-la com a  evocação da luta que paralisou o principal
aeroporto de Londres do 11 ao 14 de agosto. Mil operários do aeroporto entraram
espontaneamente numa greve de solidariedade com 670 operários de uma
empresa  de restauração norte americana
que tinha acabado de demití-los.

Esta luta coloca em evidência a natureza real
do proletariado exprimindo os valores mais essenciais da espécie humana, como a
solidariedade e o senso da dignidade em rejeitar o inaceitável diante da
infâmia da burguesia.

Herança da Esquerda comunista: