A Revolução tem sido necessária e possível há um século

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Em 1915, enquanto a horrenda realidade da guerra na Europa se tornava mais aparente, Rosa Luxemburgo escreveu A Crise da Social Democracia, um texto mais conhecido com o Panfleto Junius, pelo pseudônimo sob o qual foi publicado por Luxemburgo. O panfleto foi escrito na prisão e distribuído ilegalmente pelo grupo Die Internationale formado imediatamente após o início da guerra. Era uma denúncia inflamada das posições adotadas pela liderança do Partido Social Democrata da Alemanha (SPD). No dia em que os conflitos começaram, 4 de agosto de 1914, o SPD abandonou seus princípios internacionalistas e se manifestou pela "pátria em perigo", clamando pela suspensão da luta de classes e pela participação na guerra. Isso foi um golpe arrebatador contra o movimento socialista internacional, pois o SPD havia sido o orgulho da Segunda Internacional; ao invés de agir como um baluarte da solidariedade internacional da classe trabalhadora, sua capitulação ao esforço de guerra foi usada como justificativa para atos similares de traição em outros países. O resultado foi o infame colapso da Internacional.

Primeira Guerra Mundial: uma virada na história

O SPD foi formado como um partido marxista na década de 1870, simbolizando a influência crescente da corrente do "socialismo científico" dentro do movimento operário. Na aparência, o SPD de 1914 mantinha seu comprometimento ao marxismo mesmo, enquanto espezinhava seu espírito. Marx não havia, em sua época, alertado constantemente contra a ameaça representada pelo absolutismo czarista, o maior bastião de reação em toda a Europa? A Primeira Internacional não havia sido formada num encontro de apoio à luta pela independência polonesa do jugo czarista? Engels não havia expressado, mesmo diante do perigo da guerra na Europa, sua visão de que os socialistas alemães teriam de adotar uma posição "revolucionária defensista" na eventualidade de uma agressão franco-russa contra a Alemanha? E agora o SPD estava clamando pela unidade nacional a qualquer custo diante do maior perigo que ameaçava a Alemanha: o poder do despotismo czarista, cuja vitória, diziam, iria desfazer todos os ganhos políticos e econômicos conquistados pela classe trabalhadora através dos anos de luta paciente e persistente. Ele (o SPD) se apresentava, portanto, como o herdeiro legítimo de Marx e Engels e de sua defesa resoluta de tudo o que havia de progressista na civilização européia.

Mas nas palavras de Lênin, outro revolucionário que não hesitou em denunciar a vergonhosa traição dos "Social-Chauvinistas": "Quem se refere à atitude de Marx diante das guerras da época da burguesia progressista e se esquece da declaração de Marx de que 'os trabalhadores não têm pátria', uma frase que se aplica precisamente à época da burguesia reacionária, obsoleta, à época da revolução socialista, distorce Marx desavergonhadamente e substitui o ponto de vista socialista pelo burguês". [1] Os argumentos de Luxemburgo consideravam exatamente as mesmas questões. A guerra não era do mesmo tipo visto na Europa na metade do século anterior. Tais guerras haviam sido curtas, limitadas no espaço e espacialmente em seus objetivos, combatidas principalmente por exércitos profissionais; mais do que isso, durante a maior parte do século desde 1815 com o fim das guerras napoleônicas, o continente europeu havia passado por uma era sem precedentes de paz, expansão econômica e aumento constante do padrão de vida. Alem disso, tais guerras, longe de arruinar seus antagonistas, haviam servido mais para acelerar o processo geral de expansão capitalista erradicando obstáculos feudais à unificação nacional e permitindo que novos estados-nação se estabelecessem num modelo adequado ao desenvolvimento do capitalismo (as guerras em torno da questão da unificação italiana e a guerra de 1870 entre a França e a Prússia sendo exemplos claros).

Porém de agora em diante, essas guerras (guerras nacionais que podiam ter um papel progressista para o capital) pertenciam ao passado. Por sua capacidade de destruição e de morte - dez milhões de homens morreram nos campos de batalha europeus, a maioria agonizando em um cenário sangrento e em vão, enquanto milhões de civis também morressem devido à miséria e a fome impostas pela guerra; pela amplitude das suas conseqüências como guerra que implicou as potências de dimensão mundial que, de fato se davam objetivos de conquista literalmente ilimitados e de derrota total do inimigo; pelo seu caráter de guerra  "total " que não alistou só milhões de operários mandando-os ao front, como também os que trabalhavam nas industrias na retaguarda, exigindo-os suor e sacrifício infinitos; por todas essas razões foi uma guerra de um novo tipo que desmentiu rapidamente todas as previsões da classe dominante de que esta estaria terminada "para o natal". A monstruosa matança da guerra foi evidentemente intensificada pelos meios tecnológicos muito desenvolvidos de que dispunham os protagonistas e que haviam ultrapassado amplamente as táticas e as estratégias ensinadas nas escolas de guerra tradicionais; e incrementaram ainda mais os números de mortes. Porém a barbárie alcançada pela guerra expressou algo muito mais profundo que o nível de desenvolvimento tecnológico do sistema burguês. Também foi a expressão de um modo de produção que entrava em uma crise fundamental e histórica, que revelava o caráter caduco das relações sociais capitalistas e colocava a humanidade diante da alternativa histórica: revolução socialista ou queda na barbárie. Daí essa famosa passagem do Folheto de Junius: "Frederico Engels disse uma vez: "A sociedade burguesa enfrenta um dilema: ou passagem ao socialismo ou retorno à barbárie". Mas então que significa um  "retorno à barbárie" do grau de civilização que conhecemos hoje na Europa? Até agora lemos estas palavras sem reflectirmos, e repetimo-las sem nelas pressentirmos a terrível gravidade. Lancemos um olhar à nossa volta neste preciso momento, e compreenderemos o que significa um retorno da sociedade burguesa à barbárie. O triunfo do imperialismo remata a destruição da civilização - esporadicamente durante uma guerra moderna, e definitivamente se o período das guerras mundiais, que agora se inicia, seguir sem entraves até às suas últimas consequências. É exactamente o que Friedrich Engels tinha previsto, uma geração antes de nós, há já quarenta anos. Hoje estamos perante esta escolha: ou o triunfo do imperialismo e a decadência de toda a civilização, com as consequências, como na antiga Roma, do despovoamento, da desolação, da degenerescência, um grande cemitério; ou então, a vitória do socialismo, isto é, da luta consciente do proletariado internacional contra o imperialismo e contra o seu método de acção: a guerra. Ai está um dilema da história do mundo, uma alternativa ainda indecisa, cujos pratos oscilam diante da decisão do proletariado consciente. O proletariado deve pegar resolutamente no gládio do seu combate revolucionário: o futuro da civilização e da humanidade disso dependem. Durante esta guerra, o imperialismo alcançou a vitória. Ao pegar no seu gládio ensanguentado pelo assassinato dos povos, fez pender a balança para o lado do abismo, da desolação e da ignomínia. Todo este peso de desonra e desolação só será contrabalançado se, em plena guerra, soubermos tirar a lição que ela contém, se o proletariado conseguir assenhorear-se de novo e acabar de jogar o papel de escravo manipulado pelas classes dirigentes para se vir a tornar o dono do seu próprio destino". (Rosa Luxemburg - A Crise da Social-Democracia; Biblioteca de Ciências Humanas Vol.6; Editorial Presença- Portugal / Livraria Martins Fontes - Brasil)

Essa mudança de época fez caducos os argumentos do Marx em favor do apoio à independência nacional (de todos os modos, o mesmo Marx já o rechaçou depois da Comuna de Paris de 1871 no que concernia aos países europeus). Já não se tratava de procurar causas nacionais progressistas no conflito, posto que as lutas nacionais tinham perdido seu papel progressista ao tornar-se simples instrumentos da conquista imperialista e da marcha do capitalismo para a catástrofe: "O programa nacional não teve importância histórica, enquanto expressão ideológica da burguesia ascendente aspirando ao poder no Estado, senão no momento em que a sociedade burguesa se instalou mais ou menos nos grandes Estados do centro da Europa e aí criou os instrumentos e as condições indispensáveis da sua política. Desde então, o imperialismo esqueceu completamente o velho programa burguês democrático: a expansão para além das fronteiras nacionais (quaisquer que sejam as condições nacionais dos países anexados) tornou-se a plataforma da burguesia de todos os países. É certo que o espírito nacional permaneceu, mas o seu conteúdo real e a sua função transformaram-se no seu contrário. Serve somente para mascarar, bem ou mal, as aspirações imperialistas, a não ser que seja utilizado como grito de guerra nos conflitos imperialistas, único e último meio ideológico de captar a adesão das massas populares e de as fazer servir de carne de canhão nas guerras imperialistas" (A Crise da Social-Democracia. Cap. IV; Biblioteca de Ciências Humanas).

Não só trocou então a "tática nacional", mas sim toda a situação ficou profundamente transformada pela guerra. Já não era possível a volta atrás, à época anterior em que a Social-democracia tinha lutado paciente e sistematicamente por estabelecer-se como força organizada na sociedade burguesa, do mesmo modo que o proletariado como todo: "Uma coisa é certa, a guerra mundial representa uma viragem para o mundo. É loucura insensata imaginar que nada mais temos a fazer do que deixar passar a guerra, tal como a lebre espera o fim da tempestade sob um silvado, para em seguida retomar alegremente o seu passo normal. A guerra mundial modificou as condições da nossa luta e transformou-nos a nós próprios radicalmente. Não que as leis fundamentais da evolução capitalista, o combate entre o capital e o trabalho, devam conhecer um desvio ou uma moderação. Já agora, em plena guerra, caem as máscaras e as antigas feições, que conhecemos tão bem, olham-nos com escárnio. Mas, depois da erupção do vulcão imperialista, o ritmo da evolução recebeu tão violento impulso, que comparado aos conflitos que surgirão no meio da sociedade e à imensidade de tarefas que esperam o proletariado socialista num futuro imediato, toda história do movimento operário parece não ter sido até agora mais do que um período paradisíaco." (A Crise da Social-Democracia. Cap.I; Biblioteca de Ciências Humanas)

Se forem imensas as tarefas, é que exigem muito mais que a luta defensiva tenaz contra a exploração; exigem uma luta revolucionária ofensiva para acabar de uma vez com a exploração, para dar "à acção social dos homens um sentido consciente de nela introduzir um pensamento metódico e, por isso, uma vontade livre" (A Crise da Social-Democracia. Cap.I; Biblioteca de Ciências Humanas). A insistência de Rosa Luxemburgo sobre a abertura de uma época radicalmente nova da luta da classe operária ia ser rapidamente uma posição comum do movimento revolucionário internacional que se reconstituía sobre as ruínas da Social-democracia e que, em 1919, fundou o partido mundial da revolução proletária: a Internacional comunista (IC). Em seu Primeiro congresso de Moscou, a IC adotou em sua Plataforma a celebre ordem: "Nasceu uma nova época. Época de desmoronamento do capitalismo, de seu afundamento interior. Época da revolução comunista do proletariado". A IC compartia com Rosa Luxemburgo a idéia de que se a revolução proletária - que estava naquele momento em seu auge após a insurreição de Outubro na Rússia e a onda revolucionária que varria a Alemanha, Hungria e outros países - não lograsse derrubar o capitalismo, a humanidade se veria imersa em outra guerra, na realidade em uma época de guerras incessantes que colocaria em perigo o futuro da humanidade.

Quase cem anos se passaram, permanece o capitalismo e segundo a propaganda oficial seria a única forma possível de organização social. O que adveio com o dilema enunciado por Luxemburgo, "socialismo ou barbárie"? Se escutarmos os discursos da ideologia dominante, se tentou o socialismo no século XX e não funcionou. As deslumbrantes esperanças que fez nascer a Revolução russa de 1917, se chocaram contra os recifes do stalinismo e jazem juntas com seu cadáver desde que se desmoronou o bloco do Leste no final dos anos 1980. O socialismo não só haveria se revelado, no melhor dos casos, uma utopia e no pior um pesadelo, e que a mesma noção de luta de classes, considerada pelos marxistas como sua base essencial, havia desaparecido na névoa átona de uma "nova" forma de capitalismo que pretensamente viveria não da exploração de uma classe produtora, mas graças a uma massa infinita de "consumidores" e de uma economia mais virtual que material.

Este é o conto que nos querem fazer engolir. Seguramente que se Rosa Luxemburgo pudesse voltar de entre os mortos, ficaria surpreendida de ver a civilização capitalista continuar dominando o planeta; em outra ocasião examinaremos como tem feito o sistema para sobreviver apesar de todas as dificuldades atravessadas durante o século passado. Mas se nós tiramos as lentes deformantes da ideologia dominante e examinamos seriamente o curso do século XX, poderemos constatar que se verificaram as previsões de Luxemburgo e da maioria dos socialistas revolucionários da época. Devido à derrota da revolução proletária, esse século já foi o mais bárbaro de toda a história da humanidade e contém a ameaça de uma descida até o mais profundo na barbárie, cujo ponto culminante seria não apenas a "aniquilação" da civilização, mas sim o desaparecimento da vida humana no planeta.

A época das guerras e das revoluções

Em 1915 não se levantaram claramente contra a guerra mais que um punhado de socialistas. Trotski brincava dizendo que os internacionalistas que se reuniram aquele ano em Zimmerwald poderiam caber em um só táxi. Mas a Conferência do Zimmerwald, que só agrupou um punhado de socialistas opostos à guerra, foi o sinal de que algo estava mudando nas filas da classe operária internacional. Em 1916, o desencantamento em relação à guerra, tanto no front como na retaguarda, foi tornando cada vez mais profundo, como o demonstraram as greves que estalaram na Alemanha e na Grã-Bretanha assim como as manifestações que saudaram a libertação de Karl Liebknecht, camarada de Rosa Luxemburgo, cujo nome se tornou sinônimo da ordem: "nosso principal inimigo está em nosso próprio país". A revolução explodiu na Rússia em fevereiro de 1917, acabando com o reino dos tzares; mas não foi em nada um 1789 russo, uma nova revolução burguesa atrasada, mas Fevereiro abriu o caminho para Outubro, a tomada do poder pela classe operária organizada em soviets, que proclamou que essa insurreição só era o primeiro golpe da revolução mundial que acabaria não só com a guerra mas também com o próprio capitalismo.

Como o repetiam Lenin e os bolcheviques, a Revolução russa triunfaria ou cairia com a revolução mundial. Seu chamamento à sublevação teve um eco rápido: motins no exército francês em 1917; revolução na Alemanha em 1918 que obrigou os governos burgueses do mundo concluir a toda pressa uma paz precipitada por medo de que a epidemia bolchevique se estendesse; República dos soviets na Baviera e na Hungria em 1919; greve geral em Seattle, Estados Unidos, e em Winnipeg, no Canadá; necessidade para a burguesia de mandar tanques para opor-se à agitação operária no vale do Clyde em Escócia no mesmo ano; ocupações de fábricas na Itália em 1920. Foi uma deslumbrante confirmação da análise da IC: abria-se um novo período de guerras e de revoluções. Ao mesmo tempo que esmagava à humanidade com seu rolo compressor de militarismo e guerra, o capitalismo também fazia necessária a revolução proletária.

Mas desgraçadamente, a consciência que tinham os elementos mais dinâmicos e clarividentes da classe operária, os comunistas, não coincidia nem muito menos com o nível alcançado pelo conjunto da classe. A maior parte desta não entendia ainda que era impossível voltar para antigo período de paz e de reformas graduais. Queria que se acabasse a guerra, e apesar de ter imposto a paz à burguesia, esta soube jogar sobre a idéia de que se podia voltar ao status quo ante bellum, status quo de antes da guerra, com umas reformas apresentadas como "vantagens operárias": na Grã-Bretanha, foram os "homes fit for heroes", lares para heróis que voltavam da guerra, foi o direito de voto para as mulheres e a cláusula 4 no programa do Partido Trabalhista que prometia as nacionalizações das fábricas mas importantes da economia; na Alemanha, aonde a revolução já tinha começado a concretizar-se, as promessas foram mais radicais, usando-se palavras como socialização e conselhos operários; comprometiam-se a que abdicasse o Káiser e a instaurar uma República apoiada no sufrágio universal.

Foram essencialmente os sociais-democratas, esses especialistas experimentados da luta por reformas, quem venderam essas ilusões aos operários, ilusões que lhes permitiram por um lado declarar-se a favor da revolução e por outro utilizar os grupos pro - fascistas para assassinar os operários revolucionários no Berlim e Munich, entre eles os próprios Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht; também apoiaram a asfixia econômica e a ofensiva militar contra o poder soviético na Rússia, com o pretexto falacioso de que os bolcheviques teriam forçado a história ao levar a cabo uma revolução em um país atrasado no que a classe operária era minoritária, "ofendendo" assim os sagrados princípios da democracia.

Pela mentira e a repressão brutal, a onda revolucionária foi sufocada em uma série de derrotas sucessivas. Atalho do oxigênio da revolução mundial, a revolução na Rússia começou a afogar e a devorar-se a si mesma; esse processo o simboliza muito bem o desastre do Cronstadt, aonde operários e marinheiros descontentes que exigiam novas eleições dos soviets foram esmagados pelo governo bolchevique. Foi Stalin o "vencedor" desse processo de degeneração interna, e sua primeira vítima foi o próprio Partido bolchevique que se transformou final e irrevogavelmente em instrumento de uma nova burguesia de Estado, depois de ter substituído toda aparência de internacionalismo pela noção fraudulenta de "socialismo em um só país".

O capitalismo sobreviveu então ao terror que lhe infundiu a quebra de onda revolucionária, apesar de algumas "réplicas" como a greve geral na Grã-Bretanha em 1926 e a insurreição operária do Shangai em 1927. Proclamou sua firme intenção de voltar para a normalidade. Durante a guerra, o princípio de "lucros e perdas" tinha ficado temporariamente (e parcialmente) suspenso ao orientar quase toda a produção para o esforço de guerra, deixando o aparelho estatal controlar diretamente o conjunto dos setores da economia. Em um Relatório ao Terceiro Congresso da Internacional comunista, Trotski assinalou de que forma a guerra tinha favorecido uma nova forma de funcionar do capitalismo, essencialmente apoiada na manipulação da economia pelo Estado e a criação de imensidões de dívidas, de capital fictício: "Como sabem, o capitalismo como sistema econômico está cheio de contradições. Durante os anos de guerra, estas alcançaram proporções monstruosas. Para proporcionar os recursos necessários à guerra, o Estado aplicou principalmente duas medidas: a primeira é emitir papel moeda, a segunda emitir obrigações. Assim é como uma quantidade crescente de pretendidos "valores papel" (as obrigações) entrou em circulação, como meio pelo qual o Estado surrupiou valores materiais reais do país para destruí-los na guerra. Quanto maiores foram as somas gastas pelo Estado, ou seja os valores reais destruídos, maior foi a quantidade de pseudoriqueza, de valores fictícios acumulados no país. Os títulos de Estado se acumularam como montanhas. Pode a primeira vista parecer que um país se tornou muito rico mas, na realidade, corroeu seu fundamento econômico, fazendo-o vacilar, conduzindo-o ao limite do afundamento. As dívidas de Estado subiram até quase um trilhão de Marcos ouro, que se acrescentam aos 62 % de recursos nacionais atuais dos países em guerra. Antes da guerra, a quantidade total mundial de papel moeda e de crédito se aproximava dos 28 000 milhões de Marcos. Hoje está entre 220 e 280 mil e milhões, ou seja que se multiplicou por dez. E além essas cifras não têm em conta a Rússia e sim unicamente o mundo capitalista. Tudo isto se aplica em particular, embora não exclusivamente, aos países europeus principalmente a Europa continental e, em particular, a Europa central. À medida que a Europa se empobrece - o que está acontecendo até hoje- cobre-se cada dia mais de capas cada vez mais espessas de "valores papel", pelo que se chama capital fictício. Essa moeda fictícia de capital papel, essas notas do tesouro, bônus de guerra, bilhetes, representam uma lembrança de um capital morto ou a espera de um capital por vir. Já não têm nenhuma relação com um capital verdadeiramente existente. Entretanto seguem funcionando como capital e como moeda e isso dá uma imagem incrivelmente deformada da sociedade e da economia mundial no seu conjunto. Quanto mais se empobrece essa economia, mais rica parece ser essa imagem refletida por esse espelho do capital fictício. Ao mesmo tempo, a criação desse capital fictício significa, como o veremos, que as classes se repartem de maneira diferente a distribuição de uma renda nacional e de uma riqueza que se contraem gradualmente. A renda nacional também se contraiu, mas não tanto como a riqueza nacional. A explicação é singela: a vela da economia capitalista se gastou muito pelas duas pontas" (2 de junho de 1921; traduzido do inglês por nós).

O que esses métodos significavam claramente é que o sistema não podia existir sem trapacear com suas próprias leis. Os novos métodos se descreviam como "socialismo de guerra", mas não eram nada mais que um meio de preservar o sistema capitalista em um período no qual se fazia obsoleto e formava um baluarte desesperado contra o socialismo, contra a ascensão de um modo de produção social superior. Como o "socialismo de guerra" não era essencialmente necessário a não ser para ganhar a guerra, pensava a burguesia, foi efetivamente desmantelado quando se acabou. Em princípios dos anos 20, em uma Europa devastada pela guerra, começou um difícil período de reconstrução, mas as economias do Velho Mundo seguiam estancadas: as taxas de crescimento espetaculares que tinham caracterizado os principais países capitalistas da pré-guerra não voltavam a produzir-se. A paralisação se instalou em continuidade em países como a Grã-Bretanha, enquanto a economia alemã, anêmica pelos custos das indenizações de guerra, batia todos os recordes de inflação conhecidos e estava alimentada quase totalmente pelo endividamento.

A exceção principal foram os Estados Unidos que se desenvolveram durante a guerra desempenhando o papel de "intendente da Europa", como diz Trotski nesse mesmo relatório. Os EUA se alçaram então definitivamente como a economia mais potente do mundo e floresceu precisamente porque seus rivais foram vitimados pelos enormes custos da guerra, as alterações sociais do pós-guerra e o desaparecimento completo do mercado russo. Foi para a América do Norte a época do jazz, os "anos loucos"; as imagens do Ford "T", produzido massivamente nas fábricas de Henry Ford, refletia a realidade de taxas de crescimento vertiginosas. Depois de ter alcançado até o final de sua expansão interna e aproveitando do estancamento das velhas potências européias, o capital norte-americano começou a invadir o globo com suas mercadorias, da Europa até os países subdesenvolvidos, alcançando inclusive regiões ainda pré-capitalistas. Depois de ter sido devedor durante o século XIX, os Estados Unidos se converteram em principal credor mundial. Apesar do boom não ter influído muito na agricultura americana, houve um aumento perceptível de poder aquisitivo da população urbana e proletária. Tudo isso parecia ser a prova de que se podia voltar para mundo do capitalismo liberal, o "deixar fazer" que tinha permitido a extraordinária expansão do século XIX. Era o triunfo da filosofia tranqüilizadora de um Calvin Coolidge, presidente dos Estados Unidos naquele tempo. Assim falou ao Congresso americano em dezembro de 1928: "Nenhum dos Congressos dos Estados Unidos até agora reunido para examinar o estado da União tinha experimentado diante de si uma perspectiva tão favorável como a que nos oferece nos atuais momentos. No que respeita aos assuntos internos, há tranqüilidade e satisfação, relações harmoniosas entre patrões e assalariados, liberadas dos conflitos sociais, e o nível mais alto de prosperidade. A paz triunfa no plano exterior, a boa vontade devida a compreensão mútua, e o reconhecimento de que os problemas que pareciam tão ameaçadores em tempos recentes, estão desaparecendo sob a influência de um comportamento claramente amistoso. A importante riqueza criada por nossa mentalidade empresarial e nosso trabalho, salva por nosso sentido da economia, conheceu a distribuição mais ampla em nossa população e seu fluxo contínuo serviu para as obras caridosas e a indústria do mundo inteiro. O que é preciso para viver já não se limita ao estritamente necessário e agora já se estende ao luxo. O incremento da produção é consumido pela crescente demanda interior e um comércio exterior em expansão. O país pode olhar o presente com satisfação e antecipar com otimismo o futuro."

Palavras pertinentes se as houver! Em outubro de 29, menos de um ano depois, foi o "crash". O crescimento convulsivo da economia norte-americana se chocou contra os limites inerentes ao mercado. Muitos dos que tinham acreditado que o crescimento era ilimitado, que o capitalismo era capaz de criar seus próprios mercados para sempre e tinham investido suas economias apoiando-se nesse mito caíram de muito alto. Além do mais não foi uma crise como as que tinham marcado o século XIX, crise tão regulares durante a primeira metade desse século que inclusive foi possível falar de "ciclo decenal". Naquele tempo, depois de um breve período de queda, encontravam-se novos mercados no mundo e iniciava uma nova fase de crescimento, ainda mais vigorosa; além disso, no período entre 1870 A 1914, caracterizado por um impulso imperialista acelerado pela conquista das regiões não capitalistas restantes, as crises que golpearam os centros do sistema foram muito menos violentas que durante a juventude do capitalismo, apesar de que o que se chamou a "larga depressão", entre 1870 e 1890, que refletiu, de certo modo, o início do declínio da supremacia econômica mundial de Grã-Bretanha. E, de todas as maneiras, não há comparação possível entre os problemas comerciais do século XIX e o naufrágio ocorrido nos anos 1930. Era uma situação qualitativamente diferente: algo fundamental tinha mudado nas condições da acumulação capitalista. A depressão era mundial: desde seu centro, Estados Unidos, passou a golpear a Alemanha, que até então era quase que totalmente dependente do EUA, e em seguida o resto da Europa. A crise foi igualmente devastadora para as regiões coloniais ou semi-dependentes, obrigadas em grande parte por seus grandes "proprietários" imperialistas, produzir em primeiro lugar para as metrópoles. A queda repentina dos preços mundiais traduziu-se na ruína da maioria desses países.

Pode-se medir a profundidade da crise em que a produção mundial, que tinha declinado em torno de 10% com a Primeira Guerra mundial, após o crack, se caiu 32% (esta cifra inclui a URSS; passagens extraídas do livro de Sternberg, o, el Conflicto del siglo, 1951). Nos Estados Unidos, grande beneficiário da guerra, a queda da produção industrial alcançou 53,8 %. As estimativas das cifras do desemprego são variáveis; Sternberg as estima em 40 milhões de desempregados nos principais países desenvolvidos. A queda do comércio mundial foi também catastrófica, reduzindo-se a um terço do nível anterior a 1929. Porém a diferença principal entre a queda dos anos 30 e as crises do século XIX é que já não existia, a partir de então nenhum mecanismo  "automático" de retomada de um novo ciclo de crescimento e de expansão para as regiões do planeta que ainda não eram capitalistas. A burguesia se deu conta em seguida de que já não continuaria existindo uma "mão invisível" do mercado para que a economia continuasse funcionando em um futuro imediato. Devia pois abandonar o liberalismo ingênuo de Coolidge y do seu sucesor, Hoover, e reconhecer que, a partir de então, o Estado deveria intervir autoritariamente na economia para assim preservar o sistema capitalista. Foi sobretudo Keynes quem teorizou essa política; compreendeu que o Estado devia sustentar as indústrias em declínio e gerar um mercado artificial para compensar a incapacidade do sistema para desenvolver outras novas. Esse é o sentido das "obras públicas" em grande escala empreendidas por Roosevelt com o nome de New Deal, do apoio que lhe outorgou a nova central sindical, a CIO , para estimular a demanda dos consumidores, etc. Na França, a nova política tomou a forma da Frente popular. Na Alemanha e Itália, a forma do fascismo e na Rússia, a do stalinismo. Todas essas políticas tinham a mesma causa subjacente. O capitalismo tinha entrado em uma nova época, a época do capitalismo de Estado.

Mas o capitalismo de Estado não existe em cada país de um ou outro modo isolado. Ao contrário, está em grande parte determinado pela necessidade de centralizar e defender a economia nacional contra a concorrência das demais nações. Nos anos 30, isso compreendia um aspecto econômico: considerava-se que o protecionismo era um meio de defender suas próprias indústrias e seus mercados contra a intrusão de indústrias de outros países; mas o capitalismo de Estado continha um aspecto militar, muito mais significativo, pois a concorrência econômica acelerava a marcha para uma nova guerra mundial. O capitalismo de Estado é, por essência, uma economia de guerra. O fascismo, que celebrava ruidosamente as vantagens da guerra, era a expressão mais patente dessa tendência. Sob o regime de Hitler, o capital alemão respondeu a sua situação econômica catastrófica lançando-se em uma corrida desenfreada de rearmamento. Isso produziu o efeito "benéfico" de absorver rapidamente o desemprego, mas não era esse o objetivo verdadeiro da economia de guerra. Seu objetivo era preparar-se para uma nova e violenta partilha dos mercados. De igual modo, o regime stalinista na Rússia e a subordinação desumana do nível de vida dos proletários ao desenvolvimento da indústria pesada, respondia à necessidade de fazer da Rússia uma potência militar mundial com o que havia de contar e, como na Alemanha nazista e o Japão militarista (que já tinha arrojado uma campanha de conquista militar invadindo Manchúria em 1931 e o resto da China em 1937), esses regimes resistiram ao desmoronamento com "êxito", pois tinham subordinado toda a produção às necessidades da guerra. Mas o desenvolvimento da economia de guerra foi também o segredo dos programas maciços de obras públicas nos países do "New Deal" e da Frente Popular, por muito que estes demorassem mais tempo em adaptar as fábricas à produção maciça de armas e material militar.

Victor Serge qualificou o período dos anos 1930 de "meia-noite no século". De maneira idêntica à guerra de 1914-18, a crise econômica de 1929 confirmou a senilidade do modo de produção capitalista. A uma escala muito maior que o que se conheceu no século XIX, assistia-se a uma "epidemia social que teria parecido um contra-senso a todas as épocas anteriores - a epidemia da sobreprodução" (Manifesto comunista). Milhões de pessoas sofriam fome, suportando um desemprego obrigatório, nas nações mais industrializadas do globo, não porque as fábricas e os campos não pudessem produzir o suficiente, mas sim porque produziam "demais" para a capacidade de absorção do mercado. Era uma nova confirmação da necessidade da revolução socialista.

Mas o primeiro intento do proletariado de realizar o veredicto da história tinha sido definitivamente vencido no final dos anos 1920 e por toda parte imperava a contra-revolução. E esta alcançou o abismo mais profundo e mais aterrorizantes precisamente ali onde a revolução tinha chegado mais alto. Na Rússia, a contra-revolução tomou a forma dos campos de trabalho e das execuções massivas; populações inteiras deportadas, milhões de camponeses deliberadamente esfomeados; os operários, nas fábricas, submetidos à super-exploração stajanovista. No cultural, todas as experiências sociais e artísticas dos primeiros anos da revolução foram suprimidas em nome do "realismo socialista", impondo o retorno às normas burguesas mais vulgares.

Na Alemanha e Itália o proletariado tinha permanecido mais próximo da revolução do que em qualquer outro país da Europa ocidental. A conseqüência de sua derrota foi a instauração de um regime policial brutal. O fascismo se caracterizou por uma ampla burocracia de informantes, a perseguição feroz dos dissidentes e das minorias sociais e étnicas, entre elas, o caso mais conhecido é a eliminação dos judeus na Alemanha. O regime nazista espezinhou centenas de anos de cultura, enlameando-se em teorias ocultistas pseudo-científicas sobre a missão civilizadora da "raça ariana", queimando livros com idéias "não alemãs", exaltando as virtudes do sangue, da terra e da conquista. Trotski considerou a destruição da cultura na Alemanha nazista como uma prova muito eloqüente da decadência da cultura burguesa: "O fascismo tornou acessível a política aos baixos recursos da sociedade. Na atualidade, não só nos lares camponeses, mas também nos arranha-céu urbanos, vivem conjuntamente os séculos dez, treze ou vinte. Cem milhões de pessoas utilizam a eletricidade e ainda acreditam no poder mágico de gestos e exorcismos. O papa de Roma semeia pela rádio a milagrosa transformação da água em vinho. Os astros do cinema visitam os médiuns. Os aviadores que pilotam espetaculares mecanismos criados pelo gênio do homem têm amuletos em suas roupas. Que reservas inesgotáveis de obscurantismo, ignorância e barbárie! O desespero os pôs de pé, o fascismo lhes deu uma bandeira. Tudo o que devia ter-se eliminado do organismo nacional em forma de excremento cultural no curso do desenvolvimento normal da sociedade é vomitado agora: a sociedade capitalista vomita a barbárie não digerida. Tal é a fisiologia do nacional-socialismo" (O que é o nacional-socialismo?, 1933; Tradução nossa)

Mas, precisamente porque o fascismo era uma expressão encarnada do declínio do capitalismo como sistema, pensar que podia combater-se sem lutar contra o capitalismo no seu conjunto, como o afirmavam os diferentes tipos de "antifascistas", era uma pura mistificação. Isto ficou patente na Espanha de 1936: os operários de Barcelona replicaram ao primeiro golpe de estado do general Franco, com seus próprios métodos de luta de classes - a greve geral, a confraternização com as tropas, o armamento dos operários - paralisando em uns quantos dias a ofensiva fascista. Foi quando deixaram sua luta em mãos da burguesia democrática personificada na Frente Popular, que foram vencidos e arrastados para uma luta inter-imperialista que se revelou ser um ensaio geral da matança muito mais mortífera que aconteceria posteriormente. A Esquerda italiana tirou, essencialmente, a conclusão: a guerra da Espanha foi a confirmação terrível de que o proletariado mundial tinha sido derrotado; e como o proletariado era o único obstáculo no caminho do capitalismo para a guerra, a marcha para uma nova guerra mundial estava aberta.

Uma nova etapa da barbárie

O quadro do Picasso, Guernica, é célebre, com razão, por ser uma representação sem comparação dos horrores da guerra moderna. O bombardeio indistinto da população civil da cidade da Guernica pela aviação alemã que apoiava o exército de Franco, provocou uma enorme comoção pois era um fenômeno relativamente novo. O bombardeio aéreo de objetivos civis foi muito limitado durante a Iª Guerra mundial e muito ineficaz. A grande maioria dos mortos dessa guerra eram soldados nos campos de batalhas. A IIª Guerra mundial mostrou até que ponto a barbárie do capitalismo em decadência se incrementou, pois esta vez a maioria dos mortos eram civis: "O cálculo total de vidas humanas perdidas por conta da Segunda guerra mundial, deixando de lado o campo ao que pertenciam, é em torno de 72 milhões. A quantidade de civis alcança os 47 milhões, incluídos os mortos por fome e enfermidade causadas pela guerra. As perdas militares alcançam 25 milhões, incluídos 5 milhões de prisioneiros de guerra" (http://en.wikipedia.org/wiki/World_War_II_casualties; Tradução nossa). A expressão mais aterradora e em que se concentra o horror foi a matança industrial de milhões de judeus e de outras minorias pelo regime nazista, fuzilados em série nos guetos e nos bosques da Europa do Leste, esfomeados e explorados até a morte no trabalho como escravos, , asfixiados nas câmaras de gás contados por centenas de milhares nos campos de Auschwitz, Bergen-Belsen ou Treblinka. Mas a quantidade de mortos civis, vítimas dos bombardeios de cidades pelas ações bélicas de ambos os bandos é a prova de que o holocausto, o assassinato sistemático de inocentes, foi uma característica geral desse tipo de guerra. E neste aspecto, as democracias inclusive ultrapassaram sem dúvida às potências fascistas, pois os mantos de bombas, especialmente as incendiárias, que cobriram as cidades alemãs e japonesas dão, por comparação, um aspecto um pouco "aficionado" a Blitz alemã sobre o Reino Unido. O ponto gélido e simbólico desse novo método de matança de massas foi o bombardeio atômico das cidades japonesas da Hiroshima e Nagasaki; mas no que se refere a mortos civis, o bombardeio "convencional" de cidades como Tóquio, Hamburgo e Dresde foi ainda mais mortífero.

O uso da bomba atômica pelos Estados Unidos abriu, de duas maneiras, um novo período. Primeiro confirmou que o capitalismo se tornou um sistema de guerra permanente. Pois embora a bomba atômica tenha marcado o fim das potências do Eixo, também abriu um novo front de guerra. O objetivo verdadeiro por trás Hiroshima não era o Japão, que já tinha caído, e pedia condições para render-se, mas sim a URSS. Era um aviso para que este país moderasse suas ambições imperialistas no Extremo Oriente e na Europa. Na realidade "os chefes do Estado maior americano elaboraram um plano de bombardeio atômico das vinte principais cidades soviéticas nas dez semanas que se seguiram ao fim da guerra" (Walker, The Cold War and the making of the Modern World, denominado por Eric Hobsbawm em A idade dos extremos, p. 518 da ed. francesa). Em outras palavras, a bomba atômica só pôs fim a Segunda guerra mundial para erigir os fronts da terceira. Deu um significado novo e aterrador às palavras de Rosa Luxemburgo sobre as "últimas conseqüências" de um período de guerras sem tréguas. A bomba atômica demonstrava que a partir de então, o sistema capitalista possuía desde já a capacidade de extinguir a vida humana na Terra.

Os anos 1914-1945 que Hobsbawm chama "a era das catástrofes " - confirma claramente o diagnóstico segundo o qual o capitalismo se tornou um sistema social decadente - Igual o que ocorreu na Roma antiga ou o feudalismo antes daquele. Os revolucionários que sobreviveram as perseguições e a desmoralização dos anos 1930 e 1940 e que mantiveram os princípios internacionalistas contra os dois campos imperialistas antes e durante a guerra, eram pouco numerosos, porém para a maioria deles, era algo definitivo: duas guerras mundiais, a ameaça imediata de uma terceira e a crise econômica mundial em uma escala sem precedentes, pareciam ter confirmado isso claramente uma vez por todas.

Nas décadas seguintes, entretanto, começaram a surgir dúvidas. Seguramente a humanidade vivia desde então sob a ameaça permanente de ser aniquilada. Durante os 40 anos seguintes, embora os dois novos blocos imperialistas não tenham arrastado a humanidade para uma nova guerra mundial, permaneceram em situação de conflito e de hostilidade permanente, levando a cabo uma série de guerras, mediante terceiros, no Extremo e Oriente médio, na África; e, em várias ocasiões, especialmente durante a crise dos mísseis em Cuba no outubro de 1962, levaram a humanidade à beira do abismo. Um cálculo oficial aproximado dá conta de 20 milhões de mortos, mortos durante essas guerras; outros cálculos apresentam cifras muito mais altas.

Essas guerras assolaram as regiões subdesenvolvidas do mundo e, durante o período do pós-guerra, essas zonas conheceram problemas assombrosos de pobreza e desnutrição. Entretanto, nos principais países capitalistas, produziu-se um boom espetacular durante alguns anos que os peritos da burguesia chamaram retrospectivamente os "Trinta Gloriosos". As taxas de crescimento igualaram ou superaram inclusive as do século XIX, aumentaram os salários com regularidade, instituíram-se serviços sociais e de saúde sob a direção "protetora" dos Estados... Em 1960, na Grã-Bretanha, o deputado britânico Harold Macmillan disse a classe operária "a vida nunca foi tão formosa". Entre os sociólogos floresceram novas teorias sobre a transformação do capitalismo em "sociedade de consumo" na qual a classe operária "havia se aburguesado" graças a incessante acumulação de televisores, máquinas de lavar roupa, carros e colônias de férias. Para muitos, incluídos alguns no movimento revolucionário, esse período contradizia a idéia de que o capitalismo tinha entrado em decadência, demonstrando sua capacidade para desenvolver-se de forma quase ilimitada. Os teóricos "radicais", como Marcuse, começaram a procurar fora da classe operária o sujeito da mudança revolucionária: os camponeses do Terceiro mundo ou os estudantes rebeldes dos centros capitalistas.

Uma sociedade em decomposição

Examinaremos em outro espaço as bases reais desse boom do pós-guerra e, especialmente, que meios adotou o capitalismo em declínio para conjurar as conseqüências imediatas de suas contradições. Digamos desde já que aqueles que declararam que o capitalismo tinha conseguido superar suas contradições revelaram-se empiristas superficiais, quando, nos finais dos anos 1960, apareceram os primeiros sintomas de uma nova crise econômica nos principais países ocidentais. A partir dos 70, a enfermidade já estava declarada: a inflação começou fazer estragos nas economias principais, incitando o abandono dos métodos keynesianos de apoio direto à economia por parte do Estado, métodos que tão bem tinham funcionado durante as décadas anteriores. E assim, os 80 foram os anos do "thatcherismo" e dos "reaganomics", ou seja, das políticas propugnadas pela primeira ministra britânica, Margaret Thatcher, e o presidente do EUA, Ronald Reagan, que consistiam em deixar que a economia atingisse seu nível real, abandonando as indústrias mais débeis. A inflação foi curada pela recessão. Após, atravessamos uma série de mini-booms e de recessões, e o projeto do thatcherismo continua existindo no plano ideológico com as perspectivas do neoliberalismo e das privatizações. Entretanto, além da retórica sobre o retorno dos valores econômicos da época da rainha Vitória sobre a livre empresa, o papel do Estado capitalista continua sendo tão decisivo ou mais: o Estado continua manipulando o crescimento econômico mediante toda classe de manobras financeiras, todas elas apoiadas em uma avalanche crescente de dívidas, cujo melhor exemplo e símbolo são os Estados Unidos. O desenvolvimento desta potência se plasmou em que de devedora se transformou em credora e, em troca, agora se afoga sob uma dívida de mais de 36 trilhões de dólares[1] "Este crescimento constante de dívidas, não só no Japão mas também em todos os países desenvolvidos, é uma autêntica bomba relógio com um potencial de destruição insuspeito. Uma estimativa aproximada do endividamento mundial para todos os agentes econômicos (Estados, empresas, famílias e bancos) oscila entre 200 e 300 % do produto mundial. Em concreto isso significa duas coisas: por um lado, o sistema adiantou o equivalente monetário do valor de entre duas e três vezes o produto mundial para paliar a crise de sobreprodução permanente e, por outro lado, teria que trabalhar dois a três anos por nada, se essa dívida tivesse que ser devolvida no dia de amanhã. Se um endividamento maciço pode ser hoje suportado pelas economias desenvolvidas, está, em troca, afogando um por um os países chamados "emergentes". Essa dívida fenomenal a nível mundial é algo historicamente sem precedentes e é expressão a uma só vez da profundidade do labirinto em que está imerso o sistema capitalista, mas, também, de sua capacidade para manipular a lei do valor para que perdure", (Revista internacional nº 114, 3er trimestre de 2003).

Enquanto a burguesia nos pede que confiemos em todos esses remédios falsos como a "economia da informação" ou outras bagatelas como as "revoluções tecnológicas", a dependência de toda a economia mundial no que diz respeito ao endividamento implica uma acumulação de forças subterrâneas cuja pressão acabará fazendo entrar em erupção o vulcão. As observemos de vez em quando: o motor do crescimento dos "tigres" e dos "dragões" asiáticos se impregnou em 1997; foi possivelmente o exemplo mais significativo. Hoje, em 2007, nos repete que as taxas de crescimento espetaculares da Índia e China nos mostram o futuro. Mas, imediatamente, as palavras não conseguem ocultar o medo de que tudo isto acabe mal. O crescimento da China, ao fim e ao cabo, apóia-se em exportações vantajosas para "Ocidente", cuja capacidade de consumo se apóia em enormes volumes de dívidas... E o que ocorrerá quando tiver que reembolsar? Depois do crescimento sustentado pela dívida dos últimos vinte anos, aparece sua fragilidade em muitos de seus aspectos mais claramente negativos: a desindustrialização de segmentos inteiros da economia ocidental, a criação de uma massa de empregos improdutivos e freqüentemente precários, cada vez mais vinculados a espaços parasitários da economia; a crescente distancia entre ricos e pobres, não só entre os países capitalistas centrais e as regiões mais pobres do mundo, mas também nas economias mais desenvolvidas; a incapacidade evidente para absorver verdadeiramente a massa de desempregados que se tornou permanente e cuja amplitude se esconde com uma série de artimanhas (estágios de formação que não vão a lugar nenhum, mudanças constantes nos cálculos do desemprego, etc.).

No plano econômico, pois, o capitalismo não inverteu, muito menos, seu curso à catástrofe. E o mesmo ocorre no plano imperialista. Quando se afundou o bloco do Leste nos finais dos anos 1980, pondo um fim espetacular em quatro décadas de "Guerra fria", o presidente do EUA, George Bush pai, pronunciou sua célebre frase em que anunciava a abertura de uma nova ordem mundial de paz e prosperidade. Mas o capitalismo decadente é guerra permanente; a forma dos conflitos imperialistas poderá mudar, mas não desaparecer. Vimos em 1945, tornamos a verificar desde 1991. Em lugar do conflito relativamente "disciplinado" entre os dois blocos, estamos assistindo uma guerra muito mais caótica, de todos contra todos, com uma única superpotência restante, Estados Unidos, que recorre cada vez mais à força militar para tentar impor sua autoridade. E ocorreu o contrário: cada desdobramento dessa superioridade militar incontestável o que unicamente conseguiu foi incrementar ainda mais oposição à sua hegemonia. Vimos quando a primeira Guerra do Golfo em 1991: por muito que até então os Estados Unidos conseguissem momentaneamente obrigar os seus antigos aliados, Alemanha e França, a unir-se à sua cruzada contra Sadam Husein no Iraque, os dois anos seguintes demonstraram claramente que a antiga disciplina do bloco ocidental tinha desaparecido para sempre: durante as guerras que devastaram os Bálcãs durante a década dos 90, primeiro Alemanha, (com seu apoio a Croácia e Eslovênia) França depois (com seu apoio a Sérvia, enquanto que os EUA decidiram apoiar a Bósnia), dedicaram-se a fazer a guerra contra esta potencia, mediante terceiros. Inclusive o "lugar-tenente" dos Estados Unidos, Grã-Bretanha, situou-se por uma vez no campo adverso apoiando a Sérvia até o momento em que este país já não pôde impedir a ofensiva americana e seus bombardeios. A recente "guerra contra o terrorismo", preparada graças a destruição das Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001, por um comando suicida muito provavelmente manipulado pelo Estado norte-americano (outra expressão da barbárie do mundo atual) tem acirrado as divergências: França, Alemanha e Rússia formaram uma coalizão de opositores à invasão do Iraque pelos Estados Unidos. As conseqüências da invasão do Iraque em 2003 foram ainda mais desastrosas. Longe de consolidar o controle do Oriente Médio pelos Estados Unidos e favorecer a Full spectrum dominance, o domínio tecnológico do EUA com o que sonham os neo-conservadores da administração Bush e seus sequazes, a invasão consumiu toda a região no caos com uma instabilidade crescente em Israel/Palestina, Líbano, Irã, Turquia, Afeganistão e Paquistão. Durante esse tempo, o equilíbrio imperialista já estava mais minado ainda pela emergência de novas potências nucleares, Índia e Paquistão; é possível que o Irã imediatamente seja a seguinte e, de todas maneiras, este país ampliou suas ambições imperialistas depois da queda do seu grande rival, Iraque. O equilíbrio imperialista também está minado pela posição hostil que foi tomando cada vez mais pela Rússia de Putin para o Ocidente, pelo peso crescente do imperialismo chinês nos assuntos mundiais, pela proliferação de Estados que se desintegram e de "Estados vândalos" no Oriente Médio, Extremo Oriente e África, pela extensão do terrorismo islamita em escala mundial, que atua às vezes por conta de tal ou qual potência, mas, freqüentemente, como potência imprevisível por conta própria... Desde o final da "guerra fria", o mundo não é, certamente, menos perigoso e sim muito mais.

E se já ao longo de todo o século XX, não têm feito mais que aumentar os perigos que ameaçam a espécie humana, sobre tudo a crise e a guerra imperialista, agora, nas últimas décadas, surgiu uma terceira dimensão do desastre que o capitalismo reserva a humanidade: a crise ecológica. Este modo de produção, aguilhoado por uma concorrência cada vez mais agitada em busca da última oportunidade de encontrar um mercado, deve continuar estendendo-se por todos os rincões do planeta, saquear seus recursos a todo custo. E este "crescimento" frenético aparece cada dia mais como um câncer para a o mundo inteiro. Durante as duas últimas décadas, a população foi tomando consciência pouco a pouco da amplitude dessa ameaça porque, embora hoje sejamos testemunhas de algo que não é mais que o ponto nevrálgico de um processo antigo, o problema já começou a apresentar-se em níveis muito mais elevados. A contaminação do ar, dos rios e os mares por causa das emissões da indústria e dos transportes, a destruição das selvas tropicais e da quantidade de outros habitats silvestres ou a ameaça de extinção de inumeráveis espécies animais alcançaram cotas alarmantes, combinando-se agora com o problema da mudança climática que ameaça devastando a civilização humana com uma sucessão de inundações, secas, fome e pragas de todo tipo. A própria mudança climática pode acabar provocando uma espiral de desastres como é reconhecido, dentre outros, pelo célebre físico Stephen Hawking. Em uma entrevista a ABC News, em agosto de 2006, explicava que: "o perigo é que o aquecimento global pode autoalimentar-se se é que não já está fazendo. O degelo dos pólos do Ártico e do Antártico reduz parte de energia solar que se reflete no espaço, aumentando a temperatura mais ainda. A mudança climática pode destruir a Amazônia e outras selvas tropicais, eliminando assim um dos meios principais com os que se absorve o dióxido de carbono da atmosfera. A elevação da temperatura dos oceanos pode liberar grandes quantidades de metano aprisionados em forma de hidratos no fundo dos mares. Esses dois fenômenos aumentariam o efeito estufa, acentuando o aquecimento global. É urgente barrar o aquecimento climático se ainda for possível".

As ameaças econômica, militar e ecológica não caminham separadas, mas estão intimamente ligadas. É evidente, sobre tudo, que as nações capitalistas diante da ruína de sua economia, frente às catástrofes ecológicas não vão sofrer tranqüilamente sua própria desintegração mas se verão obrigadas a adotar soluções militares contra as demais nações.

Como nunca antes nos está colocada a alternativa socialismo ou barbárie. E, como o dizia Rosa Luxemburgo, a Iª Guerra mundial já era a barbárie, o perigo que ameaça a humanidade, e, para começar, a única força que pode salvá-la, o proletariado, é que este se veja arrastado pela barbárie crescente que se expande pelo planeta antes de que possa atuar e contribuir sua própria solução.

A crise ecológica mostra claramente o perigo: a luta de classe proletária imediatamente não pode atuar nela antes de que o proletariado tenha tomado o poder e esteja em situação de reorganizar a produção e o consumo em escala mundial. E quanto mais se atrase a revolução maior será o perigo de que a destruição do meio ambiente escave as bases materiais da transformação comunista. Mas o mesmo ocorre com os efeitos sociais que engendra a fase atual da decadência. Em muitas cidades existe uma tendência que a classe operária perca sua identidade de classe e que uma geração de jovens proletários seja vítima da mentalidade de malta, de ideologias irracionais e da desesperança niilista. Isto também carrega o perigo de que seja demasiado tarde para que o proletariado se reconstitua como força social revolucionária.

Entretanto, o proletariado não deve jamais esquecer seu verdadeiro potencial. Por sua parte, a burguesia sempre foi consciente desse potencial. No período que desembocou na Iª Guerra mundial, a classe dominante esperava com ansiedade a resposta que daria a Social-democracia, pois sabia muito bem que não poderia obrigar os operários a ir À guerra sem o apoio ativo dessa. A derrota ideológica denunciada por Rosa Luxemburgo era a condição sine quo non para desencadear a guerra; e foi o reatamento dos combates do proletariado, a partir de 1916, o que ia pôr lhe fim. Ao contrário, a derrota e desmoralização depois da quebra da onda revolucionária abriram o curso a IIª Guerra mundial, embora necessitasse a burguesia um longo período de repressão e de intoxicação ideológica antes de poder mobilizar a classe operária para esse novo matadouro. E a burguesia, era muito consciente da necessidade de levar a cabo ações preventivas para dissipar o menor perigo de que se repetisse o ocorrido em 1917 ao final da guerra. Essa "consciência de classe" da burguesia esteve acima de tudo personificada pelo Greatest Ever Briton ("o britânico maior da história"), Winston Churchill, que tinha aprendido muito com papel que desempenhou para sufocar a ameaça bolchevique em 1917-20. Depois das greves maciças do Norte da Itália em 1943, foi Churchill quem formulou a política de "deixar (os italianos) cozinhar em seu próprio molho", ou seja atrasar a chegada dos aliados que vinham do Sul do país para, assim, permitir que nazistas esmagassem os operários italianos; foi Churchill também quem melhor compreendeu a sinistra mensagem do terror dos bombardeios sobre a Alemanha na última fase da guerra; seu objetivo era cortar pela raiz qualquer possibilidade de revolução ali onde a burguesia tinha mais medo dela.

A derrota mundial e a contra-revolução duraram quatro décadas. Mas não foi o final da luta de classes como alguns começaram a acreditar. Com o retorno da crise nos finais dos anos 60, voltou a aparecer uma nova geração de proletários que lutavam por suas próprias reivindicações: os "acontecimentos" de Maio de 1968 na França que, oficialmente, mencionam-se como uma "revolta estudantil", se levaram quase o Estado francês a beira do abismo foi porque a revolta das universidades veio acompanhada pela maior greve geral da história. Nos anos seguintes, Itália, Argentina, Polônia, Espanha, Grã-Bretanha e muitos outros países conheceram por sua vez movimentos maciços da classe operária, deixando para trás muito freqüentemente, os representantes oficiais do "Trabalho", sindicatos e partidos de esquerda. As greves "selvagens" foram a norma, em oposição a mobilização sindical "disciplinada", e os operários começaram a desenvolver novas formas de luta para escapar do controle paralisante dos sindicatos: assembléias gerais, comitês de greve eleitos, delegações maciças para outros lugares de trabalho. Nas grandes greves da Polônia, em 1980, os operários utilizaram esses meios para coordenar sua luta a nível de todo o país.

As lutas do período 1968-89 terminaram freqüentemente em derrotas se referirmos às reivindicações exigidas. Mas seguramente se não tivessem acontecido, a burguesia teria ficado com as mãos livres para impor ataques muito maiores contra as condições de vida da classe operária, em particular nos países avançados do sistema. E, sobre tudo, a negativa do proletariado em pagar os efeitos da crise capitalista significava também que não ia deixar se alistar sem resistência em uma nova guerra, e isso quando o reaparecimento da crise havia acirrado as tensões entre os dois grandes blocos imperialistas a partir dos anos 70 e, sobre tudo, nos anos 80. A guerra imperialista é um elemento implícito da crise econômica do capitalismo, embora também não seja uma "solução" a dita crise, nada mais é que um naufrágio do sistema ainda mais profundo. Para a guerra, a burguesia deve dispor de um proletariado submisso e ideologicamente leal, e isso a burguesia não o possuía. E possivelmente era no bloco do Leste onde se isso se observava mais claramente: a burguesia russa, era a que estava sentindo-se mais obrigada buscar a solução militar por causa de seu desmoronamento econômico e o assédio militar crescente, acabou dando-se conta de que lhe era impossível usar o proletariado como bucha de canhão em uma guerra contra ocidente, especialmente depois da greve de massas da Polônia em 1980. Foi esse atoleiro que, em grande parte, levou a implosão ao bloco do Leste em 1989-91.

O proletariado, entretanto, foi incapaz de propor sua própria e autêntica solução às contradições do sistema: a perspectiva de uma nova sociedade. Maio de 1968 colocou essa questão em um alto nível, fazendo surgir uma nova geração de revolucionários, mas estes continuaram sendo uma minoria ínfima. Ante o agravamento da crise econômica, a maior parte da lutas operárias dos anos 70 e 80 se limitaram a um nível econômico defensivo e as décadas de desilusão para com os partidos "tradicionais" de esquerda difundiram no seio da classe operária uma profunda desconfiança para "a política" fosse qual fosse.

Houve assim uma espécie de bloqueio na luta entre as classes: a burguesia não tinha nenhum futuro a oferecer para a humanidade, e o proletariado não havia voltado a descobrir seu próprio futuro. Mas a crise do sistema não fica imóvel e essa situação de bloqueio conduziu uma decomposição crescente da sociedade em todos os níveis. No plano imperialista, essa situação levou a desintegração dos dois blocos e, por isso, a perspectiva de uma guerra mundial desapareceu por um tempo indeterminado. Mas, como já vimos, o proletariado, e com ele a toda humanidade, estão expostos a um novo perigo, uma espécie de barbárie que se apresenta de forma sorrateira e, em muitos aspectos, é ainda mais nefasta que a guerra.

A humanidade está pois na encruzilhada. Os anos, as décadas que vêm podem ser cruciais para toda sua história, pois determinarão se a sociedade humana vai se afundar em uma regressão sem precedentes e inclusive extinguir-se ou se será capaz de dar o salto para uma nova forma de organização na qual a humanidade será por fim capaz de controlar sua própria força social e criar um mundo em harmonia com suas necessidades.

Como comunistas que somos, estamos convencidos de que não está muito tarde para esta alternativa, que a classe operária, apesar de todos os ataques econômicos, políticos e ideológicos que sofreu nos últimos anos, continua sendo capaz de resistir, continua sendo ainda a única força que pode impedir a queda no abismo. De fato, desde 2003, há um desenvolvimento perceptível de lutas operárias por todo o mundo; e, simultaneamente , estamos assistindo o surgimento de uma nova geração de grupos e pessoas que questionam as próprias bases do sistema social atual, que procuram seriamente quais são as possibilidades de uma mudança fundamental. Em outras palavras, estamos assistindo uma verdadeira maturação da consciência de classe.

 Frente a um mundo submerso no caos, não faltam explicações falsas à crise atual. Florescem hoje o fundamentalismo religioso, em suas variantes cristas ou mulçumanas, assim como todo um leque de explicações ocultistas ou conspiradoras da história, precisamente porque os sinais de um final apocalíptico da civilização mundial, são difíceis de negar. Porém estas regressões para a mitologia só servem para reforçar a passividade e a desesperança, pois subordinam invariavelmente a capacidade do homem para ter uma atividade que lhe seja própria, a umas leis irrevogáveis de poderes celestiais que reinam por cima dele. A expressão mais característica desses cultos é sem dúvida constituída pelas bombas humanas islâmicas, cujas ações são a quintessência da desesperança, ou os evangélicos americanos que glorificam a guerra e a destruição ecológica como tantas etapas para o êxtase do futuro. Y embora o "senso comum" burguês racional se ria dos absurdos desses fanáticos, aproveita para colocar no mesmo saco das suas troças todos aqueles que mediante o raciocínio e a reflexão científicas, estão cada vez mais convencidos de que o sistema social atual não pode durar, não poderá durar sempre. Contra as invectivas dos clérigos de todo tipo e a negação vazia dos burgueses estupidamente otimistas, é mais do que nunca vital desenvolver uma compreensão coerente do que Rosa Luxemburgo chamava "o dilema da história". Como ela, nós estamos convencidos de que as únicas bases dessa compreensão são a teoria revolucionária do proletariado, ou seja, o marxismo e a concepção materialista da história.

Gerrard (Revista Internacional n° 132)

[1] ) Estimativa do terceiro trimestre de 2003 segundo as estatísticas publicadas pelo conselho de governadores da Reserva federal e outras agências governamentais dos EEUU. Segundo as mesmas fontes, a dívida era de 1,6 bilhões de dólares em 1970. Fonte: http://solidariteetprogres.online.fr/News/Etats-Unis/breve_908.html.