Hoje em dia, o Proletariado continua sendo a classe revolucionária

Versão para impressãoEnviar por emailNa primeira parte desse artigo desenvolvemos as razões pelas quais o proletariado é a classe revolucionária na sociedade capitalista. Vimos por que é a única força capaz, ao instaurar uma nova sociedade libertada da exploração e com a capacidade de satisfazer plenamente as necessidades humanas, de resolver as contradições insolúveis que estão corroendo as entranhas do mundo atual. Esta capacidade do proletariado, já colocada em evidência desde o século XIX, especialmente pela teoria marxista, não é um simples resultado do grau de miséria e opressão que sofre cotidianamente. Muito menos, ao contrário do que alguns ideólogos burgueses pretendem que o marxismo diz, baseia-se sobre qualquer "inspiração divina" que faria do proletariado o "Messias dos tempos modernos". Essa capacidade se baseia em condições muito concretas e materiais: o lugar específico que a classe operária ocupa nas relações de produção capitalistas, sua posição de produtor coletivo do essencial da riqueza social e de classe explorada por essas mesmas relações de produção. Esse lugar ocupado no capitalismo não permite à classe operária, contrariamente a outras classes e camadas exploradas que subsistem na sociedade (como, por exemplo, o pequeno camponês), aspirar retornar ao passado. Ela é obrigada a olhar para o futuro, para a abolição do salário e a edificação da sociedade comunista.

Todos esses elementos não são novos. Fazem parte do patrimônio clássico do marxismo. No entanto, um dos meios mais traiçoeiros com os quais a ideologia burguesa tenta desviar o proletariado do seu projeto comunista é convencê-lo que estaria em vias de extinção, ou mesmo que já desapareceu. A perspectiva revolucionária fazia sentido quando os operários industriais eram a imensa maioria dos assalariados, porém com a atual redução dessa categoria, tal perspectiva tornou-se ultrapassada. Há de se reconhecer que semelhante discurso não afeta somente os operários menos conscientes, mas também alguns grupos que se reivindicam do comunismo. Razão maior para lutar com firmeza contra tais bobagens.

O pretendido desaparecimento da classe operária

As "teorias" burguesas sobre o "desaparecimento do proletariado" já vem de longe. Durante algumas décadas, elas se baseavam no fato de que o nível de vida dos operários conhecia certas melhorias. A possibilidade para estes adquirirem bens de consumo, antes reservados à burguesia ou pequena burguesia, significaria o desaparecimento da condição operária. Mesmo naqueles anos, essas "teorias" não se sustentavam: quando o automóvel, o televisor ou a geladeira, graças ao incremento da produtividade do trabalho humano, se tornaram mercadorias relativamente baratas, e além do mais, se fizeram indispensáveis devido ao contexto de vida dos operários [i], o fato de possuir esses artigos não significava, absolutamente, livrar-se da condição operária, nem sequer ser menos explorado. Na realidade, o grau de exploração da classe operária nunca esteve determinado pela quantidade ou natureza dos bens de consumo que pode dispor em um determinado momento. Já faz tempo, Marx e o marxismo deram uma resposta a essa questão: em linhas gerais, o poder de consumo dos assalariados corresponde ao preço da sua força de trabalho, ou seja, à quantidade de bens necessários para a reposição da referida força de trabalho. O que o capitalista busca quando paga um salário ao operário é que este continue participando no processo produtivo e nas melhores condições de rentabilidade para o capital. Isso supõe que o trabalhador consiga não só se alimentar, se vestir-se e se alojar, como também descansar e adquirir a qualificação necessária para fazer funcionar os meios de produção em constante evolução.

A instauração do descanso remunerado e seu incremento em dias que foram instituídos ao longo do século XX nos países desenvolvidos não se devem, tampouco, a não se sabe que "filantropia" da burguesia. Tornaram-se necessários pelo impressionante aumento da produtividade do trabalho e, portanto, dos ritmos de tal trabalho e da vida urbana em seu conjunto, característico de nossos tempos. Do mesmo modo, o desaparecimento (relativo) do trabalho infantil e da ampliação da escolaridade, que é apresentada como outra manifestação do quanto a classe dominante é bondosa, se devem, essencialmente, à necessidade para o capital de dispor de uma mão de obra adaptada às exigências de uma produção de tecnologia cada vez mais complexa (embora, atualmente, isso também tem se convertido em uma camuflagem do desemprego). Além disso, no "aumento" do salário do qual tanto alardeia a burguesia, especialmente desde a Segunda Guerra Mundial, temos que levar em conta que os operários devem manter os seus filhos por um período maior que no passado. Quando as crianças iam trabalhar aos doze anos ou menos, aportava durante alguns anos uma renda extra para a família operária antes de constituir um novo lar. Com uma escolaridade até os 18 anos, esse apoio desapareceu praticamente. Dito em outras palavras, os "aumentos" salariais também foram, em grande parte, um dos meios mediante os quais o capitalismo preparou a camuflagem da força de trabalho para as novas condições da tecnologia.

Durante certo tempo o capitalismo dos países desenvolvidos produziu a ilusão de ter reduzido os níveis de exploração dos seus assalariados. Na realidade, a taxa de exploração, ou seja, a relação entre a mais-valia produzida pelo operário e o salário que recebe [ii], tem se incrementado continuamente. Isso é o que Marx chamava pauperização "relativa" da classe operária como tendência permanente no capitalismo. Durante os anos que a burguesia de alguns países europeus batizou de "Trinta Gloriosos", a exploração do operário se incrementou continuamente, por mais que isso não se tenha concretizado em uma queda do nível de vida. Mas, hoje, não se trata mais de uma pauperização relativa. Os aumentos salariais já não são possíveis hoje em dia, e a pauperização absoluta, cujo desaparecimento definitivo fora anunciado por todos os apologistas da burguesia, está ressurgindo bruscamente nos países mais "ricos". Agora que a política de todos os setores nacionais da burguesia diante da crise é a de desferir golpes e mais golpes no nível de vida dos proletários, com o desemprego, a redução drástica das prestações "sociais" e inclusive o rebaixamento do salário nominal, todas aquelas estúpidas análises sociológicas sobre a "sociedade de consumo" e o "aburguesamento" da classe operária têm se desmentido por si mesmo. Por isso,  agora o discurso sobre a "extinção do proletariado" tem mudado de argumento e, cada vez mais, se apóia, sobretudo, nas modificações que têm afetado as diferentes partes da classe operária e, especialmente, a redução dos efetivos industriais, da proporção de operários "manuais" na massa total dos trabalhadores assalariados.

Semelhantes discursos se baseiam em uma falsificação grosseira do marxismo. O marxismo nunca limitou o proletariado ao proletariado industrial ou "manual". É certo que nos tempos de Marx a maioria da classe operária estava formada por operários chamados "manuais". Mas em todas as épocas existiram no proletariado setores que trabalhavam com uma tecnologia sofisticada ou que exigiam importantes conhecimentos intelectuais. Alguns ofícios tradicionais, praticados por alguns ramos profissionais, exigiam uma maior aprendizagem. Da mesma forma, ofícios, como os dos revisores de imprensa, exigiam uma preparação grande que se assemelhavam aos "trabalhadores intelectuais". E isso não impediu, em nada, que esses trabalhadores se encontrassem muito frequentemente na vanguarda das lutas operárias. De fato, essa oposição entre trabalhadores de "colarinho azul" e de "colarinho branco" é um desses recortes que agradam os sociólogos e os burgueses, que os empregam para causar divisões nas fileiras dos trabalhadores. Essa oposição não é nova, pois a classe dominante compreendeu há bastante tempo que podia enganar a muitos empregados que não pertenciam a classe operária. Na realidade, o pertencimento ou não à classe operária não depende de critérios sociológicos e, muito menos ainda, ideológicos, ou seja, da idéia de que um proletário, ou um grupo de proletários, tem de sua própria condição. São fundamentalmente critérios econômicos os que determinam tal pertencimento.

Os critérios de pertencimento à classe operária

Fundamentalmente, o proletariado é a classe explorada específica das relações de produção capitalista. Infere-se disso, como já vimos na primeira parte deste artigo, os seguintes critérios: Em linhas gerais, "o fato de estar privado de meios de produção e de estar obrigado, para viver, a vender sua força de trabalho aos que os detenham e os utilizam em seu proveito para apropriar-se de uma mais-valia, determina o pertencimento à classe operária". Mas, diante de todas as falsificações que, de forma interessada, têm se infiltrado nessa questão, é necessário tornar esses critérios mais precisos.

Em primeiro lugar, cabe dizer que, se o fato de ser assalariado é condição necessária para pertencer à classe operária, não é suficiente. Do contrário os policiais, os padres, alguns diretores gerais de grandes empresas (especialmente das públicas) e até os ministros seriam gente explorada e, potencialmente, companheiros de luta daqueles que reprimem, embrutecem e fazem trabalhar e que recebem salários dez ou cem vezes mais baixos [iii]. Por isso, é indispensável destacar que uma das características do proletariado é a de produzir mais-valia. E isto significa duas coisas:

  • o salário de um proletário nunca supera determinado nível [iv]; acima disso, uma remuneração só pode ser derivada de mais-valia extraída de outros trabalhadores;
  • um proletário é um produtor real de mais-valia e não um agente assalariado do capital cuja função é fazer reinar a ordem capitalista entre os produtores.

Entre o pessoal de uma empresa, por exemplo, certos executivos técnicos (e inclusive engenheiros) cujo salário não supera muito o de um operário qualificado, pertencem à mesma classe que este, enquanto aqueles cuja remuneração se aproxima muito mais à do patrão (embora não tenha uma função de enquadramento da mão de obra), não fazem parte da classe operária. De igual maneira, em alguma empresa, um ou outro "chefe de limpeza" ou "agente de segurança", cuja remuneração é na maioria  dos casos mais baixa que a de um técnico e inclusive a de um operário qualificado, mas cuja função é a de um "chefe" de presídio industrial, não poderá ser considerado como pertencente ao proletariado.

Por outro lado, fazer parte da classe operária não implica necessariamente participar direta e imediatamente na produção de mais-valia. O professor que educa o futuro proletário, a enfermeira, e inclusive o médico assalariado (cujo salário é muitas vezes menor que a de um operário qualificado), que "recupera" a força de trabalho dos operários (mesmo que cure policiais, padres, dirigentes sindicais ou até ministros) pertencem sem dúvida nenhuma à classe operária assim como o cozinheiro de um refeitório de empresa. É óbvio que isso não quer dizer que seja assim também com um cacique da universidade ou da enfermeira que se estabelece por sua própria conta. É necessário esclarecer ainda que o fato de os professores, mesmo os do fundamental (cuja situação econômica, em geral, não é das mais confortáveis), seja consciente ou inconscientemente, voluntária ou involuntariamente, um dos transmissores dos valores ideológicos da burguesia, não os exclui da classe explorada e revolucionária como também, por exemplo, os operários metalúrgicos que fabricam as armas [v]. Além disso, podemos constatar que, ao longo de toda a história do movimento operário, os professores (especialmente os do fundamental) sempre proporcionaram grande quantidade de militantes revolucionários. Do mesmo modo, os operários dos arsenais de Kronstadt faziam parte da vanguarda da classe operária durante a revolução de outubro de 1917.

É necessário reafirmar também que a grande maioria dos funcionários públicos também pertence à classe operária. Se tomarmos o exemplo de uma empresa estatal como os Correios, não se poderia dizer que os mecânicos que fazem a manutenção dos caminhões postais ou quem os dirige, bem como os que transportam os malotes de correios, não pertençam ao proletariado. Não é difícil compreender, a partir daqui, que seus companheiros que distribuem o correio ou atendam no guichê, estejam na mesma situação. Do mesmo modo, os empregados do banco, os agentes das companhias de seguros, os funcionários subalternos da previdência social ou dos tributos, cuja situação ou condição são equivalentes aos daqueles, também pertencem à classe operária. Não se pode arguir que esses teriam melhores condições de trabalho que os operários da indústria, por exemplo, de um ajustador ou um fresador. Trabalhar um dia inteiro atrás de um guichê ou diante de uma tela de computador não é menos penoso, porque ficam com as mãos mais limpas, que operar uma máquina-ferramenta. Além disso, o caráter associado do seu trabalho, que é um dos fatores objetivos da capacidade do proletariado tanto para levar a cabo sua luta de classe como a de derrubar o capitalismo, não é, de modo algum, colocado em dúvida pelas condições modernas da produção, muito pelo contrário.

E também, com a elevação do nível tecnológico da produção, esta última passa a exigir uma quantidade crescente do que a sociologia e as estatísticas chamam de "quadros" (técnicos e inclusive engenheiros), de maneira que a maioria deles comprovam, como dissemos antes, que sua condição social, quando não seus salários, se aproximam ao dos operários qualificados. Neste caso, não se trata, de modo algum, de um fenômeno de desaparecimento da classe operária a favor das "camadas médias", mas sim de um fenômeno de proletarização dessas [vi]. Por isso, os discursos sobre o "desaparecimento do proletariado" em virtude do constante crescimento de trabalhadores de "colarinho branco" ou de técnicos em relação aos operários "manuais" da indústria não tem outro objetivo senão o de enganar e desmoralizar a ambos. É irrelevante o fato de que os autores desses discursos acreditarem neles ou não: sempre servirão eficazmente à burguesia, mesmo que eles continuem sendo tão estúpidos a ponto de não ser capaz de se perguntarem quem fabricou a caneta (ou o processador de texto) com a qual estão escrevendo suas sandices.

A suposta crise da classe operária

Para desmoralizar os operários, a burguesia não joga uma única cartada. Para os que não acreditam no "desaparecimento da classe operária", ela reserva a ideia de que "a classe operária está em crise". Um dos argumentos definitivos dessa crise seria o declínio da filiação sindical e sua influência nas últimas décadas. Não vamos desenvolver neste artigo nossa análise sobre a natureza burguesa do sindicalismo em todas as suas formas. De fato, é a própria experiência cotidiana da classe operária, da sabotagem sistemática e permanente das suas lutas por parte de organizações que pretendem defendê-la, a que se encarrega, diariamente, de demonstrar isto [vii]. É justamente essa experiência dos operários a primeira responsável por esse rechaço. E por isso mesmo tal rechaço não é nada menos que uma "prova" de uma suposta crise da classe operária, mas, ao contrário e, sobretudo, uma demonstração de um desenvolvimento da consciência de classe. Um exemplo, entre milhares, do que afirmamos é a atitude dos operários nos grandes movimentos ocorridos em um mesmo país, França, em um intervalo de 32 anos. Ao final das greves de maio-junho de 1936, em plena época da contrarrevolução que se seguiu à onda revolucionária da primeira pós-guerra mundial, os sindicatos se beneficiaram de um aumento de filiados sem precedentes. Por outro lado, no final da greve geral de maio de 1968, que foi o marco da retomada histórica dos combates de classe e do final do período contrarrevolucionário, o que se viu foi a quantidade de desfiliações dos sindicatos e a montanha de carteiras sindicais rasgadas.

O argumento da desfiliação como prova das dificuldades que teria o proletariado é um dos indícios mais seguros de que quem utiliza semelhante argumento pertence ao campo burguês. Tal argumento é parecido ao da suposta natureza "socialista" dos regimes stalinistas. A história demonstrou, sobretudo após a Segunda guerra Mundial, a amplitude dos estragos nas consciências operárias dessa mentira propalada por todos os setores da burguesia, de direita, de esquerda e de extrema-esquerda (stalinistas e trotskistas). Nesses últimos anos, podemos comprovar de que modo o colapso do stalinismo tem sido utilizado como "prova" da falência definitiva de qualquer perspectiva comunista. A maneira de utilizar a mentira da "natureza operária dos sindicatos" é, em parte, idêntica: em um primeiro momento, serve para alistar os operários atrás do Estado capitalista; em um segundo momento, faz deles um instrumento para desmoralizá-los e desorientá-los. Existe, ainda, uma diferença de impacto entre essas duas mentiras. Por não ter sido o resultado das lutas operárias, o desmoronamento dos regimes stalinistas foi possível ser utilizado com eficácia contra o proletariado; por outro lado, o desprestígio dos sindicatos é essencialmente resultado dessas mesmas lutas operárias, o que limita seu impacto como fator de desmoralização. Além disso, é por essa razão que a burguesia tem dado origem ao sindicalismo "de base", encarregado de tomar o terreno do sindicalismo tradicional. E também por essa razão tem promovido ideólogos de ares mais "radicais", encarregados de propagar o mesmo tipo de mensagem.

E é assim que vemos florescer, promovidos pela imprensa [viii], análises como a do francês Sr. Alain Bihr, doutor em sociologia e autor, entre outras produções, de um livro intitulado Da grande noite à alternativa: o movimento operário europeu em crise. Em si, a tese deste personagem tem muito pouca importância. Entretanto, o fato de que este esteja presente desde algum tempo pelos ambientes que se reivindicam da esquerda comunista, dentre os quais alguns não têm o menor reparo em tomar por conta própria (de maneira "crítica", isso sim) as "análises" daquele [ix], nos leva a colocar em relevo o perigo que tais análises representam.

O Senhor Bihr se apresenta como um genuíno defensor dos interesses operários. Daí não poder supor que a classe operária estaria em vias de desaparecimento. Começa afirmando, ao contrário, que: "... as fronteiras do proletariado se estendem hoje em dia muito mais longe que o tradicional "mundo operário"". Todavia, isto serve para fazer passar a mensagem central: "Mas, ao largo de quinze anos de crise, na França como na maioria dos países ocidentais, assiste-se a uma fragmentação crescente do proletariado, que, ao colocar em dúvida sua unidade, tende a paralisá-lo como força social[x].

A intenção principal do doutor em sociologia é, assim, demonstrar que o proletariado "está em crise" e que o responsável por essa situação é a própria crise do capitalismo, causa que há de se acrescentar, evidentemente, as modificações sociológicas que afetou a composição da classe operária: "De fato, as transformações da relação salarial em curso, com seus efeitos globais de fragmentação e de "desmassificação" do proletariado, , (...) tendem a dissolver as duas figuras proletárias que forneceram seus grandes batalhões durante o período fordista de um lado, a do operário qualificado, que as transformações atuais modificaram profundamente, tendendo a extinguir as antigas categorias do operário qualificado ligadas ao fordismo, enquanto novas categorias de "qualificados" surgem ligadas aos novos processos de trabalho automatizados: de outro, a do operário especializado, ponta de lança da ofensiva proletária das décadas de 60 e 70, sendo os operários especializados progressivamente eliminados e substituídos por trabalhadores instáveis dentro desses mesmos processos de trabalho automatizados"[xi]

Deixando de fora essa linguagem pedante (que tanto enche de gozo os pequenos burgueses que se colocam enquanto "marxistas"), Bihr nos traz os mesmos tópicos com os quais nos castigaram gerações de sociólogos: a automatização da produção seria responsável pelo debilitamento do proletariado (como se pretende marxista, não diz "desaparecimento"), etc. E ele acerta o passo com aqueles quando pretende que a dessindicalização também seria um sinal da "crise da classe operária" visto que "todos os estudos efetuados sobre o desenvolvimento do desemprego e da precariedade mostram que estes tendem a reativar e reforçar as antigas divisões e desigualdades no proletariado (...). Esta fragmentação em condições tão heterogêneas tem produzido efeitos desastrosos nas condições de organização e de luta. É testemunho disso, o fracasso das diferentes tentativas do movimento sindical em organizar os precários e desempregados...[xii]. Assim, por trás das suas frases mais radicais, atrás do seu suposto "marxismo", Bihr quer nos vender o mesmo azeite adulterado que todos os setores da burguesia vendem: os sindicatos seriam ainda hoje "organizações do movimento operário" [xiii].

Assim é o "especialista" no qual se inspira gente como GS ou publicações como Perspective Internacionaliste (PI), que acolhe com simpatia seus escritos. Certo é que Bihr, que não é estúpido, para contrabandear sua mercadoria, tem cuidado em dizer que o proletariado será capaz de superar, apesar de tudo, suas dificuldades atuais e conseguirá se "recompor". Mas a maneira como diz isso tenderia melhor a convencer do contrário: "As transformações da relação salarial lançam, assim, um duplo desafio ao movimento operário; elas o obrigam simultaneamente a se adaptar a uma nova base social (a uma nova composição "técnica" e "política" da classe) e a fazer  síntese entre categorias a priori tão heterogêneas como as dos "novos qualificados" e dos instáveis, síntese muito mais difícil de se realizar do que aquela entre operários especializados e operários qualificados, durante o período fordista (...) Enfim, o enfraquecimento efetivo do proletariado, devido à sua fragmentação, provoca entre o conjunto dos proletários, um enfraquecimento do sentimento de pertencer a uma classe, e assim pode abrir caminho para a recomposição de uma identidade coletiva imaginária em outras bases[xiv]

É assim que, com toneladas de argumentos, a maioria deles especiosos, destinados a convencer o leitor de que tudo anda mal para a classe operária, após haver "demonstrado" que as causas dessa "crise" devem ser buscadas na automatização do trabalho e no afundamento da economia capitalista e na queda do desemprego, fenômenos todos eles que continuarão se agravando, se acaba afirmando de modo lapidar e sem argumento algum que "Tudo irá melhor... talvez!. Porém é um caminho muito difícil de encarar". Se depois de ter engolido as historinhas de Bihr alguém continua pensando que o proletariado e sua luta de classe têm futuro é porque é um otimista crédulo e incorrigível. O doutor Bihr pode estar contente: com suas redes grosseiras capturou os tolos que publicam PI e que se apresentam como os autênticos defensores dos princípios comunistas que a CCI teria jogado na sarjeta.

É certo que a classe operária teve de enfrentar, nos últimos anos, uma série de dificuldades para desenvolver suas lutas e sua consciência. Nós, por nossa vez, nunca vacilamos em assinalar essas dificuldades, contrariamente às acusações dos céticos do momento (ou seja, a FECCI, que é coerente com a sua função de semeadores de confusão, mas também Battaglia Comunista, o que é menos lógico porque Battaglia pertence ao meio político do proletariado). Mas quando assinalamos essas dificuldades e baseamos em uma análise da origem delas, também temos colocado em relevo as condições que permitirão sua superação. É o mínimo que se espera dos revolucionários. Basta examinar com um pouco de seriedade a evolução das lutas operárias durante a última década para se dar conta que sua atual debilidade não se deve de modo algum à diminuição dos números de operários "tradicionais", dos de "colarinhos azuis". Na maioria dos países, os trabalhadores dos correios e telecomunicações aparecem entre os mais combativos. E o mesmo ocorre com os trabalhadores da saúde. Em 1987, na Itália, foram os trabalhadores das escolas que levaram a cabo as lutas mais importantes. Poderíamos multiplicar os exemplos que ilustram que não só o proletariado não se limita aos de "colarinhos azuis", aos operários "tradicionais" da indústria, como tampouco a combatividade operária. Nossas análises não estão enfocadas por considerações sociológicas, boas para professores de universidade ou pequeno burgueses com dificuldades para interpretar não só o "mal estar" da classe operária, como também o seu próprio.

As dificuldades reais da classe operária e as condições para superação

Não podemos voltar aqui, no marco deste artigo, sobre as análises da situação internacional que fizemos nos últimos anos. O leitor poderá buscar praticamente todos os números da nossa Revista Internacional durante todo esse período e especialmente nas teses e resoluções adotadas por nossa organização desde 1989 [xv]. A CCI se deu conta perfeitamente das dificuldades pelas quais atravessa o proletariado hoje, o retrocesso da sua combatividade e da consciência no seu seio, dificuldades nas quais alguns se apóiam para diagnosticar uma "crise" da classe operária. Colocamos em evidência, especialmente, que, durante os anos 80, a classe operária se viu confrontada com o peso crescente da decomposição generalizada da sociedade capitalista, que, ao favorecer a desesperança, o sentimento de "cada um por si", a atomização, desferiu fortes golpes na perspectiva geral da luta proletária e solidariedade de classe. Isso facilitou muito especialmente as manobras sindicais para aprisionar as lutas operárias no corporativismo. Mas o peso permanente da decomposição não conseguiu até 1989 acabar com a onda de combates operários que havia iniciado em 1983 com as greves do setor público na Bélgica. Tudo isso foi uma expressão da vitalidade da luta de classe. Durante todo esse período podemos presenciar um crescente ultrapassagem dos sindicatos, os quais tiveram que ceder, cada vez mais com mais freqüência, o espaço a um sindicalismo de "base", mais radical para o trabalho de sabotagem das lutas [xvi].

Aquela onda de lutas proletárias acabaria sendo enterrada pelos transtornos planetários que vinham acontecendo desde a segunda metade de 1989. O colapso dos regimes stalinistas da Europa em 1989 foi, até hoje, a expressão mais importante da decomposição do sistema capitalista. Embora alguns, em geral os mesmos que não tinham visto nenhuma luta operária em meados dos anos 80, estimavam que esse acontecimento ia favorecer a tomada de consciência da classe operária, nós não esperamos para anunciar o contrário [xvii]. Mais tarde, especialmente em 1990/91, durante a crise e a Guerra do Golfo, e depois, com o golpe de Moscou e o desmoronamento da URSS, colocamos em relevo que esses acontecimentos também iam repercutir na luta de classe e na capacidade do proletariado para fazer frente aos ataques cada dia mais fortes que o capitalismo em crise dirige contra ele.

Por isso, as dificuldades atravessadas pela classe durante o último período não escapou, nem surpreendeu, a nossa organização. No entanto, mediante a análise das verdadeiras causas (que nada tem a ver com a necessidade mítica de "recomposição da classe operária") pudemos também destacar as razões pelas quais a classe operária possui hoje os meios para superar essas dificuldades.

É importante, a esse respeito reconsiderar um dos argumentos de Bihr que lhe é útil para dar crédito à idéia da crise da classe operária: a crise e o desemprego tem "fragmentado o proletariado", "ao ter fortalecido as antigas divisões e desigualdades" no seu seio. Para exemplificar sua tese, Bihr não hesita em carregar as cores confeccionando um catálogo de todos esses "fragmentos": "os trabalhadores estáveis e com garantias", "os excluídos do trabalho e até do mercado de trabalho", "a massa flutuante de trabalhadores precários". E nesta última categoria, o doutor Bihr divide e subdivide com fluidez: "os trabalhadores de empresas que trabalham em subcontratação", "os trabalhadores a tempo parcial", "os estagiários" e "os da economia subterrânea" [xviii]. De fato, o que o doutor Bihr nos dá como argumento não é mais que uma constatação fotográfica, a qual corresponde perfeitamente a sua visão reformista [xix]. É certo que, num primeiro momento, a burguesia tem desferido seus ataques contra a classe operária de modo seletivo para, desse modo, limitar a amplitude das suas reações. Também é certo que o desemprego, especialmente o dos jovens, tem sido um fator de chantagem sobre determinados setores do proletariado e, por isso, tem se reforçado a passividade, acentuando a ação deletéria do ambiente de decomposição social e de "cada um por si". Mas, a crise mesma e seu agravamento inexorável se encarregarão cada vez mais em nivelar por baixo a condição dos diferentes setores da classe operária. Especialmente os setores de "ponta" (informática, telecomunicações, etc.) que pareciam ter evitado a crise, hoje estão sendo atingidos em cheio por ela colocando seus trabalhadores na mesma situação que os da siderurgia e da indústria automobilística. E agora são as maiores empresas, como a IBM, as que demitem em massa. Ao mesmo tempo, e contrariamente à tendência da década passada, o desemprego de todos os trabalhadores de idade mais madura, os que têm vivido uma experiência de trabalho coletivo e de luta, aumenta hoje com maior rapidez que o de jovens, o que tende a limitar o fator de atomização que o desemprego tinha representado no passado.

Embora a decomposição seja uma desvantagem para o desenvolvimento das lutas e da consciência da classe, a quebra cada vez mais evidente e brutal da economia capitalista, com sua série de ataques que se fazem sentir nas condições de existência do proletariado, é um fator determinante da situação atual para a retomada das lutas e da tomada de consciência. Porém isso não pode ser compreendido se pensarmos, tal como afirma a ideologia reformista que se nega a ver a menor perspectiva revolucionária, que a crise capitalista provoca uma "crise da classe operária". Uma vez mais, os fatos têm se encarregado por si mesmos de destacar a validade do marxismo e a vacuidade das elucubrações dos sociólogos. As lutas do proletariado na Itália, no outono de 1992, diante de alguns ataques econômicos de uma violência sem precedentes, voltou a demonstrar, uma vez mais, que o proletariado não morreu, que não tinha desaparecido, que não renunciou à luta mesmo que, e era de se esperar, ainda não tivesse digerido os golpes recebidos nos anos anteriores. Essas lutas não são fogo de palha. Não fazem mais que anunciar (como ocorreu com as lutas operárias de maio de 1968 na França, que agora faz 25 anos), um renascimento geral da combatividade operária, uma retomada da marcha para frente do proletariado rumo à tomada de consciência das condições e dos fins do seu combate histórico pela abolição do capitalismo. E isso, agrade ou não a todos os que se lamentam, sincera ou hipocritamente, da "crise da classe operária" e da sua "necessária recomposição".

FM (fevereiro 2006)

[i] O automóvel é indispensável para ir ao trabalho e fazer compras quando são insuficientes os transportes públicos e quando as distâncias a serem percorridas não fazem senão aumentar. Uma geladeira torna-se vital, quando o único meio de adquirir alimentos a um preço acessível é comprando em um supermercado e isso não pode ser feito todos os dias. Quanto à televisão, apresentada nos seus tempos como símbolo máximo do acesso da "sociedade de consumo", além do interesse que representa como instrumento de propaganda e de embrutecimento nas mãos da burguesia (como "ópio do povo" tem substituído com muita vantagem a religião), pode ser encontrada hoje em muitas moradias nas vilas miseráveis do Terceiro Mundo, fato que diz o quanto esse produto está desvalorizado.

[ii] Marx chamava taxa de mais-valia ou de exploração a relação "pl/v", onde "pl" representa a mais-valia em valor-trabalho (a quantidade de horas da jornada de trabalho que o capitalista se própria) e "v" o capital variável, ou seja, o salário (a quantidade de horas durante a qual o operário produz o equivalente em valor ao que recebe). É um índice que permite determinar em termos econômicos objetivos, e não subjetivos, a intensidade real  da exploração.

[iii] Evidentemente, esta afirmação desmente todas essas mentiras que nos contam todos os "defensores da classe operária" como os social-democratas ou os stalinistas, que tem uma longa experiência em reprimir e enganar os operários como dos gabinetes ministeriais. Quando um operário "vindo de baixo" ascende a um cargo de direção sindical, de conselheiro ou prefeito e até de deputado ou ministro, nada tem a ver com a sua classe de origem.

[iv] Evidentemente, é muito difícil determinar esse nível, pois pode variar no tempo e de um país para outro. O que importa é saber que em cada país ou conjunto de países semelhantes desde o ponto de vista do desenvolvimento econômico e da produtividade do trabalho, existe tal limite, que se situa entre o salário do operário qualificado e o do quadro superior.

[v] Para uma análise mais desenvolvida sobre trabalho produtivo e improdutivo, veja nossa brochura La decadencia del capitalismo.

[vi] Embora seja necessário assinalar ao mesmo tempo que determinada proporção de "quadros" veem um aumento da sua renda que os integra na classe dominante.

[vii] Para uma análise detalhada da natureza burguesa dos sindicatos, veja nossa brochura Os sindicatos contra a classe operária.

[viii] Por exemplo, Le Monde diplomatique, mensal francês humanista publicado também em outros idiomas, especializado na promoção de um capitalismo "de rosto humano",  publica frequentemente artigos de Alain Bihr. No seu número de março de 1991, pode-se encontrar, por exemplo, um texto desse autor intitulado Régression des droits sociaux, affaiblissement des syndicats, Le prolétariat dans tous ses éclats [Redução dos direitos sociais, enfraquecimento dos sindicatos, o proletariado em todos seus fragmentos].

[ix] Por exemplo, no nº 22 de Perspective Internationaliste, órgão da chamada "Fração Externa da CCI",  pode ser lida uma contribuição de GS (que não é membro da FECCI, mas que parece estar em acordo com ela em todos os pontos essenciais) intitulada A necessária recomposição do proletariado, que cita  reiteiradamente o livro de Bihr para reforçar suas afirmações.

[x] Le Monde diplomatique, março de 1991. Tradução nossa.

[xi] Alain Bihr - Da grande noite à alternativa, Cap. : ruptura do compromisso fordista , pg.100.

[xii] Le Monde diplomatique, março de 1991. Tradução nossa.

[xiii] Le Monde diplomatique, março de 1991. Tradução nossa.

[xiv] Alain Bihr - Da grande noite à alternativa, Cap. : A fragmentação do proletariado, pg.104.

[xv] Ver Revista internacional nº60, 63, 67, 70 e este número.

[xvi] Evidentemente, quando considera-se, como Bihr, que os sindicatos são órgãos da classe operária e não da burguesia, os progressos logrados pela luta de classes se convertem em retrocessos. E, entretanto, curioso que pessoas como os membros da FECCI, que oficialmente reconhecem a natureza burguesa dos sindicatos, prossigam nessa apreciação.

[xvii] Ver o artigo Dificultades en aumento para el proletariado na Revista internacional nº 60.

[xviii] Le Monde diplomatique, março de 1991. Tradução nossa.

[xix] Uma das frases preferidas de A. Bihr é que "o reformismo é algo muito sério para deixá-lo em mãos de reformistas". Se, por casualidade, ele acredita ser um revolucionário, queremos aqui desenganá-lo.