A democracia arma a brutal repressão de Kadafi (01/03/2011)

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Se a escolha do momento certo é a essência da comédia, então a viagem de David Cameron - há muito tempo planejada – vendendo armamentos no Golfo e no Oriente Médio não pôde funcionar melhor. Mas fornecer a carniceiros meios para atacar suas populações está longe de ser cômico.A natureza repugnante desta farsa sinistra foi reforçada ainda mais pelo seu comparecimento a uma cerimônia no Kuwait, junto ao ex-primeiro-ministro John Major, para comemorar o vigésimo aniversário da primeira Guerra do Golfo, na qual centenas de milhares de inocentes foram mortos pelo armamento mais letal das democracias avançadas.Ao mesmo tempo em que centenas, talvez milhares, eram mortos na Líbia pelas armas vendidas a Kadafi pelos governos trabalhista e conservador, Cameron, que parou brevemente para uma apressada ocasião de ser fotografado na praça Tahrir (com oito executivos da defesa e das indústrias aeroespaciais), barganhou seus bens mortais à sua clientela gângster. Em resposta às críticas Cameron, alongando palavras quase além da compreensão, disse que não fornecer armas a estes regimes árabes era "negar aos povos seus direitos básicos", "racismo" e algo não-democrático. Ao regime de Kadafi foram vendidos até muito recentemente, entre outras coisas: rifles de longa distância, granadas de gás lacrimogêneo, armas para controle de multidões, munição para armas ligeiras, granadas de efeito moral, canhões antiaéreos, morteiros, veículos blindados de transporte de tropas, aviões militares, silenciadores de armas, miras, coletes à prova de balas e tecnologia de aviação militar.Foram todos, nas palavras do Gabinete de Relações Exteriores, "cobertos por garantias de que não seriam usados na repressão aos direitos humanos". A Grã-Bretanha teve, de longe, o maior espaço na última feira líbia de armamentos e na última semana, na feira de armas em Abu Dhabi: 10% de toda a exposição mundial era britânica. O ministro Gerald Howarth, liderando a delegação, declarou: "Nós temos planos ambiciosos". Ao mesmo tempo, o porta-voz de defesa do partido trabalhista, Jim Murphy, cujo governo empreendeu guerras no Iraque, Afeganistão e vários outros "teatros", tentando fazer um ponto político, mas mostrando a unidade da burguesia britânica, disse: "O Reino Unido tem uma responsabilidade além de suas fronteiras e precisa manter a força."Foi o governo trabalhista que abraçou e fortaleceu o regime de Kadafi e conduziu vendas de armas ao Líbano, ao Iêmen, à Jordânia, à Síria, ao Kuwait, ao Iraque, ao Marrocos, a Israel, ao Qatar, à Argélia, à Tunísia, aos Emirados Árabes, a Omã, ao Barein e ao Egito. E foi o governo trabalhista que esteve envolvido em toda a investigação do tráfico de armas dentro da BAE saudita de Al-Yamanah citando "interesse nacional[1]. Agora que os LibDems (liberais-democratas) sentiram o gosto do poder, fugiram camuflados do terreno da alta moral. A secretária de negócios Vince Cable é cúmplice dos acertos e Nick Clegg vice primeiro-ministro, aparentemente responsável pelo país quando Cameron estava fora do comércio de morte e destruição, esquiando enquanto pessoas que protestavam pelo básico, transeuntes e crianças estavam sendo assassinados pelas armas fornecidas pela Inglaterra.Os crimes e a hipocrisia destes cúmplices de massacres são ilimitados e Cameron ainda propôs vender armas aos "rebeldes líbios", para quem são o governo líbio na espera, que deve derrubar Kadafi. E ao condenar o uso de "violência excessiva" pelo regime, (que está usando as armas que forneceu para essa finalidade), a Inglaterra seguiu os chamados da suposta "comunidade internacional" por sanções e ajuda humanitária – que mostraram ser no passado armas no interesse dos imperialismos concorrentes que executam-nas.A secretária de defesa Liam Fox tem buscado "ampliadas exportações de defesa" com "o Ministério da Defesa… à frente da estratégia de crescimento das exportações conduzidas pelo governo" e o ministro do comércio, Lord Green (ao lado de Vince Cable), disse que os ministros poderiam ser "responsabilizados" se as companhias falharem em obter negócios. A única negociação de armas que foi bloqueada nos últimos dois anos foi a venda de $65 milhões em helicópteros, rifles de assalto, carros blindados e metralhadoras ao pequeno estado africano da Suazilândia. Então, o governo britânico alegou que isto era porque estas armas poderiam ser usadas para uma "possível repressão interna". Mas os documentos da embaixada dos EUA publicados por Wikileaks mostram que os americanos interromperam a venda por causa de "preocupações com o usuário final", isto é, que as armas provavelmente iriam parar no Irã. Isto não impediu a Campanha Contra o Comércio de Armas (Campaign Against Arms Trade), de saudar a manobra como uma recusa a "vender armas a um conhecido abusador dos direitos humanos". Isto quando o total de armas britânicas para a África despedaçada por guerras chegou a mais de um bilhão de libras no ano passado.A Inglaterra naturalmente, não está sozinha neste comércio mortal, todos os grandes países estão envolvidos e a venda global de armas aumentou 60% desde 2002 para totalizar $400 bilhões (com base em números oficiais) em 2009. A BAE Systems britânica foi a segunda maior companhia envolvida nesse período com seus $33.25 bilhões atrás apenas da Lockheed Martin dos EUA. Mas é o papel da Grã-Bretanha na defesa e armamento do regime de Kadafi que é particularmente nauseante nas circunstâncias atuais; festejado pelo governo trabalhista, por financiadores, por acadêmicos e pela família real, o atual governo inglês de coalizão estava prestes a continuar o trabalho de preparar Saif al-Islam Kadafi (o filho do ditador) como seu apadrinhado no regime assassino.A Rússia, entre outros, igualmente abasteceu os regimes locais com armas; e a França, competindo com os EUA e a Grã-Bretanha no mediterrâneo, Magreb e Oriente Médio, forneceu a Kadafi mísseis antitanque, telecomunicações militares e manutenção para seus caças-bombardeiros Mirage. A classe dominante francesa não tem nada a aprender da Pérfida Albion [2]. Já enviou dois carregamentos aéreos de uma suposta ajuda "humanitária" da qual o primeiro-ministro francês diz: "será o começo de uma operação em massa de apoio humanitário para as populações dos territórios libertados".Não é só fornecendo o armamento a estes regimes assassinos que a Grã-Bretanha lucra estratégica e economicamente. As várias forças especiais fornecem treinamento aos assassinos como um acessório ao comércio de armas e, de modo não surpreendente, sem ter absolutamente nenhum escrúpulo. Uma das realizações das mais notáveis do SAS (força de elite inglesa) consistia em treinar os quadros do Khmer Vermelho genocida de Pol Pot nos anos 60. Mais recentemente, foi visto o papel dos oficiais de polícia de West Mercia e de Humberside treinando os esquadrões da morte do governo de Bangladesh.E, finalmente, vale a pena recordar que as armas de destruição em massa - químicas e biológicas -, que Kadafi supostamente abandonou para retornar aos braços da "comunidade internacional" estão ainda intactas nos bunkers estatais e são uma possível ameaça a um grande número de pessoas na região.

Baboon 01/03/11
World Revolution, órgão da CCI na Grã-Bretanha

http://en.internationalism.org/wr/342/democracy-repression

 Por WorldRevolution

[1]              Os atuais vazamentos de informações diplomáticas realizados por Wikileaks revelam que a British Aerospace Systems (BAE) há pelo menos 10 anos subornou príncipes árabes (mais de 73 milhões de libras), pagando também dinheiro não declarado para seus agentes de marketing empregados pelo governo árabe. O suborno serviu como "influência" para aceitação do contrato irregular com a empresa em Al-Yamanah. O governo trabalhista pressionou o fim da investigação em 2006, com apoio saudita, o que não impediu pedidos de reabertura no início de março.

[2]              Apelido depreciativo da Inglaterra atribuído pela monarquia francesa na Guerra dos Cem Anos.