O trotskismo, defensor da guerra imperialista

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O trotskismo deixa de ser uma corrente do movimento operário quando passa definitivamente para o campo do capitalismo no curso da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Durante a segunda carnificina imperialista deste século, a IV° Internacional trotskista rechaça a consigna derrotista dos bolcheviques: Transformar a guerra imperialista em guerra civil! que tinha sido o marco de reagrupamento das forças revolucionárias proletárias contra a Primeira Guerra mundial. Os trotskistas realmente, defenderam o campo do imperialismo democrático e do stalinismo contra os imperialistas fascistas chamando à transformação da "guerra imperialista em uma verdadeira guerra pela defesa da URSS e contra o fascismo". É da maior importância para os revolucionários de hoje compreenderem o processo de contrarrevolução que dizimou e corrompeu numerosas forças do movimento revolucionário durante cinco décadas (na Rússia e outras partes). O modo em que essa degeneração afetou o trotskismo em particular, até ficar perdido para o movimento proletário constitui o tema deste artigo. O trotskismo não perece fisicamente como tendência política (salvo em países como a Rússia) como foi o caso de outras correntes proletárias nos anos 30 ou durante a guerra. Perece de maneira insidiosa, ao deixar de ser um fator de resistência revolucionária e de reagrupamento que tinha sido durante os anos que antecederam a guerra, ainda que fosse profundamente confuso acerca de numerosos pontos fundamentais.

Os trotskistas atualmente se empenham em deformar ou ocultar a importância das suas atividades durante a segunda guerra mundial. Só os mais cínicos e os mais estúpidos deles defendem esta parte da sua trajetória sem nenhuma vergonha. Porém no geral os trotskistas se mostram muito discretos em discutir suas atividades durante a guerra, na medida em que isso faria vir à luz do dia que suas declarações de "internacionalismo" e de "anti-stalinismo" autênticos não são outra coisa além de mentiras. A verdade é que os trotskistas durante a última grande guerra levaram à prática o que até então só haviam defendido com palavras ainda que temos de recordar que no curso da guerra civil espanhola, em 1936-38, os trotskistas participaram neste conflito inter-imperialista, aliando-se ao lado da república. Nesta época, o próprio Trotsky pretendia que os revolucionários deviam ser "bons soldados" do exército republicano! [1]

Rumo ao campo do capital

Às vésperas da segunda guerra mundial, o trotskismo já estava imerso na política reacionária do "mal menor". Havia se incorporado ao coro antifascista da burguesia democrática, melhor dizendo, aos seus preparativos de guerra, usando a desculpa de que o antifascismo representava uma "ponte para as massas". E era efetivamente uma ponte! Porém uma ponte construída pelas burguesias imperialistas democráticas e stalinistas com o objetivo de militarizar o proletariado e a população na preparação de uma nova divisão do mercado mundial.

Assim que Hitler chega ao poder em 1933, Trotsky chega até exortar o imperialismo americano a apoiar a Rússia para opor-se a ameaça do Japão e Alemanha! [2]. Esta perspectiva "transitória", "tática" de apoio a um campo imperialista contra outro (sem admitir abertamente) foi colocada em prática pelo trotskismo sob múltiplas expressões nos anos 30: apoio a "resistência colonial" na Etiópia, China, México, apoio a Espanha republicana, etc. Esta perspectiva "transitória", "tática" de apoio a um campo imperialista contra outro também foi muito clara durante todo este período (Polônia, Finlândia, 1939) dissimulado por detrás da palavra de ordem de "defesa da pátria soviética"

O começo da guerra

As atividades dos trotskistas durante a Segunda Guerra mundial onde, fora raras exceções, participaram ativamente nos movimentos de resistência financiados pelos imperialismos "aliado" e stalinista, constituíram o passo definitivo, lógico, do movimento trotskista para o campo do capital. A partir de então a natureza de classe do trotskismo como corrente política não podia ser mais que capitalista. Os cães de guarda mais radicais e mais ruidosos da ala esquerda do capitalismo, é o que todas as organizações trotskistas, grandes ou pequenas, tem sido desde a guerra.

Na Europa os trotskistas utilizaram três argumentos principais para justificar a participação na guerra imperialista ao lado da democracia burguesa e do stalinismo:

  • 1) "A defesa incondicional da URSS" (o que significava o apoio ao imperialismo russo).
  • 2) A defesa da democracia burguesa (enquanto um "mal menor") contra o fascismo (o que significava o apoio a um bando de gangsteres imperialistas contra outro. O que é uma posição social-patriota e não uma posição comunista internacionalista!)
  • 3) A questão "nacional" na Europa. Esta tinha-se tornado segundo o trotskismo uma realidade depois da ocupação pelo exército alemão da França, Bélgica, Holanda, Noruega, etc. As massas desejavam a "independência nacional" diante do "invasor nazista" segundo seu linguajar. O combate das nações oprimidas da Europa teria sido  nada menos que progressista e isso obrigaria os trotskistas a encontrar uma "ponte" direcionada às aspirações das massas. As "massas" incluíam certamente, Roossevelt, Churchil, De Gaulle, a GPU além de todo o aparato de Estado Imperialista da Europa que tinha sido abalado pelo imperialismo alemão, italiano e japonês. A "ponte" que buscavam os trotskistas não era muito difícil de encontrar. Foi avidamente posta de pé com a ajuda do ouro e das armas dos aliados que financiaram a resistência e os maquis (guerrilheiros).

Com estas três justificativas, os trotskystas na França, Bélgica, Itália, etc. se uniram à resistência e foram muito ativos. Na França, em todas partes onde os trotskystas alcançaram uma certa influência no interior do exército alemão (como em Brest por exemplo), chamaram os soldados alemães a entregar suas armas a resistência "pela defesa da URSS". Para os trotskystas franceses, o imperialismo alemão era o "inimigo nº1" [3]. As publicações em alemão dos trotskistas franceses (em particular o grupo La vérité, o Partido Operário Internacionalista) conclamavam aos soldados alemães na França a voltar suas armas contra seus oficiais e a Gestapo e a confraternizar com o maquis (a guerrilha) (significa dizer com as tropas de uma parte da burguesia francesa). Porém não chamavam as tropas do maquis a voltarem suas armas contra seus próprios oficiais da resistência ou contra os agentes stalinistas que dirigiam o maquis [4]

Alguns trotskistas franceses "criticaram" esses "desvios nacionalistas" praticados pelos patriotas trotskistas mais toscos. Porém todos defendiam as premissas políticas do trotskismo que conduzem implacavelmente ao abandono do internacionalismo (apoio à Rússia, à democracia burguesa, etc.) Não foi um acidente se essas críticas nunca levaram a nenhum desses grupos "ortodoxos" (inclusive o "mais puro" dentre eles, a União Comunista de Barta, precursor do grupo francês Lutte Ouvrière) a abandonar as posições burguesas do trotskismo. Para todos os trotskistas franceses que criticavam os "desvios nacionalistas" no seu seio, estas eram o resultado de "erros" ou de "oportunismo" e não uma questão decisiva que implicasse a passagem das fronteiras de classe.

Os melhores inimigos de Hitler

Nos Estados Unidos, o "Socialist Workers Party" (SWP) prometia ao governo travar um "verdadeiro combate" contra Hitler com a única condição de que a administração Roosevelt lhe permitisse atuar no "controle sindical da circunscrição" e na economia de guerra. Estas ofertas não foram aceitas e por outro lado não impediu o SWP de ser perseguido por engano, como um "perigo claro e presente" contra o esforço de guerra americano no juizado de Minneapolis em 1941. Embora Cannon e o resto da direção do SWP se postaram aos pés do júri, isso não os salvou da condenação a pena de prisão, relativamente curtas. Porém sua atitude diante da justiça não foi simplesmente o resultado da sua covardia pessoal; era lógica em função da capitulação, anterior à guerra, do trotskismo diante da ideologia antifascista do imperialismo democrático.

Algumas semanas depois que Trotsky foi assassinado por ordem de Stálin, Cannon desenvolve até o fim a lógica implícita na própria política oportunista de Trotsky diante da guerra. Por ocasião de uma conferência especial que o SWP promoveu em Chicago no mês de setembro de 1940, Cannon defendia a "proletarização" das forças armadas americanas: "Desejamos combater Hitler. Nenhum operário deseja ver esse bando de bárbaros facistas invadirem este país ou qualquer país que seja. Porém desejamos combater o fascismo sob uma direção na qual possamos ter confiança... Não permitiremos jamais que suceda o que sucedeu na França... Os trabalhadores por eles mesmos devem tomar este combate contra Hitler, contra todo aquele que usurpe seus direitos... A contradição entre o patriotismo da burguesia e o das massas deve ser o ponto de partida da nossa atividade revolucionária. Devemos basearmos na realidade da guerra e na reação das massas aos acontecimentos da guerra" (Os marxistas na segunda guerra mundial - de Brian Pearce).

Assim as "aspirações das massas" constituem a razão dada para determinar o apoio do trotskismo ao imperialismo dos aliados. Porém esta suposta aspiração "antifascista" do proletariado não existia em nenhuma parte em 1939, sobretudo à escala inventada pelo trotskismo. E ainda se isso fosse o caso, teria representado a dominação da ideologia democrática burguesa sobre a consciência da classe no seio do proletariado. Uma coisa que os revolucionários deveriam ter combatido (o que fizeram na realidade, mas não os trotskistas), exatamente como Lênin e os bolcheviques lutaram contra outras formas de patriotismo nacional que encerrava as massas durante a Primeira Guerra Mundial.

Porém o trotskismo compreendia que este apoio ao imperialismo deveria basear-se em certa vontade de resistência do proletariado contra a barbárie. Esse era o único caminho que para arrastar os operários a apoiar um campo da burguesia contra outro na guerra imperialista. A ideologia antifascista foi a mistificação ideal que necessitava o capital para esta finalidade, o stalinismoe o trotskismo foram seus seus principais propagadores no seio da classe operária durante a guerra. Os trabalhadores ingleses que produziam os blindados para o exército russo por exemplo, foram autorizados a escrever "Greetings to Uncle Jô" ("saudações ao tio Stálin") no lado dos blindados, o que os animava a trabalhar mais duramente e a produzir mais blindados em menos tempo. O trotskismo jamais se opuseram a tais campanhas. O fato de que os blindados foram mais tarde utilizados para os planos imperialistas da Grã Bretanha, para assassinar e mutilar outros trabalhadores fardados, não contava para os trotskistas desde o momento em que os blindados iriam defender a "pátria dos trabalhadores".

A ideologia antifascista dos trotskistas serviu de justificativa para a defesa de todos os imperialismos aliados, inglês, russo, francês, americano, etc. Isso quer dizer que o trotskismo tinha numerosos grandes chefes na época, tal como hoje.

Munis e Natalia Trotsky rompem com o trotskismo

As atas judiciais oficiais do juizado de Minneapolis jamais foram oferecidos ao público pelo SWP americano. A versão editada pelo SWP (sob o título "O Socialismo em Julgamento") difere das atas oficiais em vários pontos importantes. Os propósitos de Cannon reportados na ata oficial argumentam com efeito a favor de uma orientação pró-americana e expressam as lamentações de um patriota americano incompreendido. No entanto, na versão do SWP os piores excessos de Cannon são devidamente eliminados, embora o tom vil da declaração da defesa não desaparece jamais. O trotskista espanhol Grandizo Munis que se opunha à posição defensista do SWP e dos seus partidários irmãos escreveu em 1942 uma crítica fraternal do SWP durante o julgamento que se traduz em Qual política para os revolucionários? Marxismo ou ultra-esquerdismo? A resposta de Cannon igualmente publicada neste folheto ilude e portanto confirma as críticas de Munis. Este responde em O SWP e a guerra imperialista, uma crítica mais elaborada da atitude no julgamento, que reduzia a nada os argumentos em favor do social patriotismo sustentados pelo SWP. Este folheto não foi posto em circulação pelo SWP apesar do fato de que Munis ainda era formalmente membro dirigente da IV internacional (em 1946)

Natalia Trotsky, que mais tarde seguiu o caminho de Munis e da maioria dos trotskistas espanhóis e rompeu com o trotskismo em 1951, levanta as mesmas acusações contra a IV internacional. É importante notar que Munis, Péret, Natalia Trotsky e outros revolucionários deste período foram capazes de ver que a "defesa incondicional da URSS" de Trotsky tinha sido uma das cortinas de fumaça atrás das quais o trotskismo capitulava frente aos seus próprios imperialismos nacionais (na França, Grã-bretanha, Bélgica, Estados Unidos...) Estes revolucionários tiveram obviamente de revisar sua posição sobre a Rússia e a reconheceram enquanto capitalismo de Estado. Porém as críticas de Munis e Peret sobre o trotskismo iam mais além da questão russa. Continham também uma denuncia profunda - embora parcial - das concepções e da prática do Comitnern (Internacional Comunista) no passado.

O segundo congresso da IV Internacional, em 1948 ignora naturalmente o conteúdo das críticas de Munis. Assim este congresso prova que o trotskismo tinha aderido, sem ser profundamente sacudido enquanto corpo unido, ao campo burguês. A traição ao internacionalismo, em uma guerra imperialista é o critério definitivo para determinar a natureza burguesa de uma organização política anteriormente proletária. O congresso de 1948 ratificou esta traição.

Os grupos trotskistas que revisaram posteriormente sua posição sobre a Rússia (por exemplo, as tendências Chaulieu, Tony Clif, Johnson-Forest, etc...) ignoraram ou foram incapazes de denunciar implacavelmente o papel do trotskismo durante a guerra e por conseguinte a maior parte dos erros pro gramáticos de fundo do Comintern no passado (apoio a libertação nacional, trabalho nos sindicatos, parlamentarismo, frentes únicas etc.) retornaram ao esquerdismo ou ainda à política de esquerda.

O congresso de 1948 não ratificou somente o patriotismo dos trotskistas durante a guerra, adotou igualmente a defesa total do stalinismo. Isto constitui uma das razões principais da existência do trotskismo atualmente. Em 1949 Tito, que executou trotskistas em Belgrado em 1941, disporá do apoio da IV° Internacional; em 1950 a teoria da "assimilação estrutural" será ruminada pelo trotskismo com a finalidade de demonstrar que os países do Leste da Europa deveriam ser defendidos da mesma maneira que o Estado "operário" russo original.

A Segunda Guerra Mundial não termina com a vitória do proletariado, mas com sua derrota absoluta. Porém segundo o trotskismo o balanço foi finalmente positivo porque a economia nacionalizada russa tinha sido exportada para a Europa do Leste. O fato que isto tenha se realizado sobre as costas de mais de 50 milhões de cadáveres, depois do desmembramento imperialista de todo planeta, não tinha a mínima importância. A lógica bárbara da política capitalista do trotskismo fica contida na afirmação de que as "formas de propriedade socialistas" podem expandir-se no mundo por meio do maior assassino do proletariado: o stalinismo! A Liga Spartaquista americana (Spartacist League) carregou esta concepção reacionária até sua conclusão mais horrível quendo afirma em 1964 que em "que o guarda chuva nuclear soviético deve cubrir Hanói"! Para os trotskistas, a consigna original dos bolcheviques contra a guerra se transforma no seu contrário: transformar a guerra imperialista... em barbárie imperialista.

No campo do capital para sempre

O papel do trotskismo atualmente consiste em defender o imperialismo, tal como fez em 1939-45. A maioria destes grupos stalinistas de esquerda nos Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, etc., já estão firme e legalmente associados ao aparato político do Estado capitalista e da política da esquerda do capital (os sindicatos, os partidos stalinistas e social-democratas).

Para o trotskismo atualmente o mundo do pós-guerra está dividido por uma luta entre dois campos sociais diferentes e inimigos: o mundo imperialista ocidental de um lado e Rússia mais seus "Estados operários degenerados estruturalmente assimilados" do outro (além de alguns outros "Estados operários" que vegetam entre estes dois campos). A luta de classes descrita por Marx com tanta precisão, paixão e convicção está completamente desaparecida na visão de mundo trotskista. A divisão de classes que separa o proletariado mundial da burguesia mundial não é mais a luta central que forma a base da sociedade capitalista. No seu lugar, a humanidade estaria confrontada a uma luta entre Estados nacionais, entre "sistemas econômicos" supostamente opostos: o capitalista ao oeste, o "socialismo" no Leste. O que significa que o trotskismo põe a classe operária mundial a reboque das políticas adotadas pelo Estado "operário" (quer dizer da política exterior russa). Como estas políticas devem ser progressistas, o proletariado deve defendê-las independente da necessidade da sua própria luta de classe. Além disso, a classe está obrigada a defender todos estes Estados que os trotskistas têm classificado como "Estados operários". Isto é feito completamente em sintonia com a política "internacional" preconizada em 1928 pelo Comintern stalinista ao proletariado mundial.

  • "A União Soviética é a verdadeira pátria do proletariado, é a defensora mais firme dos seus interesses e é fator principal da sua libertação internacional. Isto obriga o proletariado mundial a contribuir para o êxito da edificação socialista na União Soviética, e a defender o país da ditadura do proletariado por todos os meios contra os ataques das potencias capitalistas" (Programa da Internacional Comunista, VI Congresso 1928).

Os trotskistas atualmente saúdam não a uma mas numerosas "Uniões Soviéticas", que "necessitam" da defesa incondicional do proletariado mundial. Embora Trotsky tenha afirmado em 1940 que a questão da conservação da forma de propriedade do Estado nacionalizado na Rússia estava subordinada à questão da extensão da revolução mundial, para o trotskismo de hoje, a revolução mundial desapareceu completamente e só se trata de uma questão de apoio ao stalinismo, embora de maneira "crítica"

Em 1940 Trotsky realizou a falsa previsão a propósito do desenvolvimento do stalinismo:

  • "a alternativa histórica colocada de maneira extrema se apresenta como segue: ou o regime de Stálin é um resíduo repugnante no processo de transformação da sociedade burguesa em uma sociedade socialista, ou o regime de Stálin é a primeira etapa de uma nova sociedade de exploração. Se o segundo prognóstico se revelou correto, então seguramente a burocracia se transformará em uma nova classe exploradora. No entanto se o proletariado se revelar atualmente incapaz de cumprir a missão colocada à frente no curso do desenvolvimento, não ficará nada salvo o reconhecimento de que o programa socialista, baseado nas contradições da sociedade capitalista, era uma utopia" (Em Defesa do Marxismo, A URSS na Guerra"; Tradução nossa).

Porém Trotsky insistia também no fato que só o final da 2ª Guerra mundial decidiria finalmente a natureza de classe do stalinismo. Como temos visto, os trotskistas responderam à guerra traindo o internacionalismo e apoiando o imperialismo russo que demonstrou sem equívocos sua natureza de potência capitalista. Contudo a maioria dos trotskistas saudou o fim da guerra, o avanço do exército vermelho na Europa do Leste e Alemanha como uma grande vitória do socialismo! Na realidade o exército vermelho - como todos exércitos no conflito - acabava com toda possibilidade de resistência proletária que surgia em oposição a guerra. E o exército stalinista era ainda um dos mais experimentados e mais capazes de desarmar e massacrar o proletariado. Aqui, por exemplo temos o que dizia a propagandista Ilya Ehrenburg, uma hiena stalinista, a propósito dos operários alemães no começo dos anos 40:

  • "Se os operários alemães realizassem uma revolução e se aproximassem do exército vermelho como irmãos, seriam abatidos como cachorros" (citado em "invading Socialist Society" pela tendência Johnson-Forest, setembro de 1947).

Ao final da guerra, suas próprias mãos manchadas de sangue de operários devido a sua marcha "heróica" na resistência antifacista, os trotskistas, cúmplices dos aliados e do stalinismo, não podiam aceitar tal qual o último prognóstico pessimista de Trotsky que via no stalinismo como uma nova classe social no caso da derrota da sua superação pelos operários russos. Para eles, a guerra foi uma grande vitória do proletariado. Paradoxalmente o trotskismo de pós-guerra continuou ao seu modo a falsa lógica da perspectiva pessimista e não marxista de Trotsky em 1940. O fim da guerra viu a consolidação e extensão do stalinismo. E que fizeram os trotskistas frente a isso? De acordo com as teses de Trotsky, o stalinismo certamente seria completamente reacionário no plano internacional. No entanto, se pôs a criar novos "Estados operários" em todas as partes! Não episodicamente, nem conjunturalmente, como na Polônia em 1939, mas de maneira permanente. Também atribuem à burocracia a tarefa progressista de "criar cada vez mais Estados "operários" nos séculos por vir!" (Pablo)

Que papel resta então ao trotskismo, o auto denominado "partido mundial da revolução socialista"? Nenhum, salvo o de advogado do stalinismo.

Em 1951 durante a guerra da Coréia, os dirigentes trotskistas - senhores Mandel, Frank y outros Stalin menores - acusaram de maneira ignóbil Natalia Trotsky de sucumbir às "pressões" do imperialismo quando ela rompeu com a IV Internacional e descreveu a Rússia como uma potência capitalista de Estado. Só o aviltamento total desses renegados poderia fazê-los acusar os revolucionários de seus próprios crimes! A Stálin o que é de Stálin! Um dos principais deveres dos revolucionários atualmente é a denúncia implacável do trotskismo como um aborto sangrento do stalinismo. O passado dos trotskistas fala por si mesmo.

(World Revolution nº 21, dezembro de 1987, órgão da CCI na Grã-Betanha)

[1] As posições adotadas por Bilan durante a guerra da Espanha estão publicadas na nossa série Espanha 1936: Franco e a República massacram o proletariado; http://pt.internationalism.org/ICCOnline/2007/Espanha_1936_Franco_e_a_Republica_massacram_o_proletariado.htm

[2] Citado por Isaac Deutscher em O "Profeta no Exílio" Trotski 1920-1940

[3] Os trotskystas se uniram aos stalinistas para denunciar os verdadeiros internacionalistas como agentes de Hitler e de Mussolini contribuindo com isso na sua perseguição e extermínio. Os sobreviventes da Esquerda Italiana continuaram no entanto difundindo sua propaganda derrotista e internacionalista contra a guerra, apesar das condições difíceis de clandestinidade. Com efeito, é no apogeu da guerra imperialista, as revistas Internationalisme na França e Prometeu na Itália , apareceram pela primeira vez.

[4] As atividades patrióticas dos trotskistas franceses durante a Segunda Guerra mundial são notadamente evocadas em Les enfants du prophète (Os filhos do profeta) de J. Rousel nas edições Spartacus-Paris 1982. Porém não existe um trabalho, concernente ao movimento trotiskista no seu conjunto.

O trotskismo deixa de ser uma corrente do movimento operário quando passa definitivamente para o campo do capitalismo no curso da segunda guerra mundial (1939-1945). Durante a segunda carnificina imperialista deste século, a IV° Internacional trotskista rechaça a consigna derrotista dos bolcheviques: Transformar a guerra imperialista em guerra civil! que tinha sido o marco de reagrupamento das forças revolucionárias proletárias contra a Primeira Guerra mundial. Os trotskistas realmente, defenderam o campo do imperialismo democrático e do stalinismo contra os imperialistas fascistas chamando à transformação da "guerra imperialista em uma verdadeira guerra pela defesa da URSS e contra o fascismo". É da maior importância para os revolucionários de hoje compreenderem o processo de contrarrevolução que dizimou e corrompeu numerosas forças do movimento revolucionário durante cinco décadas (na Rússia e outras partes). O modo em que essa degeneração afetou o trotskismo em particular, até ficar perdido para o movimento proletário constitui o tema deste artigo. O trotskismo não perece fisicamente como tendência política (salvo em países como a Rússia) como foi o caso de outras correntes proletárias nos anos 30 ou durante a guerra. Perece de maneira insidiosa, ao deixar de ser um fator de resistência revolucionária e de reagrupamento que tinha sido durante os anos que antecederam a guerra, ainda que fosse profundamente confuso acerca de numerosos pontos fundamentais.

Os trotskistas atualmente se empenham em deformar ou ocultar a importância das suas atividades durante a segunda guerra mundial. Só os mais cínicos e os mais estúpidos deles defendem esta parte da sua trajetória sem nenhuma vergonha. Porém no geral os trotskistas se mostram muito discretos em discutir suas atividades durante a guerra, na medida em que isso faria vir à luz do dia que suas declarações de "internacionalismo" e de "anti-stalinismo" autênticos não são outra coisa além de mentiras. A verdade é que os trotskistas durante a última grande guerra levaram à prática o que até então só haviam defendido com palavras ainda que tenhamos de recordar que no curso da guerra civil espanhola, em 1936-38, os trotskistas participaram neste conflito inter-imperialista, aliando-se ao lado da república. Nesta época, o próprio Trotsky pretendia que os revolucionários deviam ser "bons soldados" do exercito republicano! [1]

Rumo ao campo do capital

Às vésperas da segunda guerra mundial, o trotskismo já estava imerso na política reacionária do "mal menor". Havia se incorporado ao coro antifascista da burguesia democrática, melhor dizendo, aos seus preparativos guerreiros, usando a desculpa de que o anti-fascismo representava uma "ponte para as massas". E era efetivamente uma ponte! Porém uma ponte construída pelas butguesias imperialistas democráticas e stalinistas com o objetivo de militarizar o proletariado e a população na preparação de uma nova divisão do mercado mundial.

Assim que Hitler chega ao poder em 1933, Trotsky chega até exortar o imperialismo americano a apoiar a Rússia para opor-se a ameaça do Japão e Alemanha! [2]. Esta perspectiva "transitória", "tática" de apoio a um campo imperialista contra outro (sem admitir abertamente) foi colocada em prática pelo trotskismo sob múltiplas expressões nos anos 30: apoio a "resistência colonial" na Etiópia, China, México, apoio a Espanha republicana, etc. Esta perspectiva "transitória", "tática" de apoio a um campo imperialista contra outro também foi muito clara durante este período todo (Polônia, Finlândia, 1939) dissimulado por detrás da consigna de "defesa da pátria soviética"

O começo da guerra

As atividades dos trotskistas durante a Segunda Guerra mundial onde, fora raras exceções, participaram ativamente nos movimentos de resistência financiados pelos imperialismos "aliado" e stalinista, constituíram o passo definitivo, lógico, do movimento trotskista para o campo do capital. A partir de então a natureza de classe do trotskismo como corrente política não podia ser mais que capitalista. Os cães de guarda mais radicais e mais ruidosos da ala esquerda do capitalismo, é o que todas as organizações trotskistas, grandes ou pequenas, tem sido desde a guerra.

Na Europa os trotskistas utilizaram três argumentos principais para justificar a participação na guerra imperialista ao lado as democracia burguesa e o stalinismo:

  • 1) "A defesa incondicional da URSS" (o que significava o apoio ao imperialismo russo).
  • 2) A defesa da democracia burguesa (enquanto um "mal menor") contra o fascismo (o que significava o apoio a um bando de gangsteres imperialistas contra outro. O que é uma posição social-patriota e não uma posição comunista internacionalista!)
  • 3) A questão "nacional" na Europa. Esta tinha-se tornado segundo o trotskismo uma realidade depois da ocupação pelo exercito alemão da França, Bélgica, Holanda, Noruega, etc. As massas desejavam a "independência nacional" diante do "invasor nazi" segundo seu linguajar. O combate das nações oprimidas da Europa teria sido "progressista" nada menos e isso obrigaria os trotskistas encontrar uma "ponte" direcionada às aspirações das massas. As "massas" incluíam supostamente, Roossevelt, Churchil, De Gaulle, a GPU além de todo o aparato de Estado Imperialista da Europa que tinha sido abalado pelo imperialismo alemão, italiano e japonês. A "ponte" que buscavam os trotskistas não era muito difícil de encontrar. Foi avidamente posta de pé com a ajuda do ouro e as armas dos aliados que financiaram a resistência e os maquis (guerrilheiros).

Com estas três justificativas, os trotskystas na França, Bélgica, Itália, etc. se uniram a resistência e foram muito ativos. Na frança, em todas partes ode os trotskystas alcançaram uma certa influência no interior do exército alemão (como em Brest por exemplo), chamaram os soldados alemães a entregar suas armas a resistência "pela defesa da URSS". Para os trotskystas franceses, o imperialismo alemão era o "inimigo nº1" [3]. As publicações em alemão dos trotskistas franceses (em particular o grupo La vérité, o Partido Operário Internacionalista) conclamavam aos soldados alemães na frança a voltar suas armas contra seus oficiais e a Gestapo e a confraternizar com o maquis (a guerrilha) (significa dizer com as tropas de uma parte da burguesia francesa). Porém não chamavam as tropas do maquis a voltarem suas armas contra seus próprios oficiais da resistência ou contra os agentes stalinistas que dirigiam o maquis [4]

Alguns trotskistas franceses "criticaram" esses "desvios nacionalistas" praticados pelos patriotas trotskistas mais toscos. Porém todos defendiam as premissas políticas do trotskismo que conduzem implacavelmente ao abandono do internacionalismo (apoio à Rússia, a democracia burguesa, etc.) Não foi um acidente se essas críticas jamais levaram a nenhum desses grupos "ortodoxos" (inclusive o "mais puro" dentre eles, a União Comunista de Barta, precursor do grupo francês Lutte Ouvrière) a abandonar as posições burguesas do trotskismo. Para todos os trotskistas franceses que criticavam os "desvios nacionalistas" no seu seio, estas eram o resultado de "erros" ou de "oportunismo" e não uma questão decisiva que implicasse a passagem das fronteiras de classe.

Os melhores inimigos de Hitler

Nos Estados Unidos, o "Socialist Workers Party" (SWP) prometia ao governo travar um "verdadeiro combate" contra Hitler com a única condição de que a administração Roosevelt lhe permitisse atuar no "controle sindical da circunscrição" e na economia de guerra. Estas ofertas não foram aceitas e por outro lado não impediu o SWP de ser perseguido por engano, como um "perigo claro e presente" contra o esforço de guerra americano no juizado de Minneapolis em 1941. Aembora Cannon e o resto da direção do SWP se postaram aos pés do júri, isso não os salvou da condenação a pena de prisão, relativamente curtas. Porem sua prestação ante a justiça não foi simplesmente o resultado da sua covardia pessoal; era lógica em função da capitulação, anterior à guerra, dos trotskismo diante da ideologia antifascista do imperialismo democrático.

Algumas semanas depois que Trotski foi assassinado por ordem de Stálin, Cannon desenvolve até o fim a lógica implícita na própria política oportunista de Trotsky diante da guerra. Por ocasião de uma conferência especial que o SPW promoveu em Chicago no mês de setembro de 1940, Cannon defendia a "proletarização" das forças armadas americanas: "Desejamos combater Hitler. Nenum operário deseja ver esse bando de bárbaros facistas invadirem este país ou qualquer país que seja. Porém desejamos combater o fascismo sob uma direção na qual possamos ter confiança... Não permitiremos jamais que suceda o que sucedeu na França... Os trabalhadores por eles mesmos devem tomar este combate contra Hitler, contra todo aquele que usurpe seus direitos... A contradição entre o patriotismo da burguesia e o das massas deve ser o ponto de partida da nossa atividade revolucionária. Devemos basearmos na realidade da guerra e na reação das massas aos acontecimentos da guerra" (Os marxistas na segunda guerra mundial - de Brian Pearce).

Assim as "aspirações das massas" constituem a razão dada para determinar o apoio do trotskismo ao imperialismo dos aliados. Porém esta suposta aspiração "antifascista" do proletariado não existia em nenhuma parte em 1939, sobretudo à escala inventada pelo trotskismo. E ainda se isso fosse o caso, teria representado a dominação da ideologia democrática burguesa sobre a consciência da classe no seio do proletariado. Uma coisa que os revolucionários deveriam ter combatido (o que fizeram na realidade, mas nao os trotskistas), exatamente como Lênin e os bolcheviques lutaram contra outras formas de patriotismo nacional que encerrava as massas durante a Primeira Guerra mundial.

Porém o trotskismo compreendia que este apoio ao imperialismo deveria basear-se em certa vontade de resistência do proletariado contra a barbarie. Tal era o único caminho que para arrastar os operários a apoiar um campo da burguesia contra outro na guerra imperialista. A ideologia antifascista foi a mistificação ideal que necessitava o capital para esta finalidade, o stalinismoe o trotskismo foram seus seus principais propagadores no seio da classe operária durante a guerra. Os trabalhadores ingleses que produziam os blindados para o exército russo por exemplo, foram autorizados a escrever "Greetings to Uncle Jô" ("saudações ao tio Stálin") no lado dos blindados, o que os animava a trabalhar mais duramente e a produzir mais blindados em menos tempo. O trotskismo jamais se opuseram a tais campanhas. O fato de que os blindados foram mais tarde utilizados para os desígnios imperialistas da Gran Bretanha, para assassinar e mutilar outros trabalhadores uniformizados, não contava para os trotskistas desde o momento em que os blindados iriam defender a "pátria dos trabalhadores".

A ideologia antifascista dos trotskistas serviu de justificativa para a defesa de todos os imperialismos aliados, inglês, russo, francês, americano, etc. Isso quer dizer que o trotskismo tinha numerosos grandes chefes na época, tal como hoje.

Munis e Natalia Trotsky rompem com o trotskismo

As atas judiciais oficiais do juizado de Minneapolis jamais foram oferecidos ao público pelo SWP americano. A versão editada pelo SWP (sob o título "O Socialismo em Julgamento") difere das atas oficiais em vários pontos importantes. Os propósitos de Cannon reportados na ata oficial argumentam com efeito a favor de uma orientação pro americana e expressam as lamentações de um patriota americano incompreendido. No entanto, na versão do SWP os piores excessos de Cannon são devidamente eliminados, embora o tom vil da declaração da defesa não desaparece jamais. O trotskista espanhol Grandizo Munis que se opunha à posição defensista do SWP e dos seus partidários irmãos escreveu em 1942 uma crítica fraternal do SWP durante o julgamento que se traduz em Qual política para os revolucionários? Marxismo ou ultra-esquerdismo? A resposta de Cannon igualmente publicada neste folheto ilude e portanto confirma as críticas de Munis. Esta replica em O SWP e a guerra imperialista, uma crítica mais elaborada da atitude no julgamento, que reduzia a nada os argumentos em favor do social patriotismo sustentados pelo SWP. Este folheto não foi posto em circulação pelo SWP apesar do fato de que Munis era ainda formalmente membro dirigente da IV internacional (em 1946)

Natalia Trotski, que mais tarde seguiu o caminho de Munis e da maioria dos trotskistas espanhóis e rompeu com o trotskysmo em 1951, levanta as mesmas acusações contra a IV internacional. É importante notar que Munis, Péret, Natalia Trotsky e outros revolucionários deste período foram capazes de ver que a "defesa incondicional da URSS" de Trotski tinha sido uma das cortinas de fumaça atrás das quais o trotskismo capitulava frente aos seus próprios imperialismos nacionais (na França, Grã-bretanha, Bélgica, Estados Unidos...) Estes revolucionários tiveram obviamente de revisar sua posição sobre a Rússia e a reconheceram enquanto capitalismo de Estado. Porém as críticas de Munis e Peret sobre o trotskismo iam mais além da questão russa. Continham também uma denuncia profunda - embora parcial - das concepções e da prática do Comitnern no passado.

O segundo congresso da IV Internacional, em 1948 ignora naturalmente o conteúdo das críticas de Munis. Assim este congresso prova que o trotskismo tinha aderido, sem ser profundamente sacudido enquanto corpo unido, ao campo burguês. A traição ao internacionalismo, em uma guerra imperialista é o critério definitivo para determinar a natureza burguesa de uma organização política anteriormente proletária. O congresso de 1948 ratificou esta traição.

Os grupos trotskistas que revisaram posteriormente sua posição sobre a Rússia (por exemplo, as tendências Chaulieu, Tony Clif, Johnson-Forest, etc...) porém ignoraram ou foram incapazes de denunciar implacavelmente o papel do trotskismo durante a guerra e por conseguinte a maior parte dos erros pro gramáticos de fundo do Comintern no passado (apoio a libertação nacional, trabalho nos sindicatos, parlamentarismo, frentes únicas etc.) retornaram ao esquerdismo ou ainda à política de esquerda.

O congresso de 1948 não ratificou somente o patriotismo dos trotiskistas durante a guerra, adotou igualmente a defesa total do stalinismo. Isto constitui uma das razões principais da existência do trotskismo atualmente. Em 1949 Tito, que executou trotiskistas em Belgrado em 1941, disporá do apoio da IV° Internacional; em 1950 a teoria da "assimilação estrutural" será ruminada pelo trotskismo com a finalidade de demonstrar que os países da Europa do Leste deveriam ser defendidos da mesma maneira que o Estado "operário" russo original.

A segunda guerra mundial não termina com a vitória do proletariado, mas com sua derrota absoluta. Porém segundo o trotskismo o balanço foi finalmente positivo porque a economia nacionalizada russa tinha sido exportada para a Europa do Leste. O fato que isto tenha se realizado sobre as costas de mais de 50 milhões de cadáveres, depois do desmembramento imperialista de todo planeta, não tinha a mínima importância. A lógica bárbara da política capitalista do trotskismo fica contida na afirmação de que as "formas de propriedade socialistas" podem expandir-se no mundo por meio do maior assassino do proletariado: o stalinismo! A Liga Spartaquista americana carregou esta concepção reacionária até sua conclusão mais horrível quendo afirma em 1964 que em "que o guarda chuva nuclear soviético deve cubrir Hanói"! Para os trotskistas, a consigna original dos bolcheviques contra a guerra se transforma no seu contrário: transformar a guerra imperialista... em barbárie imperialista.

No campo do capital para sempre

O papel do trotskismo atualmente consiste em defender o imperialismo, tal como fez em 1939-45. A maioria destes grupos stalinistas de esquerda nos Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, etc., estão já firme e legalmente associados ao aparato político do Estado capitalista e da política da esquerda do capital (os sindicatos, os partidos stalinistas e socialdemocratas).

Para o Trotskismo atualmente o mundo do pós-guerra está dividido por uma luta entre dois campos sociais diferentes e inimigos: o mundo imperialista ocidental de um lado e Rússia mais seus "Estados operários degenerados estruturalmente assimilados" do outro (além de alguns outros "Estados operários" que vegetam entre estes dois campos). A luta de classes descrita por Marx com tanta precisão, paixão e convicção está completamente desaparecida na visão de mundo trotskista. A divisão de classes que separa o proletariado mundial da burguesia mundial não é mais a luta central que forma a base da sociedade capitalista. No seu lugar, a humanidade estaria confrontada a uma luta entre Estados nacionais, entre "sistemas econômicos" supostamente opostos: o capitalista ao oeste, o "socialismo" no Leste. O que significa que o trotskismo põe a classe operária mundial a reboque das políticas adotadas pelo Estado "operário" (quer dizer da política exterior russa). Como estas políticas devem ser progressistas, o proletariado deve defendê-las independente da necessidade da sua própria luta de classe. Além disso, a classe está obrigada a defender todos estes Estados que os trotskistas têm classificado como "Estados operários". Isto é feito completamente em sintonia com a política "internacional" preconizada em 1928 pelo Comintern stalinista ao proletariado mundial.

  • "A União Soviética é a verdadeira pátria do proletariado, é a defensora mais firme dos seus interesses e é fator principal da sua libertação internacional. Isto obriga ao proletariado mundial em contribuir para o êxito da edificação socialista na União Soviética, e a defender o país da ditadura do proletariado por todos os meios contra os ataques das potencias capitalistas" (Programa da internacional Comunista, VI congresso 1928).

Os trotskistas atualmente saúdam não a uma mas numerosas "Uniões Soviéticas", que "necessitam" da defesa incondicional do proletariado mundial. Ambora Trotski tenha afirmado em 1940 que a questão da conservação da forma de propriedade do Estado nacionalizado na Rússia estava subordinada à questão da extensão da revolução mundial, para o trotskismo de hoje, a revolução mundial desapareceu completamente e só se trata de uma questão de apoio ao stalinismo, embora de maneira "crítica"

Em 1940 Trotski realizou a falsa previsão a propósito do desenvolvimento do stalinismo:

  • "a alternativa histórica colocada de maneira extrema se apresenta como segue: seja o regime de Stálin é um resíduo repugnante no processo de transformação da sociedade burguesa em uma sociedade socialista, seja o regime de Stálin é a primeira etapa de uma nova sociedade de exploração. Se o segundo prognóstico se revelou correto, então seguramente a burocracia se transformará em uma nova classe exploradora. No entanto se o proletariado se revelar atualmente incapaz de cumprir a missão colocada à frente no curso do desenvolvimento, não ficará nada salvo o reconhecimento de que o programa socialista, baseado nas contradições da sociedade capitalista, era uma utopia" (Em "Defesa do Marxismo").

Porém Trotski insistia igualmente no fato que só o final da 2ª Guerra mundial decidiria finalmente a natureza de classe do stalinismo. Como temos visto, os trotskistas responderam à guerra traindo o internacionalismo e apoiando o imperialismo russo que demonstrou sem equívocos sua natureza de potência capitalista. Contudo a maioria dos trotskistas saudaram o fim da guerra, o avanço do exército vermelho na Europa do Leste e Alemanha como uma grande vitória do socialismo! Na realidade o exército vermelho - como todos exércitos no conflito - acabava com toda possibilidade de resistência proletária que surgia em oposição a guerra. E o exército stalinista era ainda um dos mais experimentados e mais capazes de desarmar e massacrar o proletariado. Aque por exemplo temos o que dizia a propagandista Ilya Ehrenburg, uma hiena stalinista, a propósito dos operários alemães no começo dos anos 40:

  • "Se os operários alemãs realizarem uma revolução e se aproximarem do exercito vermelho como irmãos, seriam abatidos como cachorros" (citado em "invading Socialist Society" pela tendência Johnson-Forest, setembro de 1947).

Ao final da guerra, suas próprias mãos manchadas de sangue de operários devido a sua marcha "heróica" na resistencia antifacista, os trotskistas, cúmplices dos aliados e do stalinismo, não podiam aceitar tal qual o último prognóstico pessimista de Trotsky que via no stalinismo como uma nova classe social no caso da derrota da sua superação pelos operários russos. Para eles, a guerra foi uma grande vitória do proletariado. Paradoxalmente o trotskismo de pós-guerra continuou ao seu modo a falsa lógica da perspectiva pessimista e não marxista de Trotski em 1940. O fim da guerra viu a consolidação e extensão do stalinismo. E que fizeram os trotskistas frente a isso? De acordo com as teses de Trotski o stalinismo seria supostamente completamente reacionário no plano internacional. Porém se pôs a criar novos "Estados operários" em todas as partes! Não episodicamente, conjunturalmente, como na Polônia em 1939, mas de maneira permanente. Se denominar uma nova classe exploradora- (o que não é, pois o Estado stalinista não é mais que uma simples fração da classe capitalista mundial), os trotskistas o consideram como tal nos fatos. Também atribuem à burocracia a tarefa progressista de criar cada vez mais Estados "operários" nos séculos por vir! (Pablo)

Que papel resta então ao trotskismo, o auto denominado "partido mundial da revolução socialista"? Nenhum, salvo o de advogado do stalinismo.

Em 1951 durante a guerra da Coréia, os dirigentes trotskistas - senhores Mandel, Frank y outros menores Stalin acusaram de maneira ignóbil Natalia Trotski de sucumbir às "pressões" do imperialismo quando ela rompeu com a IV Internacional e descreveu a Rússia como uma potencia capitalista de Estado. Só o aviltamento total desses renegados poderia fazê-los acusar os revolucionários de seus próprios crimes! A Stalin o que é de Stalin! Um dos principais deveres dos revolucionários atualmente é a denuncia implacável do trotskismo como um aborto sangrento do stalinismo. O passado dos trotskistas fala por si mesmo.

(World Revolution nº 21, dezembro de 1987, órgão da CCI na Grã-Betanha)

[1] As posições adotadas por Bilan durante a guerra da Espanha estão publicadas na nossa série Espanha 1936: Franco e a República massacram o proletariado; http://pt.internationalism.org/ICCOnline/2007/Espanha_1936_Franco_e_a_Republica_massacram_o_proletariado.htm

[2] Citado por Isaac Deutscher em O "Profeta no Exílio" Trotski 1920-1940

[3] Os trotskystas se uniram aos stalinistas para denunciar os verdadeiros internacionalistas como agentes de Hitler e de Mussolini contribuindo com isso na sua perseguição e extermínio. Os sobreviventes da Esquerda Italiana continuaram no entanto difundindo sua propaganda derrotista e internacionalista contra a guerra, apesar das condições difíceis de clandestinidade. Com efeito, é no apogeu da guerra imperialista, as revistas Internationalisme na França e Prometeu na Itália , apareceram pela primeira vez.

[4] As atividades patrióticas dos trotskistas franceses durante a Segunda Guerra mundial são notadamente evocadas em Les enfants du prophète (Os filhos do profeta) de J. Rousel nas edições Spartacus-Paris 1982. Porém não existe um trabalho, concernente ao movimento trotiskista no seu conjunto.