Será que o trotskismo pertence ao campo do proletariado?

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Todas as organizações que, no mundo, reivindicam o trotskismo, reivindicam também Marx, a revolução de 1917 na Rússia, ostentam sua oposição ao capitalismo e chamam ao derrubamento deste com objetivo a instauração da sociedade comunista. Também formulam críticas, às vezes muito severas, aos partidos socialistas e comunistas que culpam por sua complacência com a ordem social existente. Estas organizações baseiam sua imagem "revolucionária" sobre a sua filiação com Trotsky e, segundo elas, representariam a continuidade do movimento revolucionário. Estas afirmações devem ser avaliadas baseando-se na própria história do movimento trotskista.

O retrocesso da onda revolucionaria mundial de 1917-23, resultado de sua incapacidade em se estender vitoriosamente alem da Rússia, deu lugar a um processo de degeneração dentro da Internacional Comunista e do poder soviético na Rússia onde o partido bolchevique se fundiu mais e mais com o aparelho de estado burocrático. Dentro da Internacional, os intentos de ganhar apoio das massas em uma fase de retrocesso destas, engendraram "soluções" oportunistas: notadamente a insistência crescente na importância dada ao trabalho no Parlamento e sindicatos, e, sobretudo, a política de Frente Única com os partidos socialistas a qual atirou ao lixo a claridade ganha com tanto empenho a respeito da natureza doravante capitalista destes partidos. 

Do mesmo modo que o crescimento do oportunismo na Segunda Internacional tinha provocado uma resposta proletária na forma de correntes de esquerda, representadas notadamente por Lênin e Rosa Luxemburgo, também a maré do oportunismo na Terceira Internacional  foi resistida pelas correntes da Esquerda comunista [1]. Mas precisamente porque era um partido verdadeiramente proletário, o partido bolchevique também produziu numerosas reações internas contra sua própria degeneração. Lênin mesmo - quem em 1917 tinha sido o mais claro porta-voz da ala esquerda do partido - fez algumas críticas pertinentes à queda do partido no burocratismo, particularmente para o fim de sua vida; e pelo mesmo período, Trotsky se converteu no principal representante de uma Oposição de esquerda que procurava restaurar as normas de um funcionamento proletário no partido, e que continuou combatendo as expressões mais notáveis da contra-revolução stalinista, particularmente a teoria do "socialismo em um só país". Entretanto, não mais na Rússia em primeiro de que no mundo depois, Trotsky soube perceber a pertinência das criticas da Esquerda comunista contra a degeneração dos partidos comunistas. Pior ainda, ele foi um ardente defensor da virada oportunista iniciada durante o terceiro congresso da Internacional comunista e confirmada durante o quarto, especificamente sobre a questão da frente única com organizações da burguesia.

Em seguida e até a Segunda Guerra mundial, Trotsky continuará com o mesmo procedimento oportunista que o levará a tomar posições alheias aos interesses de classe do proletariado, notadamente quando dos movimentos sociais de 1936 na França e durante a Guerra de Espanha. Totalmente desnorteado, incapaz de entender a realidade do curso histórico para a guerra aberto pela derrota da onda revolucionaria mundial, Trotsky pensava de maneira errada que a revolução estava caminhando, o único obstáculo a sua emergência era para ele ... "a crise da direção revolucionaria". Seu Programa de transição, ajuntamento oportunista de medidas de capitalismo de Estado era, segundo a sua visão, destinado a mobilizar as massas sobre a base de "reivindicações transitórias". A fundação da IV° internacional em 1938, de maneira totalmente artificial e sem relação nenhuma com a atividade real das massas, corresponde ao mesmo procedimento errado de Trotsky.

O Programa de transição constituiu a base programática do que ia devir o trotskismo em seguida. Entretanto, entre Trotsky e o trotskismo, não existe uma verdadeira continuidade ainda que Trotsky tenha amplamente aberto o caminho para este último. Com efeito, entre ambos há a guerra imperialista que constitui uma prova de verdade para toda organização que reivindica a causa do proletariado: se abandona o internacionalismo, assina sua passagem ao campo da burguesia. Não é certo que Trotsky teria seguido até o fim sua lógica oportunista sem questioná-la como indicam em particular o testemunho de seu par Natalia e seus próprios escritos (A URSS na guerra) onde declara sua vontade de revisar sua opinião caso o governo burocrático na URSS sobrevivesse à guerra mundial. Trotsky não viveu bastante para sabermos como teria evoluído. Em contrapartida a participação do trotskismo na Segunda Guerra mundial, notadamente através dos movimentos da Resistência, assina o abandono definitivo por esta corrente do internacionalismo proletário. Como aconteceu nos partidos da segunda e terceira internacional, cuja traição foi acompamhada do surgimento de correntes fiéis ao proletariado e o internacionalismo (partidos comunistas provenientes dos partidos socialistas e frações de esquerda provenientes dos partidos comunistas), a traição da corrente trotskista provocou também o surgimento de correntes proletárias. Assim durante e depois da Segunda Guerra mundial se formaram grupos provenientes desta corrente sobre a base da defesa do internacionalismo. Foi notadamente o caso nas organizações trotskistas grega (União Comunista Internacionalista em torno de Aghis Stinas), francesa (Socialismo ou Barbárie do qual um fundador, Cornelius Castoriadis, tinha pertencido também à UCI grega), austríaca (RKD, Revolutionäre Komunistische Deutschland), espanhola (Fomiento obrero revolucionario). Em seguida, Natalia Trotsky se associará a procedimento, rompendo com a Quarta internacional através de uma carta em 9 de maio 1951 enviada a seu Comitê executivo.

O segundo congresso desta em 1948, ao ignorar, depois de tê-las abafada, as críticas feitas a sua política belicista veio ratificar a passagem da Quarta internacional e do trotskismo em geral para o campo da burguesia.

É com intento de ilustrar e explicitar esta analise do trotskismo que publicamos a presente compilação de artigos que, pela maior parte entre eles, já foram reunidos, em outros idiomas, dentro de uma brochura intitulada O trotskismo contra a classe operária cuja última edição foi publicada em 1990 [2]. A grande maioria dos artigos publicados a seguir indicado foram escritos em diferentes datas, antes do desmoronamento do stalinismo. E a razão pela qual, neles, se fala no presente desta situação em que o mundo era dividido em dois blocos imperialistas rivais, o do oeste e o do leste, este último sendo apresentado pelos trotskistas como dirigido por um Estado operário degenerado que se tratava de defender contra as "agressões do imperialismo".

CCI (Agosto de 2009)

[1] Para mais informações sobre a esquerda comunista, ler nosso artigo A esquerda comunista e a continuidade do marxismo: http://pt.internationalism.org/icconline/2005_esquerda_comunista.

[2] Na medida em que estes artigos não foram concebidos inicialmente para fazer parte de uma brochura, encontra-se inevitavelmente repetições entre eles, como o leitor poderá constatá-lo.