As forças terrestres de Bashar El Assad e a aviação russa bombardeiam a região de Idlib no norte da Síria há vários meses. Quase três milhões de civis (incluindo um milhão de crianças) estão encurralados neste último bastião da rebelião[1], como já tinha acontecido em Alepo ou no Guta Oriental. O regime de Assad está tentando recuperar essa área através do terror e de uma ignominiosa política de terra arrasada. Milhares de projéteis lançados pela força aérea russa caem indiscriminadamente sobre casas, edifícios públicos (escolas, hospitais, etc.), mercados e terras agrícolas. Mais de mil pessoas pereceram desde o final de abril de 2018, segundo a ONU, e quase um milhão estão tentando fugir do massacre, famintos, desabrigados, abandonados no meio das temperaturas geladas do inverno. Neste cenário de barbárie e caos, as populações resignadas só têm uma saída: fugir para não morrer! Eles tomam o caminho para a fronteira turca e tentam chegar à fronteira grega, a porta mais próxima para entrar na Europa.
Mas acontece que a fronteira entre a Síria e a Turquia está agora fechada para eles. Enquanto desde 2015 o Estado turco prestou um serviço (pago!) às democracias europeias ao "acolher" as ondas de milhões de migrantes que estas últimas se recusaram a receber como se fossem pestilentas, a ofensiva turca no norte da Síria mudou a situação. Os três milhões de pessoas na região de Idlib são agora reféns, prisioneiros das potências imperialistas da região. Como vimos, a Turquia e a Rússia, juntamente com o seu vassalo, a Síria de Assad, são capazes de tudo: de sangrar impiedosamente regiões inteiras, aterrorizando o povo e massacrando-o para satisfazer o seu apetite insaciável de hienas. Hoje, a região de Idlib é o macabro recreio do imperialismo, o teatro sangrento do capitalismo moribundo onde só reina a miséria e a morte.
Não só Erdogan já se recusa a permitir a entrada de novos migrantes, mas também quer se livrar dos três milhões e meio que já estão em solo turco. Para o líder do regime, eles não são nem mais nem menos do que itens de leilão, mantidos reféns de um jogo de barganha que ele habilmente usa para satisfazer seus objetivos políticos. Internamente, os migrantes são agora alvo de uma campanha de difamação destinada a aumentar a popularidade do AKP entre a população turca. Mas é especialmente na arena imperialista que os migrantes são mais úteis para o AKP.
E assim eles se tornaram objeto de chantagem contra os poderes da União Europeia (UE). Erdogan ameaçou durante meses abrir a fronteira ocidental do país com a Europa para conseguir que as potências europeias apoiassem a sua campanha militar no norte da Síria e lhe pagassem uma renda financeira. Em 28 de Fevereiro, ele cumpriu as suas ameaças e dezenas de milhares de refugiados tentaram, com um risco considerável, entrar na Europa através da fronteira grega, apesar da recusa retumbante das autoridades, apoiadas nesta posição pela UE e as suas grandes democracias. Pelo menos 13.000 migrantes estão agora amontoados na fronteira, vítimas de crueldade de todos os lados. Outros tentam chegar às ilhas de Quios ou Lesbos pelo mar, onde as mesmas condições os esperam: imobilizados, amontoados e isolados como animais, sem água, sem aquecimento, sem comida e sem a mais elementar higiene. Na ilha de Lesbos, no campo de Moria, por exemplo, previsto para 2.300 pessoas, há 20.000, amontoadas, rodeadas de arame farpado. O La Repubblica dá esta abominável descrição: "Os primeiros a morrer são as crianças. Aqui não há nada para eles, nem uma cama, nem banheiro, nem luz. Aqui, para eles, só há lama, frio e espera. Um purgatório molhado e absurdo para se ficar louco. Assim, dia após dia, enquanto a Europa e suas promessas se afastam no horizonte, os mais frágeis não têm outra escolha senão tentar se suicidar (...) mas porque têm medo, raramente conseguem fazê-lo. De vez em quando, um adulto bate à porta da clínica, ao pé da colina, trazendo em seus braços uma criança com marcas eloquentes em seu corpo. Todos sabem o que ele acabou de fazer. E voltará a fazê-lo dentro de alguns meses”. Mais de três quartos de século depois de Auschwitz: a mesma sinistra e assustadora realidade que os capitalistas reservam em toda parte para populações consideradas "indesejáveis".
Aqueles que tentam entrar neste "El Dorado" são presos com a maior violência e brutalidade pelas autoridades gregas. Temos visto imagens insuportáveis e nojentas nas quais, no mar, a guarda costeira grega tenta perfurar um barco inflável cheio de migrantes e afugentá-los com tiros. Na região de Evros, a polícia e o exército rastreiam a área. A fronteira de 212 km é intransitável. Os migrantes que tentam atravessar são "recebidos" com gás lacrimogêneo e até fogo real, o que, segundo relatos turcos, resultou em vários ferimentos e até mesmo uma morte. Os presos são espancados, roubados, humilhados e mandados de volta. Acreditando que já estão a poucos metros do "paraíso", enfrentam, de fato, a fria crueldade da Fortaleza Europa, para a qual permanecem indesejáveis, escória ou bestas errantes que nenhum Estado quer cuidar. Com um cinismo incrível e uma hipocrisia sem limites, cada um pretende culpar os outros, mas todos partilham o mesmo desejo: uma recusa categórica de aceitar estas populações, vítimas da barbárie que as próprias potências imperialistas engendraram![2]
Imediatamente após o anúncio do regime turco de abrir as portas aos imigrantes na Europa, a reação dos principais Estados da UE foi esmagadora: todos os representantes da burguesia europeia começaram a gritar contra a política "inaceitável" de Erdogan (Angela Merkel). O chefe do governo austríaco, Sebastian Kurz, eleito especialmente pela sua política anti-imigração, fingiu estar preocupado com "aqueles seres humanos usados para pressionar" sobre a UE.
As "grandes democracias" da Europa podem encher suas bocas com discursos solidários, mas por mais que tentem transferir a culpa para seus concorrentes russos e turcos, a realidade da política migratória europeia revela a hipocrisia e a ignomínia que os anima. E é, aliás, a "pátria dos direitos humanos" que melhor expressou as verdadeiras intenções dos Estados da UE: "A União Europeia não vai ceder a esta chantagem. (...) As fronteiras da Grécia e do território de Schengen estão fechadas e vamos garantir que assim permaneçam, que as coisas fiquem claras", declarou Jean-Yves Le Drian, o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, numa declaração militar e enfática. Assim, não importa quantos milhões de pessoas estejam a passar fome e frio, os Estados europeus não farão nada por elas, a não ser colocar ainda mais obstáculos no seu caminho, reforçando os meios para tornar a fronteira grega ainda mais hermética. Ursula von der Leyen, a Presidenta da Comissão Europeia, garantiu que "toda a assistência necessária" será dada ao Estado grego. A agência Frontex já enviou reforços policiais e 700 milhões de euros foram disponibilizados. A intransigência dos líderes europeus também reflete o desejo de deixar sem munição os movimentos populistas, que não hesitaram em tirar proveito deste novo êxodo.
As potências europeias podem alegar ser vítimas do manipulador vil Erdogan ou derramar lágrimas de crocodilo sobre o infortúnio dos migrantes, escondendo-se atrás da máscara da impotência, mas são todas igualmente responsáveis e, por muito que digam o contrário, são responsáveis por permitir que estes milhões de civis pereçam debaixo de cartuchos russos, as balas gregas e o cinismo turco.
Suas reclamações vomitadas sobre os direitos humanos e sua indignação fingida não são mais que telas para esconder suas políticas anti-imigrantes. A rejeição das fronteiras, a caça aos refugiados e o desmantelamento dos campos improvisados, a construção de muros e cercas, a militarização das fronteiras, o aumento dos controles administrativos e dos critérios de acesso aos territórios, etc., todas estas medidas são antes de mais nada executadas e aplicadas com o máximo rigor e zelo por Estados democráticos[3] onde a ditadura do capital se expressa da forma mais perversa e cínica. As democracias ocidentais, tanto de esquerda como de direita, tão alardeadas pela propaganda, não só são cúmplices como também fazem sofrer o mesmo tratamento desprezível, degradante e indigno que os "maus" deste filme (os Erdogans, Putin e outros)... embora, claro, com o toque democrático da hipocrisia...
Após cerca de 30 soldados turcos terem sido mortos num ataque das tropas de Bashar El Assad, o que suscitou receios de uma escalada das tensões, Moscou e Ancara concordaram com um cessar-fogo no dia 5 de março. Esta é uma farsa na qual ninguém acredita, porque as respectivas exigências destas duas potências só podem empurrá-las sem restrições para limites extremos, que mais cedo ou mais tarde atearão fogo ao barril de pólvora e reanimarão os combates. Não há o menor sinal de estabilização no Médio Oriente. A retirada dos Estados Unidos e, consequentemente, da França e da Alemanha, representará finalmente uma série de perigos dos quais a população civil será, como sempre, a primeira vítima. É inegável que Assad está determinado a recuperar todo o território que possuía antes de 2011. Para isso, ele não hesitará em embriagar-se com o sangue de milhões de pessoas inocentes, a fim de alcançar seu objetivo. Especialmente porque Putin, o único capaz de canalizar os desejos do "açougueiro de Damasco", não parece ser totalmente contrário a este objetivo. O "amo do Kremlin" também tem interesse em manter relações cordiais com Erdogan para que possa exercer pressão sobre a OTAN e manter a sua muito valiosa base naval em Tartus, na Síria ocidental. A Turquia, por sua vez, está liberada para eliminar os curdos, a quem nega qualquer território autônomo na Síria, temendo que isso sirva de apoio às reivindicações nacionalistas dos curdos na Turquia. Em outubro passado, após violentos combates, conseguiu estabelecer uma "zona de segurança", quebrando assim a continuidade territorial do Rojava. Se até agora a presença americana deu uma garantia de proteção aos curdos, a saída das tropas americanas da Síria significa muito provavelmente o sinal da sua sentença de morte.
Tanto mais que as potências europeias, como a França e a Grã-Bretanha, perderam muito terreno e já não estão realmente em condições de manter a sua estratégia de luta contra Daesh e o regime Assad através de uma série de alianças com os rebeldes e os curdos. Assim, todos os elementos estão agora reunidos para novos extermínios em massa que lançarão milhões de pessoas para as estradas do infortúnio.
O que está acontecendo na fronteira greco-turca não é uma exceção, mas uma ilustração, entre muitas outras, do horror que o capitalismo moribundo traz para centenas de milhões de pessoas. O destino dos migrantes africanos na fronteira marroquina, o inferno da Líbia ou o dos latino-americanos entre o México e os Estados Unidos é semelhante. Estão todos fugindo da guerra, da violência, do crime e do desastre ambiental. Hoje, quase sete milhões de pessoas encontram-se nesta situação de perambulação sem qualquer meio de sobrevivência. Eles estão fugindo da barbárie do capital e são os peões e vítimas das burguesias nacionais, que estão constantemente brincando com eles e instrumentalizando a "questão migratória" em nome de seus sinistros interesses imperialistas.
Vincent, 8 de Março de 2020.
[1] Os rebeldes ao regime de Assad formam nada mais, nada menos que uma facção rival dentro da burguesia síria. Eles são apoiados pelos Estados Unidos, Arábia Saudita, Turquia e outros Estados, que usam como peões para servir seus interesses imperialistas.
[2] Veja-se a respeito: “Bombardements en Syrie : l’intervention des grandes puissances amplifie le chaos”, em Révolution internationale (publicação em francês da CCI) n°455 (novembro-dezembro 2015)
[3] Veja-se: “Le “droit d’asile”: une arme pour dresser des murs contre les immigrés”, na página (em francês) da CCI (julho de 2019).
Os EUA, o país mais poderoso do planeta, tornou-se uma vitrine do avanço da decomposição da ordem mundial capitalista. A corrida eleitoral presidencial lançou um flash de luz sobre um país dilacerado por divisões raciais, por conflitos cada vez mais brutais no seio da classe dirigente, por uma incapacidade chocante de lidar com a pandemia da Covid-19 que já deixou quase um quarto de milhão de mortos, pelo impacto devastador da crise económica e ecológica, pela propagação de ideologias irracionais e apocalípticas. E no entanto estas ideologias, paradoxalmente, refletem uma verdade subjacente: que vivemos nos "últimos dias" de um sistema capitalista que reina em todos os países do mundo.
Mas mesmo nesta fase final do seu declínio histórico, mesmo quando a classe dominante demonstra cada vez mais a sua perda de controle sobre o seu próprio sistema, o capitalismo pode direcionar a sua própria podridão contra o seu verdadeiro inimigo - contra o proletariado e o perigo de se tornar consciente dos seus verdadeiros interesses. A participação recorde nestas eleições e os protestos e celebrações ruidosos de ambos os lados da divisão política representam um poderoso reforço da ilusão democrática - da falsa ideia de que mudar um presidente ou um governo pode frear a derrapagem do capitalismo para o abismo, que o voto permite que "o povo" se encarregue do seu destino.
Esta ideologia hoje é liderada pela crença de que Joe Biden e Kamala Harris salvarão a democracia americana da intimidação autoritária de Trump, que irão curar as feridas da nação, restaurar a racionalidade e a fiabilidade da relação dos EUA com outras potências mundiais. E estas ideias estão fazendo eco numa gigantesca campanha internacional que saúda a renovação da democracia e a retirada do ataque populista aos valores liberais.
Mas nós, os proletários, devemos estar avisados. Se Trump e "America First"[1] defendiam abertamente a intensificação dos conflitos econômicos e mesmo militares com outros Estados capitalistas - a China em particular - Biden e Harris também prosseguirão o impulso americano para a dominação imperialista, talvez com métodos e retórica ligeiramente diferentes. Se Trump defendia cortes fiscais para os ricos e terminava o seu reinado presidindo um vasto aumento do desemprego, uma administração Biden, confrontada com uma crise económica mundial gravemente agravada pela pandemia, não terá outra escolha senão fazer a classe explorada pagar pela crise através de ataques crescentes às suas condições de vida e de trabalho. Se os proletários imigrantes e "ilegais" pensam que estarão mais seguros sob uma administração Biden, que se lembrem que sob o presidente Obama e o vice-presidente Biden 3 milhões de proletários "ilegais" foram deportados dos EUA.
Sem dúvida que muito do atual apoio a Biden vem em reação aos verdadeiros horrores do Trumpismo: as mentiras descaradas, mensagens racistas subliminares, a severa repressão dos protestos, a total irresponsabilidade perante a Covid-19 e as alterações climáticas. Não há dúvida de que Trump é um claro reflexo de um sistema social em putrefação. Mas Trump afirma também falar em nome do povo, para agir como um "forasteiro" que se oporá às "elites" irresponsáveis. E mesmo quando ele mina abertamente as "normas" da democracia capitalista, não devemos de forma alguma nos unir em defesa destas normas. Neste sentido, Biden e Trump são duas faces da mesma fraude democrática.
Isto não significa que as duas faces estarão trabalhando em conjunto de forma pacífica. Mesmo que Trump seja removido como presidente, o Trumpismo não desaparecerá. Trump trivializou as milícias armadas de direita desfilando pelas ruas e fez a presença de seitas conspiratórias marginais como QAnon admitida junto com outras correntes ideológica. Isto, por sua vez, alimentou o crescimento de esquadrões antifascistas e milícias de poder negro prontas para se oporem aos suprematistas brancos num terreno militar. E por detrás de tudo isto, toda a classe burguesa e a sua máquina estatal está dilacerada por interesses econômicos e de política externa conflituosos, que não podem ser ocultados pelos discursos de "cura" de Biden. Há toda a possibilidade de que estes conflitos se tornarem mais intensos e mais violentos no período que se avizinha. E a classe proletária não tem qualquer interesse em ser arrebatada neste tipo de "guerra civil", em dar a sua energia e mesmo o seu sangue à batalha entre as facções populistas e anti-populistas da burguesia.
Estas frações não hesitam em apelar à sua versão da "classe operária". Trump apresenta-se como o campeão dos proletários de colarinho azul cujos empregos foram ameaçados ou destruídos por uma "injusta" concorrência estrangeira. Os Democratas, especialmente figuras de esquerda como Sanders ou Ocasio-Ortez, também afirmam falar em nome dos explorados e dos oprimidos.
Mas a classe proletária tem interesses próprios e estes não coincidem com nenhum dos partidos da burguesia, republicano ou democrata. Também não coincidem com os interesses da "América", da "nação" ou do "povo", aquele lugar lendário onde os explorados e os exploradores vivem em harmonia (embora em impiedosa competição com outras nações). Os proletários não têm nação. Fazem parte de uma classe internacional que em todos os países é explorada pelo capital e oprimida pelos seus governos, incluindo aqueles que se atrevem a intitular-se socialistas, como a China ou Cuba, simplesmente porque nacionalizaram a relação entre o capital e os seus escravos assalariados. Esta forma de capitalismo de estado é a opção preferida da ala esquerda do Partido Democrático, mas não significa, como Engels certa vez apontou, "termine a relação capitalista. Em vez disso, assume a liderança".
O socialismo verdadeiro é uma comunidade humana mundial onde as classes, a escravidão assalariada e o Estado são abolidos. Esta será a primeira sociedade na história onde os seres humanos têm um controle real sobre o produto das suas próprias mãos e mentes. Mas para dar o primeiro passo para uma sociedade deste tipo, é necessário que a classe proletária reconheça a si própria como uma classe oposta ao capital. E essa consciência só pode se desenvolver se os proletários lutarem com unhas e dentes pelas suas próprias necessidades materiais, contra os esforços da classe dominante e do seu estado para baixar os salários, cortar empregos e prolongar a jornada de trabalho. E não pode haver dúvidas de que a depressão global que está tomando forma na sequência da pandemia fará de tais ataques o programa inevitável de todas as partes da classe capitalista. Perante estes ataques, os proletários terão de entrar maciçamente em luta em defesa para seu nível de vida para não deteriore ainda mais. E não pode haver lugar para a ilusão: Biden, como qualquer outro governante capitalista, não hesitará em ordenar a repressão sangrenta dirigida ao proletariado se esta ameaçar a sua ordem.
A luta do proletariado pelas exigências da sua própria classe é uma necessidade, não só para combater os ataques econômicos lançados pela burguesia, mas sobretudo como base para ultrapassar as suas ilusões neste ou naquele partido ou líder burguês, e para desenvolver a sua própria perspectiva, a sua própria alternativa a esta sociedade em decadência.
No decurso das suas lutas, o proletariado será obrigado a desenvolver as suas próprias formas de organização, tais como assembleias gerais e comités de greve eleitos e revogáveis, formas embrionárias dos conselhos operários que, em momentos revolucionários passados, se revelaram como o meio através do qual o proletariado pode tomar o poder nas suas próprias mãos e iniciar a construção de uma nova sociedade. Neste processo, um autêntico partido político proletário teria um papel vital a desempenhar: não pedindo aos proletários que votem para levá-lo ao poder, mas em defender princípios originados das lutas do passado e em apontar o caminho para o futuro revolucionário. Nas palavras da Internacional, "Messias, Deus, chefes supremos, Nada esperamos de nenhum! ". Sem Trump, sem Biden, sem falsos messias – o proletariado só pode emancipar-se pelos seus próprios esforços, e ao fazê-lo, libertar toda a humanidade das cadeias do capital.
Amós
[1] "America First" refere-se a uma política externa nos Estados Unidos que enfatiza acentuação do cada um por se na guerra comercial defendida por Trump, mas já iniciada por seus antecessores.
Um dos flagelos que afetam as organizações revolucionárias da Esquerda comunista é que muitos de seus militantes já passaram por partidos e grupos de esquerda e extrema esquerda do capital (PS, PC, trotskismo, maoísmo, anarquismo oficial, a suposta "nova esquerda" de Syriza ou Podemos). Isto é inevitável porque nenhum militante nasce com clareza sob o braço. No entanto, este passo deixa um lastro que é difícil de superar: é possível romper com as posições políticas destas organizações (sindicalismo, defesa da nação e nacionalismo, participação em eleições, etc.), porém, é muito mais difícil livrar-se das atitudes, do modo de pensar, do modo de debater, dos comportamentos, das concepções, que estas organizações injetam em grau supremo e que constituem seu modo de vida.
Esta herança, o que chamamos de herança oculta da esquerda do capital, contribui para provocar dentro das organizações revolucionárias tensões entre camaradas, desconfiança, rivalidades, comportamentos destrutivos, bloqueios de debate, posições teóricas aberrantes, etc., que combinadas com a pressão da ideologia burguesa e pequeno-burguesa lhes causam muito dano. O objetivo da série que iniciamos é identificar e combater este lastro pesado.
Desde o seu primeiro congresso (1975), a CCI abordou o problema das organizações que afirmam reivindicar o "socialismo" e praticar a política capitalista. A Plataforma que este congresso adotou em seu ponto 13 destaca: "O conjunto de partidos e grupos que defendem, inclusive condicionalmente ou de maneira "crítica", certos Estados ou certas frações da burguesia contra outras, seja em nome do "socialismo", da "democracia", do "antifascismo", da "independência nacional", da "frente única" ou do "mal menor"; que fundam sua política sobre o jogo burguês das eleições, sobre a atividade antioperária dos sindicatos ou sobre as mistificações autogestionárias são órgãos do aparelho político do capital. Destacam-se entre eles os partidos "socialistas" e "comunistas"." (A natureza contrarrevolucionária dos partidos "operários" [2])
Nossa Plataforma também enfoca o problema dos grupos e pequenos grupos que se colocam "à esquerda" desses dois grandes partidos, que muitas vezes fazem "críticas incendiárias" a eles, e adotam posturas mais "radicais": "O conjunto das correntes chamadas "revolucionárias", tais como o maoísmo - que é uma simples variante dos partidos passados à burguesia -, o trotskismo - que após ter se constituído uma reação proletária contra a traição dos PC's, viu-se apanhado em um processo similar de degeneração - ou o anarquismo tradicional - que se situa hoje em uma postura política de defesa de certas posições dos partidos socialistas ou comunistas (como por exemplo, as alianças "antifascistas") pertencem ao mesmo campo que eles, o campo do capital: que tenham menos influência ou o que utilizem uma linguagem mais radical não muda em nada o caráter burguês de seu programa e de sua natureza, o que faz deles úteis aliciadores ou suplentes dos grandes partidos de esquerda".
Para compreender a função da esquerda e da extrema esquerda do capital, devemos lembrar que, com a decadência do capitalismo, o Estado "exerce um controle cada vez mais potente, onipresente e sistemático sobre todos os aspectos da vida social. A uma escala muito superior à decadência romana ou feudal, o Estado da decadência capitalista se converteu em uma máquina monstruosa, fria e impessoal que terminou por devorar a substância da sociedade civil". (O capitalismo de estado [3] Ponto 4 da nossa Plataforma). Esta natureza aplica-se tanto aos regimes de partido único abertamente ditatoriais (estalinistas, nazis, ditaduras militares) como aos regimes democráticos.
Dentro deste quadro, os partidos políticos não são os representantes das diferentes classes e camadas da sociedade, mas os instrumentos totalitários do Estado para submeter aos imperativos do capital nacional toda a população e principalmente a classe operária. Eles também se tornam líderes de redes clientelistas, grupos de pressão e esferas de influência, que misturam ação política e econômica e se tornam o terreno fértil para a corrupção incontrolável.
Nos sistemas democráticos, o aparelho político do Estado capitalista está estruturado em duas alas: a direita, ligada às fracções clássicas da burguesia e encarregada de enquadrar os sectores mais atrasados da população[1], e a esquerda (juntamente com os sindicatos e uma série de organizações de extrema esquerda), dedicada essencialmente ao controlo, divisão e destruição da consciência da classe trabalhadora.
As organizações que o proletariado dá a si próprio não estão isentas da degeneração. A pressão da ideologia burguesa os corrói a partir de dentro e pode levá-los ao oportunismo que, se não for combatido no tempo, leva à traição e à integração no Estado capitalista[2]. O oportunismo dá o passo decisivo diante dos acontecimentos históricos decisivos da vida social capitalista: os dois momentos-chave até agora foram a Guerra Mundial Imperialista e a Revolução Proletária. Na plataforma, tentamos explicar o processo que leva a este passo fatal: "Em um processo de gangrena pelo reformismo e pelo oportunismo, a maioria dos mais importantes entre os partidos socialistas, por ocasião da Primeira Guerra Mundial (que marca a morte da Segunda Internacional), comprometeram-se, sob a direção de sua direita "social-chauvinista" passada definitivamente à burguesia primeiro com a política de defesa nacional, para depois se opor abertamente à onda revolucionária do pós-guerra até o extremo de jogar o papel de verdugos do proletariado como na Alemanha em 1919. A integração final de cada um destes partidos em seus Estados nacionais respectivos teve lugar em diferentes momentos no período que se seguiu ao estouro da Primeira Guerra Mundial, entretanto, este processo se viu definitivamente concluído no começo dos anos 20, quando as últimas correntes proletárias foram eliminadas ou saíram de suas filas para unir-se à Internacional Comunista.
Do mesmo modo, os partidos comunistas passaram por sua vez ao campo do capitalismo depois de um processo semelhante de degeneração oportunista. Este processo, teve início no começo dos anos 20 e continuou depois da morte da Internacional Comunista (marcada em 1928 pela adoção da teoria do "socialismo em um só país") até desembocar em uma completa integração ao Estado capitalista no começo dos anos 30, face à luta encarniçada de suas frações de esquerda, com sua participação nos esforços de armamento de suas burguesias respectivas e sua entrada nas "Frentes Populares". Sua participação ativa na "Resistência" durante a Segunda Guerra Mundial e posteriormente na "reconstrução nacional" após sua finalização, confirmou-os como fiéis servidores do capital nacional e como a mais pura encarnação da contrarrevolução". (A natureza contrarrevolucionária dos partidos "operários" [2])
No período de 25 anos - entre 1914 e 1939 - a classe operária primeiro perdeu os partidos socialistas, depois, na década de 1920, os partidos comunistas e, finalmente, a partir de 1939, os grupos da Oposição de Esquerda de Trotsky que apoiaram a barbárie ainda mais brutal da Segunda Guerra Mundial. "Em 1938, a Oposição de Esquerda tornou-se a Quarta Internacional. É uma aventura oportunista porque não se pode constituir um partido mundial em situação de marcha para a guerra imperialista e, portanto, de profunda derrota do proletariado. Os resultados foram desastrosos: em 1939-40, os grupos da dita 4ª Internacional tomam posição a favor da guerra mundial argumentando os mais variados pretextos: a maioria apoiando à "pátria socialista" russa, mas houve mesmo uma minoria que apoiou a França de Pétain (satélite por sua vez dos nazistas).
Contra esta degeneração das organizações trotskistas reagiram os últimos núcleos internacionalistas remanescentes: especialmente o camarada de Trotsky e o revolucionário de origem espanhola Munis. Desde então, as organizações trotskistas tornaram-se agências "radicais" do Capital que tentam tomar o proletariado com todos os tipos de "causas revolucionárias" que geralmente correspondem a frações "anti-imperialistas" da burguesia (como atualmente o famoso sargento Chavez). Da mesma forma, recuperam os trabalhadores revoltados do jogo eleitoral fazendo-os votar de forma "crítica" para os "socialistas" para, assim, "bloquear o caminho para a direita". Finalmente, eles ainda têm a grande esperança de "recuperar" os sindicatos através de "candidaturas combativas"."[3].
A classe trabalhadora é capaz de gerar frações de esquerda dentro dos partidos proletários quando eles começam a ser afetados pela doença oportunista. Assim, os bolcheviques, a corrente de Rosa Luxemburgo, o tribunismo holandês, os intransigentes italianos, etc. A história do combate que estas fracções travaram é suficientemente conhecida porque os seus textos e contribuições conseguiriam cristalizar-se na formação da 3ª Internacional.
Por seu lado, desde 1919, a reação proletária às dificuldades, erros e posterior degeneração da 3ª Internacional se expressou na esquerda comunista (italiana, holandesa, alemã, russa, etc.) que levou (com muitas dificuldades e infelizmente muito dispersa) um combate heroico e consequente. A Oposição Esquerda de Trotsky nasceu mais tarde e muito mais incoerentemente. Nos anos 1930, o fosso entre a esquerda comunista principalmente o seu grupo mais consistente, Bilan, expoente da esquerda comunista italiana e a oposição de Trotsky tornou-se mais evidente. Enquanto Bilan sabia como ver as guerras imperialistas localizadas como expressões de um curso em direção à guerra mundial imperialista, a oposição se enredou em divagações sobre a libertação nacional e o caráter progressista do antifascismo. Enquanto Bilan soube ver o alistamento ideológico para a guerra imperialista e o interesse do Capital depois da mobilização dos trabalhadores espanhóis para a guerra entre Franco e a República, Trostky viu nas greves de julho de 1936 na França e na luta antifascista na Espanha o início da revolução ... No entanto, a pior coisa foi que, embora Bilan ainda não estivesse claro sobre a natureza exata da URSS, ele estava claro que ela não poderia ser apoiada de forma alguma e que a URSS era um agente ativo na guerra que estava sendo preparada. Por outro lado, Trotsky com suas especulações sobre a URSS como um "Estado operário degenerado" abriu a porta para apoiar a URSS como forma de apoiar a segunda carnificina mundial de 1939-45.
Desde 1968, a luta proletária renasceu em todo o mundo. O Maio francês, o "Outono quente" italiano, o "Cordobazo" argentino, o Outubro polaco, etc. são expressões desse combate vigoroso. Esta luta dá origem a uma nova geração revolucionária. Muitas minorias de trabalhadores estão a surgir em todo o lado e tudo isto constitui uma força fundamental para o proletariado.
No entanto, é importante salientar o papel de destruição destas minorias desempenhado pelos grupos de extrema-esquerda do capital. O trotskismo de que já falamos, o anarquismo oficial[4] e, finalmente, o maoísmo. Em relação a este último, é de notar que nunca foi uma corrente proletária. Os grupos maoístas nascem das disputas e das guerras de influência imperialistas entre Pequim e Moscou que levaram à ruptura entre os dois Estados e ao alinhamento de Pequim com o imperialismo norte-americano em 1972.
Calcula-se que em 1970 havia mais de cem mil militantes no mundo que, embora com enorme confusão, se pronunciaram a favor da revolução, contra os partidos de esquerda tradicionais (PS, PC), contra a guerra imperialista e procuraram promover a luta proletária em curso. Uma imensa maioria deste importante contingente foi recuperada por esta constelação de grupos de extrema-esquerda. A Série que estamos escrevendo demonstrará meticulosamente todos os mecanismos através dos quais eles exercitaram essa recuperação. Falaremos não só do programa capitalista envolto em bandeiras radicais e "operárias", mas dos métodos organizacionais, de debate, de funcionamento, de moralidade, que empregaram.
O certo é que sua ação foi muito importante para destruir o potencial da classe operária de construir uma ampla vanguarda para seu combate. Os potenciais militantes foram desviados para o ativismo e o imediatismo, canalizados para o combate estéril dentro dos sindicatos, municipalidades, campanhas eleitorais, etc.
Os resultados foram conclusivos:
Os militantes comunistas são um bem vital para o proletariado e a tarefa central dos atuais grupos de esquerda comunista que hoje herdaram a trajetória de Bilan, Internationalisme etc., é tirar todas as lições do que permitiu aquele enorme sangramento de forças militantes que o proletariado sofreu em seu despertar histórico de 1968. Uma falsa visão da classe trabalhadora
Para realizar seu trabalho sujo de enquadramento, divisão e confusão, os partidos de esquerda e extrema esquerda propagam uma falsa visão da classe operária. Ela permeia os militantes comunistas, deformando o seu pensamento, o seu comportamento e as suas abordagens. É, pois, vital identificá-la e combatê-la.
Uma soma de cidadãos individuais
Para a esquerda e a extrema-esquerda, os trabalhadores não formam uma classe social antagônica ao capitalismo, mas uma soma de indivíduos. São a parte "inferior" da "cidadania". Como tal, os proletários individuais teriam de aspirar a uma "situação estável", um "preço justo" pelo seu trabalho, um "respeito pelos seus direitos", etc.
Isso permite que a esquerda esconda algo essencial: a classe operária é uma classe indispensável para a sociedade capitalista porque sem o seu trabalho associado ela não poderia funcionar, mas, ao mesmo tempo, é uma classe excluída da sociedade, estranha a todas as suas regras e normas vitais, e, portanto, é uma classe que só pode ser realizada como tal pela abolição da sociedade capitalista de cima para baixo. Em vez desta realidade aparece a ideia de uma classe "integrada", que através de reformas e participação nas instituições poderia satisfazer os seus interesses.
Em seguida, esta visão dissolve a classe operária na massa amorfa e interclassista da "cidadania". Em tal magma o trabalhador aparece igual ao pequeno burguês que o engana, o policial que o reprime, o juiz que o condena ao despejo, o político que o engana e até a "burguesia progressista". As noções de classe social e antagonismo de classe desaparecem para dar lugar à noção de cidadãos da nação, a falsa "comunidade nacional".
Apagada das mentes da classe trabalhadora, a noção de classe também desaparece da noção fundamental de classe histórica. O proletariado é uma classe histórica que, além da situação de suas diferentes gerações ou setores geográficos, tem em suas mãos um futuro revolucionário, o estabelecimento de uma nova sociedade que supera e resolve as contradições que levam o capitalismo à destruição da humanidade.
Ao varrer as noções vitais e científicas de classe, antagonismo de classes e classe histórica, a esquerda e a extrema esquerda do capital reduzem a revolução ao nível de uma esperança piedosa que deve ser deixada nas mãos "especializadas" de políticos e partidos. Eles introduzem a noção de delegação de poder, um conceito que é perfeitamente válido para a burguesia, mas absolutamente destrutivo para o proletariado. Na verdade, a burguesia, a classe exploradora que detém o poder econômico, pode confiar a gestão de seus negócios a uma equipe política especializada que forma uma camada burocrática com seus próprios interesses dentro do quadro do capital nacional.
Não é o mesmo para o proletariado, que é ao mesmo tempo uma classe explorada e revolucionária, que não possui nenhum poder econômico, mas sua única força é sua consciência, sua unidade e sua solidariedade, sua autoconfiança, ou seja, fatores que são radicalmente destruídos se contar com uma camada especializada de intelectuais e políticos.
Armados por essa delegação, os partidos de esquerda e extrema esquerda defendem a participação nas eleições como forma de "barrar o caminho para a direita". Ou seja, eles destroem nas fileiras dos trabalhadores a ação autônoma como uma classe para se transformarem em uma massa de cidadãos votantes. Uma massa individualizada, cada um fechado nos seus "próprios interesses". A unidade e a auto-organização do proletariado são assim esmagadas.
Finalmente, os partidos de esquerda e extrema-esquerda pedem ao proletariado que se coloque nas mãos do Estado para "conseguir uma nova sociedade". Fazem a prestidigitação de transformar o carrasco capitalista que é o Estado em "amigo dos trabalhadores" ou seu aliado.
Uma massa de perdedores imersos em materialismo vulgar
A esquerda e os sindicalistas propagam uma visão materialista vulgar dos proletários. Segundo eles, os proletários são indivíduos que só pensam em sua família, em seu conforto, em ter o melhor carro, na casa mais luxuosa, afogados por esse consumismo, não têm "ideal" de luta, preferem ficar em casa para ver futebol ou ir ao bar com seus amigos. Para completar o ciclo, eles afirmam que os trabalhadores estão endividados até aos fios do cabelo para pagar por seus caprichos consumistas e, portanto, são incapazes de qualquer luta[6].
Com estas lições de moralidade hipócrita, transformam a luta operária, que é uma necessidade material, num ideal voluntarista, enquanto o comunismo, objetivo último da classe trabalhadora, é uma necessidade material em resposta às contradições insolúveis do capitalismo[7]. [4] Separam e opõem a luta reivindicativa à luta revolucionária, quando há uma unidade entre os dois porque a luta do proletariado é, como dizia Engels, econômica, política e uma batalha de ideias.
Privar nossa classe dessa unidade leva à visão idealista de uma luta "suja", "egoísta" e "materialista" pelas necessidades econômicas e uma luta "gloriosa" e "moral" pela "revolução". Isto desmoraliza profundamente os proletários que se envergonham e se sentem culpados por se preocuparem com as necessidades de suas vidas, de seus filhos e vizinhos, de serem indivíduos rastejantes que só pensam no dinheiro. Com estas falsas abordagens que seguem a linha cínica e hipócrita da Igreja Católica, a esquerda e a extrema esquerda minam a partir de dentro a autoconfiança dos trabalhadores como classe e tentam apresentá-los como a parte "mais baixa" da sociedade.
Com isso convergem com a ideologia dominante que apresenta o proletariado como a classe dos perdedores. O famoso "senso comum" diz que um proletário é um indivíduo que se ele permaneceu um proletário é porque ele não é bom para outra coisa ou não lutou o suficiente para subir na escala social. Os proletários seriam os preguiçosos, os sem aspirações, os que não "conseguiram" ...
É realmente o mundo de cabeça para baixo! A classe social que produz através de seu trabalho associado as principais riquezas da sociedade seria composta dos piores elementos desta. Uma vez que o proletariado agrupa a maioria da sociedade, verificar-se-ia que a sociedade é fundamentalmente constituída por indivíduos preguiçosos, fracassados, sem instrução e desmotivados. Além de explorar o proletariado, a burguesia goza com ele. Ela, que é uma minoria que vive dos esforços de milhões de seres humanos, tem a audácia de considerar os proletários indolentes, fracassadas, inúteis e sem aspirações.
A realidade social é radicalmente diferente: no trabalho mundialmente associado do proletariado desenvolvem-se laços culturais, científicos e, simultaneamente, laços humanos profundos, a solidariedade, a confiança, um espírito crítico. São a força que silenciosamente, move a sociedade, fonte do desenvolvimento das forças produtivas.
A aparência do proletariado é a de uma massa anônima, anódina e silenciosa. Esta aparência é o resultado de uma contradição sofrida pelo proletariado enquanto classe explorada e revolucionária. Por um lado, é a classe de trabalho associado e, como tal, move as rodas da produção capitalista e tem em suas mãos as forças e capacidades para mudar radicalmente a sociedade. Mas, por outro lado, a concorrência, a mercadoria, a vida normal de uma sociedade onde reina a divisão e todos estão contra todos, esmagá-lo como uma soma de indivíduos, cada um desamparado, com o sentimento de fracasso e culpa, separado dos outros, atomizado, forçado a lutar apenas por si mesmo.
A esquerda e a extrema esquerda do capital, em linha com a ideologia burguesa, querem que vejamos apenas essa massa amorfa de indivíduos atomizados. Com isso, servem ao Capital e ao Estado em sua tarefa de desmoralizar e excluir a classe trabalhadora de qualquer perspectiva social.
Aqui vemos o que dissemos no início: a concepção do proletariado como a soma dos indivíduos. No entanto, o proletariado é uma classe e age como tal toda vez que, com uma luta consistente e autônoma, consegue se libertar das correntes que o oprimem e atomizam. Então, não só vemos uma classe em ação, mas também vemos cada um de seus componentes transformados em seres que agem, lutam, pensam, tomam iniciativas, desenvolvem a criatividade. Isso foi visto nos grandes momentos de luta de classes, como, por exemplo, nas revoluções russas de 1905 e 1917. Como Rosa Luxemburgo justamente apontou na Greve de massa, partido e sindicatos, "na tempestade do período revolucionário até o proletário, um pai de família prudente transforma-se num "revolucionário romântico", para quem o próprio bem supremo, vida, e, mais ainda, o bem-estar material tem pouco valor em relação ao ideal da luta".
Como classe, a força individual de cada proletário liberta-se, livra-se dos seus obstáculos, desenvolve o seu potencial humano. Como a soma dos indivíduos, as capacidades de cada um são aniquiladas, diluídas, desperdiçadas para a humanidade. A tarefa da esquerda e da extrema esquerda do capital é manter os trabalhadores dentro das cadeias de cidadania, ou seja, da soma dos indivíduos.
Uma classe com o relógio parado nas tácticas do século XIX
Em geral, na ascendência do capitalismo e mais especificamente no seu apogeu (1870-1914), a classe operária podia lutar por melhorias e reformas no âmbito do capitalismo, sem considerar imediatamente a sua destruição revolucionária. A isto correspondia, por um lado, a constituição de grandes organizações de massas (partidos socialistas, sindicatos, cooperativas, universidades de trabalhadores, associações de mulheres e jovens, etc.) e, por outro lado, táticas de luta que incluíam participação em eleições, ações de pressão, greves planejadas pelos sindicatos, etc.
Estes métodos tornaram-se cada vez mais inadequados desde o início do século XX. Nas fileiras revolucionárias houve um amplo debate que se opôs, por um lado, o Kautsky, apoiador deles, e, por outro, a Rosa Luxemburg[8] que, tirando lições da revolução russa de 1905[9], [5] mostrou claramente que a classe operária estava orientada para novos métodos de luta correspondentes à nova situação que se aproximava, com guerras generalizadas, a crise capitalista, etc., isto é, a queda do capitalismo em sua época de decadência. Os novos métodos de luta foram baseados na ação direta das massas, na auto-organização do proletariado nas Assembleias e Conselhos de Trabalhadores, na abolição da velha divisão entre o programa mínimo e o programa máximo. Estes métodos colidiram frontalmente com o sindicalismo, as reformas, a participação eleitoral e a via parlamentar.
A esquerda e a extrema-esquerda do capital focalizam sua política em encerrar a classe trabalhadora naqueles velhos métodos que hoje são radicalmente incompatíveis com a defesa de seus interesses imediatos e históricos. Pararam o relógio da história de forma interessada nos anos "dourados" de 1890 a 1910 com toda sua rotina cada vez mais desmobilizadora de participação eleitoral, ações sindicais, participação passiva em eventos "partidários", manifestações pré-agendadas, etc.., uma rotina que transforma os proletários em "bons cidadãos trabalhadores", ou seja, em seres passivos, atomizados, que se submetem disciplinadamente a tudo o que o capital precisa: trabalhar duro, votar a cada quatro anos, gastar a sola dos sapatos em marchas sindicais, continuar sem reclamar aos autoproclamados líderes.
Esta política é vergonhosamente defendida pelos partidos socialista e comunista, enquanto os seus apêndices "mais à esquerda" a reproduzem com toques "críticos" e tons "radicais". Ambos defendem uma visão da classe operária como classe do capital, que deve submeter-se a todos os seus imperativos e contentar-se com algumas supostas migalhas que, de vez em quando, caem da sua mesa dourada.
C.Mir 18-12-17
[1] Os clássicos partidos de direita (conservadores, liberais, centrais, progressistas, democratas, radicais) complementam o seu controle da sociedade com partidos de extrema direita (fascistas, neonazistas, populistas de direita, etc.). A natureza desta última é mais complexa, ler em espanhol Contribución sobre el problema del populismo, junio de 2016 [6],
[2] Para um estudo sobre como o oportunismo penetra e destrói a vida proletária da organização, com todas as suas consequências desastrosas, ler em espanhol 1914 – El camino hacia la traición de la socialdemocracia alemana [7]. Revista internacional n° 153.
[3] Ler em espanhol ¿Cuales son las diferencias entre la Izquierda Comunista y la IVª Internacional? [8]
[4] Não estamos falando aqui dos grupos mais minoritários do anarquismo internacionalista, que, apesar de suas confusões, reivindicam muitas posições da classe operária e tem se manifestado claramente contra a guerra imperialista e pela revolução proletária.
[5] Os exemplos são abundantes. Durão Barroso, Presidente da União Europeia, era maoísta na sua juventude. Cohn Bendit é membro do Parlamento Europeu; Lionel Jospin, antigo primeiro-ministro francês, foi trotskista na sua juventude...
[6] É preciso reconhecer que o consumismo - promovido desde a década de 1920 nos Estados Unidos e depois da Segunda Guerra Mundial estendido a outros países industrializados - tem contribuído para minar a visão vindicativa nas fileiras da classe trabalhadora, pois as necessidades que todo trabalhador tem de viver são deformadas pelo viés consumista, transformando-as em um assunto individual que "tudo pode ser obtido através do crédito".
[7] Ler em espanhol nossa série El comunismo no es un bello ideal, sino una necesidad material [9]
[8] Ler em espanhol o livro "Debate sobre la huelga de masas” (textos de Parvus, Mehring/ Luxemburg/ Kautsky/ Vandervelde/Anton Pannekoek)
[9] Veja o livro clássico de Rosa Luxemburg "Greve de massas, partido y sindicatos [10]"
O assassinato a sangue frio de George Floyd pela polícia provocou indignação nos Estados Unidos e em todo o mundo. Todos sabem que é a última de uma longa linha de assassinatos policiais em que os negros e os imigrantes são as principais vítimas. E não só nos EUA, mas também no Reino Unido, na França e em outros Estados "democráticos". Nos Estados Unidos, em março, a polícia disparou contra Breonna Taylor na sua própria casa. Na França, Adama Traoré foi asfixiado enquanto estava nas mãos da polícia em 2016. Na Grã-Bretanha, em 2017, Darren Cumberbatch foi também espancado até a morte pela polícia. Isso é apenas a ponta do iceberg.
Na sua resposta aos protestos que irromperam imediatamente nos EUA, a polícia demonstrou que é uma força de terror militarizada, com ou sem a ajuda do exército. A repressão brutal destas manifestações - 10 mil detenções nos EUA - mostra que a polícia, nos EUA como em outros países "democráticos", atua da mesma forma que a polícia de regimes abertamente ditatoriais como a Rússia ou a China.
A ira contra esta brutalidade policial é certamente sincera e partilhada por brancos e negros, latinos, asiáticos e, sobretudo, pelos jovens. Mas vivemos numa sociedade que é dominada material e ideologicamente por uma classe dominante, a burguesia ou classe capitalista. E as explosões de raiva, por mais justificadas que sejam, não são suficientes para desafiar o sistema que se esconde por trás da violência policial ou para evitar as muitas armadilhas criadas pela burguesia. Os protestos não foram iniciados pela classe dirigente, mas esta já conseguiu levá-los ao seu próprio terreno político burguês.
Nas primeiras explosões de revolta nos EUA, os protestos tenderam a assumir a forma de motins: pilhagem de lojas, queima de edifícios simbólicos, etc. As ações de provocação da polícia certamente alimentaram esta violência nos primeiros dias dos protestos. Alguns dos manifestantes justificaram os tumultos referindo-se a Martin Luther King que disse que "o motim é a voz daqueles que não são ouvidos". E é verdade: o motim é uma expressão de impotência e desespero. Não conduzem a absolutamente nada, exceto a uma maior repressão por parte de um Estado capitalista que sempre ganhará com ações desorganizadas e dispersas nas ruas.
Mas a alternativa proposta por organizações ativistas oficiais como a Black Lives Matter ("vidas negras importam") marchas pacíficas exigindo justiça e igualdade) representa também um beco sem saída e ainda mais insidioso, uma vez que fazem o jogo das forças políticas do capital. Considerem, por exemplo, a proposta de privar a polícia de fundos ("defund the police") ou mesmo de aboli-la por completo. Por um lado, isto é completamente ilusório nesta sociedade; é como aspirar à dissolução voluntária do Estado capitalista. E, ao mesmo tempo, espalha a ilusão de que é possível reformar esse Estado no interesse dos explorados e oprimidos, quando a sua própria função é mantê-los sob controle, no interesse da classe dominante.
A prova de que a classe dominante não está de forma alguma incomodada com estas exigências aparentemente tão radicais é que, poucos dias após os primeiros protestos, os meios de comunicação e os políticos capitalistas (principalmente, mas não só, os da esquerda) "ajoelharam-se", literal ou figurativamente, em fervorosa condenação do assassinato de George Floyd e em apoio entusiástico aos protestos. O exemplo dos principais políticos do aparelho do Partido Democrata nos EUA é o mais óbvio. Mas logo se juntaram a eles os seus equivalentes de todo o mundo, incluindo os mais importantes representantes da polícia. É assim que ocorre a recuperação burguesa da ira legítima.
Não podemos ter ilusões: a dinâmica deste movimento não pode levá-lo a tornar-se um instrumento dos explorados ou a tornar-se uma arma dos explorados e oprimidos, uma vez que é um instrumento nas mãos da classe dominante. As mobilizações atuais não são um "primeiro passo" para uma verdadeira luta de classes, mas são utilizadas para bloquear o seu desenvolvimento e amadurecimento.
O capitalismo não poderia ter se tornado o sistema mundial que é hoje sem o comércio de escravos e a subjugação colonial dos povos indígenas da Ásia, da África e das Américas. O racismo permeia, portanto, os seus genes. Desde o seu início, utilizou as diferenças raciais - e as de todos os tipos - para pôr as pessoas exploradas umas contra as outras, para impedir uma luta unida contra o seu verdadeiro inimigo: a minoria que as explora. Mas também recorreu amplamente à ideologia do " antirracismo", ou seja, à ideia de que o racismo pode ser combatido não se unindo como uma classe, mas sim unindo-se em torno desta ou daquela comunidade oprimida. Mas organizar com base na sua "comunidade" racial ou nacional torna-se mais um meio de ocultar a verdadeira divisão de classes que está subjacente a este sistema. Portanto, não existe uma "comunidade negra" porque existem capitalistas negros e trabalhadores negros, e eles não têm interesses comuns. Lembremo-nos sem ir muito longe, do massacre de mineiros negros na greve de Marikana, em 2012, perpetrado pelo Estado sul-africano "pós-apartheid".
O assassinato de George Floyd não foi o resultado de um plano deliberado da burguesia. Mas tornou possível que a classe dominante focasse toda a atenção na questão da raça quando, na realidade, é todo o sistema capitalista que constitui a prova da sua falência.
A sociedade capitalista está num profundo estado de decadência. Os massacres bárbaros que continuam a espalhar-se pela África e pelo Oriente Médio ou as incessantes guerras de gangues na América Latina, que forçam milhões de pessoas a tornarem-se refugiados, são sintomas claros disso. Tal como a atual pandemia de Covid-19, um subproduto da devastação da ecologia do planeta pelo capitalismo. Ao mesmo tempo, o sistema está no auge de uma crise econômica insolúvel. Após o "crash" de 2008, os Estados capitalistas lançaram uma brutal estratégia de austeridade com o objetivo de fazer com que os explorados paguem pela crise. A consequente deterioração dos serviços de saúde é uma das principais razões pelas quais a pandemia teve um impacto tão catastrófico. Por sua vez, o fechamento mundial mergulhou o sistema em uma crise econômica ainda mais profunda, certamente comparável à depressão da década de 1930.
Este novo aprofundamento da crise econômica já está provocando um empobrecimento generalizado, o agravamento do problema da habitação e até mesmo fome nos Estados Unidos, que oferece aos seus trabalhadores uma cobertura social mínima em caso de desemprego ou doença. É inegável que a miséria material alimentou a ira dos protestos. Mas diante da obsolescência histórica de todo um modo de produção só há uma força que se pode unir contra ele e oferecer a perspectiva de uma sociedade diferente: a classe operária internacional.
A classe operária não está imune à podridão da sociedade capitalista: também sofre com o peso de todas as divisões nacionais, raciais e religiosas que são exacerbadas pelo sinistro avanço da decomposição social cuja expressão mais evidente é a expansão das ideologias populistas. Mas isto não altera a realidade fundamental: os explorados em todos os países, independentemente da cor da sua pele, têm o mesmo interesse em se defenderem dos ataques cada vez mais duros às suas condições de vida, sejam eles cortes sociais, desemprego, despejos, o corte das pensões ou outros benefícios sociais, e contra a violência do Estado capitalista. Só esta luta é a base para superar todas as divisões que beneficiam os nossos exploradores e para resistir a ataques racistas e pogroms sob todas as suas formas. E quando a classe operária se organiza para unir forças também demonstra a sua capacidade de organizar a sociedade numa nova base. Os conselhos operários que surgiram em todo o mundo após a revolução na Rússia em 1917, os comitês de greve "interfábricas" que surgiram na greve de massas polaca de 1980 são a prova de que a luta da classe trabalhadora, no seu próprio terreno, levanta a perspectiva de criar um novo poder proletário sobre as ruínas do Estado capitalista, e de reorganizar a produção para satisfazer as necessidades da humanidade.
É verdade que há algumas décadas a classe operária vem perdendo consciência de si própria como uma classe oposta ao capital, como resultado tanto de vastas campanhas ideológicas (a incessante gritaria sobre a "morte do comunismo" que se seguiu ao colapso da forma estalinista de capitalismo), como de mudanças radicais (como o desmantelamento dos centros tradicionais de luta de classes trabalhadoras nos países mais industrializados). Mas mesmo antes que a pandemia de Covid-19 se espalhasse pelo mundo, vimos lutas na França que mostravam que a classe operária estava longe de estar morta e enterrada. É evidente que a chegada da pandemia e o bloqueio social representado pelos confinamentos atrasaram o potencial imediato de extensão deste movimento. Mesmo nessa fase inicial das quarentenas, houve reações muito combativas da classe operária em muitos países que resistiram em ser tratados como "cordeiros para o abate", contra a obrigação de trabalhar sem equipamento de segurança adequado, simplesmente para não perturbar os lucros da burguesia. Estas lutas, que também ocorreram nos Estados Unidos, já contrastam fortemente com as divisões raciais e nacionais. Ao mesmo tempo, a situação de confinamento tornou claro que o funcionamento deste sistema depende inteiramente do trabalho "essencial" da classe que é tão impiedosamente explorada.
A questão central para o futuro da humanidade é esta: A minoria capitalista irá continuar a dividir a maioria explorada por raça, religião ou nação, arrastando-a assim para o abismo? Ou a classe operária irá, em todos os países do mundo, reconhecer-se pelo que é, a classe que, nas palavras de Marx, "é revolucionária ou não é nada"?
Amos, Junho de 2020
A CCI sustenta que a onda de greves no Reino Unido em 2022 marcou o início de uma “ruptura” ou rompimento com várias décadas de resignação e apatia e uma crescente perda de identidade de classe. Foi o primeiro de uma série de movimentos da classe trabalhadora em todo o mundo, principalmente em resposta à piora dos padrões de vida e das condições de trabalho[1] [11]. Duas observações fundamentais são cruciais para nossa análise de uma nova fase na luta de classes internacional:
- Essa nova fase não foi apenas uma reação a ataques imediatos às condições dos trabalhadores, que poderia ser medida em termos do número de greves e lutas em um determinado momento, mas tem uma dimensão histórica mais profunda. É o fruto de um longo processo de “amadurecimento subterrâneo” da consciência de classe que vem avançando apesar das enormes pressões exercidas pela decomposição acelerada da sociedade capitalista.
- Essa ruptura, que se irradia para fora dos centros mais antigos do capitalismo mundial, é uma confirmação de que os principais bastiões do proletariado permanecem historicamente invictos desde o renascimento inicial da luta de classes em 1968 e mantêm o potencial de avançar das lutas defensivas econômicas para uma crítica política e prática de toda a ordem capitalista.
Esses argumentos enfrentaram um ceticismo bastante generalizado no campo político do proletariado. Se tomarmos o exemplo da Tendência Comunista Internacionalista (TCI), embora eles inicialmente tenham reconhecido e acolhido algumas das lutas que vieram à tona após 2022, criticamos o fato de que eles não conseguiram enxergar a importância internacional e histórica desse movimento[2] [12] e, mais recentemente, parecem ter se esquecido dele (como evidenciado pela falta de qualquer balanço publicado do movimento) ou o descartaram como apenas mais um lampejo - como observamos em algumas de suas recentes reuniões públicas. Enquanto isso, um site parasitário dedicado à “pesquisa”, Controverses, dedicou um artigo completo[3] [13] para refutar nossa noção de ruptura, fornecendo assim uma justificativa “teórica” para o ceticismo de outros.
É digno de nota o fato de o autor desse artigo ter se alinhado com a maioria daqueles que fazem (ou simplesmente afirmam fazer) parte da tradição comunista de esquerda e agora rejeita o próprio conceito de maturação subterrânea. Não só isso: em um artigo sobre os principais desenvolvimentos na luta de classes nos últimos 200 anos[4] [14], ele abraça a ideia de que ainda estamos vivendo a contrarrevolução que se abateu sobre a classe trabalhadora com a derrota da onda revolucionária de 1917-23. Nessa visão, o que a CCI insiste que foi o despertar histórico do proletariado mundial após 1968 e o fim da contrarrevolução foi, na melhor das hipóteses, um mero “parêntese” em uma crônica global de derrota.
Essa visão é amplamente compartilhada pelos vários grupos bordiguistas e pelo TCI, cujos precursores viram nos eventos de maio-junho de 68 na França ou no “outono quente” na Itália no ano seguinte pouco mais do que uma onda de agitação estudantil.
Nos próximos dois artigos, em vez de entrar em detalhes sobre as lutas dos últimos dois anos, queremos nos concentrar em dois pilares teóricos fundamentais para entender nossa noção de ruptura: primeiro, a realidade do amadurecimento subterrâneo da consciência e, segundo, a natureza invicta do proletariado mundial.
Vamos relembrar brevemente as circunstâncias em que a CCI abordou pela primeira vez a questão da maturação subterrânea em suas próprias fileiras. Em 1984, em resposta a uma análise da luta de classes que revelava uma séria concessão à ideia de que a consciência de classe só pode se desenvolver por meio da luta aberta e maciça dos trabalhadores e, em particular, a um texto que rejeitava explicitamente a noção de maturação subterrânea, nosso camarada Marc Chirik escreveu um texto cujos argumentos foram afirmados pela maioria da organização, com exceção do grupo que acabou abandonando a CCI em seu 6º Congresso e formando a “Fração Externa do CCI” (seus descendentes agora fazem parte da Perspectiva Internacionalista)[5] [15]. Marc apontou que essa visão tende para o conselhismo porque vê a consciência não como um fator ativo na luta, mas puramente como algo determinado por circunstâncias objetivas - uma forma de materialismo vulgar; e, portanto, subestima gravemente o papel das minorias que são capazes de aprofundar a consciência de classe mesmo durante as fases em que a extensão da consciência de classe em todo o proletariado pode ter diminuído. Essa abordagem conselhista evidentemente tem pouca utilidade para uma organização de revolucionários que é capaz, porque se baseia nas aquisições históricas da luta de classes, de orientar seu curso durante as fases de recuo ou derrota no movimento de classe mais amplo; mas também descarta a tendência mais geral dentro da classe de refletir sobre sua experiência, discutir, fazer perguntas sobre os principais temas da ideologia dominante e assim por diante. Esse processo pode, de fato, ser chamado de “subterrâneo” porque ocorre em círculos restritos da classe ou mesmo dentro das mentes de trabalhadores individuais que podem dar voz a todos os tipos de ideias contraditórias, mas nem por isso é menos uma realidade. Como Marx escreveu em O Capital[6] [16], “ Toda ciência seria supérflua se a aparência externa e a essência das coisas coincidissem diretamente”: é de fato uma tarefa específica da minoria marxista ver além das aparências e tentar discernir os desenvolvimentos mais profundos que estão ocorrendo em sua classe.
Quando a CCI publicou documentos relacionados a esse debate interno, a Organização Comunista dos Trabalhadores saudou o que percebeu como uma tentativa do CCI de acertar as contas com as correntes conselhistas que ainda tinham peso dentro da organização[7] [17]. Mas nas questões substantivas levantadas pelo debate, ela de fato ficou do lado, de forma um tanto irônica, da visão conselhista, já que eles também rejeitaram a noção de maturação subterrânea como não marxista, como uma forma de “junguianismo político”[8] [18]. Dizemos ironicamente porque, naquele estágio, a CWO havia adotado uma versão de que a consciência de classe era trazida para a classe de “fora” pelo “partido”, constituído por elementos da intelligentsia burguesa - a tese idealista de Kautsky que Lenin adotou em What is to be Done (O que fazer?), mas que mais tarde admitiu que “forçou demais a barra” em uma polêmica com os protoconselhistas de sua época, a tendência Economista na Rússia. Mas a ironia se dissipa quando consideramos que o materialismo vulgar e o idealismo podem, muitas vezes, existir lado a lado[9] [19]. Tanto para os conselhistas quanto para a CWO em seu artigo, uma vez que as lutas abertas desaparecem, a classe não passa de uma massa de indivíduos atomizados. A única diferença é que, para a CWO, esse ciclo estéril só poderia ser quebrado por meio da intervenção do partido.
Em nossa resposta[10] [20], insistimos que a noção de amadurecimento subterrâneo da consciência não foi uma inovação da CCI, mas é um descendente direto da noção de Marx da revolução como a Velha Toupeira que se esconde sob a superfície por longos períodos, apenas para vir à tona em determinadas condições. E, em particular, citamos uma passagem muito lúcida sobre esse processo de Trotsky em seu estudo magistral exatamente sobre esse processo - A História da Revolução Russa, em que ele escreveu: “Em uma revolução, observamos antes de tudo a interferência direta das massas nos destinos da sociedade. Procuramos descobrir por trás dos eventos as mudanças na consciência coletiva... Isso pode parecer intrigante apenas para quem considera a insurreição das massas como “espontânea”, ou seja, como um motim de rebanho artificialmente aproveitado pelos líderes. Na realidade, a mera existência de privações não é suficiente para causar uma insurreição; se fosse, as massas estariam sempre em revolta... As causas imediatas dos eventos de uma revolução são as mudanças no estado de espírito das classes em conflito... As mudanças na consciência coletiva têm naturalmente um caráter semioculto. Somente quando atingem um certo grau de intensidade é que os novos humores e ideias vêm à tona na forma de atividades de massa.”
Da mesma forma, a onda internacional de lutas que começou em maio de 1968 na França não veio do nada (mesmo que inicialmente tenha surpreendido a burguesia, que começou a pensar que a classe trabalhadora havia se “emburguesado” com a “sociedade de consumo”). Foi o fruto de um longo processo de desvinculação das instituições e temas ideológicos burgueses (como sindicatos e os chamados partidos dos trabalhadores, os mitos da democracia e do “socialismo real” no leste, etc.), acompanhado pela piora das condições materiais (os primeiros sinais de uma nova crise econômica aberta). Esse processo também se expressou aqui e ali em movimentos grevistas como os “wildcats” nos EUA e na Europa Ocidental em meados dos anos 60.
O mesmo vale para a ruptura de 2022, que também veio na esteira de várias greves nos EUA, na França, etc., muitas das quais haviam sido interrompidas pelo lockdown da Covid. Mas o que aconteceu depois de 2022 revelou mais claramente o que estava sendo gestado na classe trabalhadora há alguns anos:
- O slogan generalizado “basta” expressava um sentimento há muito nutrido de que todas as promessas feitas no período que se seguiu à “crise financeira” de 2008 - promessas de que era necessário um período de “austeridade” antes que a prosperidade pudesse ser retomada - haviam se revelado mentiras, e que já era hora de os trabalhadores começarem a levantar suas próprias demandas. Isso foi ainda mais significativo pelo fato de o movimento na Grã-Bretanha ter surgido após décadas de estagnação e resignação que se seguiram às derrotas da década de 1980, em especial a derrota dos mineiros em 1985.
- Os slogans “estamos todos no mesmo barco” e “a classe trabalhadora está de volta” expressavam a tendência de a classe trabalhadora recuperar o senso de si mesma como uma classe com sua própria existência coletiva e interesses distintos, apesar de décadas de atomização imposta pela decomposição geral da sociedade capitalista, auxiliada pelo desmantelamento deliberado de muitos centros tradicionais de militância da classe trabalhadora (minas, aço etc.). Nas lutas na França contra as “reformas previdenciárias” e em outros lugares, as referências frequentes ao movimento na Grã-Bretanha, que “deu o pontapé inicial” no renascimento da classe, testemunharam o surgimento de uma consciência de que essa identidade de classe não se limita às fronteiras nacionais, apesar do enorme peso do nacionalismo e do populismo.
- Novamente no movimento da França, o slogan “Vocês nos dão 64[11] [21], nós lhes daremos 68” expressou uma lembrança definitiva do significado das greves em massa de 68 (um fenômeno que já havíamos observado nas assembleias estudantis do movimento anti-CPE de 2006, onde havia um forte desejo de aprender com o que aconteceu em 68).
- Assim como o processo de amadurecimento subterrâneo anterior a 1968 deu origem a uma nova geração de elementos politizados que tentavam redescobrir a história real do movimento revolucionário (e, portanto, a recuperação da tradição da esquerda comunista), no período atual estamos vendo o desenvolvimento internacional de minorias que tendem a posições internacionalistas e comunistas. O fato de a maioria desses elementos e seus esforços para se unirem terem sido gerados menos pela luta de classes imediata do que pela questão da guerra é uma evidência de que os movimentos de classe atuais expressam algo mais do que preocupações com a deterioração dos padrões de vida. Observamos a importância do fato de que as lutas da ruptura eclodiram precisamente em um momento em que os trabalhadores da Europa Ocidental estavam sendo solicitados a aceitar custos de vida e congelamento de salários em nome do apoio à “defesa da Ucrânia” contra o tirano Putin. E, novamente, algumas minorias nas manifestações contra as reformas previdenciárias na França foram explícitas em rejeitar sacrifícios em nome da construção de uma economia de guerra.
- Um outro sinal do processo de amadurecimento também pode ser visto nos esforços do aparato político da burguesia para radicalizar as mensagens dirigidas à classe trabalhadora. O sucesso do trumpismo nos EUA pode ser atribuído, em grande parte, à sua capacidade de tirar proveito das preocupações reais da classe trabalhadora estadunidense sobre o aumento dos preços e o efeito dos gastos militares sobre as condições de vida. E na ala oposta do espectro político, vimos o surgimento de líderes sindicais mais radicais, como na Grã-Bretanha, e um movimento definitivo para a esquerda por parte dos trotskistas, com grupos como o Revolution Permanente na França ou o Revolutionary Communist Party na Grã-Bretanha mudando seu foco da política de identidade para falar sobre comunismo, internacionalismo e a necessidade da revolução proletária - o objetivo é, acima de tudo, “desbotar” os elementos jovens que estão fazendo perguntas sérias sobre a direção que a sociedade capitalista está tomando.
Poderíamos continuar com esses exemplos. Sem dúvida, eles serão rebatidos por argumentos que buscam provar que a classe trabalhadora, na verdade, esqueceu mais do que aprendeu com a onda de lutas após 1968 - principalmente, como demonstrado pelo fato de que houve pouca tentativa de desafiar o controle sindical das greves atuais e de desenvolver formas de auto-organização. Mas, para nós, as tendências amplas iniciadas pela “ruptura” de 2022 estão apenas no começo. Seu potencial histórico só pode ser entendido se as considerarmos como os primeiros frutos de um longo processo de germinação. Voltaremos a esse assunto na segunda parte do artigo.
Amos
15 de janeiro de 2025.
[1] [22] Veja, em particular, The return of the combativity of the world proletariat (O retorno da combatividade do proletariado mundial [23]), International Review 169 e After the rupture in the class struggle, the necessity for politicisation (Após a ruptura na luta de classes, a necessidade de politização [24]), International Review 171
[2] [25] As ambiguidades do ICT sobre o significado histórico da onda de greves no Reino Unido [26], World Revolution 396
[3] [27] CCI: Uma nova “Ruptura Histórica” na Luta de Classes desde 2022? [28]
[4] [29] 1825-2025 - Dois séculos de luta de classes [30]
[5] [31] Veja nosso artigo The “External Fraction” of the CCI (A “Fração Externa” do CCI [32] ) na International Review 45
[6] [33] Capital Volume 3, parte VII, capítulo 48
[7] [34] Em Workers Voice 20, segunda série
[8] [35] Isso foi em resposta à nossa citação da insistência de Rosa Luxemburgo de que “o inconsciente precede o consciente” no desenvolvimento do movimento de classe, o que, na verdade, é uma aplicação da fórmula marxista de que o ser determina a consciência. Mas essa fórmula pode ser abusada se for compreendida a relação dialética entre os dois: não apenas o ser é um processo de tornar-se, no qual a consciência evolui a partir do inconsciente, mas a consciência também se torna um fator ativo no avanço evolutivo e histórico.
[9] [36] Desde aquela época, a CWO deixou de defender a tese kautskista, mas nunca esclareceu abertamente por que mudou de posição.
[10] [37] Resposta à CWO: [38] Sobre a maturação subterrânea da consciência [38], International Review 43
[11] [39] Ou seja, a nova idade de aposentadoria proposta
Antes do tsunami da crise da Covid-19 varrer o planeta, as lutas da classe trabalhadora na França, na Finlândia, nos EUA e noutros lugares davam sinais de um novo estado de espírito no proletariado, de uma recusa em curvar-se perante as exigências impostas por uma crise econômica crescente. Na França, em particular, pudemos discernir sinais de uma recuperação da identidade de classe que foi corroída por décadas de decomposição capitalista, pela ascensão de uma corrente populista que distorce as verdadeiras divisões da sociedade e que, na França, tomou as ruas com um colete amarelo[1].
Neste sentido, a pandemia da Covid-19 não poderia ter vindo em pior hora para a luta do proletariado: no momento em que começava a sair para a rua, para se reunir em manifestações para resistir aos ataques econômicos, cujas origens na crise capitalista são difíceis de esconder, a maioria da classe trabalhadora não teve outra alternativa senão recuar individualmente para dentro de casa, para evitar as grandes concentrações, para "se isolar" sob o olhar de um aparelho de Estado com plenos poderes, que foi capaz de fazer fortes apelos à "unidade nacional" diante de um inimigo invisível que - dizem - não discrimina entre ricos e pobres, patrões e trabalhadores.
As dificuldades enfrentadas pela classe trabalhadora são reais e profundas, e iremos examiná-las de forma mais aprofunda neste artigo. Mas o que é de certa forma notável é o fato de, apesar do medo onipresente de contágio, apesar da aparente onipotência do Estado capitalista, os sinais de combatividade de classe que vimos nos últimos meses de Dezembro / Janeiro não se evaporaram. Numa fase inicial e diante da chocante negligência da burguesia, vimos movimentos defensivos generalizados por parte da classe trabalhadora. Os trabalhadores de todo o mundo recusaram-se a ir como "cordeiros para o matadouro", travaram uma luta determinada em defesa da sua saúde, das suas próprias vidas, exigindo medidas de segurança adequadas ou o fechamento de empresas não envolvidas na produção essencial (como as fábricas de automóveis).
As principais características destas lutas são as seguintes:
Ocorreram à escala mundial, dada a natureza global da pandemia, mas um dos seus elementos mais importantes é o fato de terem sido mais evidentes nos centros capitalistas, particularmente nos países mais afetados pela doença: na Itália, por exemplo, a Tendência Comunista Internacionalista menciona greves espontâneas no Piemonte, Ligúria, Lombardia, Veneto, Emília Romana, Toscana, Úmbria e Apúlia[2]. Foram, sobretudo, os trabalhadores das fábricas italianas que primeiro levantaram o slogan "não somos cordeiros enviados para o matadouro". Na Espanha, as greves na Mercedes, FIAT, Balay electrodomésticos; os trabalhadores da Telepizza, em greve contra a retaliação dos trabalhadores que não quiseram arriscar a vida entregando pizzas, e outros protestos dos entregadores em Madri. Talvez o mais importante de tudo - até porque desafia a imagem de uma classe trabalhadora americana que se associou sem qualquer crítica à demagogia de Donald Trump - tenha sido a luta generalizada nos Estados Unidos: greves na FIAT em Indiana, Warren Trucks, por motoristas de ônibus em Detroit e Birmingham Alabama, nos portos, restaurantes, na distribuição de alimentos, no saneamento, na construção; greves na Amazon (que também foi atingida por greves em outros países), Whole Foods, Instacart, Walmart, FedEx, etc. Assistimos também a um grande número de greves contra os aluguéis nos Estados Unidos. Esta é uma forma de luta que, embora não envolva automaticamente os proletários, não é de modo algum estranha às tradições da classe (poderíamos citar, por exemplo, as greves contra aluguéis de Glasgow, que foram parte integrante das lutas dos trabalhadores durante a Primeira Guerra Mundial, ou a greve contra aluguéis de Merseyside em 1972, que acompanhou a primeira vaga internacional de lutas depois de 1968). E nos Estados Unidos, em particular, existe uma ameaça real de despejo que paira sobre muitas das camadas "confinadas" da classe trabalhadora.
Na França e na Grã-Bretanha, estes movimentos foram menos generalizados, mas temos visto trabalhadores dos correios e da construção civil, trabalhadores dos armazéns e dos contêineres na Grã-Bretanha e, na França, greves em fábricas e nos estaleiros navais de Saint Nazaire. Amazon em Lille e Montelimar, em logística... Na América Latina, são exemplos o Chile (Coca Cola), os trabalhadores portuários na Argentina e no Brasil, os empacotadores na Venezuela. No México, "As greves espalharam-se por toda a cidade mexicana de Ciudad Juarez, que faz fronteira com El Paso, Texas, envolvendo centenas de trabalhadores de empresas maquiladoras[3] exigindo o fechamento de fábricas não essenciais, que permaneceram abertas apesar do número crescente de mortes causadas pela pandemia da COVID-19, incluindo 13 funcionários da fábrica de assentos de automóveis Lear, propriedade dos EUA. As greves... seguem ações semelhantes de trabalhadores nas cidades fronteiriças de Matamoros, Mexicali, Reynosa e Tijuana"[4]. Na Turquia, greves na fábrica têxtil de Sarar (contra a indicação dos sindicatos), no estaleiro Galataport e pelos trabalhadores dos correios. Na Austrália, greves dos trabalhadores portuários e da distribuição. A lista poderia facilmente ser ampliada.
Várias das greves foram espontâneas, como na Itália, nas fábricas de automóveis nos Estados Unidos e nos centros da Amazon, os sindicatos foram amplamente criticados e, por vezes, opuseram-se frontalmente por sua colaboração aberta com a direção. Segundo um artigo da Libcom, que dá uma visão geral das recentes lutas nos EUA: "Os trabalhadores das fábricas de montagem da Fiat Chrysler's Sterling Heights (SHAP) e da Jefferson North (JNAP), em Metro Detroit, tomaram as coisas nas suas próprias mãos ontem à noite e esta manhã e forçaram a paralisação da produção para impedir a propagação da Covid-19. As paralisações de trabalho começaram em Sterling Heights ontem à noite, poucas horas depois de os trabalhadores da United Auto Workers e as montadoras de Detroit terem chegado a um péssimo acordo para manter as fábricas em funcionamento durante a pandemia global. No mesmo dia, dezenas de trabalhadores da fábrica de Lear Seating, em Hammond, Indiana, recusaram-se a trabalhar, obrigando ao fechamento da fábrica de peças e da fábrica de montagem vizinha de Chicago"[5]. O artigo também contém uma entrevista com um trabalhador da indústria automotriz que afirma: "O sindicato e a empresa estão mais preocupados em fazer caminhões do que com a saúde de todos. Sinto que não vão fazer nada se não tomarmos medidas. Temos de nos unir. Eles não podem despedir a todos nós".
Estes movimentos ocorrem num terreno básico de classe: em torno de condições de trabalho (procura de equipamento de segurança adequado), mas também em torno de indenizações por doença, salários não pagos, sanções para os trabalhadores que se recusaram a trabalhar em condições inseguras, etc. Mostram uma rejeição do sacrifício que está em continuidade com a capacidade da classe de resistir ao alistamento para a guerra, um fator subjacente à situação mundial desde o renascimento das lutas de classe em 1968.
Os profissionais da saúde, embora demonstrando um extraordinário sentido de responsabilidade, manifestaram também descontentamento com as suas condições, raiva perante apelos hipócritas e elogios dos governos, embora estes tenham assumido principalmente a forma de protestos e declarações individuais, mas houve ações coletivas[6], incluindo greves, no Malawi, Zimbábue, Nova Guiné e manifestações de enfermeiros em Nova Iorque.
Mas este sentido de responsabilidade proletária, que também leva milhões de pessoas a seguir as regras do autoisolamento, mostra que a maioria da classe trabalhadora aceita a realidade desta doença, mesmo num país como os EUA, onde várias facções da burguesia (incluindo os "Trumpistas") defendem a negação da pandemia. Assim, as lutas a que assistimos foram necessariamente limitadas aos trabalhadores "essenciais" que lutam por condições de trabalho mais seguras - e estas categorias estão destinadas a permanecer uma minoria da classe, por muito vital que seja o seu papel - ou por trabalhadores que muito prontamente questionaram se o seu trabalho era realmente necessário, como os trabalhadores do ramo automobilístico na Itália e nos Estados Unidos; e, por conseguinte, a sua principal exigência era que fossem enviados para casa (com pagamento dos salários pela empresa ou pelo Estado, em vez de serem demitidos, como muitos foram). Mas esta exigência, embora necessária, só poderia implicar uma espécie de retirada tática da luta, em vez da sua intensificação ou extensão. Houve tentativas - por exemplo, entre os trabalhadores da Amazon nos Estados Unidos - de realizar reuniões de luta on-line, de fazer piquetes enquanto se observam distâncias seguras, etc., mas não se pode evitar o fato das condições de confinamento constituírem um enorme obstáculo a qualquer desenvolvimento imediato da luta.
E, em condições de isolamento, é mais difícil resistir à gigantesca onda de propaganda e de ofuscação ideológica desenvolvida pelos Estados.
Os meios de comunicação social cantam diariamente hinos à unidade nacional, com base na ideia de que o vírus é um inimigo que não discrimina: no Reino Unido, o fato de Boris Johnson e do Príncipe Charles terem sido infectados pelo vírus é apresentado como prova disso[7]. A referência à guerra, o espírito da "blitz" durante a Segunda Guerra Mundial (ela própria produto de um grande exercício de propaganda destinado a esconder qualquer descontentamento social) é incessante no Reino Unido, particularmente com os aplausos recebidos por um veterano de 100 anos da Força Aérea que angariou milhões para o NHS ao completar 100 voltas em seu grande jardim. Na França, Macron também se apresentou como um líder de guerra; nos Estados Unidos, Trump tentou definir o Corona como o "vírus chinês", desviando as atenções do tratamento lamentável da crise por parte da sua administração e jogando com o habitual tema "América em Primeiro Lugar". Em toda a parte - mesmo na zona de livre circulação Schengen da União Europeia - o fechamento das fronteiras foi salientado como o melhor meio de conter o contágio. Formaram-se governos de unidade nacional onde costumava haver uma divisão aparentemente insolúvel (como na Bélgica), ou os partidos da oposição tornaram-se mais "leais" do que nunca no "esforço de guerra" nacional[8].
O apelo ao nacionalismo é acompanhado pela apresentação do Estado como a única força capaz de proteger os cidadãos, quer através da aplicação vigorosa do confinamento, quer na sua aparência mais amistosa como prestador de ajuda aos necessitados, quer se trate dos bilhões que supostamente são distribuídos para apoiar os trabalhadores demitidos, bem como os trabalhadores autônomos cujas empresas tiveram de fechar, ou os serviços de saúde geridos pelo Estado. Na Grã-Bretanha, o "National Health Service" é há muito tempo um ícone sagrado de quase toda a burguesia, mas especialmente da esquerda, que o considera a sua realização especial, uma vez que foi introduzido pelo governo trabalhista do pós-guerra, que o apresenta como algo estranho à mercantilização capitalista da existência, apesar das maléficas invasões de empresários privados. Este elogio ao NHS e instituições similares é apoiado pelos rituais semanais de aplausos e pelos incessantes elogios aos trabalhadores da saúde como heróis, especialmente por parte dos mesmos políticos que têm sido fundamentais nos cortes maciços nos serviços de saúde feitos na última década.
Segundo o político trabalhista de esquerda Michael Foot, a Grã-Bretanha nunca esteve tão próxima do socialismo como durante a Segunda Guerra Mundial (!!!), e hoje, quando o Estado tem de pôr de lado as preocupações com a rentabilidade imediata para manter a sociedade unida, a velha ilusão de que "somos todos socialistas" (que foi uma ideia comumente expressa pela classe dominante durante a vaga revolucionária depois de 1917) ganhou novo ímpeto graças às enormes rubricas de despesas impostas aos governos pela crise da Covid-19. O influente filósofo de esquerda Slavoj Zizek, numa entrevista no Youtube intitulada "Comunismo ou Barbárie"[9], parece sugerir que a própria burguesia é forçada a tratar o dinheiro como um mero mecanismo de contabilidade, uma forma de voucher de tempo de trabalho, totalmente alheio ao valor real. Em suma, os bárbaros estariam se transformando em comunistas (!!!). Na realidade, a crescente separação do dinheiro do valor é o sinal do completo esgotamento da relação social capitalista e, portanto, da necessidade do comunismo, mas o desrespeito das leis do mercado pelo Estado burguês não é um passo para um modo de produção mais elevado, mas um novo muro defensivo desta ordem decadente. E a função da esquerda do capitalismo é, sobretudo, esconder isso da classe trabalhadora, desviá-la do seu próprio caminho, o que exige quebrar o controle do Estado e preparar a sua destruição revolucionária.
Mas na era do populismo, a esquerda não tem o monopólio das falsas críticas ao sistema. A realidade inquestionável de que o Estado vai utilizar esta crise em todo o lado para intensificar a sua vigilância e controle da população - e, portanto, a realidade de uma classe dominante que está constantemente "conspirando" para manter a sua regra de classe - está dando origem a uma nova cultura de "teorias conspiratórias", segundo as quais o perigo real representado pela Covid-19 é ou descartado ou negado categoricamente: isto seria um "esquema" apoiado por uma sinistra cabala de globalistas para impor o seu programa de "um governo único". E estas teorias, que são particularmente influentes nos EUA, não se limitam ao ciberespaço. A facção Trump nos EUA tem agitado o caldeirão, alegando que há provas de que o Corona escapou de um laboratório em Wuhan - mesmo que os serviços secretos americanos já o tenham descartado. A China tem respondido com acusações semelhantes contra os EUA. Também houve grandes protestos nos EUA exigindo o regresso ao trabalho e o fim do confinamento, motivados por Trump e muitas vezes inspirados por teorias conspiratórias (assim como fantasias religiosas: a doença é real, mas podemos derrotá-la com o poder da oração[10]). Houve também alguns ataques racistas a pessoas orientais, identificadas como responsáveis pelo vírus. Não há dúvida de que tais ideologias afetam partes da classe trabalhadora, em especial as que não recebem qualquer apoio financeiro dos empregadores ou do Estado, mas as manifestações de regresso ao trabalho nos EUA parecem ter sido lideradas principalmente por elementos pequenos burgueses ansiosos por retomar o funcionamento das suas empresas. Como já vimos anteriormente, muitos trabalhadores lutaram para ir na direção oposta a estas mistificações.
Esta vasta ofensiva ideológica reforça a atomização objetiva imposta pelo confinamento, o medo de que qualquer pessoa fora de casa possa ser uma fonte de doença e de morte. E o fato de o confinamento durar provavelmente algum tempo, de não haver retorno à normalidade e de poder haver mais períodos de confinamento se a doença passar por uma segunda onda, tenderá a exacerbar as dificuldades da classe trabalhadora. E não podemos nos permitir esquecer que estas dificuldades não começaram com o confinamento, mas têm uma longa história, especialmente desde o início do período de decomposição após 1989, que assistiu a uma profunda regressão tanto na combatividade como na consciência, a uma crescente perda de identidade de classe, a uma exacerbação da tendência para "cada um por si" a todos os níveis. Assim, a pandemia, como produto claro do processo de decomposição, marca uma nova etapa no processo, uma intensificação de todos os seus elementos mais característicos[11].
No entanto, a crise da Covid-19 também chamou a atenção para a dimensão política num grau sem precedentes: a conversa diária, bem como a incessante tagarelice midiática, está quase inteiramente centrada na pandemia e no confinamento, na resposta dos governos, na difícil situação da saúde e de outros trabalhadores "essenciais" e nos problemas de sobrevivência diária de uma grande parte da população no seu conjunto. Não há dúvida de que o mercado das ideias tem sido em grande parte encurralado pelas várias formas da ideologia dominante, mas há áreas em que uma minoria significativa pode levantar questões fundamentais sobre a natureza desta sociedade. A questão do que é "essencial" na vida social, de quem faz o trabalho mais vital e, no entanto, é tão miseravelmente pago por ele, a negligência dos governos, o absurdo das divisões nacionais face a uma pandemia global, que tipo de mundo vamos viver depois da Covid: estas são questões que não podem ser completamente escondidas ou desviadas. E as pessoas não estão completamente atomizadas: os confinados utilizam as redes sociais, os fóruns da Internet, as videoconferências ou as áudio-conferências não só para continuar o trabalho remunerado ou manter o contato com a família e os amigos, mas também para discutir a situação e fazer perguntas sobre o seu verdadeiro significado. Fisicamente (se estiver à distância social necessária...) o encontro com os moradores do bloco de apartamentos ou bairro também pode se tornar um fórum de discussão, embora não se deva confundir o ritual semanal de aplausos com a verdadeira solidariedade ou grupos locais de ajuda mútua com a luta contra o sistema.[12]
Na França, um slogan que se tornou popular foi "o capitalismo é o vírus, a revolução é a vacina". Por outras palavras, as minorias da classe estão levando a discussão e a reflexão à sua conclusão lógica. A "vanguarda" deste processo é formada por aqueles indivíduos, alguns deles muito jovens, que compreenderam claramente que o capitalismo está totalmente falido e que a única alternativa para a humanidade é a revolução proletária mundial, isto é, por aqueles que estão avançando para posições comunistas e, portanto, para a tradição da esquerda comunista. A emergência desta geração de pessoas "em busca" do comunismo coloca uma imensa responsabilidade sobre grupos existentes da Esquerda Comunista no processo de construção de uma organização comunista que poderá desempenhar um papel nas futuras lutas do proletariado.
As lutas defensivas a que assistimos na primeira fase da pandemia, o processo de reflexão que teve lugar durante os confinamentos, são indícios do potencial intacto da luta de classes, que também pode ser "bloqueada" durante um período considerável, mas que, a longo prazo, poderá amadurecer ao ponto de poder se expressar abertamente. A impossibilidade de reintegrar um grande número dos demitidos no auge da crise, a necessidade de a burguesia recuperar os "presentes" que foi repartindo no interesse da estabilidade social, a nova ronda de austeridade que a classe dominante será obrigada a impor: esta será sem dúvida a realidade da próxima etapa da Covid-19, que é simultaneamente uma história da crise econômica histórica do capitalismo e da sua progressiva decomposição. É também uma história de tensões imperialistas exacerbadas, uma vez que várias potências procuram utilizar a crise da Covid-19 para perturbar ainda mais a ordem mundial imperialista: em particular, pode haver uma nova ofensiva do capitalismo chinês destinada a desafiar os Estados Unidos como a principal potência mundial. Em todo o caso, as tentativas de Trump de culpar a China pela pandemia já anunciam uma atitude cada vez mais agressiva por parte dos EUA. Os trabalhadores serão chamados a fazer sacrifícios para "reconstruir" o mundo pós-Covid e para defender a economia nacional contra a ameaça do estrangeiro.
Mais uma vez, temos de nos precaver contra o perigo do imediatismo. Um perigo provável - dada a atual fraqueza da identidade de classe e a crescente miséria que afeta todos os estratos da população mundial - será que a resposta a novos ataques ao nível de vida possa assumir a forma de revoltas interclassistas "populares", em que os trabalhadores não apareçam como uma classe distinta com os seus próprios métodos e exigências, mas sejam diluídos entre uma massa popular amorfa dominada por ideologias alheias, como a pequena burguesia ou, pior ainda, o lúmpen. Vimos uma onda de revoltas deste tipo antes do confinamento e, mesmo durante o confinamento, elas já reapareceram no Líbano e noutros lugares, salientando o fato de este tipo de reação ser um problema mais agudo nas regiões mais "periféricas" do sistema capitalista[13]. Um recente relatório da ONU advertiu que algumas partes do mundo, especialmente na África e em países devastados pela guerra, como o Iêmen e o Afeganistão, vão passar uma fome de "proporções bíblicas" como resultado da crise pandêmica, o que também tenderá a aumentar o perigo de reações desesperadas que não oferecem perspectivas[14].
Sabemos também que o desemprego em massa pode, num período inicial, tender a paralisar a classe operária[15]: a burguesia pode utilizá-lo para disciplinar os trabalhadores e criar divisões entre empregados e desempregados e, em qualquer caso, é intrinsecamente mais difícil lutar contra o fechamento de empresas do que resistir a ataques a salários e condições. E sabemos que, em períodos de crise econômica aberta, a burguesia procurará sempre álibis para esconder a decadência e a barbárie do sistema capitalista: no início dos anos 70, foi a "crise do petróleo"; em 2008, "os banqueiros gananciosos". Hoje o bode expiatório será o vírus. Mas estas desculpas são necessárias precisamente porque a crise econômica, e em particular o desemprego em massa, é uma acusação ao modo de produção capitalista, cujas leis acabam por impedi-lo de alimentar os seus escravos.
Mais do que nunca, os revolucionários devem ser pacientes. Como diz o Manifesto Comunista, os comunistas distinguem-se pela sua capacidade de compreender as "condições, o curso e dos fins gerais do movimento proletário" [ed. Boitempop. 51]. As lutas massivas da nossa classe, a sua generalização e politização, é um processo que se desenvolve durante um longo período e passa por muitos avanços e recuos. Mas não estamos apenas nos prestando à satisfação de um desejo quando insistimos, como fazemos no final do nosso folheto internacional sobre a pandemia, que "o futuro pertence à luta de classes"[16].
Amos
[1] Sobre as lutas na França no final de 2019 ver La perspectiva que plantean las recientes luchas obreras en Francia [43]. Sobre os coletes amarelos ver Balance del movimiento de los "chalecos amarillos": Un movimiento interclasista, un obstáculo para la lucha de clases [44].
[3] Empresa maquiladora [46]
[6] Ver as lutas no Peru (Covid 19 en Perú: muerte, miseria y crisis [49]) e também na Bélgica e França.
[7] Este refrão tem sido de certa forma minado por provas crescentes de que os indivíduos mais pobres da sociedade, incluindo as minorias étnicas, estão sendo muito mais afetados pelo vírus.
[8] Na Espanha, é de se salientar que, nas primeiras semanas do confinamento, o PP e Ciudadanos, juntamente com o PNV e no início ERC, apoiaram o governo de esquerda sem quaisquer fissuras. Apenas Vox e os independentistas de Puigdemont e Torra desempenharam o papel de "vilões".
[10] Essas teorias de conspiração, inclusive a religiosa, também têm exercido bastante influência em Bolsonaro e seus seguidores.
[12] No nosso último congresso internacional examinamos as dificuldades da classe operária em desenvolver a sua luta. Ver documentos do 23º Congresso Internacional da CCI [52]
[13] Ver Ante la agravación de la crisis económica mundial y la miseria, las "revueltas populares" representan un callejón sin salida [53].
[14] Ver vários artigos ou textos de debate proletário no nosso dossiê especial COVID19: o verdadeiro assassino é o capitalismo [54]
[15] Nas Teses sobre a Decomposição [55] advertimos que "Um dos fatores que agrava esta situação é evidentemente o fato de uma grande parte da jovem geração de trabalhadores estar recebendo o chicote do desemprego na cara, mesmo antes de muitos terem tido a oportunidade, nos locais de produção, juntamente com os seus camaradas de trabalho e luta, de experimentar uma vida coletiva de classe". Com efeito, o desemprego, resultado direto da crise econômica, embora não seja em si mesmo expressão de decomposição, acaba por ter, nesta fase particular de decadência, consequências que o transformam num aspecto singular da decomposição. Embora em geral sirva para expor a incapacidade do capitalismo em assegurar um futuro para os proletários, é também, hoje, um poderoso fator de "lumpenização" de certos setores da classe operária, especialmente entre os mais jovens, o que enfraquece as suas capacidades políticas atuais e futuras dela”
[16] COVID 19: Bárbarie capitalista generalizada ou revolução proletária mundial [43]
O Estado capitalista apresenta-se hoje como nosso "salvador". É um esquema do pior tipo. Perante o avanço da pandemia, o que fizeram eles? O pior! Em todos os lugares, em todos os países, eles tomaram medidas no último momento, forçados e coagidos diante da acumulação de mortes; mantiveram milhões de trabalhadores em seus locais de trabalho, sem máscaras, sem gel, sem luvas e amontoados juntos. Porque é que eles fizeram isto? Para continuar produzindo, custe o que custar! Desta forma, esperavam ganhar quota de mercado face à concorrência dos seus rivais em dificuldades! "A China está em baixo? Vamos produzir!", "A Itália está em baixo? Vamos produzir!", e assim por diante e assim por diante. Mesmo sob a onda da epidemia, quando a contenção é declarada, a pressão para apoiar "a saúde da economia" e "as empresas que sofrem" não para! As declarações de Trump ou Bolsonaro sobre a "economia primeiro" são apenas uma caricatura da política assassina dos líderes de todos os governos do planeta.
Ao fazê-lo, cada burguesia nacional está de facto a pôr em perigo a sua própria atividade ao promover a propagação do vírus. Em resposta, surgiram várias greves na Itália, Espanha, Bélgica, França, Estados Unidos, Brasil, Canadá... Claro que estas lutas são limitadas, como poderia ser de outra forma com o confinamento e a impossibilidade de nos unirmos? Mas precisamente a sua existência em vários países nestas condições extremamente difíceis para a luta de classes mostra que em algumas partes da classe trabalhadora há resistência ao "sacrifício" exigido, à ideia de servir de forragem de canhão para os interesses do capital. Não podemos contar com o Estado capitalista, que aproveita seu papel de "coordenador" na luta contra a pandemia para fortalecer ainda mais seu controle totalitário, atomização, individualismo e desenvolver uma ideologia de união nacional e até mesmo de guerra.
Mais do que nunca, esta pandemia oferece-nos uma alternativa clara: ou nos deixamos levar pela barbaridade do capitalismo ou contribuímos pacientemente e com uma visão de futuro para a perspectiva da revolução proletária mundial
Hoje, as ruas de Madrid oferecem o espetáculo trágico de um ballet ininterrupto de ambulâncias com sirenas acionadas, do caos dos serviços de saúde e de uma dor comparável à dos ataques de Atocha em 2004 (193 mortos e mais de 1.400 feridos). Mas, desta vez será mais um dia desta pandemia que já causou 2300 mortes e quase 35 mil infectados (oficialmente) na Espanha, espalhando-se a uma velocidade superior à alcançada na Itália que, há poucos dias, bateu todos os recordes em termos de mortes diárias (651), e impacto letal da epidemia (mais de 7.000 mortes), naquela que já é considerada a pior catástrofe sanitária de ambos os países desde a 2ª Guerra Mundial. E estes países são um anúncio do que provavelmente espera as populações de metrópoles como Nova Iorque, Los Angeles, Londres, etc. Uma realidade que se tornará pior quando for levado em conta o impacto desta epidemia na América Latina, África, onde os sistemas de saúde são ainda mais precários ou diretamente inexistentes.
Mas há semanas que os governantes destes países e também da França (como demonstramos no artigo da nossa publicação na França[1]), e sem dúvida de outras potências capitalistas - podiam imaginar o caos que esta epidemia poderia causar. E ainda assim, como os outros estados capitalistas (e não apenas o populista Johnson na Grã-Bretanha ou Trump nos EUA, etc.) decidiram colocar as necessidades da economia capitalista à frente da saúde da população. Agora, em seus discursos histriônicos e hipócritas, esses mesmos governantes afirmam estar dispostos a fazer qualquer coisa para proteger a saúde de seus cidadãos, e culpam o "vírus" ao qual declaram "guerra". Mas o culpado não pode ser algo que nem sequer é um ser vivo
. A responsabilidade pela mortalidade causada por esta pandemia é inteiramente atribuível às condições sociais, a um modo de produção que, em vez de aproveitar as forças produtivas, os recursos naturais, o progresso do conhecimento para favorecer a vida, imolam a vida humana e a natureza, tudo no altar das leis capitalistas da acumulação e do lucro.
Dizem-nos a toda a hora que esta pandemia afeta toda a gente sem distinguir entre ricos e pobres. Eles divulgam os casos de algumas "celebridades" afetadas ou mesmo mortas pelo Covid-19. Mas estas são anedotas para esconder o fato de que são as condições de exploração dos trabalhadores que explicam o surgimento e a propagação desta pandemia.
Em primeiro lugar, devido às condições superlotadas dos bairros insalubres em que vivem os explorados, que são um terreno fértil que favorece a propagação de epidemias. Isto é facilmente comprovado pela maior incidência desta pandemia em regiões industriais com elevada concentração humana (Lombardia, Veneto e Emília Romana na Itália; Madri, Catalunha e País Basco na Espanha), do que em regiões mais despovoadas (Sicília, Andaluzia) devido às mesmas necessidades da exploração. O agravamento do problema habitacional dos trabalhadores acentua ainda mais esta vulnerabilidade. No caso de Madri, os hospitais que sofrem a maior saturação e cujos serviços estão em colapso correspondem essencialmente aos que servem a população das cidades industriais do sul. Nestas casas precárias também é mais difícil suportar a quarentena decretada pelas autoridades sanitárias. Nos "chalés" de Somosierra ou na aldeia de Nice onde os Berlusconi se refugiam, o confinamento é mais plenamente suportável. Os exploradores querem, que cinismo!, vangloriar-se de "civilidade".
Para não mencionar as repercussões sobre esta população amontoada em habitações precárias, com empregos precários, que tem de cuidar de crianças pequenas ou de idosos. O caso dos idosos é particularmente escandaloso, tendo sido explorados ao longo das suas vidas, e que agora são forçados a viver sozinhos, ou negligenciados em lares governados pelas mesmas leis do lucro capitalista. Com um assistente para cada 18 pacientes nas enfermarias de grandes dependências, os lares de idosos tornaram-se uma das principais fontes de propagação da pandemia, como se viu em Espanha não só entre os chamados "usuários", mas também entre os próprios trabalhadores, que com contratos temporários e salários de miséria foram obrigados a cuidar de pacientes de risco, carecendo, em muitos casos, de medidas mínimas de autoproteção [2][2]. Mas esta mesma situação pode ser vista na França, até recentemente apresentada como o modelo do Estado social.
Na Espanha, tem havido casos em que pacientes que foram admitidos devem permanecer isolados em seus quartos ao lado dos corpos de seus companheiros, já que os serviços funerários, que estão transbordando ou carecem de medidas de autoproteção, não são suficientes para recolher os restos mortais. Da mesma forma, as transferências para os hospitais - que em grande parte se encontram em colapso e onde o futuro que espera os enfermos é muitas vezes de serem relegados em detrimento de pacientes de terceira ou quarta categoria - são atrasadas pelas regras de "triagem" que determinam o uso de recursos materiais e pessoal com base em critérios de custo/benefício, e que constituem verdadeiros atentados à dignidade humana e à vida, aos instintos sociais que permitiram à humanidade chegar ao nosso tempo, e que hoje são postos em prática, sem qualquer impedimento, pelas autoridades italianas, espanholas[3][3], francesas e outras.
E que podemos acrescentar à conhecida sobre-exploração e sobre-exposição dos profissionais de saúde, que representam entre 8 e 12% de todas as infecções. Só na Espanha são mais de 5000. E estas estatísticas são bastante enganadoras, uma vez que uma boa parte destes trabalhadores ainda não foi testada para a infecção pelo corona vírus. E ainda assim são obrigados a trabalhar sem as luvas, máscaras e roupas de proteção necessárias, as quais têm sido uma despesa "dispensável" para a saúde e economia capitalista. Como hospitais, leitos de UTI, respiradores, pesquisas sobre corona vírus e possíveis remédios e vacinas - tudo isso tem sido sacrificado para a rentabilidade da exploração.
Hoje os lamentadores da "mídia", especialmente os de cor de "esquerda", estão tentando concentrar a raiva da população contra a "privatização" dos cuidados de saúde. Mas seja quem for o dono do hospital, do laboratório farmacêutico ou do lar de idosos, a verdade é que a saúde da população está sujeita à regra do lucro de uma minoria exploradora sobre toda a sociedade.
Esta ditadura das leis do capital sobre as necessidades humanas foi claramente demonstrada na execução de quarentenas na Itália, Espanha e França, que impuseram restrições draconianas para ir às compras, visitar os idosos, confinando crianças ou pacientes deficientes, mas que, no entanto, tiveram mangas largas para impedir que as pessoas fossem aos canteiros de obras, para estivar navios com contêineres de todo tipo de material, para manter a produção em fábricas de têxteis, eletrodomésticos e automóveis. E para "assegurar" essas condições de exploração, enquanto alguns "corredores" ou trabalhadores que levam no carro em pequenos grupos para trabalhar (e economizar algumas das despesas de viagem) são perseguidos, é permitido o uso de metrôs ou trens urbanos para manter o processo "produtivo". Muitos trabalhadores estão indignados com este cinismo criminoso da burguesia e expressam sua raiva através das redes sociais, já que nas condições atuais é impossível fazê-lo juntos nas ruas, em assembleias, etc. Assim, diante da campanha concebida pelos principais órgãos da "mídia" com o slogan "Fique em casa", foi lançada uma hastag igualmente muito popular #EuNaoPossoFicarEmCasa ,com que se expressam os "entregadores" (IFood, Uber), trabalhadores domésticos, trabalhadores do vasto setor da economia informal, etc.
Também houve protestos, comícios e greves contra a manutenção do trabalho nestas condições que desconsideram a vida e a segurança dos trabalhadores. Como foi gritado nos protestos na Itália. "Os teus lucros valem mais do que as nossas vidas."
Na Itália, desde a semana de 10 de março na FIAT em Pomigliano, onde 5 000 trabalhadores trabalham diariamente, estão em greve para protestar contra as condições inseguras em que foram obrigados a trabalhar. Em outras fábricas do setor metalúrgico, em Brescia, por exemplo, foi feito um ultimato às empresas para adaptar a produção às necessidades de proteção dos trabalhadores ou eles entrariam em greve. No final, as empresas decidiram fechar as fábricas. E quando, mais recentemente, em 23 de março, um decreto subsequente do Primeiro Ministro Conte abriu a porta para a continuação do trabalho em indústrias não essenciais, novamente eclodiram greves espontâneas, levando o sindicato CGIL a " simular " o chamado de uma "greve geral".
Na Espanha, foram vistos inicialmente na Mercedes de Vitória, após o aparecimento de um colega com covid19 , quando os trabalhadores decidiram parar imediatamente de trabalhar. A mesma coisa aconteceu na fábrica de eletrodomésticos de Balay em Zaragoza (1 000 trabalhadores) ou na Renault em Valladolid. É preciso dizer que, em muitos casos, foi a própria empresa que provocou o fechamento (Airbus em Madri, SEAT em Barcelona ou FORD em Valência naquela altura e, posteriormente, a PSA em Saragoça ou a Michelin em Vitória) para que os cofres do Estado - ou seja, a mais-valia extraída da classe trabalhadora no seu conjunto - fossem responsáveis pelo pagamento de parte dos salários dos trabalhadores, quando a realidade é que antes da pandemia já existiam planos de demissão (na FORD ou na Nissan em Barcelona).
Mas também há manifestações abertas de combatividade de classe, como a greve selvagem, ou seja, à margem e contra os sindicatos, que teve lugar nos ônibus de Liege (Bélgica) contra a irresponsabilidade da empresa de fazer seus empregados trabalhar em condições totalmente expostas ao contágio, quando a Bélgica tinha sido um dos primeiros países a decretar o fechamento do país. O mesmo é o caso, por exemplo, da abordagem dos trabalhadores da padaria Neuhauser e dos estaleiros navais de Nantes ou da empresa SNF em Andrézieux (França)[4] [4]. Na França, tem havido fortes manifestações de protesto nos estaleiros navais de Saint Nazare. Um trabalhador do estaleiro disse à televisão: "Eles me obrigam a trabalhar em espaços pequenos com 2 ou 3 colegas em cabines de apenas 9 metros quadrados e sem qualquer proteção. Depois tenho de voltar para minha casa, onde a minha mulher e os meus filhos estão confinados. E ela me perguntou com grande preocupação se eu não representava um perigo para eles. Eu não posso aceitar isso".
À medida que a epidemia se espalha e seus efeitos nocivos sobre os trabalhadores, ainda há focos de protesto, ainda que minoritários, dos trabalhadores contra essa imposição da lógica e das necessidades da exploração capitalista: Vimos isso na FIAT Chrysler nas fábricas de Tripton (Indiana/EUA) que protestaram contra o fato de que eles têm que ir trabalhar quando é proibido reunir-se fora das fábricas. Reações semelhantes podem ser observadas nas fábricas da empresa Lear em Hammond também em Indiana, nas fábricas da Fiat em Windsor (Ontário/Canadá), ou na fábrica de caminhões Warren, na periferia de Detroit. Os motoristas de ônibus da cidade de Detroit também pararam de trabalhar até que a empresa lhes garantiu um mínimo de segurança em suas condições de trabalho. É muito significativo que, nestas lutas nos Estados Unidos, os trabalhadores tenham tido que impor sua decisão de parar de trabalhar à diretiva estabelecida pelo sindicato - neste caso a UAW - que os incentivava a continuar trabalhando para não prejudicar a empresa.
E também no porto de Santos (Brasil) tem havido protestos dos trabalhadores contra as imposições das autoridades para manter o trabalho. E também nesse país há uma preocupação crescente entre os trabalhadores das fábricas da Volkswagen, Toyota, GM, etc., contra a continuação da produção como se não houvesse uma pandemia.
Por mais limitados que esses protestos tenham sido, eles são uma parte importante da resposta de classe do proletariado à pandemia que tem, sem dúvida, um caráter de classe capitalista. Mesmo num terreno puramente defensivo, os explorados recusam-se a aceitar ser a carne para canhão dos exploradores.
A própria burguesia está consciente do potencial para o desenvolvimento da combatividade e da consciência do proletariado contida nesta acumulação de inquietação, indignação e sacrifícios exigidos aos trabalhadores. Agora até os principais protagonistas do "austericídio"[5][5] (como Merkel, ou Berlusconi, ou o espanhol Luis de Guindos) estão enchendo a boca com promessas de benefícios sociais. Mas as armas da classe exploradora continuam sendo as tradicionais em toda a história da luta de classes: o engano e a repressão.
É claro que estes proletários merecem todo o reconhecimento e solidariedade porque são eles, essencialmente, que com o seu esforço e apoio estão mantendo os cuidados de saúde a um nível mínimo. Há anos que o fazem contra os cortes no pessoal e a deterioração dos recursos materiais. O que é de um cinismo repugnante é ver como as autoridades que fomentaram precisamente estas condições de sobre-exploração e impotência destes camaradas, quererem juntar-se a esta "solidariedade" com a ideia de estarmos todos no mesmo barco, cantando o hino nacional e exaltando os valores patrióticos como remédio contra a propagação da pandemia. O nacionalismo repugnante de muitas dessas "mobilizações" promovidas pelo próprio Estado tenta esconder o fato de que não pode haver uma comunidade de interesses entre exploradores e explorados, entre beneficiários e prejudicados pela degradação das infraestruturas sanitárias, entre aqueles que mantêm a produção e a competitividade do capital nacional e aqueles que colocam a vida e as necessidades humanas em primeiro lugar. A pátria é uma farsa para os trabalhadores, quer os populistas Salvini e Vox o digam, quer digam os campeões da democracia Podemos, Macron ou Conte.
Invocando precisamente esta "solidariedade nacional", os cidadãos são chamados a denunciar aqueles que supostamente "quebram" a quarentena, criando um clima de "caça às bruxas" às vezes pagas por mães com filhos autistas, casais idosos que vão às compras, ou mesmo trabalhadores da saúde que vão aos hospitais. É particularmente cínico culpar a propagação da pandemia, as mortes causadas por ela, ou o estresse sofrido pelos profissionais de saúde a uns poucos "infratores". Não há nada mais antissocial - isto é, contrário à comunidade humana - que o Estado capitalista defendendo precisamente os interesses de classe da minoria exploradora, e isto é escondido precisamente pela folha de figueira desta suposta solidariedade. E é duplamente hipócrita e criminoso tentar usar o desastre causado pela negligência do Estado que defende os interesses da classe inimiga, como uma forma de colocar alguns trabalhadores contra outros. Se os trabalhadores hospitalares se recusam a aceitar trabalho sem equipamentos de proteção são rotulados como não solidários[6][6] e são ameaçados com sanções, como demonstrou recentemente a demissão da diretora médica do hospital de Vigo (Galícia) por ousar denunciar o "bla bla bla bla" dos políticos burgueses em relação às medidas de proteção. O governo de Valência (dos mesmos partidos da coalizão "progressista" que governa a Espanha) está ameaçando censurar imagens que mostram o terrível estado dos cuidados de saúde[7] [7] naquela região, invocando o direito à "privacidade" dos pacientes quando estão lotados nos serviços de emergência, etc!
Se os trabalhadores da Empresa Funerária Municipal se recusam a trabalhar com os cadáveres dos mortos pela Covid-19 sem proteção, são acusados de impedir de chorar as perdas por suas famílias, amigos, etc. Como no caso das habitações precárias, como quando somos transportados como animais em transportes públicos para locais de trabalho, como em locais de trabalho onde a ergonomia é concebida em termos de produtividade e não da fisiologia dos trabalhadores, também aqueles que morrem de corona vírus são apinhados em mortuários em massa, como o Palácio do Gelo em Madri.
Toda essa brutalidade desumana é apresentada, no entanto, como a síntese da união de toda a sociedade. Não é por acaso que nas conferências de imprensa do governo espanhol ele mente sem qualquer remorso (Quando chegarão os testes? E as máscaras? E os respiradores? Resposta de sempre do Ministro da Saúde: "nos próximos dias") aparecem generais do Exército, Polícia, Guarda Civil, com todas as suas medalhas. É uma questão de imbuir a população do conhecido espírito militar: "Obedecer sem reclamar". É também induzir o hábito da população a todo o tipo de restrições das suas próprias liberdades civis a critério da Autoridade, com efeitos totalmente discutíveis[8], [8] mas que estimulam a autodisciplina social e a denúncia, como vimos anteriormente, e que são vendidas como a única barragem contra a doença e o caos social. Também não é por acaso que a burguesia ocidental expressa hoje uma admiração indisfarçada pelo controle que certas tiranias, como a do capitalismo chinês[9][9], exercem sobre a população. Se elogiam o sucesso do "jeito chinês" contra o corona vírus hoje, é para camuflar sua admiração pelos instrumentos desse controle totalitário do Estado (reconhecimento facial, rastreamento e acompanhamento dos movimentos e encontros das pessoas, uso dessa informação para classificar a população em categorias quanto à sua periculosidade social), e poder apresentar essas formas de maior controle totalitário do Estado explorador como a forma de "proteger a população" de epidemias e outros resultados do caos capitalista atual.
Mostramos como, diante de uma crise social, revela-se a existência de duas classes antagônicas: o proletariado e a burguesia. A primeira é a que está liderando o melhor dos esforços da humanidade para tentar deter o impacto desta epidemia. É essencialmente este trabalho dos trabalhadores da área da saúde, dos transportadores, dos trabalhadores dos supermercados e da indústria alimentar que tem sido a boia salva-vidas a que nos temos agarrado no meio do desastre do Estado. Foi demonstrado mais uma vez que o proletariado é, a nível mundial, a classe que produz riqueza social, e que a burguesia é uma classe parasitária que tira partido desta demonstração de tenacidade, criatividade e trabalho de equipe para ampliar o seu capital. Cada uma dessas classes antagônicas oferece uma perspectiva completamente diferente ao caos mundial no qual o capitalismo mergulhou a humanidade hoje: o regime de exploração capitalista mergulha a humanidade em mais guerras, epidemias, miséria, desastre ecológico; a perspectiva revolucionária liberta a espécie humana de sua submissão às leis de sua apropriação privada por uma minoria exploradora.
Mas os explorados não podem escapar a esta ditadura individualmente. Eles não podem escapar através de ações particulares às diretivas caóticas de um Estado que está atuando em benefício de um modo de produção que domina o mundo inteiro. Sabotagem individual ou desobediência é o sonho impossível de classes que não têm futuro a oferecer à humanidade como um todo. A classe trabalhadora não é uma classe de vítimas impotentes. É uma classe que traz consigo a possibilidade de um novo mundo libertado precisamente da exploração, das divisões entre classes e nações, da submissão das necessidades humanas às leis da acumulação.
Um filósofo (Buyng Chul Han) que está muito na moda em sua descrição do caos das relações sociais capitalistas atuais declarou recentemente que "não podemos deixar a revolução para o vírus". Isto é verdade. Somente a ação consciente de uma classe mundial para erradicar conscientemente as raízes da sociedade de classes pode constituir uma verdadeira revolução.
Valerio 24 de Março de 2020
[1] Ver em Revolução Internacional: L’incurie criminelle de la bourgeoisie! [56]
[4] Ver o mencionado artigo de Revolução Internacional
[5] Nome pelo qual se conheceu popularmente as medidas decretadas pela União Europeia diante da crise de 2008 e que previram, entre outras, um desmonte das estruturas sanitária.
[8] Como proibir passear ou fazer exercício nos parques. Medidas que não foram aplicadas por governos com menor índice de mortalidade por Covid-19. O que mostra a experiência de outros países é que o que é efeito para limitar a expansão do vírus é dispor de testes massivos para a população, leitos hospitalares e pessoal, leitos de UTI, etc. na proporção das próprias recomendações da União Europeia, e que a maioria dos estados dessa mesma UE, ignoram por conveniência.
[9] Obviamente para o verdadeiro comunismo, Rússia, China, Cuba, e suas variantes, são apenas expressões de uma versão de capitalismo: o capitalismo de Estado.
No final do nosso primeiro artigo sobre a pandemia de Covid-19, assinalámos: "Quer este novo vírus Covid-19 se torne uma nova pandemia, como aconteceu com a SRAG, quer persista como um novo vírus respiratório sazonal, esta nova doença é uma nova uma advertência de que o capitalismo se tornou um perigo para a humanidade e para a vida neste planeta. As enormes capacidades de desenvolvimento das forças produtivas, incluindo a ciência médica, para nos proteger das doenças estão sendo atropeladas com essa busca criminosa do lucro, pela superconcentração de uma grande parte da população humana em cidades inabitáveis, e com os riscos de novas epidemias que isso implica."
Hoje, esta pandemia tornou-se um problema de grande magnitude a nível mundial e causou um verdadeiro "tsunami" económico com consequências desastrosas. Por falta de espaço, não vamos entrar aqui na análise das suas implicações nesta dimensão económica. Faremos isso em um artigo futuro. No que se segue, vamos nos concentrar em analisar como esta epidemia revela a doença do capitalismo.
Hoje, confirmam-se as previsões mais pessimistas e a OMS deve reconhecer que se trata de uma pandemia global que já se estendeu a 117 países em todos os continentes, que o número de pessoas afetadas ultrapassa 120 000, que o número de mortes nas primeiras semanas da pandemia é superior a 4 000, etc. O que começou como um "problema" na China tornou-se agora uma crise social nas principais potências capitalistas do planeta (Japão, Estados Unidos, Europa Ocidental, etc.). Só na Itália, o número de mortes já excede as causadas a nível mundial pela epidemia da SRAS de 2002-2003. E as medidas draconianas de controle da população tomadas há um mês pelas autoridades "tirânicas" chinesas, como o confinamento de milhões de pessoas[1], e o draconiano "darwinismo social" de excluir dos serviços hospitalares todos aqueles que não são "prioridades" na luta para conter a doença, são agora comuns em muitas grandes cidades em todos os países afetados em todos os continentes.
As "mídias" burgueses estão constantemente nos bombardeando com dados, recomendações e "explicações" sem fim sobre o que eles querem nos apresentar como uma espécie de praga, um novo desastre "natural". Mas não há nada de "natural" nesta catástrofe; ela é o resultado da ditadura asfixiante do modo de produção capitalista senil e ultrapassado contra a natureza, e dentro dela, contra a espécie humana.
Os revolucionários não são competentes para realizar estudos epidemiológicos nem para fazer prognósticos sobre a evolução das doenças. O nosso papel é explicar, numa base materialista, as condições sociais que tornam possível e inevitável a ocorrência destes eventos catastróficos. Portanto, deixamos claro que a essência do sistema capitalista é colocar a exploração, o lucro e a acumulação à frente das necessidades humanas. Que um tipo diferente de capitalismo não é possível. Mas também podemos afirmar que essas mesmas relações capitalistas de produção que, num momento da história, permitiram um enorme progresso das forças produtivas (da ciência, de um certo domínio sobre a natureza para conter o sofrimento que ela impunha aos homens, ...) se tornaram hoje um obstáculo ao desenvolvimento destas. Também explicamos como o prolongamento por décadas desta fase de decadência capitalista levou, na ausência de uma solução revolucionária, à entrada numa nova fase: a da decomposição social[2], onde todas estas tendências destrutivas estão ainda mais concentradas, à deriva numa multiplicação do caos, da barbárie, do colapso progressivo das próprias estruturas sociais que garantem um mínimo de coesão social, ameaçando a própria sobrevivência da vida no planeta Terra.
Elucubrações de um punhado de marxistas ultrapassados? Com certeza não. Os cientistas que falam mais rigorosamente sobre o desenvolvimento da atual pandemia de Covid-19 afirmam que a proliferação deste tipo de epidemia é causada, entre outras coisas, pela deterioração acelerada do meio ambiente, que leva a um maior contágio a partir de animais (zoonoses) que, para sobreviver, estão próximos às concentrações humanas, e ao mesmo tempo é favorecida pela superpopulação de milhões de seres humanos em megalópoles que causam curvas de contágio verdadeiramente vertiginosas. Como explicamos em nosso artigo anterior sobre o Covid-19[3] , alguns médicos na China haviam de fato tentado alertar sobre um novo risco de uma epidemia de corona vírus, a partir de dezembro de 2019, mas foram diretamente censurados e reprimidos pelo Estado, pois isso ameaçava a imagem de uma importante potência mundial à qual a capital chinesa aspira.
A CCI também não é a primeira a insistir que uma das principais forças motrizes por trás da propagação desta pandemia é a crescente falta de coordenação das políticas dos diferentes países, que é uma das características do capitalismo, mas que é cada vez mais reforçada pelo avanço do "cada um por si" e da "voltada para si próprio" que caracteriza os estados e os capitalistas na fase de decomposição deste sistema e que tende a permear todas as relações sociais.
Não estamos a descobrir nada de novo quando assinalamos que o perigo desta doença não reside tanto no vírus em si, mas no fato de esta pandemia estar ocorrendo num contexto de enorme deterioração, ao longo de décadas e à escala global, das infraestruturas de saúde. De fato, é a "administração" destas estruturas cada vez mais pequenas e defeituosas que dita as políticas dos vários Estados, numa tentativa de atrasar o anúncio do aparecimento de novos casos, mesmo que isso signifique prolongar o efeito desta pandemia ao longo do tempo. E será esta degradação irresponsável dos recursos acumulados por décadas de trabalho humano - conhecimento, tecnologia, etc. – não reflete uma absoluta falta de perspectiva, uma total ausência de preocupação com o futuro da espécie humana, característica de uma forma de organização social - o capitalismo - que está em decomposição?
É claro que houve outras epidemias extremamente mortais na história da humanidade. Hoje em dia, é fácil encontrar nas "mídias" burgueses investigações e livros sobre como a varíola e o sarampo, a cólera ou a peste causaram milhões de mortes. O que falta em tais alegações é uma explicação de que a causa dessas mortes é essencialmente uma sociedade de escassez, tanto em termos de condições de vida como de conhecimento da natureza. O capitalismo coloca, precisamente, a possibilidade histórica de superar esta etapa de escassez material e, através do desenvolvimento das forças produtivas, de lançar as bases de uma abundância que poderia permitir uma verdadeira unificação e libertação da humanidade em uma sociedade comunista. Se considerarmos o século XIX, ou seja, o estágio de máxima expansão capitalista, podemos ver como a saúde, e portanto a doença, não é mais percebida como inevitável, como há progresso não só na pesquisa, mas também na comunicação entre diferentes pesquisadores, como há uma mudança real em direção a uma abordagem mais "científica" da medicina[4]. E tudo isso tem uma aplicação na vida diária das populações: desde medidas para melhorar o saneamento público até vacinas, desde a formação de especialistas médicos até a criação de hospitais. O aumento da população (de um para dois bilhões de pessoas) e especialmente da expectativa de vida (de 30-40 anos no início do século 19 para 50-65 anos em 1900) deve-se essencialmente a este avanço da ciência e do saneamento. Nada disto foi feito pela burguesia num espírito altruísta para as necessidades da população. O capitalismo nasceu "respingando de sangue e lama", como disse Marx. Mas em meio a este horror, o seu objetivo é obter a máxima rentabilidade da mão-de-obra, dos conhecimentos adquiridos pelos seus escravos assalariados durante as décadas de aprendizagem de novos procedimentos de produção, para garantir a estabilidade do transporte de fornecimentos e mercadorias, etc. Isto tornou a classe exploradora "interessada" - ao menor custo, também é verdade - em prolongar a vida laboral dos seus empregados, em assegurar a reprodução da mercadoria que é a força de trabalho, em aumentar a mais-valia relativa através do aumento da produtividade da classe explorada.
Esta situação foi invertida através da mudança de período histórico entre o período ascendente do capitalismo e sua decadência, que nós revolucionários colocamos, após a Internacional Comunista, a partir da Primeira Guerra Mundial[5]. Não é por acaso que, por volta de 1918, ocorreu uma das epidemias mais mortíferas da história da humanidade: a chamada "gripe espanhola" de 1918-19. Na magnitude desta pandemia, vemos que não é tanto a virulência do patógeno como as condições sociais características da guerra imperialista na decadência capitalista (a dimensão global do conflito, o impacto da guerra na população civil das principais nações, etc.) que explicam a dimensão da catástrofe: 50 milhões de mortos, quando o número de mortos na Primeira Guerra Mundial é estimado a 10 milhões de mortos.
Esta guerra e horror teve um segundo episódio, ainda mais aterrador, na Segunda Guerra Mundial. As atrocidades da primeira carnificina imperialista, como o uso de gases asfixiantes, foram momentaneamente deixadas de lado antes das barbaridades da Guerra Mundial de 1939-45 serem desencadeadas por todas as potências envolvidas: desde o uso de seres humanos para as experiências alemãs e japonesas, ao uso precoce de armas biológicas (o antraz foi experimentado pelos britânicos, por exemplo), até seu clímax com o uso da bomba atômica pelos americanos. O respeito mais básico pela vida humana revelou-se então incapaz de impedir o desdobramento de todo o potencial devastador do militarismo capitalista.
E no chamado período de "paz" que se segue? É verdade que as grandes potências capitalistas montaram sistemas de saúde, baseados no modelo do SHS britânico criado em 1948 - que é considerado como uma das referências fundadoras do chamado "Estado-Providência" - para prestar cuidados de saúde "universais" que visavam, entre outras coisas, prevenir epidemias como a gripe espanhola. Será que o capitalismo humanitário se tornou uma conquista dos trabalhadores? Certamente que não. O objetivo destas medidas era assegurar a reparação, ao menor custo, de uma mão-de-obra (um bem raro porque a guerra tinha arrastado grandes sectores do proletariado para a sepultura) e garantir todo o processo produtivo de reconstrução. Isto não significa que os "remédios" empregados não se tornem, eles próprios, fontes de novos males. Vemos isto, por exemplo, no uso de antibióticos prescritos para deter as infecções mas que, de acordo com as necessidades da produtividade capitalista, são prescritos abusivamente a todo o custo para encurtar os períodos de licença médica. E isto acabou por causar um grande problema de resistência bacteriana - as chamadas "superbactérias" - que acabam reduzindo o arsenal terapêutico para atacar infecções. Também se manifesta no aumento de doenças como a obesidade e a diabetes, causadas pela deterioração do regime alimentar da classe trabalhadora - ou seja, uma redução do custo da reprodução da força de trabalho da classe explorada - e das camadas mais pobres da sociedade, ao ponto de o uso da tecnologia alimentar pelo capitalismo ser um fator de propagação da obesidade. E também podemos ver como os remédios prescritos para tornar mais suportável a dor crescente que este sistema de exploração inflige à população trabalhadora levaram a fenômenos como a epidemia causada pelo uso intensivo de substâncias opiláceas que, até a chegada do Corona vírus, era, por exemplo, o principal problema de saúde nos Estados Unidos, causando mais mortes do que todas as vítimas da Guerra do Vietnã.
A pandemia de Covid-19 não pode ser apartada do restante dos problemas que afetam a saúde da humanidade. Pelo contrário, mostram que a situação só pode piorar se continuar sujeita ao sistema de saúde desumanizado e mercantilizado que é o sistema de saúde capitalista do século XXI. A origem das doenças hoje não é tanto a falta de conhecimento ou de tecnologia por parte da humanidade. Da mesma forma, os conhecimentos atuais em epidemiologia devem permitir conter uma nova epidemia. Por exemplo: em apenas duas semanas após a descoberta da doença, os laboratórios de pesquisa já tinham conseguido sequenciar o vírus que causou o Covid-19. O obstáculo que a população deve superar é que a sociedade está sujeita a um modo de produção que beneficia uma minoria social exploradora e se tornou um empecilho ao tratamento contra as doenças. O que vemos é que a corrida para desenvolver uma vacina, em vez de ser um esforço coletivo e coordenado, é na verdade uma guerra comercial entre laboratórios. As necessidades humanas genuínas estão subordinadas às leis da selva capitalista. Concorrência feroz para chegar primeiro a uma parcela do mercado e poder tirar os lucros dessa vantagem é a única coisa que importa a qualquer capitalista.
Em nosso recente 23º Congresso Internacional, adotamos uma resolução sobre a situação internacional, na qual retomamos e reivindicamos a validade do que tínhamos escrito em nossas teses sobre Decomposição :
"As teses de maio de 1990 sobre a decomposição destacam uma série de características na evolução da sociedade resultantes da entrada do capitalismo nesta última fase da sua existência. O relatório aprovado pelo 22º Congresso apontou o agravamento de todas essas características, por exemplo:
O que podemos ver hoje é que estas manifestações se tornaram o fator decisivo na evolução da sociedade capitalista, e que só a partir delas podemos interpretar o surgimento e desenvolvimento de eventos sociais de grande escala. Se olharmos para o que está acontecendo com a pandemia de Covid-19, podemos ver a importância da influência de dois elementos característicos desta fase terminal do capitalismo:
1. Em primeiro lugar, a China não é apenas o cenário geográfico para a origem das epidemias mais recentes com o surto da SRA em 2002-2003 ou Covid-19. Para além deste elemento circunstancial, é necessário compreender as características do desenvolvimento do capitalismo chinês na fase de decomposição do capitalismo mundial e a sua influência na situação atual. Em poucos anos, a China tornou-se a segunda potência mundial com enorme importância no comércio e na economia mundial, beneficiando inicialmente do apoio dos EUA após sua mudança do bloco imperialista (em 1972) e, após o desaparecimento desses blocos em 1989, como principal beneficiário da chamada globalização. Mas precisamente por causa disto, "A potência da China tem todos os estigmas do capitalismo terminal: baseia-se na superexploração da força de trabalho proletária, no desenvolvimento desenfreado da economia de guerra do programa nacional de "fusão civil-militar" e é acompanhado pela destruição catastrófica do ambiente, enquanto a "coesão nacional" se baseia no controle policial das massas sujeitas à educação política do Partido Único (...) De fato, a China é apenas uma metástase gigantesca do câncer militarista generalizado de todo o sistema capitalista: sua produção militar está se desenvolvendo a um ritmo frenético, seu orçamento de defesa se multiplicou por seis em 20 anos e está em segundo lugar no mundo desde 2010"[6]
Este desenvolvimento da China, tão frequentemente apresentado como um exemplo da força duradoura do capitalismo, é na verdade a principal manifestação da sua decrepitude. A influência das suas conquistas tecnológicas ou da sua expansão pelo mundo graças a iniciativas espetaculares como a nova "Rota da Seda", não pode fazer-nos perder de vista as condições de sobre-exploração enorme (dias de trabalho esgotantes, salários miseráveis, etc.) em que centenas de milhões de trabalhadores sobrevivem, em condições de habitação, alimentação, cultura, que são enormemente retrógradas e que, além disso, estão tornando-se cada vez mais incipientes. Por exemplo, as despesas de saúde per capita, já de si escassas, diminuíram em 2,3%. Outro exemplo edificante são os alimentos que são produzidos com padrões de higiene muito baixos ou diretamente sem nenhuma, como no consumo de carne de animais silvestres no mercado negro. Nos últimos dois anos, a pior epidemia da história da gripe suína africana espalhou-se pela China, forçando o abate de 30% destes animais e provocando um aumento de 70% no preço da carne de porco.
2. O segundo elemento que mostra o crescente impacto da decomposição capitalista é a erosão do mínimo de coordenação que existia entre as diferentes capitais nacionais. É verdade que, como o marxismo analisou, a unidade máxima a que o capitalismo pode aspirar - mesmo relutantemente - é o Estado nacional e, portanto, o superimperialismo não é possível. Isto não significa que, quando o mundo foi dividido em blocos imperialistas, não foi criada toda uma série de estruturas, desde a UNESCO até à Organização Mundial de Saúde, que tentaram gerir um mínimo de interesses comuns entre as diferentes capitais nacionais. Mas esta tendência para um mínimo de coordenação está se deteriorando- à medida que a fase de decomposição capitalista avança. Como também analisámos na já citada resolução sobre a situação internacional do nosso 23º Congresso: "O aprofundamento da crise (assim como as exigências da rivalidade imperialista) está pondo à prova as instituições e mecanismos multilaterais" (ponto 20).
Isto pode ser visto, por exemplo, no papel desempenhado pela Organização Mundial de Saúde. A coordenação internacional face à epidemia da SRAS em 2002-2003, assim como a rapidez de certas descobertas[7] em laboratórios de todo o mundo, explicam a baixa incidência de um vírus de uma família muito semelhante à do atual Covid-19. No entanto, este papel foi posto em causa pela resposta desproporcionada da OMS ao surto de gripe A de 2009, em que o alarmismo da instituição foi usado para provocar vendas massivas do antiviral "Tamiflu" fabricado por um laboratório no qual o ex-secretário da Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, tinha um interesse declarado. Desde então, a OMS tem sido quase relegada ao papel de uma ONG que faz "recomendações" pontuais mas é incapaz de impor as suas diretivas aos vários capitais nacionais. Nem sequer são capazes de unificar os critérios estatísticos de contagem de pessoas infectadas, o que abre caminho para que cada capital nacional tente esconder, durante o máximo de tempo possível, o impacto da epidemia nos seus respectivos países. Isto aconteceu não só na China, que tentou esconder os primeiros sinais da epidemia, mas também nos Estados Unidos, que estão tentando varrer para debaixo do tapete o número de pessoas afetadas para não revelar um sistema de saúde baseado em seguros privados, ao qual 30% dos cidadãos americanos praticamente não têm acesso. A heterogeneidade dos critérios de aplicação dos testes diagnósticos, ou as diferenças entre os protocolos de atuação nas diferentes fases, têm sem dúvida repercussões negativas para conter a propagação de uma pandemia global. Pior ainda, cada capital nacional adota medidas que proíbem a exportação de equipamento de proteção e higiene ou de aparelhos de respiração, como fizeram, por exemplo, a Alemanha de Merkel ou a França de Macron. Estas são medidas que favorecem a defesa do interesse nacional em detrimento do que pode ser mais urgente em outros países..
A propaganda da mídia nos bombardeia constantemente com apelos à responsabilidade individual dos cidadãos para evitar o colapso dos sistemas de saúde que, em muitos países, estão mostrando sinais de exaustão (exaustão dos trabalhadores, falta de recursos materiais e técnicos, etc.) A primeira coisa a denunciar é que estamos diante da crônica de um desastre anunciado, e não por causa da "irresponsabilidade" dos cidadãos, mas por causa de décadas de cortes nos gastos na saúde, o número de trabalhadores da saúde e os orçamentos de manutenção dos hospitais e da pesquisa médica.[8]... Por exemplo, na Espanha, um dos países mais próximos do "colapso" que somos chamados a evitar, sucessivos planos de redução levaram ao desaparecimento de 8 000 leitos hospitalares[9], com unidades de tratamento intensivo abaixo da média europeia, com equipamentos em mau estado de conservação (67% do equipamento respiratório tem mais de 10 anos). A situação é muito semelhante na Itália e na França. Na Grã-Bretanha acima mencionada, que havia sido apresentada como modelo de atenção universal à saúde, houve uma deterioração contínua na qualidade do atendimento nos últimos 50 anos, com mais de 100 000 vagas a serem preenchidas no setor de saúde. E tudo isto foi mesmo antes do Brexit!
E são estes mesmos profissionais de saúde que viram as suas condições de vida e de trabalho deteriorarem-se sistematicamente, confrontados com uma pressão crescente para prestar cuidados (mais pacientes e mais doenças) com um número cada vez menor de funcionários, que estão agora a sofrer uma pressão adicional devido ao colapso dos serviços de saúde como resultado da pandemia, aqueles que pedem aplausos pela coragem e o auto sacrifício destes funcionários do serviço público são os mesmos que os levaram à exaustão, eliminando os intervalos regulamentares, transferindo-os à força de um local de trabalho para outro, fazendo-os trabalhar - face a uma pandemia cuja evolução é desconhecida - sem equipamento de proteção individual suficiente (máscaras, vestuário, equipamento descartável) e formação adequada. Fazê-los trabalhar nestas condições torna-os ainda mais vulneráveis ao próprio impacto da epidemia, como vimos na Itália, onde pelo menos 10% deles foram infectados com o vírus.
E para forçar os trabalhadores a obedecer a essas requisições, eles recorrem ao arsenal repressivo de "estados de alerta" que ameaçam aqueles que se recusam a segui-los com todo tipo de sanções, multas e processos. Estas ordens e esta política das autoridades têm sido em muitos casos a causa direta de tal caos.
Diante desta situação, que impõe ao pessoal de saúde o "facto consumado" do estado desastroso dos cuidados, os trabalhadores deste sector são também obrigados a ser aqueles que, tendo de aplicar métodos próximos da eugenia, optam por dedicar os escassos recursos disponíveis aos doentes com maiores possibilidades de sobrevivência, como vimos com as orientações defendidas pela Associação Italiana de Anestesistas e Médicos de Urgência, que caracteriza a situação como a de um "estado de guerra". Na verdade, é uma guerra às necessidades humanas travada pela lógica do capital, na qual os próprios trabalhadores deste setor sofrem cada vez mais ansiedade porque têm de trabalhar de acordo com estas leis desumanas. A ansiedade expressa por muitos desses trabalhadores é o resultado do fato de que eles não podem sequer se rebelar contra tais critérios, nem podem se recusar a trabalhar em condições indignas, nem podem recusar os sacrifícios de suas condições de vida, porque fazê-lo, por exemplo, por meio de greves, prejudicaria seriamente seus irmãos e irmãs de classe, os demais explorados. Não podem sequer encontrar-se, reunir-se com outros camaradas, expressar fisicamente a solidariedade entre os trabalhadores, porque isso contraria os protocolos de "dispersão social" que a contenção da epidemia exige.
Eles, nossos camaradas do setor da saúde não podem lutar abertamente, na situação atual, mas o resto da classe trabalhadora não pode deixá-los sozinhos. Todos os trabalhadores são vítimas deste sistema e todos os trabalhadores acabarão por pagar, mais cedo ou mais tarde, o custo desta epidemia. Seja por causa de cortes de saúde "não prioritários" (suspensão de operações cirúrgicas, consultas médicas, etc.) ou por causa das dezenas de milhares de cancelamentos de contratos temporários, ou por causa da redução de salários devido a licenças médicas, etc. E aceitar isto seria dar luz verde a novos e ainda mais brutais ataques antitrabalhadores em elaboração. Devemos, portanto, continuar afiando a arma da solidariedade dos trabalhadores, como vimos recentemente nas lutas em França contra a reforma das pensões.
A explosão das contradições insuperáveis do capitalismo no coração do sistema de saúde são sintomas inequívocos da senilidade terminal e do impasse do sistema capitalista. Assim como os vírus afetam os organismos mais desgastados e causam episódios mais graves de doença, o sistema de saúde é irrevogavelmente sucateado por anos de austeridade e "gestão" baseada não nas necessidades da população, mas nas exigências de um capitalismo em crise e declínio. O mesmo vale para a economia capitalista, sustentada artificialmente pela constante manipulação das próprias leis de valor do capitalista e a fuga para o endividamento, tornando-a tão frágil que uma epidemia poderia precipitar uma nova e ainda mais brutal recessão global.
Mas o proletariado não é apenas a vítima desta catástrofe para a humanidade que é o capitalismo. É também a classe que tem o potencial e a capacidade histórica de erradicá-lo definitivamente através de sua luta, desenvolvendo sua reflexão consciente, sua solidariedade de classe. Só a sua revolução comunista pode e deve substituir as relações humanas baseadas na divisão e na competição por aquelas baseadas na solidariedade. Ao organizar a produção, o trabalho, os recursos da humanidade e da natureza com base nas necessidades humanas e não com base nas leis do lucro de uma minoria exploradora.
Valerio 13 de Março de 2020
[1] Claramente, é necessário impedir as pessoas de viajar ou encorajá-las a ficar em casa, pois a propagação da infecção deve ser evitada. Mas a forma como estas medidas são impostas (sem praticamente nenhum apoio estatal para o cuidado de crianças ou idosos, seletivamente - e embora não ponham em causa, por exemplo, o trabalho nas fábricas - ao mesmo tempo que desenvolvem um verdadeiro policiamento da população) ostenta a marca do modus operandi do totalitarismo de estado capitalista. Em nossos próximos artigos, voltaremos também ao impacto dessas ações na vida cotidiana dos explorados no mundo.
[2] Ler nossas teses sobre a decomposição em espanhol Tesis sobre la descomposición [55] e a resolução sobre a situação internacional do 23° congresso da CCI [61]
[3] Ler em espanhol Corona Virus: Una evidencia más de que el capitalismo se ha convertido en un peligro para la humanidad [61]
[4] Procurando as causas objetivas das infecções e não religiosas ou fantásticas (a "tória de 4 humores" da medicina antiga, por exemplo), tentando obter uma imagem materialista da anatomia e fisiologia humana, etc., somos capazes de identificar as causas das infecções.
[5] Veja nos números mais recentes da nossa Revista Internacional (Nos. 162 e 163) os nossos artigos sobre o centenário da Internacional Comunista.
[7] Por exemplo, o papel do civeta como transmissor intermediário da doença para os seres humanos levou a uma eliminação relâmpago destes animais na China, o que impediu muito rapidamente a propagação da doença.
[8] Em França, por exemplo, a pesquisa iniciada sobre a família coronavírus após a epidemia de 2002-2003 foi abruptamente interrompida em 2005 devido a cortes orçamentais.
[9] Esta tendência é uma dinâmica que pode ser vista em todos os países e sob governos de todas as cores políticas, como pode ser visto neste gráfico do Euroestat [62].
“Cada um de nós deve participar neste esforço massivo para preservar a segurança mundial”, disse o diretor da OMS num comunicado à imprensa em 16/03. No dia Em 27 de março, o presidente francês, Macron, declarou: “Não vamos superar essa crise sem uma forte solidariedade europeia, tanto a nível de saúde como orçamentário”. Por seu lado, a chanceler alemã, Merkel, exigia diante da crise de saúde: “mais Europa, uma Europa mais forte e uma Europa que funcione bem”. Os políticos pedem à população que demostre solidariedade, civismo e unidade para lutar contra o “inimigo invisível”. Num momento com necessidade extrema de máscaras e equipamento médico, dada a escandalosa escassez de ambos, vê-se os políticos e a mídia denunciarem roubos em hospitais, farmácias e mesmo carros das equipes de saúde. A burguesia aponta o dedo e condena com veemência o comportamento egoísta destes bandidos “infames e vis”, numa época que o mundo todo está “em guerra” e supostamente unido contra a COVID-19.
Mas o certo é que, enquanto a burguesia mostra indignação e desprezo por esses comportamentos, ela própria aplica friamente esses mesmos métodos de bandidos em todo o planeta: roubar e “requisitar” os pedidos de outros países, pagar mais que seus competidores no leilão de equipamentos de saúde e sequestrar os produtos nos transportes em processo de entrega. É assim como a burguesia expressa sua “solidariedade” para “preservar a segurança mundial”.
Desse modo, no inicio da epidemia na Europa, a China inaugurou uma diplomacia interessada no envio de algumas máscaras e respiradores para a Itália, mas estes foram imediatamente retidos pela República Tcheca. E, com grande hipocrisia, eles negaram alegando se tratar de um infeliz mal-entendido.
No começo de março, foi a França que “requisitou” e reteve em seu território máscaras suecas debaixo do nariz da Espanha e da Itália, países muito afetados pela epidemia, aos quais eram destinadas a entrega. Somente após pressão do governo sueco, o governo francês aceitou, furioso, ficar apenas com metade da carga roubada. Um mês depois, à proporção que o escândalo aumentava (tratava-se, é claro, de um “mal-entendido”), Macron pediu mais “coerência” e devolveu, a contragosto, todas as máscaras a seus destinatários.
Os Estados Unidos também foram acusados de se apropriarem de equipamento médicos destinados para a Alemanha, Canadá e França. Trump, diferentemente de seus colegas estrangeiros que aparentam serem mais civilizados, mostra sem nenhuma dissimulação toda a brutalidade de suas intenções: “precisamos destas máscaras, não queremos que outras pessoas as obtenham”.
Na África, um epidemiologista alertou recentemente que há uma situação muito preocupante para o continente: hospitais não podem obter testes, uma vez que se dá prioridade para as nações mais poderosas, aos “poderosos chefões”: os EUA ou Europa. Essas “grandes democracias” estão se apropriando dos testes, uma mercadoria infelizmente escassa. Isso explica porque as taxas de contágio pela COVID-19 na África sejam tão baixas. E a lista das cínicas ações de pirataria realizadas pelos Estados burgueses podia se estender mais ainda[1]!
Inclusive dentro de cada nação, a burguesia dificilmente contém a guerra de todos contra todos. E se os EUA lutam no pé do avião para se apropriarem dos insumos médicos, os estados federais, as regiões e mesmo as cidades também estão brigando entre si para proteger “seus” habitantes.
Do mesmo modo, na Espanha, onde o regionalismo tem grande peso, explodiu uma polêmica quando o governo requisitou e centralizou os estoques de máscaras. Mas a incompetência das autoridades espanholas impeliu que cada governo regional buscasse seus próprios equipamentos em concorrência com os demais. O Estado central foi acusado de alimentar tensões e até de “invasão” por Quim Torra, o presidente da Generalitat [NdT:governo da Catalunha]. Tudo é aproveitado para reafirmar os mesquinhos interesses “regionais” proclamando que cada um em “sua” casa faz o que lhe der vontade. Da mesma maneira, no México, o governador de Jalisco está pressionando o governo federal para que deixe de reter os testes em benefício da região da Cidade do México.
É essa mesma burguesia, a que tanto se enfeita com lindos discursos moralizantes, a que chama a solidariedade internacional e que convoca suas “tropas” a cerra fileiras em torno do Estado protetor. Belas mentiras!!! A “solidariedade” que a burguesia apela não é mais do que uma expressão do “cada um por si”, uma intensificação do caos e da barbárie capitalista em escala planetária!
Diante desta crise, deixar que o Estado nacional se aproprie das máscaras dos “estrangeiros” só pode agravar o mal. O capitalismo, cínico e assassino, não tem outra perspectiva para oferecer à humanidade senão aquilo que ilustra este lamentável espetáculo de roubo e pilhagem: miséria e destruição! A única força social portadora de um projeto histórico capaz de por fim às guerra de todos contra todos contra todos é classe trabalhadora, que não tem nenhuma pátria para defender, que tem como interesse as necessidades de toda a humanidade e não apenas os da “nação” (o sua versão “regionalista”)! É a classe trabalhadora, por meio dos trabalhadores da saúde (por exemplo), que está salvando vidas colocando as suas próprias em risco. Embora a situação de pandemia e de isolamento impeça atualmente qualquer mobilização massiva e limite as expressões de solidariedade na luta, é a classe trabalhadora que tenta, em muitos setores e vários países, resistir à negligência da burguesia e à anarquia do capitalismo. Nossa classe leva em si uma sociedade nova, sem fronteiras e sem concorrência entre si, onde os trabalhadores dos hospitais já não se verão obrigados a fazer uma distinção macabra entre os doentes “produtivos” e “improdutivos” (os aposentados, incapazes, etc.), onde o valor de uma vida já não seja medida nos cálculos orçamentários!
Olive, 7 de abril de 2020.
Traduzido de Révolution Internationale, órgão da CCI na França.
[1] Mas diferentemente dos piratas de antes, que roubavam ouro e bens preciosos, estes bandidos também lutam pela típica mercadoria do capitalismo: produtos de pouca qualidade e valor! Aventais que dissolvem ao sair da caixa, máscaras com bolor, respiradores com problemas, etc.
A CCI adotou as Teses sobre Decomposição há mais de 25 anos. Desde aquela época, esta análise da fase atual da vida da sociedade tornou-se um elemento-chave para a compreensão de nossa organização do mundo em transformação.
Atualizamos estas teses à luz da evolução da situação mundial ao longo do último quarto de século, e particularmente durante o último período. Esta atualização foi publicada ao mesmo tempo em que os textos de nosso 23º Congresso. De modo geral, todas as manifestações sociais, políticas e ideológicas da decomposição têm sido amplamente verificadas, assim como a questão do terrorismo. Outras manifestações deste período terminal na vida do capitalismo foram destacadas nesta ocasião: a questão dos refugiados, a ascensão do populismo.
A derrocada do bloco imperialista do Leste confirmou a entrada do capitalismo numa nova fase do seu período de decadência: a da decomposição geral da sociedade. Mesmo antes do colapso do bloco do Leste, a CCI já tinha destacado este fenômeno histórico. Estes acontecimentos, a entrada do mundo num período de instabilidade nunca antes visto, obrigam os revolucionários a analisar este fenômeno, as suas causas e as suas consequências com a maior atenção, a fim de destacar o que está em jogo na nova situação histórica.
TESES
1. Todos os modos de produção do passado conheceram um período de ascendência e um período de decadência. Para o marxismo, o primeiro período corresponde a um alinhamento total das relações dominantes de produção com o nível de desenvolvimento das forças produtivas na sociedade, e o segundo período é uma expressão de que as relações de produção se tornaram demasiado estreitas para conter esse desenvolvimento. Ao contrário das aberrações defendidas pelos bordiguistas, o capitalismo também está sujeito a esta lei. Desde o início do século, e especialmente desde a Primeira Guerra Mundial, os revolucionários mostraram que este modo de produção tinha, por sua vez, entrado no seu período de declínio. Contudo, seria falso se limitar em dizer que o capitalismo seguiria o mesmo caminho que os modos de produção que o precederam. As diferenças fundamentais entre o declínio do capitalismo e o das sociedades do passado também devem ser enfatizadas. Na realidade, o declínio do capitalismo, como o conhecemos desde o início do século XX, parece ser o período de declínio por excelência (se é permitido dizê-lo). Em comparação com a decadência das sociedades anteriores (as sociedades escravagistas e feudais), a decadência do capitalismo está em um nível muito diferente. E isto é assim, porque:
No final, a diferença entre a amplitude e a profundidade da decadência capitalista e os declínios do passado não pode ser resumida a um problema de mera quantidade. A própria quantidade dá uma "qualidade" diferente e nova. A decadência do capitalismo é de fato:
2. Todas as sociedades em decadência continham aspectos de decomposição: deslocamento do corpo social, putrefação das suas estruturas econômicas, políticas e ideológicas, etc. O mesmo tem acontecido no capitalismo desde que começou o seu declínio. No entanto, assim como é necessário distinguir claramente esta decadência das do passado, também é indispensável destacar as diferenças fundamentais entre os elementos de decomposição que afetaram o capitalismo desde o início deste século e a decomposição generalizada em que o sistema está atualmente afundando e que só pode piorar. E nisso, para além do meramente quantitativo, o fenômeno da decomposição social atinge hoje uma tal profundidade e amplitude que assume uma nova qualidade, uma qualidade singular, uma expressão da entrada do capitalismo decadente numa fase específica - e última - da sua história, aquela em que a decomposição social se torna um fator, até mesmo o fator decisivo na evolução da sociedade.
Nesse sentido, seria errado identificar a decadência e a decomposição social. Não é concebível que haja uma fase de decomposição fora de um período de decadência; mas é concebível que haja uma decadência sem que esta se expresse pelo aparecimento de uma fase de decomposição.
3. De fato, da mesma forma que o capitalismo conhece diferentes períodos em seu percurso histórico - nascimento, ascensão, decadência - cada um desses períodos também contém suas diferentes fases. Por exemplo, o período de ascensão teve as sucessivas fases do mercado livre, da sociedade por ações, do monopólio, do capital financeiro, das conquistas coloniais, do estabelecimento do mercado mundial. Da mesma forma, o período de declínio também teve sua história: imperialismo, guerras mundiais, capitalismo de estado, crise permanente e, hoje, decomposição. Estas são diferentes expressões sucessivas da vida do capitalismo cada uma delas permitindo caracterizar uma fase particular desta; mesmo que estas expressões talvez já existissem na fase anterior, talvez permanecessem na seguinte. Por exemplo, a um nível mais geral, embora o salário já existisse na sociedade escravagista ou feudal (tal como a escravidão ou a servidão eram mantidas no capitalismo), foi apenas no capitalismo que esta relação de exploração se tornou dominante na sociedade. O imperialismo existiu durante a fase ascendente do capitalismo. No entanto, não adquiriu o lugar dominante na sociedade, na política dos Estados e nas relações internacionais até que o capitalismo entrou no seu período de decadência, imprimindo a sua marca na primeira fase dessa decadência e fazendo com que os revolucionários da época a identificassem com a própria decadência.
Assim, a fase de decomposição da sociedade capitalista não aparece apenas como a continuidade cronológica daquelas caracterizadas pelo capitalismo de estado e pela crise permanente. Na medida em que as contradições e expressões da decadência do capitalismo que o marcaram sucessivamente em suas diferentes fases não desaparecem com o tempo mas são mantidas e até aprofundadas, de modo que a fase de decomposição é o resultado da acumulação de todas essas características de um sistema moribundo, a fase que termina com três quartos de século de agonia de um modo de produção condenado pela história. Em outras palavras, não só o caráter imperialista de todos os Estados, a ameaça da guerra mundial, a absorção da sociedade civil pelo monstro do Estado, a crise permanente da economia capitalista, permanecem na fase de decomposição, mas esta aparece como a consequência final, como uma síntese acabada de todos estes elementos. Esta é o resultado:
É a última etapa para a qual tendem as convulsões fenomenais que, desde o início do século 20, através de uma espiral infernal de crise-reconstrução-guerra-nova crise, abalaram a sociedade e suas diferentes classes:
4. Este último ponto é precisamente o novo, o específico, o inédito, que acabou por ser a causa da entrada do capitalismo decadente numa nova fase da sua história, a da decomposição. A crise aberta que começou no final dos anos 60, como consequência do esgotamento da reconstrução do pós-guerra, abre mais uma vez o caminho para a alternativa histórica da guerra mundial ou dos confrontos de classe generalizados rumo à revolução proletária. Mas, ao contrário da crise aberta dos anos 1930, a crise atual desenvolveu-se numa altura em que a classe trabalhadora não estava sujeita à contrarrevolução. É por isso que, com o seu ressurgimento histórico de 1968, deu a prova de que a burguesia não tinha as mãos livres para desencadear uma terceira guerra mundial. Ao mesmo tempo, embora o proletariado tenha encontrado as forças para impedir esta "solução", ainda não encontrou as forças necessárias para derrubar o capitalismo, por conta:
Em tal situação, em que as duas classes fundamentais e antagônicas da sociedade se confrontam sem conseguir impor sua própria resposta decisiva, a história continua, no entanto, seu curso. No capitalismo, ainda menos do que nos outros modos de produção que o precederam, a vida social não pode "estagnar" ou ser "congelada". Enquanto as contradições do capitalismo em crise continuam a agravar-se, a incapacidade da burguesia de oferecer a toda a sociedade a menor perspectiva e a incapacidade do proletariado de afirmar abertamente a sua, só podem desembocar num fenômeno de decomposição generalizada, de apodrecimento da sociedade desde as suas raízes.
5. Com efeito, nenhum modo de produção pode continuar vivendo, desenvolver-se, estabelecer-se sobre bases firmes, manter a coesão social, se não for capaz de dar uma perspectiva ao conjunto da sociedade que domina. E isto é ainda mais verdade para o capitalismo, tendo sido o modo de produção mais dinâmico da história. Quando as relações capitalistas de produção eram o marco apropriado para o desenvolvimento das forças produtivas, esta perspectiva se confundia com o progresso histórico, não só da sociedade capitalista, mas de toda a humanidade. Nestas circunstâncias, apesar dos antagonismos de classe ou rivalidades entre setores, especialmente nacionais, da classe dominante, toda a vida social poderia se desenvolver sem grandes perturbações. Quando estas relações de produção se tornaram obstáculos ao crescimento das forças produtivas e, portanto, obstáculos ao desenvolvimento social, marcando assim a entrada num período de decadência, surgiram as convulsões que conhecemos há três quartos de século. Neste quadro, o tipo de perspectiva que o capitalismo poderia oferecer à sociedade não pode deixar de depender dos limites que a sua decadência permite:
Nenhuma destas perspectivas significava, naturalmente, a menor "solução" para as contradições do capitalismo. Todos elas tinham, porém, a vantagem de aparecer como objetivos "realistas": ou para preservar a sobrevivência do seu sistema contra a ameaça do seu inimigo de classe, o proletariado, ou para organizar a preparação da guerra mundial ou o seu desencadeamento, ou para realizar uma retomada da economia após tal guerra. Por outro lado, em uma situação histórica em que a classe trabalhadora ainda não está em condições de se engajar imediatamente na luta por sua própria perspectiva, a revolução comunista, mas onde a burguesia também não pode oferecer qualquer perspectiva, mesmo a curto prazo, a capacidade que demonstrou no passado, mesmo durante o período de decadência, de limitar e controlar o fenômeno da decomposição só pode desabar sob os golpes da crise. É por isso que a atual situação de crise aberta se apresenta em termos radicalmente diferente da crise anterior do mesmo tipo, a dos anos 30. Se esta última não deu origem a um fenômeno de decomposição, não é porque tenha durado apenas dez anos, enquanto a atual já dura duas décadas. Se a decomposição da sociedade não se desenvolveu na década de 1930, foi principalmente porque a burguesia, diante da crise, teve as mãos livres para dar rédea solta à sua "solução". Uma solução de crueldade indescritível, uma resposta suicida que resultou na maior catástrofe da história da humanidade, uma resposta que a burguesia não tinha escolhido deliberadamente, mas que lhe foi imposta pelo agravamento da crise; mas também uma solução em torno da qual, na ausência de resistência significativa do proletariado, foi capaz de organizar o aparelho produtivo, político e ideológico da sociedade. Hoje, porém, devido ao próprio fato de que durante duas décadas o proletariado foi capaz de impedir que tal solução fosse realizada, a burguesia tem sido incapaz de organizar o mínimo para mobilizar os diferentes componentes da sociedade, mesmo entre a classe dominante, em torno de um objetivo comum, se não de segurar passo a passo e sem esperança de alcançá-lo, diante dos avanços da crise.
6. É assim que, mesmo que a fase de decomposição apareça como um coroamento, como uma síntese de todas as contradições e manifestações sucessivas da decadência capitalista:
Esta fase de decomposição é essencialmente determinada por condições históricas novas, sem precedentes e inesperadas: a situação de bloqueio momentâneo da sociedade, devido à mútua "neutralização" das suas duas classes fundamentais, o que impede que cada uma delas dê a sua resposta decisiva à crise aberta da economia capitalista. As manifestações da decomposição, as condições da sua evolução, só podem ser examinadas colocando este aspecto em primeiro plano.
7. Se analisarmos as características essenciais da decomposição tal como aparecem hoje, podemos ver que elas têm como denominador comum a esta falta de perspectiva. Por exemplo:
Todas estas calamidades econômicas e sociais, embora geralmente se devam à própria decadência do sistema, dão conta, pela sua acumulação e extensão, do impasse em que entrou um sistema que não tem o menor futuro a oferecer à grande maioria da população mundial, se não o de uma barbárie crescente e inimaginável. Um sistema cujas políticas econômicas, cujas pesquisas e investimentos são sistematicamente feitos em detrimento do futuro da humanidade e, portanto, em detrimento do próprio sistema.
8. Mas as manifestações da total falta de perspectivas na sociedade de hoje são ainda mais evidentes no âmbito político e ideológico. Por exemplo:
Todas estas manifestações de putrefação social que, hoje, numa escala desconhecida na história, invadem a sociedade humana de todos os lados, só podem expressar uma coisa: não só a deslocação da sociedade burguesa, mas sobretudo a destruição de todos os princípios da vida coletiva dentro de uma sociedade sem o menor projeto, a menor perspectiva, mesmo a curto prazo, mesmo a mais ilusória.
9. Entre as características mais importantes da decomposição da sociedade capitalista, é necessário sublinhar a crescente dificuldade da burguesia em controlar a evolução da situação a nível político. Na raiz deste fenômeno está, naturalmente, a perda cada vez maior do controle da classe dominante sobre seu aparelho econômico, que constitui a infraestrutura da sociedade.. O impasse histórico em que está imerso o modo de produção capitalista, os sucessivos fracassos das diferentes políticas postas em prática pela burguesia, a permanente fuga às dívidas cegas com que a economia mundial sobrevive, todos estes fatores têm inevitavelmente um impacto num aparelho político incapaz, por seu lado, de impor à sociedade, e especialmente à classe trabalhadora, a "disciplina" e a adesão necessárias para mobilizar todas as forças e toda a energia para a guerra mundial, a única "resposta" histórica que a burguesia é capaz de "oferecer". A falta de qualquer perspectiva (além de remendar a economia no dia a dia) para a qual ela pode se mobilizar como classe, e quando o proletariado ainda não é uma ameaça à sua sobrevivência, leva a classe dominante, e especialmente seu aparato político, a uma tendência para uma indisciplina cada vez maior e a debandada. Este é um fenômeno que nos permite explicar o colapso do estalinismo e do bloco imperialista do Leste. Este colapso é globalmente uma consequência da crise econômica mundial do capitalismo; mas também não pode ser analisado sem levar em conta as características específicas que as circunstâncias históricas da aparição dos regimes estalinistas conferiram a estes. (ver sobre este assunto as "Teses sobre a crise econômica e política na URSS e nos países do Leste", Revista Internacional n° 60). Contudo, não é possível compreender plenamente um fato histórico tão importante e sem precedentes (o colapso de todo um bloco imperialista sem que seja devido a uma revolução ou a uma guerra) se não tivermos em conta na análise esse outro fator sem precedentes que é a entrada da sociedade numa fase de decomposição como se pode ver hoje. A centralização extrema e a total estatização da economia, a confusão entre aparato econômico e político, a trapaça constante e em grande escala com a lei do valor, a mobilização de todos os recursos econômicos para os militares, todas essas características dos regimes estalinistas foram perfeitamente adaptadas a um contexto de guerra imperialista (esse tipo de regime passou vitorioso pela Segunda Guerra Mundial, e até foi fortalecido por ela), mas enfrentaram os seus limites de forma brutal e radical, assim que a burguesia teve de enfrentar durante anos o agravamento da crise econômica sem que esta situação levasse a uma guerra imperialista. O desinteresse geral nestes países, que se desenvolveu na ausência da sanção do mercado (que a restauração do mercado pretende eliminar), era inconcebível durante a guerra quando a principal "preocupação" dos trabalhadores e, é claro, também dos gerentes da economia, era a arma em suas costas. A debandada geral dentro do próprio aparelho estatal, a perda de controle sobre sua própria estratégia política, como a URSS e seus satélites estão nos dando o espetáculo hoje, são uma caricatura (devido às especificidades dos regimes estalinistas) de um fenômeno muito mais geral que afeta toda a burguesia mundial, um fenômeno específico da fase de decomposição.
10. Esta tendência geral para a burguesia perder o controle de sua política, se já é um dos primeiros fatores no colapso do Bloco de Leste, será ainda mais exacerbada por esse colapso, por causa:
Esta desestabilização política da classe burguesa, bem ilustrada pela preocupação que aparece entre seus setores mais sólidos com a possível contaminação do caos que está se desenvolvendo nos países do antigo bloco do Leste, pode até acabar levando à incapacidade de voltar a formar uma nova ordem mundial em dois blocos imperialistas.
O agravamento da crise mundial conduzirá inevitavelmente à exacerbação das rivalidades imperialistas entre Estados. É por isso que o aumento e o agravamento dos confrontos militares entre eles já estão na ordem do dia. Por outro lado, a reconstrução de uma estrutura econômica, política e militar que reúna estes diferentes estados pressupõe a existência de uma disciplina entre eles que se tornará cada vez mais problemática a cada dia que passa. Portanto, este fenômeno, que já é parcialmente responsável pelo desaparecimento do sistema de blocos herdado da Segunda Guerra Mundial, pode, ao impedir a remodelação de um novo sistema de blocos, não só afastar, como já está acontecendo agora, mas até mesmo fazer desaparecer definitivamente a perspectiva de uma guerra mundial.
11. A possibilidade de tal mudança na perspectiva geral do capitalismo, como resultado das transformações muito importantes que a decomposição está produzindo na vida da sociedade, não põe em questão, longe disso, o resultado final que este sistema reserva para a humanidade no caso do proletariado se mostrar incapaz de derrubá-lo. De fato, enquanto a perspectiva histórica da sociedade já foi apresentada em termos gerais por Marx e Engels sob a forma de "socialismo ou barbárie", o próprio desenvolvimento da vida do capitalismo (e especialmente o seu declínio) tornou possível esclarecer, e até agravar, esse julgamento sob a forma de:
Hoje, após o desaparecimento do Bloco do Leste, esta perspectiva chocante permanece totalmente válida. Mas deve ser salientado que a destruição da humanidade pode vir tanto da guerra imperialista generalizada como da decomposição da sociedade.
De fato, a decomposição não deve ser vista como uma regressão da sociedade. Embora seja verdade que a decomposição traz de volta algumas características típicas do passado do capitalismo, e em particular do período ascendente desse modo de produção, tais como:
Esta decomposição não volta a qualquer tipo de sociedade anterior, a qualquer fase anterior da vida do capitalismo. Ocorre com a sociedade capitalista como com um homem velho que se diz ter "voltado à infância". Talvez ele tenha perdido certas faculdades e comportamentos adquiridos na maturidade e recuperado parte dos traços da infância (fragilidade, dependência, fraqueza de raciocínio), mas isso não significa que ele recuperará a vitalidade da sua tenra idade. Hoje, a civilização humana está perdendo uma certa quantidade do que adquiriu (o domínio da natureza, por exemplo); mas não é por isso que recuperará a capacidade de progresso e conquista, características, especialmente, do capitalismo ascendente. O curso da história é irreversível: a decomposição conduz, como o seu nome tão bem indica, ao desmembramento e à putrefacção da sociedade, ao nada. Abandonada à sua própria lógica, às suas últimas consequências, arrastaria a humanidade para os mesmos resultados que a guerra mundial. Ser aniquilado bestialmente por uma chuva de bombas termonucleares numa guerra generalizada ou ser aniquilado pela poluição, radioatividade das centrais nucleares, fome, epidemias e massacres em conflitos bélicos, nos quais, além disso, seriam utilizadas armas atômicas, é, no fim de contas, a mesma coisa. A única diferença entre as duas formas de destruição é que a primeira é mais rápida, enquanto a segunda é mais lenta e, portanto, causa ainda mais sofrimento.
12. É da maior importância que o proletariado, e no seio dele os revolucionários, sejam capazes de captar a ameaça mortal que a decomposição representa para a sociedade como um todo. Numa altura em que as ilusões pacifistas podem se desenvolver devido ao recuo de uma possível guerra generalizada, qualquer tendência da classe trabalhadora para procurar conforto, para esconder a extrema gravidade da situação mundial, deve ser combatida com a maior determinação. E, sobretudo, seria tão falso quanto perigoso considerar a decomposição, porque é uma realidade, como uma necessidade para avançar rumo à revolução.
Deve-se ter muito cuidado para não confundir necessidade e realidade. Engels já criticava fortemente a fórmula de Hegel: "Tudo que é racional é real e tudo que é real é racional", rejeitando a segunda parte desta fórmula e dando o exemplo da persistência da monarquia na Alemanha, que era muito real, mas nada racional (e este raciocínio de Engels poderia ser aplicado ainda hoje e desde muito tempo às monarquias de muitos países). A decomposição, embora real hoje em dia, não é prova de que seja necessária para a revolução proletária. Tal abordagem poderia pôr em questão a Revolução de Outubro de 1917 e toda a onda revolucionária do primeiro período pós-guerra que emergiu sem qualquer fase de decomposição capitalista. De fato, a necessidade de distinguir claramente a decadência do capitalismo e aquela fase específica, a última fase da decadência que é a decomposição, tem uma de suas aplicações na questão da realidade e da necessidade: a decadência do capitalismo foi necessária para que o proletariado fosse capaz de derrubar o sistema; por outro lado, o aparecimento do fenômeno histórico da decomposição, resultado do prolongamento da decadência na ausência da revolução proletária, não é de modo algum uma etapa necessária no caminho de sua emancipação. Com esta fase ocorre o mesmo que em relação à guerra imperialista. A guerra de 1914 foi um fato fundamental que a classe trabalhadora e os revolucionários obviamente tiveram que levar em conta (e de que forma!), mas isso não implica que fosse uma condição necessária para a revolução. Somente os bordiguistas acreditam nisso e o proclamam. A CCI já teve ocasião de mostrar que a guerra não é de modo algum uma condição particularmente favorável para o triunfo da revolução internacional. E se consideramos a perspectiva de uma terceira guerra mundial, o problema fica imediatamente "resolvido".
13. Na verdade, devemos ter uma visão muito clara sobre o perigo que significa a decomposição para a capacidade do proletariado de estar à altura da sua tarefa histórica. Assim como a eclosão da guerra imperialista no coração do mundo "civilizado" foi uma "sangria que poderia acabar por esgotar fatalmente o movimento operário europeu", que "ameaçou enterrar as perspectivas do socialismo sob as ruínas amontoadas pela barbárie imperialista", "ceifando nos campos de batalha (...) as melhores forças (...). ...) do socialismo internacional, as tropas de vanguarda de todo o proletariado mundial" (Rosa Luxemburgo, A Crise da Social Democracia), a decomposição da sociedade, que só vai piorar, também pode ceifar, nos anos vindouros, as melhores forças do proletariado, comprometendo definitivamente a perspectiva do comunismo. E isto é assim porque o envenenamento da sociedade provocado pela podridão do capitalismo não deixa nenhum de seus componentes, nenhuma de suas classes, livre, nem mesmo o proletariado. E embora o enfraquecimento do império da ideologia burguesa devido à entrada do capitalismo em sua fase de decadência tenha sido uma das condições da revolução, o fenômeno da decomposição dessa mesma ideologia, como está se desenvolvendo hoje, aparece essencialmente como um obstáculo para a consciência do proletariado.
No começo, a decomposição ideológica obviamente afeta, em primeiro lugar, a própria classe capitalista e, por sua vez, os estratos pequenos burgueses, aos quais falta qualquer vestígio de autonomia. Pode-se mesmo dizer que estes estratos se identificam muito bem com a decomposição, na medida em que sua situação específica, a ausência de qualquer futuro, é modelada sobre a principal causa da decomposição ideológica: a ausência de qualquer perspectiva imediata para o conjunto da sociedade. Somente o proletariado traz dentro de si uma perspectiva para a humanidade, e é por isso que é em suas fileiras que existem as melhores capacidades de resistência à decomposição. Entretanto, ele mesmo não é poupado, especialmente porque a pequena burguesia que vive a seu lado ombreia é o veículo principal da decomposição. Os diferentes fatores que são a força do proletariado colidem diretamente com as diferentes facetas da decomposição ideológica:
14. Um dos fatores que agrava esta situação é, evidentemente, o fato de uma grande parte de jovens gerações de trabalhadores estar recebendo o golpe do desemprego em seus rostos, mesmo antes de muitos terem conseguido a oportunidade, nos locais de produção, junto com seus companheiros de trabalho e luta, de experimentar uma vida coletiva de classe. De fato, o desemprego, resultado direto da crise econômica, embora não seja em si uma expressão de decomposição, acaba tendo, nesta fase particular de decadência, consequências que o transformam em um aspecto singular da decomposição. Embora em geral sirva para pôr a nu a incapacidade do capitalismo de assegurar um futuro para os proletários, é também, hoje, um poderoso fator de "lumpenização" de diversos setores da classe trabalhadora, especialmente entre os mais jovens, o que enfraquece as suas capacidades políticas atuais e futuras. Esta situação se refletiu durante toda a década de 1980, que viu um aumento considerável do desemprego, na ausência de movimentos significativos ou de tentativas reais de organização por parte dos trabalhadores desempregados. O fato de que em plena contrarrevolução, quando a crise dos anos 30 estava no auge, o proletariado, especialmente nos Estados Unidos, teria sido capaz de se dar estas formas de luta dá uma ideia, ao contrário, do peso das dificuldades que o desemprego traz hoje na consciência do proletariado, devido à decomposição.
15. Na verdade, não é apenas na questão do desemprego que o peso da decomposição se expressou nos últimos anos como um fator nas dificuldades pela consciência do proletariado. Mesmo deixando de lado o colapso do bloco do Leste e a agonia do estalinismo (que são expressão da fase de decomposição e que provocaram um evidente recuo na consciência de classe - ver sobre este tema a Revista Internacional n° 60 e 61), temos que considerar que as dificuldades encontradas pela classe trabalhadora para colocar para frente a perspectiva de uma unificação de suas lutas - enquanto esta questão era contida pela dinâmica de sua luta contra os ataques cada vez mais frontais do capitalismo - derivam em grande parte da pressão exercida pela decomposição. A hesitação do proletariado, diante da necessidade de subir a um nível superior de sua luta, embora seja uma característica geral do movimento operário já analisado por Marx No 18 Brumário, tem sido acentuada pela falta de confiança em si mesmo e no futuro que a decomposição inocula na classe. E da mesma forma, a ideologia do "cada um por si", que marca especialmente o período atual, tem favorecido as armadilhas do corporativismo que a burguesia colocou diante das lutas dos trabalhadores nos últimos anos.
Assim, ao longo da década de 1980, a decomposição da sociedade capitalista tem desempenhado um papel de freio na consciência da classe trabalhadora. Juntamente com outros fatores, identificados já no passado, que também contribuíram para abrandar este processo, tais como:
é importante tomar em conta a pressão da decomposição. Entretanto, embora o tempo seja um fator de redução do peso dos dois primeiros, ele só aumenta o peso do último. Portanto, é fundamental entender que quanto mais tempo o proletariado demorar para derrubar o capitalismo, mais importantes serão os perigos e os efeitos nocivos da decomposição.
16. Deve-se notar que hoje, ao contrário do que acontecia nos anos 70, o tempo já não desempenha um papel em favor da classe trabalhadora. Enquanto a ameaça de destruição da sociedade era representada pela guerra imperialista, o simples fato de que as lutas do proletariado foram capazes de se manter como um obstáculo decisivo para tal resultado foi suficiente para bloquear o caminho para essa destruição. Por outro lado, ao contrário da guerra imperialista, que, para irromper, requer a adesão do proletariado aos ideais da burguesia, a decomposição não requer nenhum alistamento da classe trabalhadora para destruir a humanidade. Assim como não podem opor-se ao colapso econômico, as lutas proletárias sob este sistema também não poderão deter a decomposição. Nestas condições, mesmo que a ameaça à vida da sociedade representada pela decadência pareça estar mais distante no futuro do que poderia resultar de uma guerra mundial (se as condições para ela estivessem presentes, o que não é o caso hoje), ela é, por outro lado, muito mais insidiosa. (se as condições para tal guerra existissem, o que não é o caso hoje em dia), ela é muito mais insidiosa. Para pôr fim à ameaça de decomposição, as lutas dos trabalhadores de resistência aos efeitos da crise não são suficientes: só a revolução comunista será capaz de eliminar esta ameaça. Da mesma forma, em todo o período que se avizinha, o proletariado não poderá utilizar em proveito próprio o enfraquecimento que a decomposição está causando dentro da própria burguesia. Neste período, seu objetivo será resistir aos efeitos nocivos da decomposição em seu próprio meio, confiando apenas em suas próprias forças, em sua capacidade de lutar coletiva e solidariamente, em defesa de seus interesses como classe explorada (embora a propaganda dos revolucionários deva insistir constantemente nos perigos da decomposição). Somente no período revolucionário, quando o proletariado estiver na ofensiva, quando se engajar direta e abertamente na luta por sua própria perspectiva histórica, poderá usar determinados efeitos da decomposição da ideologia burguesa e das forças do poder capitalista, como ponto de apoio para virá-las contra o capital.
17. A evidência dos consideráveis perigos que o fenômeno histórico da decomposição representa para a classe trabalhadora e para toda a humanidade não deve levar a classe e especialmente suas minorias revolucionárias a adotar uma atitude fatalista em relação a este. Hoje, a perspectiva histórica segue aberta. Apesar do golpe à consciência do proletariado, resultando do colapso do Bloco do Leste, o proletariado não sofreu grandes derrotas no campo das suas lutas. A sua combatividade permanece intacta. Mas, além disso, e este é o elemento que determina em última instância a evolução da situação mundial, o mesmo fator que está na origem do desenvolvimento da decomposição, o agravamento inexorável da crise do capitalismo, constitui o estímulo essencial para a luta e a consciência da classe, a própria condição de sua capacidade de resistir ao veneno ideológico da decomposição da sociedade.. De fato, De fato, assim como o proletariado não consegue encontrar um terreno de união de classes em lutas parciais contra os efeitos da decomposição, também sua luta contra os efeitos diretos da própria crise constitui a base para o desenvolvimento de sua força de classe e unidade.. E isto é assim porque:
No entanto, a crise econômica por si só não pode resolver os problemas e dificuldades que enfrenta, e o proletariado terá que enfrentá-los cada vez mais a cada dia. Unicamente:
permitirão à classe trabalhadora responder, golpe a golpe, aos ataques de todo tipo desencadeados pelo capitalismo, a fim de finalmente entrar na ofensiva e pôr fim a este sistema bárbaro.
A responsabilidade dos revolucionários é participar ativamente no desenvolvimento desta luta do proletariado.
FM, maio de 1990 (publicado na Revista internacional n° 107).
Face ao nosso artigo "Quem é Quem no Novo Curso [63]?", que denuncia a colaboração do indivíduo chamado Gaizka com altos funcionários e instituições do Estado burguês, este sujeito tem mantido até agora um silêncio absoluto. "Sem comentários"... O silêncio como resposta. E temos dificuldade em acreditar que ele não tenha ouvido o que dissemos, uma vez que os seus amigos vieram imediatamente em sua defesa[1]. Mas nem um nem os outros contribuíram com uma única negação para os fatos que expomos: NADA, Absolutamente nada.
Esse silêncio significa uma confirmação gritante da carreira arrivista e aventureira de Gaizka. Não dizem nada porque, na verdade, não tem nada a opor.
Que o silêncio só pode corroborar as indagações é algo bem conhecido, e a este respeito Paul Frölic[2] cita uma anedota na sua autobiografia sobre um dos editores da imprensa:
No entanto, sempre que os revolucionários foram acusados de provocação ou colaboração com a burguesia, ou simplesmente de comportamento indigno, têm dedicado todas as suas energias a negá-lo. Marx passou um ano preparando um livro inteiro respondendo às acusações de Herr Vog[4] de que ele era um agente infiltrado. Tal como algum tempo depois, juntamente com Engels, como se pode ver pela sua correspondência[5], ele esteve envolvido em todas as lutas necessárias contra as tentativas de desacreditar a AIT e eles próprios. Bebel foi acusado de roubar dinheiro da caixa da ADAV (Associação Operária) e não desistiu até se provar que as acusações eram falsas. Trotsky, completamente isolado e assediado por Stálin, ainda reuniu forças para aproveitar o pouco terreno que lhe restava e convocar a Comissão Dewe[6][7] em sua defesa, etc.
No entanto, pelo contrário, os verdadeiros aventureiros e provocadores fizeram tudo o que estava ao seu alcance para escapar e passarem através das fendas.
Com efeito, por exemplo, Bakunin, em primeiro lugar perante a circular privada da AIT sobre "As alegadas cisões na Internacional", sob a aparência de um tom escandalizado, reconhece que só conseguiu opor... um silêncio prolongado:
Em vão se pode escrutinar toda a carta em busca de algum argumento, o que se manifesta através da sua ausência. Contudo, Bakunin anunciou que convocaria um Júri de Honra e que escreveria um artigo antes do próximo congresso (NdR: de Haia, 1872):
Nem é preciso dizer que nunca convocou um tal Júri de Honra, nem escreveu nenhum artigo. Em vez disso, assim que soube da publicação do relatório da Aliança da Democracia Socialista e da Associação Internacional dos Trabalhadore[8], o que escreveu numa carta de 25 de Setembro de 1873 ao Jornal de Genebra (para além de insultos contra Marx, por "comunista, alemão e judeu") foi uma capitulação:
E, como podem ver, Bakunin também aplica aqui outra das estratégias clássicas dos aventureiros, que é apresentar-se como uma vítima que sofre quando os seus comportamentos pessoais são desmascarados.
Do mesmo modo, quando Schweitze[10] foi acusado de roubar dinheiro destinado a trabalhadores doentes que não podiam ir trabalhar, para o gastar em champanhe e "delicatesen", ao contrário de Bebel, ele nunca pôde defender-se:
Mais ainda, quando Bebel e Liebknecht o denunciaram como agente do governo no congresso de Barmen-Elberfeld (Wuppertal), ele, que estava sentado no mesmo palco, mesmo atrás deles, não proferiu uma única palavra, deixando os seus acólitos se ocupassem com insultos e ameaças:
E ainda se pode ver o exemplo histórico de Parvus, acusado por Gorki de desviar dinheiro pelos direitos do seu trabalho na Alemanha, denunciado como aventureiro e social patriota por Trotsky[13], que tinha sido seu amigo, rejeitado por Rosa Luxemburgo, Clara Zetkin e Leo Jogiches, que o tratavam de vendido ao imperialismo alemão, e que Lênin impediu de regressar a Petrogrado após a revolução, porque tinha "mãos sujas"; e que nunca assumiu a sua defesa contra todas estas acusações, deixando outros (Radek em particular) para o defenderem no meio dos exilados na Suíça durante a guerra (1915).
E poderíamos continuar, Lassalle, Azev..., etc., todos tentaram fazer esquecer as acusações contra eles com um muro de silêncio, desaparecendo ou fazendo de conta que nada tinha acontecido (como Parvus).
Mas não há necessidade de voltar tão atrás; em 2005 pudemos ver como o "cidadão B", que se proclamou "por unanimidade" (já que se tratava apenas de si próprio) como o "Círculo de Comunistas Internacionalistas" da Argentina, colocando-se a serviço da FICCI[14] (agora Grupo Internacional da Esquerda Comunista - GICG-) para denegrir a CCI, fez -se de mudo para o fórum assim que denunciamos a sua impostura[15].
Há também exemplos de crises de mutismo quando a CCI denunciou aventureiros em suas fileiras. Foi o caso da descoberta e punição do militante conhecido como Simón[16], ao qual ele respondeu com um silêncio teimoso que até provocou uma "Resolução sobre o Silêncio do Camarada Simón", que dizia:
Mas este silêncio obstinado dos aventureiros e dos elementos suspeitos, quando são apanhados com a mão na massa, não é apenas uma confirmação das acusações feitas contra eles ou uma forma de tentar que se esqueçam deles, é também uma estratégia para que outros venham em sua defesa.
Se Gaizka não disse "esta boca é minha" desde que publicamos a nossa denúncia, a seus amigos não lhes faltou tempo para sair em sua defesa. E assim a GIGC publicou apenas 4 dias depois uma declaração: "Novo ataque da CCI contra o campo proletário internacional ".
Não nos surpreende que um grupo parasita com um comportamento de gangster e policialesco venha em defesa de um aventureiro. Além disso, já fizeram o mesmo em 2005, ao assumir a causa do cidadão B da Argentina. E talvez devêssemos começar a pensar que o GIGC tem poderes premonitórios, posto que publicou e distribuiu um comunicado do "Círculo" da Argentina, antes de o Cidadão B o publicar no seu próprio website.
O lamentável é que o GIGC (então FICCI) enganou o BIPR[17] (atualmente TCI), que, embora discretamente, sem intervir diretamente, publicou os comunicados da FICCI/Cidadão B denegrindo a CCI e encorajando comportamentos indignos de ambas as partes.
É claro que o GIGC não fornece no seu comunicado qualquer negação do que denunciamos no nosso artigo, exceto a afirmação de que "não notaram nada": "devemos salientar que até esta data não notamos qualquer provocação, manobra, difamação, calúnia ou rumor, lançado pelos membros do Novo Curso, mesmo a título individual, nem qualquer política de destruição contra outros grupos ou militantes revolucionários". Algo em que até vamos nos deter por um segundo.
Na realidade, o objetivo do comunicado é atacar a CCI, pois seria ela "quem desenvolveu estas práticas sob o disfarce da sua teoria de decomposição e parasitismo a que volta a retomar agora". E, por outro lado, teria caído "no campo apodrecido da personalização das questões políticas".
O site Pantópolis do Doutor Bourrinet[18] reproduziu imediatamente o artigo precedido de uma introdução que concorre com a GIGC e que ultrapassa o seu peso em termos de ódio contra a CCI.
Outro grupo que tem condenado a nossa exposição de Gaizka é a GCCF[19], que afirmou[20]: "só podemos condenar esta escandalosa e imoral peça de fofoca personalizada de primeira classe completamente fora da arena política".
Em suma, duas recriminações: 1) que não é Gaizka, mas a CCI que se comportaria de forma indigna do proletariado, com difamação e de provocação; 2) que na nossa denúncia as questões políticas são substituídas por questões pessoais.
Não é a primeira vez que, diante do rigor na defesa do meio proletário e da denúncia de comportamentos indignos, as organizações revolucionárias são atacadas com calúnias sobre o seu "autoritarismo" e as suas "manobras", como se empregassem os mesmos meios que os aventureiros e provocadores descobertos. Foi o caso da AIT: "A burguesia, que compreendeu, do seu ponto de vista claro, o perigo histórico para os seus interesses de classe representado pelas lições tiradas pela Primeira Internacional, respondeu às revelações do Congresso de Haia, fazendo tudo o que estava ao seu alcance para desacreditar esse esforço. Assim, a imprensa e os políticos da burguesia salientaram que a luta contra o Bakuninismo não era uma luta de princípios, mas uma sórdida disputa pelo poder no seio da Internacional, acusando Marx de ter eliminado o seu rival, Bakunin, através de uma campanha de falsidades. O que, em outras palavras, a burguesia tentava incutir nos trabalhadores é que as organizações de trabalhadores utilizavam os mesmos métodos, e não eram, portanto, melhores, do que as organizações dos seus exploradores. O fato de a esmagadora maioria da Internacional ter apoiado Marx foi atribuído ao "triunfo do autoritarismo" nas suas fileiras, e à suposta tendência dos seus membros para verem inimigos da Associação à espreita por todo o lado. Bakuninistas e Lassalleanos chegaram mesmo a espalhar rumores de que o próprio Marx era um agente da Bismark"[21].
O próprio Bakunin não hesitou em apresentar a luta da Internacional pela defesa dos seus estatutos e funcionamento contra o espírito sectário e as suas intrigas como uma "luta de seitas": Assim, na sua Carta aos Irmãos em Espanha, Bakunin queixa-se de que a resolução da Conferência de Londres (1872) contra as sociedades secretas foi de fato adotada pela Internacional para :"abrir caminho à sua própria conspiração, a da sociedade secreta que, sob a liderança de Marx, existe desde 1848, tendo sido fundada por Marx, Engels e o falecido Wolf, e que por acaso é a mais impenetrável sociedade alemã de comunistas autoritários (...). Há que se reconhecer que a luta travada no seio da Internacional não é mais do que uma luta entre duas sociedades secretas".[22]
Na visão mundial destes elementos como Bakunin, a GIGC, ou Gaizka, não há lugar para a honestidade, princípios organizativos ou moralidade proletária; eles apenas projetam nos outros a sua própria forma de comportamento. Como diz a sabedoria popular, "crê o ladrão que todos são da sua condição".
No entanto, "O que é mais grave e muito mais perigoso é que tais infâmias encontrem um certo eco nas fileiras do próprio meio revolucionário. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a biografia de Marx escrita por Franz Mehring . Neste livro, Mehring, que pertencia à esquerda combativa da II Internacional, declara que o panfleto do Congresso da Haia sobre a Aliança era "imperdoável" e "indigno da Internacional". No seu livro, Mehring defende não só Bakunin, mas também Lassalle e Schweitzer, contra as acusações de Marx e dos marxistas."[23]
Este descrédito da luta marxista contra o Bakuninismo e o Lassalleanismo por Mehring teve efeitos devastadores no movimento operário nas décadas seguintes, pois não só levou a uma certa reabilitação de aventureiros políticos como Bakunin e Lassalle, mas sobretudo permitiu que a ala oportunista da socialdemocracia antes de 1914 apagasse as lições das grandes lutas pela defesa da organização revolucionária dos anos 1860 e 1870. Foi um fator decisivo na estratégia oportunista de isolamento dos bolcheviques na II Internacional, quando na realidade a sua luta contra o menchevismo pertence à melhor tradição da classe trabalhadora. A III Internacional também sofreu com o legado de Mehring, e assim em 1921 um artigo de Stoecker ("Sobre o Bakuninismo"), baseou-se também nas críticas de Mehring a Marx, para justificar os aspectos mais perigosos e aventureiros da chamada Ação de Março de 1921 pelo KPD (Partido Comunista Alemão) na Alemanha.[24]
O fato de o BIPR se ter deixado arrastar atrás da FICCI e do "Cidadão B" em 2005 também deu asas ao parasitismo, dificultando a luta contra ele e a sua denúncia no meio proletário.
Mas passemos à segunda acusação, a de personalizar as questões políticas. Para começar, a nossa denúncia não se baseava na divulgação de coisas íntimas, mas na exposição de comportamentos políticos públicos, o que está amplamente documentado. O que expusemos sobre Gaizka são fatos que pertencem à esfera da ação pública dos políticos burgueses e que, portanto, devem ser cuidadosamente considerados pelos militantes comunistas. O que fazia um indivíduo que tinha frequentado repetidamente os círculos políticos de alto nível do Estado burguês no campo da Esquerda Comunista?
Agora, em segundo lugar, existem fatos "privados" (intrigas, manobras, contatos secretos, relações obscuras, etc.) cujo conhecimento é necessário para compreender e poder denunciar ações destrutivas contra o proletariado ou contra organizações revolucionárias. Denunciá-los não tem nada a ver com fofocas.
Sobre isto, em vez de respondermos nós próprios, deixemos que seja Engels a fazê-lo. Em um dos muitos artigos que Marx e ele mesmo tiveram que escrever em defesa da AIT, acusada por toda a imprensa burguesa e pelos provocadores e seguidores de Bakunin, e questionada pelos próprios militantes indecisos, Engels responde a um artigo do Vperyod de Peter Lavrov[25], que questiona o relatório da Comissão do Congresso da Haia sobre "A Aliança da Democracia Socialista e a AIT"[26], porque seria uma "polêmica cáustica sobre assuntos pessoais e privados com informações que só podem vir de boatos". E é isto que diz:
Quando Vperyod, no entanto, descreve o relatório como uma mistura desajeitada de fatos essencialmente privados, está cometendo um ato que é difícil de caracterizar, ... Ninguém pode ler "Um Complô Contra a Internacional" sem estar convencido de que os assuntos privados intercalados são a parte mais insignificante, são ilustrações para dar uma imagem mais detalhada das personagens envolvidas, e não poderiam ser suprimidas sem pôr em causa o ponto principal do relatório. A organização de uma sociedade secreta com a única intenção de submeter o movimento operário na Europa à ditadura oculta de alguns aventureiros, as infâmias cometidas para levar a cabo esse propósito, particularmente por Nechaiev na Rússia - esse é o tema central do relatório, e afirmar que tudo gira apenas em torno de assuntos privados é, no mínimo, irresponsável"[28].
Podemos tolerar no meio político proletário um elemento que tenha mantido contatos e colaborado com altos funcionários do Estado burguês? Podemos acreditar que alguém assim se apresenta agora como representante da Esquerda Comunista? Podemos construir organizações do proletariado e preparar o futuro partido da revolução com indivíduos como este, deixando-o fazê-lo? O silêncio abjeto de Gaizka é uma confirmação da sua colaboração com o Estado burguês, como denunciamos. A sua folha de serviço principalmente ao PSOE[29] e em algum momento aos liberais; e depois os seus contatos com a Esquerda Comunista e o seu desaparecimento quando questionado sobre aspectos problemáticos do seu comportamento para uma militância comunista[30], constituem a trajetória de um aventureiro.
A aspiração de um grupo formado em torno deste elemento de ser considerado parte da Esquerda Comunista, se mesmo ocasionalmente fosse concretizada, significaria a introdução de um cavalo de Troia cujo propósito não poderia deixar de desvirtuar e minar a herança da tradição proletária e os seus princípios programáticos e organizativos representados pelas organizações da Esquerda Comunista. E isto independentemente da honestidade dos membros do grupo Gaizka que podem estar a ser enganados.
Nesse sentido, e guardando todas as distâncias, tal como Bakunin, como diz Engels, quis impor a sua ditadura à Internacional, que agrupou o movimento operário na Europa, Gaizka quer ser, igualmente escondido atrás de um grupo – Novo Curso - onde existem possivelmente elementos dissimulados, uma referência da esquerda comunista, especialmente para os jovens em busca de posições políticas proletárias. Mas a sua ligação com a esquerda comunista só pode confundir as posições desta última, fazendo passar princípios e métodos esquerdistas ou estalinistas como se fossem posições de Esquerda Comunista.
Neste esforço criminoso, Gaizka tem o apoio organizado do grupo parasita e gangstere da GIGC, que o apresenta precisamente como um campeão do reagrupamento; mas também tira partido do silêncio em relação às suas iniciativas de outros grupos do meio proletário..
C.C.I (11.04.2020)
[1] Nos referimos ao Groupe International de la Gauche Communiste, a Gulf Coast Communist Fraction (GCCF) e ao web do professor Bourrinet: Pantópolis.
[2] Militante da Esquerda de Bremen durante o período revolucionário na Alemanha ; Delegado do IKD no congresso de fundação do KPD.
[3] Paul Frölich "Im radikalen Lager" Politische Autobiografie 1890-1921, capítulo Leipzig, Berlim 2013 pag. 51 : "Ele tinha um instinto de comportamento táctico. Uma vez fiquei muito surpreendido por ele não ter respondido aos repetidos ataques de outro jornal do partido. "Muito simplesmente, disse ele, eu estava errado sobre um ponto importante. Agora deixei-os ladrar até ficarem roucos e a história ser esquecida. Até lá, sou surdo"." Trata-se de Paul Lensch (1873-1926), um elemento com uma história duvidosa no movimento operário, que trabalhou com Frölich como redator de talento no jornal socialdemocrata Leipziger Volkszeitung e ao qual caracteriza como "um buldogue de costas largas e patas fortes, tão mordedor sem piedade como acolhedor (…) que se supõe que tinha muito da elegância de Mehring, mas em quem a brutalidade de seu caráter acaba sempre abrindo caminho. Um fanfarrão esperto (...) sem nada que o vincule à classe trabalhadora. Também capaz de estar no "lugar certo" se isso ajudasse a sua carreira; em 1910 fazia parte da ala esquerda da socialdemocracia desempenhando um papel duvidoso no caso Radek; depois presente na noite de 4 de Agosto de 1914 no apartamento de Rosa Luxemburgo (contra a guerra imperialista) e pouco depois, em 1915, partidário da extrema direita da Socialdemocracia e defensor juntamente com Cunow e Haenisch do "socialismo de guerra" - que defendeu a guerra com um argumento "marxista" - na revista Die Glocke, de Parvus, entre outros. Lensch não foi simplesmente um socialdemocrata que se deixou arrastar para a direita e, em última análise, para a traição do proletariado; como elemento sem quaisquer laços militantes ou confiança na classe trabalhadora, foi sobretudo um carreirista desonesto que se escondeu por detrás do marxismo e era capaz de se manter em silêncio quando necessário."
[4] Neste livro, que levou um ano para ser concluído, Marx não só se defendeu contra as acusações desonestas de Vogt, como também defendeu a Liga dos Comunistas, apesar desta já ter desaparecido. No entanto, defender a tradição que representava, o Manifesto Comunista, os princípios de organização, a continuidade do movimento operário, era de importância vital; ao contrário de todos aqueles que consideram que Marx teria perdido o seu tempo com as minúcias, ou mesmo o seu bom senso político e a sua dedicação desinteressada à luta do proletariado.
[5] Marx/Engels Collected Works, 2010 Lawrence &Wishart Electric Book, Vol 24
[6] Uma vez que Stálin tinha esmagado todos os vestígios do que o meio operário tinha sido no período revolucionário, a Comissão teve de ser composta principalmente por membros da intelectualidade e da cultura, reputados pela sua independência de opinião e honestidade. Dewey era um deles. As sessões da Comissão tiveram lugar no México.
[7] Em Jacques Freymond, A Primeira Internacional, Ed. ZERO 1973, pag. 355
[8] O relatório foi encomendado a uma comissão de inquérito pelo Congresso de Haia da AIT (1872). Após ouvir e discutir o relatório, o Congresso tomou a decisão de excluir Bakunin e alguns dos seus seguidores da Internacional.
[9] Biblioteca Virtual Sit Inn – www.sitinn.hpg.com.br [64], Bakunin por Bakunin – Cartas. Carta au Journal de Gêneve. Em português no original. Traduzido por nós: "o Sr. Marx, o chefe dos comunistas alemães, que, sem dúvida por causa de seu tríplice caráter de comunista, alemão e judeu, me odiou". "...confesso que tudo isso me enojou profundamente da vida pública. Estou farto de tudo isso. Após ter passado toda minha vida na luta, estou cansado. Já passei dos sessenta anos, e uma doença no coração, que piora com a idade, torna minha existência cada vez mais difícil. Que outros mais jovens ponham-se ao trabalho. Quanto a mim, não sinto mais a força, nem talvez a confiança necessária para empurrar por mais tempo a pedra de Sysipho contra a reação triunfante em todos os lugares. Retiro-me, pois, da liça, e peço a meus caros contemporâneos apenas uma coisa: o esquecimento".
[10] Ver em nossa web: Lassalle y Schweitzer: La lucha contra los aventureros políticos en el movimiento obrero [65]
[11] Bebel, My Life, The University of Chicago press, The Baker & Taylor co., New York, pag. 152. Em inglês no original, traduzido por nós: "Schweitzer foi acusado publicamente mais de uma vez desta vergonhosa ação, mas nunca ousou defender-se."
[12] Idem, pag 156. "Nossos discursos continham um resumo de todas as acusações que tínhamos formulado contra Schweitzer. Houve interrupções violentas, especialmente quando o acusamos de ser um agente do Governo; mas eu me recusei a retirar qualquer coisa... Schweitzer, que se sentou atrás de nós quando falamos, não pronunciou uma palavra em resposta. Saímos imediatamente, alguns dos delegados nos guardando contra agressões dos fanáticos partidários de Schweitzer, em meio a uma tempestade de imprecações, como "Traidores!" "Malandros!" e assim por diante. Às portas nossos amigos me tus e nos levaram sob sua proteção, acompanhando-nos em segurança até nosso hotel."
[13] Ver em Nashe Slovo nº 2: "Epitaphy for a living friend"
[14] "Fração Interna da CCI", um grupo parasita cujos membros foram excluídos da CCI, recusando-se a defender as suas posições e ações perante a comissão de recurso nomeada pelo 15º Congresso. Um dos seus membros proeminentes, conhecido como Jonas, tinha sido expulso mais cedo por comportamento indigno de militância revolucionária. Ver Documentos de la vida de la CCI - El combate por la defensa de los Principios Organizativos [66] e 'Fracción Interna' de la CCI: Intento de estafa a la Izquierda Comunista [67]
[16] Simón seria excluído no 11º Congresso da CCI por comportamento incompatível com a militância comunista.
[17] Bureau Internacional pelo Partido Revolucionário, de tendência Damenista, atualmente Tendência Comunista Internacionalista (TCI)
[19] Gulf Coast Communist Fraction
[20] Que se adiante que não pretendemos de forma alguma equiparar o GIGC/Bourrinet e o GCCF pela mesma medida. O GIGC é um grupo parasita que só existe para atacar a CCI, e mesmo que tivéssemos publicado um artigo denunciando Mata Hari eles diriam que "não notaram nada", para irem diretamente ao ataque. O mesmo se pode dizer de Bourrinet. O GCCF é um grupo jovem sem experiência e em busca de esclarecimento, sensível à adulação de Gaizka e do GIGC/Bourrinet.
[22] Idem
[23] Idem
[24] Ver nota (1) do mesmo artigo.
[25] Lavrov Pyotr Lavrovich (1823-1900) filósofo, sociólogo e jornalista russo, partidário do populismo; membro da I Internacional que participou da Comuna de Paris.
[26] Na Alemanha, o relatório foi traduzido como "Um complô contra a Internacional" e, por isso, nos trabalhos citados, Engels refere-se ao relatório da Comissão de Inquérito de Haia em vez de "A Aliança da Democracia Socialista e a Associação Internacional dos Trabalhadores", mas é o mesmo relatório.
[27] Engels refere-se assim a Pyotr Lavrov, como ele explica no início do artigo, a fim de respeitar o anonimato que ele escrupulosamente lhe exige e do qual Engels zomba, já que o verdadeiro nome do editor de Vperyod é bem conhecido tanto na Grã-Bretanha como na Rússia; ele propõe, portanto, referir-se ao autor como Peter, "um nome muito popular na Rússia".
[28] Engels, Refugee Literature III, Marx/Engels Collected Works, 2010 Lawrence &Wishart Electric Book, Vol 24 pag 21-22 (tradução nossa)
[29] Partido Socialista Operário Espanhol
A revolução comunista só pode ser vitoriosa se o proletariado se dotar de um partido político de vanguarda proporcional às suas responsabilidades, como fez o partido bolchevique na primeira tentativa revolucionária de 1917. A história tem dado mostras de como é difícil construir tal partido, uma tarefa que requer muitos e variados esforços. Acima de tudo, requer a maior clareza sobre questões programáticas e sobre os princípios de funcionamento da organização, uma clareza que é necessariamente baseada em toda a experiência passada do movimento operário e de suas organizações políticas.
Em cada etapa da história do movimento, algumas correntes se distinguiram como as melhores representantes dessa clareza, como aquelas que deram uma contribuição decisiva para o futuro da luta. Este foi o caso da corrente marxista já em 1848, quando grande parte do proletariado ainda era influenciado por teorias da pequena-burguesia que foram vigorosamente combatidas no capítulo 3 do Manifesto Comunista, "Literatura Socialista e Comunista". Este foi ainda mais o caso no seio da Associação Internacional dos Trabalhadores fundada em 1864: "esta Associação, que tinha sido criada com um propósito específico - fundir as forças militantes do no Manifesto. O programa da Internacional tinha de ser suficientemente amplo para ser aceito tanto pelos sindicatos ingleses como pelos apoiadores de Proudhon na França, Bélgica, Itália e Espanha, e pelos lassalistas na Alemanha. Marx, que elaborou este programa de forma a satisfazer todas estas partes, confiou inteiramente no desenvolvimento intelectual da classe trabalhadora, que era obrigatoriamente o resultado da ação conjunta e da discussão. (...) E Marx tinha razão. Quando, em 1876, a Internacional deixou de e proletariado da Europa e América em um único todo - não podia imediatamente proclamar os princípios estabelecidos existir, os trabalhadores já não eram mais os mesmos de quando foi fundada em 1864. (...) Para ser honesto, os princípios do Manifesto foram amplamente desenvolvidos entre os trabalhadores de todos os países. (Engels, Prefácio à edição inglesa de 1888 do Manifesto Comunista [71].
Finalmente, foi dentro da Segunda Internacional, fundada em 1889, que a corrente marxista se tornou hegemônica, graças em particular à sua influência no Partido Social Democrata da Alemanha. E foi em nome do marxismo que Rosa Luxemburg, em particular, se empenhou na luta contra o oportunismo que, a partir do final do século XIX, foi ganhando terreno neste partido e em toda a Internacional. Foi também em seu nome que os internacionalistas conduziram a luta durante a Primeira Guerra Mundial contra a traição da maioria dos partidos socialistas e que fundaram em 1919, sob o impulso dos bolcheviques, da Terceira Internacional, a Internacional Comunista. E, depois do fracasso da revolução mundial e do isolamento da revolução na Rússia, foi a corrente marxista da Esquerda comunista - representada em particular pela esquerda italiana e germano-holandesa - que iniciou a luta contra esta degeneração. Como a maioria dos partidos da Segunda Internacional, os da Terceira Internacional finalmente, com o triunfo do stalinismo, caíram no campo do inimigo capitalista. Esta traição, e esta submissão dos partidos comunistas à diplomacia imperialista da URSS, provocou muitas reações por parte das da esquerda comunista. Algumas delas conduziram a um ingresso "crítico" ao seio da socialdemocracia. Outros tentaram permanecer no campo do proletariado e da revolução comunista, como foi o caso, depois de 1926, com a oposição de esquerda liderada por Trotsky, um dos grandes nomes da revolução de Outubro de 1917 e fundador da Internacional Comunista.
O Partido Comunista Mundial, que estará na vanguarda da revolução proletária de amanhã, terá de contar com a experiência e reflexão das correntes de esquerda que emergiram da Internacional Comunista durante a sua degeneração. Cada uma destas correntes aprendeu as suas próprias lições com esta experiência histórica. E nem todos estes ensinamentos são equivalentes. Assim, há profundas diferenças entre as análises e políticas das correntes da Esquerda comunista que surgiram no início dos anos 20 e a corrente "trotskista" que surgiu muito mais tarde e que, embora situada em terreno proletário, foi, desde as suas origens, fortemente marcada pelo oportunismo. Obviamente, não é por acaso que a maioria da corrente trotskista se juntou ao campo burguês durante o teste da verdade da Segunda Guerra Mundial, enquanto as correntes da Esquerda comunista permaneceram fiéis ao internacionalismo.
Portanto, o futuro partido mundial, para que possa realmente contribuir para a revolução comunista, não pode assumir o legado da Oposição de Esquerda. Terá necessariamente de basear o seu programa e os seus métodos de ação na experiência da Esquerda comunista.
Existem diferenças entre os atuais grupos que emergiram desta tradição, e é sua responsabilidade continuar a enfrentar estas diferenças políticas, especialmente para que as gerações mais jovens que se aproximam possam compreender melhor a sua origem e seu alcance atual. Este é o sentido das controvérsias que já publicamos e continuaremos a publicar com a Tendência Comunista Internacionalista e os grupos Bordiguistas. No entanto, para além destas diferenças, existe uma herança comum da Esquerda comunista que a distingue das outras correntes de esquerda que emergiram da Internacional Comunista. Portanto, quem afirma pertencer à Esquerda comunista tem a responsabilidade de tentar conhecer e dar a conhecer a história deste componente do movimento operário, as suas origens em reação à degeneração dos partidos da Internacional Comunista, os diferentes grupos que estão ligados a esta tradição por terem participado na sua luta, os diferentes ramos políticos que a compõem (a esquerda italiana, a esquerda holandesa-alemã, etc.). Em particular, é importante esclarecer os contornos históricos da Esquerda comunista e as diferenças que a distinguem de outras correntes de esquerda, em particular a trotskista. Este é o objetivo deste artigo.
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No blog de Nuevo Curso lemos um artigo que tenta explicar qual é a origem da Esquerda comunista: "Chamamos a Esquerda comunista o movimento internacionalista que iniciou lutando contra a degeneração da Terceira Internacional, procurando corrigir os erros herdados do passado refletidos em seu programa, a partir de 1928 para enfrentar o triunfo do Thermidor[1] na Rússia e o papel contrarrevolucionário da Internacional e dos partidos estalinistas".[2]
O que significa exatamente? Que a Esquerda comunista começou a sua luta em 1928? Se isso é o que Nuevo Curso pensa, é errado, uma vez que a Esquerda comunista se levantou contra a degeneração da Internacional Comunista já em 1920-21, no Segundo e Terceiro Congressos da Internacional. Naquele período agitado em que se jogavam as últimas possibilidades da revolução proletária mundial, grupos, núcleos da Esquerda comunista na Itália, Holanda, Alemanha, Bulgária, Rússia e depois na França e em outros países, realizaram uma luta contra o oportunismo que corroía até a raiz o corpo revolucionário da Terceira Internacional[3]. Duas das expressões desta Esquerda comunista estão claramente manifestadas no Terceiro Congresso da IC (1921), realizando uma crítica severa, mas fraterna às posições adotadas pela Internacional:
É também neste congresso que a esquerda italiana, que lidera o Partido Comunista da Itália, reage vivamente - embora em profundo desacordo com o KAPD - contra a política sem princípios de aliança com os "centristas" e a desnaturalização dos PCs pela entrada em massa de frações que saem da socialdemocracia[4].
No próprio Partido Bolchevique "desde 1918, o "Komunista" de Bukharin e Ossinsky, adverte o partido contra o perigo de assumir uma política de capitalismo de Estado. Três anos depois, depois de ter sido excluído do partido bolchevique, o "Grupo operário" de Miasnikov levou a luta à clandestinidade em estreita relação com o KAPD e o PC búlgaro até 1924, quando desapareceu sob os golpes repetidos da repressão a que foi submetido. Este grupo critica o partido bolchevique por sacrificar os interesses da revolução mundial em nome da defesa do Estado russo, reafirmando que só a revolução mundial pode permitir que a revolução permaneça na Rússia.
Assim, sobre profundas bases programáticas - bem ainda em processo de elaboração - se desenha uma clara alternativa diante da degeneração da Internacional Comunista em 1919-21. No entanto, para Nuevo Curso "pode-se dizer que o tempo histórico da Esquerda comunista termina na década entre 1943 e 1953 quando as principais correntes que mantiveram uma praxis internacionalista dentro da Quarta Internacional denunciam a sua traição do internacionalismo e configuram uma nova plataforma que parte da denúncia da Rússia stalinista como capitalismo de Estado imperialista".
Esta passagem nos diz, por um lado, que a Quarta Internacional teria sido o abrigo de grupos com "uma práxis internacionalista", e, por outro lado, que depois de 1953 "o tempo histórico da Esquerda comunista teria se esgotado". Vamos examinar estas afirmações.
A Quarta Internacional foi constituída em 1938 pela oposição de esquerda, cuja primeira origem reside na Rússia, com o Manifesto dos 46 em outubro de 1923, ao qual Trotsky se juntaria e, em nível internacional, com o aparecimento de grupos, indivíduos e tendências que desde 1925-26 tentam se opor ao triunfo cada vez maior do stalinismo nos partidos comunistas.
Estas oposições expressam uma reação proletária indubitável. No entanto, esta reação é confusa, fraca e muito contraditória. Exprime em vez uma rejeição epidérmica superficial da ascensão do stalinismo. A oposição na URSS, apesar das suas batalhas heroicas, "mostra-se incapaz de compreender a verdadeira natureza do fenômeno "estalinista" e "burocrático", prisioneiro das suas ilusões sobre a natureza do Estado russo. Ela também se torna a campeã do capitalismo de Estado, que quer promover mais tarde através da industrialização acelerada. Quando luta contra a teoria do socialismo num único país, não consegue romper com as ambiguidades do partido bolchevique sobre a defesa da "Pátria Soviética". E seus membros, Trotsky à frente, se apresentam como os melhores apoiadores da defesa "revolucionária" da "pátria socialista". Ela se concebe não como uma fração revolucionária buscando salvaguardar teórica e organizacionalmente as grandes lições da Revolução de Outubro, mas apenas uma oposição leal ao Partido Comunista Russo, o que a leva a "alianças sem princípios (assim Trotsky buscará o apoio de Zinoviev e Kamenev que não cessaram de caluniá-lo desde 1923[5])". (idem.).
Quanto à Oposição Internacional de Esquerda "é reivindicada dos primeiros quatro congressos da IC. Por outro lado, perpetua as manobras que já caracterizaram a oposição de esquerda na Rússia. Em grande medida, esta oposição é um reagrupamento sem princípios que se limita a fazer uma crítica "de esquerda" ao stalinismo. Todo verdadeiro esclarecimento político é proibido em seu seio e deixa para Trotsky, que vê no próprio símbolo da Revolução de Outubro, a tarefa de se tornar porta-voz e "teórico" (idem.).
Com estas frágeis fundações, a Oposição de Esquerda fundou em 1938 uma "Quarta Internacional" que nasceu morta para a classe trabalhadora. Já na década de 1930, a Oposição tinha sido incapaz de "resistir aos efeitos da contrarrevolução que se desenvolve à escala mundial com base na derrota do proletariado internacional" (idem.) porque ao longo das diferentes guerras localizadas que estavam preparando o holocausto da Segunda Guerra Mundial, a Oposição desenvolveu uma "perspectiva táctica" de "apoio a um campo imperialista contra outro (sem admiti-lo abertamente) apoio à "resistência colonial" na Etiópia, China e México, apoio à Espanha republicana, etc. O apoio do trotskismo aos preparativos de guerra do imperialismo russo foi igualmente claro durante todo esse período (Polônia, Finlândia 1939), camuflado por detrás do slogan "defesa da pátria soviética[6]". Isto, juntamente com o entrismo nos partidos socialistas (decidido em 1934), fará com que "o programa político adotado no congresso de fundação da IV Internacional, escrito pelo próprio Trotski, retome e agrave as orientações que precederam aquele congresso (defesa da URSS, frente única operária, análise equivocada do período ...) mas também tem como eixo a reedição do programa mínimo do tipo socialdemocrata (demandas "transitórias"), um programa que tinha se tornado obsoleto pela impossibilidade de reformas desde a entrada do capitalismo em sua fase de decadência, de declínio histórico" (op. cit. nota 4). A Quarta Internacional defende a "participação nos sindicatos, o apoio crítico aos chamados partidos "operários", as "frentes únicas" e as "frentes antifascistas", os governos "operários e camponeses", as medidas estatais capitalistas (prisioneiras da experiência da URSS) através da "expropriação de bancos privados", "a nacionalização do sistema de crédito", "a expropriação de certos ramos da indústria" (...) a defesa do Estado degenerado operário russo. E no plano político, prevê que a revolução democrática e burguesa nas nações oprimidas tenham que passar pelas "lutas de libertação nacional", este programa escandalosamente oportunista preparou a traição dos partidos trotskistas que, em 1939-40, apressaram em defender seus respectivos estados nacionais[7]. Apenas alguns indivíduos e pequenos círculos, de forma alguma "correntes com uma práxis internacionalista", como diz Nuevo Curso! tentaram resistir a este vendaval reacionário. Entre eles, Natália Redova, viúva de Trotsky, que rompeu em 1951, e especialmente Munis, sobre o qual falaremos abaixo[8]
É necessário, portanto, entender que a luta para dar-se um marco programático que sirva ao desenvolvimento da consciência proletária e prepare as premissas para a formação de um partido mundial, não é uma tarefa de personalidades e círculos desconexos, mas fruto de uma luta coletiva organizada que se inscreve na continuidade histórica crítica das organizações comunistas, continuidade que acontece, como afirmamos em nossas posições básicas, pelas "sucessivas contribuições da Liga dos Comunistas de Marx e Engels (1847-52), das três Internacionais (a Associação Internacional dos Trabalhadores, 1864-72, a Internacional Socialista, 1884-1914, a Internacional Comunista, 1919-28), das Fracções de Esquerda que se separaram nos anos 1920-30 da Terceira Internacional (a Internacional Comunista) em seu processo de degeneração, e mais particularmente da esquerda alemã, holandesa e italiana". [9]
Já vimos que tanto a oposição de esquerda como a Quarta Internacional se afastaram claramente desta continuidade[10]. Só a Esquerda comunista o poderia fazer. Mas de acordo com Nuevo Curso, o "tempo histórico da Esquerda comunista termina em 1943-53". Ele não dá nenhuma explicação, porém, em seu artigo acrescenta outra frase: "Os esquerdistas comunistas que ficaram de fora do reagrupamento internacional - os italianos e seus derivados franceses - chegarão, embora nem todos, nem completamente e nem sempre em posições coerentes, a um quadro semelhante no mesmo período".
Esta passagem contém numerosos "enigmas". Para começar, quais são as esquerdas comunistas que ficaram de fora do "reagrupamento internacional"? Que reagrupamento internacional é este? É claro que Bilan e as outras correntes de Esquerda comunista rejeitaram a ideia de "ir em direção a uma Quarta Internacional"[11]. No entanto, desde 1929, fizeram tudo o que era possível para discutir com a oposição de esquerda, reconhecendo que era uma corrente proletária, ainda que gangrenada pelo oportunismo. No entanto, Trotsky obstinadamente rejeitou qualquer debate[12], apenas algumas correntes como a Liga dos Comunistas Internacionalistas da Bélgica ou o Grupo Marxista do México aceitaram o debate levando a uma evolução que os levou a romper com o trotskismo[13].
Além disso, Nuevo Curso nos diz que aqueles grupos que ficaram "à margem do reagrupamento internacional(...) chegarão, ainda que nem todos, nem completamente e nem sempre em posições coerentes, a um quadro semelhante no mesmo período". O que é que "faltavam"? O que é que tinham "incoerentes"? Nuevo Curso não esclarece nada. Vamos demonstrar, recuperando uma imagem que fizemos num artigo intitulado "Quais são as diferenças entre a Esquerda comunista e a Quarta Internacional?" [14] que estes grupos tinham posições coerentes com a fidelidade ao programa do proletariado e não eram de modo algum "semelhantes" à lama oportunista da Oposição e aos grupos da Quarta Internacional com uma chamada "práxis internacionalista":
Esquerda comunista |
Oposição de Esquerda |
Baseia-se no primeiro congresso da IC e considera criticamente as contribuições do 2º. Rejeita globalmente a maioria dos acordos do terceiro e quarto congressos |
Baseia-se nos 4 primeiros congressos sem análise crítica |
Analisa criticamente o que está acontecendo na Rússia e chegará à conclusão de que a URSS não deve ser apoiada porque caiu nas mãos do capitalismo mundial. |
Considera a Rússia como um Estado de operário degenerado que, apesar de tudo, deve ser apoiado. |
A Esquerda comunista germano-holandesa rejeita o trabalho nos sindicatos, e a Esquerda comunista italiana chegará à mesma conclusão com o internacionalismo (Gauche communiste de France) de que os sindicatos se tornaram órgãos do Estado, mas em bases teóricas e históricas mais fortes. |
Promove o trabalho em sindicatos que considera serem órgãos da classe trabalhadora. |
A Esquerda comunista germano-holandesa, Bilan e Internationalisme denunciam claramente a "libertação nacional". |
Apoia a libertação nacional. |
Denuncia o parlamentarismo e a participação nas eleições |
Apoia a participação em eleições e o "parlamentarismo revolucionário". |
Empreende um trabalho de Fração para tirar lições da derrota e lançar as bases para uma futura reconstituição do Partido Mundial do proletariado |
Empreende um trabalho de "oposição" que pode até levar ao entrismo em partidos socialdemocratas. |
Já na década de 1930, e especialmente através de BILAN, ele considerava que o mundo estava a caminho da Segunda Guerra Mundial e que o partido não podia ser formado em tais condições, mas que era preciso aprender lições e preparar o futuro. É por isso que BILAN dirá: "A palavra de ordem do momento não é trair." |
No meio da contrarrevolução, Trotsky acreditava que as condições para a formação do partido estavam criadas e, em 1938, fundou a Quarta Internacional. |
Denuncia a Segunda Guerra Mundial; condena ambas as partes em conflito e defende a revolução proletária mundial. |
Convida os trabalhadores a escolher lados entre os candidatos à Segunda Guerra Mundial, abandonando assim o internacionalismo. |
Para além da comparação acima referida, há de acrescentar à comparação um ponto que nos parece muito importante para realmente contribuir para a luta proletária e avançar para o partido mundial da revolução: Enquanto a Esquerda comunista realizava um trabalho organizado, coletivo e centralizado, baseado na fidelidade aos princípios organizacionais do proletariado e na continuidade histórica de suas posições de classe, a Oposição de esquerda era vista como uma aglomeração de personalidades, círculos e grupos heterogêneos, unidos apenas pelo carisma de Trotsky em cujas mãos ficou a "elaboração política".
Acima de tudo, Nuevo Curso coloca a Esquerda comunista e os comunizadores (um movimento modernista radicalmente estranho ao marxismo) no mesmo saco: "O chamado "comunismo de esquerda" é um conceito que engloba a Esquerda comunista -especialmente as correntes italianas e germano-holandesas-, os grupos e tendências que lhe dão continuidade (do "conselhismo" ao "bordiguismo") e os pensadores da "comunização". Para que essa amálgama? Um amálgama que termina se colocando uma foto de Amadeo Bordiga[15] no meio da denúncia que ele faz dos "comunizadores", o que implicaria que a Esquerda comunista estaria ligada a eles ou compartilharia posições com eles.
Assim, segundo Nuevo Curso os atuais revolucionários não teriam que procurar as bases de sua atividade nos grupos de Esquerda comunista (a TCI, a CCI, etc.), mas no que poderia ter saído do programa de capitulação ao capitalismo elaborado pela IV Internacional e concretamente, como veremos mais adiante, do trabalho de Munis revolucionário. No entanto, de forma confusa e complicada, Nuevo Curso implica, sem o afirmar claramente, que Munis seria o elo mais importante de uma suposta "Esquerda comunista espanhola", uma corrente que, segundo Nuevo Curso, "funda o Partido Comunista Espanhol em 1920 e cria o grupo espanhol da esquerda Oposição ao stalinismo em 1930, depois a Esquerda comunista espanhola, participando na fundação da oposição internacional e servindo também como semente e referência às esquerdas comunistas na Argentina (1933-43) e no Uruguai (1937-43). Ela toma a posição revolucionária sobre a insurreição dos trabalhadores de 19 de julho de 1936 e é a única tendência marxista a participar da insurreição revolucionária de 1937 em Barcelona. Tornou-se a seção espanhola da Quarta Internacional em 1938 e, desde 1943, batalha contra o centrismo na mesma; denunciou sua traição ao internacionalismo e sua consequente saída do terreno de classe em seu segundo congresso (1948), levando à ruptura dos últimos elementos internacionalistas e à formação com os dispersos da "União Internacional de Trabalhadores".
Antes de analisar a contribuição de Munis, analisemos essa "continuidade" entre 1920 e 1948.
Não podemos agora entrar numa análise das origens do Partido Comunista em Espanha. Em 1918 havia alguns pequenos núcleos interessados nas posições de Gorter e Pannehoek, que discutiram com o Birô de Amsterdã da Terceira Internacional, que aglutinava grupos de esquerda dentro da Terceira Internacional. Destes núcleos nasceu o primeiro Partido Comunista de Espanha, mas foram forçados pela IC a fundir-se com a ala centrista do PSOE, que era a favor da adesão à Terceira Internacional. Logo que possível, faremos um estudo das origens do PCE, mas o que está claro é que, além de algumas ideias e combatividade inquestionável, esses núcleos não constituíram um verdadeiro órgão da Esquerda comunista e não tiveram nenhuma continuidade. Em meados da década de 1920, surgiram os grupos da Oposição de Esquerda que efetivamente tomaram o nome de "Esquerda comunista da Espanha", liderada por Nin. Este grupo estava dividido entre os partidários da fusão com o Bloco Obrero Camperol (grupo nacionalista estalinista catalão) e os que defendiam o entrismo no PSOE, seduzidos pela radicalização de Largo Caballero (ex-conselheiro de Estado do ditador Primo de Rivera) fazendo-se passar pelo "Lênin espanhol". Munis foi um deles, enquanto a maioria, liderada por Nin, fundiu-se com o Bloco para formar o POUM. Assim, da "Esquerda comunista" nada mais tinham do que o nome que deram a si próprios para serem "originais", mas o conteúdo das suas posições e das suas ações é indistinguível da tendência oportunista prevalecente na oposição de esquerda.
Quanto à existência de uma Esquerda comunista no Uruguai e na Argentina, estudamos os artigos publicados por Nuevo Curso para justificar sua existência. No que diz respeito ao Uruguai, é a Liga Leninista Bolchevique que é um dos raros grupos dentro do trotskismo que assume uma posição internacionalista contra a Segunda Guerra Mundial. Isto tem muito mérito e nós o saudamos calorosamente como expressão de um esforço proletário, mas a leitura do artigo de Nuevo Curso mostra que este grupo mal podia realizar uma atividade organizada e movido em um ambiente político dominado pela APRA peruana, um partido burguês da cabeça aos pés que flertava com a já degenerada Internacional Comunista: "Sabemos que a Liga se reunirá com os "antidefensistas" em Lima em 1942 na casa do fundador da APRA, Víctor Raúl Haya de la Torre, apenas para verificar as profundas diferenças que os separavam. (...) Depois do fracasso de seu contato "anti-defesa", eles sofrem totalmente a caça às bruxas organizada contra os "trotskistas" pelo governo e pelo Partido Comunista. Sem referências internacionais - a IV deixando-lhes apenas a opção de abjurar a sua crítica à "defesa incondicional da URSS", o grupo se dissolve".[16]
O que Nuevo Curso chama de Esquerda comunista argentina são dois grupos que se fundirão para formar a Liga Comunista Internacionalista e permanecerão ativos até 1937 para serem finalmente laminados pela ação dos apoiadores de Trotsky na Argentina. É verdade que a Liga rejeita o socialismo em um único país e reivindica a revolução socialista diante da "libertação nacional", mas seus argumentos, embora reconhecendo o mérito de sua luta, são muito fracos. Em Nuevo Curso encontramos citações de um dos membros mais característicos do grupo, Gallo afirmando:
Tardiamente, em 1948, do tronco podre da Quarta Internacional, surgiram duas tendências promissoras (as últimas do movimento trotskista)[18]: a de Munis e aquela de Castoriadis. No artigo Castoriadis, Munis e o problema da ruptura com o trotskismo[19] deixamos bem clara a diferença entre Castoriadis, que acabou por ser um firme propagandista do capitalismo ocidental, e Munis, que sempre foi fiel ao proletariado[20].
Esta fidelidade é admirável e faz parte dos muitos esforços que surgiram para avançar para uma consciência comunista. No entanto, esta é uma coisa e outra é que o trabalho de Munis constituiu na realidade mais um exemplo de atividade individual mais que ligada a uma corrente proletária autêntica e organizada, que poderia desenvolver a base teórica, programática e organizacional para continuar até hoje a tarefa histórica de uma organização comunistas. Como já mostramos em muitos artigos, Munis, devido às suas origens trotskistas, não foi capaz de realizar esta tarefa.[21].
Em artigo escrito em 1958, Munis faz uma análise muito clara denunciando os líderes americanos e ingleses da Quarta Internacional que vergonhosamente renegaram o internacionalismo, concluindo corretamente que "a Quarta Internacional não tem nenhuma razão histórica para existir; é supérflua, sua própria fundação deve ser considerada um erro, e sua única tarefa é ir atrás do stalinismo, mais ou menos criticamente. A isso se limita, de fato, durante anos, o bordão e a escarradeira do stalinismo, segundo a conveniência deste"[22]. No entanto, ele acredita que ele pode ser de alguma utilidade ao proletariado, como pareceria que "ele tem um papel possível deixado para jogar em países dominados pelo stalinismo, principalmente na Rússia. Ali, o prestígio do trotskismo ainda é enorme. Os julgamentos de Moscou, a gigantesca propaganda levada a cabo durante quase quinze anos em nome da luta contra ele, a calúnia incessante a que foi sujeito sob o regime de Stáltico e que os seus sucessores mantêm, contribuem para fazer do trotskismo uma tendência latente de milhões de homens. Se amanhã - um acontecimento muito possível - a contrarrevolução cedesse a um ataque frontal do proletariado, a Quarta Internacional poderia rapidamente emergir na Rússia como uma organização muito poderosa."
Munis repete em relação ao trotskismo, o mesmo argumento que usa contra o Stalinismo e a socialdemocracia: que TUDO PODE SERVIR O PROLETARIADO. Por quê? Porque o Stalinismo o designou "inimigo público número um", assim como os partidos de direita apresentam os "socialdemocratas e comunistas" como "socialistas perigosos". Ele acrescenta outro argumento, igualmente típico do trotskismo em relação aos socialdemocratas e stalinistas: "Haveria muitos trabalhadores que seriam seguidores desses partidos".
Que os partidos de esquerda sejam rivais da direita e sejam vilipendiados por ela não os torna "favoráveis ao proletariado", da mesma forma que sua influência entre os trabalhadores não justifica sustentá-los. Pelo contrário, devem ser denunciados pelo papel que desempenham ao serviço do capitalismo. Dizer que o trotskismo abandonou o internacionalismo e acrescentar imediatamente que "ainda teria um possível papel a desempenhar em favor do proletariado" é uma incoerência muito perigosa que impede o trabalho necessário de distinguir entre os verdadeiros revolucionários e os lobos capitalistas que usam a pele de cordeiro "comunista" ou "socialista". No Manifesto comunista, o terceiro capítulo intitulado "Literatura Socialista e Comunista" estabelece claramente a fronteira entre por um lado o "socialismo reacionário" e o "socialismo burguês" que coloca como inimigos e, por outro lado as correntes de "socialismo crítico utópico" que aprecia no campo proletário.
A marca trotskista também se encontra em Munís quando propõe "reivindicações transitórias" à imagem do famoso Programa de Transição que Trotski apresentou em 1938. Como nós criticamos no nosso artigo "Para onde vai o FOR?"
"Em seu 'Por um Segundo Manifesto Comunista', o FOR considerou correto levantar todos os tipos de demandas de transição, na ausência de movimentos revolucionários do proletariado. Estes variam desde a semana de 30 horas, a supressão do trabalho à peça e o timing da fábrica até à "demanda de trabalho para todos, desempregados e jovens" no campo econômico. No nível político, o FOR exige "direitos" e "liberdades" democráticos: "liberdade de expressão, de imprensa, de reunião e o direito dos trabalhadores de eleger delegados permanentes de estabelecimentos, fábrica ou comércio", "sem qualquer formalidade judicial ou sindical" (Pro Segundo Manifesto p. 65-71). Tudo isso está dentro da "lógica" trotskista, segundo a qual basta selecionar bem as demandas para chegar gradualmente à revolução. Para os trotskistas, todo o truque é saber ser um pedagogo para os trabalhadores, que não saberiam o que reclamar; colocar diante deles as cenouras mais apetitosas para empurrar os trabalhadores para seu 'partido'."
Vemos aqui uma visão gradualista onde "o partido líder" administraria suas poções milagrosas para levar as massas à "vitória final", o que se faz ao preço de semear perigosas ilusões reformistas nos trabalhadores e embelezar o Estado capitalista, escondendo que suas "liberdades democráticas" são meios de dividir, enganar e desviar as lutas operárias. Os comunistas não são uma força externa ao proletariado que, através de suas "artes de liderança revolucionária", o conduza "no caminho certo". Já em 1843, Marx rejeitou esta visão dos "profetas redentores": "Não confrontamos o mundo em atitude doutrinária com um novo princípio: esta é a verdade, ajoelharmo-nos diante dela! Desenvolvemos novos princípios para o mundo baseados nos próprios princípios do mundo. Não dizemos ao mundo: "Ponha um fim as suas lutas, pois elas são estúpidas; nós lhe daremos a verdadeira consigna da luta". Nós nos limitamos a mostrar ao mundo porque ele está realmente lutando, e a consciência é algo que ele tem que adquirir, mesmo que não queira."[23]
O trabalho como uma fração, que a oposição de esquerda foi incapaz de conceber, permite aos revolucionários entender a evolução da relação de força entre a burguesia e o proletariado, para saber se estamos em uma dinâmica que nos permite avançar para a formação do partido de classe mundial ou, pelo contrário, estamos em uma situação em que a burguesia pode impor sua dinâmica à sociedade, levando-a à guerra e à barbárie.
Órfão dessa bússola, Trotski acreditava que tudo estava reduzido à capacidade de reunir uma grande massa de afiliados que poderiam servir como "liderança revolucionária" . Assim, quando a sociedade mundial se encaminhava para os massacres da Segunda Guerra Mundial marcados pelos massacres da Abissínia, a guerra espanhola, a guerra Sino-Japonesa etc., Trotski acreditava ter visto nas greves de julho de 1936 na França e na corajosa resposta inicial dos trabalhadores espanhóis ao golpe de Estado de Franco, "o início da revolução".
Incapaz de romper com este voluntarismo, Munis repete o mesmo erro. Como escrevemos na segunda parte do nosso artigo sobre Munis e Castoriadis: "Por trás desta recusa [de Munis] em analisar a dimensão econômica da decadência do capitalismo, está um voluntarismo insuperável, cujos fundamentos teóricos remontam à carta em que anunciou sua ruptura com a organização trotskista na França, o Partido Comunista Internacionalista, onde teimosamente sustentou a concepção de Trotsky de que a crise da humanidade é a crise da direção revolucionária."
Assim, Munis proclama que "Todas as explicações que tentam colocar a responsabilidade pelo fracasso da revolução em condições objetivas, no atraso ideológico ou nas ilusões das massas no poder do stalinismo, ou no apelo ilusório do "Estado operário degenerado", são erradas e servem apenas para desculpar os responsáveis, em desviar a atenção do problema real e dificultar a sua solução. Uma autêntica direção revolucionária, dado o atual nível de condições objetivas para a tomada do poder, deve superar todos os obstáculos, superar todas as dificuldades, triunfar sobre todos os seus adversários".[24]
Assim, uma "verdadeira liderança revolucionária" seria suficiente para eliminar todos os obstáculos, todos os adversários. O proletariado não teria que confiar em sua unidade, solidariedade e consciência de classe, mas confiar na bondade de uma "direção revolucionária". Este messianismo leva Munis a uma conclusão delirante: "A última guerra ofereceu mais oportunidades revolucionárias do que a de 1914-18. Durante meses, todos os Estados europeus, incluindo a Rússia, pareceram agredidos e desacreditados, passíveis de serem derrotados por uma ofensiva proletária. Milhões de homens armados aspiravam confusamente uma solução revolucionária (...) o proletariado, organizado revolucionariamente, poderia ter posto em prática uma insurreição comum a vários países susceptível de extensão continental (...). Os bolcheviques em 1917 não gozaram, de longe, de tão vastas possibilidades."[25]
Ao contrário da Primeira Guerra Mundial, a burguesia tinha se preparado conscientemente para a derrota do proletariado antes da Segunda Guerra Mundial: massacrado na Alemanha e na Rússia, alistado sob a bandeira do "antifascismo" nas potências democráticas, o proletariado ofereceu fraca resistência ao massacre. Houve o grande choque proletário no norte da Itália em 1943 que os aliados democráticos deixaram os nazistas esmagá-lo sangrentamente[26], algumas greves e deserções na Alemanha (1943-44) que os aliados se afogaram até a raiz com os terríveis bombardeios de Hamburgo, Dresden etc., sem qualquer objetivo militar, mas apenas para aterrorizar a população civil. Também a Comuna de Varsóvia (1944) que o exército russo deixou que os nazistas a esmagassem.
É abandonar-se ao ilusionismo mais suicida pensar que no final da Segunda Guerra Mundial "o proletariado, organizado revolucionariamente, poderia ter posto em prática uma insurreição comum a vários países." Com tais fantasias pouco se pode contribuir para a formação de uma organização proletária.
Um pilar fundamental da organização revolucionária é a abertura e a vontade de discutir com as outras correntes proletárias. Já vimos como o Manifesto comunista considera com respeito e espírito de debate as contribuições de Babeuf, Blanqui e do socialismo utópico. Portanto, na Resolução sobre os grupos políticos proletários adotada pelo nosso 2º Congresso Internacional, destacamos que "A caracterização das diversas organizações que afirmam defender o socialismo e a classe trabalhadora é de suma importância para a CCI. Isto não é de modo algum algo abstrato ou puramente teórico; é, ao contrário, um guia na atitude que a Corrente mantém para com estas organizações e, consequentemente, na sua atividade para com elas: ou denunciando-as como órgãos ou produtos do capital; ou polemizando e discutindo com elas para ajudá-las a alcançar maior compreensão e rigor programático; ou encorajando o surgimento de tendências em seu meio que buscam tal compreensão"[27].
Ao contrário desta posição, Trotsky, como vimos antes, rejeitou o debate com Bilan e, em vez disso, abriu as portas para uma chamada "esquerda da socialdemocracia". Munis também foi afetado pelo sectarismo. Nosso artigo em homenagem a Munis reconhece com apreço que "Em 1967, em companhia de companheiros do grupo venezuelano internacionalismo, ele participou dos esforços para restabelecer contatos com o meio revolucionário na Itália. Assim, no final dos anos 60, com o ressurgimento da classe operária no palco da história, ele estará na brecha com as fracas forças revolucionárias existentes na época, incluindo aquelas que formariam a Revolução Internacional na França. Mas no início da década de 1970, infelizmente, permaneceu fora das discussões e tentativas de reagrupamento que resultaram em particular na constituição do CCI em 1975.
Este esforço não teve continuidade e, como dizemos no referido artigo (Castoriadis, Munis e o problema da ruptura com o trotskismo, segunda parte) "o grupo [referindo-se à FOR] sofreu uma tendência ao sectarismo que enfraqueceu ainda mais sua capacidade de sobrevivência. O exemplo desta atitude que mencionamos na homenagem foi o retumbante abandono de Munis e do seu grupo da segunda Conferência da Esquerda Comunista, alegando o seu desacordo com os outros grupos sobre o problema da crise económica."
Por mais importante que seja, um desacordo sobre a análise da crise econômica não pode levar ao abandono do debate entre os revolucionários. Isto deve ser feito com a máxima tenacidade, com a atitude de “"convencer ou ser convencido”, ", mas nunca batendo a porta nas primeiras mudanças sem ter esgotado todas as possibilidades de discussão. Nosso artigo aponta, com razão, que tal atitude afeta algo vital: a construção de uma organização sólida e capaz de manter a continuidade. O FOR não resistiu à morte de Munis e desapareceu definitivamente em 1993, como indicado no artigo (Munis e Castoriadis): "Hoje o FOR não existe mais. Ele sempre foi altamente dependente do carisma pessoal de Munis, que não foi capaz de transmitir uma sólida tradição de organização para a nova geração de militantes que se reuniram ao seu redor, e que poderia ter servido como base para continuar o funcionamento do grupo após a morte de Munis."
Da mesma forma que o peso negativo da herança trotskista impediu Munis de contribuir para a construção da organização, a atividade dos revolucionários não é a de uma soma de indivíduos, muito menos a de líderes carismáticos, é baseada em um esforço coletivo organizado. Como dizemos em nosso "Relatório sobre o funcionamento da organização revolucionaria" de 1982, "O período dos chefes ilustres e dos grandes teóricos terminou. A elaboração teórica tornou-se uma tarefa verdadeiramente coletiva. À imagem de milhões de combatentes proletários "anônimos", a consciência da organização se desenvolve com a integração e superação das consciências individuais na mesma consciência coletiva."[28] Mais profundamente, por mais importantes que sejam, "a classe operária não dá origem a militantes revolucionários, mas a organizações revolucionárias: não há relações diretas entre os militantes e a classe. Os militantes participam do combate de classes à medida que se tornam membros e se encarregam das tarefas da organização".[29]
Como afirmamos no artigo que publicamos em sua morte em 1989[30]: "Apesar dos graves erros que possa ter cometido, Munis permaneceu até o fim como um militante profundamente leal à luta da classe trabalhadora. Ele foi um daqueles militantes muito raros que estiveram sob as pressões da mais terrível contrarrevolução que o proletariado já conheceu, quando muitos desertaram ou mesmo traíram a luta militante, ele esteve mais uma vez ali, ao lado da classe no ressurgimento histórico de suas lutas no final dos anos 1960.
Lênin disse que, para os revolucionários, "depois de sua morte, tentam se tornar ícones inofensivos, canonizá-los, isto é, consagrar seus nomes para o "consolo" das classes oprimidas, a fim de enganá-las. Porque é que Nuevo Curso enche o seu blog com fotos de Munis, publica sem o menor olhar crítico alguns dos seus textos etc.? Porque é que o eleva ao ícone de uma "nova escola"?
Talvez possa ser um culto sentimental a um antigo combatente operário. Se for esse o caso, devemos dizer que o resultado será uma maior confusão, porque as suas teses, convertidas em dogmas, apenas destilarão o pior dos seus erros. Recordemos a análise precisa do Manifesto Comunista em relação aos socialistas utópicos e àqueles que mais tarde tentaram justificá-los: "embora alguns dos autores desses sistemas socialistas fossem em muitos aspectos verdadeiros revolucionários, seus discípulos hoje formam seitas inquestionavelmente reacionárias, que tremem e mantêm as velhas ideias de seus professores diante dos novos caminhos históricos do proletariado".
Outra explicação possível é que a autêntica Esquerda comunista está sendo combatida com uma "doutrina" de spam construída da noite para o dia, usando os materiais daquele grande revolucionário. Se for esse o caso, é a obrigação dos revolucionários de lutar com o máximo de energia contra tal impostura.
C.Mir 4-7-19
[1] Num artigo da Série sobre o Comunismo (IX - 1924-28: 1924-28: el Thermidor del capitalismo de Estado estalinista [72] - o Termidor do Capitalismo de Estado Estalinista -, criticamos a utilização do termo "Termidor", muito típico do trotskismo, para caracterizar a ascensão e o desenvolvimento do stalinismo. O Termidor da Revolução Francesa (28 de julho de 1794) não foi propriamente uma "contrarrevolução", mas um passo necessário na consolidação do poder burguês que, além de uma série de concessões, nunca retornaria à ordem feudal. Por outro lado, a ascensão do stalinismo desde 1924 significou o estabelecimento definitivo da restauração da ordem capitalista e não representou, como Trotsky sempre pensou erroneamente, um "terreno socialista" onde "algumas conquistas de outubro" permaneceriam. Esta é uma diferença fundamental que Marx já pegou em El 18 de Brumário por Luiz Bonaparte [73], quando apontou que "As revoluções burguesas, como as do século XVIII, avançam rapidamente de sucesso em sucesso; seus efeitos dramáticos excedem uns aos outros; os homens e as coisas se destacam como gemas fulgurantes; o êxtase é o estado permanente da sociedade; mas estas revoluções têm vida curta; logo atingem o auge, e uma longa modorra se apodera da sociedade antes que esta tenha aprendido a assimilar serenamente os resultados de seu período de lutas e embates." O Termidor foi justamente um daqueles momentos de "assimilação" das conquistas políticas da burguesia, deixando espaço para as frações mais moderadas desta classe e mais propensas a pactos com as forças feudais, ainda poderosas).
[2] "La izquierda comunista no fue comunista de izquierda" -
[3] Os leitores podem visitar nosso site na seção sobre a Esquerda Comunista, onde você encontrará uma grande quantidade de documentação sobre ela. Ver Temas de reflexión y de discusión [74]
[4] Trotskismo, filho da contrarrevolução [75]
[5] Em 1926, a Oposição Unificada foi constituída entre os grupos provenientes do Manifesto dos 46 com os de Zinoviev e Kamenev, este último com um corte profundamente burocrático e manobrável.
[7] Tudo isso está amplamente documentado em O trotskismo, defensor da guerra imperialista [76]
[8] Entre os indivíduos e pequenos grupos que se opuseram à traição das organizações da Quarta Internacional, devemos acrescentar também o RKD da Áustria (veja abaixo) e o revolucionários gregos Stinas que foi fiel ao proletariado e denunciou o nacionalismo e a barbárie bélica. Ver Documento - Nacionalismo e Antifascismo [77]
[9] Ver, entre outros documentos, A esquerda comunista e a continuidade do marxismo [78] ; Apuntes para una historia de la Izquierda Comunista [79] - Notas para uma História da Esquerda Comunista.
[10] Como assinala o órgão Internacionalismo da esquerda comunista da França em seu artigo "O trotskismo, longe de promover o desenvolvimento do pensamento revolucionário e das organizações (frações e tendências) que o expressam, é um ambiente organizado para miná-lo. Esta é uma regra geral válida para qualquer organização política estrangeira ao proletariado, e a experiência mostrou que ela se aplica ao Estalinismo e Trotskismo. Vivemos o trotskismo durante 15 anos de crise perpétua, através de divisões e unificações, seguidas de outras divisões e crises, mas não conhecemos quaisquer exemplos que tenham dado origem a tendências revolucionárias reais e viáveis. O trotskismo, por si só, não secreta um fermento revolucionário. Pelo contrário, ele a aniquila. A condição para a existência e desenvolvimento de um fermento revolucionário é estar fora do quadro organizacional e ideológico do ." ".
[11] Ver, por exemplo, em Bilan No. 1, 1933, órgão da Fração Italiana da Esquerda Comunista, o artigo "Rumo à Internacional 2 e 3/4", que critica a perspectiva de Trotsky de avançar para a formação de uma Quarta Internacional.
[12] Ver, a este respeito, Anexo: Trotsky y la Izquierda italiana (Textos de la Izquierda comunista de los años 30 sobre el trotskismo) [80] Trotsky e a Esquerda Italiana (Textos da Esquerda Comunista dos anos 30 sobre o Trotskismo)
[14] Ver ¿Cuales son las diferencias entre la Izquierda Comunista y la IVª Internacional? [8] - Quais são as diferenças entre a Esquerda Comunista e a Quarta Internacional.
[15] Nascido em 1889 e falecido em 1970, fundou o Partido Comunista de Itália e deu um importante contributo para as posições da esquerda comunista, especialmente até 1926.
[16] "¿Hubo izquierda comunista en Uruguay y Chile?" - Havia uma Esquerda comunista no Uruguai e no Chile?
[17] "La "Izquierda comunista argentina" y el internacionalismo" - A "esquerda comunista argentina" e o internacionalismo
[18] Uma terceira tendência deve ser acrescentada: os RKDs austríacos destacaram-se do trotskismo em 1945. Internacionalismo discutiu com eles, no entanto, eles acabaram se transformando em anarquismo.
[19] Ver Castoriadis, Munis y el problema de la ruptura con el trotskismo I [82] - Castoriadis, Munis e o problema da ruptura com o trotskismo I ; Castoriadis, Munis y el problema de la ruptura con el trotskismo II [82] - Castoriadis, Munis e o problema da ruptura com o trotskismo II.
[20] Em 1948-49, Munis discutiu extensivamente com o camarada MC, um membro da Internationalisme, naquele período em que sua ruptura organizacional com o trotskismo amadureceu.
[21] Ver En memoria de Munis, militante de la clase obrera [83] - Em memória de Munis, um militante da classe operária. ; Polémica: ¿Adónde va el F.O.R.? [84] - Controvérsia: Para onde vai o F.O.R.? Crítica del libro jalones de derrota promesas de victoria [85] - Crítica ao livro "marcos de Derrotar, promessas de vitória"; Las confusiones del FOR sobre Octubre 1917 y España 1936 [86] - As confusões de FOR sobre outubro de 1917 e Espanha 1936, Revista internacional n°25
[22] Manifiesto/ Manifesto/ Manifeste/ Manifesto 1961
[23] Carta a Arnold Ruge [87]
[24] Carta abierta al Partido Comunista Internacionalista. [88]Deveríamos acrescentar, como exemplo deste voluntarismo cego e no fundo desmobilizador, a experiência trágica de Munis. Em 1951 explodiu em Barcelona um boicote de bondes, uma manifestação muito combativa dos trabalhadores na noite negra da ditadura franquista. Munis se mudou para lá na esperança de "impulsionar a revolução", sem entender a relação de forças entre as classes. A Internationalisme e a MC desaconselharam esta aventura. No entanto, ele insistiu nisso e foi preso passando 7 anos nas prisões de Franco. Apreciamos a combatividade do militante e somos solidários com ele, mas a luta revolucionária requer uma análise consciente e não um simples voluntarismo ou, pior ainda, um messianismo, acreditando que, estando "presentes" nela, as massas estarão reunidas para levá-las à "Nova Jerusalém".
[25] Extraído do artigo La IVª Internacional
[26] La lucha de clases contra la guerra imperialista [89] – A luta de clase contra a guerra imperialista – Italia 1943
[27] Resolución sobre los grupos políticos proletarios (1977) [90] – Resolução sobre os grupos políticos proletários
[30] En memoria de Munis, militante de la clase obrera [83] - Em memória de Munis, militante da classe operária.
Faz agora cerca de um ano e meio que agrupamento político OPOP[1] não deu mais sinais de vida política[2]. Pensamos que nos competia não permitir que o silêncio e a indiferença prevalecessem em torno deste evento, por duas razões principais. Em primeiro lugar, porque a luta histórica e internacional do proletariado tem a característica de dar à luz minorias revolucionárias e quando tal tentativa falha, como foi o caso da OPOP, devemos ser capazes de aprender com ela. Em segundo lugar, acontece que a CCI e OPOP desenvolveram uma relação contínua e até estreita durante um período de tempo, por isso temos uma responsabilidade particular de participar para assegurar que as lições sejam realmente aprendidas com o desaparecimento do OPOP.
Já vínhamos trabalhando há algum tempo em um artigo de balanço da existência deste grupo e se este trabalho chega bastante tarde, é porque não só foi necessário poder reunir, estudar e discutir todos os documentos úteis (incluindo a correspondência entre as nossas duas organizações), como também tomar a distância necessária para chegar a uma caracterização política o mais precisa possível. Da mesma forma, tivemos de ter em conta uma série de aspectos do funcionamento da OPOP, que no passado já tínhamos criticado, mas que, à luz de informações recentes que nos chegaram ao conhecimento, estão agora a tornar-se mais evidentes. Ao fazê-lo, tivemos de dar um passo atrás em relação também à nossa própria intervenção na direção desta organização, e acontece que ela nem sempre foi a mais adequada, porque tem sido demasiado conciliadora em relação às consideráveis debilidades dentro do OPOP, particularmente no que diz respeito à concepção, funcionamento e função da organização revolucionária.
A percepção tardia da gravidade de algumas destas fraquezas reais da OPOP não invalida, contudo, um juízo que fizemos da nossa relação com ela, nomeadamente a existência política potencial, no início, mas que infelizmente não pôde ser cultivada.
A fim de facilitar a leitura deste documento, destacamos a sua estruturação de acordo com as seguintes partes principais:
Encontramos OPOP pela primeira vez em 2005 e desde antão e durante alguns anos desenvolvemos com essa organização uma relação de confiança mútua alimentada por debates políticos abertos sem concessão, entre os quais alguns foram divulgados em nossas publicações respetivas[3]. Delegações da CCI e da OPOP foram convidadas a participar de congressos respectivos das duas organizações. Nossas organizações também efetuaram intervenções comuns em reuniões públicas no Brasil e em algumas lutas por meio de distribuições de panfletos comuns[4].
Mais do que o próprio desaparecimento da OPOP, é a forma como aconteceu que levanta questões: nenhuma declaração oficial desta organização, nenhuma análise produzida sobre o que aconteceu, nenhuma tentativa - mesmo por conta própria - de compreender problemas no seu seio que lhe tenham sido fatais.
O presente texto, que se dá como objetivo militante analisar as causas da falência da OPOP e de tirar lições disto, deve ser considerado na continuação das nossas polêmicas passadas com este grupo, as quais já evidenciavam erros políticos essenciais da OPOP. Entre elas e não a menor, uma incapacidade do grupo de se determinar criticamente em relação à continuidade histórica internacional da Esquerda comunista[5]. Com efeito, sendo o proletariado uma classe histórica, uma organização que se priva das lições que as minorias revolucionárias que permaneceram fiéis à causa do proletariado são capazes de lhe transmitir condena-se necessariamente à incapacidade de desempenhar um papel de vanguarda política. De fato, não são das antigas organizações de trabalhadores que traíram a causa do proletariado (Partidos Socialistas, Partidos Comunista, Trotskistas) que devemos esperar tais lições.
Apesar do esgotamento da dinâmica inicial do grupo que levou ao seu desaparecimento, não se pode excluir que exista ainda um sopro de vida entre alguns ex-militantes desta organização, não resignados à perca de esforços passados de clarificação política. Se realmente for o caso, esperamos que o presente texto talvez possa suscitar uma reflexão e os encorajemos a debater dele. Mais importante ainda, esperamos que as futuras tentativas coletivas de politização em Brasil y outros países possam aprender disto.
O período dos anos 1977-82 corresponde a uma efervescência política no Brasil, tanto do ponto de vista da luta contra os ataques às condições de vida da classe operária como da reflexão política.
De certa maneira, a fundação do PT em 1980 constituiu uma resposta da burguesia brasileira para enfrentar esta situação social, visando assim a orientar a luta do proletariado para becos sem saída. Função que os PC (Partido Comunista Brasileiro e Partido Comunista do Brasil) não estavam em condição de assumir por si mesmos. Mesmo assim, este dispositivo das forças de esquerda (e extrema-esquerda) não conseguiu abafar totalmente a efervescência política como o que ilustra a própria história da OPOP cujo primeiro encontro, foi realizado nos dias 10 e 11 de dezembro de 1994[6].
A propósito da sua gestação política, OPOP diz: "A forma Oposição Operária, onde existe, não nasceu nem se fez de uma hora para outra, de uma vez. Pelo contrário, ela resultou de um processo longo de aproximações, retrocessos e rupturas, partindo sempre da situação de meras "oposições" a diretorias de sindicatos, para depois, ao longo de um aprendizado prático e teórico, saírem do terreno meramente sindical para se situarem no terreno de caráter autonomamente operário, anti-oficial e anti-capitalista. No princípio, todos militávamos na CUT, no PT, no sindicato e até fazíamos campanha para o Parlamento. Pouco a pouco fomos aprendendo, pela prática e a reflexão, a negá-los e a não reconhecer neles, necessariamente, nada mais do que formas de reprodução da ordem do capital, vale dizer, formas de submissão do proletariado à burguesia" (Carta de princípios - 2003)
As discussões que aconteceram no grupo e depois na própria OPOP percorreram um longo processo lento e difícil de ruptura com o conjunto da esquerda do capital, tocando alguns escritos essenciais de Pannekoek, Gorter ("Carta aberta ao camarada Lênin") mas sem ter havido um aprofundamento do que a Esquerda Comunista produziu na sua crítica ao oportunismo e à degeneração dos partidos comunistas. Em particular, a componente mais importante entre elas, a Esquerda Comunista Italiana, ficou totalmente desconhecida desses companheiros. A este respeito, não podemos deixar de perguntar por que razão esta omissão não seria o produto de uma abordagem política que carece de modéstia e tende a considerar-se auto-suficiente. Assim, privados de vínculos internacionais, OPOP teve que "buscar seu próprio caminho".
Nos primeiros encontros que tivemos com OPOP, deu para constatar que eles tinham certos passos importantes no caminho na ruptura com as posições burguesas iniciais da esquerda do capital, o que se expressava mais em diversas posições de classe do que numa coerência global que faltara até o fim.
Havia, no início, uma verdadeira vontade de romper com a esquerda do capital e de desenvolver o debate político.
O agrupamento OPOP tem demonstrado desde no início uma verdadeira vontade de romper com a esquerda do capital e desenvolver o debate político.
Um número importante de posições proletárias significativas da OPOP foram adquiridas no contexto difícil de isolamento político que falamos. Neste contexto, alguns militantes foram capazes de resistir à ideologia dominante do anti-Leninismo, do anarco-conselhismo ou da idolatria leninista do esquerdismo para conseguir se reapropriar-se de alguns aspectos importantes da concepção de Lenin do partido.
Não é por acaso que o primeiro texto de tomada de posição da CCI sobre a carta de princípios do grupo OPOP em 2005 (Análise crítica da Carta de princípios), até hoje interna a nossas organizações respectivas, começava assim: "Este grupo é uma verdadeira expressão dos esforços da classe operária para se livrar da influência ideológica democrática e parlamentar, dos partidos de esquerda e dos sindicatos, verdadeiros órgãos de enquadramento do proletariado". De fato, a primeira "Carta de Princípios" da "Oposição operária" de 2003, defende as ideias seguintes:
Encontram-se também nesta carta de princípios, argumentações e conclusões de polêmicas passadas, internas ao grupo, acirradas, em crítica à concepção do Estado por Gramsci; a definição das classes sociais por E. P. Thompson (A Formação da Classe Operária Inglesa). Dá para entender a vontade de fazer com que combates políticos internos passados sejam concluídos de forma sintética para enriquecer o patrimônio teórico do grupo. Neste sentido é algo positivo que participa da definição política do grupo. O problema é que, um grupo político não se define unicamente por uma coleção de posições políticas. Tratar-se-ia então de um quadro teórico muito fraco se tais posições não se encaixassem numa coerência global, produto das lições do combate histórico do proletariado. Na verdade, esta coerência pouco existiu na OPOP.
Isto também é exemplificado pelo fato de que umas questões fundamentais do movimento operário não foram abordadas nas primeiras versões da carta de princípios:
Na realidade, esta fraqueza é indicativa da dinâmica política da OPOP que além de tudo foi determinada pela necessária reação à atuação antioperária da esquerda, dos sindicatos, das instituições, sem por isso realmente conseguir a se colocar numa perspectiva revolucionária clara, com todas suas implicações políticas.
Essa crítica direcionada a OPOP não é nova, pois já a tínhamos formulado em parte pouco depois das primeiras reuniões entre nossas duas organizações. Foi ouvida como algumas outras críticas nossas. Isso resultou em discussões no seio da OPOP e, como resultado, em esclarecimentos significativos ou pequenas mudanças na formulação de posições de OPOP e também em réplicas escritas do grupo à CCI.
Mas, ao nosso ver, não houve no seio da OPOP uma reflexão mais geral e mais profunda no seio do grupo para fazer evoluir sua própria definição.
Trata-se de erros ou omissões que foram corrigidas numa nova carta de princípios (2006), em particular as ideias seguintes:
A pesar dos intentos de OPOP em colocar se numa perspectiva internacionalista, em nenhum lugar das publicações dela se encontra uma declaração intransigente em defesa do internacionalismo proletário.
Nunca há uma denúncia vigorosa de todas as formações políticas da esquerda à extrema esquerda que traíram o proletariado participando na guerra imperialista: os partidos socialistas face à Primeira Guerra Mundial, os PC e os trotskistas que fizeram o mesmo, face à Segunda Guerra Mundial.
Esta grande fraqueza da OPOP foi demonstrada, entre outras, dentro de um folheto co-assinado com grupos trotskistas sobre os conflitos no Médio Oriente, distribuído ao SP em 2006[7].
Diante da guerra, a "Carta de Princípios" evoca as reações que aconteceram no mundo para protestar contra as "agressões imperialistas" sem deixar bem claros que todos os países são imperialistas, e não somente os Estados-Unidos.
Por consequência, ela foi incapaz de se apropriar destes eventos históricos para definir um quadro histórico capaz de dar conta destes, a entrada do capitalismo numa nova época, a "era de guerras e revoluções" (Manifesto da IC em 1919), sua fase de decadência. Nem essa novidade foi alguma vez associada por OPOP à irrupção mundial do imperialismo nessa época (como o evidenciaram Lênin e Rosa Luxemburg)
Do mesmo modo, também não parece atribuir qualquer importância ao fato de a traição definitiva da maioria dos partidos da Segunda Internacional ter tornado possível a guerra mundial. Isto é evidenciado por um documento desta organização - posteriormente retirado - que datou a passagem da socialdemocracia alemã para o campo do inimigo nos anos 1950. Além disso, logicamente, a OPOP não foi capaz de compreender como a abertura do novo período histórico se caracteriza, entre outras coisas e em particular, pela integração definitiva dos sindicatos no Estado capitalista. Com efeito, contrariamente a isso, a OPOP foi incapaz de fornecer uma base sólida para entender esta integração dos sindicatos ao Estado. Para ela, a tendência dos sindicatos para trair teria existido em todos os momentos como consequência do interesse expressado pelos dirigentes sindicais em apropriar-se de uma parte da mais-valia, em outros termos por se deixar corromper pelo Estado burguês. Ainda no caso do OPOP, só no final do século XX é que essa tendência se teria concretizado de maneira significativa[8].
Assim como as mudanças na vida econômica do capitalismo não são vistas como o produto do novo período, especialmente com as crises cíclicas do século XIX que deram lugar a uma situação de crise permanente, em que as fases de prosperidade relativa apenas preparavam o caminho para as fases de depressão. Incapaz de fornecer uma base sólida para esta mudança, a OPOP foi incapaz de ver, quanto mais de compreender, a crise dos anos 30.
Em diferentes momentos, a OPOP apresentou diferentes causas que explicam o fracasso da revolução russa: a falta de preparação para a gestão da sociedade, o peso do feudalismo e do campesinato na Rússia, o carácter minoritário do proletariado na Rússia, etc.[9] Em total contradição com o reconhecimento da impossibilidade do socialismo em um único país, ela deduziu desses fatores que o contexto russo determinou em grande parte o destino da revolução naquele país. Não vê que o proletariado tinha perdido gradualmente o poder lá:
O Estado não é o produto de uma determinada classe, é como Engels apontou, o produto de toda a sociedade dividida em classes antagônicas. Mas, identificando-se com as relações de produção dominantes (e, portanto, com a classe que as encarna), sua função é preservar a ordem econômica estabelecida e, portanto, os interesses da burguesia.
Após a revolução proletária vitoriosa, diferentes classes sociais persistem, mesmo após a derrota da burguesia a nível internacional. O Estado do período de transição que então emerge é a emanação de uma sociedade ainda dividida em classes e não pode em nada ser o motor de transformação da sociedade. Isto é o que A OPOP não entendeu, nem compreendeu que só o proletariado, organizado nos seus conselhos operários, exercendo sua ditadura sobre o Estado e a sociedade como um todo, está em condições de assumir a transformação social.
Esta falha de OPOP em abordar a questão do Estado tem implicações sobre uma teoria própria a este grupo, ou seja: do "pré-Estado". Voltaremos a isso mais tarde.
Para nós e mais geralmente para o marxismo, a única revolução na agenda no capitalismo é aquela que deve derrubar este sistema e estabelecer uma nova sociedade livre da exploração e da guerra, o comunismo. O sujeito desta revolução é a classe dos trabalhadores assalariados, produtores da maior parte da riqueza social, o proletariado.
A OPOP não estava suficientemente clara de que a única tentativa revolucionária mundial que ocorreu foi a primeira onda revolucionária mundial. De fato, ela acredita na ocorrência de outras, uma vez que detecta situações revolucionárias no mundo onde não havia nada disso.: "Nestes países, face sua cada vez mais clara inviabilidade capitalista, a crise provoca um tão alastrado descontentamento e uma tão acentuada descrença nas instituições “democráticas” falidas, que a população, num número crescente deles, já ensaia um novo seriado de guerras civis (Argentina, México, Colômbia, Equador, Venezuela), podendo repetir, num grau certamente mais elevado, movimentos como os que se alastraram por toda a década de 70 do século passado. O mundo parece dar emergência a um punhado de situações e crises autenticamente revolucionárias." (Sublinhado por nós)
Este erro de avaliação da situação está ligado a outro, expressa na primeira carta de princípios e que tende a confundir a luta da classe operária com os movimentos populares das camadas sociais "oprimidas" ou com os movimentos interclassistas: "O que acontece de novo na forma Oposição é que cada luta específica é também uma luta geral e deve buscar a solidariedade do conjunto do povo oprimido" (sublinhado por nós). Antes que a classe operária possa liderar as camadas oprimidas, sem correr o risco de ser esmagada por elas, ela deve primeiro afirmar-se como a única classe capaz de realizar o projeto de uma outra sociedade como alternativa ao capitalismo.
O que falta, portanto, na "Carta de princípios" é colocar em evidência o papel central e único da classe operária que, só ela, é capaz de desenhar uma perspectiva revolucionária capaz de levar atrás dela camadas exploradas da sociedade.
A "Carta de Princípios" não apresenta os conselhos operários como o produto de uma necessidade da luta de classe dentro das condições que correspondem à nova época do capitalismo (a da decadência) mas como o resultado duma visão abstrata destinada a encontrar uma solução face à evidência da impossibilidade de utilizar os sindicatos na atualidade.
Ao contrário do que ressalta dos esquemas desenvolvidos na Carta de Princípios, os conselhos operários não são o produto de um trabalho de organização prévio e progressivo (como podia acontecer com os sindicatos) mas surgem espontaneamente quando existe uma situação de crise revolucionária assim como aconteceu pela primeira vez em 1905 na Rússia.
Ao contrário dos sindicatos, eles não são órgãos permanentes com objetivo de obter reformas no seio do sistema : não podem existir fora da mobilização operária. A função deles é precisamente a confrontação ao Estado capitalista (a dimensão política da luta) que na sua fase de decadência torna-se incapaz de conceder reformas duradouras. Órgãos do duplo poder durante as fases revolucionárias, eles são a forma que corresponde à ditadura do proletariado depois da tomada do poder. Mas não tendo realmente entendido por que os sindicatos são necessariamente contra a luta de classes, a OPOP não pode entender que os conselhos operários não podem ser órgãos permanentes da luta da classe trabalhadora, desde quando esta não esteja mobilizada em um nível muito elevado em um período pré-revolucionário.
Além disso.., a "Carta de Princípios" se equivoca quando chama de conselhos operários, formas de mobilização que não tem nada a ver com a luta autônoma do proletariado, por exemplo como na Espanha 1936. Neste último caso, longe de atacar o Estado burguês destruí-lo, como foi o caso em outubro de 1917 na Rússia, os trabalhadores foram desviados e recrutados para a defesa do Estado republicano. Nesta tragédia, a CNT, anarquista, o sindicato mais poderoso, desempenhou de fato um papel de liderança, mas antioperária, desarmando os trabalhadores, empurrando-os no sentido de abandonar o terreno da luta de classes para capitular e enganá-los, entregando-os, de pés e mãos atadas, ao Estado burguês. Em vez de atacar o Estado para destruí-lo, como sempre afirmaram querer fazer, os anarquistas ocuparam cargos ministeriais.
Quanto às coletividades anarquistas onde se praticava a autogestão, quer dizer a organização pelos próprios operários, da sua exploração no seio do capitalismo, elas não tinham absolutamente nada a ver com os conselhos operários[10].
Em geral, a OPOP demonstrava não entender que as tentativas para tornar permanentes as assembleias ou os comitês de greve (o que preconiza a "Carta de Princípios") já foram condenadas por experiência própria da classe operária: "A única atividade que pode gerar uma organização estável num terreno de classe, fora dos períodos de luta, não pode ser concebida para o curto prazo. Situando-se ao nível do combate histórico e global da classe, que é o da organização política proletária, há que tirar lições da experiência histórica operária, reapropriando o programa comunista e intervindo politicamente. Ora, esta é uma tarefa de minorias e não pode constituir uma base de agrupamento geral, unitário da classe. A incapacidade de ser, ao mesmo tempo, uma organização unitária e uma verdadeira organização política, condena as organizações híbridas (unitárias e políticas) a se dissolver ou a se manter ilusoriamente vivas sob a forma de sindicatos." (Os sindicatos contra a classe operária).
Uma entre as motivações que contribuíram para esta “brilhante” inovação, exposta por OPOP nas discussões entre as duas organizações, é fazer com que, na futura revolução, o poder dos sovietes não seja "confiscado" como na Rússia depois da revolução! Como se este confisco fosse, como alega OPOP, o resultado de uma falta de preparação! Na realidade, foi o resultado de um equilíbrio de poder desfavorável ao proletariado frente à burguesia a nível internacional, e, também, de incompreensões da vanguarda quanto ao que representa o estado do período de transição.
Estamos de fato a falar de pura aberração devido a duas razões:
De fato, na nossa opinião, um obstáculo crescente à clarificação política da OPOP resultou da forma como o grupo estava organizado, como funcionava e com que objetivos. É certamente sobre esta questão que foi necessário um "esforço de esclarecimento" e que um profundo questionamento deveria ser levado a cabo. Tanto quanto sabemos, não foi o caso e o fato da CCI não ter sido mais "ofensiva" sobre esta questão nas discussões com a OPOP é uma crítica que deve ser feita à nossa intervenção. Em particular, teria sido necessário ser capaz de colocar o problema da forma mais teórica possível, possivelmente através de polêmicas públicas, com vista a provocar a reflexão no grupo, a fim de o levar a colocar-se as verdadeiras questões: Qual poderia ser a função política da OPOP, para ser útil à causa do proletariado? Como se organizar para isso?
Se olharmos agora para as considerações políticas que presidiram à definição da forma OPOP, torna-se claro porque é que isto levou a um resultado catastrófico sobre o qual discutiremos mais detalhadamente no resto deste texto.
Com base nos elementos de ambas as citações de diferentes versões[11] da carta de princípios de OPOP, obtém-se a seguinte síntese:
"No Brasil, é muito difícil sobreviver uma forma como OPOP e ainda mais difícil criar e desenvolver um partido de quadros marxistas. Por quê? Porque não há tradição nem memória revolucionária neste país. (...) A OPOP não é um partido de quadros. (...) É óbvio que a plataforma programática da OPOP não tem a coerência que seria a de um partido de quadros tipo leninista. Mas negar, por causa desta ambiguidade, a vontade da OPOP e dizer que, não sendo um partido de quadros, não pode abraçar uma perspectiva revolucionária, é um julgamento sectário. (...) Alguns dos seus militantes estão convencidos da urgência de um partido de quadros, e até acham benéfico que OPOP acabe por formar militantes que, através da sua evolução, contribuam para a formação, num futuro imprevisível, de um partido de quadros."
Qual é o significado político para OPOP da expressão "partido de quadros"? Isto não é muito claro para nós. No que nos diz respeito, esta formulação refere-se à ideia de militantes politicamente formados capazes de transmitir e enriquecer a experiência do movimento operário, tendo em vista, a longo prazo, a formação de um partido de vanguarda da classe trabalhadora. Do ponto de vista da esquerda e da extrema esquerda do capital, herdeira da contrarrevolução, esta formulação refere-se à função de enquadramento do proletariado. Não estamos em posição de dizer claramente qual destes dois polos opostos a OPOP estava mais inclinado. Tudo o que podemos dizer é que a forma como a OPOP justifica sua forma de organização expressa o mais profundo ausência e incompreensão sobre o tipo de organização necessária para a vanguarda revolucionária.
Na citação acima, podemos identificar claramente o medo do isolamento como um fator que levou a OPOP a escolher deliberadamente a forma híbrida de organização, ou seja, ao mesmo tempo, a defesa dos interesses imediatos do proletariado (uma "organização de massas") e a defesa dos seus interesses políticos (a luta pelo comunismo) : "As condições que tornam muito difícil no Brasil a criação de um grupo político marxista, para existir é necessário então abrir as portas mais amplamente, relaxando os critérios de adesão."
Contrariamente a um desejo vago expresso na Carta de Princípios, a própria forma da OPOP constitui uma limitação à possibilidade de aumentar e reforçar a sensibilidade para a necessidade de um partido de vanguarda. Com efeito, caso contrário, faria claramente parte dos seus objetivos políticos, como é, por exemplo, a denúncia da esquerda, dos sindicatos, ...
Muito pelo contrário, os documentos programáticos são muito pouco claros sobre a questão: "Parte de seus militantes está convencida da necessidade urgente de um partido de quadros, (...)esses membros não impõem à OPOP nenhum estilo de prática e de doutrina partidária própria de partido de quadros". De que serve colocar o problema de uma formulação tão implausível para um documento político? De fato, não serve nem mais nem menos do que esconder a realidade da escolha da OPOP para não mencionar a importância de um partido de vanguarda como condição para aderir a OPOP.
O conceito de oportunismo, tal como historicamente usado no movimento operário, não serve para caracterizar atitudes políticas dentro da burguesia, mas dentro das organizações da classe operária. O oportunismo é uma manifestação da penetração da ideologia burguesa nessas organizações e é expresso em particular, seja por uma rejeição ou ocultação dos princípios revolucionários e do quadro geral das análises marxistas, ou por uma falta de firmeza na defesa desses princípios. Um dos exemplos mais infames do oportunismo foi o que ocorreu dentro dos partidos da Segunda Internacional, que foi cada vez mais abandonando o programa "máximo" - a revolução - e priorizando do programa "mínimo" – quer dizer a realização de reformas.
E a forma como a OPOP justifica a sua própria forma organizacional é precisamente uma abordagem oportunista. Ao mesmo tempo, porém, a OPOP não gostaria de ser criticado por isso.
A relativização pela OPOP deste princípio do marxismo (a necessidade de um partido do proletariado) é tão flagrante (ainda que, nas palavras da OPOP, é apenas uma simples "ambiguidade" assumida) que, para esconder a sua realidade, os próprios autores da Carta de Princípios inventaram um novo conceito político, muito vago e supostamente caracterizando a verdadeira dinâmica da OPOP que "abraça uma perspectiva revolucionária".
E como num passe de mágica pudesse não ser suficiente, a OPOP diz que de qualquer forma não é ela que é oportunista, mas os outros que são sectários quando colocam o dedo no seu próprio oportunismo: "Mas negar, por conta dessa ambiguidade, a disposição da OPOP e dizer que ela, por não ser um partido de quadros, não pode abraçar uma perspectiva revolucionária, é um juízo de sectarismo".
É enganar-se a si própria e aos outros utilizar a afirmativa de que "Parte de seus militantes está convencida da necessidade urgente de um partido de quadros, e até acha salutar que a OPOP acabe formando militantes que, pelo seu avanço, acabem por contribuir para a formação, em futuro não previsível, de um partido de quadros". Na verdade, tal desejo, quando é afastado da realidade e do significado político da luta de Lênin por um partido de vanguarda (correspondente às necessidades da revolução em ruptura com as anteriores formas obsoletas do movimento operário), permanece um ideal abstrato, uma fórmula vazia.
A nível político geral, portanto, deve-se concluir, para o balanço político da OPOP, que existe uma falta de coerência programática, o que, a princípio, é normal para um grupo cujos membros estão em ruptura com as posições políticas da esquerda do capital. Isto torna-se comprometedor para o futuro quando o grupo em questão, após mais de uma década de existência, ainda não tinha sido capaz de :
Estas deficiências gerais significativas estão ligadas a um conjunto de fraquezas:
Uma abordagem que não seja resolutamente internacionalista tem consequências potencialmente dramáticas para a defesa deste princípio na intervenção junto da classe trabalhadora. Mas além disso, uma deficiência na visão internacionalista também tem consequências negativas para a forma como se concebe a si mesmo como uma minoria revolucionária, na medida em que induz necessariamente uma percepção estreita da sua função, acumulando com os efeitos idênticos de uma incapacidade de se enquadrar numa continuidade política histórica crítica. Muito pelo contrário do que é necessário para poder contribuir positivamente para o processo que conduz à constituição do futuro partido mundial da revolução.
Foi apenas com dificuldade que a OPOP assumia plenamente sua orientação comunista revolucionária, por medo de ser mal compreendida ou rejeitada, e invocando sobre este assunto o caráter retrógrado do proletariado no Brasil, ou o perigo da repressão. Neste sentido, é bastante significativo que nem o seu nome "Oposição Operária" nem o da sua publicação "Germinal" se refiram à revolução, ao internacionalismo, ao comunismo. Do mesmo modo, a sua atividade careceu claramente da marca da paixão pelo esclarecimento político ao serviço de uma causa comum que vai para além de cada um de nós.
As questões da relação entre a organização da classe trabalhadora e a do seu papel não se colocam em si mesmas, nem são produto da especulação de "pensadores esclarecidos". São questões teóricas que evoluíram com as necessidades da luta da classe trabalhadora.
Sendo incapaz de se referir às críticas feitas pelas várias correntes da Esquerda Comunista à degeneração da revolução russa, a OPOP é incapaz de se distinguir claramente da extrema esquerda do capital quando, na forma do "leninismo" dos trotskistas e maoístas, apresenta os erros da revolução e seus famosos militantes em verdades intocáveis. Mesmo que, em certas questões, a OPOP seja capaz de se distanciar do catecismo esquerdista, criticando o que chama de "ambiguidades" de Lênin após a tomada do poder (sem compreender, porém, o peso do isolamento da revolução e sua degeneração na origem de alguns dos erros do grande revolucionário), era inevitável, nestas condições, que a OPOP tivesse a maior dificuldade em compreender o papel da organização revolucionária na era das guerras e revoluções.[12] Em particular que:
Seu projeto de organização híbrida, além de constituir uma tentativa de escapar ao isolamento também expressa o peso sobre a OPOP de um passado longínquo em que as organizações de defesa dos interesses imediatos - os sindicatos, que ainda não estavam integrados no Estado capitalista, estas escolas de comunismo nos termos de Marx, poderiam constituir um instrumento para a influência da organização política no seio do proletariado. Com efeito, na visão do OPOP, a pré-Estado, constituído por uma rede de círculos operários construída progressivamente no seio da sociedade capitalista, substitui os sindicatos atualmente inutilizáveis. E, tal como na época em que os sindicatos serviram de correia de transmissão aos partidos socialdemocratas, o pre-Estado de amanhã assumiria a mesma função em relação à OPOP. É possível que isto não corresponda ao projeto consciente da OPOP, mas objetivamente é sua lógica interna.
Na ausência de uma bússola baseada em princípios político claros, havia a tendência - que temos apontado - dentro da OPOP em se confiar muitas vezes, em diversas questões, em certezas como se fossem dogmas, com frequência emanando de intelectuais cuja profissão acadêmica ou hobby é o estudo do marxismo. A mesma fraqueza também pode levar, como aconteceu na história, a um alinhamento acrítico por trás da autoridade política de alguns militantes, que por sua vez têm total liberdade "para agir por sua própria vontade" ou apesar de quaisquer considerações organizacionais. Este foi particularmente o caso da Oposição Internacional de Esquerda (OIE) no final da década de 1920 e início da década de 1930, que foi afetada por fraquezas dramáticas deste tipo: a falta de princípios dentro dela e a atitude de Trotsky, que na época havia sido criticada pela Fracção Italiana, principalmente através de uma carta dirigida a esta última, datada de 19 de Junho de 1930. Um artigo da CCI volta sobre este evento: "É em 1929, com a expulsão de Trotsky da URSS, quando a Oposição Internacional de Esquerda (OIE) organiza-se de maneira mais centralizada e consequente. Este acontecimento é de uma importância capital para o movimento revolucionário, é a possibilidade oferecida aos diferentes grupos ou núcleos oposicionistas de reagrupar-se, de entrar em contato, de organizar-se. O papel de Trotsky vai ser decisivo. O que vai fazer? De fato, no curso deste período ele terá um papel negativo, a política pessoal que vai levar no seio da Oposição leva à dissipação e à dispersão das energias revolucionárias. Sua política se funda sobre a convicção de que o período continua sendo favorável para a revolução.
Mas, teria que tirar todas as lições da onda revolucionária dos anos 20, fazer um "balanço" e sobre esta base estabelecer uma plataforma política, sólida, para consolidar o movimento revolucionário. É isto a que se propõe a Fração italiana: "o problema central da crise do movimento comunista reside na localização e na análise de quais causas que nos levaram ao desastre atual"[13]. Para a Conferência de abril de 1930, a Fração tinha elaborado um documento que insiste sobre esta necessidade de um balanço e um reexame dos acontecimentos passados"." (Trotsky e o trotskismo [93])
De acordo com nossas próprias observações, a crítica dirigida anteriormente à OIE e Trotsky também se aplica ao OPOP. A comparação para aí porque, sejam quais forem as verdadeiras fraquezas de Trotsky em matéria de organização, seria descabido tentar esboçar a menor semelhança entre o grande militante revolucionário e os militantes da OPOP.
Houve momentos na OPOP em que os princípios básicos do movimento operário foram pisoteados, como a manutenção de laços políticos e culturais com organizações da esquerda do capital. De fato, é difícil acreditar que dentro desta organização tenha sido tolerado que um de seus membros tivesse tais ligações com o Partido Comunista do Brasil (PCB) e tivesse uma contribuição escrita em seu próprio nome, "Por que a essência não pode ser apropriada imediatamente? [94]" publicada no site de uma fundação desta organização em novembro de 2013. Mas neste caso, há um assunto ainda mais sério, já que é a organização OPOP que está indiretamente, mas explicitamente, envolvida neste processo. É sim, na introdução pelo PCB desta publicação, está associado o nome de OPOP à fundação da qual o autor participou e de seu jornal Germinal[14]. É desnecessário dizer que, antes desta descoberta, a CCI não conhecia a "dupla vida militante" deste membro da OPOP, nem conhecia a tolerância da OPOP face a tais práticas, se ela própria as conhecia. Se a OPOP de fato tolerou conscientemente tal comportamento, a CCI só pode sentir-se enganada por acreditar na autenticidade do compromisso revolucionário deste grupo.
Se o debate é o sangue vital da classe operária, é ainda mais para suas organizações revolucionárias onde deve ser colocado ao serviço do esclarecimento tanto para a compreensão do mundo e da intervenção na classe trabalhadora como perante todas as questões que se colocam ao nível do seu funcionamento interno. A existência de divergências dentro delas é a manifestação de que é um órgão vivo que não tem respostas prontas para abordar imediatamente os problemas que surgem diante da classe. O marxismo não é nem um dogma nem um catecismo. É o instrumento teórico de uma classe que, por meio da sua experiência e tendo em vista o seu futuro histórico, avança gradualmente, com altos e baixos, para uma consciência que é condição indispensável para a sua emancipação. Como qualquer reflexão humana, a que preside ao desenvolvimento da consciência proletária não é um processo linear e mecânico, mas sim contraditório e crítico. Envolve necessariamente o confronto de argumentos.
Para ser indispensável, não basta compreender o que é o debate proletário. Para ser produtivo, este debate deve ser conduzido com um método científico e rigoroso que estabeleça claramente onde começa, o que deve ser clarificado, os limites do assunto a discutir, a sua origem, o seu contexto, as posições no seio do movimento operário, o seu progresso no seio do grupo com as diferentes posições envolvidas, as conclusões provisórias sobre as quais será necessário continuar a debater, assegurar que foram dadas respostas pormenorizadas a todas as posições envolvidas.
Em nossa opinião, porém, a OPOP teve grande dificuldade em implementar tais princípios e tal rigor organizacional. Isto estava implícito e até explícito no fato de, por exemplo, nunca ter tomado uma posição política sobre a sua participação em vários congressos da nossa organização, apesar de, por vezes, as delegações da OPOP em causa terem levado a cabo projetos submetidos à sua organização. Isto foi um reflexo de quê? Falta de rigor político ou de coragem política? Da mesma forma, a OPOP nunca respondeu às nossas próprias posições após a nossa participação em alguns dos seus congressos, o que por vezes suscitava críticas.
A OPOP não tinha nem o quadro organizacional nem a vontade política para assumir um verdadeiro debate coletivo e associado dentro da organização. Uma característica perniciosa é sobreposta a esta deficiência: a tendência dentro da OPOP de criar "uma organização dentro da organização".
A OPOP era uma organização muito heterogénea, incluindo em questões políticas da sua Carta de Princípios. A este respeito, pareceu a todos os que entraram em contato com esta organização que alguns dos seus membros, os mais antigos do grupo, eram de certa forma os fiadores da identidade e da sustentabilidade política das suas posições. Não é de modo algum chocante que os camaradas com maior experiência política na OPOP tivessem que assumir responsabilidades acrescidas na defesa das posições desta organização.
O problema aqui é que a carta de princípios (ou uma de suas muitas variantes) torna possível deduzir que os camaradas mais avançados, são os próprios militantes que estão "convencidos da urgência de um partido de quadros". Como resultado, estes camaradas encontram-se assim dotados de confiança política, o que por si só não é prejudicial desde que verificada e não sacralizada ou, por outras palavras, não é imposta face a qualquer questão nova, constituindo assim um obstáculo prejudicial à clarificação política. De fato, a clarificação política coletiva será afetada desde o início e poderá mesmo ser impossível a longo prazo se, dentro da organização, algumas pessoas estiverem numa posição de liderança ou de brilhante pensador enquanto, ao mesmo tempo, outras tendem a adoptar uma atitude mais seguidores em relação ais primeiros. [16]
Além disso, tal situação de organização dentro da organização torna-se uma fonte de crise aberta logo que começam a desenvolver-se diferenças reais, ou mesmo tensões, dentro deste núcleo de garantidores da OPOP ou entre este e os demais membros da organização, quando não existem, ao mesmo tempo, uma concepção e regras de funcionamento internas suficientemente claras e partilhadas para manter a coesão política, mesmo no caso de lutas políticas, que são, contudo, inevitáveis em qualquer organização política viva.
Houve muitas vezes, nesta organização, uma pressa na admissão de novos membros, enquanto que, obviamente, alguns deles ainda estavam em processo de reflexão. A este respeito, a OPOP herdou métodos de recrutamento esquerdistas, cujo primeiro critério é a própria adesão – condição para o crescimento em número - e não a profunda convicção daquele que adere. No mesmo sentido, deu para assistir a tentativas, da parte de OPOP, de afastar alguns de seus contatos de certas influências e reflexões que os poderiam ter desviado da adesão à OPOP. A superficialidade de algumas dessas integrações explica, em parte, por que terminaram rapidamente em fracasso.
Uma intervenção exterior que, por vezes, era claramente oportunista
Sempre foram toleradas, dentro desta organização, visões políticas que são contrárias à sua carta de princípios. Assim, em várias ocasiões, vimos vozes da OPOP, em suas próprias reuniões públicas ou em outros eventos, que reivindicavam, como componente ou meio da luta da classe trabalhadora pela sua emancipação:
Uma lição a ser aprendida das muitas tentativas de ruptura com a esquerda do capital e sua ideologia é que também devemos aprender a nos livrar do que a militância inculca nestas organizações, ou seja, graves deformações que vão além das posições políticas por si só, porque também afetam de forma muito negativa a visão da organização, do comportamento político dentro dela.
Com efeito: "é possível romper com as posições políticas destas organizações (sindicalismo, defesa da nação e nacionalismo, participação em eleições, etc.), porém, é muito mais difícil livrar-se das atitudes, do modo de pensar, do modo de debater, dos comportamentos, das concepções, que estas organizações injetam em grau supremo e que constituem seu modo de vida. Esta herança, o que chamamos de herança oculta da esquerda do capital, contribui para provocar dentro das organizações revolucionárias tensões entre camaradas, desconfiança, rivalidades, comportamentos destrutivos, bloqueios de debate, posições teóricas aberrantes, etc., que combinadas com a pressão da ideologia burguesa e pequeno-burguesa lhes causam muito dano. O objetivo da série que iniciamos é identificar e combater este lastro pesado"[17]
Para ilustrar este último aspecto, podemos referir o caso do grupo argentino "Emancipacion Obrera" (EO) que, numa outra época, teve um início notável e promissor na cena política internacional, por meio de um chamado a este para uma correspondência internacional lançado em fevereiro de 1986. Nossa entusiasta resposta[18] a este chamado destacou "a necessidade de certos esclarecimentos políticos, incluindo um em particular, a necessidade de conceber e situar-se na continuidade da história do movimento operário, de suas conquistas teóricas e políticas (não uma continuidade passiva e simples repetição, mas uma continuidade dinâmica e superação estreitamente ligada às experiências e evolução das exacerbações de todas as contradições do sistema capitalista, colocando na agenda a necessidade objetiva de sua destruição)".
Esta insistência da nossa parte tinha sido mal recebida por EO. A razão para isso é que um primeiro ato da ruptura formal com a esquerda do capital pode assumir a forma de uma rejeição de todos os dogmas que servem de justificativa para a política antiproletária destas organizações. O problema é que, posteriormente, qualquer quadro político tende a ser percebido como um "novo dogma" que apenas dificulta a reflexão e a atividade política.
A atitude de EO mudou gradualmente à medida que insistimos que "seria errado e até negativo procurar atalhos e pensar que podemos contornar as dificuldades começando por um agrupamento de ações políticas ou pela publicação de um jornal comum."[19] EO tornou-se hostil à CCI e depois desapareceu.
Uma semelhança entre EO e OPOP é surpreendente, ambos recusaram qualquer referência crítica à Esquerda Comunista.
Além disso, já ilustramos várias vezes neste texto a ruptura imperfeita da OPOP com a esquerda do capital, principalmente através de uma demarcação imperfeita com esta última, no que diz respeito ao internacionalismo em particular, mas também uma propensão para fazer concessões ao interclassismo, vendo situações revolucionárias onde não há nenhuma.
Devemos combater vigorosamente qualquer ilusão de que, ao deixar o campo da esquerda do capital (o da burguesia), qualquer nova atividade política é automaticamente proletária, revolucionária. Entre os dois campos, o da burguesia e o do proletariado, há o que Lênin chamou de pântano político, cujos grupos que o compõem podem se orientar para um ou outro dos dois campos fundamentais, ou mesmo viver entre os dois. Eles também podem desaparecer.
Uma dinâmica de clarificação das posições de classe, como a que animou OPOP no primeiro período da sua existência, só pode ser mantida e desenvolvida se for constantemente estimulada. Este tinha deixado de ser o caso na OPOP. Começa então um período de estagnação, cujo resultado pode ser ou a fossilização ou o desaparecimento. Com uma trajetória e manifestações diferentes da OPOP, a EO desapareceu.
Tal trajetória não foi uma conclusão inevitável para a OPOP e é importante ser capaz de identificar as limitações políticas que estavam presentes desde o início e que posteriormente se tornaram um obstáculo crescente ao desenvolvimento político positivo do grupo. Como vimos no início deste artigo, a OPOP cristalizou-se originalmente tanto como um agrupamento de elementos combativos opondo-se à sabotagem sindical das lutas, como também em reação à política burguesa da esquerda. Esta característica inicial, na qual, na evolução do grupo, são presentes tanto a imersão na luta imediata quanto a reflexão política, certamente contribuiu para favorecer dentro dele a ideia de que sua evolução devia continuar da mesma forma, levando assim à teorização de uma organização híbrida que, como a experiência tem demonstrado amplamente, é absolutamente insustentável no atual período da vida do capitalismo[20]. Esta confusão inicial foi necessariamente em detrimento da dimensão política da OPOP, que não foi cultivada tanto quanto deveria ter sido e especialmente não na direção certa. Na verdade, o que faltava então à OPOP era abertura à história da nossa classe e às organizações revolucionárias internacionais e internacionalistas existentes no mundo. Em vez de buscar esclarecimento político no debate e no confronto com organizações proletárias reais, a OPOP concebeu cada vez mais o seu próprio desenvolvimento confiando, antes de mais nada, nas suas próprias forças e recursos internos, o que a levou a becos sem saída, por vezes a reboque de intelectuais e académicos da moda. Uma vez iniciado este caminho, a abertura política que herdara desde os seus primórdios, embora não totalmente extinta, tinha-se tornado insuficiente para se ligar, mesmo de forma crítica, à única continuidade histórica e política do proletariado, a esquerda comunista, que tinha sido capaz de se manter no terreno da classe, combatendo o oportunismo das antigas organizações políticas de classe que tinham traído os interesses históricos do proletariado.
Tanto no Brasil como em várias partes do mundo, estão emergindo minorias em busca de uma perspectiva proletária organizada. Para estas minorias é essencial que conheçam e discutam a experiência da OPOP.
CCI (09/04/2020)
[1] Oposição Operária, publicando o Jornal Germinal, que não é mais acessível. Entretanto é possível ter acesso ao site por aqui, uma espécie de museu da internet: https://archive.org/web/ [95]. E digita: sites.uol.com.br/opop.
[2] Até o jornal Germinal que não é mais acessível. Entretanto é possível ter acesso ao site por aqui, uma espécie de museu da internet: https://archive.org/web/ [95]. E digita: https://revistagerminal.com [96].
[3] Um debate entre a Oposição Operária e a CCI - O materialismo histórico e a decadência do capitalismo [97]; Debate sobre a teoria da acumulação de Rosa Luxemburgo [98]; Debate sobre as raízes da crise e da situação histórica atual [99]; Debate sobre os erros da Revolução Russa [100]; Estado e ditadura do proletariado [101]; Debate no meio revolucionário: O Estado no período de transição ao Comunismo (II) [102]; Conselhos operários, Estado proletário, ditadura do proletariado [103]
[4] Duas novas reuniões públicas conjuntas no Brasil (OPOP-CCI) [104] – Maio de 2006; O ATAQUE AOS TRABALHADORES - No Brasil e no mundo [105] – Outubro de 2006; Repressão à greve de bancários no Brasil [106] - Panfleto realizado em conjunto: Oposição Operária e CCI - Outubro de 2008.
[5] Ler nosso artigo A esquerda comunista e a continuidade do Marxismo
[6] Fonte: Carta de princípios - Edição revista e atualizada -- Projeto para discussão - Oposição Operária 2003. Essa Carta começa assim, dando informações importantes as origens de OPOP: "O presente documento, inicialmente uma tese apresentada pela coordenação da Oposição Operária, constitui hoje a Carta de Princípios, que foi aprovada no I Encontro da Oposição, realizado nos dias 10 e 11 de dezembro de 1994 e que agora—ano de 2003—passa por um necessário processo de revisão e atualização de conformidade com referências estratégicas combinadas com aspectos fundamentais da conjuntura mundial atual."
[7] Este folheto incluía uma denúncia unilateral do imperialismo de Israel, mas poupou outros imperialismos também presentes no Oriente Médio, como o Irã, por exemplo. Após a CCI ter alertado a OPOP sobre este assunto, a iniciativa de São Paulo foi criticada, mas sem provocar muito debate dentro do grupo.
[8] "É este, em definitivo, o traço novo que, tendo aparecido nestas duas últimas décadas, virou de vez os sindicatos, tornando-os instituições opostas aos interesses dos trabalhadores e favoráveis aos seus próprios interesses, interesses de burguesia" (carta de princípio 2003)
[9] Leia a propósito disso o debate contraditório publicado no nosso site "Debate sobre os erros da Revolução Russa [100]".
[10] Leia a propósito disso em espanhol: El mito de las colectividades anarquistas [107]. E também sobre os acontecimentos na Espanha dos anos 1930: Espanha 1936: Franco e a República massacram o proletariado [108]; E também em português: Abril de 1939: Fim da Guerra Espanhola e prólogo da Segunda Guerra Mundial [109]
[11] A seguinte passagem (contribuição de EC para II congresso da OPOP – julho 2007) pode ser retida: "Ela não é um partido de quadros. É, por natureza, uma organização aberta, porém com uma abertura pautada e limitada por um conjunto de princípios, expostos na Carta, que se colocam como parâmetros para a adesão. Ela é, pois, por ser aberta, uma organização "de massa", porém, como é limitada pelos princípios, ela é, ao mesmo tempo, antinômica a uma dimensão de massa—de que resulta ser e não ser uma "organização de massa" (...). A OPOP se opõe, pela crítica, pela denúncia e pela prática, ao aparelhismo, ao oportunismo, ao reformismo e à conciliação de classe. Parte de seus militantes está convencida da necessidade urgente de um partido de quadros, e até acha salutar que a OPOP acabe formando militantes que, pelo seu avanço, acabem por contribuir para a formação, em futuro não previsível, de um partido de quadros. Mas esta não é uma posição formal da OPOP—até porque esse assunto não foi discutido na OPOP—, mas só de membros seus. Por outro lado, esses membros não impõem à OPOP nenhum estilo de prática e de doutrina partidária própria de partido de quadros. O surgimento de um possível partido de quadros não afeta em nada a permanência da OPOP tal como ela é enquanto forma. (...) É óbvio que a plataforma programática da OPOP não tem a consistência que seria própria de um partido de quadros de tipo leninista. Mas negar, por conta dessa ambiguidade, a disposição da OPOP e dizer que ela, por não ser um PQ, não pode abraçar uma perspectiva revolucionária, é um juízo de sectarismo."
Na passagem citada, porém, não encontramos nada que explique por que a OPOP foi orientada para uma forma intermediária e não para a formação de um partido de quadros.
Na verdade, há outra passagem que nos informa sobre este assunto: () "O QUE É A OPOP? (Contribuição para o Congresso sem nenhuma data)": "Existem países que possuem—malgrado uma ação brutal da burguesia no sentido de apagar esta memória—, uma tradição de luta de classes que ainda hoje inspira certos movimentos do proletariado. O destaque é a França, na qual, por mais de um século—pelo menos da Queda da Bastilha à Comuna de Paris—, o proletariado acumulou uma tradição revolucionária que não pôde ser de todo apagada. Já em outros países, que não passaram por revoluções do calibre da Revolução Francesa—e esse é o caso dos EUA—, a burguesia conseguiu apagar, em grau variável, a memória da intervenção do proletariado nas suas revoluções burguesas, fato que dificulta sobremodo a compreensão da necessidade da luta anticapitalista por parte de seus trabalhadores (...). Por outro lado, em muitos outros países—e este é o caso do Brasil—nada de parecido ocorreu. No Brasil é muito difícil a sobrevivência de uma forma como a OPOP e mais difícil ainda a criação e o crescimento de um partido de quadros marxista. Por que? Porque não há tradição nem memória revolucionária neste país."
[13] Citado da carta da fração italiana dirigida a Trotsky em 19 junho de 1930, já evocada neste texto.
[14] Foi por acaso que descobrimos esta publicação na Internet enquanto tentávamos, sem sucesso, encontrar o rastro na Web da publicação Germinal.
[15] Definimos de maneira positiva os princípios proletários que, segundo nós, devem orientar a vida das organizações revolucionárias, em particular no artigo "Relatório sobre a estrutura e o funcionamento das organizações revolucionárias" da Revista Internacional n° 33 e no artigo "O debate: conflito brutal para a burguesia, meio indispensável de esclarecimento para o proletariado" da série "O legado oculto da esquerda do capital".
[16] Ler a propósito disso uma crítica ao conceito de chefe genial feita pela Esquerda comunista de França em 1947, em "Problemas atuais do movimento operário [110]"
[17] Ler na nossa série de artigos "A herança oculta da Esquerda do Capital", o artigo "Uma falsa visão da classe operária [111]". Os demais artigos da série serão publicados progressivamente em português. Já existem em espanhol.
[18] A nossa resposta a este chamado começou assim: "Esta proposta que aqui apresentamos com nossa resposta é claramente, e sem dúvida possível, proletária: denuncia a democracia burguesa, todo tipo de frentismo "antifascista" e nacionalismo; defende e afirma a necessidade do internacionalismo proletário diante da guerra imperialista. Saudamos o espírito e a abordagem dos camaradas em seu documento: a necessidade de uma discussão aberta, da "polêmica", de confronto de diferentes posições políticas, de luta política fraterna para constituir um pólo de referência política internacional"". "Correspondance internationale : Emancipacion Obrera, Militancia Clasista Revolucionaria (Argentine, Uruguay)", Revue internationale n° 46, https://fr.internationalism.org/booktree/2857 [112]
[19] Ler em francês nosso artigo "Correspondance internationale (Argentine) - à propos du regroupement des révolutionnaires", Revue internationale n° 49 et "Milieu politique prolétarien : "Emancipacion Obrera" à la dérive", Revue internationale n° 64.
[20] Ler em espanhol nosso artigo "La organización del proletariado fuera de los periodos de luchas abiertas (grupos obreros, núcleos, círculos, comités) [113]".
O objetivo desta polêmica é provocar um debate dentro do meio político proletário. Esperamos que as críticas que dirigimos a outros grupos sejam respondidas, porque a Esquerda comunista só pode ser fortalecida por um confronto aberto de nossas diferenças.
Diante de grandes convulsões sociais, o primeiro dever dos comunistas é defender seus princípios com a máxima clareza, oferecendo aos trabalhadores os meios para entender onde situam seus interesses de classe. Os grupos da Esquerda comunista se distinguiram acima de tudo por sua fidelidade ao internacionalismo nas guerras entre frações burguesas, alianças e estados. Apesar das diferenças de análise ao longo do período histórico em que vivemos, os grupos existentes da esquerda comunista - a CCI, a TCI (Tendência Comunista Internacionalista), as várias organizações bordiguistas- geralmente têm sido capazes de denunciar todas as guerras entre Estados como imperialistas e conclamar a classe trabalhadora para que recuse todo apoio a seus protagonistas. Isto os distingue claramente dos pseudo-revolucionários como os trotskistas, que invariavelmente aplicam uma versão completamente falsificada do marxismo para justificar o apoio a esta ou aquela facção burguesa.
A tarefa de defender os interesses da classe proletária também surge, é claro, quando surgem grandes conflitos sociais - não apenas movimentos que são claramente expressões da luta proletária, mas também grandes mobilizações envolvendo um grande número de pessoas que se manifestam nas ruas e muitas vezes se opõem às forças da ordem burguesa. Neste último caso, a presença de trabalhadores em tais movimentos, e até mesmo de demandas relacionadas às necessidades da classe trabalhadora, pode tornar muito difícil uma análise lúcida de sua natureza de classe. Todos estes elementos estavam presentes, por exemplo, no movimento dos "coletes amarelos" na França, e alguns (como o grupo Guerra de Classes) concluíram que se tratava de uma nova forma de luta de classes proletária[1]. Por outro lado, muitos grupos da esquerda comunista puderam ver que se tratava de um movimento interclassista, no qual os trabalhadores participavam essencialmente como indivíduos por trás de slogans pequeno-burgueses e mesmo a reboque de exigências e símbolos abertamente burgueses (democracia cidadã, bandeira nacional, racismo anti-imigrante, etc.)[2]. Isto não significa que suas análises não continham pontos de confusão consideráveis. O desejo de ver, apesar de tudo, um certo potencial da classe trabalhadora em um movimento que obviamente começou e depois continuou em terreno reacionário ainda podia ser discernido em alguns grupos, como veremos mais adiante.
Os protestos da Black Lives Matter (BLM -Vidas Negras Importam) representam um desafio ainda maior para os grupos revolucionários: é inegável que eles nasceram de uma verdadeira onda de raiva diante de uma expressão particularmente nojenta de brutalidade policial e racismo. Além disso, a raiva não se limitou à população negra, mas se estendeu muito além das fronteiras dos Estados Unidos. Mas as explosões de raiva, ultraje e oposição ao racismo não levam automaticamente à luta de classes. Na ausência de uma alternativa proletária genuína, eles podem ser facilmente instrumentalizados pela burguesia e seu estado. Em nossa opinião, este tem sido o caso das atuais demonstrações do BLM. Os comunistas são, portanto, confrontados com a necessidade de mostrar exatamente como toda uma armadura de forças burguesas desde - nos Estados Unidos - o BLM na rua até o Partido Democrata, alguns ramos da indústria, os chefes das forças armadas e da polícia também, todos estão presentes desde o primeiro dia para lidar com a legítima raiva e usá-la para seus próprios interesses.
Como os comunistas reagiram? Não vamos tratar aqui desses anarquistas que pensam que os pequenos atos de vandalismo dos Black Blocs durante tais manifestações são uma expressão de violência de classe, nem com os "comunisadores" que pensam que o saque é uma forma de "shopping proletário", ou um golpe na forma de mercadoria. Podemos voltar a estes argumentos em artigos futuros. Nos limitaremos às declarações feitas por grupos da esquerda comunista após os primeiros tumultos e manifestações após o assassinato de George Floyd por um policial em Minneapolis.
Três desses grupos pertencem à Corrente bordiguista e são todos chamados de Partido Comunista Internacional. Por isso, vamos diferenciá-los através de suas publicações: Il Comunista / Le Prolétaire; Il Partito Comunista; Il Programma Comunista / Cahiers Internationalistes. O quarto grupo é a Tendência Comunista Internacionalista (TCI).
Todas as posições tomadas por estes grupos contêm elementos com os quais podemos concordar: por exemplo, a denúncia intransigente da violência policial, o reconhecimento de que tal violência, como o racismo em geral, é produto do capitalismo e que só pode desaparecer através da destruição deste modo de produção. A posição de Le Prolétaire é muito clara sobre este assunto:
Os slogans de Il Partito estão na mesma linha: "Trabalhadores! Sua única defesa está na organização e luta como uma classe. A resposta ao racismo é a revolução comunista!”[4]
Entretanto, quando se trata da questão mais difícil para os revolucionários, todos estes grupos cometem, em maior ou menor grau, o mesmo erro fundamental: para eles, os tumultos que se seguiram ao assassinato e as manifestações da "Black Lives Matter" fizeram parte do movimento operário.
Cahiers Internationalistes escreve:
Il Partito :
A TCI :
Naturalmente, todos os grupos acrescentam que o movimento "não vai longe o suficiente":
Il Partito :
A TCI :
Criticar um movimento porque ele não vai suficientemente longe só faz sentido se ele for desde o início na direção correta. Em outras palavras, isto se aplica aos movimentos que estão em terreno de classe. Do nosso ponto de vista, este não foi o caso das manifestações relativas ao assassinato de George Floyd.
Não há dúvida de que inúmeros participantes das manifestações, sejam eles negros, brancos ou "outros", eram e são trabalhadores. Assim como não há dúvida de que eles também foram e estão justamente indignados com o racismo cruel dos policiais. Mas isto não é suficiente para atribuir a estas demonstrações um caráter proletário.
Isto é verdade quer os protestos tenham assumido a forma de motins ou marchas pela paz. Os distúrbios não são um método de luta proletária, que necessariamente assume uma forma organizada e coletiva. Um motim - e acima de tudo, um saque - é uma resposta desorganizada de uma massa de indivíduos distintos, uma pura expressão de raiva e desespero que expõe não apenas os próprios saqueadores, mas também todos aqueles que participam de protestos de rua, ao aumento da repressão das forças policiais militarizadas muito mais bem organizadas do que eles são.
Muitos manifestantes viram a futilidade dos tumultos, que muitas vezes foram deliberadamente provocados por ataques ferozes da polícia e deram lugar a mais provocações de elementos sombrios na multidão. Mas a alternativa defendida pela BLM, que foi imediatamente retomada pela mídia e pelo aparato político existente, particularmente o Partido Democrata, foi a organização de marchas pacíficas com vagas demandas por "justiça" e "igualdade", ou mais específicas, como "parar de financiar a polícia". Todas estas são exigências políticas burguesas.
É claro que um verdadeiro movimento proletário pode conter todo tipo de demandas confusas, mas é motivado acima de tudo pela necessidade de defender os interesses materiais da classe e, portanto, está na maioria das vezes centrado - no primeiro grupo - nas demandas econômicas destinadas a mitigar o impacto da exploração capitalista. Como Rosa Luxemburg mostrou em seu panfleto sobre a greve de massa, escrito após as lutas proletárias marcantes de 1905 na Rússia, pode realmente haver uma interação constante entre as exigências econômicas e políticas, e a luta contra a repressão policial pode de fato fazer parte desta última. Mas há uma grande diferença entre um movimento da classe trabalhadora que exige, por exemplo, a retirada da polícia de um local de trabalho ou a libertação de grevistas presos, e uma efusão geral de raiva que não tem ligação com a resistência dos trabalhadores como trabalhadores e é imediatamente tomada em mãos pelas forças políticas de "oposição" da classe dominante.
Mais importante ainda, o fato de que estes desafios são principalmente sobre a raça significa que eles não podem servir como um meio de unificar a classe trabalhadora. Independentemente do fato de que os protestos desde o início foram acompanhados por muitos brancos, incluindo trabalhadores e estudantes, a maioria dos quais eram jovens, os protestos são apresentados pela BLM e os outros organizadores como um movimento de negros que outros podem apoiar se desejarem. Enquanto uma luta da classe trabalhadora tem uma necessidade orgânica de superar todas as divisões, sejam raciais, sexuais ou nacionais, caso contrário será derrotada. Podemos citar novamente exemplos onde a classe trabalhadora se mobilizou contra ataques racistas usando seus próprios métodos: na Rússia, em 1905, conscientes de que os pogroms contra os judeus estavam sendo usados pelo regime dominante para minar o movimento revolucionário como um todo, os sovietes colocaram guardas armados para defender os bairros judeus contra os pogromistas. Mesmo durante um período de derrota e guerra imperialista, esta experiência não se perdeu: em 1941, os estivadores da Holanda ocupada entraram em greve contra a deportação de judeus.
Não é coincidência que as principais facções da classe dominante estivessem tão ansiosas para se identificar com as manifestações da BLM. Quando a pandemia de Covid-19 começou a atingir a América, testemunhamos muitas reações da classe trabalhadora à irresponsabilidade criminosa da burguesia em suas manobras para forçar amplos setores da classe a ir ao trabalho sem medidas e equipamentos de segurança adequados. Esta foi uma reação mundial da classe trabalhadora[7]. E embora seja verdade que uma das razões por trás dos protestos desencadeados pelo assassinato de George Floyd foi o número desproporcional de vítimas negras do vírus, é principalmente o resultado da posição dos negros e outras minorias nos estratos mais pobres da classe trabalhadora - em outras palavras, sua posição de classe na sociedade. O impacto da pandemia de Covid-19 oferece uma oportunidade de destacar a centralidade da questão de classe, e a burguesia tem estado disposta a relegá-la para segundo plano.
Quando confrontados com o desenvolvimento de um movimento da classe trabalhadora, os revolucionários podem de fato intervir na perspectiva de chamar a classe trabalhadora para "ir mais longe" (através do desenvolvimento de formas autônomas de auto-organização, extensão a outros setores da classe, etc.). Mas e se muitas pessoas forem mobilizadas em um terreno interclassista ou burguês? Neste caso, a intervenção ainda é necessária, mas os revolucionários devem então aceitar que sua intervenção será "contra a maré", principalmente com o objetivo de influenciar minorias que questionam os objetivos e métodos fundamentais do movimento.
Grupos bordigistas, talvez surpreendentemente, não falaram muito sobre o papel do partido em relação a esses eventos, embora Cahiers Internationalistes esteja certo - em abstrato - quando escreve que :
O problema permanece: com um partido desse tipo pode vir a existir? Como podemos passar do atual meio disperso de pequenos grupos comunistas para um verdadeiro partido, um organismo internacional capaz de proporcionar liderança política à luta de classes?
Esta pergunta permanece sem resposta para os Cahiers Internationalistes, o que então revela a profundidade de sua incompreensão do papel do partido:
A simples declaração de que seu grupo é O Partido não é suficiente, especialmente quando há pelo menos dois outros grupos que afirmam ser o verdadeiro Partido Comunista Internacional. Também não é lógico afirmar que todo o proletariado possa se organizar "no Partido Comunista". Tais formulações expressam uma total incompreensão da distinção entre organização política revolucionária - que necessariamente reagrupa apenas uma minoria da classe - e órgãos que reagrupam toda a classe, tais como os conselhos operários. Ambos são instrumentos essenciais da revolução proletária. Neste ponto, Il Partito está pelo menos mais consciente de que o caminho para a revolução está no surgimento de órgãos independentes de classe, já que ele convoca assembleias de trabalhadores, embora enfraqueça seu argumento ao chamá-los de "em cada local de trabalho e dentro de cada sindicato existente" - como se as verdadeiras assembleias de trabalhadores não fossem essencialmente antagônicas à própria forma do sindicato. Mas Il Partito não faz uma observação ainda mais crucial: não tem havido qualquer tendência para que as assembleias de trabalhadores genuínos se desenvolvam dentro das manifestações do BLM.
A TCI se recusa a se proclamar O Partido. Ela diz que é para o partido, mas que não é o partido[8]. Entretanto, nunca fez uma crítica realmente profunda dos erros que estão na raiz do substitucionismo bordiguista - o erro, cometido em 1943-45, de declarar a formação do Partido Comunista Internacionalista em um único país, a Itália, nas profundezas da contrarrevolução. Tanto os Bordiguistas quanto o TCI têm sua origem no PCInt de 1943, e ambos teorizam este mesmo erro à sua maneira: os Bordiguistas com a distinção metafísica entre o partido "histórico" e o partido "formal", a TCI com sua ideia da "necessidade permanente do partido". Estas concepções dissociam a tendência à emergência do partido a partir do movimento real da classe e o equilíbrio efetivo de poder entre a burguesia e o proletariado. Ambos implicam no abandono da distinção vital feita pela esquerda comunista italiana entre fração e partido, que visava mostrar precisamente que o partido não pode existir em qualquer momento, e assim definir o verdadeiro papel da organização revolucionária quando a formação imediata do partido ainda não está na agenda.
A última parte do folheto da TCI destaca claramente este mal-entendido.
O subtítulo desta seção do folheto estabelece o tom:
E assim por diante:
Neste só parágrafo tem toda uma coleção de erros, direto no subtítulo: a revolta atual pode avançar em uma linha reta rumo à revolução mundial, mas para isso, é necessário o partido mundial; este partido será o meio de organização e o instrumento para transformar o chumbo em ouro, os movimentos não proletários em revoluções proletárias. Esta passagem revela até que ponto a TCI vê o partido como uma espécie de deus ex machina, um poder que vem de quem sabe de onde, não apenas para permitir que a classe se organize e destrua o estado capitalista, mas que tem a capacidade ainda mais sobrenatural de transformar motins, ou manifestações que caem nas mãos da burguesia, em passos de gigante rumo à revolução.
Este erro não é novo. No passado, já tínhamos criticado a ilusão do PCInt em 1943-45 de que os grupos de partisans na Itália - totalmente inseridos no campo dos Aliados na guerra imperialista - poderiam, de alguma forma, ser mobilizados para a revolução proletária pela presença do PCInt em suas fileiras[9]. Vimos isso novamente em 1989, quando Battaglia Comunista não só tomou o golpe das forças de segurança que depuseram Ceausescu na Romênia como uma "revolta popular", mas também argumentou que tudo o que faltava era o partido para liderá-la no caminho da revolução proletária[10].
O mesmo problema apareceu no ano passado com os "coletes amarelos". Ainda que a TCI descrevesse o movimento como "interclassista", ela nos diz que :
Aqui novamente, o partido é invocado como uma panaceia, uma pedra filosofal a histórica. O que falta neste cenário é o desenvolvimento do movimento de classes como um todo, a necessidade da classe trabalhadora recuperar a sensação de sua própria existência enquanto classe, e reverter a corelação de força existente através de lutas massivas. A experiência histórica mostrou que tais mudanças históricas não são apenas necessárias para permitir que as minorias comunistas existentes desenvolvam influência real dentro da classe trabalhadora: elas também são o único ponto de partida possível para transformar o caráter de classe das revoltas sociais e oferecer uma perspectiva a toda a população oprimida pelo capital. Um exemplo notável foi a entrada maciça de trabalhadores franceses nas lutas de maio-junho de 1968: ao lançar um enorme movimento de greve em resposta à repressão policial das manifestações estudantis, a classe trabalhadora também mudou a natureza das manifestações, integrando-as em um despertar geral do proletariado mundial.
Hoje, a possibilidade de tais transformações parece remota e, na ausência de um senso generalizado de identidade de classe, a burguesia tem mais ou menos rédea solta para recuperar a indignação causada pelo declínio avançado de seu sistema. Mas temos visto pequenos mas significativos sinais de um novo estado de espírito na classe trabalhadora, um novo sentido de si mesma como classe, e os revolucionários têm o dever de cultivar essas mudas o melhor que puderem. Mas isso significa resistir à pressão ambiental para se curvar aos apelos hipócritas da burguesia por justiça, igualdade e democracia dentro das fronteiras da sociedade capitalista.
Amos, Julho 2020
[1] O grupo parece ser uma espécie de fusão entre anarquismo e bordiguismo, mais no estilo do Grupo Comunista Internacionalista, mas sem suas práticas mais dúbias (ameaças contra grupos da esquerda comunista, apoio velado às ações de frações nacionalistas e islamistas, etc.).
[2] Veja em nosso site em francês "Posição no Campo Revolucionário: Coletes Amarelos: A Necessidade de "Re-Armar" o Proletariado [114]"
[3] Ver o artigo de Le Prolétaire nº 537, "Estados Unidos: revoltas urbanas após o assassinato da polícia de Minneapolis do afro-americano George Floyd [115]".
[4] Ver o artigo de Il Partito "O racismo protege o sistema capitalista, somente a classe trabalhadora pode erradicá-lo [116]" (Junho 2020)
[5] Veja o artigo em Cahiers Internationalistes, "Depois de Minneapolis". Que a revolta dos proletários americanos seja um exemplo para os proletários de todas as metrópoles [117]" (28/05/2020)
[6] Ver o artigo da TCI, "Minneapolis: brutalidade policial e luta de classes [118]" (31/05/2020)
[7] Ver o artigo em nosso site Apesar de todos os obstáculos, a luta de classes trata de forjar seu futuro [119]. Aqui está um trecho: "Talvez o mais importante de tudo - até porque desafia a imagem de uma classe trabalhadora americana que se associou sem qualquer crítica à demagogia de Donald Trump - tenha sido a luta generalizada nos Estados Unidos: greves na FIAT em Indiana, Warren Trucks, por motoristas de ônibus em Detroit e Birmingham Alabama, nos portos, restaurantes, na distribuição de alimentos, no saneamento, na construção; greves na Amazon (que também foi atingida por greves em outros países), Whole Foods, Instacart, Walmart, FedEx, etc"
[8] Mesmo que, como temos apontado muitas vezes, a clareza sobre este ponto não seja ajudada pelo fato de seu afiliado italiana (que publica a Battaglia Comunista) ainda insistir em ser chamada de Partido Comunista Internacionalista.
[9] Veja em nosso site em francês o artigo "As ambiguidades sobre os partisans na constituição do Partido Comunista Internacionalista na Itália [120]", Revista internacional n°8.
[10] Veja em nosso site em francês nossos artigos Polêmica: O Vento Oriental e a Resposta dos Revolucionários [121], Revista internacional n° 61 e Polêmica: Diante das convulsões no Leste, uma vanguarda está ficando para trás [122], Revista internacional n° 62
[11] Veja o artigo no site da TCI em inglês: Algumas reflexões adicionais sobre o Movimento dos Coletes Amarelos [123] (08/01/2019)
O proletariado só será capaz de libertar a humanidade das cadeias cada vez mais sufocantes do capitalismo mundial se sua luta for inspirada e fertilizada pela continuidade histórica crítica de suas organizações comunistas, o fio histórico que vai desde a Liga dos Comunistas em 1848 até as organizações atuais que reivindicam ser da esquerda comunista. Privadas dessa bússola, suas reações contra a barbárie e a miséria impostas pelo capitalismo serão condenadas a ações cegas e desesperadas, que podem levar a uma cadeia de derrotas definitivas.
O blog do Nuevo Curso afirma passar como "esquerda comunista" o trabalho de Munis, que nunca conseguiu realmente romper com a abordagem e as orientações errôneas da Oposição de Esquerda, que acabará degenerando no trotskismo, corrente que desde os anos 40 se posiciona claramente na defesa do capitalismo, junto com seus grandes irmãos, o estalinismo e a social-democracia.
Respondemos a esta afirmação com o artigo "Nuevo Curso e a 'Esquerda Comunista Espanhola': Quais são as origens da esquerda comunista? [124]" ao salientar que "o futuro partido mundial, para que possa realmente contribuir para a revolução comunista, não pode assumir o legado da Oposição de Esquerda. Terá necessariamente de basear o seu programa e os seus métodos de ação na experiência da Esquerda comunista (...) existe uma herança comum da Esquerda comunista que a distingue das outras correntes de esquerda que emergiram da Internacional Comunista. Portanto, quem afirma pertencer à Esquerda comunista tem a responsabilidade de se esforçar para conhecer e dar a conhecer a história deste componente do movimento operário, as suas origens em reação à degeneração dos partidos da Internacional Comunista, os diferentes grupos que estão ligados a esta tradição por terem participado na sua luta, os diferentes ramos políticos que a compõem (a esquerda italiana, a esquerda holandesa-alemã, etc.). Em particular, é importante esclarecer os contornos históricos da Esquerda comunista e as diferenças que a distinguem de outras correntes de esquerda, em particular a trotskista".Este artigo escrito em agosto de 2019 foi totalmente ignorado pelo Nuevo Curso. O som do seu silêncio ressoava alto nos ouvidos de todos nós que defendemos o legado e a continuidade crítica da Esquerda comunista. Isto é ainda mais chocante quando o Nuevo Curso publica todos os dias um novo artigo que aborda todos os temas imagináveis, desde a Netflix ou a mensagem de Natal do Rei de Espanha até à origem da festa de Natal. Entretanto, ele não considerou necessário dedicar nada a algo tão vital como a justificação fundamentada de sua pretensão de passar como a esquerda comunista a continuidade mais ou menos crítica de Munis com a oposição de esquerda que deu origem ao trotskismo.
No final, o nosso artigo fez a seguinte pergunta: "Talvez possa ser um culto sentimental a um antigo combatente operário. Se for esse o caso, devemos dizer que o resultado será uma maior confusão, porque as suas teses, convertidas em dogmas, apenas destilarão o pior dos seus erros. Recordemos a análise precisa do Manifesto Comunista em relação aos socialistas utópicos e àqueles que mais tarde tentaram justificá-los: "embora alguns dos autores desses sistemas socialistas fossem em muitos aspectos verdadeiros revolucionários, seus discípulos hoje formam seitas inquestionavelmente reacionárias, que tremem e mantêm as velhas ideias de seus professores diante dos novos caminhos históricos do proletariado".
Outra explicação possível é que a autêntica Esquerda comunista está sendo combatida com uma "doutrina" de spam construída da noite para o dia, usando os materiais daquele grande revolucionário. Se for esse o caso, é obrigação dos revolucionários lutar com o máximo de energia contra tal impostura.
O pior na derrota da onda revolucionária mundial de 1917-23 foi a gigantesca adulteração perpetrada pelo estalinismo, passando-o como "comunismo", "marxismo" e "princípios proletários". As organizações revolucionárias de hoje não podem permitir que todo o legado que foi duramente conquistado durante quase um século pela esquerda comunista seja substituído por uma doutrina de spam baseada na confusão e na gangrena oportunista que foi a Oposição de Esquerda. Isto seria um golpe brutal para a perspectiva de uma revolução proletária mundial.
Em setembro de 2017, descobrimos a existência de um website (blog) de um grupo intitulado "Nuevo Curso"[1], que inicialmente se apresentou como interessado nas posições da Esquerda comunista e aberto ao debate. Pelo menos foi o que o NC disse na sua resposta à primeira carta que nós, CCI, lhes enviamos. Aqui está a resposta deles:
E como eles também reconhecem, sua atividade principal estava longe de ser uma crítica marxista; consistia em geral, na ausência de maior concretização, em dedicar seus esforços "para tornar possível um trabalho organizado de forma produtiva (um novo movimento cooperativo ou comunitário que tornasse evidente a possibilidade tecnológica de uma sociedade desmercantilizada, ou seja, comunista)"[5] (idem).Por outro lado, para além deste núcleo central, e aparentemente proveniente das diferentes dinâmicas de reflexão e discussão, diferentes grupos de jovens convergiram para este grupo em várias cidades.[6]
O que é surpreendente é como, com tais elementos, o site NC foi capaz de se apresentar desde o início referindo-se às posições da esquerda comunista. Um dos elementos que contribuem também é explicado na sua carta:
(Idem)De facto, este "membro cooperativista" apresentou-se em dezembro de 2017 na nossa reunião pública em Madrid, por ocasião do centenário da Revolução Russa, e revelou-se um velho conhecido, apelidado Gaizka, que nos anos 90 teve uma discussão programática com a CCI. No final do encontro, ele nos informou que estava em contato com um grupo de jovens, aos quais "ele estava dando uma formação marxista", e nos encorajou a fazer contato novamente.
Nossa resposta à sua proposta de restabelecer o contato foi que ele primeiro teve que esclarecer certos comportamentos políticos que não foi capaz de explicar nos anos 90, e que o envolveram em atitudes carreiristas e em uma relação mantida com o PSOE[8] ao mesmo tempo em que ele reivindicava as posições da esquerda comunista.[9]Ele não respondeu em dezembro (2017), nem depois, às 4 cartas que lhe enviamos no mesmo sentido. É por isso que, seguindo a tradição proletária de chegar a uma clareza sobre este tipo de episódios duvidosos que permanecem obscuros, continuamos a pedir explicações.
Porque, na ausência destas explicações, o acompanhamento da sua atividade política[10] desde a nossa reunião mostra uma ligação mantida principalmente com o PSOE.A "Trilha Tortuosa" de Gaizka
1992-1994, contato com a CCI, fuga e evasão
Em 1992, Gaizka aproximou-se da CCI, apresentando-se como membro de um grupo chamado "Unión Espartaquista", que alegou defender as posições da esquerda comunista alemã (posições que hoje já não parece mais gostar). Na realidade, foi essencialmente ele e sua parceira[11]. O seu conhecimento das posições e tradições da esquerda comunista era mais uma aspiração do que uma realidade.
Desde o início, mostrou interesse em juntar-se rapidamente à nossa organização, sentindo-se desconfortável quando as discussões foram prolongadas devido à necessidade de esclarecimento, ou quando alguns dos seus comportamentos foram questionados - especialmente em relação a outro elemento que tinha aderido a um círculo de discussão em Madrid, no qual uma delegação da Battaglia Comunista também participou pontualmente.
A discussão sobre a sua trajetória política também tinha sido problemática. Embora nos tenha informado que tinha mantido contato com os Jovens Socialistas (do PSOE), mostrou uma espécie de fascínio pela experiência do kibutz[12], e um discurso que por vezes parecia ligá-lo ao Borrell[13] e ao lobby socialista pró-israelita[14]. Além disso, Gaizka nunca tinha esclarecido a sua relação orgânica com o PSOE ou a sua ruptura.[15]
Em 1994, na CCI houve debates sobre o problema do peso do espírito do círculo no movimento operário desde 1968 e sobre o afinitarismo sob o pretexto de projetos de vida "comunitários". Durante as discussões sobre os nossos princípios organizacionais, apresentamos as nossas posições sobre todos aspectos a Gaizka. E talvez por esta razão, quando lhe pedimos diretamente explicações sobre os aspectos que nos pareciam pouco claros sobre a sua trajetória[16], à primeira vista ele não ficou nada surpreendido, apesar do fato de lhe termos apresentado um confronto que incluía uma gravação (nunca tínhamos gravado uma discussão com ele). E em segundo lugar, ele simplesmente não deu nenhuma explicação e desapareceu da esquerda comunista...até recentemente!
Uma laço mantido com o PSOE
O que levanta questões na trajetória política de Gaizka não é o fato de que em certo momento ele tenha sido um apoiador ou militantes dos Jovens Socialistas e não o tenha dito claramente; o que merece uma explicação é o fato de que, apesar de sua suposta convicção nas posições da Esquerda comunista, a história da sua vida está cheio de traços que mostram uma relação política com pessoas que são ou foram altos funcionários do PSOE.
Em 1998-99, ele participou como "conselheiro", sem nunca especificar o que isso significava, na campanha de Borrell para as primárias PSOE, como relatado em alguns de seus próprios relatórios na web. Um dos nossos militantes o viu na televisão, no gabinete do candidato[17]. Gaizka tentou minimizar o problema dizendo que ele era apenas o "moço de recados" da campanha, alguém que Borrell nem teria notado. Mas a verdade é que alguns líderes do PSOE, como Miquel Iceta[18] por exemplo, dizem publicamente que se encontraram com Gaizka nesta campanha. E não parece muito lógico que os altos funcionários do PSOE tenham ido pedir a Borrell para lhes apresentar o moço de recados.
Além disso, durante estes mesmos anos, Gaizka participou também numa "Missão Humanitária" do Conselho Europeu para a Ação Humanitária e Cooperação de l'UE[19] no Kosovo ao lado de David Balsa, atual Presidente da Conferência Euro-Centro-Americana, então Presidente do Conselho Europeu para a Ação Humanitária e Cooperação, ex-líder dos Jovens Socialistas e ex-membro do executivo do Partido Socialista da Galiza. Numa carta para o Partido Radical Italiano, Gaizka diz dele que é "o rapaz que foi para a Albânia no meu lugar".
Para além do que isto pode sugerir em relação à suspeita de uma relação mais estreita entre Gaizka e o PSOE do que alguma vez reconheceu, implica a participação ativa numa guerra imperialista sob o disfarce de "ação humanitária" e "direitos humanos".[20]
Em 2003, também assessorou a campanha de Belloch[21] do PSOE na Câmara Municipal de Saragoça, e lá, desta vez, reconhece: "Estive muito envolvido na campanha do prefeito, Juan Alberto Belloch, para redefinir a cidade como um espaço urbano, como uma paisagem econômica, onde este tipo de negócios ligados a comunidades reais, altamente transnacionalizados e hiper-conectados, podem se desenvolver".
Em 2004, após os ataques de 11 de março e a vitória eleitoral do PSOE, Rafael Estrella, num prólogo a um livro de Gaizka, elogia e louva as qualidades deste. Este senhor foi membro do PSOE, porta-voz da Comissão dos Negócios Estrangeiros do Congresso dos Deputados e Presidente da Assembleia Parlamentar da OTAN[22]. O livro destaca a incompetência do PP em compreender os ataques de Atocha, mas não há uma única crítica ao PSOE. O próprio Felipe Gonzalez o cita ocasionalmente.
O mesmo deputado do PSOE tornou-se mais tarde embaixador espanhol na Argentina a partir de 2007 (até 2012) e convidou Gaizka a apresentar o seu livro na embaixada, pondo-o em contato com os círculos políticos e econômicos daquele país.
Outro "padrinho" que teve um papel importante na aventura sul-americana de Gaizka foi Quico Mañero, de quem ele disse em uma dedicatória de outro de seus livros: "Para Federico 'Quico' Mañero, amigo, conector de mundos e tantas vezes mestre, que há anos nos impulsiona a "viver na dança" de continentes e conversas, recebendo-nos e cuidando de nós em todos os lugares onde pousamos. Sem ele, nunca teríamos podido viver como neo-venetianos".
Isto é o que Izquierda Socialista (corrente de esquerda do PSOE) diz sobre este senhor:
Durante o mesmo período, em 2005, Gaizka trabalhou para a Fundação Jaime Vera do PSOE, que é tradicionalmente uma instituição de formação para os quadros políticos do partido, e aparentemente partir de 2005 iniciou um programa internacional de formação para quadros com o objetivo de ganhar influência para além das fronteiras de Espanha. Neste contexto, Gaizka participa na formação de ciberactivistas-K na Argentina, que apoiaram a campanha de Cristina Kirchner em 2007, quando ela se tornou presidente do governo:
Na década de 2010, e especialmente após a derrota eleitoral do PSOE, há menos evidências de envolvimento com este partido.
...e pontual com o liberalismo de direita
De fato, antes da vitória do PSOE em 2004, Gaizka tentou puxar a capa do PP para ele, e desta vez colaborou com a juventude do PP, na criação do liberales.org, que, nas mesmas palavras dos organizadores, serviria para "criar um diretório no qual colocar alguma ordem no liberalismo hispânico presente na Internet". Este fim de semana chegamos ao trabalho e, após várias horas em frente ao computador, mapeamos o que existe na Internet, o produto das diferentes famílias liberais e libertárias (não confundir com os anarquistas), às vezes antagonistas. Assim nasceu LosLiberales.org, um projeto não partidário para liberais e interessados neste tipo de pensamento."[27]
Esse carrossel incluía caras como Jiménez Losantos[28] e seu jornal Libertad digital, para o qual Gaizka escreveu vários artigos, ou os conservadores cristãos liberais, cujos próprios autores não sabiam se deveriam ser considerados liberais ou de extrema-direita.
Como diz o jornalista Ignacio Escolar[29] no livro "A blogosfera espanhola", este clube "não durou muito. Desentendimentos ideológicos e pessoais entre os fundadores próprios encerraram o projeto".
O exame do curriculum vitae político de Gaitzka mostra claramente sua estreita relação com o PSOE. O PSOE, desde que abandonou definitivamente o campo proletário no Congresso Extraordinário de abril de 1921[31], tem uma longa história de serviço ao Estado capitalista: sob a ditadura de Primo de Rivera (1923-30), seu sindicato, a UGT, foi o informante policial que traiu muitos militantes da CNT e um dos principais atores do conglomerado PSOE-UGT, Largo Caballero, foi conselheiro do ditador. Em 1930, o PSOE rapidamente virou seu casaco e assumiu a liderança das forças que em 1931 estabeleceram a Segunda República, onde foi chefe de governo em coalizão com os republicanos de 1931 a 1933. Deve-se notar que durante estes dois anos, 1500 trabalhadores foram mortos na repressão de greves e tentativas de insurreição. Mais tarde, o PSOE foi o eixo do governo da Frente Popular que dirigiu o esforço de guerra, militarização e deu carta branca à matilha stalinista para reprimir a revolta dos trabalhadores em Barcelona, em maio de 1937. Com a restauração da democracia em 1975, o PSOE foi a espinha dorsal do Estado, sendo o partido que liderou o governo durante o mais longo período de tempo (1982-1996, 2004-2011 e desde 2018). As medidas mais brutais contra as condições da classe trabalhadora foram impostas pelos governos PSOE, destacando os planos de conversão dos anos 80 que envolveram a perda de UM MILHÃO DE POSTOS DE TRABALHO ou o programa de cortes sociais que o governo PSOE de Zapatero tinha lançado e que o governo PP de Rajoy continuaria mais tarde.
Foi com este bastião do Estado burguês que Gaizka colaborou; não se trata de forma alguma de relações com "elementos básicos", mais ou menos enganados, mas com altos funcionários do Partido, nem mais nem menos do que com Borrell que acaba de ser nomeado chefe da política externa da Comissão Europeia, com Belloch que foi Ministro do Interior, com Estrella que foi presidente da assembleia parlamentar da OTAN.
No currículo de Gaizka, não há o menor vestígio de firme convicção nas posições da esquerda comunista, e para ser claro, nem mesmo que ele tenha convicções políticas de qualquer tipo, já que ele não hesitou em flertar por um tempo com o campo de direita. O "marxismo" de Gaizka seria mais do tipo "groucho-marxismo": recordemos o famoso ator Groucho Marx quando disse que "Estes são os meus princípios, se não gostas deles, tenho outros no meu bolso".
É por isso que a questão é: o que é que faz hoje Gaizka pretender criar o com Nuevo Curso uma vinculação "histórica" com uma chamada esquerda comunista espanhola, o que é que este cavalheiro tem a ver com estas posições, com a luta histórica da classe operária?
E em continuidade com isso, o que é que faz um grupo parasita como o GIGC, do qual alguns dos seus membros eram membros dos órgãos centrais da CCI em 1992-94, e que estavam conscientes do comportamento de Gaizka, tal como o são hoje sabem que ele é o principal líder do Nuevo Curso, mas desviam o olhar, ficam calados e tentam esconder a sua trajetória, declarando que este grupo é o futuro da esquerda comunista e coisas deste tipo?
Na tradição do movimento operário, cuja continuidade histórica é hoje representada pela Esquerda comunista, os princípios organizacionais de funcionamento, comportamento e honestidade dos militantes são tão importantes como os princípios programáticos. Alguns dos congressos mais importantes da história do movimento operário, como o congresso da AIT em Haia em 1872, foram dedicados a esta luta em defesa do comportamento proletário (apesar de o congresso ter sido realizado um ano após a Comuna de Paris e ter sido confrontado com a necessidade de aprender com este evento considerável)[34]. O próprio Marx dedicou um trabalho, que levou mais de um ano, interrompendo seu trabalho no projeto de "O Capital", à defesa desse comportamento proletário contra as intrigas do Sr. Vogt, um agente Bonapartista que organizou uma campanha de difamação contra ele e seus camaradas. Publicamos recentemente um artigo de denúncia por Bebel e W. Liebknecht do comportamento desonesto de Lassalle e Schweitzer[35]. E no século XX, Lênin dedicou um livro – "Um Passo à Frente Dois Passos para Trás" - tirando lições do 2º Congresso do POSDR sobre o peso do comportamento estranho ao proletariado. Também podemos mencionar Trotsky, que chamou um júri de honra para defender sua integridade contra as calúnias de Stalin.
Que uma figura com laços estreitos com a liderança de topo do PSOE aterrisse subitamente no campo da Esquerda comunista deveria alertar todos os grupos e militantes que lutam pelos interesses históricos da nossa classe, incluindo os participantes do blog Nuevo Curso que o fazem de boa fé, acreditando que estão lutando pelos princípios da Esquerda comunista.
Em 1994, pedimos a Gaizka que esclarecesse sua trajetória e suas relações, que já eram questionáveis na época. Ele desapareceu do mapa. Em 2018, com uma mochila cheia de contatos de "alto nível" nas esferas PSOE, nós lhe perguntamos novamente e ele permaneceu em silêncio. Em defesa da esquerda comunista, da sua integridade e da sua contribuição futura, devemos lhe pedir para explicar essa sua atitude.
CCI, 20 de janeiro de 2020
[1] Desde junho de 2019, o Nuevo Curso formou de fato um grupo político com o nome de Emacipación, apesar de seu blog ainda funcionar com o nome de Nuevo Curso. Esta alteração não afeta o conteúdo deste artigo.
[2] 7 de novembro de 2017 - [email protected] [126] a [email protected] [127]
[3] Veja no nosso site, entre outros, os artigos em espanhol : 1) En memoria de Munis, militante de la clase obrera [83]; 2) Polémica: ¿Adónde va el F.O.R.? [84]; 3) El comunismo está al orden del día en la historia: Castoriadis, Munis y el problema de la ruptura con el trotskismo (I) [82] y (II) [128]; 4) Crítica del libro Jalones de derrota promesas de victoria [85]; 5) Las confusiones del FOR sobre Octubre 1917 y España 1936 [86].
[5] Entenda quem pode! Da nossa parte, não vamos tentar descobrir exatamente o que este tipo de atividade significa. Basta dizer por enquanto que, apesar das qualificações lúdicas de "comunista", não tem nada a ver com a atividade revolucionária ou verdadeiramente comunista, como reconhecemos na própria carta, quando dissemos que para avançar rumo ao marxismo devemos partir da crítica a essa atividade.
[6] "Mas, no último ano e meio ou dois anos, começamos a notar uma mudança à nossa volta. Poderíamos falar de maneira diferente e dezenas de jovens chegaram com um espírito que nos agradou, mas que caiu no estalinismo ou no trotskismo mais folclórico" (da carta citada do NC, op. cit.).
[7] A carta usa o nome verdadeiro; aqui, usamos o apelido pelo qual o conhecemos nos anos 90.
[9] No entanto, não tivemos nenhum problema - pelo contrário - em encontrar os grupos de jovens, e o fizemos com um deles em novembro de 2018.
[10] Sob seu nome e sobrenome verdadeiro, Gaizka é uma figura pública na web, o que nos permite acompanhar sua presença e participação em diferentes iniciativas políticas. Ao mesmo tempo, isto explica porque não podemos fornecer toda a documentação aqui sem revelar a sua identidade.
[11] No início, houve outras pessoas que abandonaram o grupo.
[12] Este fascínio permanece hoje no discurso mais recente de Gaizka, mas é disfarçado como uma defesa das experiências comunitárias do kibutz, especialmente na sua primeira fase no início do século XX, sem referência ao papel político que desempenhou nos interesses imperialistas do Estado de Israel. "Os 'indianos' (ou seja, a comuna de Gaizka, NdR) são comunidades semelhantes ao kibutz (não há poupança individual, as próprias cooperativas estão sob controlo coletivo e democrático, etc.) mas existem distinções importantes, tais como a ausência de uma ideologia nacional ou religiosa partilhada, distribuída por várias cidades em vez de estar concentrada em poucas instalações, e o entendimento de que certos critérios vão para além da racionalidade económica" (Excerto de uma entrevista com Gaizka).
[13] Engenheiro aeronáutico e economista por formação, Borrell entrou na política nos anos 70 como ativista do PSOE durante a transição espanhola e ocupou vários cargos de responsabilidade nos governos de Felipe González, primeiro na Economia e Finanças como Secretário-Geral do Orçamento e das Despesas Públicas (1982-1984) e Secretário de Estado das Finanças (1984-1991); depois no Conselho de Ministros com a pasta da Indústria e dos Transportes. Na oposição, após as eleições gerais de 1996, Borrell tornou-se inesperadamente o candidato escolhido pelo PSOE para a presidência do governo em 1998, mas renunciou em 1999. A partir daí, concentrado na política europeia, tornou-se membro do Parlamento Europeu para o período 2004-2009 e tornou-se presidente da câmara durante a primeira metade da legislatura. Depois de se retirar da primeira linha política, regressou ao Conselho de Ministros em Junho de 2018, com a sua nomeação como Ministro dos Negócios Estrangeiros, da União Europeia e da Cooperação no governo presidido por Pedro Sánchez. (fonte: Wikipedia). Recentemente, ele tem sido o Comissário Europeu para os Negócios Estrangeiros.
[14] Borrell estava em 1969 em um kibutz e sua primeira esposa e mãe de dois filhos é de origem judaica. Ele é conhecido como um defensor dos interesses pró-israelitas dentro do Partido Socialista.
[15] Este não é o único relatório que permanece confuso. Hoje sabemos que no mesmo período em que ele quis discutir a adesão à CCI, participou e foi o principal facilitador na Espanha da tendência chamada cyberpunk, e o promotor do ciberativismo.
[16] Entre eles estava o desejo de um estilo de vida "comunitário", o que explica seu fascínio pelo kibutz, e que estava presente na União Espartakista, onde houve a tentativa de viver juntos.
[17] Nos anos 80, um elemento chamado "Chenier" foi descoberto e denunciado em nossa imprensa como um aventureiro. Pouco depois, ele foi visto a trabalhar sob as ordens de Mitterrand. Isto alertou-nos para uma possível relação entre Gaizka e o PSOE que era mais próxima do que ele alguma vez tinha reconhecido.
[18] Atual Secretário-Geral do PSC (Partido Socialista da Catalunha); militante da Juventude Socialista e do PSOE desde 1978; em 1998-99 deputado de Barcelona no Congresso dos Deputados.
[19] Como a instituição é pouco conhecida, aqui está uma referência à sua fundação no jornal Última Hora de Mallorca, com base num artigo da agência Efe: Un español preside el nuevo Consejo Europeo de Acción Humanitaria y Cooperación [130]
[20] A guerra na ex-Jugoslávia (os primeiros bombardeamentos e massacres na Europa depois da Segunda Guerra Mundial) foi travada em nome do "humanitarismo", e os ataques aéreos da NATO apresentados como "ajuda à população" contra a guerrilha. Para a nossa posição sobre o conflito imperialista de 1999 no Kosovo, por favor visite o nosso website em francês: La “paix” au Kosovo, un moment de la guerre impérialiste [131].
[21] Juan Alberto Belloch foi Ministro da Justiça e Assuntos Internos com Felipe González (1993-1996) antes de concorrer a prefeito de Sarag.
[23] A REPSOL é a empresa espanhola líder na extração, refinação e comercialização de petróleo e seus derivados. Tem uma importante presença internacional, particularmente na América do Sul..
[24] Líder do PSOE e número dois do Alfredo Pérez Rubalcaba, o falecido Ministro do Interior e autêntico "Richelieu" dos governos socialistas, que obrigaram os controladores de tráfego aéreo a trabalhar sob a ameaça de uma metralhadora.
[25] PATRIOTAS POR DIOS, POR LA PATRIA Y REPSOL
[26] Jornal La Nación – Argentina
[27] Este blog não existe mais, mas esta citação pode ser vista em screenshots .
[28] Jornalista de origem maoista, militante da Bandera Roja e do Partido Estalinista da Catalunha (PSUC), que hoje apoia a Vox e a ala extrema-direita do PP. Ele escreveu para o ABC e El Mundo e foi locutor na rádio COPE. Atualmente é o apresentador do jornal Libertad digital e do seu rádio es.radio.
[29] Fundador do jornal Público, que mais tarde abandonou para promover o Diario.es, do qual é o principal gestor. Ele é analista nos talk shows do canal de TV "La Sexta".
[30] "¿Qué hace una chica como tú en un sitio como éste?" (Mas o que faz uma garota como você em um lugar como este?) Expressão tirada de uma música da banda madrilena Burning que fez tanto sucesso nos anos 80 que um filme foi feito a partir dela (por Fernando Colomo e estrelado por Carmen Maura).
[31] Neste congresso houve a separação das tendências proletárias ainda resistindo no PSOE, embora se deva reconhecer que elas eram muito confusas (centristas). O tema deste congresso foi a filiação ou não na Terceira Internacional, que foi rejeitada por 8269 mandatos contra 5016 apoiantes da filiação. Estes últimos deixaram o congresso para fundar o Partido Comunista Espanhol.
[32] Revolução ou Guerra No. 9 (GIGC).
[33] Revolução ou Guerra No. 12
[34] Cuestiones de organización, III – El Congreso de La Haya en 1872 – La lucha contra el parasitismo político [133]
1) Há trinta anos, a CCI apontou que o sistema capitalista havia entrado na fase final de seu período de decadência, a Decomposição. Esta análise baseou-se numa série de fatos empíricos, mas ao mesmo tempo forneceu um quadro para compreendê-los: "Em uma situação em que as duas classes fundamentais e antagônicas da sociedade se enfrentam sem conseguir impor sua própria resposta decisiva, a história não pode, no entanto, parar. Ainda menos que para os outros modos de produção que o precederam, não pode haver "congelamento" ou "estagnação" da vida social para o capitalismo. Enquanto as contradições do capitalismo em crise só pioram, a incapacidade da burguesia de oferecer uma perspectiva para o conjunto da sociedade e a incapacidade do proletariado de se afirmar abertamente no futuro imediato só podem levar a um fenômeno de decomposição generalizada, a decomposição da sociedade erguida." ("A decomposição, fase última da decadência do capitalismo"[1], tese 4, Revista Internacional no 107)
A nossa análise teve o cuidado de explicitar os dois significados do termo "decomposição"; por um lado, aplica-se a um fenômeno que afeta a sociedade, particularmente no período de decadência do capitalismo e, por outro lado, designa uma fase histórica particular deste último, a sua fase final: "... é essencial destacar a diferença fundamental entre os elementos de decomposição que têm afetado o capitalismo desde o início do século XX e a decomposição generalizada em que esse sistema está afundando e que só pode piorar. Também aqui, além do aspecto estritamente quantitativo, o fenômeno da decomposição social atinge tal profundidade e extensão que adquire uma qualidade nova e singular, demonstrando a entrada do capitalismo decadente em uma fase específica - a última - de sua história, a fase em que a decomposição se torna não um fator, mas o fator decisivo na evolução da sociedade." (Ibid. ponto 2)
Acima de tudo, este último ponto, o fato de que a decomposição tende a se tornar o fator decisivo na evolução da sociedade e, portanto, de todos os componentes da situação mundial - uma ideia que não é de modo algum compartilhada pelos outros grupos de esquerda comunista[2] - constitui o eixo principal desta resolução.
2) As teses de maio de 1990 sobre a decomposição destacam uma série de características na evolução da sociedade resultantes da entrada do capitalismo nesta última fase da sua existência. O relatório aprovado pelo 22º Congresso apontou o agravamento de todas essas características, por exemplo:
O mesmo relatório do 22º Congresso da ICC também destacou a confirmação e o agravamento das manifestações políticas e ideológicas de decomposição identificadas em 1990:
O relatório do 22º Congresso centrou-se em particular no desenvolvimento de um fenômeno já observado em 1990 (e que tinha desempenhado um papel importante na consciência da CCI da entrada do capitalismo decadente na fase de decomposição: o uso do terrorismo em conflitos imperialistas. O relatório assinalava que: "O crescimento quantitativo e qualitativo do papel do terrorismo deu um passo decisivo (...) com o ataque às Torres Gêmeas (...), posteriormente confirmado pelos atentados de Madri em 2004 e Londres em 2005 (...), a criação do Estado Islâmico em 2013-14 (...), os atentados na França em 2015-16, na Bélgica e na Alemanha em 2016". O relatório apontava também, em relação a estes ataques e como expressão característica da decomposição da sociedade, a propagação do islamismo radical que, embora inicialmente inspirado pelos xiitas (com o estabelecimento, em 1979, do regime de Aiatolás no Irã), tornou-se essencialmente o resultado do movimento sunita de 1996 e da captura de Cabul pelos talibãs, e ainda mais após a derrubada do regime de Saddam Hussein no Iraque pelas tropas norte-americanas.
3) Além de confirmar as tendências já identificadas nas teses de 1990, o relatório aprovado pelo 22º Congresso registrou o surgimento de dois novos fenômenos resultantes da persistência da decomposição e destinados a desempenhar um papel importante na vida política de muitos países:
Os deslocamentos de populações em massa não são fenômenos específicos da fase de decomposição. No entanto, estão agora assumindo uma dimensão que os torna um elemento singular desta decomposição, tanto pelas suas causas atuais (em particular o caos de guerra que reina nos países de origem) como pelas suas consequências políticas nos países de destino. Em particular, a chegada maciça de refugiados aos países europeus alimentou a onda populista que está se desenvolvendo na Europa, embora esta onda tenha começado a desenvolver-se muito mais cedo (especialmente num país como a França com a emergência da Frente Nacional).
4) De fato, nos últimos vinte anos, o número de votos a favor dos partidos populistas triplicou na Europa (de 7% para 25%), com aumentos acentuados após a crise financeira de 2008 e a crise migratória de 2015. Em cerca de dez países, estes partidos participam na maioria governamental ou parlamentar: Polônia, Hungria, República Checa, Eslováquia, Bulgária, Áustria, Dinamarca, Noruega, Suíça e Itália. Além disso, mesmo quando as formações populistas não estão envolvidos no governo, eles têm uma influência significativa na vida política da burguesia. Podem ser dados três exemplos:
Quer as correntes populistas estejam no governo ou simplesmente limitando-se em perturbar o jogo político clássico, elas não correspondem a uma escolha racional para a gestão do capital nacional ou, portanto, a uma carta deliberada jogada pelos setores dominantes da classe burguesa que, particularmente através de sua mídia, denunciam constantemente essas correntes. O que a ascensão do populismo realmente expressa é o agravamento de um fenômeno já anunciado nas teses de 1990: "Entre as principais características da decomposição da sociedade capitalista, é necessário destacar a crescente dificuldade da burguesia em controlar a evolução da situação no plano político."(Tese 9) Fenômeno claramente apontado no relatório do 22º Congresso: "O que deve ser enfatizado na situação atual é a plena confirmação deste aspecto que identificamos há 25 anos: a tendência a uma crescente perda de controle da classe dominante sobre seu aparato político."
A ascensão do populismo é uma expressão, nas atuais circunstâncias, da crescente perda de controle da burguesia sobre o funcionamento da sociedade como resultado, fundamentalmente, do que está no centro da sua decomposição: a incapacidade das duas classes fundamentais da sociedade de responder à crise insolúvel em que a economia capitalista está se afundando. Em outras palavras, a decomposição é fundamentalmente o resultado de uma impotência da classe dominante, impotência que reside na sua incapacidade de superar esta crise de seu modo de produção e que tende cada vez mais a afetar seu aparato político. Entre as causas atuais da onda populista estão as principais manifestações de colapso social: crescente desespero, niilismo, violência, xenofobia, associada a uma crescente rejeição das "elites" (os "ricos", políticos, tecnocratas) e numa situação em que a classe trabalhadora é incapaz de apresentar, mesmo de forma embrionária, uma alternativa. É obviamente possível, ou porque ele próprio terá demonstrado a sua própria impotência e corrupção, ou porque uma renovação das lutas dos trabalhadores irá enfraquecer seus "argumentos" políticos, que o populismo perca a sua influência no futuro. Por outro lado, não pode de modo algum pôr em questão a tendência histórica da sociedade a afundar-se na decomposição, nem as suas várias manifestações, incluindo a crescente perda de controle do seu jogo político por parte da burguesia. E isso tem consequências não só para a política interna de cada Estado, mas também para todas as relações entre Estados e configurações imperialistas.
5) Em 1989-90, diante do deslocamento do bloco de Leste, analisamos este fenômeno, sem precedentes na história, do colapso de todo um bloco imperialista na ausência de confrontos generalizados, como a primeira grande manifestação do período de decomposição. Ao mesmo tempo, examinamos a nova configuração do mundo que resultou deste acontecimento histórico:
"O desaparecimento da gendarme imperialista russa e suas consequências para a gendarme americana em relação aos seus principais "parceiros" de ontem, abrem a porta para uma série de rivalidades mais locais. Estas rivalidades e confrontações não podem, atualmente, degenerar num conflito mundial (mesmo assumindo que o proletariado já não pode opor-se a elas). (....) Até agora, no período de decadência, tal situação de dispersão dos antagonismos imperialistas, de o mundo (ou suas zonas decisivas) não ser compartilhado entre dois blocos, nunca se prolongou. O desaparecimento das duas formações imperialistas decorrentes da Segunda Guerra Mundial traz consigo a tendência de recompor dois novos blocos. No entanto, esta situação ainda não está em pauta, a tendência para uma nova divisão do mundo entre dois blocos militares se vê frustrada, e pode até ser definitivamente comprometida, pelo fenômeno cada vez mais profundo e generalizado da decomposição da sociedade capitalista, como já apontamos.
Em tal contexto de perda de controle da situação pela burguesia mundial, não se pode dizer que os setores dominantes da burguesia mundial estejam hoje em condições de implementar a organização e a disciplina necessárias para a reconstituição dos blocos militares ("Depois do colapso do bloco de Leste, desestabilização e caos"[3], Revista Internacional No. 61).
Assim, 1989 marca uma mudança fundamental na dinâmica geral da sociedade capitalista:
6) No paradigma que dominou a maior parte do século XX, a noção de "curso histórico" definiu o resultado de uma tendência histórica: guerra mundial ou confrontos de classes, e uma vez que o proletariado sofreu uma derrota decisiva (como na véspera de 1914 ou como resultado do esmagamento da onda revolucionária de 1917-23), a guerra mundial tornou-se inevitável. No paradigma que define a situação atual (enquanto não se reconstituam dois novos blocos imperialistas, o que pode nunca acontecer), é possível que o proletariado sofra uma derrota tão profunda que será definitivamente impedido de se recuperar, mas também é muito possível que o proletariado sofra uma profunda derrota sem que isso tenha uma consequência decisiva para a evolução geral da sociedade. É por isso que a noção de "curso histórico" não é mais capaz de definir a situação do mundo de hoje e a relação de forças entre a burguesia e o proletariado.
De certa forma, a situação histórica atual é semelhante à do século XIX. Na verdade, naquele momento:
Dito isto, é importante salientar que a noção de "curso histórico" utilizada pela Fração Italiana na década de 1930 e pela CCI entre 1968 e 1989 foi perfeitamente válida e constituiu o quadro fundamental para a compreensão da situação mundial. O fato de a nossa organização ter tido de ter em conta dados novos e inéditos sobre esta situação desde 1989 não pode ser interpretado de modo algum como pondo em causa o nosso quadro analítico até essa data.
7) Já em 1990, ao mesmo tempo em que víamos desaparecer os blocos imperialistas que tinham dominado a "Guerra Fria", insistimos na continuação, e mesmo no agravamento, dos confrontos bélicos:
Desde então, a situação mundial só veio confirmar esta tendência de agravamento do caos, como observamos há um ano:
8) O Oriente Médio, onde o enfraquecimento da liderança dos EUA é mais evidente e onde a incapacidade dos EUA de se envolverem militarmente demasiado diretamente na Síria deixou o campo aberto a outros imperialismos, oferece uma concentração destas tendências históricas:
Nem Israel, hostil ao reforço do Hezbolá no Líbano e na Síria, nem a Arábia Saudita podem tolerar este avanço iraniano, enquanto a Turquia não pode aceitar as ambições regionais excessivas dos seus dois rivais.
Os Estados Unidos e os países europeus também não podem renunciar às suas ambições nesta parte estratégica do mundo.
A ação centrífuga das diversas potências, pequenas e grandes, cujos apetites imperialistas divergentes se chocam constantemente, só alimenta a persistência dos conflitos atuais, como no Iêmen, assim como a perspectiva de conflitos futuros e a propagação do caos.
9) Enquanto, após o colapso da URSS em 1989, a Rússia parecia condenada a desempenhar apenas um papel de poder secundário, ela está fazendo um forte retorno ao plano imperialista. Potência em declínio e sem capacidade econômica para manter uma competição militar a longo prazo com outras grandes potências, tem demonstrado, através do restabelecimento das suas forças armadas desde 2008, a sua extremamente elevada agressividade militar e a sua força destrutiva a nível internacional:
A atual aproximação da Rússia com a China a partir da rejeição das alianças americanas na região asiática, com pouca perspectiva de uma aliança de longo prazo, dados os interesses divergentes dos dois Estados, a instabilidade das relações de poder entre as potências confere ao Estado euroasiático russo uma nova importância estratégica em vista do lugar que ele pode ocupar na contenção da China.
10) Acima de tudo, a situação atual é marcada pela rápida ascensão imperialista da China. Esta última tem a perspectiva (investindo maciçamente em novos setores tecnológicos, em particular em inteligência artificial) de se afirmar como uma potência econômica líder entre 2030 e 2050 e adquirir, até 2050, um "exército de classe mundial capaz de alcançar a vitória em qualquer guerra moderna". A manifestação mais visível de suas ambições é o lançamento, desde 2013, da "nova Rota da Seda" (criação de corredores de transporte marítimo e terrestre, acesso ao mercado europeu e segurança de suas rotas comerciais), concebida como um meio para fortalecer sua presença econômica, mas também como um instrumento para desenvolver seu poder imperialista no mundo e no longo prazo, ameaçando diretamente a primazia dos EUA.
Esta ascensão da China está provocando uma desestabilização generalizada das relações entre potências, que já entraram num grave momento estratégico em que a potência dominante, os EUA, tenta conter e se compromete a quebrar a ascensão da potência chinesa que a ameaça. A resposta dos EUA iniciada por Obama - recuperada e ampliada por Trump por outros meios - representa um ponto de inflexão na política dos EUA. A defesa dos seus interesses como Estado nacional segue agora o lema de "cada um por si", que domina as relações imperialistas: os Estados Unidos deixam de ser a gendarme da ordem mundial para serem o principal agente de "cada um por si" e do caos e questionam a ordem mundial estabelecida sob os seus auspícios desde 1945.
Esta "batalha estratégica pela nova ordem mundial entre os Estados Unidos e a China", que está sendo travada em todas as áreas ao mesmo tempo, aumenta ainda mais a incerteza e a imprevisibilidade já enraizadas em uma situação de decomposição particularmente complexa, instável e mutável: este grande conflito obriga todos os Estados a reconsiderar suas opções imperialistas em evolução.
11) As etapas da ascensão da China são inseparáveis da história dos blocos imperialistas e do seu desaparecimento em 1989: a posição da esquerda comunista que afirmava a "impossibilidade de qualquer emergência de novas nações industrializadas" no período de decadência e a condenação dos Estados "que não conseguiram a sua "decolagem industrial" antes da Primeira Guerra Mundial a estagnar-se no subdesenvolvimento, ou a ultrapassar um atraso crônico em relação às potências dominantes" foi perfeitamente válida no período de 1914 a 1989. Foi a camisa-de-força da organização do mundo em dois blocos imperialistas opostos (permanentes entre 1945 e 1989) em preparação para a guerra mundial que impediu qualquer ruptura da hierarquia entre as potências. A ascensão da China começou com a ajuda americana que recompensou sua mudança imperialista para o lado dos EUA em 1972. Prosseguiu de forma decisiva após o desaparecimento dos blocos em 1989. A China parece ser o principal beneficiário da "globalização" após a sua adesão à OMC em 2001, quando se tornou a fábrica do mundo e o receptor de deslocalizações e investimentos ocidentais, tornando-se assim a segunda potência econômica mundial. Foram as circunstâncias sem precedentes do período histórico de decomposição que levaram a China a emergir, sem as quais isso não teria acontecido.
O poder da China tem todos os estigmas do capitalismo terminal: baseia-se na sobre-exploração da força de trabalho proletária, no desenvolvimento desenfreado da economia de guerra do programa nacional de "fusão civil-militar" e é acompanhado pela destruição catastrófica do ambiente, enquanto a "coesão nacional" se baseia no controle policial das massas sujeitas à educação política do Partido Único e na repressão feroz das populações alienígenas do Xinjiang e do Tibete muçulmanos. De fato, a China é apenas uma metástase gigantesca do câncer militarista generalizado de todo o sistema capitalista: sua produção militar está se desenvolvendo a um ritmo frenético, seu orçamento de defesa se multiplicou por seis em 20 anos e está em segundo lugar no mundo desde 2010.
12) O estabelecimento das "novas rotas da seda" e o progresso gradual, persistente e a longo prazo da China (o estabelecimento de acordos econômicos ou parcerias interestatais em todo o mundo - com a Itália, a tomada do controle do porto de Atenas no Mediterrâneo - em direção à América Latina; a criação de uma base militar no Djibuti, - porta de entrada para a sua crescente influência no continente africano) afetam todos os Estados e perturbam os "equilíbrios" existentes.
Na Ásia, a China já alterou o equilíbrio das forças imperialistas em detrimento dos Estados Unidos. No entanto, não é possível preencher automaticamente o "vazio" deixado pelo declínio da liderança norte-americana pelo próprio efeito do "cada um por si" imperialista e pela desconfiança que seu poder inspira. As tensões imperialistas significativas cristalizam-se em particular com:
A hostilidade destes dois Estados em relação à China está impulsionando a sua convergência, bem como a sua aproximação aos Estados Unidos. Estes últimos lançaram uma aliança quadripartida Japão-Estados Unidos-Austrália-Índia que proporciona um quadro de aproximação diplomática entre os vários Estados que se opõem à ascensão da China, mas também uma aproximação militar.
Nesta fase de "recuperação" da potência norte-americana, a China tenta esconder suas ambições hegemônicas para evitar o confronto direto com seu rival, o que prejudica seus planos de longo prazo, enquanto os Estados Unidos tomam agora a iniciativa de bloqueá-la e redirecionar a maior parte de sua atenção imperialista para a zona indo-pacífica.
13) Apesar do populismo de Trump, apesar das discordâncias dentro da burguesia americana sobre como defender sua liderança e suas divisões, particularmente em relação à Rússia, a administração de Trump adota uma política imperialista em continuidade e coerência com os interesses imperialistas fundamentais do estado norte-americano, que é geralmente aceito entre os setores majoritários da burguesia americana: defender a posição dos EUA como a primeira potência mundial indiscutível.
Diante do desafio chinês, os Estados Unidos estão passando por uma importante transformação de sua estratégia imperialista mundial. Essa mudança se baseia na observação de que o marco da "globalização" não garantiu a posição dos Estados Unidos, mas a enfraqueceu. A formalização pelo governo Trump do princípio de defender apenas seus interesses como Estado nacional e a imposição de relações de força lucrativas sobre os Estados Unidos como base principal das relações com outros Estados confirma e tira implicações do fracasso da política dos últimos 25 anos de luta contra o "cada um por si" como gendarme mundial e da defesa da ordem mundial herdada de 1945, para prevalecer sobre qualquer outro princípio.
A mudança de rumo nos Estados Unidos reflete-se em:
O comportamento de vândalo de um Trump que pode denunciar os compromissos internacionais dos EUA da noite para o dia, desafiando as regras estabelecidas, representa um novo e poderoso fator de incerteza e impulso para o "cada um por si". É mais uma indicação da nova etapa que o sistema capitalista está assumindo no afundamento na barbárie e no abismo do militarismo extremo.
14) A mudança na estratégia dos EUA pode ser vista em alguns dos principais teatros imperialistas:
Washington, no entanto, está claramente infligindo um revés à China, que fez da Venezuela um aliado político escolhido para expandir sua influência e se mostrou impotente para se opor à pressão dos EUA. Não é impossível que esta ofensiva norte-americana de reconquista imperialista de seu quintal latino-americano possa inaugurar uma ofensiva mais sistemática contra a China em outros continentes. Por enquanto, ele levanta a possibilidade da Venezuela mergulhar no caos de um confronto sem saída entre facções burguesas, bem como uma forte desestabilização de toda a zona sul-americana.
15) O atual fortalecimento geral das tensões imperialistas se reflete no relançamento da corrida armamentista e da supremacia tecnológica militar, não apenas onde as tensões são mais evidentes (na Ásia e no Oriente Médio), mas para todos os Estados, liderados pelas grandes potências. Tudo indica que uma nova etapa está se aproximando nos confrontos interimperialistas e que o sistema está afundando na barbárie da guerra.
Neste contexto, a União Europeia, devido a esta situação imperialista, continuará a enfrentar a tendência para a fragmentação, como salientado no relatório de Junho de 2018 sobre as tensões imperialistas. (Revista Internacional No. 161)
16) Na frente econômica, desde o início de 2018, a situação do capitalismo tem sido marcada por uma forte desaceleração do crescimento mundial (de 4% em 2017 para 3,3% em 2019), que a burguesia prevê que se mantenha estável e se agrave em 2019-20. Este abrandamento revelou-se mais rápido do que o esperado em 2018, uma vez que o FMI teve de reduzir as suas previsões para os próximos dois anos e está afetando simultaneamente praticamente todos os setores do capitalismo: China, Estados Unidos e a zona euro. Em 2019, 70% da economia mundial está desacelerando, especialmente nos países "avançados" (Alemanha, Reino Unido). Alguns dos países emergentes já estão em recessão (Brasil, Argentina, Turquia), enquanto a China, que tem vindo desacelerado desde 2017 e deverá crescer 6,2% em 2019, está registando os valores mais baixos de crescimento em 30 anos.
O valor da maioria das moedas dos mercados emergentes enfraqueceu, às vezes bruscamente, como na Argentina e na Turquia. No final de 2018, o comércio mundial registrou crescimento zero, enquanto Wall Street experimentou em 2018 as maiores "correções" do mercado de ações nos últimos 10 anos. A maioria dos indicadores cintilam e apontam para a perspectiva de uma nova desaceleração da economia capitalista.
17) A classe capitalista não tem futuro para oferecer, seu sistema foi condenado pela história. Desde a crise de 1929, a primeira grande crise da era da decadência do capitalismo, a burguesia não cessou de sofisticar a intervenção estatal para exercer um controle geral sobre a economia. Cada vez mais confrontado com a crescente estreiteza dos mercados extracapitalistas, cada vez mais ameaçados pela superprodução generalizada, "o capitalismo tem sido mantido vivo graças à intervenção consciente da burguesia, que não pode mais se dar ao luxo de depender da mão invisível do mercado. É verdade que as soluções também se tornam parte do problema:
Desde a década de 1970, estes problemas deram origem a diferentes políticas econômicas, alternando entre "keynesianismo" e "neoliberalismo", mas como nenhuma política pode abordar as verdadeiras causas da crise, nenhuma abordagem pode alcançar a solução final. O que é notável é a determinação da burguesia em manter sua economia em movimento a todo custo e sua capacidade de conter a tendência ao colapso através de uma dívida gigantesca."(Resolução sobre a situação internacional do XVI Congresso da CCI[6])
Produto das contradições da decadência e do impasse histórico do sistema capitalista, o capitalismo de Estado implementado ao nível de cada capital nacional não obedece, no entanto, ao estrito determinismo econômico; pelo contrário, sua ação, essencialmente de natureza política, integra e combina simultaneamente, em sua organização e suas opções, os planos econômico, social (como enfrentar seu inimigo de classe segundo a relação de forças entre classes) e imperialista (a necessidade de manter um enorme setor armamentista no centro de qualquer atividade econômica) para preservar e defender o sistema de exploração burguês em todos os planos vitais. Assim, o capitalismo de Estado passou por diferentes fases e modalidades organizacionais na história da decadência.
18) Nos anos oitenta, sob o impulso das grandes potências econômicas, inaugurou-se uma nova etapa: a da "globalização". Em uma primeira etapa, assumiu a forma de Reaganomics, rapidamente seguida por uma segunda, que aproveitou a situação histórica sem precedentes da queda do bloco de Leste para ampliar e aprofundar uma vasta reorganização da produção capitalista em escala mundial entre 1990 e 2008.
A manutenção da cooperação entre Estados, utilizando em particular as antigas estruturas do bloco ocidental, e a manutenção de uma certa ordem nas trocas comerciais, foram meios para enfrentar o agravamento da crise (recessões de 1987 e 1991-1993), mas também os primeiros efeitos de decomposição, que, no domínio econômico, podiam assim ser mitigados em grande medida.
Seguindo o modelo de referência da UE de eliminação das barreiras aduaneiras entre os Estados-Membros, a integração de muitos ramos da produção mundial foi reforçada pelo desenvolvimento de cadeias de produção que operam à escala mundial. Ao combinar logística, informática e telecomunicações, permitindo economias de escala, maior exploração da força de trabalho do proletariado (através do aumento da produtividade, concorrência internacional, livre circulação de mão-de-obra para impor salários mais baixos), submissão da produção à lógica financeira da rentabilidade máxima, o comércio mundial tem continuado a aumentar, embora menos, estimulando a economia mundial, com um "segundo fôlego" que alarga a existência do sistema capitalista.
19) A crise 2007-2009 marcou um passo adiante no colapso do sistema capitalista em sua crise irreversível: após quatro décadas de recurso ao crédito e à dívida para contrabalançar a tendência crescente de superprodução, marcada por recessões cada vez mais profundas e recuperações cada vez mais limitadas, a recessão de 2009 foi a mais significativa desde a Grande Depressão. Foi a intervenção maciça dos Estados e dos seus bancos centrais que salvou o sistema bancário da falência total através de uma enorme dívida pública, comprando dívidas que já não podiam ser pagas.
O capital chinês, também severamente afetado pela crise, tem desempenhado um papel importante na estabilização da economia mundial através da implementação de pacotes de estímulo em 2009, 2015 e 2019 com base numa dívida pública massiva.
Não só as causas da crise 2007-2011 não foram resolvidas ou superadas, como a gravidade e as contradições da crise aumentaram: agora são os próprios Estados que enfrentam o peso esmagador de sua dívida (a "dívida soberana"), o que afeta ainda mais sua capacidade de intervenção para reativar suas respectivas economias nacionais. "A dívida tem sido uma forma de compensar a inadequação dos mercados solventes, mas não pode aumentar indefinidamente, como a crise financeira desde 2007 destacou. No entanto, todas as medidas que podem ser tomadas para limitar a dívida colocam de novo o capitalismo diante de sua crise de superprodução, e isso em um contexto econômico internacional que limita cada vez mais sua margem de manobra." (Resolução sobre a situação internacional 20º Congresso)[7]
20) O atual desenvolvimento da crise, pelas perturbações crescentes que provoca na organização da produção numa vasta construção multilateral a nível internacional, unificada por regras comuns:
O aprofundamento da crise (assim como as exigências da rivalidade imperialista) está pondo à prova as instituições e mecanismos multilaterais.
Este fato é ilustrado pela atitude atual das duas grandes potências que competem pela hegemonia mundial:
21) A influência da decomposição é um fator desestabilizador adicional. Em especial, o desenvolvimento do populismo agrava ainda mais a deterioração da situação econômica ao introduzir um fator de incerteza e imprevisibilidade face ao turbilhão da crise. A chegada ao poder de governos populistas com programas pouco realistas de capital nacional, que enfraquecem o funcionamento da economia e do comércio mundial, semeiam a desordem e aumentam o risco de enfraquecer os meios impostos pelo capitalismo desde 1945 para evitar qualquer retirada autárquica no quadro nacional que fomenta o contágio descontrolado da crise econômica. A desordem do Brexit e a espinhosa saída da Grã-Bretanha da UE são outro exemplo: a incapacidade dos partidos da classe dirigente britânica de decidir sobre as condições de separação e a natureza das futuras relações com a União Europeia, as incertezas em torno do "restabelecimento" das fronteiras, em especial entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda, o futuro incerto da Escócia pró-europeia que ameaça separar-se do Reino Unido, afetam a economia britânica (enfraquecendo o valor da libra), bem como a do antigo parceiro da UE, privado da visibilidade a longo prazo e da estabilidade regulamentar essenciais para o desenvolvimento empresarial.
Desacordos sobre política econômica na Grã-Bretanha, nos EUA e em outros lugares mostram a existência de divisões crescentes na política econômica, não apenas entre nações rivais, mas também dentro de cada burguesia nacional entre "multilateralistas" e "unilateralistas" e até mesmo dentro de cada uma dessas abordagens (por exemplo, entre Brexiters "brandos" e "duros" no Reino Unido). Não só não há mais um consenso mínimo sobre a política econômica, mesmo entre os países do antigo bloco ocidental, mas esta questão é também cada vez mais controversa dentro das próprias burguesias nacionais.
22) A atual acumulação de todas essas contradições no contexto atual do avanço da crise econômica, assim como a fragilidade do sistema monetário e financeiro e o enorme endividamento internacional dos Estados depois de 2008, abrem um período de sérias convulsões para voltar a colocar o sistema capitalista sob a perspectiva de uma nova queda. No entanto, não devemos esquecer que o capitalismo não esgotou definitivamente nenhum recurso para acompanhar o colapso da crise e evitar situações descontroladas, especialmente nos países centrais. O sobre-endividamento dos Estados, cujo serviço da dívida, ao qual deve ser atribuída uma parte cada vez maior da riqueza nacional produzida, afeta grandemente os orçamentos nacionais e reduz seriamente a sua margem de manobra face à crise. No entanto, é certo que esta situação não conduzirá a:
23) Quanto ao proletariado, estas novas convulsões só podem resultar em ataques ainda mais graves às suas condições de vida e de trabalho, em todos os níveis e no mundo inteiro, em particular:
No entanto, enquanto a burguesia em todos os países é cada vez mais forçada a intensificar seus ataques contra a classe trabalhadora, seu espaço de manobra política está longe de estar esgotado. Podemos ter certeza de que fará todo o possível para evitar que o proletariado responda em seu próprio terreno de classe contra a crescente deterioração de suas condições de vida imposta pelos transtornos da economia mundial.
Maio de 2019
[1] Ler em espanhol La descomposición, fase última de la decadencia del capitalismo [55].
[2] Para tentar compreender as razões dessa rejeição e de suas consequências, ver As raízes marxistas da noção de decomposição – em espanhol las raices marxistas de la noción de descomposición [134].
[3] Ler em espanhol Tras el hundimiento del bloque del este, inestabilidad y caos [135]
[4] Ler em español Militarismo y descomposición [136]
[5] Ler em español Análisis de la evolución reciente de las tensiones imperialistas [137]
[6] Ler em espanhol XVIº Congreso de la CCI: Resolución sobre la situación internacional [138]
[7] Ler em espanhol Resolución sobre la situación internacional 2013 [139]
Um dos slogans mais populares nas manifestações contra a mudança climática reivindica: "Mudar o sistema, não o clima".
Não há dúvida de que o atual sistema está conduzindo a humanidade para uma catástrofe ambiental. Todos os dias se acumulam evidências materiais: ondas de calor sem precedentes, incêndios florestais sem precedentes na Amazônia, derretimento de geleiras, inundações, completa extinção de espécies - como resultado final de que a espécie humana está a caminho da extinção. E mesmo que não houvesse aquecimento global, o solo, o ar, os rios e os mares ainda seriam envenenados e esgotados para sempre.
Não é de admirar que tantas pessoas, e especialmente tantos jovens que enfrentam um futuro ameaçador, estejam profundamente preocupadas com esta situação e queiram fazer alguma coisa a esse respeito.
A onda de protestos organizada por "Youth for Climate", "Extinction Rebellion", os "Verdes" e os partidos de esquerda é apresentada como um caminho a seguir. Mas aqueles que estão atualmente seguindo seu exemplo devem se perguntar: por que esses protestos são tão amplamente apoiados por aqueles que administram e defendem o sistema atual? Porque é que a Greta Thunberg é convidada a dirigir-se aos parlamentos, aos governos, às Nações Unidas?
Naturalmente, pessoas como Trump, Bolsonaro ou Farage vilipendiam constantemente Greta e os "guerreiros ecológicos". Eles argumentam que a mudança climática é um embuste e que as medidas para reduzir a poluição representam uma ameaça ao crescimento econômico, especialmente em setores como o automobilístico e o de combustíveis fósseis. Eles são os defensores descarados do lucro capitalista. Mas o que dizer de Merkel, Macron, Corbyn, Alexandria Ocasio-Cortez e outros que elogiaram os protestos contra o clima: será que eles são menos responsáveis do sistema atual?
Muitos participantes dos protestos atuais concordarão que as raízes da destruição ecológica estão no sistema e que este é o sistema capitalista. Mas as organizações por trás dos protestos, e os políticos que hipocritamente reivindicam apoiá-los, estão defendendo políticas que escondem a verdadeira natureza do capitalismo.
Consideremos um dos maiores programas radicais desses políticos: o chamado "New Green Deal". Ele nos oferece um conjunto de medidas a serem tomadas pelos Estados existentes, exigindo investimentos maciços de capital para desenvolver indústrias "limpas" que deveriam ser capazes de ter um lucro decente. Em outras palavras: está inteiramente enquadrado dentro dos limites do sistema capitalista. Como o "New Deal" dos anos 30, seu objetivo é salvar o capitalismo nestes tempos difíceis, não o substituir.
O capitalismo não desaparece se for gerido por burocratas estatais em vez de patrões privados, ou se for pintado de verde.
O capital é uma relação social e global entre classes, baseada na exploração do trabalho assalariado e na produção para venda para obter lucros. A procura constante de mercados para os seus produtos leva a uma concorrência impiedosa entre os Estados-nação pelo domínio do mercado mundial. E esta competição exige que cada capital nacional se desenvolva ou morra. Um capitalismo que já não procura penetrar no último canto do planeta e crescer sem limites não pode existir. Do mesmo modo, o capitalismo é totalmente incapaz de cooperar em escala global para responder à crise ecológica, como já foi demonstrado pelo fracasso lamentável das várias reuniões de cúpula e protocolos climáticos.
A caça ao lucro, que nada tem a ver com as necessidades humanas, está na raiz do despojo da natureza desde o início do capitalismo. Mas o capitalismo tem uma história e, durante cem anos, deixou de ser um fator de progresso e mergulhou numa profunda crise histórica. É uma civilização em declínio, porque sua base econômica, forçada a crescer sem limites, gera crises de superprodução que tendem a se tornar permanentes. E, como mostraram as guerras mundiais e a "guerra fria" do século XX, este processo de declínio só pode acelerar a corrida do capital para a destruição. Mesmo antes que o massacre global da natureza se tornasse evidente, o capitalismo já ameaçava aniquilar a humanidade com seus incessantes confrontos e guerras imperialistas, que continuam até hoje em grande parte do mundo, desde o norte da África ao Oriente Médio até o Paquistão e a Índia. Tais conflitos só podem ser exacerbados pela crise ecológica, uma vez que os Estados nacionais competem por recursos cada vez mais aterradores, enquanto a corrida para produzir - e especialmente usar - armas cada vez mais destrutivas só pode poluir ainda mais o planeta. Esta combinação escandalosa de devastação capitalista já está tornando partes do planeta inabitáveis e a forçar milhões de pessoas a se tornarem refugiados.
Este sistema não pode superar a crise econômica, a crise ecológica ou a corrida para a guerra.
É, portanto, um engano (buscar uma palavra melhor) exigir que os governos de todo o mundo "se unam" e façam algo para salvar o planeta – um pedido feito por todos os grupos que organizam as marchas e manifestações atuais. A única esperança da humanidade reside na destruição do sistema atual e na implantação de uma nova forma de sociedade. É isto que chamamos comunismo – uma comunidade humana global sem Estados-nação, sem exploração laboral, sem mercados e sem dinheiro, onde toda a produção é planejada em escala global com o único objetivo de satisfazer as necessidades humanas. Desnecessário mencionar que esta sociedade nada tem a ver com a forma de capitalismo de Estado que vemos em países como a China, a Coreia do Norte ou Cuba, ou anteriormente a União Soviética.
O comunismo autêntico é a única base para estabelecer uma nova relação entre a humanidade e o conjunto da natureza. E isto não é uma utopia. Isto é possível porque o capitalismo criou suas bases materiais: o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, que podem ser liberadas de suas distorções neste sistema, e a interdependência global de todas as atividades produtivas, que podem ser liberadas da competição capitalista e dos antagonismos nacionais.
Mas isto é especialmente possível porque o capitalismo é baseado na existência de uma classe que não tem nada mais a perder do que suas cadeias, uma classe que tem interesse em resistir à exploração e reprimi-la: a classe operária internacional, o proletariado de todos os países. É uma classe que inclui não só aqueles que são explorados no trabalho, mas também aqueles que estudam para encontrar um lugar no mercado de trabalho e aqueles que o capital lança no desemprego e na degradação.
E é aqui, em particular, que a ideologia subjacente às marchas climáticas é utilizada para nos impedir de apreender os meios para combater este sistema. Diz-nos, por exemplo, que o mundo está em apuros porque a "velha geração" se habituou a consumir demasiado. Mas falar de gerações "em geral" obscurece o fato de que, ontem e hoje, o problema está na divisão da sociedade em duas classes principais, uma, a classe capitalista ou burguesa, que tem todo o poder, e uma classe muito maior que é explorada e privada de qualquer poder de decisão, mesmo nos países mais "democráticos". São os mecanismos impessoais do capital que nos colocaram na atual confusão, não o comportamento pessoal dos indivíduos ou o consumismo da geração anterior.
O mesmo se aplica a todos os discursos sobre o "povo" ou "cidadãos" que seriam a força que pode salvar o mundo. São categorias sem sentido que ocultam interesses de classe antagônicos. A saída de um sistema que não pode existir sem a exploração de uma classe por outra só pode ser conseguida através da retomada da luta de classes, começando pela defesa dos interesses mais fundamentais dos trabalhadores contra os ataques às suas condições de vida e de trabalho levados a cabo por todos os governos e empregadores em resposta à crise económica - ataques que também são cada vez mais colocados em prática em nome da necessidade da proteção ambiental. Esta é a única forma de a classe trabalhadora desenvolver o sentido de sua própria existência contra todas as mentiras que nos dizem que já é uma "espécie extinta". E esta é a única maneira de a luta de classes fundir as dimensões econômica e política - ligando a crise econômica, a guerra e os desastres ecológicos, e reconhecendo que somente uma revolução global pode superá-los.
No período que antecedeu a Primeira Guerra Mundial, centenas de milhares de pessoas participaram de manifestações pacíficas. Eles foram encorajados pelas classes dominantes "democráticas" porque espalharam a ilusão de que poderia existir um capitalismo pacífico. Hoje, a ilusão do capitalismo verde está se espalhando cada vez mais. Além disso, o pacifismo, com seu apelo a todos os seres humanos bons e autênticos, escondeu o fato de que somente a luta de classes pode realmente se opor à guerra, como ficou provado em 1917-18 quando a irrupção das revoluções russa e alemã obrigou os líderes mundiais a pôr um rápido fim a guerra em curso naquele momento. O pacifismo nunca deteve as guerras, e as atuais campanhas ecológicas, através da venda de falsas soluções para o desastre climático, devem ser entendidas como um obstáculo à sua verdadeira solução.
Corrente Comunista Internacional (28/08/2019)
O capitalismo, o sistema de produção que domina todo o planeta e todos os países está se afundando em um estado avançado de decadência. Com mais de um século de declínio está atingindo seu estágio final, ameaçando a sobrevivência da humanidade com uma espiral de guerras insanas, depressão econômica, desastres ecológicos e pandemias devastadoras.
Cada Estado-nação na Terra está empenhado em manter este sistema moribundo. Todo governo, seja ele vestido com roupagem democrática ou ditatorial, seja abertamente pró-capitalista ou falsamente "socialista", existe para defender os verdadeiros objetivos do capital: a expansão do lucro à custa do único futuro possível para nossa espécie, uma comunidade mundial onde a produção tem apenas um objetivo - a satisfação da necessidade humana.
Portanto, a escolha de qual partido ou presidente assuma as rédeas do governo é uma falsa escolha que não pode desviar a civilização capitalista do caminho para a catástrofe. Isto se aplica tanto às próximas eleições americanas quanto a qualquer outro circo eleitoral.
É claro para muitos que Trump é um defensor declarado de tudo que é podre sobre o capitalismo: desde suas negações da realidade do Covid-19 e das mudanças climáticas, até suas desculpas pela brutalidade policial em nome da lei e da ordem, seus apelos indiretos ao racismo e à extrema direita, seu tratamento pessoal repugnante para com as mulheres que entram em sua mira. Mas o fato de ele ser, nas palavras de seu ex-pistoleiro Michael Cohen, "um mentiroso, um vigarista e um racista" não impede que frações importantes da classe capitalista o apoiem porque sua economia abertamente nacionalista e sua desregulamentação dos serviços ambientais e de saúde servem para aumentar seus lucros.
Na última eleição, Trump convenceu muitos trabalhadores americanos de que o protecionismo "America First" salvaria seus empregos e reavivaria as indústrias tradicionais. Mas mesmo antes da crise da Covid, a economia mundial -incluindo a China- já estava caminhando para uma nova recessão e as consequências econômicas da pandemia vão ser ainda mais brutais. O protecionismo é uma ilusão porque nenhuma economia pode se isolar das leis implacáveis do mercado mundial, e as promessas de Trump aos trabalhadores americanos já estavam provando ser ocas antes do início da recessão de 2019.
De acordo com Trump, Joe Biden ameaça transformar a América em uma "utopia socialista", porque ele é um mero fantoche nas mãos da "esquerda radical" personificada por pessoas como Bernie Sanders e o "esquadrão" em torno de Alexandria Ocasio-Cortez, Ilhan Omar e outros[1].
Na realidade, Biden foi escolhido como o candidato democrata porque ele representa a continuidade das principais políticas democráticas de Obama e Clinton, que têm muito em comum com as de Trump: o orientação pro-Rússia para enfrentar o imperialismo chinês foi iniciado sob Obama, que também era conhecido como o "rei da deportação" por causa de sua abordagem implacável aos imigrantes "ilegais". É claro que os democratas têm suas diferenças com Trump: eles estão mais ligados ao estabelecimento militar e de segurança que desconfia profundamente da abordagem bajuladora de Trump em relação à Rússia de Putin, e estão envergonhados com a violação imprudente de seus tratados e alianças internacionais porque isso mina a credibilidade diplomática dos EUA. Mas estas são diferenças sobre a melhor estratégia para o imperialismo americano. Da mesma forma, eles se opõem ao pouco respeito de Trump pelas normas da "democracia" porque sabem como é importante a mistificação democrática para a preservação da ordem social.
O Partido Democrata nunca foi nada mais do que o partido alternativo do capitalismo americano. É verdade que nos últimos anos houve um crescimento de grupos de pressão interna como a Aliança Socialista Democrática, e de defensores do Green New Deal, da Black Lives Matter e das várias formas de política identitária no partido oficial ou em torno dele. Mas esta "esquerda radical" oferece apenas uma versão mais à esquerda do capitalismo estatal, que, em um mundo devastado pela crise e pela guerra, todas as facções da classe dominante - incluindo a direita e os fanáticos da livre iniciativa - são obrigados a aderir. Nenhuma das políticas da esquerda questiona a existência do Estado-nação, a produção para o lucro e não as necessidades humanas, o sistema salarial - que são a essência do capitalismo e a fonte de suas contradições insolúveis.
Nenhum político ou partido capitalista pode oferecer uma saída para a crise de seu sistema. O futuro do mundo está nas mãos da classe que produz tudo o que precisamos para viver, que é explorada pelo capital em cada país, e que em todos os lugares têm os mesmos interesses: unir-se em defesa de suas condições de trabalho e de vida, desenvolver a auto-organização e a consciência necessárias para enfrentar o sistema capitalista e apresentar sua própria solução histórica: o autêntico socialismo, ou como Marx preferiu chamá-lo, o comunismo, onde a humanidade estará finalmente livre do Estado, das fronteiras nacionais e da escravidão assalariada.
Esta pode parecer ser uma perspectiva muito distante. Em sua existência cotidiana, a classe trabalhadora está dividida de mil maneiras diferentes: na competição por empregos, por fronteiras nacionais, por gênero e por "raça", sobretudo em um país como os EUA com seu legado venenoso de escravidão e racismo.
Mas a classe trabalhadora é também a classe associada, que é obrigada a trabalhar coletivamente, e a se defender coletivamente. Quando levanta a cabeça, tende a superar as divisões em suas fileiras, pois não tem escolha se é para evitar derrota. O racismo e o nacionalismo são certamente ferramentas potentes para dividir os trabalhadores, mas podem e devem ser superados se a luta de classes for para avançar. Quando a pandemia de Covid-19 atingiu pela primeira vez, os trabalhadores americanos reagiram contra de os forçarem trabalhar sem proteção em fábricas de automóveis, hospitais, supermercados ou armazéns; e cada trabalhador, "branco", "negro", "latino" ou outro, ficaram ombreados nas linhas de piquete.
Tais momentos de unidade vão contra as expressões "clássicas" da divisão racial – contra a supremacia branca e os movimentos fascistas que estão saindo do corpo apodrecido do capitalismo. Mas eles também vão em uma direção diferente das mobilizações da "Black Lives Matter" (BLM) que colocam a raça e a cor da pele acima da classe e que foram totalmente instrumentalizadas pelos democratas, por grandes interesses empresariais como McDonalds e Apple, pelos sindicatos - em suma, por uma parte significativa do próprio Estado. As lutas baseadas na raça não podem levar à unificação da classe trabalhadora: partes da classe dominante estão felizes em "ajoelhar-se" e dar sua bênção ao BLM porque sabem que pode ser usada para camulflar a realidade fundamental do capitalismo como uma sociedade baseada na exploração de uma classe por outra.
A classe trabalhadora nos EUA enfrenta uma enorme investida ideológica no período que antecede as eleições, com políticos e superstars da mídia proclamando amplamente que sua única esperança está no voto - quando seu verdadeiro poder não está na cabine de votação, mas no local de trabalho e na rua. Ela também enfrenta o perigo real de ser arrastada para conflitos violentos entre "milícias" armadas, tanto negras quanto brancas, como vimos em alguns dos recentes protestos do BLM. A sociedade americana está mais polarizada do que esteve em qualquer momento desde a guerra do Vietnã, e o perigo de uma "guerra civil" em um terreno completamente burguês pode crescer ainda mais na esteira das eleições, especialmente se Trump se recusar a reconhecer o resultado, como ele já sugeriu. Isto só enfatiza a necessidade de os trabalhadores recusarem os apelos da direita e da esquerda, de rejeitar as falsas escolhas do supermercado democrático e de se unirem em torno de seus próprios interesses de classe.
Amos, 26 09 2020
[1] Ler "Trump v ‘The Squad’: The Deterioration of the US Political Apparatus [140]"; World Revolution no 384, Autumn 2019
A CCI no Brasil realizou recentemente alguns eventos envolvendo contatos e simpatizantes de nossa organização sobre o assunto, “diante da alternativa fascismo -antifascismo, o proletariado não tem um campo para escolher”. Damos conta dos debates e questionamentos que surgiram, acrescentando alguns comentários e precisões a posteriori da nossa parte.
O tema da situação no Brasil foi precedido por aspectos gerais considerando a pandemia do Corona vírus que a mídia de todo o mundo tem feito uma ampla cobertura, com uma atenção particular para a situação nos Estados Unidos e especialmente no Brasil, principalmente por causa da atuação de Trump e Bolsonaro. Muito mais explicitamente do que em outros países, estes personagens repugnantes expressaram de forma cruel e gritante a verdadeira natureza e preocupação da burguesia mundial diante da crise do Coronavírus: Salvaguardar a todo custo o lucro gerado pela exploração da classe trabalhadora, forçando os trabalhadores a permanecerem em seus postos de trabalho com alto risco de contaminação, às vezes sem proteção. Na realidade, a política das outras frações da burguesia mundial também demonstra o perigo crescente que o capitalismo mundial constitui para a sobrevivência da humanidade, através da incapacidade de enfrentar a pandemia do Covid 19 apesar do desenvolvimento considerável das forças produtivas. E se elas repercutem tanto em torno do caso Bolsonaro é para tentar ocultar que a na realidade, no fundo não são tão dissemelhantes.
Se além do Covid, o proletariado brasileiro tem de enfrentar a estupidez criminosa de Bolsonaro e as suas odiosas orientações políticas abertamente antitrabalhadores e criminosas, que encontram um solo fértil na proliferação das seitas, das quadrilhas, na rejeição do pensamento racional, coerente, ... esse proletariado tem também de enfrentar um inimigo muito mais insidioso e, portanto, ainda mais perigoso …
Com efeito, em nome do antifascismo, forças ligadas principalmente à esquerda ou extrema esquerda do capital, pretendam mobilizar contra o “diabo fascista” Bolsonaro. Mais se o diabo existisse, ele seria só uma expressão a mais do capitalismo, ao lado das outras como a democracia burguesa. No fundo, todas defendem a ordem existente, o capitalismo, que está arrastando o mundo para uma catástrofe fatal para a humanidade.
Na última semana, observamos uma onda de manifestações antifascistas nas redes sociais. Muitas pessoas modificaram suas fotos de perfil, postando diversos modelos da bandeira antifa. Essa onda foi alimentada por tensões anteriores, mas parece ter sido desencadeada por uma reação de repúdio às manifestações do grupo “Os 300 do Brasil” e, sobretudo, aos vídeos de Bolsonaro tomando leite. Os 300, liderados pela bolsonarista Sara Winter, realizou uma pequena manifestação em Brasília marchando com tochas, no estilo Ku Klux Klan. O grupo é acusado de ser uma milícia com o objetivo declarado de exterminar a esquerda. Por outro lado, os vídeos tomando leite são um símbolo dos supremacistas brancos. Evidentemente, Bolsonaro nega ter tido essa intenção, porém a tensão não se desfez, sobretudo porque esse caso soma-se ao do ex-secretário da cultura, Roberto Alvim, que fez um pronunciamento cujo texto parafraseava Joseph Goebbels. Parecem ser muitos os sinais de flerte do governo Bolsonaro com o fascismo. Diante disso, surgem algumas questões. O governo atual é fascista? Ainda que não o seja, existe o risco dele se desenvolver nesse sentido? O avanço da extrema direita não é um fenômeno tipicamente brasileiro. Na verdade, ele parece até mais acirrado em outras partes do mundo, sobretudo na Europa. Desde o aprofundamento da crise em 2010, alguns países europeus estão sendo levados por uma onda nacionalista que se agravou com a crise de imigração. No Brasil, o antifascismo se manifestou com alguma notoriedade já nas últimas eleições presidenciais com o movimento “Ele Não”, quando até os grupos de esquerda que geralmente faziam campanhas de voto nulo abraçaram a campanha de Haddad. Porém, diferente de 2017, as manifestações recentes parecem ter ampliado seu espectro ideológico, alcançado partidos mais à direita. Até Celso de Mello, ministro do STF (suprema corte de justiça), manifestou preocupação ao afirmar que “o ovo da serpente parece estar prestes a eclodir no Brasil”.
Apesar da situação de pandemia, algumas manifestações em defesa da democracia estão acontecendo no país. No Twitter, a troca massiva das fotos de perfil por bandeiras antifas gerou longos debates sobre sua natureza. Alguns stalinistas criticaram sua massificação, inclusive sua utilização por pessoas reconhecidamente liberais. Afirmaram que o antifascismo é simultaneamente “anticapitalista”, por isso nem todos poderiam se reivindicar enquanto tais. Todavia, essa reação parece seguir os desejos stalinistas de controle, tentando trazer a bandeira para o seu domínio ideológico. De qualquer forma, resta a questão: o antifascismo é incompatível com o liberalismo?
As manifestações antifas já provocam reações no campo bolsonarista. No dia primeiro de junho, o deputado Daniel Silveira (PSL/RJ) apresentou um Projeto de Lei que propõe uma emenda alterando a Lei Antiterrorismo nº 13.260, de 16 de março de 2016, a fim de tipificar os grupos antifascistas como organizações terroristas. Dias depois, um grupo neonazista de São Paulo divulgou uma lista na internet com nomes e dados de pessoas identificadas por eles como antifas. Estes dados foi compartilhado pelas próprias pessoas na internet.
Diante da ameaça do avanço da extrema direita, parece irresistível não aderir à causa antifascista, pois o fascismo representa a face mais perversa do Estado. Todavia, antes de agirmos por impulso, devemos fazer uma reflexão racional da situação. Uma face menos perversa significa uma menor perversidade do corpo do Estado? Quais os resultados práticos da adesão ao antifascismo? A democracia é um mal menor? Será ela o extremo oposto do fascismo? O que são o fascismo e a democracia? Por que o Estado ora assume formas políticas ditatoriais, ora democráticas? Como os comunistas devem se posicionar diante desse movimento? Como o movimento operário deve se posicionar?
Apesar do antifascismo ser mais notável hoje do que há 20 anos, não é a primeira vez que os comunistas se veem seduzidos por esta bandeira. No passado, quando o fascismo primeiro se manifestou entre as décadas de 1920 e 1930, diversos grupos comunistas e anarquistas aderiram à causa antifascista. A Quarta Internacional trotskista orientou seus membros e apoiadores a ingressar nas fileiras da guerra contra o Eixo. Durante a guerra civil espanhola, anarquistas e comunistas apoiaram a República, participando das eleições e pegando em armas para conter o avanço da extrema direita na Espanha. Quais são as lições históricas dessas experiências?
Por outro lado, nem todos os revolucionários aderiram ao antifascismo. Bilan[1] foi um crítico de tal adesão por considerá-la um fator de confusão para o proletariado, além de contribuir para sua adesão ao nacionalismo. Na Grécia, a União Comunista Internacionalista negou-se a apoiar as democracias contra os fascismos durante a segunda guerra mundial. Quais eram suas preocupações? Não consideravam o fascismo uma ameaça? Não lutaram contra ele?
As experiências passadas, muito embora não possam ser replicadas, podem fornecer uma luz sobre os acontecimentos do presente. Diante disso, a partir dessa análise história, precisamos colocar a seguinte questão: a quem interessa o antifascismo e como devemos nos posicionar diante dessa bandeira?
Como assinalamos na reunião, concordamos com essa introdução e a necessidade de fornecer uma base histórica para qualquer debate político. E justamente, neste sentido, lembramos quais análises do movimento operário participaram originalmente do posterior engano do proletariado ao antifascismo e quais outras, ao contrário, lançaram as bases para uma defesa intransigente da luta de classes contra a burguesia e suas diversas expressões, fascistas ou democráticas.
A intransigência da Esquerda comunista italiana [2], que de fato liderou o Partido Comunista da Itália, foi particularmente expressa, e de maneira exemplar, diante da ascensão do fascismo na Itália após a derrota dos combates em 1920. Em um nível prático, esta intransigência se manifestou em uma recusa total em forjar alianças com partidos burgueses (liberais ou “socialistas”) diante da ameaça fascista: o proletariado só poderia combater o fascismo em seu próprio terreno, a greve económica e a organização de milícias de autodefesa dos trabalhadores. No nível teórico, Bordiga foi responsável pela primeira análise séria (e ainda válida) do fenómeno fascista, uma análise que ele apresentou aos delegados do 4º Congresso da Internacional Comunista em refutação à análise desta:
A popularidade dos movimentos “antifascistas” impulsionados pela esquerda, bem como pela direita democrática, tem sido motivo de preocupação em nossos contatos. Como foi sublinhado, as ações caóticas do Bolonaro, muito em sintonia com os disparates de Trump, onde ele aparece bebendo leite, num tom claramente racista, encorajando grupos que se auto denominam “fascistas”, acrescentam mais elementos à preocupação de nossos contatos, sobretudo porque a reação antifascista, e seu discurso é atraente para muitos críticos do regime. Então, é possível que o fascismo surja no Brasil? Será que Bolsonaro é um de seus primeiros porta-vozes – como defende o movimento antifascista?
O debate levou a uma conclusão muito clara: apesar das ações caóticas de Bolsonaro – algumas delas claramente racistas – elas não são expressão da ascensão do fascismo pois este sendo o produto de condições históricas muito concretas que não estão reunidas hoje em dia. Com efeito, o fascismo surge em uma época de derrota física e ideológica da classe trabalhadora, como nos anos 30. O proletariado italiano e alemão particularmente estava totalmente esmagado pelo fascismo, o proletariado russo pelo stalinismo e o proletariado em outros países industrializados democráticos, arregimentados pelo antifascismo. Isto não foi somente graças ao fascismo, mas também através das correntes esquerdistas -especialmente sua inclinação “crítica” trotskista- que levou à “luta”, primeiro, a classe trabalhadora na defesa do “mal menor” da República na Espanha, e depois, alistou a classe trabalhadora na 2ª Guerra Mundial do século 20 na defesa das democracias ocidentais.
O debate sobre o “mal menor” questionou o falso dualismo do “fascismo versus democracia”. Como foi argumentado, o antifascismo, portanto, é um beco sem saída, que tem efeitos perniciosos para a unidade de classe, pois sustenta uma série de elementos, previamente apontados, que procuram minar precisamente sua unidade; por um lado, fazendo-os acreditar que diante do perigo do “fascismo”, é necessário organizar-se para salvar os interesses de uma nação; em outras palavras, é imperativo defender a “democracia” que se coloca como “um mal menor”.
Não. Tanto Mussolini quanto Hitler chegaram ao poder precisamente graças a democracia burguesa e suas instituições parlamentares. A democracia foi a base, a tribuna, que o fascismo utilizou-se para chegar ao poder, e estabelecer sua agenda.
Neste caso, a chegada democrática de Trump o poder e particularmente de Bolsonaro não tendem a comprovar a realidade atual desse perigo de fascismo? Insistimos, as condições históricas são diferentes, daquelas em que o fascismo chegou democraticamente ao poder na Alemanha. Hoje em dia o proletariado não sofreu uma derrota decisiva como foi mundialmente o caso com a derrota da primeira onda revolucionaria mundial de 1917-23. A confusão reside no fato de que o capitalismo na sua fase atual de decomposição produz palhaços / monstros como Bolsonaro ou Trump, que expressam de maneira caricatural a tendência para o caos e o cada um por si desenfreados.
Sobre isso, o debate foi bastante claro. A democracia não é algo oposto ao fascismo que é uma das formas do capitalismo de Estado típicas do período de decadência, era (no início do século 20) uma configuração totalmente nova de organização da burguesia, onde os Estados são reforçados através da intervenção na economia. Nos EUA, neste mesmo período, como resultado da crise capitalista de 1929, surge o New Deal, numa parte de Europa, o fascismo, na Rússia, o estalinismo. O capitalismo mundial, em resposta à sua crise sistêmica, busca a proteção dessa forma de administração que, a propósito, nas condições atuais da pandemia mundial, tende a se reforçar ainda mais.
Mesmo que ele levante elementos que poderiam estar associados ao fascismo, como um claro anticomunismo, ou um discurso abertamente racista, é inviável a existência de um regime fascista na era atual. Efetivamente. Em particular porque só a democracia é capaz de combinar mistificações democráticas e repressão para enfrentar um desenvolvimento da luta de classe contido na situação histórica atual.
Mas será que tal perspectiva está ainda inscrita para o futuro? Depende da evolução da correlação de forças entre proletariado e burguesia.
Será que o proletariado ainda representa uma força no Brasil? Mundialmente?
Algumas intervenções expressaram um grande pessimismo a este propósito. Alguns contatos apontam que não há lutas autônomas no Brasil, que a esquerda do capital é popular – especialmente diante da perspectiva antifascista -, que o discurso em defesa da democracia se fortalece, que as ideias da esquerda comunista são fracas, que elas têm pouca influência no Brasil e na América Latina? Um olhar dirigido só para o Brasil e o presente só pode levar a tal pessimismo.
A luta do proletariado é internacional é histórica e a dinâmica desta também é. Ao contrário do período dos anos trinta que falamos na reunião o proletariado saiu do período de contrarrevolução em 1968 com as lutas na França que iniciaram uma dinâmica internacional de luta de classe que culminou nas lutas massivas na Polônia em 1980. Apesar das grandes dificuldades encontradas pela luta de classe desde os anos 1990, o proletariado não sofreu uma derrota como acabou com a Primeira onda revolucionaria mundial. Uma demonstração de que o proletariado está dando alguns passos em seu terreno de classe: A situação no final de 2019 - início de 2020 foi marcada por demonstrações de combatividade operária em nível internacional, particularmente na Europa e na América do Norte. Na Europa: o movimento na França contra as pensões, a greve dos correios e dos transportes na Finlândia. Nos EUA: a greve mais maciça na General Motors nos últimos 50 anos, e a primeira nos EUA em 12 anos, após um período em que houve pouca mobilização internacional da classe operária. A greve maciça em janeiro de 2020 dos 30.000 professores das escolas públicas de Los Angeles, a segunda maior cidade dos Estados Unidos, a primeira em 30 anos. É verdade que condições dadas pela ameaça persistente da pandemia constituem um obstáculo real ao desenvolvimento da luta de classe enquanto os ataques econômicos contra a classe operária são inigualáveis desde a Segunda Guerra mundial. Mas necessariamente, não sabemos ainda como e quando, classe operária voltará ao cenário. Todas as frações mundiais do proletariado enfrentam dificuldades, mas não a mesmas. É no centro do capitalismo, onde se desenvolveram lutas históricas que as condições são mais favoráveis, por conta justamente dessas experiências e dessa tradição de luta. Entretanto, cada luta do proletariado no mundo constitui uma contribuição à luta do proletariado mundial. Assim, apesar das grandes dificuldades que ele enfrenta no momento, não se pode desconsiderar as lutas passadas do proletariado brasileiro. Notadamente suas lutas massivas em 1979, sua resistência e confrontação à política antioperária dos governos Lula e Dilma (lembre-se da mobilização dos os controladores aéreos em fevereiro de 2007[3] e sua repressão por Lula).
Uma visão imediata da luta de classes contém o perigo de quitar o terreno da luta de classe do proletariado para mobilizações tipicamente burgueses como as recentes em torno de BLM (Black Lives Matter) com um claro conteúdo burguês, ao exigir um “capitalismo humano”.
Um contato perguntou: como mobilizar o proletariado sem entrar nessas frentes antifascistas? Não se deve pensar que em qualquer momento o proletariado pode entrar em luta. Notadamente, na situação presente de pandemia, as condições de uma mobilização da classe operaria não existem realmente. Sabemos que pela frente o proletariado tem o desafio de desenvolver uma luta à altura dos ataques econômicos no mundo inteiro sem comparação desde a segunda guerra mundial. Na situação presente imediata a responsabilidade dos revolucionários não é de empurrar os operários a entrarem em luta a tudo custo, mais de incitá-los a discutir entre eles sobre o que está em jogo, a se reagrupar para defender a compreensão disto, mesmo que seja de forma muito minoritária.
Será que na situação atual, existe uma via entre o anticapitalismo e o futuro comunismo? Nenhuma. Portanto, mais e mais camadas intermediarias, pequenos burgueses, arruinadas pelo capitalismo, se declararão “anticapitalistas”. Até partes importantes da classe operária, em dificuldade para reconhecer sua própria perspectiva revolucionaria, podem adotar este slogan de anticapitalismo. Isso expressa uma grande fraqueza. Mas, quando se trata de uma organização política que defende e prega o anticapitalismo, então não se trata mais de uma fraqueza mas de um logro. Não é por acaso, como foi assinalado que muitos grupos antifascistas, ligado a extrema esquerda do capitalismo como o trotskismo, se denominam “anticapitalistas”. É o caso na França de uma organização trotskista afiliada à Quarta internacional que se chama Novo Partido Anticapitalista.
Alberto (julho 2020)
[1] Publicação em francês da Facção de Esquerda do Partido Comunista da Itália entre 1933 e 1938..
[2] Ler a este propósito "La noción de Fracción en la historia del movimiento obrero – 1a parte [142]". Revista international n° 156.
Ligações
[1] https://pt.internationalism.org/tag/recente-e-atual/eleicoes-americanas
[2] https://pt.internationalism.org/content/53/13-natureza-contra-revolucionaria-dos-partidos-operarios
[3] https://pt.internationalism.org/content/44/4-o-capitalismo-de-estado
[4] https://es.internationalism.org/accion-proletaria/201712/4261/la-herencia-oculta-de-la-izquierda-del-capital-i-una-falsa-vision-de-l#_ftn8
[5] https://es.internationalism.org/accion-proletaria/201712/4261/la-herencia-oculta-de-la-izquierda-del-capital-i-una-falsa-vision-de-l#_ftn10
[6] https://es.internationalism.org/revista-internacional/201610/4178/contribucion-sobre-el-problema-del-populismo-junio-de-2016
[7] https://es.internationalism.org/content/4097/1914-el-camino-hacia-la-traicion-de-la-socialdemocracia-alemana
[8] https://es.internationalism.org/cci-online/200706/1935/cuales-son-las-diferencias-entre-la-izquierda-comunista-y-la-iv-internacional
[9] https://es.internationalism.org/series/365
[10] https://www.sinteseeventos.com.br/site/iassc/GT10/GT10-25-Marcelo.pdf
[11] https://en.internationalism.org/content/17599/part-one-subterranean-maturation-class-consciousness#_ftn1
[12] https://en.internationalism.org/content/17599/part-one-subterranean-maturation-class-consciousness#_ftn2
[13] https://en.internationalism.org/content/17599/part-one-subterranean-maturation-class-consciousness#_ftn3
[14] https://en.internationalism.org/content/17599/part-one-subterranean-maturation-class-consciousness#_ftn4
[15] https://en.internationalism.org/content/17599/part-one-subterranean-maturation-class-consciousness#_ftn5
[16] https://en.internationalism.org/content/17599/part-one-subterranean-maturation-class-consciousness#_ftn6
[17] https://en.internationalism.org/content/17599/part-one-subterranean-maturation-class-consciousness#_ftn7
[18] https://en.internationalism.org/content/17599/part-one-subterranean-maturation-class-consciousness#_ftn8
[19] https://en.internationalism.org/content/17599/part-one-subterranean-maturation-class-consciousness#_ftn9
[20] https://en.internationalism.org/content/17599/part-one-subterranean-maturation-class-consciousness#_ftn10
[21] https://en.internationalism.org/content/17599/part-one-subterranean-maturation-class-consciousness#_ftn11
[22] https://en.internationalism.org/content/17599/part-one-subterranean-maturation-class-consciousness#_ftnref1
[23] https://en.internationalism.org/content/17260/return-combativity-world-proletariat
[24] https://en.internationalism.org/content/17451/after-rupture-class-struggle-necessity-politicisation
[25] https://en.internationalism.org/content/17599/part-one-subterranean-maturation-class-consciousness#_ftnref2
[26] https://en.internationalism.org/content/17337/icts-ambiguities-about-historical-significance-strike-wave-uk
[27] https://en.internationalism.org/content/17599/part-one-subterranean-maturation-class-consciousness#_ftnref3
[28] https://www.leftcommunism.org/spip.php?article548
[29] https://en.internationalism.org/content/17599/part-one-subterranean-maturation-class-consciousness#_ftnref4
[30] https://www.leftcommunism.org/spip.php?article549
[31] https://en.internationalism.org/content/17599/part-one-subterranean-maturation-class-consciousness#_ftnref5
[32] https://en.internationalism.org/ir/45_eficc
[33] https://en.internationalism.org/content/17599/part-one-subterranean-maturation-class-consciousness#_ftnref6
[34] https://en.internationalism.org/content/17599/part-one-subterranean-maturation-class-consciousness#_ftnref7
[35] https://en.internationalism.org/content/17599/part-one-subterranean-maturation-class-consciousness#_ftnref8
[36] https://en.internationalism.org/content/17599/part-one-subterranean-maturation-class-consciousness#_ftnref9
[37] https://en.internationalism.org/content/17599/part-one-subterranean-maturation-class-consciousness#_ftnref10
[38] https://en.internationalism.org/content/3149/reply-cwo-subterranean-maturation-consciousness
[39] https://en.internationalism.org/content/17599/part-one-subterranean-maturation-class-consciousness#_ftnref11
[40] https://pt.internationalism.org/tag/tags/consciencia-de-classe
[41] https://pt.internationalism.org/tag/7/47/icconline
[42] https://pt.internationalism.org/tag/1/2/decad%C3%AAncia-do-capitalismo
[43] https://pt.internationalism.org/content/393/covid-19-barbarie-capitalista-generalizada-ou-revolucao-proletaria-mundial
[44] https://es.internationalism.org/content/4484/balance-del-movimiento-de-los-chalecos-amarillos-un-movimiento-interclasista-un
[45] https://www.leftcom.org/en/articles/2020-03-14/italy-we-re-not-lambs-to-the-slaughter-class-struggle-in-the-time-of-coronavirus
[46] https://pt.wikipedia.org/wiki/Empresa_maquiladora
[47] https://www.wsws.org/en/articles/2020/04/20/ciud-a20.html
[48] https://libcom.org/article/workers-launch-wave-wildcat-strikes-trump-pushes-return-work-amidst-exploding-coronavirus
[49] https://es.internationalism.org/content/4558/covid-19-en-peru-muerte-miseria-y-crisis
[50] https://www.youtube.com/watch?v=gXC1n8OexRU
[51] https://es.internationalism.org/revista-internacional/199001/3502/derrumbe-del-bloque-del-este-dificultades-en-aumento-para-el-prole
[52] https://es.internationalism.org/content/4455/documentos-del-23o-congreso-internacional-de-la-cci-2019
[53] https://es.internationalism.org/content/4495/ante-la-agravacion-de-la-crisis-economica-mundial-y-la-miseria-las-revueltas-populares
[54] https://es.internationalism.org/content/4566/dossier-especial-covid19-el-verdadero-asesino-es-el-capitalismo
[55] https://es.internationalism.org/revista-internacional/200510/223/la-descomposicion-fase-ultima-de-la-decadencia-del-capitalismo
[56] https://fr.internationalism.org/content/10088/pandemie-covid-19-france-lincurie-criminelle-bourgeoisie
[57] https://elpais.com/espana/madrid/2020-03-21/el-dano-del-coronavirus-en-las-residencias-de-mayores-sera-imposible-de-conocer.html
[58] https://www.elespanol.com/espana/20200320/criterios-decidir-prioridad-falten-camas-uci/475954325_0.html
[59] https://www.elconfidencial.com/espana/2020-03-24/sanitarios-ramon-cajal-plante-mascarillas_2513959/
[60] https://www.lasprovincias.es/comunitat/sindicatos-exigen-generalitat-20200325192618-nt.html
[61] https://pt.internationalism.org/content/378/resolucao-sobre-situacao-internacional-2019-os-conflitos-imperialistas-vida-da-burguesia
[62] https://www.newtral.es/las-uci-de-europa-ante-los-casos-graves-con-coronavirus/20200312/
[63] https://pt.internationalism.org/content/380/quem-e-quem-no-nuevo-curso
[64] http://www.sitinn.hpg.com.br
[65] https://es.internationalism.org/content/4488/lassalle-y-schweitzer-la-lucha-contra-los-aventureros-politicos-en-el-movimiento-obrero
[66] https://es.internationalism.org/revista-internacional/200207/3276/documentos-de-la-vida-de-la-cci-el-combate-por-la-defensa-de-los-p
[67] https://es.internationalism.org/revista-internacional/200604/834/fraccion-interna-de-la-cci-intento-de-estafa-a-la-izquierda-comunis
[68] https://es.internationalism.org/accion-proletaria/200602/471/circulo-de-comunistas-internacionalistas-argentina-que-es-y-que-funcion
[69] https://es.internationalism.org/content/4093/el-dr-bourrinet-un-farsante
[70] https://es.internationalism.org/revista-internacional/199701/1234/cuestiones-de-organizacion-iv-la-lucha-del-marxismo-contra-el-aven
[71] https://www.filosofia.com.br/figuras/livros_inteiros/233.txt
[72] https://es.internationalism.org/revista-internacional/200007/770/ix-1924-28-el-thermidor-del-capitalismo-de-estado-estalinista
[73] https://www.marxists.org/portugues/marx/1852/brumario/cap01.htm
[74] https://es.internationalism.org/go_deeper?page=1
[75] https://pt.internationalism.org/ICConline/2009/O_Trotskismo_filho_da_contra_revolucao
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[78] https://pt.internationalism.org/icconline/2005_esquerda_comunista
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[80] https://es.internationalism.org/cci/200605/919/anexo-trotsky-y-la-izquierda-italiana-textos-de-la-izquierda-comunista-de-los-anos-30
[81] https://es.internationalism.org/revista-internacional/197706/2064/textos-de-la-izquierda-mexicana-1937-38
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[100] https://pt.internationalism.org/ICConline/2010/Debate_sobre_os_erros_da_Revolucao_Russa
[101] https://pt.internationalism.org/ICConline/2010/Estado_e_ditadura_do_proletariado
[102] https://pt.internationalism.org/ICConline/2012/Debate_no_meio_revolucionario__O_Estado_no_per%C3%ADodo_de_transicao_ao_Comunismo_II_
[103] https://pt.internationalism.org/ICConline/2012/Debate_no_meio_revolucionario__per%C3%ADodo_de_transicao__Conselhos_operarios_Estado_proletario
[104] https://pt.internationalism.org/icconline/2006/opop-cci
[105] https://pt.internationalism.org/icconline/2006/opop-cci-volkswagen-brasil
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[125] http://www.sebalorenzo.com.ar
[126] mailto:[email protected]
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[128] https://es.internationalism.org/node/4363
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[142] https://es.internationalism.org/revista-internacional/201603/4148/la-nocion-de-fraccion-en-la-historia-del-movimiento-obrero-1a-part
[143] https://pt.internationalism.org/ICCOnline/2007/Brasil_luta_controladores_aereos